quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

NATAL,Sábado e a Tentação do Farisaísmo - PAULO RANGEL in Público de 27 do 12


1.No dia 21 de Dezembro, na
apresentação de votos natalícios
da Cúria romana, o Papa Francisco
fez um discurso veemente e até
severo. Falando sobre os serviços
da Cúria que se dedicam às
relações com o mundo exterior,
foi especialmente duro para com
os destinatários do discurso.
Começou por fazer a denúncia
do risco de fechamento da Igreja sobre si
própria, evocando mesmo o conceito de
“auto-referencialidade”. Foi mais longe e
visou aqueles que constituem obstáculo
à realização de reformas, que vivem dos
grupúsculos e das intrigas de corte, que
se arvoram em vítimas e até que traem a
confiança neles depositada. Mais uma vez,
o Papa Francisco apontou para uma Igreja
aberta ao mundo e que nele esteja ao serviço
dos valores da pessoa.
Por razões que não vêm ao caso, neste
Natal revisitei um texto que escrevi, por
volta de Junho, sobre a passagem do
Evangelho de Mateus relativa à observância
do sábado (Mt 12, 1-13). Passagem, aliás,
sobejamente conhecida e que tem
correspondência em narrações nos outros
dois Evangelhos sinópticos de Marcos
e de Lucas (Mc. 3, 23-28 e Lc 6, 1-11). As
diferenças de texto são belíssimas e põem
em evidência a riqueza de perspectivas
que a personalidade de Jesus suscita, mas
o seu sentido é unívoco: a substância está
acima da forma, a pessoa tem supremacia
sobre o rito, o próximo prevalece sobre a
instituição.
Diante da mensagem de Francisco e tendo
tropeçado nessa breve reflexão sobre aquela
dúzia de versículos de Mateus, talvez esteja
aqui também um ângulo adicional para olhar
o espírito do Natal.
2. Normalmente, alude-se a esta passagem
com uma formulação de Marcos que, por
sinal, não se encontra no texto de Mateus: “O
sábado foi feito por causa do homem e não
o homem por causa do sábado” (Mc 2, 27).
Mas a narração de Mateus tem vários incisos,
verdadeiramente fundamentais, que vão
muito para lá do questionamento do rito.
Dois deles merecem seguramente atenção.
Primeiro: “E se compreendêsseis o que
significa: prefiro a misericórdia ao sacrifício,
não teríeis condenado os que não têm
culpa” (Mt 12, 7). “Prefiro a misericórdia
ao sacrifício” são três palavras de Jesus —
que cita o profeta Oseias — que resumem
toda a sua mensagem. Jesus, que se dispôs
a fazer o maior dos sacrifícios, diz sem subterfúgios: “Prefi ro a misericórdia ao
sacrifício.” Só esta frase, porque sintetiza
com tanta simplicidade o ensinamento de
Jesus, já justificaria a atenção que concita
esta passagem.
3. Segundo: “E nunca lestes na Lei que, ao
Sábado, os sacerdotes no Templo violam o
Sábado e ficam sem culpa? Ora, eu digo-vos
que aqui está Quem é maior que o Templo”
(Mt. 12, 5-6). Jesus fala de Si e diz que Ele
próprio é maior que o templo. Este dito
lembra imediatamente a afirmação de Jesus,
descrita pelos evangelistas: “Destruí este
Templo e eu o reconstruirei em três dias”
(Mt 26, 61; Mt 27, 40; Mc 14, 58; Mc 15, 29; Jo
