Mostrar mensagens com a etiqueta Reflexões. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Reflexões. Mostrar todas as mensagens

domingo, 1 de julho de 2018

NÃO HÁ MILAGRES? (1) Frei Bento Domingues, O.P.


1. Falou-se, durante muito tempo, do milagre económico alemão. Quando se deseja criticar uma gestão económica e financeira diz-se: não há milagres! Em clima de religião barata vem o velho ditado: fia-te na Virgem e não corras! São apelos sensatos para que as iniciativas humanas sejam pensadas e planeadas a tempo, executadas com rigor. Não deixar as nossas decisões ao Deus dará, pois Ele ajuda quem se sabe ajudar. Afirmar que não há milagres nem sempre significa uma atitude ateísta ou negação da providência divina. Pode ser apenas respeito pela responsabilidade humana com uma conotação teológica: não invocar o Santo nome de Deus em vão.

Não é aconselhável dar demasiada importância à linguagem do quotidiano que, raramente, é fruto de grandes cogitações como, por exemplo, eu cá sou ateu graças a Deus. Usa-se o vocabulário mais disponível, marcado pelo contexto social e cultural de uma população. Há zonas do país, nas quais, um palavrão é, apenas, um recurso simples e rápido, para acabar com uma conversa que não leva a lado nenhum.

2. A oração, a promessa, a acção de graças e o milagre são a própria paisagem da religião, a não confundir com a beatice. Em alguns contextos, significa o próprio clima da interioridade que acompanha as transformações da vida espiritual. Em outros casos, são narrativas sociais, umas mais discretas, outras mais aparatosas e, até, exibicionistas, para dizer a fé de um grupo religioso, o sentido profundo da vida. Pede-se ao céu, a Deus e aos seus anjos e santos, que se lembrem de nós, que nos dêem a mão.

A celebração da memória da fé dos antepassados é essencial. Nós fazemos parte da sua história e eles desejam fazer parte da nossa vida se a intensidade do nosso desejo pedir a sua intervenção.

Religião exterior e interior – salvo nos casos de hipocrisia – podem reforçar-se uma à outra. Como a sociedade muda, é normal que também sejam alteradas as suas representações.

Quer ao nível da religião popular e das suas expressões, quer no confronto com a Bíblia e com a prática de Jesus, a questão dos milagres é incontornável.

 Numa era sacral, quando a imagem deste mundo dependia das representações sobrenaturais, negar a possibilidade do milagre era uma ofensa ao bom senso: se não é Deus a guiar a misteriosa marcha deste mundo, quem é? Os milagres e as relíquias milagrosas tornaram-se um vício abençoado.

Na nossa era secular, a linguagem universalmente credível é a da ciência e da técnica. As sucessivas revoluções industriais que elas possibilitam, para bem e para mal, são da responsabilidade humana. Pedir contas a Deus ou solicitar a sua intervenção não parece sensato.

Temos, no entanto, de não confundir religião com superstição. Como observa L. Wittgenstein, a fé religiosa e a superstição são muito diferentes. Uma resulta do medo e é uma espécie de falsa ciência. A outra é uma confiança[1].

        Para tentar escapar às dificuldades que a própria noção de milagre implica, foi elaborada uma ideia mais “moderna” de milagre. Diz-se que há milagre quando um fenómeno não pode ser explicado por nenhuma ciência ou técnica disponíveis. Isto acontece, sobretudo, no campo da medicina. Para ter milagres verdadeiros, reais, capazes de levar santos aos altares, para canonizar vidas santas, é preciso a ocorrência de um acontecimento inexplicável pela ciência e pela técnica. Dado o seu carácter benéfico, só pode ser fruto da intervenção de Deus.

É esta noção de milagre que foi muito importante, sobretudo no século XIX, para distinguir sinais de santidade verdadeira de embustes devotos. Foi uma medida muito higiénica no campo religioso, uma forma de dizer que não vale tudo no campo devocional.

Há quem fale de milagres de primeira e milagres de segunda. Os de primeira são os que resistem a todos os testes. Os de segunda são as graças que enchem a literatura piedosa, muito distribuída em certos locais destinadas a criar ambiente para o acontecimento dos milagres de primeira, capazes de levar um santo aos altares.

        3. Em tudo isto, é esquecida a condição do desenvolvimento das ciências e das técnicas. Estão sempre em evolução. O que numa época se considerou uma ocorrência para além dos poderes da natureza, com o desenvolvimento posterior das ciências e das técnicas talvez possa vir a ser explicável. É verdade, mas continuamos a considerar, no mesmo plano, a misteriosa intervenção de Deus e as acções humanas. Um pouco de teologia negativa pode ajudar.

Quem lê o Novo Testamento ou participa nas celebrações eucarísticas não pode evitar a pergunta: será que Jesus fazia milagres ou são apenas histórias de uma era sacral para alimentar uma ilusão para os nossos dias? Se Jesus fez milagres, há 2 mil anos, ainda deve ter a mesma bondade e o mesmo saber para as situações actuais. Como não gosta de fazer nada sozinho, é normal que associe os anjos e os santos – canonizados ou não – à sua vontade de fazer o bem, sobretudo nas situações mais aflitivas.

Para pensar isto com certa clareza, não se deve esquecer a história de Pascal: Conta-se que, certo dia, Pascal se encontrou com um amigo num castelo, no cimo de uma colina. Após algum tempo de espera, o amigo chegou com o rosto desfigurado, a roupa rota e o corpo cheio de nódoas e feridas. – O que é que te aconteceu? – perguntou Pascal. – Não imaginas o milagre que Deus acaba de me fazer! – respondeu o amigo. Quando vinha para cá, o meu cavalo resvalou perto de uma ravina. Eu caí, fui rolando e resvalando, mas detive-me exactamente na borda do precipício. Imaginas? Que milagre Deus acaba de me fazer! Ao que Pascal retorquiu: E o milagre que Deus acaba de me fazer a mim? Ao vir para cá, nem sequer caí do cavalo!»[2].

Neste Domingo, o humor e a astúcia de S. Marcos[3], ao encaixar numa única narrativa dois milagres improváveis, obrigam-nos a pensar que a nossa maior cegueira, seja a que nível for, é a incapacidade renovada de não ver o que temos diante dos olhos. Gloriamo-nos, com razão, dos avanços da ciência, da indústria e dos seus progressos. Ao esquecer que tanto podem realizar o milagre da paz e do bem-estar, como provocar guerras em cadeia e a destruição, ficamos nas mãos dos donos deste mundo.

No Domingo que vem, até o próprio Jesus se espanta com tanta miopia.

01. 07. 2018



[1] Cultura e Valor, Edições 70, 1980, pp. 107
[2] Ver, para todo este assunto, as observações de Ariel Ávarez Valdés in Bíblica nº 352 (maio-junho 2014), pp. 99-104; ver também Miracle de Xavier Léon-Dufour, Dictionaire du Nouveau Testament, Seuil, 1975.
[3] Mc 5, 21-43

CRISTO NÃO DESEMPREGOU OS SANTOS (2) Frei Bento Domingues O.P.


