sábado, 3 de março de 2018

O regresso dos profetas - JOÃO CESAR DAS NEVES

Saber o futuro é algo que a humanidade sempre quis. Por isso nunca faltou quem diga saber o que irá acontecer. Antigamente chamavam-lhes feiticeiros ou profetas. Hoje são futurólogos, e muito menos credíveis.
A religião já não pretende ter a antevisão deste mundo pecador. Na escritura judaica, Deus ficou silencioso após Malaquias, o último dos profetas bíblicos, e a sua revelação definitiva, em Jesus ou Maomé, dispensou tais mensageiros. Claro que persistem horóscopos e adivinhos de muitas proveniências, mas o seu prestígio decaiu com o avanço da civilização. Por isso surpreende a enorme quantidade de pessoas que, em conferências pomposas ou conversas de café, afirmam conhecer a evolução próxima do planeta. Com a agravante de, ao contrário dos antigos videntes, não afirmarem ter informações transcendentes ou encantamentos poderosos. Limitam-se a garantir que, só por serem mais espertos do que nós, conseguem ver o que aí vem.
O ponto de partida de todas essas antevisões é sempre igual: o mundo mudou radicalmente, e ainda mudará mais nos próximos tempos. Por isso tudo o que sabemos acerca da realidade deixou de ser válido. Em todos estes cenários é sempre palpável o orgulho pela superior inteligência que deslumbra as massas ignaras. Faz parte do exercício uma implícita comiseração pela ingenuidade do cidadão comum, continuando na vidinha de sempre, desconhecendo as certezas que o iluminado orador prevê com segurança.
É espantoso como, em geral, esses especialistas não se dão conta de que o seu postulado destrói tudo aquilo que eles dirão em seguida. Se o mundo está a mudar assim tanto, se é ambíguo, volátil, complexo e incerto, então, por muito espertos que eles sejam, as previsões são virtualmente impossíveis. Uma das poucas certezas, em situação tão extrema, é que tudo o que é antecipável com os nossos dados não se verificará. Assim, aquilo mesmo que destaca os futurólogos dos analistas comuns é precisamente o que invalida as suas conclusões.
Basta ler a ficção científica das décadas passadas acerca do mundo actual, muitas delas concebidas em tempos bastante mais serenos, para notar como esses esforços falharam fragorosamente. Ora, hoje, precisamente pela aceleração do desenvolvimento, a taxa de mortalidade dos cenários aumentou imenso e os prognósticos feitos há poucos anos já estão totalmente ultrapassados. Como podem convencer-nos de que os de 2018 serão válidos?
Depois de nos assegurarem que são capazes de compreender algo que o comum dos mortais não entende, seguem-se as conjecturas, e essas existem para todos os gostos. A tecnologia, que nestas coisas é sempre a protagonista, vai trazer-nos avanços inacreditáveis ou perigos avassaladores. Por isso, desde os paraísos mais maravilhosos às piores catástrofes, há de tudo nas visões dos futurólogos profissionais ou amadores. Em geral, essas visões mais não são do que extrapolações de realidades actuais que, por muito recreativas que sejam, permanecem bastante ociosas.
Mais importante, esses visionários costumam esquecer dois aspectos essenciais. O primeiro é que o homem é o que é. Certos traços da humanidade ressurgem sempre, mesmo em envolventes muito diferentes. Dentro de si, o ser humano não mudou muito desde as cavernas, até quando usa apps ou sabe cindir o átomo. Por isso o mundo nunca é tão ambíguo, volátil, complexo e incerto quanto dizem. O segundo é um princípio económico elementar: as pessoas reagem a incentivos. Quando as condições mudam, os comportamentos ajustam-se, mesmo daqueles que não ligam a previsões brilhantes, invalidando as conclusões deduzidas a partir da sociedade actual.
O pior desta atitude progressista é a moral anexa: o novo é bom, o passado está morto. Por isso, quando alguém diz ter o futuro no bolso, acha-se com direito a destruir aquilo que considera obstáculo obsoleto. Foi isso que justificou a barbárie da guilhotina jacobina ao "grande salto em frente" maoista. Hoje, em tempos que por enquanto são mais serenos, os efeitos são igualmente nefastos, alimentando enorme quantidade de disparates, da política à justiça, dos mercados à educação.
A educação, por exemplo, existe hoje no novo mundo da interconectividade digital, realidade virtual e redes sociais omnipresentes. Mas ninguém diz que debaixo de toda essa parafernália tecnológica está um miúdo igual ao avô e ao bisavô, que precisa de ser amado e orientado. A grande diferença entre ele e os antepassados não é a envolvente informática. Aquilo que se passa no Facebook ou no YouTube é quase igual ao que antes acontecia nos recreios e tabernas. É só menos variado porque antes cada bairro inventava a sua anedota, e na aldeia global todos riem ao mesmo tempo do mesmo post. Aquilo que realmente distingue a geração z das anteriores é que, como os jovens são o futuro, pais e professores, nascidos no século passado, acham ter de se adaptar a eles, desistindo de os educar para não parecerem antiquados.
Diário de Notícias, 3-3


terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

SERÁ PROIBÍDO FALAR BEM DA IGREJA - João Teixeira

1.É certo que não podemos branquear o mal. Mas
será correcto esquecer tão ostensivamente o bem?
Dizem que o positivo não vende e que só o negativo
rende.
2. «A boa notícia não é notícia».
Eis uma sentença que também parece contaminar alguns
sectores da nossa Igreja.
3. Por vezes, dá a impressão de que decalcamos o temperamento
depressivo que o Padre Manuel Antunes reconhecia
nos portugueses.
De facto, também em nós, cristãos, «o negativo prevalece
sobre o positivo, os defeitos sobre as qualidades e os defeitos
das nossas qualidades sobre as qualidades dos nossos defeitos».
4. Com tanta predisposição para publicitar as suas fraquezas,
até parece que na Igreja nada há de positivo.
Acontece que isto, além de não ser justo, está longe de ser
verdadeiro.
5. Mas o mais intrigante é que estas notícias e opiniões não
vêm apenas de fora.
Muitas vezes é de dentro que surgem palavras de censura,
que rapidamente encontram altos índices de aprovação.
6. Esta situação contribui para criar um ambiente «eclesiodepressivo
» e uma mentalidade «eclesiofóbica».
Parafraseando uma conhecida máxima, dir-se-ia que, acerca
da Igreja, só o mal – não o bem – cá para fora vem.
7. Porque é que – sem vaidade, mas também sem vergonha
– não acendemos as luzes, que excedem em muito as sombras?
Será proibido falar bem da Igreja? Será que a única forma
de «debater» a Igreja é «bater» na Igreja?
8. Porque é que havemos de ocultar aquilo que o mundo
deve à Igreja?
Como apurou o reputado académico Thomas Woods, foi a
Igreja que introduziu as bases do sistema universitário e do direito
internacional. E que pensar da rede mundial de assistência
aos mais pobres que a Igreja continua a assegurar?
9. A moldura da Europa foi desenhada sobretudo a partir
dos mosteiros.
Réginald Grégoire, Léo Moulin e Raymond Oursel certificam
fartamente como os monges ao fervor espiritual aliaram sempre
um forte progresso civilizacional. Foram eles que lançaram centros
de ensino, redes de fábricas e até métodos de criação de gado.
10. Enquanto «tangibilidade histórica da presença de Deus»
(Karl Rahner), a Igreja é portadora de um legado muito belo,
que nos devia encher de alegria e inundar de gratidão.
As suas falhas são o preço que ela paga por não excluir ninguém.
Como bem percebeu Henri de Lubac, a Igreja «não é
uma academia de sábios nem uma assembleia de super-homens
». Pelo contrário, «os miseráveis de toda a espécie têm
cabimento na Igreja». Não são eles os que mais precisam dela?
( In Diário do Minho)

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Convocatória da AG ELEITORAL _03Março18_10:00_Convento Franciscano Montariol

Ex.mos Senhores

Conforme solicitado na convocatória enviada no passado dia 5/2/2018, agradecemos que nos informem quem vem representar a v/ Associação na Assembleia Geral da Primavera, que terá lugar no próximo sábado, dia 3/3/2018, e sobre o número de pessoas que deseja almoçar no Convento de Montariol.

