domingo, 15 de julho de 2018
SEM MITRA NEM SOLIDÉU Frei Bento Domingues, O.P.
1. Por
vezes, confunde-se um profeta com um adivinho. O verdadeiro profeta é sobretudo
uma pessoa que vive a graça da lucidez humana e divina na defesa do bem comum. Vê
o que a cegueira dos interesses instalados não quer ver nem deixa ver. A
denúncia da traição da aliança mística e da aliança social – duas caras da
mesma moeda - é o seu tema. Como diz Miqueias, a proposta de conversão exige a
instauração do direito e da justiça[1]. As
pessoas aduladoras dos poderosos gostam de ser chamadas profetas, mas são, apenas,
os seus lacaios.
Na missa de hoje, é dada a palavra ao
incómodo Amós que exerceu essa missão, aproximadamente, entre 760 e 745 a.C..
Ele reconhecia a convicção comum aos seus concidadãos, a relação especial entre
Iavé e o seu povo, mas tirava daí consequências diametralmente opostas: Deus
não é propriedade privada de Israel. Perante Deus, todos os povos estão em pé
de igualdade. O antigo Israel tinha, apenas, maiores responsabilidades morais e
uma maior exposição aos castigos pelas injustiças que provocava ou consentia[2].
No tempo da actuação profética de Amós, o
reino de
Israel tinha atingido o máximo da
sua prosperidade, mas o luxo dos ricos insultava a miséria dos oprimidos e o
esplendor do culto disfarçava a ausência de uma religião verdadeira. O seu
estilo era rude e simples, imagem típica de um homem do campo. Para ele, a
prática do povo eleito era pior do que a dos gentios e não se calava perante
essa situação.
Então, Amasias, sacerdote de Betel, disse a Amós: «Vai-te daqui,
vidente. Foge para a terra de Judá. Aí ganharás o pão com as tuas profecias.
Mas não continues a profetizar aqui em Betel, que é o santuário real, o templo
do reino». Amós respondeu a Amasias: «Eu não era profeta, nem filho de profeta.
Era pastor de gado e cultivava sicómoros. Foi o Senhor que me tirou da guarda
do rebanho e me disse: Vai profetizar ao
meu povo de Israel»[3].
Como
já tentei mostrar, várias vezes, nestas crónicas dominicais, o carpinteiro de
Nazaré não chamou os doze apóstolos para as delícias do poder nem para
aduladores e imitadores dos grandes deste mundo. Consta, no
Evangelho de S. Marcos proposto para este Domingo[4], que
Jesus os enviou, dois a dois, com poder
sobre os espíritos impuros e ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a
não ser o bastão: nem pão, nem alforge, nem dinheiro; que fossem calçados com
sandálias e não levassem duas túnicas. Disse-lhes também: «Quando entrardes numa
casa, ficai nela até partirdes dali. Se não fordes recebidos em alguma
localidade, se os habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos
vossos pés como testemunho contra eles».
Não será esta uma proposta puramente utópica? Conheço um bispo que
sempre procurou mostrar que a utopia é o próprio realismo do profeta de Nazaré.
2. Já me tenho referido ao Ano
Raimon Pannikar, uma originalíssima figura da cultura e da religião da
Catalunha, que realizou, na sua pessoa e na sua obra imensa, a maior tentativa
de síntese entre o Oriente e o Ocidente.
Ao ler o texto do Evangelho de Marcos, lembrei-me de outro catalão que
fez 90 anos no mês de Fevereiro: Pedro Casaldáliga, chamado bispo descalço sobre a terra vermelha[5].
Durante 38 anos viveu e trabalhou no Brasil, primeiro como missionário claretiano e a partir de 1971, como bispo nomeado por Paulo VI. Não é uma cronologia, mesmo a de um bispo, que
define uma personalidade.
Pedro
Casaldáliga não adoptou a teologia da libertação como uma moda. Ele escolheu-a como
forma de vida e de actividade pastoral: Nada possuir, nada carregar, nada
pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar.
Quando
foi nomeado primeiro bispo da diocese, converteu sua casa, pequena, rural e
pobre, na sua sede episcopal, sede do seu povo, sobretudo dos mais
desfavorecidos, camponeses sem-terra, pobres, analfabetos e oprimidos por
coronéis e políticos.
