quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Reabertura do escolasticado comboniano na Eritreia 03 de Dezembro de 2018


O escolasticado de Asmara foi aberto em 2008, depois das restrições à saída do país, imposto aos jovens, por parte do governo da Eritreia. Em 2016, foi encerrado devido à falta de candidatos.

Agora, no dia 22 de setembro de 2018, foi reaberto com três escolásticos e dois formadores. Para celebrar esta reabertura, o padre Habtu Teklay, superior da delegação, celebrou uma missa, na qual participaram os membros do conselho da delegação, os confrades da comunidade de Asmara, os postulantes e as irmãs missionárias franciscanas.

Na ocasião, o P. Habtu encorajou os escolásticos a aprofundar a vida de oração, a se dedicar seriamente aos estudos, a criar um bom clima na comunidade, e a empenhar-se nas actividades pastorais.

sábado, 1 de dezembro de 2018

DISCORRENDO SOBRE A FÉ QUE NOS MOVE – Parte II

Após o almoço reconfortante para o corpo, mas também para o espírito que sem ele dificilmente ficaria aberto para o resto do dia, os trabalhos da tarde do dia 24 começaram reflectindo sobre o tema – Pela Palavra, “O Pai que está nos céus vem amorosamente ao encontro dos Seus filhos, a conversar com eles”, com D. Manuel Pelino, bispo emérito de Santarém, abordando um tema que, segundo o próprio, lhe é muito caro.

Começou afirmando que se chega à Fé pelo encontro, um encontro que está a ser muito procurado pelo mundo laico, designadamente em França e no norte de Itália, onde têm surgido muitos grupos a meditar a bíblia, mas questionou logo de seguida: Porque se afastam os jovens? Porque seguem com desânimo por não encontrarem o que procuram, o mesmo desânimo que os discípulos de Emaús revelavam por terem encontrado o túmulo vazio. Mas enquanto caminhavam foram-lhe abertos os caminhos.

E revisitou algo que já havia sido objecto de reflexão pela manhã: O silêncio, o silêncio que muitas vezes é referido pelos jovens participantes em encontros, que o que mais apreciaram não foram as palavras mas sim o silêncio, a voz do silêncio.

Não é pela interpretação exegética que se aporta à Fé, mas pelo encontro com Deus e elencou sete situações susceptíveis de abrirem os caminhos da Fé: – Pelo encontro, mas é necessário descobrir os recursos de que dispomos para o alcançar, sendo notório que toda a gente anseia luz e verdade, citando a seguir Santo Agostinho: “Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim, e eu, lá fora, a procurar-Vos…”; – Deus à nossa procura – O filho do homem veio procurar os que andam afastados, ou marginalizados ou nas periferias; – Colocar a Sagrada Escritura como lugar de encontro;Conversão à bíblia no Concílio Vaticano II – através da sua Constituição “Dei Verbum”, que escuta para transmitir e proclama a Palavra de Deus, em contraponto à situação anterior em que a Igreja apenas sabia; – Da letra escrita à palavra viva – A Bíblia tem passagens difíceis de entender, cuja chave de leitura emana dos Evangelhos, sendo um instrumento que nos leva ao encontro com Deus; – A Sagrada Escritura na vida da Igreja – Da exegese à vida, fazendo da Escritura a alma da Igreja e da catequese; – Leitura meditada e orante da Sagrada Escritura – Não é um hábito entre nós, mas há já por esse mundo fora grupos a procurar a “Lectio Divina” e citou a seguir a Exortação Pós Sinodal “Verbum Domini”, do papa Bento XVI, afirmando que é através da leitura atenta que ajuda a descobrir o contexto e a actualidade, da meditação, da oração e da contemplação que se tem vindo a perder e importa recuperar.

E assim se aproximou um tempo de intervalo que foi reatado por um painel que se debruçaria sobre “A palavra anunciada e testemunhada pelas comunidades cristãs”, moderado pelo dr. Paulo Rocha, director da Agência Ecclesia, que concedeu a palavra à ir. Isolinda Tavares de Almeida, que abordaria o tema pelo lado dos católicos e começou por afirmar que a Igreja nem sempre foi activa na afirmação da Fé, mas é bom que se diga que os grandes problemas e o anúncio da palavra foram sempre prioridade na Igreja. A fé é fruto do encontro entre a inefável graça de Deus e a liberdade humana, a que se junta o contributo das ciências humanas, os documentos da Igreja, que tem ajustado a sua doutrina à evolução dos tempos. Sob o seu ponto de vista, atinge-se a Fé pela família cristã, pelos movimentos eclesiais, pela escola, pela liturgia da Palavra e pela caridade.

