1. Uso propositadamente o vocábulo no plural.
Estou persuadido da existência não de
uma mas de diversas ditaduras, embora nem
sempre disso tenhamos consciência.
Vive-se em ditadura quando se não tem
liberdade e não há liberdade quando nos
submetemos a uma ou mais dependências. Quando existem
pessoas ou coisas sem as quais não podemos passar.
Mas isso, dirão, são dependências, não ditaduras. É
uma forma habilidosa de dar a volta à situação e de a
suavizar. Mas, se pensarmos bem, uma dependência não
deixa de ser uma ditadura. Penso assim.
2. Pessoas defensoras das mais amplas liberdades e
vêm a terreiro como lutadoras contra a ditadura estão,
na prática, sujeitas a uma ditadura a que chamam disciplina
partidária.
Indivíduos há, no mundo da política e não só, dependentes
de como pensam e do que ditam os líderes. Não
são livres de agir e de decidir conforme a própria consciência,
mas têm de seguir as orientações do chefe e é
em função dessas ordens que levantam ou não o braço,
aprovam ou rejeitam tal decisão, se abstêm de emitir
um parecer.
Porque o chefe manda, as pessoas abdicam da própria
capacidade de pensar. Não é só na Igreja que há dogmas.
3. Há ambientes de trabalho que são autênticas ditaduras.
A dependência do ordenado gera a ditadura do
medo. Há pessoas que bem gostariam de emitir uma
opinião e de discordarem do chefe, mas se o fazem sujeitam-
se a consequências desagradáveis.
Este género de ditadura produziu a geração dos lambe-
botas e dos aduladores profissionais.
Há ambientes de trabalho onde seres humanos se sujeitam
a serem tratados como máquinas. Têm tudo cronometrado.
Todos os seus passos são controlados. Como
necessitam do emprego e do dinheiro que recebem,
sujeitam-se.
4. Uma grande ditadura é a da toxicodependência.
Habituadas a consumirem determinadas
substâncias, as pessoas sujeitam-se a tudo para as
conseguirem. Esquecem-se, se for caso disso, da
própria dignidade.
5. São ditaduras o respeito humano; o parece
mal. Por vergonha dos comentários dos outros
há pessoas que se acobardam. Que assumem
publicamente comportamentos de que no íntimo
discordam. Que aplaudem quando gostavam
de censurar.
6. Uma forte ditadura é a da moda. Pessoas há
que se movem empurradas pelos interesses da
sociedade de consumo. Certos indivíduos decidem
que as pessoas hão-de vestir de determinada
maneira e há quem se lhes sujeite. Acriticamente.
Porque parece mal discordar do ditador.
Quem me conhece sabe que procuro não ofender
seja quem for. Mas acho ridículo o uso das calças
rotas. Mas como é moda, e a moda é que manda…
Já repararam na ditadura que, nos casamentos,
os fotógrafos exercem sobre os noivos?
7. Porque certa Comunicação Social ditou que
é moderno ser de esquerda há pessoas que se
coíbem de manifestar em público as suas convicções.
Daí a necessidade de, em certos casos,
se proceder ao voto secreto e não à votação de
braço no ar.
Porque certas minorias influentes ditaram que
a liberdade não tem limites, há pessoas constituídas
em autoridade que se abstêm de tomar posição,
de afirmar a defesa de princípios que são de
manter e permitem a bandalheira que por aí anda.
8. É moda, em alguns ambientes, apresentar-
-se como ateu ou agnóstico. Para não destoarem
e darem a ideia de que são prá frentex pessoas
há que se inibem de, publicamente, revelarem a
fé que no íntimo professam. E deixam de rezar
em público. E deixam de exibir sinais religiosos.
9. Se pensarmos bem verificamos haver realmente
um conjunto de ditaduras a que, inadvertidamente,
– também nos acomodamos ao mal!
– nos submetemos.
Porque nos falta a coragem suficiente para remarmos
contra a maré e de termos receio de ser
diferentes. A ditadura do medo tem muito poder.
Parafraseando parte do hino da Mocidade Portuguesa,
cá vamos, cantando e rindo, levados, levados
sim por aqueles que, dan do a ideia de que nos
servem, na realidade não deixam de nos explorar.