Celebrava
a Eucaristia para os moradores no quintal da sua casa, entre as galinhas e, à
noite, deixava sua porta aberta para o caso de alguém, sem casa, precisar de
uma cama que estava sempre disponível. Andava de jeans e chinelos. Tinha duas mudas de roupa. Quando tinha de ir às
reuniões com o Episcopado, em Brasília, ia de autocarro, numa viagem de três
dias, pois esse era o meio de transporte da sua gente. Do aeroporto à sua casa,
em São Félix do Araguaia, só se chegava depois de 16 horas de estrada de terra.
Mais
tarde lembraria que, no início
da sua acção pastoral, faltava tudo: na saúde, na educação, na administração e
na justiça. Sobretudo, faltava, na população, a consciência dos próprios
direitos e a possibilidade de os reclamar. Acusado
de se interessar demasiado pelos problemas "materiais" dos pobres, respondia
que não concebia a dicotomia entre
evangelização e promoção humana. Decidiu, por isso, o caminho a
seguir. O seu lugar não era apenas ao lado dos camponeses sem-terra, mas também
o de construir escolas e centros de saúde.
3. Em 1988, o Vaticano convocou-o,
para que explicasse a sua proximidade à teologia da libertação e visitasse
o Papa João Paulo II, como já o devia ter feito.
Apresentou-se, então, em camisa, sem anel e com um colar indígena no pescoço.
Disse ao papa: Estou disposto a dar a
minha vida por S. Pedro, mas pelo Vaticano, é outra coisa. Ao sair do
encontro, declarou à imprensa: O papa escutou-me
e não me deu nenhuma repreensão. Poderia tê-lo feito, como também nós o podemos
fazer com ele. Acrescentou: O
Espírito Santo tem duas asas e a Igreja gosta mais de cortar a da esquerda.
No
momento em que se escolhem designers
para a indumentária e as insígnias episcopais e cardinalícias, seria bom não esquecer
as vozes, antigas e novas, que se interrogaram: sucessores de Pedro e dos Apóstolos
ou continuadores da era do imperador Constantino[6]?
Casaldáliga
não precisou desta lição sistematicamente esquecida. Quando a idade o obrigou a
apresentar a renúncia ao seu ministério, Roma não lhe pediu para esperar.
Casaldáliga fez só um pedido: ser um pároco ao serviço da diocese. Não teve
resposta. Foi um colaborador dos dois bispos que lhe sucederam.
Aos
noventa anos, vive onde sempre viveu, mas já não da mesma maneira. A sofrer de Parkinson, pouco mais lhe resta para
além da rotina habitual: cuidados físicos de manhã e, à tarde, leitura do correio,
sem poder responder a todas as mensagens de carinho que lhe enviam, porque já
tudo lhe custa.
Querido
S. Pedro Casaldáliga, reza por nós.
15. 07. 2018
[1]
Mq 6, 8
[2]
Francolino Gonçalves, Antigo Testamento e
direitos humanos, ISTA nº 6, 1998, p.40
[4]
Mc 6, 7-13
[5]
Título de uma mini-série que foi dedicada ao bispo Pedro Casaldàliga.
[6]
Cf. Yves Congar, O.P., Igreja serva e
pobre, ed Logos, Lisboa 1964, pp 65; 131 ss
quarta-feira, 11 de julho de 2018
GRUPO DE VISEU - JANTAR MENSAL DE JULHO DIA 14
Confirmar presença até ao meio dia de 6ª feira.
Podes confirmar a presença site ex-seminaristas combonianos ou para o Amaral, Eduardo ou Sá.
O jantar e ponto de encontro é no café/restaurante do Zé Luis ás 20.00 de sábado, dia 14.
Em meu nome e em nome da Associação dos Antigos Alunos Combonianos
Desejo-vos um Bom Jantar e muita confraternização.
A Pinheiro
Podes confirmar a presença site ex-seminaristas combonianos ou para o Amaral, Eduardo ou Sá.
O jantar e ponto de encontro é no café/restaurante do Zé Luis ás 20.00 de sábado, dia 14.
Em meu nome e em nome da Associação dos Antigos Alunos Combonianos
Desejo-vos um Bom Jantar e muita confraternização.
A Pinheiro
domingo, 8 de julho de 2018
NÃO HÁ MILAGRES? (2) Frei Bento Domingues, O.P.
