1.O IX Encontro Mundial das
Famílias realiza-se em Dublin,
de 21 a 26 de agosto. Tem
por tema «O Evangelho da Família:
Alegria para o mundo».
É vontade do Papa Francisco
que «as famílias tenham a possibilidade
de aprofundar a sua reflexão e a
sua partilha sobre o conteúdo da Exortação
Apostólica A Alegria do Amor.
E acrescenta: «Seria possível questionar-
se: O Evangelho continua a ser alegria
para o mundo? E mais ainda. A família
continua a ser uma boa notícia para
o mundo de hoje?»
Salienta depois a importância do amor,
escrevendo: «Desejo pôr em evidência como
é importante que as famílias se interroguem,
frequentemente, se vivem a
partir do amor, para o amor e no amor.
Concretamente, isto significa doar-se,
perdoar-se, não perder a paciência, antecipar
o outro, respeitar-se. Como seria
melhor a vida familiar, se cada dia vivêssemos
as três simples palavras: «com licença
», «obrigado» e «desculpa»!
2. A fim de preparar o encontro foi elaborado
um conjunto de sete catequeses
que, partindo do texto bíblico da perda
e encontro de Jesus no templo, versam
os temas: as Famílias de hoje; as Famílias
à luz da Palavra de Deus; o Grande Sonho
de Deus; o Grande Sonho para todos;
a cultura da vida; a cultura da esperança;
a cultura da alegria.
Redigidas a pensar nos participantes
do referido encontro, constituem
temas para refletir por quem nele participa
e por quem o não pode fazer;
antes e depois do encontro. São muito
atuais. O Grupo de Reflexão Cristã
com quem me encontro periodicamente
decidiu já, na próxima reunião, partilhar
a reflexão que cada um dos elementos
vai fazer com base na primeira
dessas catequeses.
3. Perante situações de crise, que não
são de agora, é importante que os membros
da família saibam como reagir. Não
há casais perfeitos nem famílias perfeitas.
Impõe-se que todos façam um esforço
por se aperfeiçoarem.
4. O Papa acentua a importância do
amor na família. E o que é o amor?
Esta é uma pergunta que todos temos
o dever de nos fazer, porque o conceito
de amor anda muito adulterado. Confunde-
se amor com atração sexual.
Dessa mentalidade se fez eco Augusto
Gil, ao escrever: «O amor em quem
aparece/dizem que faz maravilhas./
Eu nunca vi que fizesse/mais do que
filhos e filhas».
Hoje – o decréscimo da natalidade
o demonstra – em muitos casos nem
filhos e filhas faz. Não passa de exploração
sexual do outro. E quando esta
atinge a saturação, muda-se de parceiro.
5. É urgente, em muitos casos, reabilitar
a palavra amor. Dar-lhe o significado
que realmente deve possuir:
a procura do bem do outro; o sentir-se
responsável pela felicidade do outro, e
não o metê-lo em sarilhos; o viver para
o outro e não à sua custa.
O verdadeiro amor implica renúncia
ao próprio egoísmo. Muitas vezes
exige o sacrifício da própria vontade,
quando esta colide com o legítimo
bem do outro.
Amar é reconhecer no outro a dignidade
de ser humano e de filho de
Deus. É trata-lo como pessoa e não como
objeto que se usa ou se aluga. É ver
no outro um ser igual a si em dignidade
e em direitos. É dialogar com o outro
e não passar a vida a dar-lhe ordens.
Amar é aceitar o outro como ele é:
com as suas qualidades e os seus defeitos.
É fixar-se nas qual idades e ser
compreensivo em relação às limitações.
É, com amor, sem qualquer espécie
de paternalismo lamechas, ajudar
o outro a ser cada vez melhor, a superar-
se. Alegrar-se com os seus êxitos e
encorajá-lo (não humilhá-lo) quando
surgem os fracassos.
6. Há jovens cristãos que, à hora de
decidirem, preferem a simples união
ou o casamento meramente civil, por
medo de assumirem compromissos para
sempre. Ignoram, por certo, o valor
da graça sacramental.
Mas este medo pode ter por base o
mau exemplo recebido de casais que
se aguentam mas se não amam. Que
coexistem mas não convivem. Que,
em vez de se amarem, se ignoram ou
até se infernizam, com agressões físicas
ou verbais.
7. Sai este texto no Dia dos Avós. Para
todos eles, a minha homenagem.
quinta-feira, 26 de julho de 2018
terça-feira, 17 de julho de 2018
Quem se preocupa com a intolerância anti-religiosa? D M
1.O crente não tem de ser anti-ateu. Será que o ateu terá
de ser anticrente?
Sucede que a novidade hoje já não é o ateísmo; é a
atitude anti-religiosa. O que mais impressiona actualmente
não é haver quem não tenha fé; é haver quem
hostilize quem pretende viver a fé que tem.
2. O regresso da intolerância – assinalado recentemente por
Lídia Jorge – não é um exclusivo da religião.
A intolerância vai assumindo também uma feição cada vez
mais anti-religiosa.
3. No ocidente, esta intolerância não é feita através de uma perseguição
declarada. Ela é tecida sobretudo através de condicionamentos
e depreciações.
Na hora que passa, a religião não é abertamente combatida.
Mas a sua expressão é crescentemente limitada e teimosamente
retorcida.
4. Polarizado o tempo em torno do instante, o perene da mensagem
tende a ser zurzido como retrógrado, desfasado.
As manifestações de fé são, muitas vezes, truncadas e distorcidas.
Há quem as apresente com um ar escarnecedor e zombeteiro.
5. À semelhança dos outros poderes, também o poder mediático
não é favorável à religião.
Em nome de uma presumida neutralidade, opta-se geralmente
por um silenciamento. Este é pontualmente quebrado para expor
aspectos marginais. Ou então – como tem sucedido ultimamente
– para explorar «ad nauseam» algumas fragilidades.
6. Acontece que, dada a sua capacidade para influenciar, os
«media» acabam por formatar a sensibilidade das pessoas acerca
da religião.
São muitos os que validam a mais improvável informação sem
cuidar de conferir a respectiva veracidade.
7. Quem lê os documentos da Igreja? Quando muito, lê-se o
que é dito – e mostrado – sobre tais documentos.
Sem nos apercebermos, não debatemos o que dizem directamente
os Padres, os Bispos e o Papa. Passamos o tempo a discutir o
que sobre eles passa nos jornais, nas televisões e nas redes sociais.
8. Dir-se-á que é a realidade, a que temos de nos habituar.
O problema é que aquilo que é veiculado parece partir de arquétipos
e preconceitos anti-religiosos.
9. Quantas não são as vezes em que temos de coar o que nos
é transmitido, encaminhando os interlocutores para o encontro
com a realidade e com as fontes?
Mas há sempre quem tome uma possibilidade como um facto
consumado. E não falta sequer quem transforme uma mera suspeita
numa definitiva – e impiedosa – sentença.
10. Acresce que nesta intolerância quase ninguém repara.
O direito de não crer é indiscutível. Mas será que o dever de
respeitar quem crê é menos sagrado?
José António Teixeira - Teólogo in Diário do Minho
de ser anticrente?
Sucede que a novidade hoje já não é o ateísmo; é a
atitude anti-religiosa. O que mais impressiona actualmente
não é haver quem não tenha fé; é haver quem
hostilize quem pretende viver a fé que tem.
