terça-feira, 13 de março de 2018

Jantar do Grupo de VISEU - 17 de Março



MAR17
Sat 8 PMViseu
Bom jantar e que seja também de animação para o nosso encontro do Primeiro sábado de Maio Próximo no Grandioso Seminário das Missões em Viseu. Um abrço a todos.

ALÉM - MAR - Questionário

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12 de Março de 2018



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segunda-feira, 12 de março de 2018

SALVAR OU CONDENAR? Frei Bento Domingues O.P.


1. Nunca fui pároco, mas sempre aceitei com prazer celebrar o baptismo de crianças e, cada vez mais, de adolescentes e adultos. Estava eu, há muitos anos, a começar uma celebração e, como sugeria o ritual, convidei os pais e os padrinhos a fazerem o sinal da cruz na fronte da criança. Ouvi alguém sussurrar: a Igreja começa cedo a crucificar os seus fiéis.

Foi uma preciosa ajuda para nunca mais esquecer que os trabalhos da “descrucifixão” devem começar logo no primeiro momento da iniciação cristã. Urge transformar um símbolo do horror num programa de vida dedicado a tornar este mundo devastado em terra de alegria. Os textos do Novo Testamento, resultado de um processo de memória e escrita das primeiras quatro gerações cristãs, existem, no dizer de S. João, para que, conhecendo e seguindo Jesus Cristo, a nossa alegria seja completa[1]. É arriscado, nos limites duma crónica, procurar desfazer alguns equívocos sobre a transformação da simbólica da cruz, pois há o perigo de criar outros piores. É um risco que aceitei, neste espaço do Público, há vinte e oito anos.

2. Foi, em Nazaré, que Jesus apresentou as linhas fundamentais do programa da sua missão. Pela sua abrupta e enigmática ousadia teológica, recusando celebrar a ira de Deus, provocou a primeira ameaça de morte que, na altura, não o assustou nem o levou a alterar o seu caminho[2].

S. Paulo, que não terá conhecido o Nazareno na sua condição terrestre, teimou em fazer de Jesus crucificado o tema incontornável da sua pregação sem fronteiras. Ele próprio reconhece que a sua proposta era puro escândalo para os judeus e uma loucura para os gentios. Nunca desistiu de mostrar que Jesus crucificado é a subversão do messianismo judaico e da sabedoria mundana de todos os tempos. É estranho, mas aquele salto louco no escuro estava, para ele, cheio de misteriosa luz[3].

Nos Actos dos Apóstolos, S. Pedro, acusado e preso, atreve-se a dizer perante o Sinédrio: é Jesus Nazareno que vós crucificastes e que Deus ressuscitou de entre os mortos, o único nome, debaixo do céu, pelo qual devemos ser salvos.

Uma vez liberto, em oração com a comunidade, insiste no essencial: “Sim, coligaram-se verdadeiramente, nesta cidade, contra o teu santo servo Jesus, que ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos com as nações pagãs e os povos de Israel para executarem tudo o que, em teu poder e em tua sabedoria, havias predestinado”. Enquanto rezavam, o Espírito Santo tomou conta dos reunidos e investiu-os de coragem para anunciarem com firmeza a palavra interdita pelo Sinédrio. Deus continuava a escrever direito por linhas tortas[4].

A versão de S. Pedro concorda com a de S. Paulo, mas não fica claro se Jesus cumpriu um desígnio divino ou foi vítima de um crime político. Dada essa contínua interferência de planos na escrita, não seria preferível esquecer essa história de horror que deixa mal os judeus e os romanos, os apóstolos, Jesus e o próprio silêncio de Deus? Por outro lado, não estará já muito longe de nós, do nosso mundo e das nossas preocupações? E se a memória da cruz envenenou a história da cristologia, da pastoral, da espiritualidade, não será tempo de procurar beber noutras fontes o sentido da aventura humana? Se a cruz encheu as relações entre judeus e cristãos de mútuas acusações venenosas, não seria preferível agradecer a José Saramago a denúncia dessa torrente de sangue e passar adiante?