1. O mal resulta da ausência de um bem que deveria existir, seja na
natureza, seja no agir humano. A serenidade desta lucidez metafísica tem um
inconveniente: ou é linguagem de robot para robots ou um insulto a quem sofre. As
ciências estudam as causas desses disfuncionamentos, os processos de os evitar
e os remédios da sua cura. Dizem-me que a imortalidade está no horizonte lógico
da ciência. A promessa da longevidade e da juventude ilimitadas vai de encontro
ao nosso desejo de viver bem, com saúde e sem envelhecimento. Esta conjectura
agradável não pode evitar interrogações de carácter social, político, económico,
cultural e ético. Os pós-humanistas julgam que essa hora chegará mais depressa
do que se imagina. Até lá, mais vale encarar o facto de uma existência limitada
que privilegia os laços da amizade e da solidariedade efectiva. A história do
sofrimento dos inocentes deita para o caixote do lixo qualquer especulação
sobre o mal.
Repete-se, desde Epicuro (séc. III
a. C), dos modos mais diversos, que Deus e o mal não podem coabitar. O mal é um
escândalo e um problema para qualquer ser humano, mas especialmente para quem é
religioso. Um mundo com mal e sem Deus talvez fosse menos problemático, pois ou
Deus quer eliminar o mal e não pode, ou pode e não quer. Se quer e não pode, é
impotente; se pode e não quer é mau.
Nunca me impressionou muito essa conversa
centrada num Deus encurralado pela lógica totalitária, sem espaço para a responsabilidade
humana.
O
que mais me espanta é a nossa falta de juízo e de bondade. Somos testemunhas de
guerras horrorosas. Sabemos que, na maioria dos casos, foram e são, a todos os
níveis, frutos do desejo de pessoas e grupos possessos da vontade de dominação
económica, política, cultural e religiosa. Em última análise, a resposta à
graça da livre conversão à boa e imaginativa hierarquização dos nossos desejos
pode ajudar a diminuir a loucura mundana. Encarar a vida como o desenvolvimento
de todos os talentos para ajudar, de modo competente, as capacidades dos que
não tiveram oportunidades, é talvez um bom caminho para a nova civilização
proposta pelo Papa Francisco. Para ele, o mal não é um problema teórico, mas um
desafio a enfrentar mediante a praxis humana solidária, cristã. Daí nasce a
fonte divina e humana dos verdadeiros milagres.
2. Diz-se que não há
testemunhos do riso de Jesus, mas abundam as referências ao seu requintado
humor. O texto escolhido para a liturgia do Domingo passado[1] e o proposto para hoje[2], colocam a questão dos milagres de forma tão pouco
convencional que importa analisar.
No primeiro, numa única narrativa,
entre o trágico e o cómico, acontecem dois “milagres” muito improváveis. Segundo
o Novo Testamento, o grupo dos fariseus – sobretudo os chefes das sinagogas – não
via com bons olhos as inovações do Nazareno. Ora, nesse texto, é precisamente
um chefe de sinagoga, chamado Jairo, a pedir, com insistência, a intervenção de
Jesus para salvar a sua filha que estava a morrer: vem impor-lhe as mãos para que se salve e viva. Jesus não se fez
rogado e acompanhou o pai da criança, seguido de grande multidão que o apertava
por todos os lados. Entretanto, uma mulher extremamente doente que, há doze
anos, sofria muito nas mãos de vários médicos e gastara todos os seus bens sem
ter obtido qualquer resultado, antes
piorava cada vez mais, tendo ouvido falar de Jesus, veio por entre a
multidão e tocou-lhe no manto, dizendo consigo: se eu, ao menos, tocar nas suas vestes, ficarei curada. E ficou.
Não foi um gesto supersticioso,
foi um puro acto de fé, isto é, de confiança absoluta.
É verdade que a narrativa é cómica:
quando Jesus pergunta quem me tocou, apertado
pela multidão, os discípulos acham a pergunta descabida. De facto, Jesus sentiu
que algo aconteceu no seu próprio corpo e a mulher, assustada e a tremer pelo
que lhe tinha acontecido, disse a verdade. Jesus nem sequer diz que a curou: minha filha a tua fé te salvou. Ao dizer
isto, Jesus exprimiu o mais íntimo da relação entre Deus e o ser humano. A coincidência
de dois movimentos: o desejo de Jesus de curar – era a sua maneira de viver – e
o desejo da mulher de ser curada. A salvação realiza-se no encontro desses dois
movimentos. A fé salva porque é a entrega confiante ao amor que a precede. É o
abraço de dois desejos: de Deus e da criatura. É, por isso, um exercício de
liberdade. Deus deseja, mas não obriga ninguém a reconhecê-lo nos seus sinais.