Ser homem é ser livre. Quem o é realmente?
Muitos dos que se afirmam paladinos da liberdade
não vivem ainda acorrentados ao Maio Parisiense
de 68?
Cuidemos
da nossa
quinta-feira, 11 de outubro de 2018
terça-feira, 9 de outubro de 2018
P.e FELIZ MARTINS - Darfur
A missão para mim
A missão tem sido o coração da minha vida. Muito especialmente, desde o dia em que Deus me consagrou com o selo e o cariz de missionário comboniano.
Sou Feliz de nome e felicíssimo como missionário. Muito embora com sombras e obscuridades, o Sol brilha sempre mais forte no meu caminho e sinto o Deus da misericórdia ao meu lado.
A alegria em Deus e no coração sempre me tiveram por companheiro. Porém, ninguém pense que esta se manifesta só através de uma cara risonha ou às gargalhadas. Deus conhece-me por dentro e por fora e sabe da minha alegria.
Mas o meu ser feliz não é segredo exclusivo de Deus. Sinto, de facto, grande satisfação, como ser humano que sou, quando as pessoas à volta também se apercebem da minha alegria.
A missão nasce nas relações de amizade e encontra terreno fértil nos caminhos do deserto onde Deus desce e nos vem matar a sede a todos nós que, juntos, caminhamos.
Sou feliz mesmo quando não me apercebo da conversão ao cristianismo de alguém que caminha comigo e não pede o baptismo. Conversões anónimas que o Espírito Santo, o verdadeiro protagonista da missão, vai assistindo e fortalecendo.
Sou feliz na missão do Darfur, Sudão, onde fui enviado para ser sinal do amor e da misericórdia de Deus a quem não me canso de agradecer.
P. Feliz Martins
Missionário Comboniano
segunda-feira, 8 de outubro de 2018
HIERARQUIAS CIUMENTAS? Frei Bento Domingues, O.P.
1. Segui vários cursos sobre as diversas
expressões do profetismo bíblico, orientados pelo dominicano Francolino
Gonçalves, um dos maiores especialistas mundiais em literatura profética do
antigo Oriente[1].
Confesso que esses cursos e a frequente leitura dos seus textos serviram mais
para admirar o seu saber e verificar a minha ignorância, do que para me sentir minimamente
competente, no meio desse vastíssimo e diferenciado fenómeno de muitos estilos.
Na nossa linguagem corrente, profeta é aquele ou aquela que prevê, ou se atreve,
a predizer o futuro. Um adivinho. Na Bíblia, é um ser humano que tem o dom
divino de ser lúcido acerca do presente, vendo as esperanças e as ameaças que
encerra. Sabe discernir as opções
que libertam o horizonte das que conduzem ao desastre colectivo. Importa não
confundir os verdadeiros com os falsos profetas, isto é, os defensores das
populações com os bajuladores dos poderosos.
No mundo sacral, a
religião, com os seus luxuosos cerimoniais, em que vive a classe sacerdotal, serve
para dar cobertura à exploração dos trabalhadores e à humilhação dos pobres.
Essa religião é vomitada por Deus. Sem a prática da justiça e o cuidado dos
pobres, a religião é uma abominação.
O profeta Miqueias, disse o essencial: «Com que
me apresentarei ao Senhor, e me prostrarei diante do Deus excelso? Irei à sua
presença com holocaustos, com novilhos de um ano? Porventura o Senhor receberá
com agrado milhares de carneiros ou miríades de torrentes de azeite? Hei-de
sacrificar-lhe o meu primogénito pelo meu crime, o fruto das minhas entranhas
pelo meu próprio pecado? Já te foi revelado, ó homem, o que é bom, o que o
Senhor requer de ti: nada mais do que praticares a justiça, amares a lealdade e
andares humildemente diante do teu Deus.»[2]
2. As liturgias
do Domingo não são todas iguais. As escolhas dos textos são muito variadas e
ainda bem. A combinação entre elas nem sempre é a mais brilhante. Não digo isto
para desculpar as homilias mal preparadas como a daquele pároco que começou a
sua pregação com toda a solenidade: o
Evangelho de hoje não presta!