2, 19-20). O templo de Jerusalém demorara
46 anos a construir, Jesus afirma-se capaz de
o reerguer em três dias. Ora, como esclarece
João, Jesus afinal falava de Si ( Jo 2, 21): Ele era
o templo, seria destruído pela crucificação e
ressuscitaria ao 3.º
dia.
Qual a
importância desta
assunção de Jesus,
note-se, não como
sacerdote, mas sim
como templo? Ou
como “algo” ainda
maior que o templo?
Esta comparação
marca uma
diferença essencial
entre o cristianismo
e outras religiões, no
caso, a judaica. Ser
cristão não é aderir
a uma doutrina, a
uma Lei, a um corpo
de princípios, de
ritos e de práticas.
Ser cristão é aderir a uma pessoa e essa pessoa é Jesus. O que
identifica os cristãos não são os ritos nem os
lugares sagrados que frequentam, o que os
identifica é seguirem Cristo. O templo dos
cristãos não é a “Igreja-instituição” com a
sua hierarquia, a sua cúria, a sua doutrina,
as suas regras. O templo dos cristãos não são
também as “igrejas-edifícios”, os sucedâneos
de sinagogas ou mesquitas. Não. O templo
dos cristãos é Jesus. Ser cristão é aderir a
uma pessoa; Jesus é, pois, neste preciso
sentido, o templo. E porque ser cristão é
aderir a essa relação pessoal, a essa relação
íntima, pode talvez dar-se ainda um passo
mais. Cristo é o templo dos cristãos e estes
são os templos ou o templo de Cristo. Com
efeito, foi Jesus quem disse: “Pois onde
estiverem reunidos em Meu nome dois ou
três, Eu estou no meio deles” (Mt. 18, 20). As
igrejas são templos de Cristo, apenas porque e quando nelas alguém se reúne em Seu
nome. O templo não é o edifício, o templo
são as pessoas. Porque Cristo é templo, os
humanos, que são a Sua Imagem e a Sua
semelhança, estão chamados a ser também
os Seus templos.
4. Deixando de lado estes dois incisos,
voltemos ao sábado e ao ensinamento que
deixa Jesus. Todos sabem o que pretende
Jesus: não há ritual nem preceito religioso
que prevaleça sobre o amor e sobre a prática
do bem. Se sou muçulmano, devo guardar
a sexta, se sou judeu, o sábado, se sou
cristão, o domingo. Mas se o meu irmão ou
até a minha ovelha precisar de mim, não
há nem sexta, nem sábado nem domingo.
Como escrevem os evangelistas: “O Filho do
Homem até do Sábado é Senhor” (Mt 12, 8;
Mc 2, 28; Lc 6, 5). E já agora uma achega que
não é menor, a tradução Filho do Homem
não é exacta: em bom rigor, deveria dizer-se
Filho do Humano ou Filho da Humanidade.
Como esclarece Frederico Lourenço, no
original grego é usada a palavra antropos,
que significa “humano” ou “ser humano” e
não andros, que, essa sim, designa homem
no sentido de “homem-varão”. Jesus é
o Filho da Humanidade, não o filho do
Homem; de resto, é muito mais belo e justo
tratar Jesus por Filho da Humanidade do que
por Filho do Homem.
Jesus é veemente e não faz concessões:
por mais que os fariseus, os fanáticos, os
fundamentalistas, os beatos achem que é
heresia ou blasfémia trabalhar ou curar ao
sábado, Ele responde e dá uma resposta
sem hesitação: “É lícito praticar o bem ao sábado” (Mt. 12, 12).