2. O regresso da intolerância – assinalado recentemente por
Lídia Jorge – não é um exclusivo da religião.
A intolerância vai assumindo também uma feição cada vez
mais anti-religiosa.
3. No ocidente, esta intolerância não é feita através de uma perseguição
declarada. Ela é tecida sobretudo através de condicionamentos
e depreciações.
Na hora que passa, a religião não é abertamente combatida.
Mas a sua expressão é crescentemente limitada e teimosamente
retorcida.
4. Polarizado o tempo em torno do instante, o perene da mensagem
tende a ser zurzido como retrógrado, desfasado.
As manifestações de fé são, muitas vezes, truncadas e distorcidas.
Há quem as apresente com um ar escarnecedor e zombeteiro.
5. À semelhança dos outros poderes, também o poder mediático
não é favorável à religião.
Em nome de uma presumida neutralidade, opta-se geralmente
por um silenciamento. Este é pontualmente quebrado para expor
aspectos marginais. Ou então – como tem sucedido ultimamente
– para explorar «ad nauseam» algumas fragilidades.
6. Acontece que, dada a sua capacidade para influenciar, os
«media» acabam por formatar a sensibilidade das pessoas acerca
da religião.
São muitos os que validam a mais improvável informação sem
cuidar de conferir a respectiva veracidade.
7. Quem lê os documentos da Igreja? Quando muito, lê-se o
que é dito – e mostrado – sobre tais documentos.
Sem nos apercebermos, não debatemos o que dizem directamente
os Padres, os Bispos e o Papa. Passamos o tempo a discutir o
que sobre eles passa nos jornais, nas televisões e nas redes sociais.
8. Dir-se-á que é a realidade, a que temos de nos habituar.
O problema é que aquilo que é veiculado parece partir de arquétipos
e preconceitos anti-religiosos.
9. Quantas não são as vezes em que temos de coar o que nos
é transmitido, encaminhando os interlocutores para o encontro
com a realidade e com as fontes?
Mas há sempre quem tome uma possibilidade como um facto
consumado. E não falta sequer quem transforme uma mera suspeita
numa definitiva – e impiedosa – sentença.
10. Acresce que nesta intolerância quase ninguém repara.
O direito de não crer é indiscutível. Mas será que o dever de
respeitar quem crê é menos sagrado?
José António Teixeira - Teólogo in Diário do Minho
domingo, 15 de julho de 2018
SEM MITRA NEM SOLIDÉU Frei Bento Domingues, O.P.
1. Por
vezes, confunde-se um profeta com um adivinho. O verdadeiro profeta é sobretudo
uma pessoa que vive a graça da lucidez humana e divina na defesa do bem comum. Vê
o que a cegueira dos interesses instalados não quer ver nem deixa ver. A
denúncia da traição da aliança mística e da aliança social – duas caras da
mesma moeda - é o seu tema. Como diz Miqueias, a proposta de conversão exige a
instauração do direito e da justiça[1]. As
pessoas aduladoras dos poderosos gostam de ser chamadas profetas, mas são, apenas,
os seus lacaios.
Na missa de hoje, é dada a palavra ao
incómodo Amós que exerceu essa missão, aproximadamente, entre 760 e 745 a.C..
Ele reconhecia a convicção comum aos seus concidadãos, a relação especial entre
Iavé e o seu povo, mas tirava daí consequências diametralmente opostas: Deus
não é propriedade privada de Israel. Perante Deus, todos os povos estão em pé
de igualdade. O antigo Israel tinha, apenas, maiores responsabilidades morais e
uma maior exposição aos castigos pelas injustiças que provocava ou consentia[2].
No tempo da actuação profética de Amós, o
reino de
Israel tinha atingido o máximo da
sua prosperidade, mas o luxo dos ricos insultava a miséria dos oprimidos e o
esplendor do culto disfarçava a ausência de uma religião verdadeira. O seu
estilo era rude e simples, imagem típica de um homem do campo. Para ele, a
prática do povo eleito era pior do que a dos gentios e não se calava perante
essa situação.
Então, Amasias, sacerdote de Betel, disse a Amós: «Vai-te daqui,
vidente. Foge para a terra de Judá. Aí ganharás o pão com as tuas profecias.
Mas não continues a profetizar aqui em Betel, que é o santuário real, o templo
do reino». Amós respondeu a Amasias: «Eu não era profeta, nem filho de profeta.
Era pastor de gado e cultivava sicómoros. Foi o Senhor que me tirou da guarda
do rebanho e me disse: Vai profetizar ao
meu povo de Israel»[3].
Como
já tentei mostrar, várias vezes, nestas crónicas dominicais, o carpinteiro de
Nazaré não chamou os doze apóstolos para as delícias do poder nem para
aduladores e imitadores dos grandes deste mundo. Consta, no
Evangelho de S. Marcos proposto para este Domingo[4], que
Jesus os enviou, dois a dois, com poder
sobre os espíritos impuros e ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a
não ser o bastão: nem pão, nem alforge, nem dinheiro; que fossem calçados com
sandálias e não levassem duas túnicas. Disse-lhes também: «Quando entrardes numa
casa, ficai nela até partirdes dali. Se não fordes recebidos em alguma
localidade, se os habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos
vossos pés como testemunho contra eles».
Não será esta uma proposta puramente utópica? Conheço um bispo que
sempre procurou mostrar que a utopia é o próprio realismo do profeta de Nazaré.
2. Já me tenho referido ao Ano
Raimon Pannikar, uma originalíssima figura da cultura e da religião da
Catalunha, que realizou, na sua pessoa e na sua obra imensa, a maior tentativa
de síntese entre o Oriente e o Ocidente.
Ao ler o texto do Evangelho de Marcos, lembrei-me de outro catalão que
fez 90 anos no mês de Fevereiro: Pedro Casaldáliga, chamado bispo descalço sobre a terra vermelha[5].
Durante 38 anos viveu e trabalhou no Brasil, primeiro como missionário claretiano e a partir de 1971, como bispo nomeado por Paulo VI. Não é uma cronologia, mesmo a de um bispo, que
define uma personalidade.
Pedro
Casaldáliga não adoptou a teologia da libertação como uma moda. Ele escolheu-a como
forma de vida e de actividade pastoral: Nada possuir, nada carregar, nada
pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar.
Quando
foi nomeado primeiro bispo da diocese, converteu sua casa, pequena, rural e
pobre, na sua sede episcopal, sede do seu povo, sobretudo dos mais
desfavorecidos, camponeses sem-terra, pobres, analfabetos e oprimidos por
coronéis e políticos.
Celebrava
a Eucaristia para os moradores no quintal da sua casa, entre as galinhas e, à
noite, deixava sua porta aberta para o caso de alguém, sem casa, precisar de
uma cama que estava sempre disponível. Andava de jeans e chinelos. Tinha duas mudas de roupa. Quando tinha de ir às
reuniões com o Episcopado, em Brasília, ia de autocarro, numa viagem de três
dias, pois esse era o meio de transporte da sua gente. Do aeroporto à sua casa,
em São Félix do Araguaia, só se chegava depois de 16 horas de estrada de terra.