O prazo limite era o dia de hoje - 25/2/2018 - pelo que pedimos o favor de nos responder até amanhã de manhã - dia 26/2/2018.

Apelamos à vossa colaboração!

Pelo Secretariado
Isabel Oliveira




www.uasp.pt | Faceboock.com/uasp



domingo, 25 de fevereiro de 2018

PORQUE SERÁ QUE A ALEGRIA DO AMOR DÁ TANTA TRISTEZA Frei Bento Domingues, O.P.


1. A violenta controvérsia sobre os divorciados recasados e o seu acesso à comunhão eucarística continua a agitar as comunidades católicas de todo o mundo. Porque será? Não tenho resposta pronta a servir. O teólogo dominicano, Ignace Berten, escreveu um livro admirável para que ninguém caia nessa tentação[i]. Segue o método de transcrever os textos das posições mais típicas e só no final imite a sua bem informada perspectiva. Não lhe interessa, unicamente, discutir as três realidades acerca da família que foram objecto de questionamento e de controvérsia, sobretudo, as que dizem respeito à contracepção, que põem em causa a doutrina da Humanae Vitae, o acolhimento dos divorciados recasados pela igreja, o acesso à comunhão, os homossexuais e a relação homossexual.

 Os debates mais vivos dizem respeito aos divorciados recasados. Têm sido os mais apaixonados e, por vezes, violentos.

João Paulo II, na sua exortação apostólica Familiaris consortio de 1981, no seguimento do primeiro Sínodo sobre a família (1980), excluía qualquer possibilidade de acesso à comunhão dos divorciados recasados, a não ser que se comprometessem a viver como irmão e irmã. Em certas dioceses existia uma pastoral desse estilo. No entanto, em meados dos anos 70, na Bélgica, já tinha nascido uma outra perspectiva pastoral. Em 1993, na Alemanha, alguns bispos promoveram de forma pública, uma pastoral de abertura. Em 1994, a Congregação para a Doutrina da Fé (GDF) interveio condenando essa prática e não podendo, nesses casos, fazer apelo à consciência.

Mas os factos são o que são e, nos Estados Unidos e na Europa, a proporção de divorciados em relação aos casamentos atinge muitas vezes os 30 a 40%. Dessa situação surgem um recasamento ou, pelo menos, a constituição de um novo casal.

O mal-estar cresce cada vez mais e as tentativas pastorais que impõem uma vida de celibatários a estas pessoas, por vezes muito jovens, torna-se ilógica e, para alguns, escandalosa.

Neste momento, desenham-se três atitudes típicas: uma apoia a abertura pastoral do Papa Francisco; outra regressa à opinião de João Paulo II e, a mais radical, classificou este Papa como herético e já identificou as suas numerosas heresias.

O livro de Ignace Berten documenta, citando sempre as fontes, cada uma destas posições. Mas o que lhe interessa é mostrar o que se joga, em cada uma delas, quanto ao entendimento do que deve ser a pastoral da Igreja. Parte do Vaticano II e da audácia do Papa João XXIII ao convocar um Concílio pastoral sem cedências à oposição fictícia entre doutrinal e pastoral. Pobre doutrina aquela que não serve a caminhada dos cristãos que vivem em tempos, lugares e culturas diferentes, num mundo em mudança.

2. Como tinham sido muitas as tentativas de neutralização do caminho aberto por esse Concílio, o Papa Francisco resolveu escancarar portas e janelas. A Igreja não é para a Igreja, não pode ser auto referente. Introduziu, por isso, a linguagem e a prática de uma Igreja de saída para as periferias. Deseja que os cardeais da cúria, os bispos das dioceses, os párocos e os teólogos das universidades abandonem a sua auto contemplação e passem a ser pastores, a terem o cheiro das ovelhas, porque são estas as importantes. Os cristãos são um reino de sacerdotes. Pertence-lhes a missão de oferecer a sua vida para a alegria do mundo todo.