No Domingo passado, a selecção dos textos não podia ser mais
apelativa, nem mais profética. Abriu com este espanto: «Naqueles dias, o Senhor
desceu na nuvem e falou com Moisés. Tirou uma parte do Espírito que estava nele
e fê-la poisar sobre setenta anciãos do povo. Logo que o Espírito poisou sobre
eles, começaram a profetizar, mas não continuaram a fazê-lo. Tinham ficado no
acampamento dois homens: um chamava-se Eldad e o outro Medad. O Espírito poisou
também sobre eles, pois contavam-se entre os inscritos e, embora não tivessem
comparecido na tenda, começaram a profetizar no acampamento. Um jovem correu a
dizê-lo a Moisés: Eldad e Medad estão a profetizar no acampamento. Então Josué,
filho de Nun, que estava ao serviço de Moisés desde a juventude, tomou a
palavra e disse: Moisés, meu senhor, proíbe-os. Moisés, porém, respondeu-lhe: Estás com ciúmes por causa de mim? Quem me dera que todo o povo do Senhor fosse
profeta e que o Senhor infundisse o seu Espírito sobre eles!»[3]
Moisés era considerado o profeta dos profetas, o mais
clarividente de todos, mas não julgava que tinha o exclusivo. Era um democrata
do profetismo. Quando se fala de democracia na Igreja, fica tudo aflito e,
pelas democracias que conhecemos temos de nos render à observação de Churchill
« a democracia é a pior forma de governo imaginável, à excepção de todas as
outras ».
O sentido da inclusão regressa no Evangelho de Marcos entre
a sabedoria e a ameaça. «Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em
teu nome e procurámos impedi-lo porque ele não anda connosco»[4]. Faziam do discipulado uma
propriedade privada: Jesus é só nosso! O Mestre não gostou nada dessa cegueira.
Era uma questão de bom senso: quem não é contra nós, é por nós.
Não ficou por aí. Se alguém escandalizar algum destes
pequeninos que crêem em mim, melhor seria, para ele, que lhe atassem, ao
pescoço, uma dessas mós movidas por um jumento e o lançassem ao mar.
Escandalizar é fazer proliferar o mal de modo incontrolável.
Tudo em nós pode servir para o melhor e para o pior. Para grandes males,
grandes remédios. Nesta parábola exemplar, não há grande confiança na emenda. A
mutilação generalizada de pés, mãos e olhos parece a única saída.
A carta de Tiago é dura como a pregação do profeta Amós.
Privastes do salário os trabalhadores que ceifaram as vossas terras. O seu
salário clama; os salários dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do
Universo. Ficou para sempre cunhada a expressão: há pecados que bradam aos
céus.
3. Estes textos
foram lidos na celebração do Domingo passado e suscitam a pergunta: aconteceu
alguma coisa nas comunidades católicas?
O grande debate na Igreja, desde o Vaticano II, é o
seguinte: Moisés disse o que acima transcrevemos, o desejo de um povo
profético, sem exclusivos. Jesus vai na mesma linha e S. Paulo, no seguimento
do Baptismo, afirma: não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há
homem e mulher, porque todos vós sois um só em Cristo Jesus[5].
A irritação com o Papa Francisco é o pânico de que ele,
apesar de todas as iniciativas para o travar, não desista do seu programa
global, A Alegria do Evangelho.
Quando, agora, quer colocar a Igreja numa focagem sinodal,
isto é, colocar a Igreja toda num processo de reforma permanente, impedindo uma
acção pastoral de mera conservação, envolvendo todas as pessoas, estruturas,
estilos e linguagens, vem o susto: ele é capaz de não desistir e, quanto mais
idoso fica, mais atrevido se mostra. O receio maior é outro: que o novo papa
siga pelo mesmo caminho. Daí, as estratégias e as tácticas para desenvolver um
movimento global, com muito dinheiro e meios, para impedirem uma futura eleição
que continue o programa de Bergoglio. Essa tentativa já começou, nomeadamente,
nos Estados Unidos.
