Os períodos do Natal e de final do ano trazem com
eles a oportunidade de refletirmos um pouco sobre
o nosso papel no meio em que vivemos, tentando,
cada um de nós, na medida do possível e
da nossa vontade, imprimir uma dinâmica mais
proativa na construção de uma sociedade melhor.
Na generalidade, nesta quadra curta, fazemos mais pelo próximo
do que nos restantes longos meses do ano, lembrando-nos
de ser mais generosos para com os que nos rodeiam e pensando
um pouco mais naqueles que precisam.
Estes finais de dezembro são, de facto, lufadas de ar fresco
na sociedade tão quezilenta em que vivemos. São balões de oxigénio
que nos fazem bem, apesar de tardios no ano que finda.
Mas, se deixar tudo para a última não fosse um hábito tão português,
eu seria o primeiro a estranhar o porquê de muitos de
nós reservarmos apenas estes finais de ano para nos lembramos
dos nossos amigos ou os nossos familiares. Diria que, imbuídos
por um espírito Natalício, tentamos ser, por esta altura,
um pouco melhores do que aquilo que efetivamente demonstramos
ser no resto do ano. E, por tudo isto, vem-me à memória
o tão famigerado chavão natalício que nos diz: – Natal deveria
ser todos os dias!
Felizmente, o Natal, sendo uma celebração com raízes e fundamentos
marcadamente Cristãos, tem o condão de incluir e não
excluir, havendo espaço para os que o vivem focados em Deus
e para aqueles que, sendo ateus ou professando outros credos,
partilham e comungam de um modo próprio os mesmos valores
cristãos. Esta capacidade de acolhimento, a que a Igreja dá o
exemplo, não é, de todo, lamentavelmente, refletida na forma
como determinados setores da sociedade se indignam perante
vivências de fé que outros manifestam. Por que razão tanto espanto
e indignação com a expressão «Até amanhã, se Deus quiser
» que uma pivô da estação pública utilizou para se despedir
dos telespectadores? Não sei se esta expressão, tão enraizada na
nossa cultura, foi proferida pela jornalista, com sentido religioso
ou não, mas, independentemente disso, tem critérios para se
encaixar naquilo a que chamamos de insulto?! Ofende, exclui,
discrimina?! Temos mesmo que viver num mundo de pessoas
«tábuas rasas» onde manifestar crenças, valores, fé, assumirmos
um ideal que é nosso, e apenas nosso, pode ser entendido como
fator de exclusão do outro ou discriminação do próximo?
Espanta-me esta nova moral vigente, que nem provérbios
com animais nos quer deixar usar, levando ao extremo do irracional
o politicamente correto. Vive-se, hoje, numa sociedade
estrangulada pela intolerância, onde o que é tolerável se encaixa
num espaço cada vez mais confinado e onde uma nova
moral se quer impor àquilo que são os nossos valores tradicionais,
culturais, civilizacionais e históricos. A forma como opiniões
contrárias são trucidadas no espaço público amordaçam
e ensombram qualquer ensejo de liberdade que sonhamos ter
para o século XXI. Por isso, vemos redes sociais pejadas de insultos
e maledicência, como se a boa educação ficasse algures
perdida no meio da rede, nesse mundo infinito do world wide
web. Como é fácil deixar cair os filtros da boa educação perante
um teclado, no mundo virtual, quando nos deparamos com
uma opinião diferente da nossa!
E por aqui me fico. Até para o ano, se Deus quiser.
sábado, 29 de dezembro de 2018
sexta-feira, 28 de dezembro de 2018
Porque adoro o Natal -Raquel Varela
Cresci com Natais de sonho, com reencontros de uma grande família, afectos, e presentes na lareira. Entre ateus ou agnósticos, e uma minoria de religiosos. Mais tarde, já adulta, e vendo a depressão tornar-se uma doença endémica, compreendi, entre outras coisas, o papel do Natal, da família e, sobretudo, dos rituais. Precisamos de estar juntos para sermos felizes, mas sem organização não nos encontramos. Sem que alguém tenha a ideia de nos juntar estamos cada vez mais sós. Os feriados religiosos jogam esse papel, cada vez mais há poucas instituições associativas que tenham essa dimensão humanizadora, sobretudo porque vivemos a crise de organizações fora do Estado como sindicatos, clubes locais, associações, etc. Ainda que rodeadas de multidões, no trabalho, nos transportes, no trânsito, na cidade, a solidão é endémica porque os mecanismos associativos não são naturais. Ou melhor, são naturais (enquanto espécies selvagens), não são é compatíveis com um modelo económico cujo sucesso depende da quantidade de pessoas que eliminamos no caminho.