3. Talvez não! É verdade que os textos do Novo Testamento, em relação polémica e selectiva com os do Antigo e abertos a todos os mundos, estão inevitavelmente datados. Que os autores cristãos se tenham servido de textos, imagens, cenários e concepções da literatura judaica para configurar a personalidade notável e misteriosa de Jesus de Nazaré, é evidente[5]. O contrário é que seria de espantar. Mas sem a extraordinária originalidade e criatividade histórica daquele Nazareno nada disso seria possível. Teríamos apenas um artificial manequim de colagens.

Os cristãos sem colocarem em correlação crítica o nosso mundo, a nível pessoal, local e global, com o percurso histórico de Jesus – uma longa ponte cultural, tecida de muitas dimensões – não podem responder à pergunta fundamental: que tem Ele a ver connosco e que temos nós a ver com Ele?

As narrativas dos Evangelhos, ora directas ora em parábolas, insistem em que Jesus era conhecido por gostar da vida e “da vida em abundância” para todos. Nunca é apresentado como um modelo de ascetas. O que não suportava era um mundo em que tinha uns à mesa e outros à porta, uma religião de leis, fábrica de pecadores para condenar e de hipócritas para serem lisonjeados. Não suportava o desprezo pelos pobres e pelas vítimas das doenças físicas e psíquicas. É impossível servir a Deus e ao Dinheiro. O dinheiro é um instrumento, não pode ser um Senhor. A missão humana e divina de Jesus não era a de condenar, mas a de salvar o que parecia perdido. A sua ética e a sua mística são samaritanas.

Jesus não morreu de acidente, de doença ou de velhice. Foi morto porque preferiu ser crucificado a trair o projecto divino de libertação. Não cedeu à dominação económica, política e religiosa, expressões da teologia da opressão. Preferiu ser morto a trair o seu projecto de vida.

O que falta são homens humanos. O que temos hoje, à frente das chamadas grandes potências, são monstros a desenvolver projectos para se defenderem e atacarem com as armas mais sofisticadas. Consta que, em poucos dias, foram mortas em Ghouta (Síria) 800 pessoas. Como escreveu B. Pasternak, “o bem só pode ser alcançado pelo bem”. Esquecemos que a pessoa humana individual é história de Deus[6].

O papa Francisco tenta introduzir em todos os seus gestos, intervenções e textos a lógica da descrucifixão. Neste IV Domingo da Quaresma, Deus vem em seu e nosso auxílio: Deus e o seu Filho não sabem condenar. Especializaram-se apenas em salvar[7]. Não tiveram aulas de Direito Canónico.

Aqui, lembro-me do poeta brasileiro, Manuel Bandeira, que ao passar, em sua casa, diante do crucifixo prometeu arrancar a figura de Cristo daquela cruz. Desistiu. Enquanto houver crucificados, não posso.

11. 03. 2018    



[1] Jo 15, 11; 16, 22-24; 1Jo 1, 4; 2Jo v.12
[2] Lc 4, 16-30
[3] 1Cor 1 – 2
[4] Act 4, 1-31
[5] Daniel Boyarin, Le Christ juif. À la recherche des origines. Cerf. Paris 2013, pp. 153-186
[6] Boris Pasternak, O Doutor Jivago, Bertrand, s/data, pp. 300 e 469.
[7] Jo 3, 14-21

quinta-feira, 8 de março de 2018

A HIPOCRISIA E AS CONFUSÕES DA QUARESMA Frei Bento Domingues, O.P.


1. A Quaresma é uma questão muito séria de toda a Igreja e de cada cristão: é o reconhecimento de que não estamos irremediavelmente perdidos. Não existe nenhuma situação que não possa ser alterada. O aforismo ecclesia semper reformanda não é apenas realista é também um caminho de esperança. Os rituais da penitência não deveriam servir para mostrar que uns têm remédio e outros estão em situações irregulares irremediáveis, reduzidos ao estado de limbo eclesial.