09.10.2018
[1]
José Augusto Ramos, Francolino Gonçalves
In Memoriam, CADMO 26, 2016, pp 267-270; Cf. os textos de Francolino
Gonçalves nos Cadernos ISTA (www.ista.pt), destacando,
Iavé, Deus de justiça ou de bênção, Deus
de amor e de salvação, nº 22, ano IV (2009), pág. 107-152, pela sua
originalidade acerca dos dois Iaveísmos, dentro da multiplicidade dos
“retratos” bíblicos de Deus
[2]
Mq 6, 6-8
[3]
Nm 11, 25-29
[4]
Mc 9, 38-48
[5]
Gl 3, 28
sábado, 6 de outubro de 2018
MADEIRA E PORTO SANTO-Por mares dantes navegados
"(...) Perante
tudo isto, tenho de confessar que não me senti uma turista na ilhas da
Madeira e do Porto Santo, mas antes uma visitante do seu povo, através
do contacto com a sua cultura, a sua história e a sua religiosidade.
Isso aconteceu graças ao grupo que integrei, sobre o qual não poderei
deixar de destacar (...) VER MAIS
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sexta-feira, 5 de outubro de 2018
Mártires do século XX - DM de 4 DEZ
1. Acompanhei como pude a viagem apostólica
do Papa Francisco aos países bálticos –
Letónia, Estónia e Lituânia – entre 23 e 26
de setembro. Prestou homenagem às vítimas
de dois dos grandes totalitarismos do
século XX: o nazismo e o comunismo.
Concluída a visita, já no Vaticano, o Papa declarou:
“É impressionante ver até onde pode chegar a crueldade
humana. Vamos pensar sobre isso”, pediu aos peregrinos
reunidos na Praça de São Pedro, para a audiência
pública semanal.
Recordou que em Vilnius prestou homenagem às vítimas
do genocídio judaico “75 anos depois do encerramento
do grande gueto, que era antecâmara de morte
para dezenas de milhares de judeus”.
“Ao mesmo tempo, disse, visitei o Museu das Ocupações
e Lutas pela Liberdade: parei em oração nos quartos
onde os opositores do regime foram detidos, torturados
e mortos. Matavam mais ou menos quarenta
pessoas por noite”.
O Papa falou dos mártires católicos e do “grande testemunho
que deram e ainda dão tantos padres, religiosos
e religiosas idosos, que sofreram calúnias, prisões e
deportações”.
2. Esta visita do Papa é, com efeito, oportunidade para
recordar os mártires de todos os tempos, mas particularmente
os do século XX. Folheei, a propósito, dois
esclarecedores livros: «Os Mártires Católicos do Século
XX», de Robert Royal, e «O Século do Martírio», de
Andrea Riccardi.
O século XX foi um século de grande desumanidade
e sangrentas carnificinas provocadas não apenas pelas
duas guerras mundiais e pela guerra civil de Espanha mas
também por grandes perseguições ideológicas, de que
foram particularmente vítimas os judeus e os cristãos.
3. Refiro particularmente as perseguições de que foram
vítimas os cristãos, mas não devo esquecer as perseguições
de que foram objeto muitos outros, pelos
mais diversos motivos. Perseguições que conduziram
à morte violenta e perseguições que infernizaram
a vida às pessoas, marginalizando-as ou
criando-lhes difíceis ou até insuportáveis condições
de vida. Também é perseguição arrumar seres
humanos na prateleira ou massacrá-los com
o assédio sexual.
4. As perseguições têm na base o desrespeito
pela vida e pela dignidade do ser humano. A violação
do direito que todos possuem de, não ofendendo
os outros, fazerem as suas opções, a nível
religioso, político e outros.
Aquele que escolheu apoiar um clube diferente
do da minha simpatia nem por isso deixa
de ser uma pessoa como eu e de ter o direito de
ser respeitado na sua dignidade, nos seus direitos,
nos seus bens.
As diferentes opções não devem ser motivo para
ver no outro um inimigo e de o tratar como tal.
Quem não é dos nossos é um ser humano como
nós. Tem, como nós, direito a condições dignas
de vida. Numa perspetiva cristã é um nosso
irmão cuja liberdade devemos saber respeitar como
pretendemos que respeitem a nossa.
5. Qual o número de mártires cristãos no século
XX?
Impossível contabilizá-los. Desconhece-se o
nome de grande parte deles. Há quem aponte a
cifra de três milhões.