O Natal não é só nem principalmente uma festa religiosa, é uma festa humana. Que celebra a vida, muito antes das religiões o terem sacralizado ou o liberalismo o ter desnatado com a mercantilização, a que vulgarmente chama consumismo. O Natal não é uma propaganda desnecessária da Igreja, para perpetuar o poder, embora possa ter esse significado para algum sector. O Natal é acima de tudo a ritualização de uma necessidade vital para a nossa felicidade e sobrevivência da espécie – a organização da vida em sociedade. A Igreja tem milhares de anos dedicada a organizar a vida social. Precisamos de estar juntos, e de celebrar a vida. O Natal foi ritualizado nesta época pela Igreja porque o paganismo já celebrava o solstício de inverno: é nesta época que os dias começam a crescer. E os dias mais longos significam mais agricultura, mais vida, mais cultura (cultura vem da palavra culto, cultivar a terra). Tudo pode agora crescer – daí o nascimento associado a esta época. A figura do presépio é uma metáfora dessa verdade – vivemos porque os outros existem. Precisamos dos outros. A ideia de uma família unida em paz que olha com amor um ser mais frágil não tem nada de errado em si, é uma belíssima imagem de amor. Por conservadorismo muitos olham esta imagem como a única possível de vida em família, por sectarismo outros deitaram fora o bebé com a água do banho, deixando de celebrar a união das pessoas.Embora eu fosse tão ligada à minha família paterna como à materna os Natais eram com a família da parte da minha mãe, perto de Alcobaça. Éramos 8 primos com sólidas relações de amizade construídas em anos de férias juntos, que solidificaram relações de confiança, construída a brincar, e afectos, tios e tias e uma avó. Só depois da minha avó morrer, quando eu tinha 16 anos, percebi o que ela queria dizer com a minha prenda «é ter-vos cá e bem, com saúde». A minha avó tinha vivido a dramática experiência de um acidente que muito cedo matou o meu avô. Para ela o Natal era nós chegarmos, e bem. Doce, terna, recebia-nos com broas, filhoses e arroz doce, tudo da sua mão. O ritual de amassar e levedar a massa; o de mexer o arroz doce, de fazermos juntos a árvore de Natal, e de irmos repor a lenha; de abrirmos o armário do serviço especial de Natal e pôr a mesa, em conjunto, tudo isso nos juntava e aproximava – foi à volta deste ritual que nos conhecemos, rimos, abraçamos. Fomos ficando melhores, uns e outros, juntos.