Quando Jesus diz à mulher foi a tua fé que te salvou, até parece
que ele não fez nada. Não é verdade. Como diz o narrador, do corpo de Jesus
saiu uma energia real que ele próprio estranhou. Essa graça encontrou-se com um
desejo ardente e desesperado. Sem este desejo da mulher Jesus não podia nada.
3. No meio da confusão, vem a notícia da casa de Jairo: a tua filha morreu, não incomodes mais o
Mestre.
Jesus ao chefe da sinagoga: Não temas, basta que tenhas fé. Seguido
de Pedro, Tiago e João, vendo grande alvoroço com gente que chorava e gritava,
atreve-se a uma provocação que até parecia de mau gosto: a menina não morreu, está a dormir. Riram-se dele. Levando consigo
o pai e os referidos discípulos, entrou no local onde ela jazia. Pegou-lhe na
mão e disse: Menina, eu te ordeno,
levanta-te. Ela ergueu-se imediatamente e começou a andar, pois já tinha
doze anos. Ficaram todos muito maravilhados. Jesus recomendou-lhes,
insistentemente, que ninguém soubesse do caso e mandou dar-lhe de comer.
Noutros casos, as pessoas que
reconheciam em Jesus uma energia estranha atribuíam-na a uma possessão diabólica
porque ele não era um observante de convenções religiosas[3].
É essa a questão deste Domingo. Jesus
foi à sua terra acompanhado dos discípulos. Chegado o sábado, começou a ensinar
na sinagoga. Os numerosos ouvintes interrogavam-se acerca da origem das suas
palavras e acções prodigiosas, mas ficavam de fora. Porque seria? O
conhecimento do estatuto modesto deste carpinteiro e da sua numerosa família secava
qualquer interrogação de fundo. O conhecimento que tinham de Jesus era uma
ignorância acerca da significação inovadora do que Ele andava a fazer e a
dizer. Ao preferirem continuar num ram-ram
sem surpresas e sem novos horizontes, ficaram onde sempre estiveram. O ritual
foi cumprido e nada aconteceu. Ao contrário do Domingo passado, Jesus ficou
espantado com a falta de fé daquela gente.
Nas celebrações actuais da
Eucaristia, para que algo aconteça de inovador, é preciso deixar-se convocar
para a participação na reforma pessoal, da Igreja e da sociedade. Sem esse
desejo activo, Cristo nada pode fazer. Os rituais são cumpridos, mas se as instituições
da Igreja continuarem no seu ram-ram e
a ignorar os desafios do Papa Francisco, que se pode esperar?
Alguns julgam-se heróis da mudança
pelo regresso ao que julgam ser a Santa
Missa de Sempre, que nunca existiu como missa de sempre. Andam para trás
para se realizarem como estátuas de sal, fruto de uma incurável miopia[4].
08.07.2018
sexta-feira, 6 de julho de 2018
Alegrai-vos e exultai - Anselmo Borges
1. Estava eu numa aula sobre uma compreensão holística de saúde e, dirigindo-me a uma aluna, perguntei: "Gostava de ser santa, não gostava?" E ela, aflita e cortante: "Não, nem pensar nisso!". Acrescentei: "No entanto, se pensar bem, é isso que todos queremos ser." E comecei a explicar, começando pelo tema em questão: o da saúde. Eu estou bem, mas bastaria uma unha encravada no dedo mindinho do pé esquerdo para já me sentir mal. A saúde está no funcionamento harmónico de todos os órgãos do corpo. Mas não basta, pois se eu não me der bem comigo, também me sinto mal. Há gente que não pode ver certas pessoas, só de vê-las ficam doentes. Para estar são, é necessária uma relação boa com os outros. E se o que há para contemplar for apenas lixeiras? A saúde requer também uma relação bela e sadia com a natureza. Ah, e com a transcendência... Isso é dito, aliás, nas próprias palavras, no seu étimo. Saúde vem do latim salute, que significa simultaneamente saúde e salvação. Neste contexto de saúde em sentido holístico, são e santo estão em união estreita, como se constata nas línguas anglo-saxónicas: saúde (health, em inglês) em conexão com holy - santo, e, em alemão, heilen - curar --, em conexão com heilig - santo - e Heil - salvação e são; também em português, há a mesma ligação entre são e santo, de tal modo que se diz, por exemplo, um homem são e São João, para dizer que o santo só pode ser um ser humano autêntico, íntegro e pleno. O inglês e o alemão remetem para the whole, o todo holisticamente considerado, isto é, o todo que é mais do que a soma das partes. O mal é que, quando se pensa em santos, se pensa em gente estranha, do "outro mundo", que se dá muito mal com a vida e que se encontram nos altares, torcidos, a olhar de lado e