Este tempo único começou com a imposição das cinzas: lembra-te que és pó da terra e à terra hás-de voltar. Hoje, com a cremação, és pó e nem à terra voltarás. Era uma declaração muito empírica, mas um bocado niilista. Parece-me que a nova fórmula é mais estimulante: arrependei-vos e acreditai no Evangelho[1], como quem diz, é urgente mudar porque é urgente a alegria. O pecado estraga, a graça do perdão liberta e abre o futuro.

O texto do Evangelho escolhido para essa celebração não alinha com um costume, que eu ainda conheci, de pôr as igrejas de luto e os santos de roxo. Atreve-se a desencorajar a religião do espectáculo, a dificultar a estatística do bem-fazer e o reconhecimento público dos benfeitores da igreja e das obras de caridade. Ao turismo religioso, dentro e fora dos templos, chama exibicionismo hipócrita.

A conversa de Jesus não tinha nada de teórico. Era dirigida aos discípulos e a todos os que desejam seguir o seu caminho e que calculam o que podem ganhar e perder com essa opção. Não tem o estilo capcioso e sedutor de quem anda a angariar adeptos com prémios e promessas. O melhor é ler o texto todo: Tende cuidado em não praticar as vossas acções diante dos homens para serem vistos por eles. Aliás, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está nos Céus. Assim, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serdes louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que fez a direita, para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto te dará a recompensa. Quando rezardes, não sejais como os hipócritas, porque eles gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo, já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando rezares entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo; e o teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os homens não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai que está presente em segredo; e o teu Pai, que vê o que está oculto te dará a recompensa[2].”

Parece que, agora, na missa, para que se note quem reza como deve ser, ajoelha. De outro modo, não consegue chamar a atenção para a sua ortodoxia.

2. No primeiro Domingo da Quaresma[3], Jesus foi fazer um retiro para o deserto. Parece que não foi nem um tempo nem um lugar de sossego. Todas as versões falam de tentações e tentações diabólicas. Afinal tinham a ver com as esperanças messiânicas: resolver, de uma vez por todas, os problemas do povo.

O caminho imperial proposto por Satanás exigia que Jesus sacrificasse tudo à dominação económica, política e religiosa. De forma espectacular. Se estabelecesse esse império não teria rival e mostrava que era mesmo o filho de deus poderoso.

Esse programa tinha um pequeno inconveniente: era a substituição da vontade libertadora de Deus pelo império dos interesses do Dinheiro. A alegria do Evangelho teria de esperar. Jesus mandou bugiar essas propostas diabólicas. S. Lucas dirá: o assunto não ficou definitivamente resolvido. Tendo acabado toda a tentação, o Diabo o deixou até o tempo oportuno[4].

Passaram mais de dois mil anos e o “diabo” parece cheio de oportunidades e acólitos. São os interesses do dinheiro que fazem do mundo actual uma distribuição de matadouros. Não é de quem governa os Estados Unidos, não é de quem manda na Rússia e no império que procura, não é de quem exige na China um poder sem limite, que podemos esperar a paz mundial.

Para estes impérios o dinheiro não é para os seres humanos. Os seres humanos existem para eles terem cada vez mais poder de decisão de tudo e de todos. 

3. A liturgia deste Domingo, 3º da Quaresma, está centrada na indignação e na revolta de Jesus contra a religião transformada em negócio. Subiu a Jerusalém e encontrou no templo os vendedores de bois, de ovelhas, de pombas e os cambistas sentados às bancas. Tudo o que era preciso para um culto bastante caro de judeus que vinham para a Páscoa de todo o ano. Conta S. João que “Jesus fez um chicote de cordas e expulsou-os todos do Templo, com as ovelhas e os bois; deitou por terra o dinheiro dos cambistas, derrubou-lhes as mesas e disse aos que vendiam pombas: tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio.”

Os judeus perguntaram-Lhe, com razão: que sinal nos dás que podes proceder deste modo? Jesus não facilitou uma resposta inteligível, pelo contrário, tornou a conversa impossível: destrui este templo e em três dias o levantarei.

Era evidente que Jesus já falava doutro templo e os seus dias estavam contados.

Jesus passou a não acreditar em nada daquilo e a não se fiar nem sequer naqueles que O louvavam e diz algo de extraordinário Ele bem sabia o que há no homem.