O Natal não é só nem principalmente uma festa religiosa, é uma festa humana. Que celebra a vida, muito antes das religiões o terem sacralizado ou o liberalismo o ter desnatado com a mercantilização, a que vulgarmente chama consumismo. O Natal não é uma propaganda desnecessária da Igreja, para perpetuar o poder, embora possa ter esse significado para algum sector. O Natal é acima de tudo a ritualização de uma necessidade vital para a nossa felicidade e sobrevivência da espécie – a organização da vida em sociedade. A Igreja tem milhares de anos dedicada a organizar a vida social. Precisamos de estar juntos, e de celebrar a vida. O Natal foi ritualizado nesta época pela Igreja porque o paganismo já celebrava o solstício de inverno: é nesta época que os dias começam a crescer. E os dias mais longos significam mais agricultura, mais vida, mais cultura (cultura vem da palavra culto, cultivar a terra). Tudo pode agora crescer – daí o nascimento associado a esta época. A figura do presépio é uma metáfora dessa verdade – vivemos porque os outros existem. Precisamos dos outros. A ideia de uma família unida em paz que olha com amor um ser mais frágil não tem nada de errado em si, é uma belíssima imagem de amor. Por conservadorismo muitos olham esta imagem como a única possível de vida em família, por sectarismo outros deitaram fora o bebé com a água do banho, deixando de celebrar a união das pessoas.Embora eu fosse tão ligada à minha família paterna como à materna os Natais eram com a família da parte da minha mãe, perto de Alcobaça. Éramos 8 primos com sólidas relações de amizade construídas em anos de férias juntos, que solidificaram relações de confiança, construída a brincar, e afectos, tios e tias e uma avó. Só depois da minha avó morrer, quando eu tinha 16 anos, percebi o que ela queria dizer com a minha prenda «é ter-vos cá e bem, com saúde». A minha avó tinha vivido a dramática experiência de um acidente que muito cedo matou o meu avô. Para ela o Natal era nós chegarmos, e bem. Doce, terna, recebia-nos com broas, filhoses e arroz doce, tudo da sua mão. O ritual de amassar e levedar a massa; o de mexer o arroz doce, de fazermos juntos a árvore de Natal, e de irmos repor a lenha; de abrirmos o armário do serviço especial de Natal e pôr a mesa, em conjunto, tudo isso nos juntava e aproximava – foi à volta deste ritual que nos conhecemos, rimos, abraçamos. Fomos ficando melhores, uns e outros, juntos.
sábado, 22 de dezembro de 2018
Celebrar o Natal entre acolhimento e contemplação 14 de Dezembro de 2018
Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador... encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura (Lucas 2, 11-12).
Caros confrades,
Estamos a aproximar-nos da celebração do grande mistério da Encarnação, surpreendidos e deslumbrados pela luz que vem do presépio. Um mistério que temos que ter sempre presente na nossa vida missionária como fonte de inspiração no processo de inserção em novos contextos e desafios missionários. Começando com Jesus, Missionário do Pai, os missionários sempre tiveram que passar por um processo de encarnação que implica fazer-se pequeno e despir-se de tudo o que possa ser impedimento para acolher novas realidades (Filipenses 2, 6).
Lemos num antigo diário da missão de Omdurman: «Cheguei ontem a Omdurman. Nesta manhã de domingo, muito cedo, acordo com o cântico do muezim a convidar à oração. Mais tarde, tocam os sinos da igreja copta para convidar os fiéis para a celebração do domingo. Levanto-me porque devo acompanhar um missionário veterano do Sudão para celebrar a missa numa capela distante deste centro. Assim começa uma nova etapa da minha vida, no Sudão, onde o Senhor me enviou. Ele guiará os meus passos no meio deste povo, a quem Deus ama e que também se tornará o meu povo.»
Este novo começo da «missão africana» de um jovem missionário remete-nos para todos os nossos confrades que, espalhados em muitas partes do mundo, testemunham o amor de Deus pela humanidade. O encontro dos membros do CG com cada um de vocês, nas visitas às províncias e nos diálogos pessoais, faz-nos tocar com as mãos como Deus continua a sua encarnação hoje entre os povos. A encarnação do Verbo, de facto, não é um evento isolado, circunscrito a um certo tempo e espaço da história. É um processo em contínuo desenvolvimento. A partir do momento em que o Verbo se fez carne, a partir do dia em que os anjos anunciaram esta alegre notícia, Deus continua a encarnar-se «hoje», como no princípio, de um modo surpreendente e único. A nós, que participamos deste evento, é pedida a mesma atitude dos pastores: a capacidade de nos surpreendermos e de nos maravilharmos, deixando que o Mistério nos envolva de Luz e a Palavra construa a sua casa em nós e no mundo.
«Hoje» é cada momento em que Deus se faz presente, o kairos que nos é oferecido e que devemos acolher com alegria, o dia em que «com efeito, se manifestou a graça de Deus» (Tito 2:11). «Hoje» é o tempo do recenseamento na época de César Augusto e também o tempo em que o povo de Israel esperava a realização das promessas de Deus. É o dia em que se constroem muros que nos dividem, mas também é o dia em que que tantas portas se abrem para a vida e para a esperança.