Mais
tarde lembraria que, no início
da sua acção pastoral, faltava tudo: na saúde, na educação, na administração e
na justiça. Sobretudo, faltava, na população, a consciência dos próprios
direitos e a possibilidade de os reclamar. Acusado
de se interessar demasiado pelos problemas "materiais" dos pobres, respondia
que não concebia a dicotomia entre
evangelização e promoção humana. Decidiu, por isso, o caminho a
seguir. O seu lugar não era apenas ao lado dos camponeses sem-terra, mas também
o de construir escolas e centros de saúde.
3. Em 1988, o Vaticano convocou-o,
para que explicasse a sua proximidade à teologia da libertação e visitasse
o Papa João Paulo II, como já o devia ter feito.
Apresentou-se, então, em camisa, sem anel e com um colar indígena no pescoço.
Disse ao papa: Estou disposto a dar a
minha vida por S. Pedro, mas pelo Vaticano, é outra coisa. Ao sair do
encontro, declarou à imprensa: O papa escutou-me
e não me deu nenhuma repreensão. Poderia tê-lo feito, como também nós o podemos
fazer com ele. Acrescentou: O
Espírito Santo tem duas asas e a Igreja gosta mais de cortar a da esquerda.
No
momento em que se escolhem designers
para a indumentária e as insígnias episcopais e cardinalícias, seria bom não esquecer
as vozes, antigas e novas, que se interrogaram: sucessores de Pedro e dos Apóstolos
ou continuadores da era do imperador Constantino[6]?
Casaldáliga
não precisou desta lição sistematicamente esquecida. Quando a idade o obrigou a
apresentar a renúncia ao seu ministério, Roma não lhe pediu para esperar.
Casaldáliga fez só um pedido: ser um pároco ao serviço da diocese. Não teve
resposta. Foi um colaborador dos dois bispos que lhe sucederam.
Aos
noventa anos, vive onde sempre viveu, mas já não da mesma maneira. A sofrer de Parkinson, pouco mais lhe resta para
além da rotina habitual: cuidados físicos de manhã e, à tarde, leitura do correio,
sem poder responder a todas as mensagens de carinho que lhe enviam, porque já
tudo lhe custa.
Querido
S. Pedro Casaldáliga, reza por nós.
15. 07. 2018
[1]
Mq 6, 8
[2]
Francolino Gonçalves, Antigo Testamento e
direitos humanos, ISTA nº 6, 1998, p.40
[4]
Mc 6, 7-13
[5]
Título de uma mini-série que foi dedicada ao bispo Pedro Casaldàliga.
[6]
Cf. Yves Congar, O.P., Igreja serva e
pobre, ed Logos, Lisboa 1964, pp 65; 131 ss
quarta-feira, 11 de julho de 2018
GRUPO DE VISEU - JANTAR MENSAL DE JULHO DIA 14
Confirmar presença até ao meio dia de 6ª feira.
Podes confirmar a presença site ex-seminaristas combonianos ou para o Amaral, Eduardo ou Sá.
O jantar e ponto de encontro é no café/restaurante do Zé Luis ás 20.00 de sábado, dia 14.
Em meu nome e em nome da Associação dos Antigos Alunos Combonianos
Desejo-vos um Bom Jantar e muita confraternização.
A Pinheiro
Podes confirmar a presença site ex-seminaristas combonianos ou para o Amaral, Eduardo ou Sá.
O jantar e ponto de encontro é no café/restaurante do Zé Luis ás 20.00 de sábado, dia 14.
Em meu nome e em nome da Associação dos Antigos Alunos Combonianos
Desejo-vos um Bom Jantar e muita confraternização.
A Pinheiro
domingo, 8 de julho de 2018
NÃO HÁ MILAGRES? (2) Frei Bento Domingues, O.P.
1. O mal resulta da ausência de um bem que deveria existir, seja na
natureza, seja no agir humano. A serenidade desta lucidez metafísica tem um
inconveniente: ou é linguagem de robot para robots ou um insulto a quem sofre. As
ciências estudam as causas desses disfuncionamentos, os processos de os evitar
e os remédios da sua cura. Dizem-me que a imortalidade está no horizonte lógico
da ciência. A promessa da longevidade e da juventude ilimitadas vai de encontro
ao nosso desejo de viver bem, com saúde e sem envelhecimento. Esta conjectura
agradável não pode evitar interrogações de carácter social, político, económico,
cultural e ético. Os pós-humanistas julgam que essa hora chegará mais depressa
do que se imagina. Até lá, mais vale encarar o facto de uma existência limitada
que privilegia os laços da amizade e da solidariedade efectiva. A história do
sofrimento dos inocentes deita para o caixote do lixo qualquer especulação
sobre o mal.
Repete-se, desde Epicuro (séc. III
a. C), dos modos mais diversos, que Deus e o mal não podem coabitar. O mal é um
escândalo e um problema para qualquer ser humano, mas especialmente para quem é
religioso. Um mundo com mal e sem Deus talvez fosse menos problemático, pois ou
Deus quer eliminar o mal e não pode, ou pode e não quer. Se quer e não pode, é
impotente; se pode e não quer é mau.
Nunca me impressionou muito essa conversa
centrada num Deus encurralado pela lógica totalitária, sem espaço para a responsabilidade
humana.
O
que mais me espanta é a nossa falta de juízo e de bondade. Somos testemunhas de
guerras horrorosas. Sabemos que, na maioria dos casos, foram e são, a todos os
níveis, frutos do desejo de pessoas e grupos possessos da vontade de dominação
económica, política, cultural e religiosa. Em última análise, a resposta à
graça da livre conversão à boa e imaginativa hierarquização dos nossos desejos
pode ajudar a diminuir a loucura mundana. Encarar a vida como o desenvolvimento
de todos os talentos para ajudar, de modo competente, as capacidades dos que
não tiveram oportunidades, é talvez um bom caminho para a nova civilização
proposta pelo Papa Francisco. Para ele, o mal não é um problema teórico, mas um
desafio a enfrentar mediante a praxis humana solidária, cristã. Daí nasce a
fonte divina e humana dos verdadeiros milagres.
2. Diz-se que não há
testemunhos do riso de Jesus, mas abundam as referências ao seu requintado
humor. O texto escolhido para a liturgia do Domingo passado[1] e o proposto para hoje[2], colocam a questão dos milagres de forma tão pouco
convencional que importa analisar.
No primeiro, numa única narrativa,
entre o trágico e o cómico, acontecem dois “milagres” muito improváveis. Segundo
o Novo Testamento, o grupo dos fariseus – sobretudo os chefes das sinagogas – não
via com bons olhos as inovações do Nazareno. Ora, nesse texto, é precisamente
um chefe de sinagoga, chamado Jairo, a pedir, com insistência, a intervenção de
Jesus para salvar a sua filha que estava a morrer: vem impor-lhe as mãos para que se salve e viva. Jesus não se fez
rogado e acompanhou o pai da criança, seguido de grande multidão que o apertava
por todos os lados. Entretanto, uma mulher extremamente doente que, há doze
anos, sofria muito nas mãos de vários médicos e gastara todos os seus bens sem
ter obtido qualquer resultado, antes
piorava cada vez mais, tendo ouvido falar de Jesus, veio por entre a
multidão e tocou-lhe no manto, dizendo consigo: se eu, ao menos, tocar nas suas vestes, ficarei curada. E ficou.
Não foi um gesto supersticioso,
foi um puro acto de fé, isto é, de confiança absoluta.