1. Não entendo nada do jogo do “monopólio”. Parece que é guiado por uma lógica económica muito simples: para uns jogadores ficarem ricos, os outros vão à falência.

Não pretendo encontrar aí uma analogia para a relação entre as religiões, mas sempre ouvi dizer aos críticos do monoteísmo que a sua vitória foi um golpe muito duro no pluralismo religioso da antiguidade. Um Deus único não poderia tolerar concorrentes.  

Não é essa questão, cheia de falácias, que pretendo abordar nesta crónica. A palavra Deus encobre significações muito diferentes. Lembrei-me desse jogo ao ler uma recente declaração do actual Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Luis Ladaria. Tenta ressuscitar a Carta Apostólica de João Paulo II – Ordinatio sacerdotalis – para reafirmar que o jogo do sacerdócio ministerial foi ganho pelos homens e a falência sacerdotal das mulheres é irremediável. A referida Carta defendia que o sacerdócio ministerial – de padres e bispos - é monopólio masculino e definitivo: sempre assim foi e sempre assim será.

Compreendo o zelo do Prefeito L. Ladaria. Perante a arremetida teológica, cada vez mais insistente, contra o monopólio masculino, reagiu segundo a sua função policial: lembra que a lei tem de ser respeitada. Mas não lhe pertencia repetir que esta nunca poderá ser alterada. Que um Papa tenha dito isso, obriga a um acurado reexame do que ele entendia por Igreja e da sua concepção dos seus poderes no futuro.

A primeira interrogação é esta: as mulheres não serão Igreja? Não conheço nenhum movimento de mulheres satisfeitas com a sua menoridade eclesial. O sujeito Igreja não será constituído por todas as pessoas baptizadas? Ou será que alguém descobriu na tradição eclesial um Baptismo próprio para homens e outro para mulheres? S. Paulo ficaria indignado com essa loucura[1].

 O Papa Francisco, quando chegou ao Vaticano, já tinha o terreno armadilhado com Cartas Apostólicas semeadas de sentenças definitivas, enunciando posições doutrinais que nenhum outro papa ou concílio poderia modificar. Essa arrogância denuncia um estilo, mas talvez não uma exigência divina.

Na Praça de S. Pedro, na reflexão sobre o sacramento do Crisma, o estilo de Bergoglio é muito diferente: A missão da Igreja no mundo procede através da contribuição de todos aqueles que fazem parte dela. Alguns pensam que na Igreja existem patrões: o Papa, os bispos, os sacerdotes e depois os outros. Não: todos nós somos Igreja! Todos temos a responsabilidade de nos santificarmos uns aos outros e de cuidarmos de todos.

Todos nós somos Igreja! Cada qual tem a sua função, mas, repito, todos nós somos Igreja! Com efeito, devemos pensar na Igreja como num organismo vivo, composto por pessoas que conhecemos e com as quais caminhamos e não como numa realidade abstracta e distante.

A Igreja somos nós que caminhamos, a Igreja somos nós que hoje nos encontramos nesta praça. Nós: esta é a Igreja. A Confirmação vincula à Igreja universal, espalhada pela terra inteira, mas compromete activamente os crismandos na vida da Igreja particular à qual pertencem, tendo como cabeça o Bispo, que é o sucessor dos Apóstolos.

O jogo deste Papa não é o do monopólio. A sua Igreja não é a dos patrões.

2. Estamos no mês dos Santos Populares: a 13, Santo António, a 24, S. João e, a 29, S. Pedro. Esses santos mais antigos são valores seguros. Mesmo numa era secular e num Estado laico, as autarquias compreendem que são os santos da religião popular que marcam as festas do povo. Quem reconfigura esses santos são os seus devotos, sem pedir licença a ninguém. Têm um traço comum. A sua ocupação e preocupação é a vida e a alegria das populações. A saúde e a guarda das pessoas e dos animais, o êxito das sementeiras e das colheitas, a esperança contra os excessos da seca e da chuva, das ameaças da fome, da peste e da guerra. As promessas, as romarias, as peregrinações, o canto ao desafio e as danças dos grupos e das bandas, a partilha dos merendeiros e de uma boa pinga são a linguagem dos céus e da terra, simbolizados no fogo que leva o mundo às alturas, não o fogo dos incêndios.

    Os santos populares e as alminhas eram gente de casa com quem se podia contar na saúde e na doença, na tristeza e na alegria. É gente do lugarejo, é gente da freguesia, é gente do Conselho, é gente do mundo todo. Fez-se uma imagem de santos canonizados, fixos nos altares, depois de processos canónicos, mais ou menos morosos, para apanhar pó. Os Santos Populares foram canonizados pelo povo. Esses estão sempre no activo, venerados ou a quem se pede contas pelos desleixos.

Deus não vive no céu e numa eternidade aborrecida e os que vão para o céu também não se vão aborrecer. Todos activos.

Pouco importa a biografia histórica de cada um desses santos preferidos. Por exemplo, de Sto. António, teólogo e pregador, ficou muito pouco. Sempre com o menino ao colo, existem poucas imagens de Santo António cansado, de menino pela mão. Conta-se tanto com ele que, no dia ou na noite em que não ele atende os seus devotos, é posto de castigo.   

Quem acompanhar as orações a este santo, no seu Mensageiro, tem sempre uma página que lhe é dedicada. O estilo não varia muito: «Meu Santo Amigo, já me salvaste da morte. Agradeço reconhecido. Ajuda a minha família e em especial a minha filha mais velha, tu sabes quem é. Que os médicos que a seguem descubram de que padece, os assuntos da mente e do espírito são complicados. Mas confio em Ti, meu Santo António. As bênçãos de Deus para quem mais precisar. Ámen. José».

3. Os santos populares não se passeiam todos em andores. O Papa Francisco prefere ver a santidade nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e nas mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Vejo aí a santidade da Igreja militante. É a santidade «ao pé da porta», daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus ou, por outras palavras, a classe média da santidade.

A santidade não consiste em ter visões, recitar orações elevadíssimas ou mostrar cara de santinho. Não é reserva da terceira idade ou de jovens que a esperam sentados. A santidade do jovem é ir em frente, ser desassossegado[2].

Cristo não se reconhece em nenhum jogo de monopólio da santidade. O seu empenhamento é levar todos os seres humanos, seja qual for a sua idade, povo, cultura ou religião à plenitude da vida.

Os santos não são concorrentes, são associados, todos membros do seu corpo místico.