Ao tempo junta-se o espaço, o lugar onde Deus nos surpreende e que sempre será um lugar significativo para nós. Omdurman é como o ícone dos lugares de missão, lugares geográficos, antropológicos e culturais que Deus escolheu para nós. Lugares que serão sempre uma nova Belém, «casa do pão», onde Deus nos desconcerta e nos convida ao assombro. Belém é o lugar da graça, aquele em que nos encontramos e no qual somos convidados a receber o pão que nos é oferecido para partilhá-lo com todos. Não é por acaso que o lugar da encarnação de Deus se chama Belém.
Falar de tempo e de lugar significa falar de povos, culturas, situações concretas, onde cada um de nós se encontra a viver momentos de alegria e de tristeza, de esperança e de desilusão, de paz e de guerra. Estas situações são o dom de Deus que somos chamados a acolher com alegria e esperança, porque é aí que a Palavra se faz carne, que Deus se faz criança, que o primeiro se faz último. Ali todo o nosso ser se perturba e é chamado ao silêncio, respeito e contemplação: «Entrei, e embora o nascimento seja mais alegre que a morte, fiquei mais comovido que no Calvário ao pensar na complacência de um Deus que se humilhou até ao ponto de nascer num estábulo» (Escritos 111).
Com São Daniel Comboni somos convidados a contemplar o Menino, a comover-nos por este mistério e a maravilhar-nos com a ação de Deus no coração da humanidade.
No final deste ano de 2018, o CG agradece convosco ao Senhor pelos eventos vividos em conjunto este ano, como o percurso de Revisitação e Revisão da RV e a Assembleia Intercapitular. Ao mesmo tempo, deseja a todos um Santo Natal e um Ano Novo de 2019 cheio da presença do Menino de Belém que continuará a surpreender-nos nos caminhos da missão.
O Conselho Geral
Natal de 2018
Natal de Jesus: festa universal! - VOTOS DE UM SANTO NATAL
É um dado comum e evidente! A festa cristã que mais se
universalizou foi o Natal de Jesus.
Em todos os cantos da Terra, com maior ou menor ligação ao Acontecimento
que lhe deu origem, cada um celebra este dia como seu, assumindo, em cada
cultura, traços próprios e, por isso, diferentes, mas sempre expressando os
mais altos valores da condição humana, à medida das aspirações mais nobres do nosso
coração.
E, por muito que se diga, e no-lo queira fazer crer o que se
vê, não é possível reduzir esta Quadra ao mero consumismo de bens materiais e festas
rituais, porque este ideal, este sonho belo, inscrito no íntimo do nosso ser,
encontra a sua espantosa confirmação no mistério do Natal de Jesus! Há uma Luz,
intuída na fé e na esperança, que irrompe no meio das trevas da nossa
existência e nos faz compreender que, quanto maior for a escuridão dos nossos
medos e angústias, tanto mais intensamente brilhará para nós a beleza do seu
esplendor!
Temos, pois, motivos para fazer a festa, e cada um a vai
celebrar nos limites das suas possibilidades; não só porque há saúde e a vida corre
bem – contudo, se fosse apenas isto, um grande número de pessoas ficaria de
fora –, mas, principalmente, porque emerge das profundezas do nosso ser, essa
dimensão última onde habitamos pouco…, a convicção íntima e feliz que somos visitados
por um Mistério sublime de ternura e amor que resplandece no rosto de Jesus, o
filho de Maria.
Neste “filho que nos foi dado” (Is 9,6) se concentram todas
as promessas de Deus e todas as esperanças da Humanidade. Ele é o Emmanuel – o Deus
connosco – que nos visita na sua misericórdia infinita, revelando-nos os
segredos do coração do Pai, que gosta de estar e conversar com os seus filhos
(DV 21), para os convidar à comunhão com Ele.
Contemplar a sua presença entre nós e escutá-Lo, como no-lo
recomenda o Pai (Mt 17,5), fará toda a diferença nas nossas vidas, agora e
sempre…
Aos antigos alunos dos Seminários Portugueses, seus
familiares e amigos, desejamos Santas Festas Natalícias!
P. Armindo Janeiro
www.uasp.pt | Faceboock.com/uasp
terça-feira, 18 de dezembro de 2018
TUDO POR CAUSA DA ALEGRIA Frei Bento Domingues, O.P.