Há que tomar consciência de que o martírio
dos cristãos nem sempre tem sido devidamente
noticiado.
Escreve Robert Royal: «Os relatos do século
XX foram geralmente produzidos sob uma
perspetiva quase puramente política que, quando
admite a existência de mártires, o faz apenas
tangencialmente. A título de exemplo, a terrível
tentativa de genocídio dos Arménios operada
pelos Turcos, que teve lugar no início do século,
foi devidamente documentada pela maioria
dos textos históricos. No entanto, raramente se
refere que muitos cristãos, arménios católicos e
ortodoxos, morreram durante esse mesmo massacre
precisamente por serem cristãos. A Igreja
Católica arménia calcula que sete bispos, 126
padres, 47 freiras e cerca de 30.000 leigos perderam
a vida por causa da sua fé sob o moderno
regime turco».
Ainda hoje se não noticia devidamente a morte
violenta de muitos cristãos, vítimas de fanatismos
ideológicos. Às vezes, até, invocando sacrilegamente
o nome de Deus. Fica-se com a ideia de
que a vida só tem valor para alguns. Há filtros em
grandes meios de comunicação social que impedem
o relato de que são vítimas muitos cristãos.
Silva Araújo - Diário do Minho
do Papa Francisco aos países bálticos –
Letónia, Estónia e Lituânia – entre 23 e 26
de setembro. Prestou homenagem às vítimas
de dois dos grandes totalitarismos do
século XX: o nazismo e o comunismo.
Concluída a visita, já no Vaticano, o Papa declarou:
“É impressionante ver até onde pode chegar a crueldade
humana. Vamos pensar sobre isso”, pediu aos peregrinos
reunidos na Praça de São Pedro, para a audiência
pública semanal.
Recordou que em Vilnius prestou homenagem às vítimas
do genocídio judaico “75 anos depois do encerramento
do grande gueto, que era antecâmara de morte
para dezenas de milhares de judeus”.
“Ao mesmo tempo, disse, visitei o Museu das Ocupações
e Lutas pela Liberdade: parei em oração nos quartos
onde os opositores do regime foram detidos, torturados
e mortos. Matavam mais ou menos quarenta
pessoas por noite”.
O Papa falou dos mártires católicos e do “grande testemunho
que deram e ainda dão tantos padres, religiosos
e religiosas idosos, que sofreram calúnias, prisões e
deportações”.
2. Esta visita do Papa é, com efeito, oportunidade para
recordar os mártires de todos os tempos, mas particularmente
os do século XX. Folheei, a propósito, dois
esclarecedores livros: «Os Mártires Católicos do Século
XX», de Robert Royal, e «O Século do Martírio», de
Andrea Riccardi.
O século XX foi um século de grande desumanidade
e sangrentas carnificinas provocadas não apenas pelas
duas guerras mundiais e pela guerra civil de Espanha mas
também por grandes perseguições ideológicas, de que
foram particularmente vítimas os judeus e os cristãos.
3. Refiro particularmente as perseguições de que foram
vítimas os cristãos, mas não devo esquecer as perseguições
de que foram objeto muitos outros, pelos
mais diversos motivos. Perseguições que conduziram
à morte violenta e perseguições que infernizaram
a vida às pessoas, marginalizando-as ou
criando-lhes difíceis ou até insuportáveis condições
de vida. Também é perseguição arrumar seres
humanos na prateleira ou massacrá-los com
o assédio sexual.
4. As perseguições têm na base o desrespeito
pela vida e pela dignidade do ser humano. A violação
do direito que todos possuem de, não ofendendo
os outros, fazerem as suas opções, a nível
religioso, político e outros.
Aquele que escolheu apoiar um clube diferente
do da minha simpatia nem por isso deixa
de ser uma pessoa como eu e de ter o direito de
ser respeitado na sua dignidade, nos seus direitos,
nos seus bens.
As diferentes opções não devem ser motivo para
ver no outro um inimigo e de o tratar como tal.
Quem não é dos nossos é um ser humano como
nós. Tem, como nós, direito a condições dignas
de vida. Numa perspetiva cristã é um nosso
irmão cuja liberdade devemos saber respeitar como
pretendemos que respeitem a nossa.