Afirmou a seguir várias etapas para alcançar a fé: – Pelo catecismo que é insubstituível na comunicação da fé e porta de acesso à experiência da vida cristã. Não interessa o fazer o catecismo interessa o ser (papa Francisco); Pela formação, que sempre foi preocupação da Igreja formar os catequistas pelo lado espiritual, pelo lado do ser e do saber fazer; – Pela fidelidade à palavra; – Pelo anúncio que vá directo ao coração, citando Isaías “Não temas, eu te resgatei e te chamei pelo teu nome, tu és meu”. De facto, Deus chama com a ternura de um pai, chama porque ama e olha cada indivíduo; – Pela formação cristã dos adultos que precisam de uma nova síntese de fé que os ajude a caminhar. A formação dos adultos torna-se essencial porque a fé recebida em criança tem que ser consolidada e o catecismo educa nesse sentido.

Para terminar a sua intervenção debruçou-se sobre “A catequese da infância e da adolescência” referindo que existe um plano nacional, com duas fases distintas, para crianças e adolescentes dos seis aos dezasseis anos, escalado por várias etapas, cujos conteúdos visam um conhecimento básico da bíblia, a formação e a vivência dos sacramentos, os mandamentos e as bem-aventuranças e a oração do Pai Nosso. Existe uma orientação cristocêntrica centrada no querigma, isto é, no conteúdo mais importante da mensagem cristã. Mas também uma catequese mistagógica que ensina o significado de cada símbolo litúrgico, gestos e sacramentos. Finalmente, busca-se na catequese uma pedagogia, um método, que seja activo, indutivo e facilitador ao serviço da comunicação da Fé e do contacto com Deus.

Pelo lado das comunidades ortodoxas e católicas de rito oriental, o Pe Sílvio Litvinczuk, abordou o mesmo tema afirmando que a igreja é única, embora tenha comunidades diversas, como as tinha nos primeiros tempos do cristianismo. Não existe uma Igreja oriental, mas diversas, somando vinte e três nas tradições orientais, sendo que duas delas sempre foram católicas. As igrejas ortodoxas não aceitam nem o dogma da Imaculada Conceição nem o da infalibilidade do papa. Nessa comunidade não existe um pensamento, mas sim vários. Da primeira comunidade cristã em Jerusalém emergiram várias sensibilidades, várias tradições cristãs, bizantina e outras, várias fórmulas teológicas, mas que se completam. Transmitem a fé cristã em idênticos moldes, mas de acordo com a tradição de cada uma. São igrejas de base comum, mas diferentes, diferenças que até levaram ao cisma de 1054. Aceitam os sete concílios ecuménicos.

Defendeu que o que é importante é o “rito” e não o território. Para eles, a base de toda a formação cristã está na família (familiares e padrinhos), a par das missões e retiros espirituais, mas os métodos são diferentes dos ocidentais, sobretudo pela diversidade de tradições. Seguem o Evangelho na totalidade.

Para finalizar o ciclo de conferências do dia foi a vez do dr. Timóteo Cavaco, pelo lado das Igrejas Reformadas, no caso pelo lado da Igreja Evangélica Baptista, que começou por afirmar que na diversidade temos construído coisas comuns. O cristianismo é muito diverso, mas não é do conflito que vivemos, pois nada põe em causa a nossa fé comum. No último século houve mais práticas comuns e aproximações. O protestantismo dá expressão à palavra, mas também à teologia e ao dogma. Há várias formas de expressão cristã nos templos ou, diríamos até em salas de espectáculo e pergunta-se como falar nesta diversidade? Para os fiéis das igrejas reformadas aplicam-se vários termos, protestante, reformado ou evangélico, de clarificação semântica quase insolúvel.

O protestantismo nasceu em diversidade que alguns apenas atribuem a Calvino e Zuínglio, sendo estes associados, a partir do século XVIII, ao Puritanismo. Não é fácil estabelecer uma caracterização histórica a cada um dos termos, devendo entender-se como sinónimos, mas não aceita ver sistematicamente a comunicação social tratar de protestantes aqueles que se manifestam em protesto.

“Sola Scriptura” é o que une os protestantes, donde provém a autoridade espiritual (nunca dividiu), mas também a autoridade material. Na reforma não se pretendeu substituir as autoridades existentes por outras equivalentes, procurou-se, isso sim, atingir a vontade especial de Deus de tocar o ser humano. A autoridade reside na palavra, tendo essa palavra como ponto de partida a Boa Teologia, a Teologia da Cruz, embora nem todos os cristãos reformados tenham essa visão. Para entender a palavra é preciso estudar as línguas e as artes liberais.