1. Não sei se
Bergoglio conhece a literatura portuguesa. Espero que Tolentino Mendonça não
deixe de lhe recomendar algumas leituras essenciais antes de voltar a Portugal,
pátria dos antepassados do argentino J. L. Borges. O Cardeal G. Ravasi, esse conhece,
de certeza, Fernando Pessoa. Não pode ignorar o sonho piedosamente blasfemo de
Alberto Caeiro. Este viu Jesus Cristo aproveitar o dia em que Deus estava a
dormir, o Espírito Santo andava a voar e a Virgem Maria a fazer meia, para
fugir do céu, onde tudo é convencional e aborrecido, e tornar-se outra vez
menino, uma criança tão humana que é divina, a Eterna Criança, o Deus que
faltava, que sorri e brinca, o Menino Jesus verdadeiro que veio viver para
aldeia com o nosso poeta.
Lembrei-me desse sonho ao ler a mensagem que o Papa
Francisco enviou ao referido Cardeal italiano, manifestando o seu agrado por verificar
que a eternidade, o outro lado da vida, tivesse sido escolhida para
tema da XXIII Sessão das Academias Pontifícias. Confesso que, no primeiro
momento, achei algo despropositada aquela mensagem. Terá a recitação dominical
do Credo, por milhões de fiéis, perdido a sua esperada eficácia? Será verdade
que, nos últimos tempos, a convicção central da fé cristã terá sido
negligenciada, tanto na investigação teológica como no anúncio e na
formação dos fiéis?[1].
Poderá a teologia universitária e dos seminários, a doutrina dos catecismos, da
pastoral e da nova evangelização esquecer-se do Céu?
A observação do Papa é, no entanto, mais do que um desabafo
de circunstância. Ele próprio colocou o dedo na ferida: «ao proclamar, hoje, essa verdade de fé,
ela pode parecer quase incompreensível e, às vezes, transmitir uma imagem pouco
positiva e "atraente” da vida eterna. O outro lado da vida
pode ser percebido como monótono e repetitivo, chato, triste ou totalmente
insignificante e irrelevante para o presente». Esta descrição papal não está
longe do sonho de Alberto Caeiro, heterónimo de F. Pessoa. Nem o menino Jesus
pode aguentar esse aborrecimento.
Muitas
das representações homiléticas e rituais acerca da vida eterna encenam uma eterna chatice e as especulações sobre a
visão beatífica são uma cegueira teológica. Só por medo do inferno se podia
suportar aquela interminável monotonia. O que mata a esperança de uma juventude
eternamente renovada, coração da fé cristã, é a lenga-lenga ritual dos funerais e das missas de corpo presente, do
sétimo dia, do trigésimo dia, etc.
As
preocupações farisaicas com a ortodoxia das fórmulas e dos gestos levam, muitas
vezes, a esquecer, nas horas enlutadas e dolorosas, a esperança da vida
exuberante sugerida pela simbólica da tradição cristã. A linguagem religiosa
não se destina a dar informações sobre as ocupações depois da morte, mas a
criar ilhas de resistência ao niilismo. É preciso ir até ao fim da noite para
encontrar outra aurora, escreveu Bernanos. Quem senão Deus nos poderá dar a mão?
A Palavra de Deus não é um som, mas a pura voz do amor que nos chama. É preciso
continuar a dizer e a cantar com frei José Augusto Mourão: Ao pé de Deus hei-de sempre viver, com Deus cheguei e com Ele vou
partir!
O Deus
escondido, da pura gratuidade, da infinita misericórdia, não pode ser profanado
pela ideia mundana da meritocracia e dos seus tribunais. Deus é servido ou
ofendido apenas pelas nossas atitudes quotidianas de serviço ou desprezo, em
relação aos que se encontram em necessidade[2].
2. Dada a descontinuidade entre a
linguagem dos rituais, que procuram mostrar que a morte não é a última palavra
sobre a vida humana, e os novos fenómenos culturais e sociais, como será
possível responder às preocupações manifestadas pelo Papa Francisco? Como
transmitir a certeza de que os mortos vivem hoje na memória viva e criadora de
Deus?
