sábado, 31 de março de 2018

A paz esteja convosco! Lc 24,36 - UASP

A paz esteja convosco! Lc 24,36

A UASP deseja à suas Associadas, antigos alunos dos Seminários, seus familiares e amigos, uma Páscoa Feliz!

P. Armindo Janeiro
Presidente da Direcção

www.uasp.pt | Faceboock.com/uasp


sexta-feira, 30 de março de 2018

VOTOS DE SANTA PÁSCOA - AAACombonianos

Faço meus, em nome da Associação, os votos do Olindo para todos vós
Com um grande abraço
António Joaquim Pinheiro



terça-feira, 27 de março de 2018

Chegada a Jerusalém: Deus Pai ou Deus Senhor?- PAULO RANGEL

Há muitos, muitos anos, que sigo
religiosamente os programas
radiofónicos de Júlio Machado Vaz.
Ao fi m-de-semana, como quem
se desincumbe de uma obrigação
dominical, escuto-o com Inês
Menezes na versão longa de O
Amor É. No último programa, já
nos instantes finais, lançou-se a
dúvida sobre se este domingo seria
ou não seria o domingo de Ramos. E com a
habitual graça e sensibilidade, sem nenhum
menoscabo, até com delicadeza, a dúvida,
quiçá porque se tratava de rádio, ficou no ar,
persistiu no ar. Esta dúvida — apesar de ser
uma simples dúvida — deixou-me intrigado,
talvez perplexo. Não, por uma questão de fé,
obviamente. Mas porque mostra até que ponto
a nossa sociedade, a nossa cultura e a nossa
civilização se descristianizaram. A questão,
insisto, não é a fé, nem a afeição à religião
ou à tradição e, muito menos, ao que em
tempos se denominava, a cristandade como
“regime” civilizacional ou cultural. A questão
está na indispensabilidade e na importância
do conhecimento da mundividência cristã e
daquilo a que tenho chamado — com algum
escândalo e incompreensão — a “mitologia
cristã” para a intelecção do nosso mundo
e do nosso tempo. Mesmo — e até mais
intensamente — para a compreensão do
mundo laico, laicista, agnóstico ou panteísta
e de todas as suas incontáveis variáveis
e declinações. Na tradição popular, este
domingo é como por ali se dizia, o dia de
madrinhas e padrinhos, afilhadas e afilhados,
ramos e antecipação de folares. Mas ele é,
antes de tudo o mais, o dia da entrada triunfal
de Jesus em Jerusalém para a sua última
Páscoa. E esse episódio de aclamação e glória
representa, como toda a vida narrada de
Jesus, não apenas um incontornável lugar
teológico, mas um manancial de referências
antropológicas. Curiosamente, do jaez
daquelas com que semanalmente me deleito
nos textos, nos versos, nas entrevistas, nos
artigos que dão vida e humor, coração e
pulmão a O Amor É.
2. O sentido do domingo de Ramos talvez
também se tenha perdido por causa do
engarrafamento ou atafulhamento litúrgico
da Semana Santa. O texto evangélico lido
no domingo de Ramos não é o texto da
dita chegada gloriosa e triunfal de Jesus a
Jerusalém. É a narração circunstanciada
da paixão e morte de Jesus — liturgia
que outrora estava reservada aos ofícios
de quinta e Sexta-Feira Santa. Com o
engarrafamento litúrgico, a maioria
das pessoas perdeu a consciência desse
momento épico, trágico e crucial da vida
de Jesus, prenhe como está de um intenso
magnetismo antropológico, transitando
de Messias glorificado a criminoso de
delito comum. Uma boa parte nem se dá
conta, aliás, de que, em cada eucaristia,
recordam aquele momento, quando
cantam o chamado “Santo” e proclamam
“Hossanas”. Ou seja, a recepção entusiástica
de Jesus nos umbrais de Jerusalém é revivida
semanalmente por centenas de milhões de
cristãos, mesmo que disso possam não ter
exacta consciência.
3. Cruzando os relatos evangélicos,
bastante aproximados entre si, pode
assumir-se que, sendo muitos os judeus que
se concentravam
em Jerusalém para
a festa da Páscoa,
e espalhando-se
a notícia de
que um famoso
profeta galileu,
capaz de milagres
assombrosos,
estaria a chegar,
uma multidão
juntou-se para O
ver. A multidão,
impressionada
pelo que d’Ele se
dizia, aclamou-O
com júbilo e
devoção, numa
atitude quase
messiânica. Daí
que se fale a
respeito da entrada
em Jerusalém,
num momento
de triunfo,
honra, glória
e louvor, no fundo, do reconhecimento
pelas massas dos atributos divinos. Este
episódio contribuiu decerto para a imediata
reacção persecutória do poder religioso,
civil e militar que viria nos dias seguintes e
culminaria na prisão, julgamento sumário,
condenação e crucificação de Jesus.
4. Este episódio de glorificação de tipo
messiânico ilustra bem a ausência de um
projecto político em Jesus e de Jesus. O
Messias — na concepção judaica — não é
apenas um salvador espiritual, é também
um libertador temporal (naquele preciso
tempo um libertador do jugo romano).
Este seria o momento — ou, como se diz
agora, o momentum — para Jesus assumir
a instauração do Reino, mas de um Reino
com coroa, ceptro e espada. Há, no entanto,
um sinal, marcado em todos os evangelhos,
e inspirado nas profecias de Isaías e de
Zacarias, que mostra simbolicamente que
Jesus, mesmo com este apoio popular, não
visa um reino político. Jesus entra montado
num jumentinho, filho de uma jumenta.
Não entra de liteira, nem chega a cavalo,
como um governador ou um general; passeia
mansamente no lombo de um simples burro.
E, por isso, dirá a Pilatos, dias mais tarde,
que o seu Reino não é deste mundo.
5. Confesso que esta passagem sempre
me interpelou. E que a projecção de glória,
de honra e de louvor, tão manifesta neste
episódio, e tão barrocamente presente na
liturgia católica, embora de clara raiz velhotestamentária,
sempre me inquietou e
desafiou. Precisará Deus da glória, da honra
e do louvor? Ou preferirá o amor, de dádiva
e a gratidão? Gostará Deus de ser tratado
como Senhor, sinónimo de uma relação
de propriedade e de domínio, inspirada
na antiga relação “servo-senhor”? Não
Lhe bastará e não O satisfará plenamente
o amor paternal, a caridade e o ágape de
Pai-Mãe e filho-filha? Por reflexo do hábito
e da educação e porque tem raízes fundas e
fundadas, penso e falo indistintamente num
Deus Pai e num Deus Senhor, e por mais que
faça, julgo que não conseguirei abandonar
esse quadro de formulação e de pensamento.
Mas sei também, mesmo pisando o risco de
muita incompreensão, que um Deus que tem
filhos não tem servos; que um Deus que é Pai
não deveria ser Senhor.
Público de 17 de Março de 2018