É verdade que a narrativa é cómica:
quando Jesus pergunta quem me tocou, apertado
pela multidão, os discípulos acham a pergunta descabida. De facto, Jesus sentiu
que algo aconteceu no seu próprio corpo e a mulher, assustada e a tremer pelo
que lhe tinha acontecido, disse a verdade. Jesus nem sequer diz que a curou: minha filha a tua fé te salvou. Ao dizer
isto, Jesus exprimiu o mais íntimo da relação entre Deus e o ser humano. A coincidência
de dois movimentos: o desejo de Jesus de curar – era a sua maneira de viver – e
o desejo da mulher de ser curada. A salvação realiza-se no encontro desses dois
movimentos. A fé salva porque é a entrega confiante ao amor que a precede. É o
abraço de dois desejos: de Deus e da criatura. É, por isso, um exercício de
liberdade. Deus deseja, mas não obriga ninguém a reconhecê-lo nos seus sinais.
Quando Jesus diz à mulher foi a tua fé que te salvou, até parece
que ele não fez nada. Não é verdade. Como diz o narrador, do corpo de Jesus
saiu uma energia real que ele próprio estranhou. Essa graça encontrou-se com um
desejo ardente e desesperado. Sem este desejo da mulher Jesus não podia nada.
3. No meio da confusão, vem a notícia da casa de Jairo: a tua filha morreu, não incomodes mais o
Mestre.
Jesus ao chefe da sinagoga: Não temas, basta que tenhas fé. Seguido
de Pedro, Tiago e João, vendo grande alvoroço com gente que chorava e gritava,
atreve-se a uma provocação que até parecia de mau gosto: a menina não morreu, está a dormir. Riram-se dele. Levando consigo
o pai e os referidos discípulos, entrou no local onde ela jazia. Pegou-lhe na
mão e disse: Menina, eu te ordeno,
levanta-te. Ela ergueu-se imediatamente e começou a andar, pois já tinha
doze anos. Ficaram todos muito maravilhados. Jesus recomendou-lhes,
insistentemente, que ninguém soubesse do caso e mandou dar-lhe de comer.
Noutros casos, as pessoas que
reconheciam em Jesus uma energia estranha atribuíam-na a uma possessão diabólica
porque ele não era um observante de convenções religiosas[3].
É essa a questão deste Domingo. Jesus
foi à sua terra acompanhado dos discípulos. Chegado o sábado, começou a ensinar
na sinagoga. Os numerosos ouvintes interrogavam-se acerca da origem das suas
palavras e acções prodigiosas, mas ficavam de fora. Porque seria? O
conhecimento do estatuto modesto deste carpinteiro e da sua numerosa família secava
qualquer interrogação de fundo. O conhecimento que tinham de Jesus era uma
ignorância acerca da significação inovadora do que Ele andava a fazer e a
dizer. Ao preferirem continuar num ram-ram
sem surpresas e sem novos horizontes, ficaram onde sempre estiveram. O ritual
foi cumprido e nada aconteceu. Ao contrário do Domingo passado, Jesus ficou
espantado com a falta de fé daquela gente.
Nas celebrações actuais da
Eucaristia, para que algo aconteça de inovador, é preciso deixar-se convocar
para a participação na reforma pessoal, da Igreja e da sociedade. Sem esse
desejo activo, Cristo nada pode fazer. Os rituais são cumpridos, mas se as instituições
da Igreja continuarem no seu ram-ram e
a ignorar os desafios do Papa Francisco, que se pode esperar?
Alguns julgam-se heróis da mudança
pelo regresso ao que julgam ser a Santa
Missa de Sempre, que nunca existiu como missa de sempre. Andam para trás
para se realizarem como estátuas de sal, fruto de uma incurável miopia[4].
08.07.2018
sexta-feira, 6 de julho de 2018
Alegrai-vos e exultai - Anselmo Borges
1. Estava eu numa aula sobre uma compreensão holística de saúde e, dirigindo-me a uma aluna, perguntei: "Gostava de ser santa, não gostava?" E ela, aflita e cortante: "Não, nem pensar nisso!". Acrescentei: "No entanto, se pensar bem, é isso que todos queremos ser." E comecei a explicar, começando pelo tema em questão: o da saúde. Eu estou bem, mas bastaria uma unha encravada no dedo mindinho do pé esquerdo para já me sentir mal. A saúde está no funcionamento harmónico de todos os órgãos do corpo. Mas não basta, pois se eu não me der bem comigo, também me sinto mal. Há gente que não pode ver certas pessoas, só de vê-las ficam doentes. Para estar são, é necessária uma relação boa com os outros. E se o que há para contemplar for apenas lixeiras? A saúde requer também uma relação bela e sadia com a natureza. Ah, e com a transcendência... Isso é dito, aliás, nas próprias palavras, no seu étimo. Saúde vem do latim salute, que significa simultaneamente saúde e salvação. Neste contexto de saúde em sentido holístico, são e santo estão em união estreita, como se constata nas línguas anglo-saxónicas: saúde (health, em inglês) em conexão com holy - santo, e, em alemão, heilen - curar --, em conexão com heilig - santo - e Heil - salvação e são; também em português, há a mesma ligação entre são e santo, de tal modo que se diz, por exemplo, um homem são e São João, para dizer que o santo só pode ser um ser humano autêntico, íntegro e pleno. O inglês e o alemão remetem para the whole, o todo holisticamente considerado, isto é, o todo que é mais do que a soma das partes. O mal é que, quando se pensa em santos, se pensa em gente estranha, do "outro mundo", que se dá muito mal com a vida e que se encontram nos altares, torcidos, a olhar de lado e
2. Foi isto que o Papa Francisco veio dizer numa bela Exortação, com o título acima: "Alegrai-vos e exultai" - todos os grandes textos de Francisco estão sob o desígnio da alegria. Porque o Evangelho é uma notícia boa e felicitante. A Exortação é sobre a santidade. E lá está: todos são chamados à santidade, isto é, à plenitude, à perfeição, à alegria, na vida do quotidiano. Deus "pede tudo e, em troca, oferece a felicidade para a qual fomos criados. Quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, aguada e liquefeita" (etimologicamente, medíocre significa o que não subiu até ao cimo, pois ficou a meio da montanha; aguado: vinho adulterado com água; liquefeito, sem solidez, como reflectiu Zygmunt Bauman). "Ser santo não significa revirar os olhos nem viver em êxtase." "O santo não é uma pessoa excêntrica, distante, que se torna insuportável pela sua vaidade, negativismo e ressentimento". "Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade está reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avô ou avó? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. És investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum, renunciando aos teus interesses pessoais". Aquela mãe ou aquele pai rumam à santidade quando, em casa, "o seu filho reclama a sua atenção para falar das suas fantasias" e eles, embora cansados, "sentam-se ao seu lado e escutam com paciência e carinho". Francisco defende o que chama a "classe média da santidade", os santos "ao pé da porta", eles vivem perto de nós e são reflexos da presença de Deus: "Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir". "Não tenhas medo da santidade. Não te tirará forças nem vida nem alegria. Não tenhas medo de apontar para mais alto, de te deixares amar e libertar por Deus. A santidade não te torna menos humano, porque é o encontro da tua fragilidade com a força da graça de Deus."
