1.Estamos a entrar no
Ano da Missão com
o propósito de nunca
sair de uma vida em
missão.
2. Este ano é, pois, um
despertador para que a nossa
vida se robusteça com
mais vigor.
Ao convocar esta iniciativa,
a Conferência Episcopal
Portuguesa não podia
ser mais envolvente nem
englobante.
«Todos, tudo e sempre
em missão». Assim se intitulava
a Nota Pastoral dos
Bispos de Portugal.
3. Torna-se, assim, claro
que a missão não é só para
alguns momentos, para algumas
áreas e para algumas
pessoas.
Nunca é demais insistir.
A missão é para todos, para
tudo e para sempre.
4. A missão nunca há-de
ser condicionada, sectorial
ou limitada. Ela tem de ser
mobilizadora, totalizante e
permanente.
5. A missão é uma «invasão
». Missionar é «invadir».
Na «invasão» trazida pela
missão, ninguém deve ser
posto de lado e nada pode
ficar de fora.
A missão não é facultativa;
é imperativa. Ela não é
um aditamento do agir, mas
a identificação maior do ser.
Mais do que fazer missão,
todo o cristão é missão. Daí
que o Concílio Vaticano II tenha
recordado que «a Igreja
é, por natureza, missionária
». Ou seja, sem missão
não há cristão. Nem Igreja.
6. A natureza missionária
da Igreja encontra-se constituída
a partir dos começos.
Jesus escolhe discípulos (cf.
Jo 1, 35-40) para os enviar
em missão (cf. Mt 10, 5-6).
Isto significa que não é
possível ser missionário sem
ser discípulo. E é inteiramente
impossível ser discípulo
sem ser missionário.
7. O cristão é simultaneamente
discípulo e
missionário.
Dir-se-ia mesmo que todo
o cristão traz consigo o
nome de «discípulo» e o sobrenome
de «missionário».
8. É por tudo isto que onde
está o cristão, aí tem de
estar a missão. Jesus quer que
sejamos «missionários», não
«demissionários».
O contrário da missão é
a demissão. Mas a demissão
não está só na inacção. A
demissão também pode estar
na mera agitação. O fazer
por fazer pouco faz. No
fazer tem de ressoar o ser.
9. Daí que a missão comece
na oração. Foi assim
com Jesus e foi assim com
os Apóstolos da primeira hora.
Assim há-de continuar a
ser com os apóstolos desta
nossa hora.
Hoje, como ontem, a oração
é geradora de missão; a
oração é a grande «parteira»
da missão.
10. Só quem está com
Cristo se sentirá enviado
por Cristo.
A missão é uma constante
quando o missionário está
unido ao Missionante!
João Teixeira
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quarta-feira, 17 de outubro de 2018
quinta-feira, 11 de outubro de 2018
Ditaduras - Silva Araújo, DM
1. Uso propositadamente o vocábulo no plural.
Estou persuadido da existência não de
uma mas de diversas ditaduras, embora nem
sempre disso tenhamos consciência.
Vive-se em ditadura quando se não tem
liberdade e não há liberdade quando nos
submetemos a uma ou mais dependências. Quando existem
pessoas ou coisas sem as quais não podemos passar.
Mas isso, dirão, são dependências, não ditaduras. É
uma forma habilidosa de dar a volta à situação e de a
suavizar. Mas, se pensarmos bem, uma dependência não
deixa de ser uma ditadura. Penso assim.
2. Pessoas defensoras das mais amplas liberdades e
vêm a terreiro como lutadoras contra a ditadura estão,
na prática, sujeitas a uma ditadura a que chamam disciplina
partidária.
Indivíduos há, no mundo da política e não só, dependentes
de como pensam e do que ditam os líderes. Não
são livres de agir e de decidir conforme a própria consciência,
mas têm de seguir as orientações do chefe e é
em função dessas ordens que levantam ou não o braço,
aprovam ou rejeitam tal decisão, se abstêm de emitir
um parecer.
Porque o chefe manda, as pessoas abdicam da própria
capacidade de pensar. Não é só na Igreja que há dogmas.
3. Há ambientes de trabalho que são autênticas ditaduras.
A dependência do ordenado gera a ditadura do
medo. Há pessoas que bem gostariam de emitir uma
opinião e de discordarem do chefe, mas se o fazem sujeitam-
se a consequências desagradáveis.
Este género de ditadura produziu a geração dos lambe-
botas e dos aduladores profissionais.
Há ambientes de trabalho onde seres humanos se sujeitam
a serem tratados como máquinas. Têm tudo cronometrado.
Todos os seus passos são controlados. Como
necessitam do emprego e do dinheiro que recebem,
sujeitam-se.
4. Uma grande ditadura é a da toxicodependência.
Habituadas a consumirem determinadas
substâncias, as pessoas sujeitam-se a tudo para as
conseguirem. Esquecem-se, se for caso disso, da
própria dignidade.
5. São ditaduras o respeito humano; o parece
mal. Por vergonha dos comentários dos outros
há pessoas que se acobardam. Que assumem
publicamente comportamentos de que no íntimo
discordam. Que aplaudem quando gostavam
de censurar.
6. Uma forte ditadura é a da moda. Pessoas há
que se movem empurradas pelos interesses da
sociedade de consumo. Certos indivíduos decidem
que as pessoas hão-de vestir de determinada
maneira e há quem se lhes sujeite. Acriticamente.
Porque parece mal discordar do ditador.
Quem me conhece sabe que procuro não ofender
seja quem for. Mas acho ridículo o uso das calças
rotas. Mas como é moda, e a moda é que manda…
Já repararam na ditadura que, nos casamentos,
os fotógrafos exercem sobre os noivos?
7. Porque certa Comunicação Social ditou que
é moderno ser de esquerda há pessoas que se
coíbem de manifestar em público as suas convicções.
Daí a necessidade de, em certos casos,
se proceder ao voto secreto e não à votação de
braço no ar.
Porque certas minorias influentes ditaram que
a liberdade não tem limites, há pessoas constituídas
em autoridade que se abstêm de tomar posição,
de afirmar a defesa de princípios que são de
manter e permitem a bandalheira que por aí anda.
8. É moda, em alguns ambientes, apresentar-
-se como ateu ou agnóstico. Para não destoarem
e darem a ideia de que são prá frentex pessoas
há que se inibem de, publicamente, revelarem a
fé que no íntimo professam. E deixam de rezar
em público. E deixam de exibir sinais religiosos.
9. Se pensarmos bem verificamos haver realmente
um conjunto de ditaduras a que, inadvertidamente,
– também nos acomodamos ao mal!
– nos submetemos.
Porque nos falta a coragem suficiente para remarmos
contra a maré e de termos receio de ser
diferentes. A ditadura do medo tem muito poder.
Parafraseando parte do hino da Mocidade Portuguesa,
cá vamos, cantando e rindo, levados, levados
sim por aqueles que, dan do a ideia de que nos
servem, na realidade não deixam de nos explorar.
Ser homem é ser livre. Quem o é realmente?
Muitos dos que se afirmam paladinos da liberdade
não vivem ainda acorrentados ao Maio Parisiense
de 68?
Cuidemos
da nossa
Estou persuadido da existência não de
uma mas de diversas ditaduras, embora nem
sempre disso tenhamos consciência.
Vive-se em ditadura quando se não tem
liberdade e não há liberdade quando nos
submetemos a uma ou mais dependências. Quando existem
pessoas ou coisas sem as quais não podemos passar.
Mas isso, dirão, são dependências, não ditaduras. É
uma forma habilidosa de dar a volta à situação e de a
suavizar. Mas, se pensarmos bem, uma dependência não
deixa de ser uma ditadura. Penso assim.
2. Pessoas defensoras das mais amplas liberdades e
vêm a terreiro como lutadoras contra a ditadura estão,
na prática, sujeitas a uma ditadura a que chamam disciplina
partidária.
Indivíduos há, no mundo da política e não só, dependentes
de como pensam e do que ditam os líderes. Não
são livres de agir e de decidir conforme a própria consciência,
mas têm de seguir as orientações do chefe e é
em função dessas ordens que levantam ou não o braço,
aprovam ou rejeitam tal decisão, se abstêm de emitir
um parecer.
Porque o chefe manda, as pessoas abdicam da própria
capacidade de pensar. Não é só na Igreja que há dogmas.
3. Há ambientes de trabalho que são autênticas ditaduras.
A dependência do ordenado gera a ditadura do
medo. Há pessoas que bem gostariam de emitir uma
opinião e de discordarem do chefe, mas se o fazem sujeitam-
se a consequências desagradáveis.
Este género de ditadura produziu a geração dos lambe-
botas e dos aduladores profissionais.
Há ambientes de trabalho onde seres humanos se sujeitam
a serem tratados como máquinas. Têm tudo cronometrado.
Todos os seus passos são controlados. Como
necessitam do emprego e do dinheiro que recebem,
sujeitam-se.
4. Uma grande ditadura é a da toxicodependência.
Habituadas a consumirem determinadas
substâncias, as pessoas sujeitam-se a tudo para as
conseguirem. Esquecem-se, se for caso disso, da
própria dignidade.
5. São ditaduras o respeito humano; o parece
mal. Por vergonha dos comentários dos outros
há pessoas que se acobardam. Que assumem
publicamente comportamentos de que no íntimo
discordam. Que aplaudem quando gostavam
de censurar.