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

NATAL: BIOLOGIA OU CRISTOLOGIA? Frei Bento Domingues, O.P.


1. A Eucarística do passado Domingo começou com um manifesto poético e musical centrado na alegria do Evangelho. Esta flor da fé cristã é, muitas vezes, sufocada por regras, preceitos, proibições e rezas que a cobrem de tristeza. Quando um membro da assembleia celebrante lembrou que o Papa Francisco fazia anos, o canto e as palmas festejaram nele a esperança de um mundo outro e de uma Igreja outra, interpelada a destruir todos os muros.

Estaremos hoje a celebrar os anos do menino Jesus? Não são as incertezas históricas acerca do dia, do ano e do lugar de nascimento que impedem essa festa. O Natal é a evangelização inculturada de uma festa cósmica e política do império romano.[1] Não se manifesta como a primeira preocupação dos escritos cristãos.

S. Paulo não mostrou particular interesse pelo itinerário terrestre de Jesus de Nazaré. Era, como toda a gente, nascido de uma mulher. Neste caso sob a Lei judaica que ele julgava ultrapassada. Nada indica que o tivesse conhecido pessoalmente. A sua experiência é de ter sido sacudido até às raízes por Jesus ressuscitado. Viver com Ele era o que lhe interessava e convencer as outras pessoas de que a morte tinha sido vencida. Esta não era a última palavra sobre a existência humana[2]. A ressurreição realizava o eterno encontro com Jesus na glória do Deus vivo. Para S. Paulo, o mundo estava a chegar ao fim. Habitar com Ele para sempre era o seu grande desejo. A sua tarefa evangelizadora destinava-se a mostrar a todos que a última estação da viagem da vida não era a morte. Essa era só a penúltima. Insiste, na primeira Carta aos Tessalonicenses, o primeiro escrito do Novo Testamento (NT), que nem os que morreram há muito tempo nem os que morrem agora, estão perdidos. O Senhor virá ao encontro de todos. Sente a urgência em dizer isto por causa da alegria que descobriu nessa esperança[3]. Em questão de prazos, S. Paulo tinha-se enganado. Na Segunda Carta tem de corrigir a sua precipitação, pois o resultado foi catastrófico: alguns dentre vós levam a vida à toa, muito atarefados a não fazer nada. A ordem que vos deixei foi esta: quem não quer trabalhar que não coma[4] e acabam as vãs especulações.

S. Pedro, na Segunda Carta, resolve a questão do tempo de forma muito mais aleatória: um dia diante do Senhor é como mil anos e mil anos como um dia[5].

2. Como o fim nunca mais vinha, as comunidades cristãs não podiam viver só da pregação de que o crucificado era, agora, o ressuscitado para sempre[6]. Não tinham conhecido Jesus de Nazaré nem acompanhado o seu percurso. Era preciso quem contasse o que se tinha passado para quando já não houvesse ninguém para dizer: eu vi, eu sei como foi. Sem isso, como interpretar o sentido da revolução do Nazareno para os novos tempos?

Assim nasceram, no seio das comunidades cristãs, diversas pela geografia e pela cultura, diferentes narrativas. S. Lucas explica essa situação de forma muito clara: Visto que muitos já tentaram compor uma narração dos factos que se cumpriram entre nós – conforme no-los transmitiram os que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e servidores da Palavra –, a mim também me pareceu conveniente, após acurada investigação de tudo, desde o princípio, escrever-te, de modo ordenado, ilustre Teófilo, para que verifiques a solidez dos ensinamentos que recebeste[7].

Nasciam, assim, as Cristologias Narrativas. A primeira, a de S. Marcos, começa por apresentar Jesus a pregar o Evangelho de Deus. O tempo está pronto e o Reino de Deus está próximo. Mudai de mentalidade e acreditai no Evangelho.

Marcos começa pelo fundamental. Mas a curiosidade não está satisfeita. Este Jesus nasceu adulto? Mateus e Lucas escreveram aquilo a que se chama, impropriamente e de modo diverso, os Evangelhos da Infância. Apresentam a alegria do nascimento de Jesus e de João Baptista. Aí, começam as confusões.

Ao não se ter em conta que são admiráveis narrativas teológicas, desliza-se para uma biologia de conveniência que acaba por ocultar o essencial. Continua-se a discutir a forma como Jesus foi concebido e como nasceu. Não faltaram as declarações mais absurdas: Nossa Senhora, virgem antes, durante e depois do parto. Jesus passou por Maria como o sol pela vidraça.

Ao evitar a reflexão, sobre os textos, sobre o seu tecido simbólico e sobre os seus jogos de linguagem, recorre-se a algo muito certo - a Deus nada é impossível -, mas resvala-se para concepções pseudo-milagrosas que deixam mal o Espirito Santo, Maria de Nazaré, Jesus e S. José. Perdeu-se a beleza e a verdade dessas espantosas narrativas. Quando se procede assim, pode-se perguntar: então porque é que não se ficou apenas com o Evangelho de S. Marcos?