A vida é uma missão, que se cumpre na contemplação e na acção. O que não santifica é "um compromisso movido pela ansiedade, o orgulho, a necessidade de aparecer e dominar", "as novidades contínuas dos meios tecnológicos, o fascínio de viajar, as inúmeras ofertas de consumo", menosprezando os momentos de quietude, solidão e silêncio para estar consigo e diante de Deus, ou quando "tudo se enche de palavras, prazeres epidérmicos e rumores a uma velocidade cada vez maior; aqui não reina a alegria, mas a insatisfação de quem não sabe para que vive".
O santo não está nas "redes de violência verbal através da Internet e vários fóruns ou espaços de intercâmbio digital", procurando "compensar as próprias insatisfações descarregando furiosamente os desejos de vingança". "Se vivermos tensos, arrogantes diante dos outros, acabamos cansados e exaustos. Mas, quando olhamos os seus limites e defeitos com mansidão, sem nos sentirmos superiores, podemos dar-lhes uma mão e evitamos energias em lamentações inúteis." Por outro lado, a santidade nada tem a ver com "um espírito retraído, tristonho, amargo, melancólico ou um perfil sumido, sem energia. O santo é capaz de viver com alegria e sentido de humor." Porque, mesmo nos momentos mais difíceis, momentos da cruz, nada pode destruir a alegria sobrenatural, que "sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados por Deus".
Padre e professor de Filosofia
de modo esquisito... Então, a jovem disse: "Sim, pensando bem...".
s."
domingo, 1 de julho de 2018
NÃO HÁ MILAGRES? (1) Frei Bento Domingues, O.P.
1. Falou-se, durante muito tempo, do milagre económico alemão.
Quando se deseja criticar uma gestão económica e financeira diz-se: não há
milagres! Em clima de religião barata vem o velho ditado: fia-te na Virgem e
não corras! São apelos sensatos para que as iniciativas humanas sejam pensadas
e planeadas a tempo, executadas com rigor. Não deixar as nossas decisões ao Deus dará, pois Ele ajuda quem se sabe
ajudar. Afirmar que não há milagres nem
sempre significa uma atitude ateísta ou negação da providência divina. Pode ser
apenas respeito pela responsabilidade humana com uma conotação teológica: não invocar o Santo nome de Deus em vão.
Não é aconselhável dar demasiada
importância à linguagem do quotidiano que, raramente, é fruto de grandes
cogitações como, por exemplo, eu cá sou
ateu graças a Deus. Usa-se o vocabulário mais disponível, marcado pelo
contexto social e cultural de uma população. Há zonas do país, nas quais, um
palavrão é, apenas, um recurso simples e rápido, para acabar com uma conversa
que não leva a lado nenhum.
2. A oração, a promessa, a acção de graças e o milagre são a
própria paisagem da religião, a não confundir com a beatice. Em alguns
contextos, significa o próprio clima da interioridade que acompanha as
transformações da vida espiritual. Em outros casos, são narrativas sociais,
umas mais discretas, outras mais aparatosas e, até, exibicionistas, para dizer
a fé de um grupo religioso, o sentido profundo da vida. Pede-se ao céu, a Deus
e aos seus anjos e santos, que se lembrem de nós, que nos dêem a mão.
A celebração da memória da fé dos
antepassados é essencial. Nós fazemos parte da sua história e eles desejam
fazer parte da nossa vida se a intensidade do nosso desejo pedir a sua
intervenção.
Religião exterior e interior –
salvo nos casos de hipocrisia – podem reforçar-se uma à outra. Como a sociedade
muda, é normal que também sejam alteradas as suas representações.
Quer ao nível da religião popular
e das suas expressões, quer no confronto com a Bíblia e com a prática de Jesus,
a questão dos milagres é incontornável.
Numa era
sacral, quando a imagem deste mundo dependia das representações
sobrenaturais, negar a possibilidade do milagre era uma ofensa ao bom senso: se não é Deus a guiar a misteriosa marcha
deste mundo, quem é? Os milagres e as relíquias milagrosas tornaram-se um
vício abençoado.
Na nossa era secular, a linguagem universalmente credível é a da ciência e
da técnica. As sucessivas revoluções industriais que elas possibilitam, para
bem e para mal, são da responsabilidade humana. Pedir contas a Deus ou
solicitar a sua intervenção não parece sensato.
Temos, no entanto, de não
confundir religião com superstição. Como
observa L. Wittgenstein, a fé religiosa e a superstição são muito diferentes.
Uma resulta do medo e é uma espécie
de falsa ciência. A outra é uma confiança[1].
Para
tentar escapar às dificuldades que a própria noção de milagre implica, foi elaborada
uma ideia mais “moderna” de milagre. Diz-se que há milagre quando um fenómeno
não pode ser explicado por nenhuma ciência ou técnica disponíveis. Isto
acontece, sobretudo, no campo da medicina. Para ter milagres verdadeiros,
reais, capazes de levar santos aos altares, para canonizar vidas santas, é
preciso a ocorrência de um acontecimento inexplicável pela ciência e pela
técnica. Dado o seu carácter benéfico, só pode ser fruto da intervenção de Deus.
É esta noção de milagre que foi
muito importante, sobretudo no século XIX, para distinguir sinais de santidade
verdadeira de embustes devotos. Foi uma medida muito higiénica no campo
religioso, uma forma de dizer que não vale tudo no campo devocional.
Há quem fale de milagres de
primeira e milagres de segunda. Os de primeira são os que resistem a todos os
testes. Os de segunda são as graças que enchem a literatura piedosa, muito
distribuída em certos locais destinadas a criar ambiente para o acontecimento
dos milagres de primeira, capazes de levar um santo aos altares.
3. Em tudo isto, é esquecida a condição
do desenvolvimento das ciências e das técnicas. Estão sempre em evolução. O que
numa época se considerou uma ocorrência para além dos poderes da natureza, com
o desenvolvimento posterior das ciências e das técnicas talvez possa vir a ser explicável.
É verdade, mas continuamos a considerar, no mesmo plano, a misteriosa
intervenção de Deus e as acções humanas. Um pouco de teologia negativa pode
ajudar.
Quem lê o Novo Testamento ou
participa nas celebrações eucarísticas não pode evitar a pergunta: será que Jesus fazia milagres ou são
apenas histórias de uma era sacral para alimentar uma ilusão para os nossos
dias? Se Jesus fez milagres, há 2 mil anos, ainda deve ter a mesma bondade e o
mesmo saber para as situações actuais. Como não gosta de fazer nada sozinho, é
normal que associe os anjos e os santos – canonizados ou não – à sua vontade de
fazer o bem, sobretudo nas situações mais aflitivas.
Para pensar isto com certa clareza,
não se deve esquecer a história de Pascal: Conta-se que, certo dia, Pascal se
encontrou com um amigo num castelo, no cimo de uma colina. Após algum tempo de
espera, o amigo chegou com o rosto desfigurado, a roupa rota e o corpo cheio de
nódoas e feridas. – O que é que te aconteceu? – perguntou Pascal. – Não
imaginas o milagre que Deus acaba de me fazer! – respondeu o amigo. Quando
vinha para cá, o meu cavalo resvalou perto de uma ravina. Eu caí, fui rolando e
resvalando, mas detive-me exactamente na borda do precipício. Imaginas? Que
milagre Deus acaba de me fazer! Ao que Pascal retorquiu: E o milagre que Deus
acaba de me fazer a mim? Ao vir para cá, nem sequer caí do cavalo!»[2].