6. Uma forte ditadura é a da moda. Pessoas há
que se movem empurradas pelos interesses da
sociedade de consumo. Certos indivíduos decidem
que as pessoas hão-de vestir de determinada
maneira e há quem se lhes sujeite. Acriticamente.
Porque parece mal discordar do ditador.
Quem me conhece sabe que procuro não ofender
seja quem for. Mas acho ridículo o uso das calças
rotas. Mas como é moda, e a moda é que manda…
Já repararam na ditadura que, nos casamentos,
os fotógrafos exercem sobre os noivos?
7. Porque certa Comunicação Social ditou que
é moderno ser de esquerda há pessoas que se
coíbem de manifestar em público as suas convicções.
Daí a necessidade de, em certos casos,
se proceder ao voto secreto e não à votação de
braço no ar.
Porque certas minorias influentes ditaram que
a liberdade não tem limites, há pessoas constituídas
em autoridade que se abstêm de tomar posição,
de afirmar a defesa de princípios que são de
manter e permitem a bandalheira que por aí anda.
8. É moda, em alguns ambientes, apresentar-
-se como ateu ou agnóstico. Para não destoarem
e darem a ideia de que são prá frentex pessoas
há que se inibem de, publicamente, revelarem a
fé que no íntimo professam. E deixam de rezar
em público. E deixam de exibir sinais religiosos.
9. Se pensarmos bem verificamos haver realmente
um conjunto de ditaduras a que, inadvertidamente,
– também nos acomodamos ao mal!
– nos submetemos.
Porque nos falta a coragem suficiente para remarmos
contra a maré e de termos receio de ser
diferentes. A ditadura do medo tem muito poder.
Parafraseando parte do hino da Mocidade Portuguesa,
cá vamos, cantando e rindo, levados, levados
sim por aqueles que, dan do a ideia de que nos
servem, na realidade não deixam de nos explorar.
Ser homem é ser livre. Quem o é realmente?
Muitos dos que se afirmam paladinos da liberdade
não vivem ainda acorrentados ao Maio Parisiense
de 68?
Cuidemos
da nossa
segunda-feira, 8 de outubro de 2018
HIERARQUIAS CIUMENTAS? Frei Bento Domingues, O.P.
1. Segui vários cursos sobre as diversas
expressões do profetismo bíblico, orientados pelo dominicano Francolino
Gonçalves, um dos maiores especialistas mundiais em literatura profética do
antigo Oriente[1].
Confesso que esses cursos e a frequente leitura dos seus textos serviram mais
para admirar o seu saber e verificar a minha ignorância, do que para me sentir minimamente
competente, no meio desse vastíssimo e diferenciado fenómeno de muitos estilos.
Na nossa linguagem corrente, profeta é aquele ou aquela que prevê, ou se atreve,
a predizer o futuro. Um adivinho. Na Bíblia, é um ser humano que tem o dom
divino de ser lúcido acerca do presente, vendo as esperanças e as ameaças que
encerra. Sabe discernir as opções
que libertam o horizonte das que conduzem ao desastre colectivo. Importa não
confundir os verdadeiros com os falsos profetas, isto é, os defensores das
populações com os bajuladores dos poderosos.
No mundo sacral, a
religião, com os seus luxuosos cerimoniais, em que vive a classe sacerdotal, serve
para dar cobertura à exploração dos trabalhadores e à humilhação dos pobres.
Essa religião é vomitada por Deus. Sem a prática da justiça e o cuidado dos
pobres, a religião é uma abominação.
O profeta Miqueias, disse o essencial: «Com que
me apresentarei ao Senhor, e me prostrarei diante do Deus excelso? Irei à sua
presença com holocaustos, com novilhos de um ano? Porventura o Senhor receberá
com agrado milhares de carneiros ou miríades de torrentes de azeite? Hei-de
sacrificar-lhe o meu primogénito pelo meu crime, o fruto das minhas entranhas
pelo meu próprio pecado? Já te foi revelado, ó homem, o que é bom, o que o
Senhor requer de ti: nada mais do que praticares a justiça, amares a lealdade e
andares humildemente diante do teu Deus.»[2]
2. As liturgias
do Domingo não são todas iguais. As escolhas dos textos são muito variadas e
ainda bem. A combinação entre elas nem sempre é a mais brilhante. Não digo isto
para desculpar as homilias mal preparadas como a daquele pároco que começou a
sua pregação com toda a solenidade: o
Evangelho de hoje não presta!
No Domingo passado, a selecção dos textos não podia ser mais
apelativa, nem mais profética. Abriu com este espanto: «Naqueles dias, o Senhor
desceu na nuvem e falou com Moisés. Tirou uma parte do Espírito que estava nele
e fê-la poisar sobre setenta anciãos do povo. Logo que o Espírito poisou sobre
eles, começaram a profetizar, mas não continuaram a fazê-lo. Tinham ficado no
acampamento dois homens: um chamava-se Eldad e o outro Medad. O Espírito poisou
também sobre eles, pois contavam-se entre os inscritos e, embora não tivessem
comparecido na tenda, começaram a profetizar no acampamento. Um jovem correu a
dizê-lo a Moisés: Eldad e Medad estão a profetizar no acampamento. Então Josué,
filho de Nun, que estava ao serviço de Moisés desde a juventude, tomou a
palavra e disse: Moisés, meu senhor, proíbe-os. Moisés, porém, respondeu-lhe: Estás com ciúmes por causa de mim? Quem me dera que todo o povo do Senhor fosse
profeta e que o Senhor infundisse o seu Espírito sobre eles!»[3]
Moisés era considerado o profeta dos profetas, o mais
clarividente de todos, mas não julgava que tinha o exclusivo. Era um democrata
do profetismo. Quando se fala de democracia na Igreja, fica tudo aflito e,
pelas democracias que conhecemos temos de nos render à observação de Churchill
« a democracia é a pior forma de governo imaginável, à excepção de todas as
outras ».
O sentido da inclusão regressa no Evangelho de Marcos entre
a sabedoria e a ameaça. «Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em
teu nome e procurámos impedi-lo porque ele não anda connosco»[4]. Faziam do discipulado uma
propriedade privada: Jesus é só nosso! O Mestre não gostou nada dessa cegueira.
Era uma questão de bom senso: quem não é contra nós, é por nós.
Não ficou por aí. Se alguém escandalizar algum destes
pequeninos que crêem em mim, melhor seria, para ele, que lhe atassem, ao
pescoço, uma dessas mós movidas por um jumento e o lançassem ao mar.
Escandalizar é fazer proliferar o mal de modo incontrolável.
Tudo em nós pode servir para o melhor e para o pior. Para grandes males,
grandes remédios. Nesta parábola exemplar, não há grande confiança na emenda. A
mutilação generalizada de pés, mãos e olhos parece a única saída.
A carta de Tiago é dura como a pregação do profeta Amós.
Privastes do salário os trabalhadores que ceifaram as vossas terras. O seu
salário clama; os salários dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do
Universo. Ficou para sempre cunhada a expressão: há pecados que bradam aos
céus.
3. Estes textos
foram lidos na celebração do Domingo passado e suscitam a pergunta: aconteceu
alguma coisa nas comunidades católicas?
O grande debate na Igreja, desde o Vaticano II, é o
seguinte: Moisés disse o que acima transcrevemos, o desejo de um povo
profético, sem exclusivos. Jesus vai na mesma linha e S. Paulo, no seguimento
do Baptismo, afirma: não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há
homem e mulher, porque todos vós sois um só em Cristo Jesus[5].
A irritação com o Papa Francisco é o pânico de que ele,
apesar de todas as iniciativas para o travar, não desista do seu programa
global, A Alegria do Evangelho.
Quando, agora, quer colocar a Igreja numa focagem sinodal,
isto é, colocar a Igreja toda num processo de reforma permanente, impedindo uma
acção pastoral de mera conservação, envolvendo todas as pessoas, estruturas,
estilos e linguagens, vem o susto: ele é capaz de não desistir e, quanto mais
idoso fica, mais atrevido se mostra. O receio maior é outro: que o novo papa
siga pelo mesmo caminho. Daí, as estratégias e as tácticas para desenvolver um
movimento global, com muito dinheiro e meios, para impedirem uma futura eleição
que continue o programa de Bergoglio. Essa tentativa já começou, nomeadamente,
nos Estados Unidos.
09.10.2018
[1]
José Augusto Ramos, Francolino Gonçalves
In Memoriam, CADMO 26, 2016, pp 267-270; Cf. os textos de Francolino
Gonçalves nos Cadernos ISTA (www.ista.pt), destacando,
Iavé, Deus de justiça ou de bênção, Deus
de amor e de salvação, nº 22, ano IV (2009), pág. 107-152, pela sua
originalidade acerca dos dois Iaveísmos, dentro da multiplicidade dos
“retratos” bíblicos de Deus
[2]
Mq 6, 6-8
[3]
Nm 11, 25-29
[4]
Mc 9, 38-48
[5]
Gl 3, 28
sexta-feira, 5 de outubro de 2018
Mártires do século XX - DM de 4 DEZ
1. Acompanhei como pude a viagem apostólica
do Papa Francisco aos países bálticos –
Letónia, Estónia e Lituânia – entre 23 e 26
de setembro. Prestou homenagem às vítimas
de dois dos grandes totalitarismos do
século XX: o nazismo e o comunismo.
Concluída a visita, já no Vaticano, o Papa declarou:
“É impressionante ver até onde pode chegar a crueldade
humana. Vamos pensar sobre isso”, pediu aos peregrinos
reunidos na Praça de São Pedro, para a audiência
pública semanal.