Na Tradição Reformada, a bíblia é a regra suprema, que está no centro da igreja e na vida dos fiéis, mas também os serviços religiosos, sendo obrigação dos fiéis ler diariamente a bíblia. Na Tradição Evangélica o papel central está na vida das comunidades e das pessoas, que devem levar a bíblia para a igreja, sendo que várias organizações têm surgido para o estudo das Escrituras fora do contexto eclesial, de onde têm resultado leituras mais liberalistas com interpretação muito particular. Na Tradição Pentecostal a bíblia é a fonte máxima de autoridade mas também da prática religiosa, tendo o Espírito Santo como agente da palavra divina, dando mais ênfase à fé do indivíduo, não comunitária, donde resulta um Deus pessoal, atendendo às necessidades específicas de cada um.

Nas comunidades evangélicas a catequese não existe nos moldes ministrados pela Igreja Católica. Utilizam o termo “Escola Dominical”, mas com finalidade educacional. A fé transmite-se no contexto da família e nos cultos. Não existe eucaristia nos moldes católicos, mas sim a ceia, estando a consubstanciação próxima do conceito católico, embora os calvinistas defendam que não está ali materialmente o corpo e o sangue de Cristo, embora Cristo esteja presente, sendo que Zuínglio entende que a presença é apenas simbólica. A pregação está na parte central do culto evangélico cuja duração oscila entre os trinta e os sessenta minutos.

Terminou assim o ciclo de conferências do dia, que não a jornada, pois os participantes, desta feita na Capela da casa Domus Carmeli, seriam ainda brindados com o recolhimento que a música confere a quem a escuta, sobretudo se for debitada “com arte e com alma” como o souberam fazer os elementos do grupo coral Cantabo, dirigido pelo Pe Artur Oliveira. Que maravilha!