Neste Domingo, o humor e a astúcia
de S. Marcos[3],
ao encaixar numa única narrativa dois milagres
improváveis, obrigam-nos a pensar que a nossa maior cegueira, seja a que nível
for, é a incapacidade renovada de não ver o que temos diante dos olhos. Gloriamo-nos,
com razão, dos avanços da ciência, da indústria e dos seus progressos. Ao
esquecer que tanto podem realizar o milagre da paz e do bem-estar, como
provocar guerras em cadeia e a destruição, ficamos nas mãos dos donos deste
mundo.
No Domingo que vem, até o próprio
Jesus se espanta com tanta miopia.
01. 07. 2018
[1]
Cultura e Valor, Edições 70, 1980,
pp. 107
[2]
Ver, para todo este assunto, as observações de Ariel Ávarez Valdés in Bíblica nº 352 (maio-junho 2014), pp.
99-104; ver também Miracle de Xavier
Léon-Dufour, Dictionaire du Nouveau
Testament, Seuil, 1975.
[3]
Mc 5, 21-43
CRISTO NÃO DESEMPREGOU OS SANTOS (2) Frei Bento Domingues O.P.
1. Não entendo
nada do jogo do “monopólio”. Parece que é guiado por uma lógica económica muito
simples: para uns jogadores ficarem ricos, os outros vão à falência.
Não pretendo encontrar aí uma analogia para a relação entre
as religiões, mas sempre ouvi dizer aos críticos do monoteísmo que a sua
vitória foi um golpe muito duro no pluralismo religioso da antiguidade. Um Deus
único não poderia tolerar concorrentes.
Não é essa questão, cheia de falácias, que pretendo abordar
nesta crónica. A palavra Deus encobre
significações muito diferentes. Lembrei-me desse jogo ao ler uma recente declaração
do actual Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Luis Ladaria. Tenta ressuscitar
a Carta Apostólica de João Paulo II – Ordinatio
sacerdotalis – para reafirmar que o jogo do sacerdócio ministerial foi
ganho pelos homens e a falência sacerdotal das mulheres é irremediável. A
referida Carta defendia que o sacerdócio ministerial – de padres e bispos - é
monopólio masculino e definitivo: sempre assim foi e sempre assim será.
Compreendo o zelo do Prefeito L. Ladaria. Perante a
arremetida teológica, cada vez mais insistente, contra o monopólio masculino,
reagiu segundo a sua função policial: lembra que a lei tem de ser respeitada.
Mas não lhe pertencia repetir que esta nunca poderá ser alterada. Que um Papa
tenha dito isso, obriga a um acurado reexame do que ele entendia por Igreja e
da sua concepção dos seus poderes no futuro.
A primeira interrogação é esta: as mulheres não serão
Igreja? Não conheço nenhum movimento de mulheres satisfeitas com a sua menoridade eclesial. O sujeito Igreja não será constituído por todas as
pessoas baptizadas? Ou será que alguém descobriu na tradição eclesial um
Baptismo próprio para homens e outro para mulheres? S. Paulo ficaria indignado
com essa loucura[1].
O Papa Francisco,
quando chegou ao Vaticano, já tinha o terreno armadilhado com Cartas
Apostólicas semeadas de sentenças definitivas,
enunciando posições doutrinais que nenhum outro papa ou concílio poderia
modificar. Essa arrogância denuncia um estilo, mas talvez não uma exigência
divina.
Na Praça de S. Pedro, na reflexão sobre o sacramento do
Crisma, o estilo de Bergoglio é muito diferente: A missão da Igreja no mundo procede através da contribuição de todos
aqueles que fazem parte dela. Alguns pensam que na Igreja existem patrões: o
Papa, os bispos, os sacerdotes e depois os outros. Não: todos nós somos Igreja!
Todos temos a responsabilidade de nos santificarmos uns aos outros e de
cuidarmos de todos.
Todos nós somos
Igreja! Cada qual tem a sua função, mas, repito, todos nós somos Igreja! Com
efeito, devemos pensar na Igreja como num organismo vivo, composto por pessoas
que conhecemos e com as quais caminhamos e não como numa realidade abstracta e
distante.
A Igreja somos nós
que caminhamos, a Igreja somos nós que hoje nos encontramos nesta praça. Nós: esta é a Igreja. A Confirmação
vincula à Igreja universal, espalhada pela terra inteira, mas compromete activamente
os crismandos na vida da Igreja particular à qual pertencem, tendo como cabeça
o Bispo, que é o sucessor dos Apóstolos.
O jogo deste Papa
não é o do monopólio. A sua Igreja não é a dos patrões.
2. Estamos no mês dos Santos Populares: a 13, Santo António, a 24, S.
João e, a 29, S. Pedro. Esses santos mais antigos são valores seguros. Mesmo
numa era secular e num Estado laico,
as autarquias compreendem que são os santos da religião popular que marcam as
festas do povo. Quem reconfigura esses santos são os seus devotos, sem pedir
licença a ninguém. Têm um traço comum. A sua ocupação e preocupação é a vida e
a alegria das populações. A saúde e a guarda das pessoas e dos animais, o êxito
das sementeiras e das colheitas, a esperança contra os excessos da seca e da
chuva, das ameaças da fome, da peste e da guerra. As promessas, as romarias, as
peregrinações, o canto ao desafio e as danças dos grupos e das bandas, a
partilha dos merendeiros e de uma boa pinga são a linguagem dos céus e da
terra, simbolizados no fogo que leva o mundo às alturas, não o fogo dos
incêndios.
Os santos populares e as alminhas eram gente
de casa com quem se podia contar na saúde e na doença, na tristeza e na alegria.
É gente do lugarejo, é gente da freguesia, é gente do Conselho, é gente do
mundo todo. Fez-se uma imagem de santos canonizados, fixos nos altares, depois
de processos canónicos, mais ou menos morosos, para apanhar pó. Os Santos
Populares foram canonizados pelo povo. Esses estão sempre no activo, venerados
ou a quem se pede contas pelos desleixos.
Deus não vive no
céu e numa eternidade aborrecida e os que vão para o céu também não se vão
aborrecer. Todos activos.
Pouco importa a
biografia histórica de cada um desses santos preferidos. Por exemplo, de Sto.
António, teólogo e pregador, ficou muito pouco. Sempre com o menino ao colo, existem
poucas imagens de Santo António cansado, de menino pela mão. Conta-se tanto com
ele que, no dia ou na noite em que não ele atende os seus devotos, é posto de
castigo.
Quem acompanhar as
orações a este santo, no seu Mensageiro,
tem sempre uma página que lhe é dedicada. O estilo não varia muito: «Meu Santo
Amigo, já me salvaste da morte. Agradeço reconhecido. Ajuda a minha família e
em especial a minha filha mais velha, tu sabes quem é. Que os médicos que a
seguem descubram de que padece, os assuntos da mente e do espírito são
complicados. Mas confio em Ti, meu Santo António. As bênçãos de Deus para quem
mais precisar. Ámen. José».
3. Os santos
populares não se passeiam todos em andores. O Papa Francisco prefere ver a
santidade nos pais que criam os seus filhos com tanto
amor, nos homens e nas mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa,
nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Vejo aí a santidade
da Igreja militante. É a santidade «ao pé da porta», daqueles que vivem perto
de nós e são um reflexo da presença de Deus ou, por outras palavras, a classe média da santidade.