Recordou que em Vilnius prestou homenagem às vítimas
do genocídio judaico “75 anos depois do encerramento
do grande gueto, que era antecâmara de morte
para dezenas de milhares de judeus”.
“Ao mesmo tempo, disse, visitei o Museu das Ocupações
e Lutas pela Liberdade: parei em oração nos quartos
onde os opositores do regime foram detidos, torturados
e mortos. Matavam mais ou menos quarenta
pessoas por noite”.
O Papa falou dos mártires católicos e do “grande testemunho
que deram e ainda dão tantos padres, religiosos
e religiosas idosos, que sofreram calúnias, prisões e
deportações”.
2. Esta visita do Papa é, com efeito, oportunidade para
recordar os mártires de todos os tempos, mas particularmente
os do século XX. Folheei, a propósito, dois
esclarecedores livros: «Os Mártires Católicos do Século
XX», de Robert Royal, e «O Século do Martírio», de
Andrea Riccardi.
O século XX foi um século de grande desumanidade
e sangrentas carnificinas provocadas não apenas pelas
duas guerras mundiais e pela guerra civil de Espanha mas
também por grandes perseguições ideológicas, de que
foram particularmente vítimas os judeus e os cristãos.
3. Refiro particularmente as perseguições de que foram
vítimas os cristãos, mas não devo esquecer as perseguições
de que foram objeto muitos outros, pelos
mais diversos motivos. Perseguições que conduziram
à morte violenta e perseguições que infernizaram
a vida às pessoas, marginalizando-as ou
criando-lhes difíceis ou até insuportáveis condições
de vida. Também é perseguição arrumar seres
humanos na prateleira ou massacrá-los com
o assédio sexual.
4. As perseguições têm na base o desrespeito
pela vida e pela dignidade do ser humano. A violação
do direito que todos possuem de, não ofendendo
os outros, fazerem as suas opções, a nível
religioso, político e outros.
Aquele que escolheu apoiar um clube diferente
do da minha simpatia nem por isso deixa
de ser uma pessoa como eu e de ter o direito de
ser respeitado na sua dignidade, nos seus direitos,
nos seus bens.
As diferentes opções não devem ser motivo para
ver no outro um inimigo e de o tratar como tal.
Quem não é dos nossos é um ser humano como
nós. Tem, como nós, direito a condições dignas
de vida. Numa perspetiva cristã é um nosso
irmão cuja liberdade devemos saber respeitar como
pretendemos que respeitem a nossa.
5. Qual o número de mártires cristãos no século
XX?
Impossível contabilizá-los. Desconhece-se o
nome de grande parte deles. Há quem aponte a
cifra de três milhões.
Há que tomar consciência de que o martírio
dos cristãos nem sempre tem sido devidamente
noticiado.
Escreve Robert Royal: «Os relatos do século
XX foram geralmente produzidos sob uma
perspetiva quase puramente política que, quando
admite a existência de mártires, o faz apenas
tangencialmente. A título de exemplo, a terrível
tentativa de genocídio dos Arménios operada
pelos Turcos, que teve lugar no início do século,
foi devidamente documentada pela maioria
dos textos históricos. No entanto, raramente se
refere que muitos cristãos, arménios católicos e
ortodoxos, morreram durante esse mesmo massacre
precisamente por serem cristãos. A Igreja
Católica arménia calcula que sete bispos, 126
padres, 47 freiras e cerca de 30.000 leigos perderam
a vida por causa da sua fé sob o moderno
regime turco».
Ainda hoje se não noticia devidamente a morte
violenta de muitos cristãos, vítimas de fanatismos
ideológicos. Às vezes, até, invocando sacrilegamente
o nome de Deus. Fica-se com a ideia de
que a vida só tem valor para alguns. Há filtros em
grandes meios de comunicação social que impedem
o relato de que são vítimas muitos cristãos.
Silva Araújo - Diário do Minho
do Papa Francisco aos países bálticos –
Letónia, Estónia e Lituânia – entre 23 e 26
de setembro. Prestou homenagem às vítimas
de dois dos grandes totalitarismos do
século XX: o nazismo e o comunismo.
Concluída a visita, já no Vaticano, o Papa declarou:
“É impressionante ver até onde pode chegar a crueldade
humana. Vamos pensar sobre isso”, pediu aos peregrinos
reunidos na Praça de São Pedro, para a audiência
pública semanal.
Recordou que em Vilnius prestou homenagem às vítimas
do genocídio judaico “75 anos depois do encerramento
do grande gueto, que era antecâmara de morte
para dezenas de milhares de judeus”.
“Ao mesmo tempo, disse, visitei o Museu das Ocupações
e Lutas pela Liberdade: parei em oração nos quartos
onde os opositores do regime foram detidos, torturados
e mortos. Matavam mais ou menos quarenta
pessoas por noite”.
O Papa falou dos mártires católicos e do “grande testemunho
que deram e ainda dão tantos padres, religiosos
e religiosas idosos, que sofreram calúnias, prisões e
deportações”.
2. Esta visita do Papa é, com efeito, oportunidade para
recordar os mártires de todos os tempos, mas particularmente
os do século XX. Folheei, a propósito, dois
esclarecedores livros: «Os Mártires Católicos do Século
XX», de Robert Royal, e «O Século do Martírio», de
Andrea Riccardi.
O século XX foi um século de grande desumanidade
e sangrentas carnificinas provocadas não apenas pelas
duas guerras mundiais e pela guerra civil de Espanha mas
também por grandes perseguições ideológicas, de que
foram particularmente vítimas os judeus e os cristãos.
3. Refiro particularmente as perseguições de que foram
vítimas os cristãos, mas não devo esquecer as perseguições
de que foram objeto muitos outros, pelos
mais diversos motivos. Perseguições que conduziram
à morte violenta e perseguições que infernizaram
a vida às pessoas, marginalizando-as ou
criando-lhes difíceis ou até insuportáveis condições
de vida. Também é perseguição arrumar seres
humanos na prateleira ou massacrá-los com
o assédio sexual.
4. As perseguições têm na base o desrespeito
pela vida e pela dignidade do ser humano. A violação
do direito que todos possuem de, não ofendendo
os outros, fazerem as suas opções, a nível
religioso, político e outros.
Aquele que escolheu apoiar um clube diferente
do da minha simpatia nem por isso deixa
de ser uma pessoa como eu e de ter o direito de
ser respeitado na sua dignidade, nos seus direitos,
nos seus bens.
As diferentes opções não devem ser motivo para
ver no outro um inimigo e de o tratar como tal.
Quem não é dos nossos é um ser humano como
nós. Tem, como nós, direito a condições dignas
de vida. Numa perspetiva cristã é um nosso
irmão cuja liberdade devemos saber respeitar como
pretendemos que respeitem a nossa.
5. Qual o número de mártires cristãos no século
XX?
Impossível contabilizá-los. Desconhece-se o
nome de grande parte deles. Há quem aponte a
cifra de três milhões.
Há que tomar consciência de que o martírio
dos cristãos nem sempre tem sido devidamente
noticiado.
Escreve Robert Royal: «Os relatos do século
XX foram geralmente produzidos sob uma
perspetiva quase puramente política que, quando
admite a existência de mártires, o faz apenas
tangencialmente. A título de exemplo, a terrível
tentativa de genocídio dos Arménios operada
pelos Turcos, que teve lugar no início do século,
foi devidamente documentada pela maioria
dos textos históricos. No entanto, raramente se
refere que muitos cristãos, arménios católicos e
ortodoxos, morreram durante esse mesmo massacre
precisamente por serem cristãos. A Igreja
Católica arménia calcula que sete bispos, 126
padres, 47 freiras e cerca de 30.000 leigos perderam
a vida por causa da sua fé sob o moderno
regime turco».
Ainda hoje se não noticia devidamente a morte
violenta de muitos cristãos, vítimas de fanatismos
ideológicos. Às vezes, até, invocando sacrilegamente
o nome de Deus. Fica-se com a ideia de
que a vida só tem valor para alguns. Há filtros em
grandes meios de comunicação social que impedem
o relato de que são vítimas muitos cristãos.
Silva Araújo - Diário do Minho
terça-feira, 2 de outubro de 2018
Viver hoje o carisma comboniano - M C.
Na conclusão dos trabalhos da Assembleia Intercapitular, os participantes dirigiram uma mensagem de comunhão e gratidão pelo que sois e fazeis no quotidiano da missão.
“Viver hoje o carisma comboniano… é tomar consciência das transformações que estão a acontecer e aprender a mostrar o Deus da história, sempre próximo dos últimos da terra. A leitura da realidade, bela e trágica ao mesmo tempo, tocou-nos profundamente, chamando-nos à conversão pessoal e comunitária, para «ser missão» num mundo renovado pelo Evangelho de Jesus”, lê-se na mensagem.
Para os participantes na Assembleia Intercapitular, realizada em Roma de 9 a 29 de setembro de 2018, “a missão, hoje mais que nunca, pede coerência de vida e uma espiritualidade cada vez mais próxima a Jesus e ao seu projeto. Não podemos viver a missão sem levar a sério o seu chamamento à santidade”.
“O nosso carisma é claro e dinâmico, mas deve retornar às fontes que o renovam”, afirma a mensagem.