O dever do missionário não é de revolucionar o mundo, mas de transfigurá-lo. 26 de Março de 2018

...Entrambi sono l’esperienza evangelica in cui l’umano – persino quando è colto dentro i suoi limiti e le sue debolezze – diventa consapevole e capace delle sue migliori e più belle possibilità. E in questa prospettiva, i voti religiosi per la missione e la trasfigurazione consistono nell’attitudine a umanizzare il più possibile l’umano e tutto ciò che esiste secondo la misura, la statura e la figura di Gesù crocifisso e risorto. In questo giorno Mario ha infatti professato che “Non sono più io che vivo, ma Cristo vive in me. E questa vita io la vivo nella fede del Figlio di Dio che mi ha amato e ha dato se stesso per me” (Gal 2,20). La gioia della festa sembrava però destinata ad essere marcata anche dalla sofferenza...
Il compito missionario non è rivoluzionare il mondo ma trasfigurarlo attingendo la forza da Gesù Cristo. Buona Pasqua di Risurrezione/Trasfigurazione.
Padre Christian Carlassare
Moroyok – Sud Sudan
...
Estas são verdades cujo esquecimento tem levado, em meu entender, alguns jovens missionários ao fracasso pessoal e vocacional. Eu conheci alguns...

segunda-feira, 26 de março de 2018

JERUSALÉM, SÍMBOLO DA GUERRA OU DA PAZ? Frei Bento Domingues, O.P.


1. Nunca fui a Jerusalém. Um grande amigo que lá viveu 45 anos e lá morreu, Frei Francolino Gonçalves, nunca tentou convencer-me de que essa seria a peregrinação indispensável. Se não pudesse dispor pelo menos de um mês para observar e estudar as suas loucuras e contradições, era melhor não pôr lá os pés. Lamentava que as «peregrinações paroquiais» se esquecessem de visitar e apoiar as comunidades cristãs vivas, de língua árabe, e se fixassem apenas em pedras e lugares sagrados da memória, resgatados pela arqueologia.

Li narrativas, reportagens e obras sobre a chamada Terra Santa e os seus lugares de importância diferente para judeus, cristãos e muçulmanos.