24. 06. 2018





[1] Gl. 3, 23-29
[2] As referências aos santos e à santidade foram inspiradas em Gaudete et Exsultate, do Papa Francisco, 2018 e nas recentes Audiências Gerais de 6 e 13 de Junho. 

quarta-feira, 20 de junho de 2018

A diferença está na aceleração- Diário do Minho

A novidade não é a mudança, mas a aceleração da
mudança.
Mudanças sempre houve. Mudanças tão aceleradas
é que não nos recordamos de ter havido.
É verdade que – como notou o poeta – «o mundo
é composto de mudança». Mas salta à vista que «já não se muda
como soía».
Mudando como sempre, estamos a mudar aceleradamente como
nunca.
Daí que dificilmente nos apercebamos do que nós próprios
realizamos.
Foi a humanidade que produziu a técnica. Será que temos
consciência de que a técnica está a produzir um novo perfil de
humanidade?
No rastreio de ganhos e perdas, importa perceber que temos
conquistado muito, mas também temos desperdiçado bastante.
Como nos acostumámos a conseguir, fomo-nos desabituando
de esperar. A rapidez está a retirar-nos paciência e a esvaziar-
-nos de esperança.
Somos uma «geração apressada» e, por isso, «stressada». Mostramos
muita eficácia nos actos, mas pouca lucidez nas decisões.
Somos a geração das grandes euforias e, ao mesmo tempo, das
prolongadas depressões.
Comunicamos cada vez mais sem filtros. Os espaços mediáticos
estão cheios de protestos, pejados de murmurações e inundados
de rancores.
Sobretudo os mais jovens, com a sua espontaneidade, não
escondem as suas frustrações nem as suas rebeldias. Não
falta, assim, quem qualifique muitos adolescentes como…
«aborrecentes».
O mais curioso é que são os mais novos quem melhor se movimenta
num mundo desenhado pelos mais velhos.
A chamada «geração millennials» (também denominada «geração
y») foi apanhada em cheio por uma revolução tecnológica
que já estava em marcha.
Por sua vez, a «geração z» (que lhe sucedeu) tornou-se a primeira
geração de «nativos digitais». Nos tempos que correm, é especialmente
nas redes sociais que se estabelecem os contactos pessoais.
Só que pouco parece ser sólido. As relações entre as pessoas são
instáveis e os trabalhos precários.
Sempre à procura da última novidade, facilmente nos cansamos:
das coisas e também das pessoas.
São cada vez mais os objectos que arrumamos e as pessoas que
descartamos.
Contudo, não é por acaso que, segundo a Bíblia, «a sabedoria
está nos cabelos bran cos e a inteligência na longevidade» ( Jb 12,
12). Quem nega que a experiência é uma preciosa fonte de ciência?
Não diabolizemos o que é novo. Mas também não subestimemos
o que, vindo do passado, não está ultrapassado. Com todos
 podemos aprender, enquanto nos for dado viver!

segunda-feira, 18 de junho de 2018

CRISTO NÃO DESEMPREGOU OS SANTOS (1) Frei Bento Domingues O.P.


1. Não tenho muito apego às definições de religião. Uso essa palavra para significar, na tradição latina, a redobrada atenção às diversas dimensões do devir misterioso do ser humano que escapam à linguagem unívoca da ciência e da técnica. Exprime-se melhor na linguagem metafórica. Como escreveu Ésquilo, em Agamémnon, «Sufocando no galinheiro da razão, dediquei-me a defender a causa dos sonhos».

Na história das religiões existe de tudo, do melhor e do pior. A religião dos místicos, mesmo quando louca, é a suprema sabedoria. O místico não é capaz de parar, de fixar um limite, de se tornar idolátrico, pois, como diz o muçulmano, E. Hallaj, do século X: «Vi o meu Senhor com o olhar do coração,/ e disse-lhe: “Quem és tu?” Ele disse-me: “Tu!”/ Mas para Ti, o “onde” já não tem lugar,/ o “onde” não existe quando se trata de Ti!». A religião de Jesus não cabe em nenhuma classificação conhecida.

No domingo passado, S. Marcos apresentava Jesus como o doido da família e possesso de Belzebu. Neste, Jesus surge, na versão do mesmo evangelista[1], como um pregador surrealista. Jesus queria ser entendido ou não? A sua palavra era só para agitar o vento? Pela referência que faz ao profeta Isaías[2], até parece que só queria baralhar os seus ouvintes: vendo, vejam e não percebam; ouvindo, ouçam e não entendam para que não se convertam e não sejam perdoados.

A citação recorre a um pregador cujos lábios foram purificados por um anjo, um serafim, com uma brasa viva. Ouviu, então, a voz do Senhor que dizia: Quem enviarei? Quem será o nosso mensageiro? Ele respondeu: Eis-me aqui, envia-me. E foi enviado: Vai e diz ao meu povo: ouvi, tornai a ouvir, mas não compreendereis. Vede, tornai a ver, mas não percebereis. Endurece o coração deste povo, ensurdece-lhe os ouvidos, fecha-lhe os olhos. Que os seus olhos não vejam, que os seus ouvidos não ouçam, que o seu coração não entenda, que não se converta e Eu o cure.

S. Marcos começa pela muito conhecida parábola da sementeira para falar do misterioso Reino de Deus. Esta não apresenta nenhuma dificuldade especial, mas os discípulos ficaram sem perceber nada.

Jesus fica espantado com discípulos tão pouco dotados: Se não compreendeis esta parábola, como podereis entender todas as outras?

Mais uma vez, teve paciência e explicou tudo muito bem. O narrador sublinha que a maior dificuldade em acolher a palavra do Reino é o mundanismo, a sedução das riquezas e outras ambições. Quando encontra bons ouvidos, os frutos são de 30, de 60 e até de 100%.

A parábola seguinte contradiz o começo: quem traz uma lâmpada acesa é para a esconder? Mas não será esse o defeito das parábolas em relação ao discurso directo?

Não há nada a ocultar. Quer tudo na luz do dia. Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça. Mas cuidado com o que ouvis. Com a medida que medirdes sereis medidos e até vos será acrescentado mais. E regressa ao paradoxo escandaloso: ao que tem, será dado e ao que não tem, mesmo o que tem, lhe será tirado.

De repente, muda de registo. O crescimento do Reino de Deus não é fruto do esforço humano: o semeador lançou a semente à terra e foi dormir e, depois, quando o fruto está no ponto, vai colher. Também não há que desesperar com a lentidão do crescimento da comunidade. Os começos nem sempre são gloriosos e vem a parábola do grão de mostarda, pequena semente que chega a ter grandes ramos, onde as aves do céu se abrigam à sua sombra.

No final do capítulo, volta a insistir que Jesus anunciava-lhes a palavra por meio de muitas parábolas como estas, conforme podiam entender e nada lhes falava a não ser em parábolas. Remata, dizendo que as explicações eram assunto privado para os discípulos. O narrador deixa-nos sem podermos concluir se Jesus falava para ser entendido ou não.

2. A pergunta fundamental, perante esta paixão pela linguagem parabólica, talvez seja esta: porque não fez Jesus um catecismo, bem explicadinho, com perguntas e respostas bem definidas, para não deixar os seus seguidores continuamente sem saber bem o que pensar, o que está certo e o que está errado? Se, assim, tivesse feito, dispensava as dificuldades da exegese histórico-crítica e as múltiplas abordagens reconhecidas pela Comissão Pontifícia Bíblica[3]. Teria dispensado séculos e séculos de escolas teológicas, de heresias e de conflitos.