“O novo paradigma da missão, do qual fala o Capítulo, deve surgir da relação afetiva com a Trindade e tornar-se serviço à comunhão, gerador de novas relações humanas baseadas na justiça e na misericórdia. Estas relações de fraternidade devem renovar-nos a partir de dentro, levar-nos a uma opção radical pelos mais pobres e a cuidar da «casa comum». Somos discípulos missionários do Senhor ressuscitado, que devolvem aos povos e à criação a dignidade que receberam do Deus-Amor desde o princípio”, escrevem.
Durante o período da Assembleia Intercapitular, “preocupações e esperanças” mexeram com os participantes:
- Escrevemos uma carta ao Papa Francisco para expressar a nossa proximidade e apoio nas escolhas que cada vez mais parecem isolá-lo, mesmo dentro da Igreja.
- Acompanhamos com alegria os esforços de paz no Sudão do Sul e entre a Etiópia, a Eritreia e a Somália, as etapas de reaproximação das duas Coreias e os desenvolvimentos de um novo diálogo entre a Igreja e o governo chinês com o acordo sobre a nomeação dos novos bispos.
- Partilhámos a dor das famílias no naufrágio recente no Lago Vitória, Tanzânia, e pelas vítimas de eventos climáticos extremos nas Filipinas, China, Estados Unidos e Nigéria. São apelos para incluir nas nossas preocupações missionárias também a grave crise socioambiental, provocada pelo atual modelo neoliberal de produção e consumo.
- Condenámos o massacre dos civis inocentes na cidade de Beni, no Kivu do Norte, República Democrática do Congo, bem como as vítimas de grupos fundamentalistas pelo controle de recursos no norte de Moçambique.
- Rezámos pelo Pe. Pierluigi Maccalli, SMA, sequestrado por fundamentalistas islâmicos no Níger.
- Lamentámos a morte de mais de cem migrantes no Mediterrâneo e refletimos sobre a vida precária de muitos migrantes que fogem da guerra, da fome e das mudanças ambientais em muitas partes do mundo.
- A situação sempre preocupante da República Centro-Africana e a crise na Venezuela e na Nicarágua não nos deixaram indiferentes.
- Vimos nesta humanidade sofredora o povo da promessa, a caminho dos novos céus e nova terra (2Pe 3, 13) onde a justiça terá uma morada permanente. Cabe a nós missionários preparar e abrir este caminho!
No final do encontro, todos se comprometeram a renovar o carisma missionário recebido de Comboni, “a quem repetidamente invocámos na nossa assembleia”.
“Que seja ele a conduzir-nos neste tempo e a projetar-nos com esperança no futuro. A ele, finalmente, confiámos o trabalho nestes dias”, conclui a mensagem.
Leia AQUI a mensagem completa.
segunda-feira, 1 de outubro de 2018
NÃO VARRER A CASA AO DIABO (2) Frei Bento Domingues, O.P.
1. Estaremos no bom caminho? Parece-me que
sim. Digo isto com toda a convicção, mas nada está garantido, à partida. A
história da Igreja não é, nunca foi, nem pode ser, desenhada como uma
auto-estrada de santidade. Quando certa apologética infantil, ignorante ou
perversa falava da história admirável da Igreja, como uma procissão de heróis,
santos, mártires, doutores e místicos, ilustrada nas pinturas e esculturas das
igrejas e capelas, faltava lá o reverso da medalha: a lista das vítimas dos
inquisidores, dos criminosos e perversos em nome da santa vontade de Deus. Em
defesa da revelação divina e da sua verdade contida nas escrituras, nos
concílios ecuménicos, no magistério ordinário e extraordinário dos Papas,
decretaram-se condenações e excomunhões odiosas.
Na preparação da entrada no Terceiro Milénio[1]
manifestou-se, em alguns sectores da Igreja, a vontade de confessar,
publicamente, os crimes e os pecados do passado, fazendo propósitos de emenda
em relação a determinados processos e instituições que se tinham tornado
prática odiosa e corrente. Basta lembrar o texto de João Paulo II: “Muitos
motivos convergem, com frequência, na criação de permissas de intorlerância,
alimentando uma atmosfera passional, à qual só os grandes espíritos,
verdadeiramente livres e cheios de Deus, conseguiram, de algum modo,
subtrair-se. No entanto, a consideração das circunstâncias atenuantes não
dispensa a Igreja do dever de lamentar, profundamente, as debilidades de tantos
dos seus filhos que desfiguraram o seu rosto, impedindo-o de reflectir,
plenamente, a imagem do seu Senhor crucificado, testemunha insuperável do amor
paciente e manso. Destes traços dolorosos do passado, emerge uma lição para o
futuro, que deve levar todo o cristão a ter em conta, o princípio de ouro
proclamado pelo Concílio Vaticano II: A
verdade só se impõe pela força dessa mesma verdade, que penetra nas almas, com
suavidade e firmeza.”
De facto, o que estava a ser esquecido, e cada vez mais,
era, precisamente, o espírito do Vaticano II.
Desde o Syllabus
(1866), da encíclica Pascendi (1907)
e, por fim, da Humani Generis (1953),
as lideranças da Igreja despresaram a liberdade de investigação e expressão com
repetidas e requintadas condenações. Acabo de ler, a história do historiador e
exegeta Alfred-Fermin Loisy[2]. Este católico, que tanto
queria que a fé cristã fosse uma luz no mundo contemporâneo – que não pode
fazer jejum da razão - foi excumungado. Nunca se resignou a essa situação e
pediu que, na sua campa, fosse escrito: Alfred
Loisy. Padre. Retirado do ministério e do ensino. Professor no Collège de
France (1857-1940). Tuam in votis tenuit
volontatem. Correspondia ao que
estava num dos missais usado na liturgia nos anos 30: de coração ele (Loisy) ficou sempre ligado à Vossa Vontade.
Quando fui acolhido nos Dominicanos em 1952, vivia-se na
Ordem, sobretudo em França, uma situação atormentada que Yves Congar descreveu
com toda a crueza e que, há poucos anos, François Leprieur analisou[3], sem dó nem piedade.
2. Evoco esse
passado por uma simples razão: os tormentos chegaram ao fim com a eleição do
Papa João XXIII, o milagre maior que eu já vivi. Por dificuldades em Portugal,
tive a graça de, antes e durante o Concílio, poder frequentar, devotamente, as
suas audiências públicas. Vi, pela primeira vez, um papa que parecia o avô de
toda a gente. Podíamos verificar que ele gostava de nós todos, os que estavam
lá e os que não estavam, crentes e não crentes, porque todos acreditávamos que
ele era a voz da humanidede à procura de paz e de esperança. Este João era a
alegria bem-humorada. Chegou a dizer que se lembrou de convocar o Concílio
quando estava a fazer a barba. Veio o Concílio. Abriu portas e janelas,
acreditando que as correntes de liberdade mais contrastadas ajudavam a
encontrar novos caminhos.
Morreu antes de o poder levar ao fim a sua santa loucura. Foi
triste. Muito triste.
As tormentas do pós-Vaticano II continuam. As manobras sobre
a pílula, o impedimento de padres casados, a situação dos divorciados
recasados, o impedimento do acesso das mulhers aos ministérios ordenados, o
cerciamento da liberdade de investigação e expressão teológicas, a impossível
reforma da cúria e dos escândalos financeiros do Banco do Vaticano, o êxito
ambíguo das viagens papais, etc. encobriram e fizeram esquecer, em muitas
situações, o principal: a vida real das comunidades cristãs e a forma como
estavam a ser servidas ou atraiçoadas. Quando deram por ela, começaram as
queixas sobre abusos sexuais de padres, bispos e cardeais sobre os menores que
lhes tinham sido confiados.
Seria injusto reduzir o que a Igreja realizou em todos os
continentes, no pós-Vaticano II, a esses milhares de vítimas de crimes
horrorosos. Sinto o sofrimento de muitos cristãos de terem de lidar com o
espelho dos meios de comunicação que lhe falam do que nunca se tinham dado
conta. É preciso compreender que é uma fonte de vergonha. Quando lhes dizem que
há poucas vocações para padres, observam: se querem manter o mesmo modelo que
tornou a vida impossível a tantas crianças e adolescentes, é melhor que não
haja. Mas o zero não é productivo.
3. O que me tem
irritado são as manobras para fazer do Papa Francisco o bode expiatório de
décadas de encobrimentos, distracções e resistências a reformas inadiáveis. Fazem o mal e a caramunha. Quando,
porém, julgavam que tinham isolado e encurralado o Papa Francisco, pediam a sua
demissão. Tiveram de verificar, uns com gosto e outros com desgosto, um coro
imenso de apoio ao seu programa de reformas, com que começou o seu pontificado:
a Alegria do Evangelho, a acolher e a
semear por todo o mundo.
Bergoglio não tem jeito para a auto-contemplação. Aproveitou
para uma nova convocatória das conferências episcopais e da renovação e
intensificação da prática dos sínodos dos bispos, abertos aos não bispos. Estes
e as suas conferências são intimados a serem a voz das comunidades. Antes de falar
têm de escutar, viver no seu meio para ajudar a renovar e a serem renovados por
elas. Realizar aquilo que Sto Agostinho lembrava: Convosco sou cristão, para vós sou bispo.
Não sei porque esquecemos o espantoso ritual do Baptismo, Effathá: abre os olhos, abre os ouvidos
para poderes falar. Os cristãos não recebem um báculo de pastores, mas recebem
uma vela. Os pastores não deviam esquecer a luz de Cristo que vem através de
todos os cristãos, de dentro e de fora da Igreja.