A desgraça deste Papa é não ser, apenas, palavras e bons conselhos. É o primeiro a viver e fazer aquilo que propõe aos outros.

É acusado de não repetir a doutrina de João Paulo II, do cardeal Ratzinger e de Bento XVI, de não invocar a infabilidade pontifícia e de ter um discurso terra a terra que todos podem entender. De insistir mais na misericórdia de Deus do que no pecado e na cruz e encontrar a alegria do Evangelho junto dos que precisam de consolação e esperança. Para papa tem pouca altura doutrinal e uma teologia mais preocupada com a pastoral do que o rigor metafísico! Abrir ou fechar o futuro, eis a questão.

Como é possível, aliás, que um papa se atreva a adoptar o caminho e o estilo de Jesus de Nazaré que não tem medo de ser contagiado pelos doentes, pelos pobres, pelos casais em situações irregulares, que não permite que os maridos façam gato-sapato das mulheres, que abre caminhos de esperança para o que parece irremediável?

Um papa assim não tem muitas hipóteses imediatas. João XXIII já foi há muito tempo e depois vieram os doutrinadores que tinham sempre algo a condenar. Bergoglio só condena o que estraga a vida às pessoas, sejam doutrinas, sistemas ou atitudes. A sua ética é muito samaritana e o capítulo 25 de Mateus perturba-o demais. Está sempre a passar para a outra margem.

3. O que está verdadeiramente em jogo nas actuais controvérsias sobre a família é o feitio do Papa Francisco não se resignar a repetir fórmulas dogmáticas, doutrinas definidas para sempre sobre as mulheres, sobre o casamento, sobre a Eucaristia sobre seja o que fôr. Não despreza, de modo nenhum, a tradição da Igreja. Pelo contrário. Quer torná-la viva, sabendo que a letra mata e só o espírito de inovação vivifica. Os dogmas e as doutrinas são marcos na caminhada da Igreja na história humana. Não são eles a pátria celeste. São trilhos para a viagem, não são o cume da montanha. S. Paulo teve a coragem de dizer que todos os carismas são para ajudar e nem a fé, nem a esperança nem as suas formulações são eternas. Para a eternidade só fica a caridade.

A proibição bíblica da fabricação de imagens é a proibição da idolatria, a de parar quando é preciso ir mais longe, mais alto e mais fundo. Existe um comportamento em relação às formulações doutrinais da Igreja que é, muitas vezes, idolátrico. Como dizia St. Exupéry, quando se aponta para o céu, muitos olham só para o dedo.

A perturbação que o Papa Francisco introduziu no discurso, nas atitudes e na prática pastoral foi a do combate às idolatrias instaladas.

Diz-se, por vezes, que o séc. XXI ou será místico ou não será. Creio que é verdade. Mas o místico é aquele que não pode parar no estabelecido, de uma vez para sempre. Mestre Eckhart rezava: Deus livra-me de deus, isto é, livra-me das representações e das fórmulas que te procuram substituir, que impedem a infinita viagem do desejo, da sede do Deus de Jesus Cristo.

É a paixão da idolatria que mata o Evangelho da nossa alegria.

25.02.2018



[i] Ignace Berten, Les divorcés remariés peuvent-ils communier? Enjeux ecclésiaux des débats autour du Synode sur la famille et d’ Amoris laetitia, Lessius, Éditions jésuites, 2017

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Testemunho de Irmã comboniana que vive na RD Congo há 37 anos 23 de Fevereiro de 2018

A irmã Maria Celeste Rodrigues, missionária na República Democrática do Congo há 37 anos, afirma que a Jornada de oração e jejum pela Paz convocada hoje pelo Papa Francisco vai ajudar a “alertar” para a realidade no país africano...

A irmã Maria Celeste Rodrigues, que está neste momento na cidade do Porto, em recuperação, espera regressar este ano ao Congo, com vontade de “dar alguns anos a África”

A religiosa que vai celebrar 72 anos no próximo dia 13 de junho, foi para a República Democrática do Congo em 1971 para trabalhar numa missão com os pigmeus, “uma tribo minoritária, ainda muito descriminada”.