A linguagem universal é a da ciência e da técnica, incompatível com emoções e estados de alma. Jesus poderia ter feito uma ciência exacta da verdadeira religião e tinha, como fruto, um sossego eterno. Donde lhe veio a mania das parábolas e de falar só em parábolas?

Esquecemos que Jesus era e é um ser humano nascido e educado dentro de uma cultura e de uma religião que, hoje, é possível identificar. Jesus não sabia todas as línguas, não conhecia todas as religiões e nunca procurou impor apenas uma versão do valor divino do humano e do valor humano do divino. Não escreveu um livro inspirado que tivesse o condão de substituir todos os livros de sabedoria religiosa. A falar verdade, nem sequer temos o que Jesus escreveu na areia. Os seus gestos e palavras foram contados por outros. São eles a grande obra de Jesus de Nazaré. Tudo no tempo, tudo efémero. Ninguém fez o filme do que aconteceu.

As parábolas permitem resistir ao tempo pela necessidade de serem sempre lidas e interpretadas sem sentido pré fixado.

3. As comunidades cristãs, boas, más e assim-assim, são as únicas relíquias de Jesus Cristo e não estão todas em Jerusalém. Não o substituem. Os santos, aqueles que, sabendo ou não, o anteciparam e o seguiram não estão arquivados no céu nem se devem confundir com as suas posições nos altares. Estão vivos e activos. De vez em quando, na vida dos cristãos são evocados e respondem sempre, umas vezes no sentido da pergunta, outras vezes complicando-a. Não perderam o estilo das parábolas.

Houve muita confusão em torno da “vida dos santos”. Algumas tornavam a “santidade” detestável. Eram instrumentos de desumanização de Deus e da Igreja. Outras eram auto referentes, idolátricas: Deus tinha de contar com elas ou não sabia o que fazer. Deus estava longe e mal informado das peripécias da vida humana. Os santos eram os mediadores, pontes, entre o Deus distante e a nossa condição. Ao fim e ao cabo, os cristãos entendiam-se mais com eles do que com Deus. Transportavam, para as relações entre o divino e o humano, o sistema das cunhas.

Os santos populares sabem mais de Deus e de nós do que se julga. Veremos.







17. 06. 2018



[1] Mc 4, 1-34
[2] Is 6
[3] A interpretação da Bíblia na Igreja, Secretariado Geral do Episcopado, 1994.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Os abafadores - Paulo Fafe, D Minho

Muita gente se espantou pelo PCP, pela voz de Jerónimo
de Sousa, ter votado contra os projetos
de lei sobre a eutanásia. O bispo de Leiria Fátima,
sua eminência D. António Marto, afirmou:
“a posição do PCP na eutanásia surpreende mas
é humanista”. Claro que é um partido humanista
na estrita ideia de que o homem é o centro principal de toda a
existência. É um humanismo sem Deus ou, se quisermos, coloca
o homem no centro de todas as coisas sem necessidade de interferência
divina. Para os que se apressam a tirar paralelismo entre
o humanismo cristão e humanismo ateu, aqui fica o alerta e a reflexão.
Na discussão parlamentar sobre a legalização da eutanásia,
um dos deputados, referiu-se a uma personagem de Miguel Torga
em Novos Contos da Montanha, o Alma Grande. Nesse conto,
o Alma Grande tem o nome de abafador; era chamado pelos familiares
para esganar os doentes que, estando na hora da morte,
demoravam a morrer. No conto, o moribundo chamava-se Isaac.
O médico tinha recomendado à sua mulher que lhe fosse encomendando
o caixão. Quando o abafador entrou no quarto, o Isaac
gritou-lhe, “não… não… ainda não”. Hesitou o abafador e desistiu.
O Isaac “vinte dias depois comia o caldo ao lume como se nada
tivesse sido”. O conto não acaba assim, mas assim fica em suspenso,
pela minha parte. Daqui se conclui que Miguel Torga, que era
médico de profissão, disse-nos, com a sua sensibilidade de escritor,
que a luta pela vida vale a pena, mesmo depois de desenganado
pela ciência médica. Os quatro projectos de legalização da
eutanásia, são abafadores como o Alma Grande. As razões para o
abafamento pressupõem causas piedosas para com o sujeito e respeito
pelo seu livre arbítrio. Que livre arbítrio há nos dementes,
nos catatónicos, nos em coma profunda? Qual a diferença entre
a eutanásia e este abafador de Miguel Torga? Também ele matava
depois da desistência da ciência; também ele matava com o consentimento
de familiares e da própria mulher, também ele matava
por consentimento social. Esta questão de quem determina
a hora da morte, é tão assustadora em seus contornos morais
e existenciais, que não sei como alguém tem uma convicção tão
forte assim, que possa arriscar ser juiz. Juiz ou carrasco? “ser ou
não ser”, diria o dramaturgo Shakespear. Aliviar um sofrimento
sem cura é um ato de misericórdia ou um egoísmo de quem não
quer sofrer por ver sofrer? Mas ser capaz de chamar um matador
para eliminar um familiar em sofrimento, só porque o seu sofrimento
é o meu sofrimento, é de um egoísmo sem limite; não pode
deixar de acrescentar sentimentos de culpa para quem disser,
«desligue a máquina, mate o meu filho». E este debate prosseguirá
dentro da próxima legislatura. Para que o debate tenha o contributo
de todos nós, torna-se honesto e sincero e democrático
que cada partido diga, em seus programas, se sim se não à legalização
da eutanásia, suicídio ou morte assistida. Assim, os votantes,
ao escolherem o partido em que vão votar, saberão que estão
a dar ou não autorização para a morte legal. O Alma Grande
era um abafador oficial, legalizado pelos usos e costumes daquelas
gentes, socialmente aceite como um bem; nós teremos de saber
se queremos um abafador legal ou não. “Eis a questão”. Para
esclarecimento duma possível controvérsia: não coloco nesta discussão,
sentimentos religiosos, filosóficos, ideológicos, agnósticos
ou ateus; nem criacionismo, nem evolucionismo; o meu pensamento
emerge puro, límpido e inocente da sensibilidade e respeito
que tenho pela vida. Para mim ela é uma essência e não apenas
um percurso. Quebrar o frasco não mata a essência.

domingo, 10 de junho de 2018

O DOIDO DA FAMÍLIA Frei Bento Domingues, O.P.


1. A Catalunha continua a ser notícia por vários motivos, sobretudo por razões de ordem política. Os meios de comunicação portugueses não foram excepção, mas esqueceram a grande homenagem à figura marcante da cultura catalã actual e de significação universal.

 A Generalitat de Catalunya i l'Ajuntament de Barcelona estão a celebrar, em 2018, o Ano de Raimon Panikkar (1918-2010), centenário de um sábio do nosso tempo[1]. Filho de pai indiano e hindu e de mãe catalã católica romana nasceu em Barcelona, viveu na Índia e morreu rodeado da beleza em Tavertet.