O Papa Francisco varreu a casa ao Espírito Santo!
30.09.2018
[1] João Paulo II, Tertio Millenio Adveniente, 1994
[2]
Cf. DHGE, pp 1085-1100
[3]
Quand Rome condamne, Paris, Cerf, 1989
quarta-feira, 26 de setembro de 2018
NÃO VARRER A CASA AO DIABO (1) Frei Bento Domingues, O.P.
1. As narrativas
do Novo Testamento insistem em dizer que a linguagem que o Nazareno preferia
era a das parábolas. É muito incómoda porque não se lhe pode fixar um sentido
único. Muitos cristãos lamentaram, e ainda lamentam, que os autores dos textos
dos Evangelhos tenham perdido tempo com histórias enigmáticas. Seria preferível
um catecismo, com uma mensagem bem precisa e um catálogo de deveres e
proibições, válidos para todos os tempos e lugares. A história da Igreja seria
construída de forma linear, sem altos nem baixos, serena como uma pedra. O zero
seria o seu único número.
Não foi assim que aconteceu. Jesus abriu uma nova Era de criatividade. Não fechou a
história dos povos e das culturas. As parábolas são contra a clausura do
sentido dos gestos e das palavras. Todas, porém, encerram inesgotáveis
possibilidades de construir a vida humana, individual e social, no horizonte da
busca da felicidade, encontrando-a não só na alegria que se recebe, mas,
sobretudo, na que se dá. Os Actos dos Apóstolos atribuíram a Jesus uma
expressão incrível: há mais alegria em
dar do que em receber. Nos Evangelhos já existia uma lei paradoxal: quem ganha (à custa dos outros), perde e
quem perde para que os outros possam viver, ganha.
Vem isto a propósito de uma parábola sobre a reforma das diversas
cúrias eclesiásticas: «Quando o espírito maligno sai de um homem, vagueia por
sítios áridos, em busca de repouso e não o encontra. Diz então: ‘Voltarei para
a minha casa, donde saí. Ao chegar, encontra-a livre, varrida e
arrumada. Vai, toma outros sete espíritos piores do que ele e, entrando,
instalam-se nela. O estado final daquele homem torna-se pior do que o primeiro.
Assim acontecerá também a esta geração má[1].»
Ao ler e ouvir certas propostas para o Papa limpar o
Vaticano, de uma vez por todas, lembro-me desta parábola. Bergoglio chegaria
com toda a sua energia e, como grande inquisidor, punha na rua, de alto a baixo
e de baixo ao alto, toda a gente do Vaticano e fechava-o para obras. Depois,
usando da sua infalibilidade, povoaria aquele Estado só de gente santa e fiel.
A sua infalibilidade seria o equivalente à inteligência artificial de robots.
De facto, continuou numa história de humanos, mas com o intuito
incontornável de tornar tudo diferente. Não era uma renúncia à reforma nem uma
cedência perante as resistências e oposições, de dentro e de fora da Igreja. Em
vez de invocar a infalibilidade pontifícia e de pedir que lhe chamassem Santo
Padre, optou por propor o estudo e a análise de todas as situações e considerou-se
membro de uma Igreja sempre a reformar, feita de santos e pecadores. Situou-se
sempre entre estes últimos. Nada disto significava um processo de inibição. Era
uma nova forma de coragem: a Igreja não é minha, eu sou da Igreja de todos e eleito
Papa para a Igreja de todos. Nem quero que ela continue na mesma, nem eu.
Estamos na mesma barca de conversão.
Conhecia e conhece o que foram os trabalhos de Jesus com os
seus discípulos. A glória do Crucificado não foi a de ter êxito, mas a de não
trair, mesmo diante das piores ameaças.
Não estou a comparar o Papa a Jesus Cristo. Ele próprio
acharia isso ridículo. Pretendo sublinhar, apenas, que o caminho seguido pelo
Papa Francisco exige o envolvimento de toda a Igreja.
2. Não se pode
negar que os adversários e opositores dos caminhos de Bergoglio, em relação à
sociedade e à vida interna da Igreja, não o tenham ajudado a sentir a
necessidade urgente de estudar métodos que responsabilizem toda a Igreja pelo
seu futuro, como sinal e instrumento de transformação da sociedade.
Igreja-Sacramento.
Estava a tornar-se perigosa uma convicção falsa e muito divulgada:
a reforma da Igreja e das cúrias é uma utopia do Argentino desenraizado.
Cresceu com ele e com ele morrerá.
Se havia muitos católicos impacientes com o silêncio dos
seus bispos, outros, conscientes de que a Igreja é de todos, a responsabilidade pelo seu presente e pelo
seu futuro não precisa de ser delegada. Alguns começaram a manifestar, de diversas
formas, o que lhes ia na alma.
Entre vários textos, importa referir, pelo seu carácter
colectivo, a carta da Conferência dos Baptizados/as[2]
aos bispos da Igreja de França.
Destaco uma passagem onde existe um apelo à convocatória de
um congresso, cujo objectivo seria, ao nível da França, «passar de uma participação facultativa e
consultiva dos leigos – homens e mulheres evidentemente! – a uma presença
efectiva nos locais de tomada de decisão, de acordo com modalidades a discutir.
É o sacerdócio comum dos fiéis, o único citado no Novo Testamento que deve ser
não apenas reabilitado, mas no futuro, colocado no próprio centro de decisão ».
Em paralelo,
considera que um "Concílio do Povo de Deus" é incontornável para
rever, em profundidade, as relações entre sacerdotes e leigos, para reformular
o ministério ordenado que, nas condições disciplinares em que é actualmente
exercido, levou aos excessos que conhecemos[3].
3. Falta, em Portugal, um
estudo sobre as atitudes e o comportamento dos católicos portugueses em relação
ao Papa Francisco e aos seus desígnios. Conhecemos a clara posição do Nós Somos Igreja e de algumas
personalidades. Entretanto, há novidades em curso para o governo da Igreja. No passado dia
18, o Papa publicou a constituição apostólica Episcopalis Communio (Comunhão Episcopal) com a qual reforça o
papel do Sínodo dos Bispos, sublinhando a importância de continuar a dinâmica
do Vaticano II.
O Papa tem o cuidado de sublinhar: apesar de se configurar
como um organismo essencialmente
episcopal, o Sínodo dos Bispos não
vive separado do resto dos fiéis, mas pelo contrário deve ser um instrumento adequado para dar voz a todo
o povo de Deus.
O Papa não é o diabo como os tradicionalistas pensam, nem
vai deixar o diabo à solta na Igreja, como desejam. Como?
É assunto para o próximo Domingo.
23.09.2018
domingo, 23 de setembro de 2018
O PAPA NÃO ESTÁ SÓ! Frei Bento Domingues, O.P.
1. No mês de
Agosto, não pude responder às muitas solicitações telefónicas para comentar os
acontecimentos em torno do comportamento do Papa Francisco perante a pedofilia
clerical e nos começos de Setembro, também não. Ao agradecer a acolhedora
hospitalidade deste Jornal, talvez fosse oportuno esboçar um balanço das
campanhas para difamar o Papa, desacreditar os seus objectivos e os seus
caminhos de reforma da Igreja. Era urgente criar um clima que desse a impressão
de que Bergoglio não era o remédio, mas o veneno. Tinha chegado a hora de o
desmascarar.
O cálculo das oposições organizadas para derrotar o projecto
reformador do Papa Francisco não estava mal concebido. Impunha-se aproveitar os
seus encontros com as Igrejas onde os clérigos pedófilos, padres, bispos e
cardeais, fizeram mais vítimas. Era indispensável mobilizar os meios de
comunicação para mostrar as dimensões não só da tragédia, mas a incapacidade do
Papa em responder, com actos, à indignação das vítimas. O importante era
encontrar algumas pistas para dizer que o responsável de tudo era o próprio
Papa. Não tinha sentido que ele andasse a pedir perdão, quando, de facto, ele
era conivente. Já tinha tido tempo para erradicar essa abominação eclesiástica
e veio, afinal, a encobri-la, enchendo a boca contra o carreirismo de
seminaristas, padres, bispos e cardeais. Como quem diz: anda a querer reformar
a sociedade, a política, a economia que mata, a Igreja a todos os níveis,
quando o mais urgente é reformá-lo a ele. Ou se demite ou deve ser demitido,
pois é um herético e anda a levar a Igreja para a catástrofe.
Foi tal o entusiasmo com a sua eleição, com os seus
insólitos gestos e atitudes, que muitos julgaram que o caminho aberto era
irreversível. Esse acolhimento, que parecia universal, distraiu muitos dos seus
seguidores: acreditavam, de forma ingénua, que as reformas propostas tinham
apenas a oposição dos instalados na cúria romana e nas cúrias episcopais.
Puro engano. Falava-se de alguns movimentos e organizações
que não viam com bons olhos os atrevimentos de Bergoglio, mas como a idade era
muita e a saúde era pouca, a natureza encargar-se-ia de resolver o problema.
Falava-se sempre do próximo Papa. Este já tinha os dias contados. Os dias e os
anos passaram e ele, apesar de tudo, resistia e estava sempre a anunciar e a
lançar coisas novas.
Por outro lado, os que tinham muita pressa e julgavam que o
Papa devia fazer as reformas todas por decreto, sem estar a olhar aos seus
deveres de respeito para com os direitos de todas as pessoas, tornaram-se
aliados funcionais daqueles que se organizavam para vencer as reformas de
Bergoglio.