Importa, antes de mais, dar-se conta das dificuldades e
saber que não há soluções prontas a servir. Os teólogos, os catequistas, os
pregadores precisam de trabalhar com os praticantes das ciências humanas para
avaliar as atitudes, os gestos e a linguagem que configuraram as expressões
litúrgicas do passado e os caminhos para as alterações mais adequadas[3].
Tendo
isso em conta, é preciso não esquecer que o coração da fé cristã é irrigado pelo
desejo, alma da esperança. No fim da viagem Alguém, mais forte do que o abismo
da morte, nos acolherá. A megalomania do desejo é tão essencial ao psiquismo
humano que é dela que todas as outras faculdades recebem a energia. A missão
dos cristãos consiste em tornar a vida
eterna o horizonte mais desejado de tudo quanto vivemos e fazemos. Estamos
polarizados por novos céus e nova terra. O
olhar não vê, mas Deus transborda em tudo. Em Deus vivemos, nos movemos e
existimos em liberdade criadora, pois é falsa a rivalidade entre o humano e o
divino. Como diz Santo Agostinho, em Cristo, caminhamos no Caminho. Não há separação entre a viagem e o encontro com o infinito
do amor.
3. As celebrações do Advento vivem
da convicção de que não estamos condenados a repetir o passado. Quando os
costumes nos dizem que sempre assim foi,
é sinal de que já é tempo de mudar de rumo. Tudo o que vem nas
Escrituras cristãs, nos sacramentos, na liturgia, na pregação, na organização
da Igreja, é para que a nossa alegria
seja completa[4].
Esta afirmação, da 1ª Carta de João, devia ser o critério de avaliação dos
nossos investimentos vitais.
Conheço alguns testemunhos de cristãos, testemunhos de pura
fé, escritos pouco antes da morte, a serem lidos às famílias e aos amigos, para
lhes dizerem que não toquem a Finados. Já chegaram a Porto Seguro.
Escrevi este texto a pensar naqueles que, na noite de Natal,
vão sentir a falta de quem, nessa noite, esteve sempre à mesa, a trocar
presentes, alegrias e gargalhadas. Era a noite das boas memórias.
Pensando no que recebemos de Jesus Cristo, tenho de supor
que do Oriente e do Ocidente, do Norte e no Sul, de todos os tempos, de todas
as religiões e sem religião, cada um com os seus sonhos, ou sem sonhos nenhuns,
os que morreram apenas partiram e encontraram na memória e no coração de Deus a
mesa posta para a festa de todos. Nada menos é digno do ser humano e muito
menos da louca alegria de Deus de continuar a ver os seus filhos reunidos dos
dois lados da vida. Ele que é Deus dos vivos não da morte.
16. 12. 2018
[1]
Mensagem do Papa Francisco ao Cardeal G. Ravasi por ocasião da XXIII
sessão pública solene das Academias Pontifícias, 04. 12. 2018
[2] Mt 25
[3] Por analogia com o Baptismo e a
Eucaristia, cf. Joris Geldhof, Être et
devenir chrétien dans les cultures postmodernes, in «La Maison-Dieu», 278,
2014/2, 13-50 ; ver também Revue des
sciences philosophiques et théologiques 95, 2011,129-145.
[4]
1Jo 1, 1-4
segunda-feira, 17 de dezembro de 2018
PADRE EM GREVE - IGREJA FECHADA - Antonino Dias
Na Revista IHU on-line da página web do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, vem publicado, em 7 deste mês de dezembro, um artigo sob o título: Paróquia italiana anuncia que fechará no Natal: ''Jesus, migrante dos migrantes, foi rejeitado na nossa fronteira''. Aí se dá conta que o Pároco da Igreja de San Torpete, em Gênova, Itália, por “objeção de consciência”, irá fechar as portas da igreja desde o dia 24 de dezembro a 5 de janeiro de 2019. Para além da conivência dos cristãos num Natal sem Cristo, a causa última que lhe fez saltar a tampa foi o decreto do ministro do Interior italiano, sobre a questão migratória. O Pe. Paolo Farinella faz “greve” porque o governo e o Parlamento italianos, “no silêncio total dos católicos e dos cristãos, às vésperas do Natal, expulsa da Itália aquele Jesus de Nazaré do qual se gostaria de celebrar o nascimento”.