Sei que o conhecimento directo da geografia dos acontecimentos bíblicos, históricos ou lendários, pode ajudar a imaginação de um leitor da Bíblia. Não consigo, porém, entrar na ideologia dos lugares sagrados ou santos. Esta facilmente resvala para a idolatria e para a magia. Um bom negócio, em todo o mundo, contra o qual o próprio Jesus se insurgiu. Sagradas são as pessoas de todos os povos e culturas. Nem acho graça nenhuma que um povo, seja ele qual for, se possa chamar povo de Deus, como um privilégio. Os outros povos de quem são?

Jesus teve um encontro inesperado com uma Samaritana. Um encontro fantástico. Entre outras questões, ela procurou tirar a limpo a dos lugares sagrados: os nossos pais adoraram neste Monte (Garizim), mas vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar. Jesus, depois de muitas considerações, concluiu: Vem a hora – e é agora – em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; pois tais são os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade[1]. Deus não está preso a nenhum lugar.

2. Começam hoje, Domingo de Ramos, as celebrações católicas da Páscoa. Nesta época, as televisões repõem filmes sobre a Paixão de Cristo, as instituições culturais promovem concertos de música sacra e as igrejas cristãs, cada uma com o seu estilo, tentam que a mensagem de Cristo não seja apenas uma memória do passado, mas um alimento transformante da vida. Nada disso sai fora do previsível, mas o que desejava que acontecesse seria um imprevisível concreto e para já: Paz em Jerusalém entre judeus, cristãos e muçulmanos.

Nada disto é da ordem do impossível nem está fora das referências e horizontes das chamadas religiões monoteístas. José Ornelas Carvalho, actual bispo de Setúbal, escreveu um texto sobre A utopia da paz na Bíblia que considero uma informação exemplar[2].

Em Israel, como em todo o antigo Médio Oriente, o ideal da sabedoria e da aprendizagem consistia em conseguir uma vida feliz, tendo em conta todas as dimensões da existência humana. Por isso, os sábios tratavam dos mais variados assuntos, como as questões da alimentação, da vida familiar, dos negócios, do relacionamento social, do cerimonial e do relacionamento com o mundo de Deus. Sábia era a pessoa que conseguia harmonizar todas estas dimensões da vida. Nesta perspectiva, o fruto da sabedoria é a paz.

O Salmo 122 não pode ser mais entusiasta: «Que alegria quando me disseram vamos para a casa do Senhor! Os nossos pés estão já às tuas portas, ó Jerusalém (…) Nela estão os tribunais da justiça, os tribunais da casa de David. Pedi a paz para Jerusalém: Prosperem aqueles que te amam; haja paz dentro das tuas muralhas, tranquilidade nos teus palácios. Por amor dos meus irmãos e amigos, proclamarei: a paz esteja contigo! Por amor da casa do Senhor, nosso Deus, pedirei o bem-estar para ti».

E os outros? Desta visão idílica, desta ideologia da paz, como privilégio étnico e divino de um povo, nasce a guerra santa contra os que a ameaçarem.

O ideal da paz institucional, baseado nos dois pilares, a monarquia e o templo, foi manipulado pelos que dela beneficiavam. Israel conheceu, muitas vezes, uma situação de ditadura – defendida em nome de Deus – ao sacralizar as suas instituições políticas. Os profetas como Miqueias, Jeremias e Ezequiel denunciaram aqueles que usavam o nome de profetas para enganar o povo e justificar a injustiça. No entanto, apesar de todos os esforços, Deus não se julgou atrelado ao destino de Israel e da sua paz. Pelo contrário. A eleição de Deus não é nem ritual nem automática. Ao dom de Deus deve corresponder um compromisso ético e religioso. Por isso, bênçãos e maldições estão sempre misturadas.

3. Jesus de Nazaré subiu muitas vezes a Jerusalém[3], a cidade dotada por Herodes, o Grande, de magníficas construções, que não o fascinavam. Foi lá que, pela última vez, confrontou os seus contemporâneos com a sua mensagem e a sua pessoa. Aí morreu cruxificado. Foi em Jerusalém que se formou a primeira comunidade cristã. Foi daí que a pregação do Evangelho partiu para o mundo.

Foi também nesta cidade que se reuniu o primeiro concílio da Igreja[4] para dirimir questões entre duas tendências do movimento cristão. A que desejava que os gentios convertidos aceitassem também a lei e os costumes judaicos e a outra, liderada por S. Paulo, que não podia aceitar que para ser cristão fosse necessário adoptar essa lei e costumes. A graça de Deus não fazia distinção de pessoas ou povos. Essas novas comunidades mistas, de judeus e gentios, realizavam o começo do universalismo cristão. O espírito de Jesus Cristo sentia-se livre e actuante em toda a Terra. O cristianismo não era uma sucursal do judaísmo.