Era padre, cientista, filósofo, teólogo e místico. Sem deixar de ser católico integrou, na sua identidade, vários elementos de outras crenças religiosas. Como diz Ignasi Moreta, editor das suas Obras Completas, das quais já saíram 10 volumes, «era uma ponte entre o Oriente e o Ocidente, entre as Letras e as Ciências, entre as expressões do Cristianismo, do Induísmo, do Budismo e do Pensamento Secular».

Esta forma de viver, pensar e escrever evoca Ramon Llull (1232-1315), o escritor, filósofo, poeta, missionário, teólogo, o símbolo cultural da Catalunha. Nascido em Palma de Maiorca, na encruzilhada de três culturas - cristã, islâmica e judia – foi o criador da língua catalã literária, mas também se exprimia, com elegância, em castelhano, latim, árabe e Langue d’oc.

Acerca de R. Panikkar surge sempre a pergunta: mas ele era católico ou hindu? Não se pode dizer que fosse católico pela mãe e hindu pelo pai. A religião não é uma herança de ordem genética. O sincretismo religioso foi sempre mal visto, pois não parece exprimir uma identidade, mas uma confusão. Talvez sim, talvez não. Não se exigiu, aos primeiros discípulos de Jesus a renúncia à condição judaica. Começaram por ser todos judeus de várias tendências. O problema nasceu quando as portas e janelas, que a prática de Jesus abriu, passaram a ser fechadas às outras tradições religiosas. Paulo de Tarso, judeu de pura cepa, não aceitou que se fizesse depender a graça de Deus, manifestada em Jesus de Nazaré, da condição judaica. A salvação não estava ligada a uma condição étnica nem religiosa. Era universal como a graça de Deus que não faz acepção de pessoas e povos.

2. Quem abriu todos os horizontes foi Jesus de Nazaré que viajou pouco, mas sabia muito. No texto do Evangelho de hoje[2], existe uma polémica duríssima sobre esta questão. Começa com um desentendimento familiar tão profundo que até julgavam que ele estava doido. É dito textualmente: «ao verificarem o seu comportamento, os parentes saíram para o deter, pois diziam, está fora de si». Qual era a estranheza? A casa de família estava invadida por quem não era da família. A família estava sem casa.

Mais adiante, voltaremos às razões desta confusão toda. No mesmo texto, é dito que ele estava pior que doido, estava possesso de Belzebu. Era este que lhe dava poder para expulsar os demónios.

Jesus observa aos escribas que estão a ser completamente parvos, pois, se é Satanás a expulsar Satanás, é o império do diabo que se autodestrói.

Neste ponto, não é capaz de passar adiante: «tudo será perdoado aos filhos dos homens, os pecados e blasfémias que tiverem proferido, mas quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão, será réu de pecado para sempre». Os senhores da inteligência da vontade e da acção de Deus estavam a negar a evidência em nome da sua cegueira. Não há pior cego do que aquele que não quer ver, como mostrará mais tarde[3].

S. Marcos vai radicalizar a questão central do universalismo cristão. Jesus perturba a família que se quer fechar sobre si mesma. Os filhos de Deus não são apenas os da própria família.

Maria e os familiares vão tentar encontrar-se com Jesus para esclarecer esta situação. Diz o texto: «entretanto, chegaram a sua mãe e os seus irmãos, que ficaram fora e mandaram-no chamar. A multidão estava sentada à sua volta quando lhe disseram, a tua mãe e os teus irmãos estão lá fora à tua procura e, olhando para aqueles que estavam à sua roda, declarou: eis a minha Mãe e os meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe».

Estava mesmo doido. Os limites do cristianismo não são as outras religiões ou os ateísmos, etc.. São os que não reconhecem que ser irmão é a vocação de todo o ser humano. Assim se responde aos que criticam Raimon Panikkar. O cristianismo só tem um limite: a exclusão do outro, religioso ou não.

3. Em nome do cristianismo, em nome da sua exclusiva posse da verdade, foram muitas vezes condenadas as outras religiões, pois a verdade e o erro não merecem o mesmo respeito.

Do anátema passou-se à tolerância. Não eram igualmente verdadeiras, mas para superar as guerras de religião, o melhor era suportá-las. Mal menor.

O pluralismo humano e cultural apontava para algo mais positivo. Nasceu a teologia sobre as outras religiões, baseada na pergunta: qual a significação que a diversidade religiosa pode ter no plano de Deus?

Quando as religiões eram atacadas pelos mestres da suspeita, alguns teólogos insistiram em mostrar que o cristianismo estava imune a esse negativismo, pois não era uma religião. Nesta astúcia há algum fundamento. Por fim, surge o diálogo inter-religioso como uma bênção. Se a forma de viver como humanos é o diálogo, e fora do diálogo não há salvação, as religiões devem dar o exemplo que lhes tem faltado.

Por vezes, as mesas-redondas que o devem favorecer, com a preocupação de vender o seu peixe e mostrar as virtudes da própria religião, esquecem o próprio diálogo. Este, para ser frutuoso, deve implicar em todos a respectiva autocrítica e a vontade de conversão, de reforma. Um diálogo autêntico altera os que nele intervêm. Não pode ceder à lógica dos debates partidários, preocupados em vencer o adversário. Se a lógica do diálogo inter-religioso é a escuta e a busca, é normal que os participantes possam dizer no fim: estamos melhores, podemos continuar e alargar o caminho da unidade na diferença.

O que se pede hoje aos discípulos de Jesus de Nazaré, o doido da família, é que tenham suficiente loucura para não se acomodarem à lógica dos donos deste mundo, à do carreirismo eclesiástico, à do poder das religiões e que não atraiçoem o Pai Nosso que rezam de mãos dadas na Missa. Ou será que Deus fora da Missa deixa de ter família?

10. 06. 2018



[1] Raimon Panikkar. Centenari d’un savi del nostre temps, FocNou, 2018, nº 483. Ano XLV.
[2] Mc 3, 20-35
[3] Jo 9

domingo, 3 de junho de 2018

APOSTAR NO GÉNIO Frei Bento Domingues, O.P.


1. Os dominicanos franceses, A. Couturier e P. Régamey, directores da famosa revista L’ Art Sacré (dos anos 50 do século passado), impuseram a si próprios, como critério nas escolhas dos artistas a convidar para as encomendas de novas igrejas, o de apostar no génio! Este critério deveria ser anterior às considerações de ordem confessional. Partiam da convicção de que, numa grande obra de arte, está inscrita uma abertura à transcendência. Os resultados da aplicação concreta deste critério foram admiráveis e inspiradores. O Movimento de Renovação da Arte Religiosa (MRAR) em Portugal, no século XX, foi profundamente influenciado por essas exigências[1]. A bela exposição no Convento de S. Domingos (Alto dos Moinhos) para celebrar os oitocentos anos da presença dominicana em Portugal (1216-2016) testemunha a importância dessa lucidez religiosa[2].