Américo Lino Vinhais
Gabinete de Comunicação


sexta-feira, 30 de novembro de 2018

DISCORRENDO SOBRE A FÉ QUE NOS MOVE – Parte I



Os dias 24 e 25 de Novembro amanheceram chuvosos, com uma chuva suave, ordeira e prometedora para os campos que nesta altura nos oferecem já imensidões de um verde vivo, o verde da esperança, a esperança que a todos nos move rumo a um futuro melhor.
Também nesses dois dias, por iniciativa da UASP – União das Associações dos Antigos Alunos dos Seminários Portugueses, na “Domus Carmeli”, uma casa património da Ordem dos Padres Carmelitas Descalços, em Fátima, no decurso do seu V Fórum animado pelo tema “O Acesso à Experiência da Fé, Hoje!”, se ouviram ali, bem protegidos da precipitação exterior, torrentes de palavras suaves, ainda que firmes, ordeiras e prometedoras, rumo ao reavivar e aprofundar a Fé de cada um, que ali se proclamou de várias perspectivas, com uns laivos de crítica à forma como a Igreja Católica a proclama e divulga, mas sempre a mesma Fé em Deus, Deus Uno e Trino.
Dizia o doutor José Milhazes, convidado para abordar uma “Leitura dos sinais dos tempos”, antigo aluno do seminário comboniano, o primeiro orador convidado, antecedido por palavras de boas-vindas, por parte da Organização e dos anfitriões, que “quanto mais culta é a fé, mais sólida ela é”, de certo modo em contraponto com o que por aí se diz que o conhecimento, vai reduzindo a necessidade de religião.
De facto, o orador afirmou que o que hoje importa é a cultura, o conhecimento e a fé, atrevendo-se a alvitrar que a História é talvez a ciência mais inútil à face da terra, porque é esquecida, repetindo-se assim os erros do passado, começando a Europa de hoje a assemelhar-se à Europa dos inícios do século XX, época de utopias malditas, onde começam a sobressair grupelhos sem expressão significativa no contexto nacional, que necessitam de estar no centro das atenções para sobreviver e que face à sua persistência e fácil acesso aos meios da comunicação social, têm um tempo de antena desproporcional ao peso que de facto têm na sociedade, em contraponto à Igreja Católica que não aproveita convenientemente as oportunidades de intervenção.
E apontou exemplos como o episódio da Dina Aguiar em que se despediu dos seus telespectadores com um sentido “até amanhã, se Deus quiser” e que redundou numa enxurrada de críticas à jornalista, sem que a Igreja Católica, ou os católicos em geral, se indignassem com veemência e publicamente. Se se despedisse com “um até amanhã camaradas!” provavelmente passaria incólume à esquerda e à direita.
A Igreja tem que ser preventiva e agir para resolver os seus problemas, intervir socialmente em casos como os da greve dos estivadores em Setúbal, revelando a sua posição em áreas críticas porque posições dúbias não ajudam à sua afirmação. Se a Igreja faz apenas casamentos e baptizados, não serve. É necessária uma Igreja que fale dos problemas e das comunidades. Não deve pensar apenas em apagar o fogo quando a casa já arde. É a intelectualidade que chega aos mais humildes e por isso a Igreja não deve ter medo de assumir a sua verdade, afirmando a sua posição concreta, mesmo em casos difíceis. Terminou dizendo que se diluem os princípios e, nesse quadro, está pessimista quanto ao futuro.
Ainda na manhã de sábado foi tempo de olhar para “A transmissão da Fé entre gerações” e escutou-se a afirmação da Fé, na perspectiva dos filhos, dos pais e dos avós e foi muito agradável ouvir o testemunho de um antigo aluno, o dr. Fernando Capela, percorrer a escala da sua evolução como homem de fé, uma fé compartilhada no seio da sua família onde despontou, aprofundou no seminário e teve também uma fase de pré-divórcio, seguida de um curto período de divórcio quase total por alturas em que cursava direito em Coimbra, ainda que não tivesse perdido o contacto total com a igreja. Reaproximou-se depois e actualmente frequenta a igreja de novo e tem tempo para Deus, afirmando até que a melhor experiência que teve foram aqueles três anos em que, já formado em direito, ministrou catequese aos miúdos. Concluiu que não sabe se é um homem de fé, mas tem a certeza que nos seus quarenta anos de vida Deus tem andado por ali.
Como agradável foi ouvir a drª Maria Clara Oliveira, na perspectiva de educadora dos seus filhos, mas também dos seus alunos, que encontra frequentemente em Fátima, terra de Fé por excelência o seu porto de abrigo. Tem educado os seus filhos na Fé em Deus, mas lembrou Madre Teresa de Calcutá: –“Os filhos são como as águias, ensinarás a voar mas não voarão o teu voo. Ensinarás a sonhar, mas não sonharão os teus sonhos. Ensinarás a viver, mas não viverão a tua vida. Mas, em cada voo, em cada sonho e em cada vida permanecerá para sempre a marca dos ensinamentos recebidos”. No seu mister concluiu que a regra é os pais preocuparem-se mais com a formação intelectual. A educação moral e religiosa da escola não é catequese, faltando ali um espaço onde se possa discutir a fé. A educação deve provir do exemplo. Concluiu afirmando que estamos num tempo em que os jovens não ouvem a voz do silêncio no seu dia-a-dia, mas apreciam-no quando o conseguem viver.
Para terminar a manhã de sábado, escutou-se o dr. José Luís Ponte a falar da “Transmissão da Fé na geração dos avós” e tem como máxima, na perspectiva de Rotário que é, que se educa pelo exemplo. E com o exemplo devemos praticar a sedução, e afirmou que o seminário o seduziu pelo lado do teatro, ver o padre na sua importância no altar! Faltam jovens nas igrejas e questionou: Se os familiares transmitem a fé, então o que falta? – Falta os educadores abordarem as questões com firmeza e exigência. Invocou Daniel Sampaio e a sua obra “A razão dos avós”, segundo o qual são os avós que têm disponibilidade para educar os netos com prazer, não por dever ou missão. Os avós trazem as tradições e os rituais característicos das gerações que desapareceram, são um tesouro que não podem ser roubados às gerações. Apelou de seguida para Ubiratan D’Ambrósio que aponta quatro necessidades básicas dos educandos: – Serem acolhidos e reconhecidos como humanos; Serem ajudados no processo de crescimento; Serem amados e amarem e, finalmente, serem protagonistas do seu viver e da construção da sua história.
O homem deve estar atento à sua memória, às suas origens, cada um tem a sua, sendo sempre herdeiro, sendo por isso conveniente apelar à memória. Continuou afirmando que vivemos uma pública ausência de “compromisso com a verdade”. Corremos cinco perigos culturais: – O utilitarismo → Quanto me dás?; O consumismo → Quanto mais tiveres melhor; O individualismo → Quanto mais conhecimento eu esconder dos outros mais progrido; A despersonalização → Anonimato social e, finalmente, a ambiguidade das relações sociais. A crise que se vive é civilizacional pois o homem foi retirado do centro das decisões.
Em presença do utilitarismo deve contrapor-se a gratuidade; ao individualismo, a solidariedade; à indiferença, o compromisso. Compete à Igreja Católica encontrar tempos/espaços/técnicas que lhe permitam trabalhar a família pondo alguma ênfase nos avós e citou Confúcio: “A nossa maior glória não reside no fato de nunca cairmos, mas sim em levantarmo-nos sempre depois de cada queda.” Terminando assim os trabalhos da manhã.
Américo Lino Vinhais
Gabinete de Comunicação