A santidade não consiste
em ter visões, recitar orações elevadíssimas ou mostrar cara de santinho. Não é
reserva da terceira idade ou de jovens que a esperam sentados. A santidade do
jovem é ir em frente, ser desassossegado[2].
Cristo não se reconhece em
nenhum jogo de monopólio da santidade. O seu empenhamento é levar todos os
seres humanos, seja qual for a sua idade, povo, cultura ou religião à plenitude
da vida.
Os santos não são
concorrentes, são associados, todos membros do seu corpo místico.
24. 06. 2018
[1]
Gl. 3, 23-29
[2]
As referências aos santos e à santidade foram inspiradas em Gaudete et
Exsultate, do Papa Francisco, 2018 e nas recentes Audiências Gerais de 6 e 13
de Junho.
quarta-feira, 27 de junho de 2018
Papa chama padre Tolentino Mendonça ao Vaticano e eleva-o a arcebispo 26 de Junho de 2018
O Papa nomeou, esta terça-feira, 26 de junho, o padre Tolentino Mendonça como arquivista e bibliotecário da Santa Sé, elevando-o à categoria de arcebispo.
sexta-feira, 22 de junho de 2018
Atividades de Verão para jovens - 2018
Neste Verão, sai de casa e vem descobrir um mundo. Larga o computador, a PlayStation, o mundo virtual e vem jogar no mundo real. Vem ver com os teus próprios olhos o quanto este mundo precisa de ti.
Convida os teus amigos e para passar as melhores Férias de Verão de sempre. Vê o que temos para ti e arrisca.
Grupo de jovens combonianos: Jovens em Missão - JIM
7 e 8 de julho
Encontro de jovens em regime de Acampamento. Este é um fim-de-semana com Workshops, Jogos, muita Animação… e ainda com um Festival Sunset.
De 24 a 28 de julho
Caminhada Jovem a Fátima, com saída em Azambuja (90Km a pé). São dias intensos, cheios de atividades, momentos de silêncio, partilha, oração, convívio e amizade.
De 18 a 26 de agosto
Voluntariado Missionário nos bairros na periferia de Lisboa – paróquias de Camarate e Apelação. São feitas atividades nos bairros sociais com crianças e adolescentes de várias etnias.
quarta-feira, 20 de junho de 2018
A diferença está na aceleração- Diário do Minho
A novidade não é a mudança, mas a aceleração da
mudança.
Mudanças sempre houve. Mudanças tão aceleradas
é que não nos recordamos de ter havido.
É verdade que – como notou o poeta – «o mundo
é composto de mudança». Mas salta à vista que «já não se muda
como soía».
Mudando como sempre, estamos a mudar aceleradamente como
nunca.
Daí que dificilmente nos apercebamos do que nós próprios
realizamos.
Foi a humanidade que produziu a técnica. Será que temos
consciência de que a técnica está a produzir um novo perfil de
humanidade?
No rastreio de ganhos e perdas, importa perceber que temos
conquistado muito, mas também temos desperdiçado bastante.
Como nos acostumámos a conseguir, fomo-nos desabituando
de esperar. A rapidez está a retirar-nos paciência e a esvaziar-
-nos de esperança.
Somos uma «geração apressada» e, por isso, «stressada». Mostramos
muita eficácia nos actos, mas pouca lucidez nas decisões.
Somos a geração das grandes euforias e, ao mesmo tempo, das
prolongadas depressões.
Comunicamos cada vez mais sem filtros. Os espaços mediáticos
estão cheios de protestos, pejados de murmurações e inundados
de rancores.
Sobretudo os mais jovens, com a sua espontaneidade, não
escondem as suas frustrações nem as suas rebeldias. Não
falta, assim, quem qualifique muitos adolescentes como…
«aborrecentes».
O mais curioso é que são os mais novos quem melhor se movimenta
num mundo desenhado pelos mais velhos.
A chamada «geração millennials» (também denominada «geração
y») foi apanhada em cheio por uma revolução tecnológica
que já estava em marcha.
Por sua vez, a «geração z» (que lhe sucedeu) tornou-se a primeira
geração de «nativos digitais». Nos tempos que correm, é especialmente
nas redes sociais que se estabelecem os contactos pessoais.
Só que pouco parece ser sólido. As relações entre as pessoas são
instáveis e os trabalhos precários.
Sempre à procura da última novidade, facilmente nos cansamos:
das coisas e também das pessoas.
São cada vez mais os objectos que arrumamos e as pessoas que
descartamos.
Contudo, não é por acaso que, segundo a Bíblia, «a sabedoria
está nos cabelos bran cos e a inteligência na longevidade» ( Jb 12,
12). Quem nega que a experiência é uma preciosa fonte de ciência?
Não diabolizemos o que é novo. Mas também não subestimemos
o que, vindo do passado, não está ultrapassado. Com todos
podemos aprender, enquanto nos for dado viver!
mudança.
Mudanças sempre houve. Mudanças tão aceleradas
é que não nos recordamos de ter havido.
É verdade que – como notou o poeta – «o mundo
é composto de mudança». Mas salta à vista que «já não se muda
como soía».
Mudando como sempre, estamos a mudar aceleradamente como
nunca.
Daí que dificilmente nos apercebamos do que nós próprios
realizamos.
Foi a humanidade que produziu a técnica. Será que temos
consciência de que a técnica está a produzir um novo perfil de
humanidade?
No rastreio de ganhos e perdas, importa perceber que temos
conquistado muito, mas também temos desperdiçado bastante.
Como nos acostumámos a conseguir, fomo-nos desabituando
de esperar. A rapidez está a retirar-nos paciência e a esvaziar-
-nos de esperança.
Somos uma «geração apressada» e, por isso, «stressada». Mostramos
muita eficácia nos actos, mas pouca lucidez nas decisões.
Somos a geração das grandes euforias e, ao mesmo tempo, das
prolongadas depressões.
Comunicamos cada vez mais sem filtros. Os espaços mediáticos
estão cheios de protestos, pejados de murmurações e inundados
de rancores.
Sobretudo os mais jovens, com a sua espontaneidade, não
escondem as suas frustrações nem as suas rebeldias. Não
falta, assim, quem qualifique muitos adolescentes como…
«aborrecentes».
O mais curioso é que são os mais novos quem melhor se movimenta
num mundo desenhado pelos mais velhos.
A chamada «geração millennials» (também denominada «geração
y») foi apanhada em cheio por uma revolução tecnológica
que já estava em marcha.
Por sua vez, a «geração z» (que lhe sucedeu) tornou-se a primeira
geração de «nativos digitais». Nos tempos que correm, é especialmente
nas redes sociais que se estabelecem os contactos pessoais.
Só que pouco parece ser sólido. As relações entre as pessoas são
instáveis e os trabalhos precários.
Sempre à procura da última novidade, facilmente nos cansamos:
das coisas e também das pessoas.
São cada vez mais os objectos que arrumamos e as pessoas que
descartamos.
Contudo, não é por acaso que, segundo a Bíblia, «a sabedoria
está nos cabelos bran cos e a inteligência na longevidade» ( Jb 12,
12). Quem nega que a experiência é uma preciosa fonte de ciência?