5. Qual o número de mártires cristãos no século
XX?
Impossível contabilizá-los. Desconhece-se o
nome de grande parte deles. Há quem aponte a
cifra de três milhões.
Há que tomar consciência de que o martírio
dos cristãos nem sempre tem sido devidamente
noticiado.
Escreve Robert Royal: «Os relatos do século
XX foram geralmente produzidos sob uma
perspetiva quase puramente política que, quando
admite a existência de mártires, o faz apenas
tangencialmente. A título de exemplo, a terrível
tentativa de genocídio dos Arménios operada
pelos Turcos, que teve lugar no início do século,
foi devidamente documentada pela maioria
dos textos históricos. No entanto, raramente se
refere que muitos cristãos, arménios católicos e
ortodoxos, morreram durante esse mesmo massacre
precisamente por serem cristãos. A Igreja
Católica arménia calcula que sete bispos, 126
padres, 47 freiras e cerca de 30.000 leigos perderam
a vida por causa da sua fé sob o moderno
regime turco».
Ainda hoje se não noticia devidamente a morte
violenta de muitos cristãos, vítimas de fanatismos
ideológicos. Às vezes, até, invocando sacrilegamente
o nome de Deus. Fica-se com a ideia de
que a vida só tem valor para alguns. Há filtros em
grandes meios de comunicação social que impedem
o relato de que são vítimas muitos cristãos.
Silva Araújo - Diário do Minho
terça-feira, 2 de outubro de 2018
Viver hoje o carisma comboniano - M C.
Na conclusão dos trabalhos da Assembleia Intercapitular, os participantes dirigiram uma mensagem de comunhão e gratidão pelo que sois e fazeis no quotidiano da missão.
“Viver hoje o carisma comboniano… é tomar consciência das transformações que estão a acontecer e aprender a mostrar o Deus da história, sempre próximo dos últimos da terra. A leitura da realidade, bela e trágica ao mesmo tempo, tocou-nos profundamente, chamando-nos à conversão pessoal e comunitária, para «ser missão» num mundo renovado pelo Evangelho de Jesus”, lê-se na mensagem.
Para os participantes na Assembleia Intercapitular, realizada em Roma de 9 a 29 de setembro de 2018, “a missão, hoje mais que nunca, pede coerência de vida e uma espiritualidade cada vez mais próxima a Jesus e ao seu projeto. Não podemos viver a missão sem levar a sério o seu chamamento à santidade”.
“O nosso carisma é claro e dinâmico, mas deve retornar às fontes que o renovam”, afirma a mensagem.
“O novo paradigma da missão, do qual fala o Capítulo, deve surgir da relação afetiva com a Trindade e tornar-se serviço à comunhão, gerador de novas relações humanas baseadas na justiça e na misericórdia. Estas relações de fraternidade devem renovar-nos a partir de dentro, levar-nos a uma opção radical pelos mais pobres e a cuidar da «casa comum». Somos discípulos missionários do Senhor ressuscitado, que devolvem aos povos e à criação a dignidade que receberam do Deus-Amor desde o princípio”, escrevem.
Durante o período da Assembleia Intercapitular, “preocupações e esperanças” mexeram com os participantes:
- Escrevemos uma carta ao Papa Francisco para expressar a nossa proximidade e apoio nas escolhas que cada vez mais parecem isolá-lo, mesmo dentro da Igreja.
- Acompanhamos com alegria os esforços de paz no Sudão do Sul e entre a Etiópia, a Eritreia e a Somália, as etapas de reaproximação das duas Coreias e os desenvolvimentos de um novo diálogo entre a Igreja e o governo chinês com o acordo sobre a nomeação dos novos bispos.
- Partilhámos a dor das famílias no naufrágio recente no Lago Vitória, Tanzânia, e pelas vítimas de eventos climáticos extremos nas Filipinas, China, Estados Unidos e Nigéria. São apelos para incluir nas nossas preocupações missionárias também a grave crise socioambiental, provocada pelo atual modelo neoliberal de produção e consumo.
- Condenámos o massacre dos civis inocentes na cidade de Beni, no Kivu do Norte, República Democrática do Congo, bem como as vítimas de grupos fundamentalistas pelo controle de recursos no norte de Moçambique.