Alegra-me que o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura, tenha assumido as preocupações inscritas na metáfora do padre Alain Coutourier: apostar no génio. Já deu muitas provas dessa esclarecida visão. Agora, marcou a presença do Vaticano na Bienal de Arquitectura de Veneza, na ilha San Giorgio Maggiori, um bosque com vista para o mar, com a construção de 10 capelas de dez arquitectos de vários países e continentes. Entre eles está o arquitecto português Eduardo Souto Moura. A encomenda da Santa Sé não lhes exigia um templo cristão. Tinha apenas de ter uma mesa para pousar um livro. Isabel Salema apresentou, neste Jornal, a história da encomenda das capelas e, especialmente, a realização e as convicções de Souto Moura[3].

2. Quando se aborda a relação da Igreja com estes temas, é indispensável saber de que se fala ao usar a palavra igreja. Se pensamos apenas nas hierarquias, ficamos sem saber quais são os critérios democráticos da sua representatividade. Em princípio, todos os seus membros devem poder dizer: a igreja somos todos nós. A igreja são os seus membros e só, indirectamente, designa os templos mais ou menos belos, com ou sem paredes.

No plano da cidadania e da política, não basta dizer que a igreja é plural e cada um decide como quiser. Esta afirmação alimenta alguns equívocos. Confunde a igreja com a hierarquia e não deixa ver o que é a liberdade eclesial na construção da sociedade, seja a nível económico, político ou cultural. Em nome da liberdade cristã, não vale tudo. Esquece-se, principalmente, o confronto com a prática histórica de Jesus e com os seus equivalentes no mundo actual. Sem este confronto, vingam as respostas sempre prontas a servir, pela hierarquia, e deixa de ser o Evangelho a questionar os próprios cristãos. O cristianismo e os seus valores passam a ser, apenas, uma etiqueta para quando dá jeito.

Importa sublinhar que Jesus questionou, durante toda a sua vida pública, a religião em que foi educado e que legitimava tudo – o certo e o errado – em nome da vontade de Deus inscrita na Lei e nas Tradições ancestrais.

Jesus tinha antepassados no profetismo de Israel. Os profetas não eram adivinhos. Eram pessoas clarividentes, lúcidas, acerca do que estava a acontecer e das decisões que abriam ou fechavam o futuro. A preocupação e a ocupação deles era o presente, para tornar a população consciente do que estava a arriscar, segundo as opções que tomava. É interessante saber que essas vozes incómodas foram rareando e os escribas e doutores da lei entretinham-se em subtilezas que deixavam os que já estavam mal ainda pior, fosse em que domínio fosse, religioso ou profano. Nesse mundo, Deus era antigo, a Lei era antiga, os seus intérpretes constituíam uma antiga casta de legitimação de interesses ou de conquista de posições. João Baptista lutava por uma mudança moral, mas não alterava as antigas representações nem de Deus nem das suas leis.

Jesus foi educado num mundo em que a própria religião se tinha tornado a cadeia dos que não tinham defesa. Ele era um leigo. Não tinha frequentado nenhuma das escolas famosas da época, mas a sua experiência de Deus mostrou-lhe que nem da religião nem das leis sociais vigentes se podia esperar o Reino da alegria.

A sua intervenção libertadora, muito concreta na história de há 2 mil anos, foi interpretada pela poética do Apocalipse, no horizonte de uma renovação total do mundo, sem data marcada: «Vi, então, um céu novo e uma nova terra… Eis que faço novas todas as coisas… Eu sou o Alfa e o Omega, o Princípio e o Fim e a quem tem sede darei gratuitamente da fonte de água viva. O vencedor receberá esta herança e eu serei o seu Deus e ele será o meu filho»[4].

Jesus de Nazaré desfatalizou a história. Nada tem de ser como está. A juventude de Deus é a força da renovação do mundo.

3. O Papa Francisco, numa conversa com Thomas Leoncini, afirma que Deus é jovem[5]. Um amigo disse-me: é um título oportunista adaptado à publicidade, sabendo que, desde há muito tempo, se repete que Deus não é velho nem novo. Morreu, acabou e acabou também a cultura que se baseava nessa referência. É certo que a Igreja Católica tem feito um certo esforço de renovação em muitas áreas. Chegou mesmo a reunir um Concílio, em meados do século XX, para falar, de forma simpática, da Igreja no Mundo contemporâneo, Mundo esse que o Vaticano, do século XIX, tinha condenado de todas as formas e feitios.

Parece-me que esse amigo está completamente enganado pela catequese que recebeu e pelas missas que frequentou até ao dia do desengano em que tudo, na religião, lhe cheira a passado e a mofo. As imagens do Inimaginável, com que foi intoxicado pelas beatices bem-intencionadas, resultaram na sua alergia actual. Precisa de apostar no génio que é o Papa Francisco e no Deus que renova a sua juventude.









[1] João Alves da Cunha, UC Editora, 2015
[2] Os Dominicanos em Portugal (1216-2016), Coord: António Camões Gouveia, José Nunes, O.p., Paulo F. de Oliveira Fontes, UCP Lisboa, 2018
[3] Público, 26.05.2018, pp. 32-33. Não foi por essa magnífica Capela que este arquitecto recebeu o Leão de Ouro, a distinção máxima da Bienal de Arquitectura de Veneza, mas pelo complexo turístico de São Lourenço do Barrocal, recuperação de um monte alentejano e a sua adaptação a hotel.
[4] Ap 21
[5] Planeta, 2018.

domingo, 27 de maio de 2018

TERCEIRA ROSA DE OURO PARA FÁTIMA? Frei Bento Domingues, O.P.


1. No Concílio de Trento (1545-1563), Frei Bartolomeu dos Mártires, Arcebispo de Braga, teria afirmado que os eminentíssimos cardeais precisavam de uma eminentíssima reforma. Esta custou muito a chegar e, no nosso tempo, foi o Papa Francisco que se empenhou na reforma da Cúria com uma coragem e desenvoltura que não fica nada a dever à do nosso Bracarense. Perante as resistências activas e passivas que encontrou, já terá desistido? Há quem assim julgue e há quem assim espere. Creio que estão enganados.

Em 2017, pelo quarto ano consecutivo, Bergoglio voltou a usar a mensagem de Natal à Cúria Romana para sublinhar, com muita dureza: para servir a missão da Igreja na sociedade continuam a ser indispensáveis mudanças profundas na assembleia dos cardeais e na mentalidade de muitos elementos da hierarquia eclesiástica.

Destacou que alguns dos que formam o aparelho burocrático do Vaticano usam-no para formar grupos de pressão e de intriga, para impedir as reformas que ele próprio desencadeou. São um cancro que gera egoísmo e está infiltrado nos organismos eclesiásticos e nas pessoas que lá trabalham. A permanente denúncia que o Papa faz do clericalismo e do carreirismo destina-se a libertar a criatividade das comunidades cristãs, frutos da graça do Pentecostes, em saída para todas as periferias existenciais e prontas para todos os socorros como um hospital de campanha.

Estas expressões só não se tornaram lugares comuns porque a imaginação de Bergoglio surpreende-nos todos os dias e o desejo de dominar renasce em todas as gerações. Em nome de banalidades sacralizadas, o Papa é apelidado de herético e o sempre assim foi serve os sinais da restauração do catolicismo convencional. Pelo contrário, a santidade é fonte de criatividade de novas expressões do Evangelho no mundo caótico e niilista da nossa actualidade.