2. Foi isto que o Papa Francisco veio dizer numa bela Exortação, com o título acima: "Alegrai-vos e exultai" - todos os grandes textos de Francisco estão sob o desígnio da alegria. Porque o Evangelho é uma notícia boa e felicitante. A Exortação é sobre a santidade. E lá está: todos são chamados à santidade, isto é, à plenitude, à perfeição, à alegria, na vida do quotidiano. Deus "pede tudo e, em troca, oferece a felicidade para a qual fomos criados. Quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, aguada e liquefeita" (etimologicamente, medíocre significa o que não subiu até ao cimo, pois ficou a meio da montanha; aguado: vinho adulterado com água; liquefeito, sem solidez, como reflectiu Zygmunt Bauman). "Ser santo não significa revirar os olhos nem viver em êxtase." "O santo não é uma pessoa excêntrica, distante, que se torna insuportável pela sua vaidade, negativismo e ressentimento". "Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade está reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avô ou avó? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. És investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum, renunciando aos teus interesses pessoais". Aquela mãe ou aquele pai rumam à santidade quando, em casa, "o seu filho reclama a sua atenção para falar das suas fantasias" e eles, embora cansados, "sentam-se ao seu lado e escutam com paciência e carinho". Francisco defende o que chama a "classe média da santidade", os santos "ao pé da porta", eles vivem perto de nós e são reflexos da presença de Deus: "Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir". "Não tenhas medo da santidade. Não te tirará forças nem vida nem alegria. Não tenhas medo de apontar para mais alto, de te deixares amar e libertar por Deus. A santidade não te torna menos humano, porque é o encontro da tua fragilidade com a força da graça de Deus."
A vida é uma missão, que se cumpre na contemplação e na acção. O que não santifica é "um compromisso movido pela ansiedade, o orgulho, a necessidade de aparecer e dominar", "as novidades contínuas dos meios tecnológicos, o fascínio de viajar, as inúmeras ofertas de consumo", menosprezando os momentos de quietude, solidão e silêncio para estar consigo e diante de Deus, ou quando "tudo se enche de palavras, prazeres epidérmicos e rumores a uma velocidade cada vez maior; aqui não reina a alegria, mas a insatisfação de quem não sabe para que vive".
O santo não está nas "redes de violência verbal através da Internet e vários fóruns ou espaços de intercâmbio digital", procurando "compensar as próprias insatisfações descarregando furiosamente os desejos de vingança". "Se vivermos tensos, arrogantes diante dos outros, acabamos cansados e exaustos. Mas, quando olhamos os seus limites e defeitos com mansidão, sem nos sentirmos superiores, podemos dar-lhes uma mão e evitamos energias em lamentações inúteis." Por outro lado, a santidade nada tem a ver com "um espírito retraído, tristonho, amargo, melancólico ou um perfil sumido, sem energia. O santo é capaz de viver com alegria e sentido de humor." Porque, mesmo nos momentos mais difíceis, momentos da cruz, nada pode destruir a alegria sobrenatural, que "sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados por Deus".
Padre e professor de Filosofia
de modo esquisito... Então, a jovem disse: "Sim, pensando bem...".
s."
domingo, 1 de julho de 2018
NÃO HÁ MILAGRES? (1) Frei Bento Domingues, O.P.
1. Falou-se, durante muito tempo, do milagre económico alemão.
Quando se deseja criticar uma gestão económica e financeira diz-se: não há
milagres! Em clima de religião barata vem o velho ditado: fia-te na Virgem e
não corras! São apelos sensatos para que as iniciativas humanas sejam pensadas
e planeadas a tempo, executadas com rigor. Não deixar as nossas decisões ao Deus dará, pois Ele ajuda quem se sabe
ajudar. Afirmar que não há milagres nem
sempre significa uma atitude ateísta ou negação da providência divina. Pode ser
apenas respeito pela responsabilidade humana com uma conotação teológica: não invocar o Santo nome de Deus em vão.