2. Em Portugal,
mas não só, era estranha a atitude de distância de padres e bispos em relação
ao Papa caluniado. Era o cisma do silêncio, de surdos e mudos. De repente, a
partir do comunicado exemplar do bispo de Aveiro, António Manuel Moiteiro Ramos, incentivando toda a diocese a um apoio
explícito ao Papa Francisco, assim como várias cartas de leigos à própria
Conferência Episcopal, esta sentiu que não podia continuar alheia à calúnia.
Tarde, mas lá cumpriu o seu dever.
Ao dizer isto,
ainda não saí do mundo clerical: Papa, cardeais, bispos e padres. Santo
Agostinho[1],
no início de um sermão sobre os pastores, já tinha tocado na raiz do
clericalismo que envenenou as relações no seio da Igreja, ao dizer: «somos
cristãos e somos bispos. Somos cristãos para nosso proveito, somos bispos para
vosso proveito. Pelo facto de sermos cristãos, devemos pensar na nossa
salvação; pelo facto de sermos bispos, devemos preocupar-nos com a vossa. (…)
devemos dar contas a Deus pela nossa própria vida, como cristãos; mas, além
disso, devemos dar contas a Deus do exercício do nosso ministério, como
pastores.» Inverteu a pirâmide. Antes de ser bispo, é um cristão, mas aqui
começam também os equívocos. Cristão parece pouca coisa e padre e bispo, uma
promoção na carreira. O importante é chegar a padre e, melhor, chegar a bispo
e, se for bispo de Roma, é o Papa de toda a Igreja. Chegou ao topo da carreira.
Pura asneira! Ser cristão, isto é, seguidor de Jesus, é a aspiração maior de
quem fizer a descoberta do Nazareno. No Baptismo, pela graça do Espírito Santo,
o ser humano torna-se membro de um povo sacerdotal, porque participa no
sacerdócio de Jesus Cristo. Quando lhe chamam o sacerdócio comum dos fiéis
querem dar a ideia de que é um sacerdócio banal, comum a todos. O Novo
Testamento (NT) só conhece este sacerdócio. A graça do Espírito Santo significada
e acolhida no Baptismo é o que há de mais essencial na lei nova do Evangelho,
como lembrou Tomás de Aquino.
Tudo o resto, todas
as mediações, sacramentais ou não, são ajudas para o desenvolvimento dessa vida
cristã. Nunca será demais repetir. Os padres e os bispos não mandam na Igreja,
servem a Igreja. Estão ao serviço das comunidades para que estas percorram na
sociedade o caminho aberto por Jesus, que não veio para ser servido, mas para
dar a vida. Como sublinha Santo Agostinho, essa é a sua glória. O clericalismo
vê tudo ao contrário: o clero é considerado, erradamente, como o mais
fundamental na Igreja.
3. Contra esta perspectiva surge uma objecção de peso: se é para servir,
não quero ser padre nem bispo e cai por terra a pastoral das, falsamente, chamadas
vocações sacerdotais. Não é uma
dificuldade desconhecida nas relações entre Jesus e os seus discípulos. Diz S.
Marcos que os discípulos não entendiam nada do que o Mestre lhes exigia. Um
dia, resolveu tirar a limpo a discussão que ocupava as vocações que arranjara.
Perguntou-lhes: o que discutíeis no caminho? Ficaram em silêncio, porque pelo
caminho tinham vindo a discutir qual deles era o mais importante. Tiago e João
romperam o silêncio: queremos que nos concedas o primeiro e o segundo lugares
do grupo. Este sincero atrevimento obrigou o Mestre a uma reunião de
emergência, pois os outros dez ficaram indignados por não terem tido a coragem
de se anteciparem. Reacção de Jesus: posso perder todas estas vocações, mas não
vou alimentar um equívoco. Quem de entre
vós quiser ser o primeiro, que seja o servo de todos e fica o problema
resolvido. Aconselho a leitura directa e íntegra dos capítulos nove e dez deste
evangelista[2].
É normal que certas
pessoas, grupos e movimentos desejem que o Papa se cale. Ele não parece
disposto a fazer-lhes a vontade. Veremos porquê.
16.09.2018
quarta-feira, 5 de setembro de 2018
PÁROCO DA SARDENHA - Carta ao Papa
de um pároco da Sardenha" A carta do dia: "Caro
monsenhor Viganò, eis o pensamento
29/08/2018
Papa Francisco
Publicamos hoje a carta aberta de padre Francesco
Murana, pároco de Milis, a monsenhor Carlo Maria Viganò.
***
"Egrégia Eminência,
Escrevo-lhe por meio das páginas de um
jornal "de periferia"; essas periferias tão amadas tanto pelo Senhor
(que cresceu em Nazaré, ao seu tempo uma aldeia de montanha) quanto pelo atual
Pontífice, o Papa Francisco.
Quem escreve é um padre que estudou em Roma
e teve muitas oportunidades de encontrar um espaço "confortável e
adequado" para se esconder num dos muitos escritórios e dicastérios que o
enorme aparato da Cúria Romana oferece.
Mas eu escolhi, já em 1986, vir para as
periferias da Sardenha, cortando assim as minhas pernas para qualquer possível
"carreira".
Se o Senhor quiser outra coisa de mim,
Ele inventará os caminhos para que eu faça outra coisa e em outro lugar.
Nestes anos que passaram (32!) vi
acontecer de tudo dentro do clero. Fiquei parado e calado no meu lugar tentando
dar. Regozijei-me e regozijo-me porque temos um Papa como Francisco.
Ele é verdadeiramente humano e não é
hipócrita (no sentido grego! Não é ator, não faz o papel). É ele mesmo e – por
ser sincero - às vezes escorrega para linguagens de pároco e – como eu pároco
sou – sinto-me menos sozinho.
Sinto-o vizinho.
Ao contrário, ao senhor, eu o sinto
longe.
Além disso, o senhor deveria
contentar-se com ter chegado a setenta e sete anos e ter vivido uma vida mais
do que confortável e respeitada... Pergunto-lhe: o que mais deseja? Eu sou um
padre de aldeia por opção, mas o senhor pensa realmente que não sou capaz de
ver nas suas acusações ao Papa Francisco outros motivos e outras intenções?
O senhor acusa o papa Francisco de
silêncio.
Mas tem consciência de que pode ser
acusado da mesma coisa, visto que acorda agora, depois de cinco anos? Visto que
dormiu durante cinco anos, conta-nos agora nas próximas onze páginas o que
sonhou? Tenha vergonha.
Diante de todos nós padres, que cuspimos
sangue todos os dias, em solidão: vocês brincam de bancar os prelados, servidos
e reverenciados em tudo.
Tão viciados pelo poder que não veem
mais nada, corroídos pelos ciúmes pelo demasiado tempo de que dispõem, nunca
satisfeitos com o que recebem e sempre de olho nos "postos que
contam" ocupados pelos outros.
Tenho certeza de que o Papa Francisco é
capaz de fritar um ovo e lavar as próprias meias, sozinho.
Do senhor não; do senhor tenho apenas a
certeza de que, para conseguir satisfazer um capricho seu, feito "para o
bem da Igreja", é capaz de desenterrar o esterco dos outros.
Eu estou na Igreja: o que o senhor fez
de bem por mim e pelos paroquianos com quem vivo? Nada. Na língua sarda, o
senhor é um "imboddiosu": aquele que pega uma meada alheia e dá nós
no fio; obrigando assim a tecedeira a perder tempo para desatá-los e continuar a tecer ...
O trabalho continuará, mas teremos
perdido tempo graças ao ‘imboddiosu’ de plantão.
Graças ao senhor, perdemos – pela
enésima vez – cara e tempo.
Padre
Francesco Murana, pároco de Milis, diocese de Oristano
terça-feira, 4 de setembro de 2018
A diferença estará (sobretudo) no carácter - DM de 4 Setembro
1. O pecado original da democracia
(dificilmente
corrigido ao longo dos
tempos) é a propensão
para estacionar na «cracia»
(poder) e para quase ignorar
o «demos» (povo).
Este é convocado para
atribuir o exercício do poder.
Depois, resigna-se a suportar
o poder, a sofrer o poder.
2. Sucede que tal percepção
envenena tudo. Muitas
vezes, ficamos só pelas intenções,
pelos enunciados.
O mais elementar conceito
diz que a democracia
é o poder do povo. Olhando,
porém, para a realidade,
o que avulta é que o povo
acaba por ser a maior vítima
da democracia.
José Saramago asseverou:
«Estamos numa situação em
que uma democracia que,
segundo a definição antiga,
é o governo do povo, para o
povo e pelo povo, nessa democracia
precisamente está
ausente o povo».
3. A alternativa não é,
contudo, extinguir a democracia.
A alternativa só pode
ser refundar a democracia,
recentrando-a no povo!
Se a fonte do poder é o
povo, o exercício do poder
devia ser um serviço, uma
missão.
4. Muito se fala no êxito
dos países nórdicos. Apesar
da crise, mantêm-se
na dianteira das escalas do
desenvolvimento.
Frequentemente surgem
apelos para que se importem
os seus modelos, os seus
ideais, os seus programas.
5. Tudo isto é conhecido.
E muito disto é defendido.
Grande parte dos nossos
políticos confessa inspirar-
-se nas ideologias aplicadas
naqueles países.
O que se passa, então, para
que os resultados sejam
(radicalmente) diferentes? Só
encontro uma resposta: o carácter.