- Rezámos pelo Pe. Pierluigi Maccalli, SMA, sequestrado por fundamentalistas islâmicos no Níger.
- Lamentámos a morte de mais de cem migrantes no Mediterrâneo e refletimos sobre a vida precária de muitos migrantes que fogem da guerra, da fome e das mudanças ambientais em muitas partes do mundo.
- A situação sempre preocupante da República Centro-Africana e a crise na Venezuela e na Nicarágua não nos deixaram indiferentes.
- Vimos nesta humanidade sofredora o povo da promessa, a caminho dos novos céus e nova terra (2Pe 3, 13) onde a justiça terá uma morada permanente. Cabe a nós missionários preparar e abrir este caminho!
No final do encontro, todos se comprometeram a renovar o carisma missionário recebido de Comboni, “a quem repetidamente invocámos na nossa assembleia”.
“Que seja ele a conduzir-nos neste tempo e a projetar-nos com esperança no futuro. A ele, finalmente, confiámos o trabalho nestes dias”, conclui a mensagem.
Leia AQUI a mensagem completa.
segunda-feira, 1 de outubro de 2018
NÃO VARRER A CASA AO DIABO (2) Frei Bento Domingues, O.P.
1. Estaremos no bom caminho? Parece-me que
sim. Digo isto com toda a convicção, mas nada está garantido, à partida. A
história da Igreja não é, nunca foi, nem pode ser, desenhada como uma
auto-estrada de santidade. Quando certa apologética infantil, ignorante ou
perversa falava da história admirável da Igreja, como uma procissão de heróis,
santos, mártires, doutores e místicos, ilustrada nas pinturas e esculturas das
igrejas e capelas, faltava lá o reverso da medalha: a lista das vítimas dos
inquisidores, dos criminosos e perversos em nome da santa vontade de Deus. Em
defesa da revelação divina e da sua verdade contida nas escrituras, nos
concílios ecuménicos, no magistério ordinário e extraordinário dos Papas,
decretaram-se condenações e excomunhões odiosas.
Na preparação da entrada no Terceiro Milénio[1]
manifestou-se, em alguns sectores da Igreja, a vontade de confessar,
publicamente, os crimes e os pecados do passado, fazendo propósitos de emenda
em relação a determinados processos e instituições que se tinham tornado
prática odiosa e corrente. Basta lembrar o texto de João Paulo II: “Muitos
motivos convergem, com frequência, na criação de permissas de intorlerância,
alimentando uma atmosfera passional, à qual só os grandes espíritos,
verdadeiramente livres e cheios de Deus, conseguiram, de algum modo,
subtrair-se. No entanto, a consideração das circunstâncias atenuantes não
dispensa a Igreja do dever de lamentar, profundamente, as debilidades de tantos
dos seus filhos que desfiguraram o seu rosto, impedindo-o de reflectir,
plenamente, a imagem do seu Senhor crucificado, testemunha insuperável do amor
paciente e manso. Destes traços dolorosos do passado, emerge uma lição para o
futuro, que deve levar todo o cristão a ter em conta, o princípio de ouro
proclamado pelo Concílio Vaticano II: A
verdade só se impõe pela força dessa mesma verdade, que penetra nas almas, com
suavidade e firmeza.”
De facto, o que estava a ser esquecido, e cada vez mais,
era, precisamente, o espírito do Vaticano II.
Desde o Syllabus
(1866), da encíclica Pascendi (1907)
e, por fim, da Humani Generis (1953),
as lideranças da Igreja despresaram a liberdade de investigação e expressão com
repetidas e requintadas condenações. Acabo de ler, a história do historiador e
exegeta Alfred-Fermin Loisy[2]. Este católico, que tanto
queria que a fé cristã fosse uma luz no mundo contemporâneo – que não pode
fazer jejum da razão - foi excumungado. Nunca se resignou a essa situação e
pediu que, na sua campa, fosse escrito: Alfred
Loisy. Padre. Retirado do ministério e do ensino. Professor no Collège de
France (1857-1940). Tuam in votis tenuit
volontatem. Correspondia ao que
estava num dos missais usado na liturgia nos anos 30: de coração ele (Loisy) ficou sempre ligado à Vossa Vontade.