3. Os textos do NT interpretam o sentido cristão do Antigo: Jesus Cristo realiza, corrige e supera as esperanças não só de Israel, mas de toda a humanidade. O movimento cristão é um movimento de saída universalista. Está na sua lógica derrubar os muros criados entre povos e religiões. Jesus Cristo é, na sua própria pessoa, a reconciliação. Como dirão os textos: Ele é a nossa paz[8]. Estas declarações interpretam o sentido da prática histórica de Jesus de Nazaré. Isto que se nota nas narrativas da sua vida adulta não é fruto do acaso. É fruto de um desígnio de Deus. O seu agir espantoso não era uma sucessão de milagres. Era Deus no tecido de uma vida humana, igual a nós excepto na maldade. Nasce humano e foi crescendo em idade, sabedoria e graça, perante o espanto de Maria[9]. O Emmanuel não é só Deus connosco, é um de nós.

Não nasce só de Israel e para Israel. Nasce de toda a humanidade e para toda a humanidade, como mostra a genealogia de Lucas: filho de Adão, filho de Deus[10].

As narrativas do NT nasceram para continuar a prática de Jesus na vida das pessoas e das comunidades. Isso aconteceu há 2 mil anos. Às vezes caímos na tentação de pensar que basta uma nova linguagem da Fé para os dias de hoje. É um pensamento justo e curto. São indispensáveis narrativas que contem as histórias de vida do encontro do Evangelho da Alegria com as situações actuais da nossa humanidade. Se não exprimirem esse encontro real, só podem produzir reportagens de literatura barata.

O Papa Francisco sabe que a Igreja não tem de resolver os problemas de há dois mil anos. O que o preocupa é o casamento vital da Igreja com as situações que precisam de um hospital de campanha. O importante não são as festas do Natal, mas a transformação da vida numa festa para todos. Como ele diz:

A luz de Natal és tu quando com uma vida de bondade, paciência, alegria e generosidade consegues ser luz a iluminar o caminho dos outros.

Boas Festas!

24. 12. 2017



[1] José Manuel Bernal, Para Viver o Ano Litúrgico, Gráfica de Coimbra, 2001
[2] Cf. 1Cor 15
[3] 1Ts 4, 13-18
[4] 2Ts 2 – 3
[5] 2Pd 3, 8-14
[6] 1Cor
[7] Lc 1, 1-4
[8] Ef 2, 14 ss
          [9] Lc 2, 41-52
[10] Lc 3, 23-38; comparar com Mt 1, 1-17

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

PROJETOS DE NATAL 2 ...Martinho Rebelo Mota


                                   *  

                Natal

 do Norte...

Embrulhado em frio...

Branca neve... Acolhimento...

Convida à Paz...Traz aconchego!

 Natal

    do Sul...

   Pleno do estio...

Branca luz em céu azul...

Coração quente... em toda a Gente!

Num

embrulho

festivo e aconchegante

de calor, que nasça Amor e sossego...

Que

Sempre brote em Paz...

O sentido do divino, em todo o Mundo...

Porque o Natal faz Pequena a Terra grande!

Com

Laços Natalícios

De Pessoas a Nações...

Além do Mar longo e profundo,

Das ânsias

e dos longes da distância...

Enriquecido pelas meigas e lindas tradições

Seja um  bom Natal a transbordar além das canções!

Num

Sentimento

Fraterno e singelo...

“Aquele sincero Abraço!”

Em forma simples de um Coração...

De onde me encontro... irradiando a todo o lado...!

Mas...

Na Grande Aldeia...

Já somos primos e irmãos!?

Um certo dia... Que pode vir a ser

Esse do Bom Natal, solene da Paz e da Alegria…

Alguém...

Vai recordar

com imensa gratidão…!?

Se a nossa quota-parte foi bem feita...

 Por tanto de marcante assumido por esta geração!

Tudo

E o quanto de feliz

que nós arcámos, fizemos e vivemos…

Enquanto a Terra esteve em nossas livres mãos?!



***********************************

***

Boas Festas de Natal, na sobriedade...

E um Feliz Ano Novo!

 Martinho Rebelo Mota.- (Texto-MRM-Aveiro-12-2000.)


PROJETOS DE NATAL 1…Marinho Rebelo Mota


           PROJETOS DE NATAL…







Projetos de Natal… Para qualquer Amigo...
Ter presente todo o Ano...!   
Tem coração a vibrar …
E pronto para amar...
Quem...
Grato no receber… é humilde na grandeza de dar...!

Tempo de Natal...!
Pilar de uma Cultura...
Com laços de ternura …
De pessoas a nações...
Que...
Se faz musa dos simples… e fonte de canções...!