E o carácter (dos políticos
e dos cidadãos) não se
pode importar por decreto.
6. Naqueles países, reclamam-
se direitos, mas quase
ninguém foge aos deveres.
A desigualdade entre as
pessoas é quase nula. Os ricos
vivem bem, mas os pobres
também não parecem
muito mal.
Há muita ordem sem haver
demasiada coerção. O
Estado é permanentemente
reorganizado. A cultura é
priorizada.
A corrupção é uma ausência.
Os privilégios praticamente
não existem. Os
deputados e os ministros
recorrem, frequentemente,
aos transportes públicos.
7. Há quem diga que os cidadãos
destes povos são de
uma frieza glacial e pouco
emotivos.
É claro que o paraíso não
mora neste mundo. A perfeição
não é uma oferta da
natureza; é uma constante
aquisição da vontade. E ter
defeitos é sinal de que o caminho
ainda não está totalmente
percorrido.
O certo, porém, é que,
mesmo com reduzida emoção
e alguma frieza, os mecanismos
de solidariedade
funcionam melhor a norte
do que a sul. E o Estado Social,
que nós sentimos tremer,
não dá sinais de vacilar.
8. Curiosamente, a ausência
de alternância política,
que nós registamos,
também se verifica por lá.
Com uma diferença: é que
lá, mesmo quando mudam
os governos, os direitos não
ficam em causa; já entre nós,
por cada alternância que surge,
as conquistas parecem ficar
em risco.
Aqui, à direita e à esquerda,
não parece haver
alternativa à austeridade.
Nos países nórdicos, à esquerda
e à direita, não parece
haver alternativa ao
desenvolvimento!
9. Muitos pensarão que
falar disto é pura demagogia.
No fundo, o que não se
quer é mudar. Nem mudar
a mentalidade, nem a prática
governativa, nem a conduta
cívica.
É por isso que nos limitamos
a sonhar com o sucesso
dos outros. E a lamentar,
persistentemente, o nosso
endémico atraso!
João Teixeira
(dificilmente
corrigido ao longo dos
tempos) é a propensão
para estacionar na «cracia»
(poder) e para quase ignorar
o «demos» (povo).
Este é convocado para
atribuir o exercício do poder.
Depois, resigna-se a suportar
o poder, a sofrer o poder.
2. Sucede que tal percepção
envenena tudo. Muitas
vezes, ficamos só pelas intenções,
pelos enunciados.
O mais elementar conceito
diz que a democracia
é o poder do povo. Olhando,
porém, para a realidade,
o que avulta é que o povo
acaba por ser a maior vítima
da democracia.
José Saramago asseverou:
«Estamos numa situação em
que uma democracia que,
segundo a definição antiga,
é o governo do povo, para o
povo e pelo povo, nessa democracia
precisamente está
ausente o povo».
3. A alternativa não é,
contudo, extinguir a democracia.
A alternativa só pode
ser refundar a democracia,
recentrando-a no povo!
Se a fonte do poder é o
povo, o exercício do poder
devia ser um serviço, uma
missão.
4. Muito se fala no êxito
dos países nórdicos. Apesar
da crise, mantêm-se
na dianteira das escalas do
desenvolvimento.
Frequentemente surgem
apelos para que se importem
os seus modelos, os seus
ideais, os seus programas.
5. Tudo isto é conhecido.
E muito disto é defendido.
Grande parte dos nossos
políticos confessa inspirar-
-se nas ideologias aplicadas
naqueles países.
O que se passa, então, para
que os resultados sejam
(radicalmente) diferentes? Só
encontro uma resposta: o carácter.
E o carácter (dos políticos
e dos cidadãos) não se
pode importar por decreto.
6. Naqueles países, reclamam-
se direitos, mas quase
ninguém foge aos deveres.
A desigualdade entre as
pessoas é quase nula. Os ricos
vivem bem, mas os pobres
também não parecem
muito mal.
Há muita ordem sem haver
demasiada coerção. O
Estado é permanentemente
reorganizado. A cultura é
priorizada.
A corrupção é uma ausência.
Os privilégios praticamente
não existem. Os
deputados e os ministros
recorrem, frequentemente,
aos transportes públicos.
7. Há quem diga que os cidadãos
destes povos são de
uma frieza glacial e pouco
emotivos.
É claro que o paraíso não
mora neste mundo. A perfeição
não é uma oferta da
natureza; é uma constante
aquisição da vontade. E ter
defeitos é sinal de que o caminho
ainda não está totalmente
percorrido.
O certo, porém, é que,
mesmo com reduzida emoção
e alguma frieza, os mecanismos
de solidariedade
funcionam melhor a norte
do que a sul. E o Estado Social,
que nós sentimos tremer,
não dá sinais de vacilar.
8. Curiosamente, a ausência
de alternância política,
que nós registamos,
também se verifica por lá.
Com uma diferença: é que
lá, mesmo quando mudam
os governos, os direitos não
ficam em causa; já entre nós,
por cada alternância que surge,
as conquistas parecem ficar
em risco.
Aqui, à direita e à esquerda,
não parece haver
alternativa à austeridade.
Nos países nórdicos, à esquerda
e à direita, não parece
haver alternativa ao
desenvolvimento!
9. Muitos pensarão que
falar disto é pura demagogia.
No fundo, o que não se
quer é mudar. Nem mudar
a mentalidade, nem a prática
governativa, nem a conduta
cívica.
É por isso que nos limitamos
a sonhar com o sucesso
dos outros. E a lamentar,
persistentemente, o nosso
endémico atraso!
João Teixeira
domingo, 19 de agosto de 2018
Sentido crítico sobre o que nos informam - DM de 19 AGO
Recordo-me, na altura da
última eleição para Presidente
dos Estados Unidos
da América – os antagonistas
eram o actual morador
da Casa Branca e a senhora
Clinton –, a minha surpresa quando, ao
consultar na Internet, o resultado dessas
importantes jornadas eleitorais...
Interrompamos a narração e olhemos
para aquilo que a imprensa e a
generalidade dos “media” nos diziam.
Trump era um candidato secundário e
as portas do comando dessa nação não
podiam ser entregues senão à senhora
Clinton. Homem irreverente, desabrido
nas suas opiniões, um empresário
dinâmico, é certo, mas afastado da
política americana, o que se esperava?
Uma derrota evidente...
Alguns dias antes, porém, houve alguém
ligado à informação que, tímida
e com clara relutância, notificou uma
eventual, mas sempre como hipotética
e longínqua possibilidade, o triunfo de
Trump. Tudo se configurava, pois, para
a vitória esmagadora da candidata do
Partido Democrático, a quem pertencia
o então Presidente em exercício, Obama.
Voltando ao princípio deste artigo,
dizia que, muito cedo, e com a profunda
convicção de apurar de que maneira
tinha o eleitorado americano rejeitado
Donald Trump, abri a Internet...
Procurei no lugar devido e, a princípio,
pensei que me havia enganado e tinha
aberto o ecrã em algum programa sarcástico,
humorístico, onde se via Donald
Trump assinalar a sua vitória. Procurei
outros lugares, outras notícias, outras
dimensões dos “media”, mas todos diziam
o mesmo.
Alguns até parecia que davam a conhecer
uma espécie de informação
necrológica, tristonha, que mostrava,
ao fim e ao cabo, o seu desapontamento
e o seu luto de consciência, já
que tinham, a priori, dado por assente
aquilo que para eles era óbvio, não
abrindo outras hipóteses a quem informavam.
Parecia uma derrota dos
principais meios de comunicação social,
que noticiavam de forma monopolista
uma vitória e tiveram de comunicar,
afinal, que as suas previsões
falharam redondamente.
Esta derrota, com tão amargo sabor,
notou-se imediatamente nas informações
que iam fornecendo. A figura do
novo presidente nunca foi bem aceite
desde então. Tudo o que ele faz e tudo o
que ele diz é, habitualmente, um desastre
político e uma enormidade de bom
senso. Os escândalos ou excentricidades
“trumpianos” são palco de crítica acérrima
e até de chacota fácil.
Com isto, não queremos defender
a sua figura. Apenas alertar que quem
consulta os “media” não engula facilmente
tudo o que eles nos comunicam
diariamente. As mentalidades de esquerda
e de direita, muitas vezes, são
o apoio do teor noticioso. Por isso, nos
indicam, como se fosse uma verdade,
aquilo que julgam mais adequado ao
que pensam. Se é de esquerda, qualquer
figura da direita tem tendência para ser
retrógrada e desajeitada no que faz e no
que diz; se, pelo contrário, quem informa
é de direita, os personagens do outro
lado são sempre perigosos e escravos
dos preconceitos que as suas ideias
e convicções determinam.
Cabe, pois, a cada um de nós, não
aceitar de mão beijada o que se nos comunica.
Deve haver sempre um sentido
crítico bem fundamentado, por
exemplo, ao socorrer-nos da Internet,
ao lermos um periódico ou ao assistirmos
a um noticiário televisivo. Quais
as genuínas razões que originaram a
sua comunicação? A forma como foram
apresentadas corresponde exactamente
à sua realidade factual? A pergunta
de Pilatos a Cristo aprisionado é
muito actual em relação ao que nos dizem
os meios de comunicação social:
“O que é a verdade?”( Jo 18,38).