A partir do que foi acontecendo em Antioquia, Éfeso e Roma, Jerusalém deixou de ser o centro do cristianismo[5].

Os muçulmanos chamam a Jerusalém, Al-Qods, «a santa» em árabe. Acreditam que foi lá que aconteceu a ascensão de Maomé ao céu. Jerusalém é o terceiro lugar sagrado do Islão.

Aqui, surge uma questão que muitos peregrinos levantam: é isto a «Terra Santa», é esta a cidade da paz? Haverá um só Deus para tantas guerras?

As religiões que se reclamam de Jerusalém, pelo menos nominalmente, representam dois mil milhões de habitantes da Terra. O seu bom ou mau exemplo encerra uma responsabilidade mundial. Em vez de judeus, cristãos e muçulmanos continuarem a disputar, pedaço a pedaço, a ocupação desta cidade, não seria preferível estabelecerem uma aliança que faça de Jerusalém a cidade da paz, um símbolo real de que o convívio amigo, entre as religiões, é possível? Era, por isso, importante que a sua gestão municipal resultasse de um acordo entre judeus, cristãos e muçulmanos[6]. Um sonho?

Santa Páscoa!



25.03.2018



[1] Jo 4
[2] José Ornelas Carvalho, A Utopia da Paz na Bíblia, Cadernos ISTA nº 9, Ano V 2000, pp.62-102
[3] Lc 13, 34s; Jo 2, 13. Sobre a situação de Jerusalém no tempo de Jesus, aconselho a longa Introdução de Xavier Léon-Dufour, ao Dictionaire du Nouveau Testament, Seuil, Paris 1975.
[4] Act 15
[5] Rm 15, 19
[6] Álvaro Vasconcelos, Jerusalém cidade aberta, Público, 10.12.2017

domingo, 18 de março de 2018

QUANDO PERDER É GANHAR Frei Bento Domingues, O.P.


1. Não fui eu que inventei o título desta crónica. Vem direitinho do Evangelho segundo S. João, com paralelo em S. Lucas, escolhido para ser proclamado na Missa deste Domingo. Quem, dentro ou fora dessa celebração, gastar algum tempo a meditar e a confrontar a sua vida com este texto, absolutamente espantoso, só tem a ganhar. A sua lógica é estranha, mais acertada, porém, do que qualquer outra lógica mundana, religiosa ou eclesiástica.

Começa numa conversa e vai acabar noutra. O contexto já é o da Páscoa judaica: seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde estava Lázaro que Jesus tinha arrancado da morte. Por esse motivo, a família de Lázaro ofereceu um jantar em sua casa. Pelos vistos, os discípulos também foram convidados.

Marta, como de costume, estava a preparar tudo e a servir à mesa. Maria, a irmã, era mais para o louco e foi buscar o melhor perfume para lavar os pés de Jesus. Enxugou-os com os seus cabelos. O seu reconhecimento por ver o irmão vivo era sem medida. Toda a casa ficou perfumada por aquela alegria.

Judas Iscariotes não gostou dessa extravagância. Aproveitou a cena para se mostrar o defensor dos pobres e marcar pontos aos olhos do Mestre: porque não se vendeu este perfume por trezentos denários – eram 300 dias de trabalho normal – para os dar aos mendigos? O narrador observa com malícia: ele disse isto, não porque se preocupasse com os mendigos, mas porque era ladrão e, como tinha a bolsa comum, metia a mão na massa; o “pobre” a beneficiar com a poupança seria ele próprio. Jesus cortou essa conversa e disse algo que teve consequências dramáticas: mendigos tendes sempre entre vós. Esta fala foi usada pelos exploradores para não se tocar nas injustas estruturas da sociedade. Jesus teria consagrado a desordem social. Se lermos bem, descobrimos que essa não era e não é o sentido da fatídica sentença. Verificaremos que Judas estava numa onda e Jesus noutra totalmente diferente. Pobres, desgraçadamente, nunca faltam. O que continua a faltar é a vontade de acabar com as causas da pobreza imposta.

Por outro lado, o autor do IV Evangelho não está a escrever uma reportagem jornalística, mas a fazer uma meditação retrospectiva, seleccionando enigmas e mistérios. A sua narrativa sabe que o fim trágico de Jesus estava a aproximar-se. Não iria morrer na cama rodeado de familiares e amigos. Daí, o seu empenho em defender a loucura de Maria, pois escreve para destacar a solidão imensa do Mestre - até os discípulos o abandonaram - e a paixão das mulheres por Aquele que lhes restituiu a dignidade humana e divina de filhas de Deus. Foram elas que acompanharam Jesus até ao fim e até depois do fim!