Tempo de Natal...!
Não importa vento ou neve...
É brisa e chuva leve …
A inundar-nos de frescura...
Que...
Fecunda a Terra e a embebe… sedenta, crua e dura!

Tempo de Natal...!
Impõe-nos um olhar de criança...
Pleno de esperança,
Com outra nova luz, sobre a vida...
Que...
Para tantos se desencanta… bem madrasta e tão dorida!?

Tempo de Natal...!
Recheio de transcendência,
Para carregar baterias …
De otimismos reais,
Que...
Temperam o dia-a-dia…com o valor “MAIS”...!

Tempo de Natal...!
Nobre e arrojado convite...
Ao percurso contrário…
De irradiação transbordante,
Que...
Fazemos no vão fadário… da correria constante...

Tempo de Natal…!
Singelo, sentido e sóbrio…
Tão sublime o entende…
Das coisas fúteis liberto,
Quem…Traz o Amor… sempre vivo e por perto!

Tempo de Natal…!
Partilha energia de doçura...
Na mesa, em família…
Em festiva ceia…
Quem…
Livre, tem de Paz e Bem… a riqueza da alma cheia!

Tempo de Natal...!
Traz, tão paulatinamente,
Aragens de Divino …
No humano a perpassar...
Que...
Transformam até o lamento… em vontade de Cantar...!   

Tempo de Natal…!
Quadra de Além-desejo…
Que, em cada rosto que vejo…
Destrinça traços de irmão…
Que…
Promovam vias e passos… capazes de designar o mundo uma só Nação!
   
Tempo de Natal...!
Desprendido na plenitude...
Não vende Felicidade …
E tudo do mais nobre...
Quem...
Celebra, em dignidade, a virtude de saber… o sentido de ser pobre!

Tempo de Natal...!
Só despido de jogos de luz...?!
Mais real, o da manjedoura…
Pode ser o herdeiro...
Que...
Nos remete ao verdadeiro... onde ainda nos pode nascer Jesus!

Tempo de Natal...!
Festa nas alturas?! Nos Céus...?!
Brotam, entre o povo…
Gestos de ternura...
Que...
“Fazem” nascer de novo… o Menino-Deus!

……………………………….……


(Cada estrofe do texto, pode ser considerada em separado).
Aveiro. Texto.12-1999-MM99.  
Martinho Rebelo Mota


.





quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

VOTOS DE UM SANTO NATAL PARA TODOS


Caros Colegas e Amigos

Em nome da " Direcção" da Associação dos Antigos Alunos Combonianos
venho apresentar-vos os nossos votos de um Santo Natal e de um 2018
cheio de saúde e felicidades para todos e vossas famílias. Nestes
momentos de reunião familiar, real ou em espírito, é tempo de
recordarmos todos os nossos antigos colegas com quem vivemos , um ou
mais anos, a preparação do Natal à moda comboniana: os presépios
monumentais, as preparações litúrgicas, o teatro, os cantos....Que estas
recordações nos animem e ajudem a estreitar laços com todos os nossos
amigos ...e não só.

Aproveito  a ocasião para vos informar que por comunicação do Provincial
o Irmão Valentim cedeu o seu posto de representante do Instituto junto
da Associação ao Pe. Avelino Maravilha`s` que regressa assim à função
que já teve antes da sua ida para o Chade. A "direcção" está muito grata
ao Ir. Valentim pelo seu apoio ao longo destes anos e espera do Pe.
Avelino o entusiasmo de outros tempos no acompanhamento das nossas
actividades.

Um grande abraço para todos e um Santo Natal

António Pinheiro


Estimado Dr. Pinheiro e demais membros da Direcção da Associação de Antigos Alunos Combonianos (AAAC),
Paz e alegria no Coração de Jesus, «que amou até ao extremo».
O Ir. Valentim Rodrigues pediu para ser substituído no acompanhamento da AAA-Combonianos dada a idade e os muitos afazeres na comunidade da Maia.
O Conselho Provincial (CP) acolheu o pedido e nomeou como novo acompanhador da AAAC o P. Avelino Gonçalves da Silva Maravilha (em cópia).
O CP agradece a disponibilidade do P. Avelino para assumir o encargo e pede as bênçãos de Deus para o seu trabalho e para a AAAC através da intercessão de São Daniel Comboni.
Abraço-o com carinho
P. José Vieira


terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Padre comboniano intervém no Parlamento Europeu 19 de Dezembro de 2017

No passado dia 22 de Novembro, o P. Giulio Albanese falou no Parlamento Europeu, em Bruxelas, a convite do presidente Antonio Tajani.