Quando fui acolhido nos Dominicanos em 1952, vivia-se na
Ordem, sobretudo em França, uma situação atormentada que Yves Congar descreveu
com toda a crueza e que, há poucos anos, François Leprieur analisou[3], sem dó nem piedade.
2. Evoco esse
passado por uma simples razão: os tormentos chegaram ao fim com a eleição do
Papa João XXIII, o milagre maior que eu já vivi. Por dificuldades em Portugal,
tive a graça de, antes e durante o Concílio, poder frequentar, devotamente, as
suas audiências públicas. Vi, pela primeira vez, um papa que parecia o avô de
toda a gente. Podíamos verificar que ele gostava de nós todos, os que estavam
lá e os que não estavam, crentes e não crentes, porque todos acreditávamos que
ele era a voz da humanidede à procura de paz e de esperança. Este João era a
alegria bem-humorada. Chegou a dizer que se lembrou de convocar o Concílio
quando estava a fazer a barba. Veio o Concílio. Abriu portas e janelas,
acreditando que as correntes de liberdade mais contrastadas ajudavam a
encontrar novos caminhos.
Morreu antes de o poder levar ao fim a sua santa loucura. Foi
triste. Muito triste.
As tormentas do pós-Vaticano II continuam. As manobras sobre
a pílula, o impedimento de padres casados, a situação dos divorciados
recasados, o impedimento do acesso das mulhers aos ministérios ordenados, o
cerciamento da liberdade de investigação e expressão teológicas, a impossível
reforma da cúria e dos escândalos financeiros do Banco do Vaticano, o êxito
ambíguo das viagens papais, etc. encobriram e fizeram esquecer, em muitas
situações, o principal: a vida real das comunidades cristãs e a forma como
estavam a ser servidas ou atraiçoadas. Quando deram por ela, começaram as
queixas sobre abusos sexuais de padres, bispos e cardeais sobre os menores que
lhes tinham sido confiados.
Seria injusto reduzir o que a Igreja realizou em todos os
continentes, no pós-Vaticano II, a esses milhares de vítimas de crimes
horrorosos. Sinto o sofrimento de muitos cristãos de terem de lidar com o
espelho dos meios de comunicação que lhe falam do que nunca se tinham dado
conta. É preciso compreender que é uma fonte de vergonha. Quando lhes dizem que
há poucas vocações para padres, observam: se querem manter o mesmo modelo que
tornou a vida impossível a tantas crianças e adolescentes, é melhor que não
haja. Mas o zero não é productivo.
3. O que me tem
irritado são as manobras para fazer do Papa Francisco o bode expiatório de
décadas de encobrimentos, distracções e resistências a reformas inadiáveis. Fazem o mal e a caramunha. Quando,
porém, julgavam que tinham isolado e encurralado o Papa Francisco, pediam a sua
demissão. Tiveram de verificar, uns com gosto e outros com desgosto, um coro
imenso de apoio ao seu programa de reformas, com que começou o seu pontificado:
a Alegria do Evangelho, a acolher e a
semear por todo o mundo.
Bergoglio não tem jeito para a auto-contemplação. Aproveitou
para uma nova convocatória das conferências episcopais e da renovação e
intensificação da prática dos sínodos dos bispos, abertos aos não bispos. Estes
e as suas conferências são intimados a serem a voz das comunidades. Antes de falar
têm de escutar, viver no seu meio para ajudar a renovar e a serem renovados por
elas. Realizar aquilo que Sto Agostinho lembrava: Convosco sou cristão, para vós sou bispo.
Não sei porque esquecemos o espantoso ritual do Baptismo, Effathá: abre os olhos, abre os ouvidos
para poderes falar. Os cristãos não recebem um báculo de pastores, mas recebem
uma vela. Os pastores não deviam esquecer a luz de Cristo que vem através de
todos os cristãos, de dentro e de fora da Igreja.
O Papa Francisco varreu a casa ao Espírito Santo!
30.09.2018
[1] João Paulo II, Tertio Millenio Adveniente, 1994
[2]
Cf. DHGE, pp 1085-1100
[3]
Quand Rome condamne, Paris, Cerf, 1989
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