P. Rui Rosas
última eleição para Presidente
dos Estados Unidos
da América – os antagonistas
eram o actual morador
da Casa Branca e a senhora
Clinton –, a minha surpresa quando, ao
consultar na Internet, o resultado dessas
importantes jornadas eleitorais...
Interrompamos a narração e olhemos
para aquilo que a imprensa e a
generalidade dos “media” nos diziam.
Trump era um candidato secundário e
as portas do comando dessa nação não
podiam ser entregues senão à senhora
Clinton. Homem irreverente, desabrido
nas suas opiniões, um empresário
dinâmico, é certo, mas afastado da
política americana, o que se esperava?
Uma derrota evidente...
Alguns dias antes, porém, houve alguém
ligado à informação que, tímida
e com clara relutância, notificou uma
eventual, mas sempre como hipotética
e longínqua possibilidade, o triunfo de
Trump. Tudo se configurava, pois, para
a vitória esmagadora da candidata do
Partido Democrático, a quem pertencia
o então Presidente em exercício, Obama.
Voltando ao princípio deste artigo,
dizia que, muito cedo, e com a profunda
convicção de apurar de que maneira
tinha o eleitorado americano rejeitado
Donald Trump, abri a Internet...
Procurei no lugar devido e, a princípio,
pensei que me havia enganado e tinha
aberto o ecrã em algum programa sarcástico,
humorístico, onde se via Donald
Trump assinalar a sua vitória. Procurei
outros lugares, outras notícias, outras
dimensões dos “media”, mas todos diziam
o mesmo.
Alguns até parecia que davam a conhecer
uma espécie de informação
necrológica, tristonha, que mostrava,
ao fim e ao cabo, o seu desapontamento
e o seu luto de consciência, já
que tinham, a priori, dado por assente
aquilo que para eles era óbvio, não
abrindo outras hipóteses a quem informavam.
Parecia uma derrota dos
principais meios de comunicação social,
que noticiavam de forma monopolista
uma vitória e tiveram de comunicar,
afinal, que as suas previsões
falharam redondamente.
Esta derrota, com tão amargo sabor,
notou-se imediatamente nas informações
que iam fornecendo. A figura do
novo presidente nunca foi bem aceite
desde então. Tudo o que ele faz e tudo o
que ele diz é, habitualmente, um desastre
político e uma enormidade de bom
senso. Os escândalos ou excentricidades
“trumpianos” são palco de crítica acérrima
e até de chacota fácil.
Com isto, não queremos defender
a sua figura. Apenas alertar que quem
consulta os “media” não engula facilmente
tudo o que eles nos comunicam
diariamente. As mentalidades de esquerda
e de direita, muitas vezes, são
o apoio do teor noticioso. Por isso, nos
indicam, como se fosse uma verdade,
aquilo que julgam mais adequado ao
que pensam. Se é de esquerda, qualquer
figura da direita tem tendência para ser
retrógrada e desajeitada no que faz e no
que diz; se, pelo contrário, quem informa
é de direita, os personagens do outro
lado são sempre perigosos e escravos
dos preconceitos que as suas ideias
e convicções determinam.
Cabe, pois, a cada um de nós, não
aceitar de mão beijada o que se nos comunica.
Deve haver sempre um sentido
crítico bem fundamentado, por
exemplo, ao socorrer-nos da Internet,
ao lermos um periódico ou ao assistirmos
a um noticiário televisivo. Quais
as genuínas razões que originaram a
sua comunicação? A forma como foram
apresentadas corresponde exactamente
à sua realidade factual? A pergunta
de Pilatos a Cristo aprisionado é
muito actual em relação ao que nos dizem
os meios de comunicação social:
“O que é a verdade?”( Jo 18,38).
P. Rui Rosas
sexta-feira, 17 de agosto de 2018
Ventos de Mudança - D M - de 17 de Agosto
Ventos de Mudança:
Um livro de vivências, que no seu
todo reflecte uma vida com sentido.
A vida é um constante fluir na cadência dos nossos
dias e na construção do nosso ser que urge
formar, desenvolver, aperfeiçoar e consolidar.
Somos peregrinos na terra, em busca da Pátria
prometida, o Céu, miragem única e fascinante
que a todos atrai e incita a alcançar. Vidas
simples, outras mais complexas, algumas sem história,
outras contadas e reforçadas pelo palpitar do coração e dos
sentidos que despertam uma avassaladora ambição de viver
todos os momentos como se fossem os últimos e os únicos.
Na verdade, a vida é uma viagem admirável, é uma vertigem
que passa ou um rio que corre sempre no seu leito,
uns dias mais agitado, outros mais tranquilo, mas não volta
nunca para trás, o seu fim é a foz…
“A vida é para nós o que concebemos dela. Para o rústico
cujo campo lhe é tudo, esse campo é um império. Para César
cujo império ainda lhe é pouco, esse império é um campo.
O pobre possui um império; o grande possui um campo.
Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias
sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que
fundamentar a realidade da nossa vida”. (in: O Livro do Desassossego,
de Fernando Pessoa)
Na senda do poeta poderemos reiterar que se pudéssemos
revelar os pensamentos e fazê-los viver, eles acrescentariam
nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo
e maior amor ao coração dos homens.
Na certeza inabalável de que não somos versos soltos, mas
fazemos parte dum imenso poema divino, a autora do "Ventos
de Mudança" ousa afirmar:
«Tens valor tu que és débil e fraca, não desesperes. Estás
atemorizada e em sofrimentos, vencida pelo cansaço de
muitas lutas e com o atormento que atravessas. Tem confiança,
eu venci o mundo!
O dia de hoje será o tempo que disponho para lutar e para
enfrentar as suas vicissitudes e também para vivenciar as
coisas boas que possam eventualmente surgir.
O vento sopra, sopra às vezes com muita força arrastando
quase tudo ao passar. Depois vem um período de acalmia
muito menos conturbado que permite alguma reorganização.
Mas o vento volta, volta sempre. E para alguns, uma e outra
vez ao longo da vida, tornando-se necessário recomeçar.
E nesse vento que tudo arrasta, que transporta os nossos sonhos,
as nossas alegrias, as nossas ilusões…»
“Ventos de Mudança”, de Maria Helena Paes, Coleção: Viagens
na Ficção, da Chiado Books, publicado em Junho de
2018, é o desfiar duma vida que não cessa de acontecer, é
uma busca de sentido para os pequenos milagres do dia-a-
-dia, consubstanciado nas coisas pequenas da vida, é o entrelaçar
e o tecer duma vivência vivida com muita esperança,
serenidade, confiança e muita fé na providência divina,
na certeza de que tudo o que acontece ao ser humano é bom
quando ele o coloca nas mãos de Deus.
Maria Susana Mexia
Um livro de vivências, que no seu
todo reflecte uma vida com sentido.
A vida é um constante fluir na cadência dos nossos
dias e na construção do nosso ser que urge
formar, desenvolver, aperfeiçoar e consolidar.
Somos peregrinos na terra, em busca da Pátria
prometida, o Céu, miragem única e fascinante
que a todos atrai e incita a alcançar. Vidas
simples, outras mais complexas, algumas sem história,
outras contadas e reforçadas pelo palpitar do coração e dos
sentidos que despertam uma avassaladora ambição de viver
todos os momentos como se fossem os últimos e os únicos.
Na verdade, a vida é uma viagem admirável, é uma vertigem
que passa ou um rio que corre sempre no seu leito,
uns dias mais agitado, outros mais tranquilo, mas não volta
nunca para trás, o seu fim é a foz…
“A vida é para nós o que concebemos dela. Para o rústico
cujo campo lhe é tudo, esse campo é um império. Para César
cujo império ainda lhe é pouco, esse império é um campo.
O pobre possui um império; o grande possui um campo.
Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias
sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que
fundamentar a realidade da nossa vida”. (in: O Livro do Desassossego,
de Fernando Pessoa)
Na senda do poeta poderemos reiterar que se pudéssemos
revelar os pensamentos e fazê-los viver, eles acrescentariam
nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo
e maior amor ao coração dos homens.
Na certeza inabalável de que não somos versos soltos, mas
fazemos parte dum imenso poema divino, a autora do "Ventos
de Mudança" ousa afirmar:
«Tens valor tu que és débil e fraca, não desesperes. Estás
atemorizada e em sofrimentos, vencida pelo cansaço de
muitas lutas e com o atormento que atravessas. Tem confiança,
eu venci o mundo!
O dia de hoje será o tempo que disponho para lutar e para
enfrentar as suas vicissitudes e também para vivenciar as
coisas boas que possam eventualmente surgir.
O vento sopra, sopra às vezes com muita força arrastando
quase tudo ao passar. Depois vem um período de acalmia
muito menos conturbado que permite alguma reorganização.
Mas o vento volta, volta sempre. E para alguns, uma e outra
vez ao longo da vida, tornando-se necessário recomeçar.
E nesse vento que tudo arrasta, que transporta os nossos sonhos,
as nossas alegrias, as nossas ilusões…»
“Ventos de Mudança”, de Maria Helena Paes, Coleção: Viagens
na Ficção, da Chiado Books, publicado em Junho de
2018, é o desfiar duma vida que não cessa de acontecer, é
uma busca de sentido para os pequenos milagres do dia-a-
-dia, consubstanciado nas coisas pequenas da vida, é o entrelaçar
e o tecer duma vivência vivida com muita esperança,
serenidade, confiança e muita fé na providência divina,
na certeza de que tudo o que acontece ao ser humano é bom
quando ele o coloca nas mãos de Deus.
Maria Susana Mexia
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