Não é aconselhável dar demasiada
importância à linguagem do quotidiano que, raramente, é fruto de grandes
cogitações como, por exemplo, eu cá sou
ateu graças a Deus. Usa-se o vocabulário mais disponível, marcado pelo
contexto social e cultural de uma população. Há zonas do país, nas quais, um
palavrão é, apenas, um recurso simples e rápido, para acabar com uma conversa
que não leva a lado nenhum.
2. A oração, a promessa, a acção de graças e o milagre são a
própria paisagem da religião, a não confundir com a beatice. Em alguns
contextos, significa o próprio clima da interioridade que acompanha as
transformações da vida espiritual. Em outros casos, são narrativas sociais,
umas mais discretas, outras mais aparatosas e, até, exibicionistas, para dizer
a fé de um grupo religioso, o sentido profundo da vida. Pede-se ao céu, a Deus
e aos seus anjos e santos, que se lembrem de nós, que nos dêem a mão.
A celebração da memória da fé dos
antepassados é essencial. Nós fazemos parte da sua história e eles desejam
fazer parte da nossa vida se a intensidade do nosso desejo pedir a sua
intervenção.
Religião exterior e interior –
salvo nos casos de hipocrisia – podem reforçar-se uma à outra. Como a sociedade
muda, é normal que também sejam alteradas as suas representações.
Quer ao nível da religião popular
e das suas expressões, quer no confronto com a Bíblia e com a prática de Jesus,
a questão dos milagres é incontornável.
Numa era
sacral, quando a imagem deste mundo dependia das representações
sobrenaturais, negar a possibilidade do milagre era uma ofensa ao bom senso: se não é Deus a guiar a misteriosa marcha
deste mundo, quem é? Os milagres e as relíquias milagrosas tornaram-se um
vício abençoado.
Na nossa era secular, a linguagem universalmente credível é a da ciência e
da técnica. As sucessivas revoluções industriais que elas possibilitam, para
bem e para mal, são da responsabilidade humana. Pedir contas a Deus ou
solicitar a sua intervenção não parece sensato.
Temos, no entanto, de não
confundir religião com superstição. Como
observa L. Wittgenstein, a fé religiosa e a superstição são muito diferentes.
Uma resulta do medo e é uma espécie
de falsa ciência. A outra é uma confiança[1].
Para
tentar escapar às dificuldades que a própria noção de milagre implica, foi elaborada
uma ideia mais “moderna” de milagre. Diz-se que há milagre quando um fenómeno
não pode ser explicado por nenhuma ciência ou técnica disponíveis. Isto
acontece, sobretudo, no campo da medicina. Para ter milagres verdadeiros,
reais, capazes de levar santos aos altares, para canonizar vidas santas, é
preciso a ocorrência de um acontecimento inexplicável pela ciência e pela
técnica. Dado o seu carácter benéfico, só pode ser fruto da intervenção de Deus.
É esta noção de milagre que foi
muito importante, sobretudo no século XIX, para distinguir sinais de santidade
verdadeira de embustes devotos. Foi uma medida muito higiénica no campo
religioso, uma forma de dizer que não vale tudo no campo devocional.
Há quem fale de milagres de
primeira e milagres de segunda. Os de primeira são os que resistem a todos os
testes. Os de segunda são as graças que enchem a literatura piedosa, muito
distribuída em certos locais destinadas a criar ambiente para o acontecimento
dos milagres de primeira, capazes de levar um santo aos altares.
3. Em tudo isto, é esquecida a condição
do desenvolvimento das ciências e das técnicas. Estão sempre em evolução. O que
numa época se considerou uma ocorrência para além dos poderes da natureza, com
o desenvolvimento posterior das ciências e das técnicas talvez possa vir a ser explicável.
É verdade, mas continuamos a considerar, no mesmo plano, a misteriosa
intervenção de Deus e as acções humanas. Um pouco de teologia negativa pode
ajudar.
Quem lê o Novo Testamento ou
participa nas celebrações eucarísticas não pode evitar a pergunta: será que Jesus fazia milagres ou são
apenas histórias de uma era sacral para alimentar uma ilusão para os nossos
dias? Se Jesus fez milagres, há 2 mil anos, ainda deve ter a mesma bondade e o
mesmo saber para as situações actuais. Como não gosta de fazer nada sozinho, é
normal que associe os anjos e os santos – canonizados ou não – à sua vontade de
fazer o bem, sobretudo nas situações mais aflitivas.