Para uma próxima crónica teremos de enfrentar a questão fundamental de toda a Quaresma e de toda a Semana Santa. Vem expressa de forma incrível no prefácio da Oração Eucarística II: “Para cumprir a Vossa vontade e adquirir para Vós um povo santo, estendeu os braços e morreu na cruz; e, destruindo assim a morte, manifestou a vitória da ressurreição.”

Que vontade de Deus era essa que exigia o suicídio de Jesus de Nazaré? Afinal, quem O matou?

04.03.2018



[1] Mc 1, 15
[2] Mt 6, 1-6. 16-18
[3] Mc  1, 12-15
[4] Lc 4, 13

ECOS DA ASSEMBLEIA GERAL DA PRIMAVERA- uasp

(...) Mas chegamos a tempo do início da assembleia destinada a apreciar o relatório e contas da associação que mereceram aprovação por unanimidade, mas também para atualizar o plano de atividades para o ano em curso e até para o ano que vem.
Ficou-se a saber que, por dificuldades que a interioridade impõe, não será possível levar a cabo as jornadas culturais deste ano em terras de Castelo Branco e Portalegre, uma vez que os antigos alunos daquelas lonjuras procuraram destinos menos agrestes e com melhores oportunidades de emprego que escasseiam por aquelas bandas. Na sua maioria, para locais menos inóspitos quanto à rudeza do trabalho do campo e de climas mais suaves.
Decidiu-se ali que a alternativa, para este ano, além dos aspetos lúdicos e culturais, seria a Região Autónoma da Madeira, que passaria ainda a ser uma das etapas, neste caso, a IVª do projeto “Por Mares Dantes Navegados” estando já em curso diligências para afinação de calendário dentro do próximo mês de Setembro e que oportunamente será divulgado. (Continua)
Para ver o artigo na integra clique AQUI
www.uasp.pt | Faceboock.com/uasp


 