Desde que foi eleito, em 2013, não abandonou a sua obsessão de reforma da Cúria, dominada por italianos. Era inadiável acabar com os escândalos financeiros e os comportamentos de ocultação da pedofilia de eclesiásticos que tornavam a imagem da Igreja, nos meios de comunicação social, como irrecuperável.  

As resistências foram muitas e não desarmaram. O Papa destacou: até os que foram incumbidos de realizar as reformas traíram a confiança, deixando-se corromper pela ambição e vã glória. Quando são afastados, declaram-se, erradamente, mártires do sistema... em vez de fazerem o mea culpa.

Quando se fala na reforma da Cúria, convém ter em conta a sua história e os debates actuais em torno de questões de ordem sociológica, política, teológica e pastoral. Isto não cabe nos limites de uma crónica. Sugiro, por isso, a leitura de um bem informado artigo de Massimo Faggioli.[1]

2. A reforma da Cúria é um trabalho em andamento. Este Papa não quer fazer dela um processo burocrático dependente de uma nova constituição apostólica, como disse Dom Semeraro. Segue os princípios da flexibilidade gradual,  da tradição como fidelidade à história, da inovação e da simplificação. 

Na visão de Bergoglio,  a Igreja, o papado e a Cúria Romana estão interligados. A Cúria não existe apenas para transmitir mensagens para o resto da Igreja, mas também para receber mensagens de uma Igreja sinodal.

Além disso, a existência da Cúria é vital para que o génio romano, isto é, a aspiração de Roma a ser a síntese, seja o ponto de encontro da dimensão universal e local da Igreja. O Papa leva a sério a ideia de reforma de Yves Congar: o primado da caridade e da pastoralidade; a preservação da comunhão; a paciência e respeito pelos atrasos; a renovação através de um retorno ao princípio da tradição, a não confundir com as tradições.

Para M. Faggioli não existe nenhuma alternativa real à proposta do dominicano Y. Congar para uma reforma da Igreja, excepto aquela que levaria a um cisma. Mas, do ponto de vista das actuais políticas eclesiais, a questão é muito mais complicada. A ideia de Congar sobre a reforma da Igreja pode ser frustrante para aqueles que perderam a paciência que o teólogo francês invocava há 50 anos.

Muitos católicos esperavam que Francisco já tivesse implementado uma reforma institucional visível da Cúria depois de cinco anos no cargo. Mas, como já dissemos, o Papa não acredita numa reforma burocrática.

Apesar das esperanças dos liberais e dos temores dos conservadores do status-quo, o Papa Francisco não governa por decreto, nem mesmo a Cúria.

Para ele, a reforma é, em primeiro lugar, movimento e não apenas a mudança estrutural das instituições. É uma mudança de mentalidade, que não começa com uma mudança na lei. É uma descentralização, o que significa que as periferias devem assumir mais responsabilidades. Ela faz parte do caminho para uma Igreja mais colegial e sinodal, que é salvaguardada através do papel universal do bispo de Roma.

O Papa deseja a Cúria Romana como um pequeno modelo de Igreja, que procura ser sério e, quotidianamente, mais vivo, mais saudável, mais harmonioso e mais unido entre si e a Cristo[2]. Não aceita a Cúria para um lado, a Igreja para outro e em luta permanente.

3. No Domingo passado, o Papa anunciou que a 29 de Junho haverá um Consistório para a nomeação de 14 novos cardeais. A proveniência destas nomeações procuram exprimir a universalidade da Igreja. Entre os novos cardeais surge o bispo de Leiria-Fátima, António Marto. Daqui o saúdo pelos motivos que foi nomeado e pelos que aceitou.

O Papa não precisa de aumentar o número de cardeais que resistem, de forma activa e passiva, às reformas que ele anunciou desde a primeira hora e que procuram que essas reformas não lhe sobrevivam. A Igreja precisa de cardeais que ajudem este Papa e que sejam uma garantia de que estas reformas se tornem, de forma criativa, irreversíveis.

Não se pode deixar de realçar as declarações do bispo António Marto: O Santo Padre conhece bem o que eu penso e sabe que tem em mim um apoiante.

Não o move a atracção pelas caudas vermelhas e os chapéus cardinalícios. A simplicidade do Papa e as suas causas bastam-lhe. Não aceitou a sua escolha em termos de meritocracia, mas como um serviço que lhe é pedido. Não é um prémio, uma terceira Rosa de Ouro ao Santuário de Fátima.

27. 05. 2018





[1] Uma ''reforma da reforma'' diferente: Papa Francisco e a Cúria Romana, artigo publicado por La Croix International, 05-02-2018. Ver tradução em: http://www.ihu.unisinos.br/575885-uma-reforma-da-reforma-diferente-papa-francisco-e-a-curia-romana-artigo-de-massimo-faggioli
[2] Encontro pré-Natal em 2014

quarta-feira, 23 de maio de 2018

A natural evolução da espécie real- Laureano


Os príncipes e as infantas,
Que, filhas de reis, princesas
São em terra espanhola
E eram na portuguesa,
Hoje regem-se por outros
Parâmetros de conduta,
Os seus amores reais
Nada têm de realeza,
De civis estados vários
São, e vária natureza.
E quanto a fidelidade,
Ó Garrett, é uma tristeza!

Exemplos há com fartura:
Na Espanha aqui pegada,
A mais velha das infantas
Nem na América, coitada,
Se entendeu com o marido,
E acabou divorciada.
O irmão, esse casou
Com mulher que foi casada.
O rei, não dado a disfarces,
Vê-se que não gostou nada,
Mas a rainha, discreta,
Vai sorrindo, resignada,
Pensando:”Do mal, o menos”,
Pois que já se comentava
Que o filho passava a idade
Sem arranjar namorada
Que o levasse ao altar,
À cerimónia sagrada.
Seria que propendia
Para a natureza errada?...
E consola-se, dizendo:
“Mais vale isto do que nada.”

Das princesas da Suécia
A mais nova, mais prendada
Em termos de formosura,
Do palácio disparada
Sai, para espanto de todos,
Pois não é recomendada
A permanência de alguém
Que a deixe saciada
Dos prazeres sexuais,
Enquanto não for casada.
A maninha, que não quer
Ficar-lhe atrás em nada,
Vendo que por nascimento
Ficou mais adiantada,
Apesar de na lindeza
Lhe estar bem distanciada,
Toca a seguir-lhe o exemplo,
Numa tese comprovada
De que a cara da mulher,
A parte primeiro olhada,
No conceito masculino
Não é a mais apreciada.
Vai daí, convida o homem
Por quem está apaixonada
E vão para Nova Iorque
Passar uma temporada.
De regresso, para não
Perder o fio à meada,
Cada vez que sente falta
Da comida bem provada
Mete-se no carro e ala,
Lá vai ela pela estrada,
Lá vai ela ter com ele
Para uma noite bem passada.
(Não vai o rato à montanha,
Vai esta ao rato, e mais nada!)
A vida duma princesa
É deveras agitada.
E maior agitação
Vem de tórrida paixão
Que contraria o canónico.
Ai, paixão, a quanto obrigas!,
Paixão que manda às urtigas
O chamado amor platónico.
(E à futura rainha
Não convém erva daninha!)
Por isso é que tal namoro
Muito devia ao decoro.
Sendo, então, mais tolerado
Fazer amor com o marido
Do que com o namorado
(Embora este e aquele
Sejam o mesmo Daniel),
P’ra calar o diz-que-diz
Do público sempre atento,
Engendra um final feliz
À bela real história:
Anuncia o casamento.
E todos cantam Victória!