Para pensar isto com certa clareza,
não se deve esquecer a história de Pascal: Conta-se que, certo dia, Pascal se
encontrou com um amigo num castelo, no cimo de uma colina. Após algum tempo de
espera, o amigo chegou com o rosto desfigurado, a roupa rota e o corpo cheio de
nódoas e feridas. – O que é que te aconteceu? – perguntou Pascal. – Não
imaginas o milagre que Deus acaba de me fazer! – respondeu o amigo. Quando
vinha para cá, o meu cavalo resvalou perto de uma ravina. Eu caí, fui rolando e
resvalando, mas detive-me exactamente na borda do precipício. Imaginas? Que
milagre Deus acaba de me fazer! Ao que Pascal retorquiu: E o milagre que Deus
acaba de me fazer a mim? Ao vir para cá, nem sequer caí do cavalo!»[2].
Neste Domingo, o humor e a astúcia
de S. Marcos[3],
ao encaixar numa única narrativa dois milagres
improváveis, obrigam-nos a pensar que a nossa maior cegueira, seja a que nível
for, é a incapacidade renovada de não ver o que temos diante dos olhos. Gloriamo-nos,
com razão, dos avanços da ciência, da indústria e dos seus progressos. Ao
esquecer que tanto podem realizar o milagre da paz e do bem-estar, como
provocar guerras em cadeia e a destruição, ficamos nas mãos dos donos deste
mundo.
No Domingo que vem, até o próprio
Jesus se espanta com tanta miopia.
01. 07. 2018
[1]
Cultura e Valor, Edições 70, 1980,
pp. 107
[2]
Ver, para todo este assunto, as observações de Ariel Ávarez Valdés in Bíblica nº 352 (maio-junho 2014), pp.
99-104; ver também Miracle de Xavier
Léon-Dufour, Dictionaire du Nouveau
Testament, Seuil, 1975.
[3]
Mc 5, 21-43
CRISTO NÃO DESEMPREGOU OS SANTOS (2) Frei Bento Domingues O.P.
1. Não entendo
nada do jogo do “monopólio”. Parece que é guiado por uma lógica económica muito
simples: para uns jogadores ficarem ricos, os outros vão à falência.
Não pretendo encontrar aí uma analogia para a relação entre
as religiões, mas sempre ouvi dizer aos críticos do monoteísmo que a sua
vitória foi um golpe muito duro no pluralismo religioso da antiguidade. Um Deus
único não poderia tolerar concorrentes.
Não é essa questão, cheia de falácias, que pretendo abordar
nesta crónica. A palavra Deus encobre
significações muito diferentes. Lembrei-me desse jogo ao ler uma recente declaração
do actual Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Luis Ladaria. Tenta ressuscitar
a Carta Apostólica de João Paulo II – Ordinatio
sacerdotalis – para reafirmar que o jogo do sacerdócio ministerial foi
ganho pelos homens e a falência sacerdotal das mulheres é irremediável. A
referida Carta defendia que o sacerdócio ministerial – de padres e bispos - é
monopólio masculino e definitivo: sempre assim foi e sempre assim será.
Compreendo o zelo do Prefeito L. Ladaria. Perante a
arremetida teológica, cada vez mais insistente, contra o monopólio masculino,
reagiu segundo a sua função policial: lembra que a lei tem de ser respeitada.
Mas não lhe pertencia repetir que esta nunca poderá ser alterada. Que um Papa
tenha dito isso, obriga a um acurado reexame do que ele entendia por Igreja e
da sua concepção dos seus poderes no futuro.
A primeira interrogação é esta: as mulheres não serão
Igreja? Não conheço nenhum movimento de mulheres satisfeitas com a sua menoridade eclesial. O sujeito Igreja não será constituído por todas as
pessoas baptizadas? Ou será que alguém descobriu na tradição eclesial um
Baptismo próprio para homens e outro para mulheres? S. Paulo ficaria indignado
com essa loucura[1].
O Papa Francisco,
quando chegou ao Vaticano, já tinha o terreno armadilhado com Cartas
Apostólicas semeadas de sentenças definitivas,
enunciando posições doutrinais que nenhum outro papa ou concílio poderia
modificar. Essa arrogância denuncia um estilo, mas talvez não uma exigência
divina.
Na Praça de S. Pedro, na reflexão sobre o sacramento do
Crisma, o estilo de Bergoglio é muito diferente: A missão da Igreja no mundo procede através da contribuição de todos
aqueles que fazem parte dela. Alguns pensam que na Igreja existem patrões: o
Papa, os bispos, os sacerdotes e depois os outros. Não: todos nós somos Igreja!