Isto para dizer que a situação externa daquele jantar estava carregada de tensões. Todos queriam ver Lázaro, o miraculado e Jesus, o autor do acontecimento. Os sumos-sacerdotes, os que viviam da religião oficial e do fluxo enorme de peregrinos naquela data, sentiram a ameaça. Muitos judeus estavam a passar-se para o lado de Jesus. Deliberaram matar os dois.

Entretanto, tudo se agravou. A multidão que tinha vindo para a Páscoa aproveitou o momento para uma ruidosa manifestação de apoio a Jesus, o Nazareno. Os discípulos, como sempre, não entendiam o que se estava a passar. Os fariseus estavam desesperados com aquele sucesso: todo o mundo vai atrás dele![i]

2. No meio daquela multidão, havia uns gregos simpatizantes do judaísmo (os «tementes a Deus»), intrigados com o que estava acontecer. Pediram, então, a um discípulo galileu, Filipe, nada menos do que isto: queremos ver Jesus.

O evangelista, como é sempre o seu costume, apresenta a resposta como se Jesus não tivesse percebido.

De facto, tinha chegado o momento sobre o qual já nenhuma ilusão era permitida. Jesus, no meio daquela confusão toda, talvez se interrogasse acerca do sentido do caminho percorrido com os discípulos, com as multidões e com os adversários cada vez mais agressivos e ameaçadores.

      Dada a sua teologia, S. João apresenta Jesus angustiado, mas não vencido. É chegada a hora em que o Filho do Homem será glorificado.

        A partir desse instante já não era possível recuar sem trair todo o sentido da sua vida e o Deus da sua paixão.Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto. Quem ama a sua vida; perdê-la-á e quem a perder neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém me quiser servir, que me siga. Onde eu estiver, estará também o meu servo. Se alguém me servir, meu Pai o honrará. Agora a minha alma está perturbada. E que hei-de dizer? Pai salva-me desta hora? Mas por causa disto é que eu cheguei a esta hora. Pai glorifica o teu nome”.

     S. João não está longe da versão de S. Lucas quanto à exigência libertadora no seguimento de Cristo: Aquele que quiser salvar a sua vida vai perdê-la, mas quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará[ii]. Realça: que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se ele se perder ou arruinar a sua humanidade?

3. Chegamos ao ponto essencial. Os discípulos de Jesus passaram o tempo a perguntar-lhe: que ganhamos nós em te seguir? A resposta foi sempre a mesma: a capacidade de servir alegria, de gastar a vida pela vida verdadeira de todos, a começar pelos mais abandonados. É por esse caminho que nos tornamos verdadeiramente humanos.

       Durante os tempos de Cristandade, perderam-se, na Igreja, muitas energias para conseguir e defender o poder de dominar. No entanto, em todos os momentos de verdadeira reforma, a referência incontornável continuou a mesma: é perdendo o poder de dominar que se ganha o gosto da vida como dom, a alegria verdadeira[iii].

Os Actos dos Apóstolos recolhem um aforismo de Jesus que não se encontra em mais lado nenhum. É referido por S. Paulo ao despedir-se dos anciãos de Éfeso: “Não desejei prata, ouro, nem o vestuário de ninguém. Vós próprios sabeis que às minhas necessidades e às dos meus companheiros valeram-me estas mãos. Mostrei-vos, de todos os modos, que trabalhando assim, devemos ajudar os fracos, lembrando as palavras do próprio Senhor Jesus: Há mais felicidade em dar do que em receber”[iv].

Dir-se-á que tudo isto está muito datado. Hoje, a economia, a política, as religiões já superaram essa ingenuidade e as suas ideologias globalizaram sistemas de dominação imperialista e de confronto bélico. Não valeria a pena interrogar as famílias, as instituições católicas de ensino a todos os níveis, a pastoral da Igreja nas suas diversas expressões, com a seguinte questão: será que nesses nichos católicos crescem pessoas com as “manias” de Jesus Cristo?



18. Março. 2018



[i] Jo 12, 1-19
[ii] Jo 12, 20-33; Lc 9, 23-26
[iii] Yves Congar, O.P., Igreja serva e pobre, Logos, Lisboa 1964; Javier Elzo,
   Quién manda en la Iglesia?, PPC, Madrid 2016
[iv] Act 20, 32-38.