sábado, 3 de março de 2018

A Palavra de Deus é um banquete; não uma comida rápida- CARLOS VAZ

Infelizmente, ainda há bastantes pessoas
para quem a missa é quase só a homilia.
Esta errada percepção reduz a eucaristia
a um momento mais ou menos agradável
ou desagradável, mas sem incidência
na vida cristã das pessoas. Nem é apreciada,
sentida e vivida como o momento fonte
e cume da vida cristã.
O Banquete da Palavra, como com mais
propriedade podemos chamar à proclamação,
escuta, aprofundamento e meditação da
Palavra de Deus, é transformado por muitos,
sacerdotes e leigos, numa comida rápida
e tantas vezes insípida, para gente sem apetite.
Ora, como afirma Paulo (Rom 10, 17) «a
fé nasce da escuta, e a escuta através da palavra
de Cristo». Pelo que, se não há verdadeira
escuta da Palavra de Cristo, não haverá
verdadeira fé. Uns capítulos antes, o mesmo
Paulo (Rom 1,5) afirma que os que escutam
e aceitam a palavra de Cristo «suscitam
a obediência da fé entre todos os povos». Ou
seja, o chamamento à fé faz-se por meio da
proclamação da Palavra de Deus. Em grego,
hupakoé, (obediência) significa literalmente :
«prestar toda a atenção».
Compreende-se, assim, que a pregação seja
uma parte importantíssima do ministério do
sacerdote, pois dela depende em muito que
os fiéis possam chegar à obediência da fé, isto
é, ao acolhimento do Evangelho como supremo
acto de liberdade, na submissão doce
e consciente ao que Deus nos propõe pela sua
palavra e que o sacerdote, depois de a mesma
palavra ter sido devidamente proclamada
e saboreada em silêncio, ajuda, com a sua
pregação, a interiorizar.
Há que reconhecer que, devido às divergências
com os protestantes sobre a precedência
da palavra ou dos sacramentos, com
o concílio de Trento a reafirmar a centralidade
dos sacramentos na vida da Igreja (naturalmente
uma falsa contraposição, pois
nunca se deveria ter afirmado tal dissociação,
uma vez que, tanto os sacramentos como
a Palavra, são centrais na vida da Igreja)
uma sólida pregação bíblica não foi uma
característica forte na Igreja Católica dos últimos
cinco séculos. E com mais de 50 anos
decorridos desde o Vaticano II, há ainda
problemas à hora de implementar as claras
directivas dadas pelos padres conciliares e
as que dimanam da luminosa constituição
'Dei Verbum' sobre a Palavra de Deus. Ainda
hoje, há muitos pregadores, talvez demasiados,
que pouca atenção dão à Palavra
de Deus proclamada na celebração. A homilia
fala supostamente a partir da palavra
proclamada, mas, na realidade, é, em
muitos casos, um mero pretexto para considerações
sobre os males da sociedade e
do mundo que, com umas reflexões de carácter
moralista, se pensa poder combater
e erradicar. Aliás, os meios de comunicação
social dão conta disso mesmo e não de
um eventual aprofundamento e esclarecimento
da palavra de Deus para que os fiéis
possam, de fa cto, ser impregnados por ela
e chegarem finalmente à obediência da fé,
isto é, ao acolhimento gozoso da proposta
de vida que Cristo nos transmite com e pela
sua Palavra.
Olhando desapaixonadamente para muitas
das homilias, parecem pôr mais confiança
nas palavras do pregador do que na Palavra
de Deus que estão chamados a clarificar
e contextualizar, dando-lhe a sua pertinência
para os nossos dias e os problemas que
afligem a sociedade.
Bento XVI foi um Papa cujas homilias se
centravam realmente na Palavra proclamada
e que ele, com o seu saber e a sua reflexão
pessoal, apoiada na oração, sabia desenvolver
de maneira muito cativante, pois nos
deliciava com perspectivas de abordagem da
Palavra que muito a enriqueciam. Pessoalmente,
gosto também muito das reflexões
de dom António Couto, pois nos ajudam a
realmente aprofundar o conhecimento da
Palavra de Deus e a sentir fascínio e encanto
pela mesma. O Papa Francisco é outro bom
exemplo e mostrou a sua preocupação com
a homilia nos 40 números que lhe dedicou
na "Alegria do Evangelho" e nas que faz, quer
em Santa Marta, quer nas celebrações solenes.
Há outros bons exemplos a seguir, felizmente,
mas gostaríamos que fossem a regra
e não a excepção.
«Para uma boa contextualização da homilia,
é necessário conhecer aqueles a quem se
vai pregar, se possível de maneira pessoal e
individualmente: a Palavra de Deus não é
dirigida a todos em massa, mas a todos enquanto
pessoas». (Guia Prático para a Liturgia,
Giuseppe Carlo Cassaro, p. 54). Há uma
graça especial em olhar, contemplar o corpo
do Senhor, isto é, a sua Igreja, quando não
temos oportunidade de conhecer pessoalmente
aqueles a quem nos dirigimos. O papel
de protagonista pertence a Deus e não
pode ser substituído por manifestações de
presunção humana.
Diário do Minho - 3-março