Todos temos a responsabilidade de nos santificarmos uns aos outros e de
cuidarmos de todos.
Todos nós somos
Igreja! Cada qual tem a sua função, mas, repito, todos nós somos Igreja! Com
efeito, devemos pensar na Igreja como num organismo vivo, composto por pessoas
que conhecemos e com as quais caminhamos e não como numa realidade abstracta e
distante.
A Igreja somos nós
que caminhamos, a Igreja somos nós que hoje nos encontramos nesta praça. Nós: esta é a Igreja. A Confirmação
vincula à Igreja universal, espalhada pela terra inteira, mas compromete activamente
os crismandos na vida da Igreja particular à qual pertencem, tendo como cabeça
o Bispo, que é o sucessor dos Apóstolos.
O jogo deste Papa
não é o do monopólio. A sua Igreja não é a dos patrões.
2. Estamos no mês dos Santos Populares: a 13, Santo António, a 24, S.
João e, a 29, S. Pedro. Esses santos mais antigos são valores seguros. Mesmo
numa era secular e num Estado laico,
as autarquias compreendem que são os santos da religião popular que marcam as
festas do povo. Quem reconfigura esses santos são os seus devotos, sem pedir
licença a ninguém. Têm um traço comum. A sua ocupação e preocupação é a vida e
a alegria das populações. A saúde e a guarda das pessoas e dos animais, o êxito
das sementeiras e das colheitas, a esperança contra os excessos da seca e da
chuva, das ameaças da fome, da peste e da guerra. As promessas, as romarias, as
peregrinações, o canto ao desafio e as danças dos grupos e das bandas, a
partilha dos merendeiros e de uma boa pinga são a linguagem dos céus e da
terra, simbolizados no fogo que leva o mundo às alturas, não o fogo dos
incêndios.
Os santos populares e as alminhas eram gente
de casa com quem se podia contar na saúde e na doença, na tristeza e na alegria.
É gente do lugarejo, é gente da freguesia, é gente do Conselho, é gente do
mundo todo. Fez-se uma imagem de santos canonizados, fixos nos altares, depois
de processos canónicos, mais ou menos morosos, para apanhar pó. Os Santos
Populares foram canonizados pelo povo. Esses estão sempre no activo, venerados
ou a quem se pede contas pelos desleixos.
Deus não vive no
céu e numa eternidade aborrecida e os que vão para o céu também não se vão
aborrecer. Todos activos.
Pouco importa a
biografia histórica de cada um desses santos preferidos. Por exemplo, de Sto.
António, teólogo e pregador, ficou muito pouco. Sempre com o menino ao colo, existem
poucas imagens de Santo António cansado, de menino pela mão. Conta-se tanto com
ele que, no dia ou na noite em que não ele atende os seus devotos, é posto de
castigo.
Quem acompanhar as
orações a este santo, no seu Mensageiro,
tem sempre uma página que lhe é dedicada. O estilo não varia muito: «Meu Santo
Amigo, já me salvaste da morte. Agradeço reconhecido. Ajuda a minha família e
em especial a minha filha mais velha, tu sabes quem é. Que os médicos que a
seguem descubram de que padece, os assuntos da mente e do espírito são
complicados. Mas confio em Ti, meu Santo António. As bênçãos de Deus para quem
mais precisar. Ámen. José».
3. Os santos
populares não se passeiam todos em andores. O Papa Francisco prefere ver a
santidade nos pais que criam os seus filhos com tanto
amor, nos homens e nas mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa,
nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Vejo aí a santidade
da Igreja militante. É a santidade «ao pé da porta», daqueles que vivem perto
de nós e são um reflexo da presença de Deus ou, por outras palavras, a classe média da santidade.
A santidade não consiste
em ter visões, recitar orações elevadíssimas ou mostrar cara de santinho. Não é
reserva da terceira idade ou de jovens que a esperam sentados. A santidade do
jovem é ir em frente, ser desassossegado[2].
Cristo não se reconhece em
nenhum jogo de monopólio da santidade. O seu empenhamento é levar todos os
seres humanos, seja qual for a sua idade, povo, cultura ou religião à plenitude
da vida.
Os santos não são
concorrentes, são associados, todos membros do seu corpo místico.
24. 06. 2018
[1]
Gl. 3, 23-29
[2]
As referências aos santos e à santidade foram inspiradas em Gaudete et
Exsultate, do Papa Francisco, 2018 e nas recentes Audiências Gerais de 6 e 13
de Junho.
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