O herdeiro da Noruega,
Em façanha pioneira
De eficiência e rapidez,
Escolheu boa maneira:
Para não ficar à espera
Duma gestação inteira
Que lhe concedesse um filho,
Foi casar com mãe solteira
E ficou logo a ser pai,
Deixando a família à beira
Dum ataque de nervoso
Miudinho. “Que doideira!”
– Hão-de ter pensado os pais.
“Está bonita a brincadeira!”

“Nada de novo no Reino
Da Dinamarca”. Fazia
Sentido e ainda faz
O adágio que corria
Mundo. Porque na verdade
Mesmo que na monarquia
Se passem coisas estranhas,
Já é normal hoje em dia.
Ninguém pense que é quimera
Ou ficção ou fantasia
A notícia de que o príncipe
(O mais novo) repartia
O coração por mulheres
Quando o casamento ia
Ainda de vento em popa
E o fim não se previa.
De um momento para o outro,
Da mulher se divorcia,
Deixando-a com três filhos,
Com um ar de nostalgia,
Dois olhos amendoados
E uma alma vazia.
Casou com outra mulher,
É assim a democracia.

No principado do Mónaco
A cena não é diferente
Quanto a amores principescos.
O príncipe ora regente,
Do qual tudo leva a crer
Não haverá descendente,
É caso paradigmático:
Dizia frequentemente
Que não tinha encontrado
A mulher que totalmente
Lhe enchesse as grandes medidas;
Referiu seguidamente,
Virando o bico ao prego,
Que não estava realmente
Preparado p’ra casar;
Depois, para variar,
Diz que vai anunciar
O noivado brevemente.
Assume a paternidade
Dum petiz que mensalmente
Tem pensão assegurada
– E retroactivamente!
E para calar as bocas
Segundo as quais claramente
Não gosta do feminino,
Reparem bem: finalmente
O artista faz o pino:
Não quer mais palavras ocas,
Diz que vai casar, e fá-lo!
Todos falam, eu não falo,
Porque, enfim, este relato
Não estuda o psicológico,
Só mencionando o contrato
Pré-nupcial, como é lógico.

Mas rainha dos escândalos,
Direi que é, seguramente,
A mais nova das princesas,
A par, evidentemente,
Da celebérrima inglesa,
De que já seguidamente
Falarei. A monegasca,
Talvez a mais dissidente
Da prática de viver
Estatutariamente,
Sempre se esteve nas tintas
Para o socialmente
Correcto. Mas ninguém sabe
Se age conscientemente
Ou p’ra chamar a atenção,
Como eterna adolescente.
Só que lhe assiste o direito
De agir livre, livremente.
Experimentou as drogas,
Casou repetidamente,
Um marido guarda-costas,
Teve, outro, também valente,
Que foi domador de feras,
Menos dela, resistente.
Até deu voz a canções,
Quis viver intensamente.

Chego agora a Inglaterra
Onde a “princesa do povo”
Trouxe dentro de um sorriso
Ao país um reino novo.
Do olhar cândido e belo
Das crianças que educava
Recolheu a inocência
Que nos olhos se estampava.
Viu-a o herdeiro do trono
Na sua simplicidade
E naquele mesmo instante
Regressou à mocidade.
Ele, p’ra quem o casamento
Parecia ser martírio,
Anunciou o noivado,
O reino entrou em delírio.
Casam. Têm dois rebentos,
A seguir espreita o perigo:
Ela diz que ele o trai
Com um amor já antigo.
Ele cai, ela reage
E cai também. Mas que queda!
Não está com meias medidas,
Paga co’a mesma moeda.
Passa a andar com uns e outros
(Cada qual por sua vez),
Desde empregados da corte
Até um paquistanês.
E com vista a que o marido
Não julgue que eram só ditos,
Ela própria afirma ao mundo
Que lhe anda a pôr os palitos.
Abomina paparazzi,
Mas alguém diz, com razão:
Haveria paparazzi
Se existisse discrição?
E é com o amante egípcio
Por quem tem paixão ardente
Que em cega noite de amor
Morre em trágico acidente.
O viúvo regressou
Aos braços do amor primeiro,
Ainda a mãe ocupa o trono,
Continua ele herdeiro.
Os rebentos estão uns homens
Iguais ao resto da malta
– Iguais é como quem diz,
Que dinheiro não lhes falta
Nem espaço no palácio
(Quartos eram às dezenas)
Para uma farras valentes
Com umas valentes pequenas.
O mais velho namorou,
Depois de um tempo, acabou
Com o namoro. Passada
Uma temporada larga,
Reencontra a namorada
Exibindo em passerelle
Um vestido transparente.
Arrepiou-se-lhe a pele,
E então voltou à carga,
Ficando ali já assente
Noivado e casamento.
Chegado o grande momento,
Todo o reino e mundo unido
Assistia comovido
Ao casório sem igual.
Depois, na vida real,
No palácio ela vivia
Em solidão, e olhava
Para o ar a ver se o via,
Enquanto ele pilotava
O helicóptero. Assim,
Rainha quando ele for rei,
Longo ano se passou,
E finalmente, feliz,
A princesa engravidou,
Antes não. Porque não quis
Ou não quis ele? Não sei.
O mais novo embriagou-se,
Encheu manchetes, drogou-se,
Fez trinta por uma linha,
Pondo os nervos da rainha
Em franja, à flor da pele,
Pobrezinha Isabel.
Não dando às miúdas negas,
Foi em pelota, em Las Vegas,
Que deu mais sentido à vida,
Exibindo o rabo ao mundo
(Vendo bem, é o que no fundo
A nobreza faz, vestida).
Mas antes fora nazi,
Vestiu-lhe, ao menos, a farda.
O que é cíclico repete-se,
Assim, qualquer dia mete-se
Noutro escândalo, não tarda.
A rainha, abelha-mestra,
A tudo assiste, impotente
Para travar a dinâmica
Moderna. Porque esta gente
Usa pente de oiro fino,
Topo de gama é o carro,
Tem sapatinhos de prata,
Contudo tem pés de barro.
Mas como os reis é que mandam,
Não se lhes nota fraqueza
– Virtude da realeza.
Ao povo, sempre mandado,
Já nada causa estranheza.

Lauro Portugal, in “Versos Inversos”, Prefácio, 2009 (adapt.)