Depois de quatro anos neste serviço, dedicou-se ao ensino de Religião e Moral nas escolas secundárias; os últimos quatro anos foram vividos perto de Kinshasa, a capital, onde estava a ter uma “experiência positiva” na casa de formação das Postulantes.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

O novo rosto da autoridade na vida consagrada - Pe. José Vieira

A comissão organizadora da XXXIII Semana de Estudos da Vida Consagrada que decorreu em Fátima de 10 a 13 de Fevereiro de 2018 sob o tema «Inovar na Vida Consagrada – Para vinho novo, odres novos (Mc 2,22)» convidou o P. José da Silva Vieira, provincial dos combonianos em Portugal e Presidente da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal, a desenvolver o tema «O novo rosto da autoridade».

“O novo rosto da autoridade – afirma o missionário comboniano – não se consegue através de uma campanha massiva de cirurgias plásticas já que um grande número de pessoas em autoridade é entrado nos anos. Faz-se, sim, através de um transplante, da cordialidade: os novos corações da autoridade. As consagradas e consagrados em autoridade são desafiados a servir com coração.”

“É este o transplante que Deus propõe ao querer mudar corações petrificados em corações encarnados. O Senhor prometeu pela boca do profeta: «Dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um espírito novo: arrancarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne». Daí que eu gostava de chamar a esta reflexão «Os novos corações da autoridade na vida consagrada»”, diz o P. José da Silva Vieira.

Leai aqui o texto completo.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

«Delírio em las Vedras!» P. Gonçalo Portocarrero de Almada

A abstinência sexual exigida pela lei de Cristo, não pode ser vista como uma mera proibição, mas como afirmação de um amor maior.