O regresso dos profetas - JOÃO CESAR DAS NEVES

Saber o futuro é algo que a humanidade sempre quis. Por isso nunca faltou quem diga saber o que irá acontecer. Antigamente chamavam-lhes feiticeiros ou profetas. Hoje são futurólogos, e muito menos credíveis.
A religião já não pretende ter a antevisão deste mundo pecador. Na escritura judaica, Deus ficou silencioso após Malaquias, o último dos profetas bíblicos, e a sua revelação definitiva, em Jesus ou Maomé, dispensou tais mensageiros. Claro que persistem horóscopos e adivinhos de muitas proveniências, mas o seu prestígio decaiu com o avanço da civilização. Por isso surpreende a enorme quantidade de pessoas que, em conferências pomposas ou conversas de café, afirmam conhecer a evolução próxima do planeta. Com a agravante de, ao contrário dos antigos videntes, não afirmarem ter informações transcendentes ou encantamentos poderosos. Limitam-se a garantir que, só por serem mais espertos do que nós, conseguem ver o que aí vem.
O ponto de partida de todas essas antevisões é sempre igual: o mundo mudou radicalmente, e ainda mudará mais nos próximos tempos. Por isso tudo o que sabemos acerca da realidade deixou de ser válido. Em todos estes cenários é sempre palpável o orgulho pela superior inteligência que deslumbra as massas ignaras. Faz parte do exercício uma implícita comiseração pela ingenuidade do cidadão comum, continuando na vidinha de sempre, desconhecendo as certezas que o iluminado orador prevê com segurança.
É espantoso como, em geral, esses especialistas não se dão conta de que o seu postulado destrói tudo aquilo que eles dirão em seguida. Se o mundo está a mudar assim tanto, se é ambíguo, volátil, complexo e incerto, então, por muito espertos que eles sejam, as previsões são virtualmente impossíveis. Uma das poucas certezas, em situação tão extrema, é que tudo o que é antecipável com os nossos dados não se verificará. Assim, aquilo mesmo que destaca os futurólogos dos analistas comuns é precisamente o que invalida as suas conclusões.
Basta ler a ficção científica das décadas passadas acerca do mundo actual, muitas delas concebidas em tempos bastante mais serenos, para notar como esses esforços falharam fragorosamente. Ora, hoje, precisamente pela aceleração do desenvolvimento, a taxa de mortalidade dos cenários aumentou imenso e os prognósticos feitos há poucos anos já estão totalmente ultrapassados. Como podem convencer-nos de que os de 2018 serão válidos?
Depois de nos assegurarem que são capazes de compreender algo que o comum dos mortais não entende, seguem-se as conjecturas, e essas existem para todos os gostos. A tecnologia, que nestas coisas é sempre a protagonista, vai trazer-nos avanços inacreditáveis ou perigos avassaladores. Por isso, desde os paraísos mais maravilhosos às piores catástrofes, há de tudo nas visões dos futurólogos profissionais ou amadores. Em geral, essas visões mais não são do que extrapolações de realidades actuais que, por muito recreativas que sejam, permanecem bastante ociosas.
Mais importante, esses visionários costumam esquecer dois aspectos essenciais. O primeiro é que o homem é o que é. Certos traços da humanidade ressurgem sempre, mesmo em envolventes muito diferentes. Dentro de si, o ser humano não mudou muito desde as cavernas, até quando usa apps ou sabe cindir o átomo. Por isso o mundo nunca é tão ambíguo, volátil, complexo e incerto quanto dizem. O segundo é um princípio económico elementar: as pessoas reagem a incentivos. Quando as condições mudam, os comportamentos ajustam-se, mesmo daqueles que não ligam a previsões brilhantes, invalidando as conclusões deduzidas a partir da sociedade actual.
O pior desta atitude progressista é a moral anexa: o novo é bom, o passado está morto. Por isso, quando alguém diz ter o futuro no bolso, acha-se com direito a destruir aquilo que considera obstáculo obsoleto. Foi isso que justificou a barbárie da guilhotina jacobina ao "grande salto em frente" maoista. Hoje, em tempos que por enquanto são mais serenos, os efeitos são igualmente nefastos, alimentando enorme quantidade de disparates, da política à justiça, dos mercados à educação.
A educação, por exemplo, existe hoje no novo mundo da interconectividade digital, realidade virtual e redes sociais omnipresentes. Mas ninguém diz que debaixo de toda essa parafernália tecnológica está um miúdo igual ao avô e ao bisavô, que precisa de ser amado e orientado. A grande diferença entre ele e os antepassados não é a envolvente informática. Aquilo que se passa no Facebook ou no YouTube é quase igual ao que antes acontecia nos recreios e tabernas. É só menos variado porque antes cada bairro inventava a sua anedota, e na aldeia global todos riem ao mesmo tempo do mesmo post. Aquilo que realmente distingue a geração z das anteriores é que, como os jovens são o futuro, pais e professores, nascidos no século passado, acham ter de se adaptar a eles, desistindo de os educar para não parecerem antiquados.
Diário de Notícias, 3-3