Não diabolizemos o que é novo. Mas também não subestimemos
o que, vindo do passado, não está ultrapassado. Com todos
podemos aprender, enquanto nos for dado viver!
segunda-feira, 18 de junho de 2018
CRISTO NÃO DESEMPREGOU OS SANTOS (1) Frei Bento Domingues O.P.
1. Não tenho
muito apego às definições de religião. Uso essa palavra para significar, na
tradição latina, a redobrada atenção às diversas dimensões do devir misterioso
do ser humano que escapam à linguagem unívoca da ciência e da técnica.
Exprime-se melhor na linguagem metafórica. Como escreveu Ésquilo, em Agamémnon,
«Sufocando no galinheiro da razão, dediquei-me a defender a causa dos sonhos».
Na história das religiões existe de tudo, do melhor e do
pior. A religião dos místicos, mesmo quando louca, é a suprema sabedoria. O
místico não é capaz de parar, de fixar um limite, de se tornar idolátrico,
pois, como diz o muçulmano, E. Hallaj, do século X: «Vi o meu Senhor com o olhar do coração,/ e disse-lhe: “Quem és tu?” Ele
disse-me: “Tu!”/ Mas para Ti, o “onde” já não tem lugar,/ o “onde” não existe
quando se trata de Ti!». A religião de Jesus não cabe em nenhuma
classificação conhecida.
No domingo passado, S. Marcos apresentava Jesus como o doido
da família e possesso de Belzebu. Neste, Jesus surge, na versão do mesmo
evangelista[1], como um pregador surrealista. Jesus queria ser
entendido ou não? A sua palavra era só para agitar o vento? Pela referência que
faz ao profeta Isaías[2], até parece que só queria
baralhar os seus ouvintes: vendo, vejam e
não percebam; ouvindo, ouçam e não entendam para que não se convertam e não
sejam perdoados.
A citação recorre a um pregador cujos lábios foram
purificados por um anjo, um serafim, com uma brasa viva. Ouviu, então, a voz do
Senhor que dizia: Quem enviarei? Quem
será o nosso mensageiro? Ele respondeu: Eis-me
aqui, envia-me. E foi enviado: Vai e diz ao meu povo: ouvi, tornai a ouvir, mas não compreendereis. Vede, tornai a ver, mas
não percebereis. Endurece o coração deste povo, ensurdece-lhe os ouvidos,
fecha-lhe os olhos. Que os seus olhos não vejam, que os seus ouvidos não ouçam,
que o seu coração não entenda, que não se converta e Eu o cure.
S. Marcos começa pela muito conhecida parábola da sementeira
para falar do misterioso Reino de Deus. Esta não apresenta nenhuma dificuldade
especial, mas os discípulos ficaram sem perceber nada.
Jesus fica espantado com discípulos tão pouco dotados: Se não compreendeis esta parábola, como
podereis entender todas as outras?
Mais uma vez, teve paciência e explicou tudo muito bem. O
narrador sublinha que a maior dificuldade em acolher a palavra do Reino é o
mundanismo, a sedução das riquezas e outras ambições. Quando encontra bons
ouvidos, os frutos são de 30, de 60 e até de 100%.
A parábola seguinte contradiz o começo: quem traz uma lâmpada
acesa é para a esconder? Mas não será esse o defeito das parábolas em relação
ao discurso directo?
Não há nada a ocultar. Quer tudo na luz do dia. Se alguém
tem ouvidos para ouvir, ouça. Mas cuidado com o que ouvis. Com a medida que
medirdes sereis medidos e até vos será acrescentado mais. E regressa ao
paradoxo escandaloso: ao que tem, será dado e ao que não tem, mesmo o que tem,
lhe será tirado.
De repente, muda de registo. O crescimento do Reino de Deus
não é fruto do esforço humano: o semeador lançou a semente à terra e foi dormir
e, depois, quando o fruto está no ponto, vai colher. Também não há que
desesperar com a lentidão do crescimento da comunidade. Os começos nem sempre
são gloriosos e vem a parábola do grão de
mostarda, pequena semente que chega a ter grandes ramos, onde as aves do
céu se abrigam à sua sombra.
No final do capítulo, volta a insistir que Jesus
anunciava-lhes a palavra por meio de muitas parábolas como estas, conforme
podiam entender e nada lhes falava a não ser em parábolas. Remata, dizendo que
as explicações eram assunto privado para os discípulos. O narrador deixa-nos
sem podermos concluir se Jesus falava para ser entendido ou não.
2. A pergunta
fundamental, perante esta paixão pela linguagem parabólica, talvez seja esta:
porque não fez Jesus um catecismo, bem explicadinho, com perguntas e respostas
bem definidas, para não deixar os seus seguidores continuamente sem saber bem o
que pensar, o que está certo e o que está errado? Se, assim, tivesse feito,
dispensava as dificuldades da exegese histórico-crítica e as múltiplas
abordagens reconhecidas pela Comissão Pontifícia Bíblica[3]. Teria dispensado séculos
e séculos de escolas teológicas, de heresias e de conflitos.
A linguagem universal é a da ciência e da técnica,
incompatível com emoções e estados de alma. Jesus poderia ter feito uma ciência
exacta da verdadeira religião e tinha, como fruto, um sossego eterno. Donde lhe
veio a mania das parábolas e de falar só em parábolas?
Esquecemos que Jesus era e é um ser humano nascido e educado
dentro de uma cultura e de uma religião que, hoje, é possível identificar.
Jesus não sabia todas as línguas, não conhecia todas as religiões e nunca
procurou impor apenas uma versão do valor divino do humano e do valor humano do
divino. Não escreveu um livro inspirado que tivesse o condão de substituir
todos os livros de sabedoria religiosa. A falar verdade, nem sequer temos o que
Jesus escreveu na areia. Os seus gestos e palavras foram contados por outros.
São eles a grande obra de Jesus de Nazaré. Tudo no tempo, tudo efémero. Ninguém
fez o filme do que aconteceu.
As parábolas permitem resistir ao tempo pela necessidade de
serem sempre lidas e interpretadas sem sentido pré fixado.
3. As comunidades
cristãs, boas, más e assim-assim, são as únicas relíquias de Jesus Cristo e não
estão todas em Jerusalém. Não o substituem. Os santos, aqueles que, sabendo ou
não, o anteciparam e o seguiram não estão arquivados no céu nem se devem
confundir com as suas posições nos altares. Estão vivos e activos. De vez em
quando, na vida dos cristãos são evocados e respondem sempre, umas vezes no
sentido da pergunta, outras vezes complicando-a. Não perderam o estilo das
parábolas.
Houve muita confusão em torno da “vida dos santos”. Algumas
tornavam a “santidade” detestável. Eram instrumentos de desumanização de Deus e
da Igreja. Outras eram auto referentes, idolátricas: Deus tinha de contar com
elas ou não sabia o que fazer. Deus estava longe e mal informado das peripécias
da vida humana. Os santos eram os mediadores, pontes, entre o Deus distante e a
nossa condição. Ao fim e ao cabo, os cristãos entendiam-se mais com eles do que
com Deus. Transportavam, para as relações entre o divino e o humano, o sistema
das cunhas.
Os santos populares sabem mais de Deus e de nós do que se
julga. Veremos.
17. 06. 2018
[1]
Mc 4, 1-34
[2]
Is 6
[3]
A interpretação da Bíblia na Igreja,
Secretariado Geral do Episcopado, 1994.
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