Embora não seja aficionado ao Carnaval, não posso deixar de reconhecer que é um tempo que me é muito proveitoso em termos profissionais. Com efeito, o meu negócio é o pecado – o pecado dos outros, entenda-se! – e não há dúvida de que o Carnaval é época alta para qualquer sacerdote que se preze. Este ano, as expectativas eram ainda melhores, porque o lema do Carnaval de Torres Vedras era muito promissor: ‘Delírio em las Vedras!’
Mas, para minha surpresa, ao folhear o Expresso de 10 de Fevereiro último, o delírio voltou a aparecer, desta feita nas palavras de Frei Bento Domingues: “É um acto da teologia das palavras cruzadas. Um delírio”. Referia-se o ilustre frade dominicano à nota pastoral do Cardeal-Patriarca de Lisboa sobre a aplicação da Exortação Apostólica Amoris Laetitia, e não, como algum incauto leitor poderia supor, ao Carnaval de Torres.
Se ainda o não disse, digo-o agora: sempre tive uma especial simpatia e gratidão pela Ordem dos Pregadores, por razões familiares e por ter estudado vários anos nos dois colégios dominicanos de Lisboa: o de São José, no Restelo, que ainda existe; e o Clenardo, na Rua do Salitre, que já fechou há uns anos. Aliás, foi no São José, onde fiz a infantil, que aprendi, com quatro ou cinco anos, a dura lição da ‘abstinência da carne’: uma vez mordi uma freira que me contrariou, mas foi tal o castigo que – remédio santo! – nunca mais mordi nenhuma religiosa, nem leiga sequer. Sou também um leitor atento das crónicas de Frei Bento Domingues, que nunca me deixam indiferente.
Mas, voltemos ao delírio. Não ao de Torres Vedras, mas ao do Frei Bento, que acha que não faz sentido pedir a um homem e a uma mulher que vivem juntos, mesmo não sendo verdadeiramente casados, que se abstenham dos actos próprios da vida conjugal. A abstinência seria não só antinatural como até impossível e, como é sabido, ninguém está obrigado ao que não é possível. A argumentação até faria algum sentido se todos os cristãos não estivessem obrigados à abstinência: não só os bispos, padres e religiosos, que até fizeram um voto nesse sentido; mas também os casados, excepto em relação ao seu legítimo cônjuge; e os solteiros, em relação a todas as pessoas, sem excepção.
Se fosse moralmente aceitável a relação extraconjugal, ter-se-ia de concluir que poderia ser lícita a violação da fidelidade matrimonial. Quantas vezes? A samaritana, que até não era má rapariga, já ia no sexto companheiro, o que a não impediu de se converter. Mas não consta que Jesus lhe tenha permitido manter aquela generosa colecção de ‘maridos’, nem o parceiro que então tinha e que, pelos vistos, nem isso era (Jo 4, 7-18). Se assim não fosse, o adultério deixaria de ser pecado, como há muito já não é crime.
Cristo, ao absolver a adúltera apanhada em flagrante, exigiu-lhe que não voltasse a pecar (Jo 8, 11). E, se para os judeus piedosos o adultério só se realizava quando havia união carnal entre duas pessoas não casadas legitimamente entre si, Jesus, que não veio abolir a lei mas dar-lhe pleno cumprimento (Mt 5, 17-18), acrescentou que também se pode cometer este pecado mortal por desejo, e até por mero pensamento, se advertido e consentido: “Ouvistes que foi dito: Não cometerás adultério. Eu, porém, digo-vos que todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração” (Mt 5, 27-28).
Por outro lado, para além da sexual, outras muitas abstinências há, tanto ou mais importantes, a que estão igualmente obrigados os cristãos por razão da sua fé: a abstinência da mentira, do ódio, da soberba, da avareza, do roubo, da corrupção, do luxo, da inveja, da idolatria, da vingança, da exploração, da gula, da murmuração, etc. Mas, em todos estes casos, bem como no da abstinência sexual, quando exigida pela lei de Cristo, a renúncia não é uma mera proibição repressora, ou inibição castradora, mas afirmação de um amor maior. De forma análoga, uma pessoa apaixonada não entende a fidelidade prometida como um
sacrifício, mas como uma consequência gozosa, mesmo que custosa, desse mesmo amor.
Frei Bento insiste em que, sobre a vida íntima conjugal, só o casal é que sabe: “É o casal que deve decidir a sua vida íntima. Nenhum padre, nenhum bispo, ninguém se pode intrometer. É ridículo!”. E um frade?! Se calhar pode …
Com certeza que, não só nesta matéria mas também em todas as outras, há que respeitar a liberdade das consciências e são sempre os próprios que devem decidir e arcar com a responsabilidade correspondente. Mas a Igreja, nomeadamente através do seu magistério e dos seus pastores, tem o dever de aconselhar os casais, para que estes possam, no expressivo dizer de São Paulo, “participar da liberdade gloriosa dos filhos de Deus” (Rm 8, 21). Também o doente deve ter toda a liberdade de seguir, ou não, as indicações médicas, mas certamente que as receberá com agradecimento, porque sabe que são para o seu bem. Ninguém é obrigado a ser católico, mas a todos se pede, sob pena de hipocrisia, coerência com a fé que livremente se quis professar.
Quando Jesus instituiu a lei da indissolubilidade matrimonial, alguns dos seus discípulos, cientes da dificuldade na sua observância, comentaram: “Se é essa a situação do homem perante a mulher, não é conveniente casar-se!” (Mt 19, 10). A verdade é que, alguns anos depois, já havia casais cristãos espalhados por todo o império romano, graças também às perseguições de que resultaram tantos mártires. Numa sociedade divorcista e promíscua como era a romana de então (Rm 1, 24-32), onde se consentia a mancebia e até a pedofilia estava bem vista em termos sociais, a fidelidade dos esposos cristãos chamava poderosamente a atenção, embora muitos a vissem como uma perigosa utopia, promovida por uma seita condenada a desaparecer. Foi o contrário que aconteceu: os usos e costumes dos infiéis foram desaparecendo, ante a beleza e a sublimidade moral dos ideais cristãos. Os pagãos diziam, com admiração, daqueles primeiros discípulos de Cristo: “Vede como se amam!” (Tertuliano, Apologeticum, 39, 7).
Também agora, a mensagem cristã é exigente e apenas compreensível e praticável para quem se atreve a viver um amor autêntico. Para os outros, na verdade, só lhes resta mesmo o delírio do Carnaval.