Foi-lhe pedida uma reflexão sobre a África em vista da quinta Cimeira entre os Chefes de Estado e de Governo dos dois continentes (29 e 30 de Novembro, em Abidjan, Costa do Marfim), sobre o tema “Investir na juventude por um desenvolvimento sustentável”.

Aos líderes da África e da Europa, o missionário recordou que “à globalização dos mercados deve necessariamente corresponder a globalização dos direitos dos povos”.

Aqui o texto completo do seu discurso, em italiano.

Fonte: Comboni.org

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

JESUS NASCEU PARA DESCRUCIFICAR Frei Bento Domingues, O.P.


1. Estamos na quadra litúrgica do Advento, mas tudo parece encenado e polarizado apenas pela memória do nascimento de Jesus, alimentando um terno imaginário da infância, com alguma e passageira solidariedade, própria da estação, sem, no entanto, tocar nos alicerces da sociedade. É como se nada estivesse para acontecer.
Os textos das celebrações do Advento vão, pelo contrário, noutra direcção: é hoje que podemos acolher a graça da nossa transformação interior que nos associe, de forma activa, às mais diversas iniciativas sociais, culturais e políticas da construção de uma cultura da justiça e da paz, a nível local e global. O Espírito do Natal é Aquele que suscitou o canto subversivo de Maria de Nazaré.
As preocupações com as indispensáveis reformas das “cozinhas eclesiásticas” da Igreja, se não estiverem centradas no estilo da prática história de Jesus Cristo e nas urgências dos mais carenciados das nossas sociedades, acabam por nos fazer esquecer que somos nós, a Igreja, que precisamos de reforma permanente.  
Frederico Lourenço – a grande figura portuguesa da cultura bíblica fora das sacristias – recorda-nos que os Evangelhos têm, ainda hoje, em 2017, o potencial para mudar o mundo para radicalmente melhor. Sublinha comovido: “Jesus Cristo, com as palavras que lhe são atribuídas nos quatro evangelhos, é a figura que mais me interessa. Continuo a achar que, independentemente de ele ter dito aquelas palavras ou não, elas são as coisas mais extraordinárias que foram ditas à face da terra. Por exemplo, quando leio para mim o Novo Testamento estou num mundo maravilhoso que é só meu e me preenche muito, animicamente, espiritualmente. Apesar de ser um linguista crítico-histórico, não sou um ateu a traduzir a Bíblia. Serei sempre, até ao último segundo da minha vida, um apaixonado por esse judeu chamado Jesus de Nazaré”[1].
Muitos anos antes, numa entrevista de 1978, Eduardo Lourenço mostrou a verdade da nossa condição, na própria referência cristã: “Cristo é o momento (sem limite de tempo) em que a humanidade tomou forma humana. (…) Foi crucificado, não por querer ser deus, mas por ensinar o que era ser homem. Dois mil anos passaram sem que esquecêssemos nem aprendêssemos a lição”[2].
Num belo livro, traduzido por José Sousa Monteiro, deparo com a confissão do marxista Milan Machovec: “O coração duma freira desconhecida que se dedica a uma criança incurável, só poderia ser substituída por uma teoria da história, por um estúpido e um idiota (…) Pessoalmente, não me traria grande desgosto o facto da religião acabar. Mas se tivesse de viver num mundo no qual Jesus fosse inteiramente esquecido, então preferia não continuar a viver”[3].
Como escreveu o dominicano E. Schillebeeckx, para Jesus, a história dos seres humanos é a narrativa de Deus acolhido ou recusado[4].
2. Para o imaginário do Evangelho de S. Lucas, a festa do nascimento de Jesus aconteceu num curral iluminado pela luz do céu, acompanhada pela música dos anjos e rodeado de pastores e estrangeiros. Tudo aconteceu à margem do Templo de Jerusalém e dos palácios imperiais. Aliás, Jesus com o comércio do Templo teve uma relação muito agreste e só conheceu os palácios quando estava a ser julgado e condenado à pena capital. A sua coroa foi de espinhos e o seu trono foi uma cruz.
Esta apresentação testemunha um profundo contraste, mas pode cair na perversão do próprio Evangelho de Cristo, sugerindo que Jesus veio sacrificar-se e semear mais sacrifícios no mundo. Porque será mantida a cruz como símbolo cristão, quando o que Jesus procurava era, precisamente, descrucificar?
A minha hipótese de interpretação é outra, bastante simples, mas que importa explicar. A cruz, a sentença de morte mais bárbara e cruel, fazia parte do mundo que Jesus queria mudar. Então, por que continua a funcionar como um símbolo cristão, quando ela é anti-humana, anticristã?
Ao contrário do que se repete há séculos, Jesus Cristo não desejou nem santificou a cruz. Alterou-lhe, porém, a significação de forma radical. Foi-lhe imposta, num julgamento iníquo, por ele recusar trair o seu projecto. Tornou-se, deste modo, o símbolo da fidelidade inquebrantável, o signo da extrema generosidade. A presença de sinais da cruz, desde o baptismo até à morte, diz que é preciso dizer não à crucifixão da vida e dizer sim à generosidade libertadora, no dia-a-dia.
Tudo isto vem confirmado no trecho do Evangelho escolhido para a celebração da Eucaristia, do passado dia 6: estava Jesus sentado junto ao mar da Galileia e uma grande multidão veio ter com ele e lançou-lhe, aos pés, coxos, aleijados, cegos, mudos e muitos outros[5].
Se o mestre fosse um pregador de sacrifícios dizia-lhes: estais mal? Ainda bem. Assim podeis santificar-vos e, um dia, sereis muito felizes no céu.
3. Jesus não acreditava nessa mística. Curou-os e organizou, com pouca coisa, um grande banquete popular. A multidão ficou admirada ao ver os mudos a falar, os aleijados a ficar sãos, os coxos a andar, os cegos a ver e todos a comer até sobrar.
Poder-se-á dizer: porque não deixou a fórmula? Seria uma alternativa muito barata dos serviços de saúde, públicos e privados. Mas ele não veio para nos substituir.
Já na apresentação do seu programa, em Nazaré, ficou claro que o mundo tinha de começar mesmo a mudar. Deus não podia ser o da ira de Iavé, mas o da pura graça do amor. Diz a narrativa evangélica que, nesse momento, os seus conterrâneos o julgaram um subversivo e, por isso, quiseram acabar logo com ele[6].
Os seus comportamentos eram, de facto, estranhos: andava em más companhias, com quem comia e bebia, a ponto de lhe chamarem “comilão e beberrão”; aceitou o convívio de mulheres que não eram todas exemplos de virtude; violava, sistematicamente, o Sábado – o dia mais sagrado da sua religião – com curas que bem podia fazer noutros dias[7].
Não deixou fórmulas ou receitas que pudessem ser transformadas em rituais. A sua prática é um desafio à imaginação de todos os homens e mulheres, de todos os tempos, a usarem os seus talentos, as suas capacidades, não para cavar distância entre ricos e pobres, mas para as eliminar, pois, não suporta ver uns à porta e outros à mesa, uns em banquetes requintados e outros na miséria[8].




17. 12. 2017





[1] Frederico Lourenço, Entrevista, in Ler, Outubro 2017, nº 147
[2] Eduardo Lourenço, in Opção, nº 97, pp. 2-8, Março 1978
[3] Cf. VV. AA., Os marxistas e Jesus, Iniciativas Editoriais, Lisboa 1976, pp. 88 e 98
[4] Edward Schillebeeckx, L’histoire des hommes, récit de Dieu, Cerf, Paris 1992.
[5] Mt 15, 29-37
[6] Lc 4, 16-30
[7] Lc 7; 8; 13, 10-17
[8] Lc 16, 19-31