Depois de fazer o enquadramento histórico da paróquia, Farinella refere a paróquia de San Torpete como “um lugar de espiritualidade, de poesia, de cultura, de música e de política com o seu foco na Eucaristia dominical, frequentada por pessoas de outros bairros da cidade e de fora de Gênova”. Como “paróquia sem paroquianos”, San Torpete “tornou-se a paróquia da diáspora dos peregrinos nómadas”. E mais refere: “O Natal não é mais o Natal cristão: não é mais “memória” do nascimento de Jesus, mas um cínico fato comercial, misturado com ritos e liturgias repetitivos, “mercadorias à venda” no pagão “espírito de Natal”, sequestrado pelo mercado neocapitalista. Os católicos, de fato, não acreditam que o Natal seja a consciência da “proximidade de Deus” para construir uma nova humanidade universal. Eles se contentam, culpavelmente, com a fabulazinha inócua do presépio, que, entre gansos, animais, artesanatos, bonecos e mecanismos de engenharia hidráulica, faz do “mistério fundamental da fé cristã”, a Encarnação do Lógos-Verbum-Palavra, um instrumento de alienação em benefício de crianças e adultos infantis, que, embora batizados, só entram em uma igreja nessa ocasião. Turistas do religioso folclórico. O “clima de bondade” domina o tempo natalício, entre papais-noéis, bois, burros, bruxas e gaitas de foles, tanto que os jornais (como Il Secolo XIX do sábado, 1º de dezembro), falam de “espírito de Natal”, referindo-se às perspetivas de comércio e de vendas. O “mistério do Deus que vem” se reduz a uma religião civil e pagã, ocasião de circunstância da qual Deus é excluído e expulso. As luzes das ruas indicam as “lojas” como grutas de Belém, com os anjos adorando a mercadoria exposta à venda, marcada por uma estrela piscante. Os cristãos são cúmplices da degradação do Natal, porque a memória do nascimento de Jesus não tem nada a ver com esse Natal, transformado em saga camponesa de montanhas de presentes e presépios, enquanto, ao lado, “os pobres Cristos” morrem de fome e de frio no mar, nos bordéis da Líbia, pagos pela Itália, que fomenta as guerras com o imundo comércio de armas, do qual obtém lucros ilícitos. A comida é jogada fora, enquanto, nas mesmas ruas, “Jesus, o migrante dos migrantes”, morre de fome e de frio ao canto de “Tu scendi dalle stelle al freddo e al gelo” [Tu desces das estrelas ao frio e ao gelo”].
Em 2018, não se pode celebrar o Natal também por “objeção de consciência” ao Decreto-Lei n. 113/2018, despudoradamente conhecido como “decreto de segurança”, embora seja um decreto de insegurança máxima e de afronta aos valores e aos sentimentos mais profundos da Democracia e do Direito. Por trás de palavras bombásticas, confusas e imorais, esconde-se a vontade determinada de atacar “os Migrantes”, justamente às vésperas daquele Natal que celebra o nascimento de Jesus, migrante perseguido pela polícia de Herodes, que fugiu da perseguição, que foi acolhido no Egito e que voltou a se estabelecer em Nazaré, depois de uma viagem alucinante e perigosa através do deserto de Neguev. Tudo isso ocorre no silêncio cúmplice de um mundo católico que exalta um ministro que balança um presépio de plástico, que sacode um evangelho falso e ilude com o terço nas mãos, sem provocar um regurgito de vômito dos chamados católicos de salão. O Papa Francisco os chama de “cristãos de pastelaria”. Neste ano de 2018, se Jesus, com Maria e José, se apresentasse entre nós para celebrar o seu nascimento, com o decreto imundo de Salvini, ele seria detido na fronteira e enviado de volta por ser um migrante económico, por não ter uma permissão de residência e porque na Palestina há uma guerra “velha” desde 1948. Exaltando Salvini, homem inculto, sem qualquer senso do Estado e do Direito, os católicos são cúmplices de crimes de lesa humanidade e de “deicídio”, porque, cada vez que se comete um erro no plano do Direito contra a pessoa do pobre, faz-se isso diretamente contra Jesus na carne viva dos migrantes.
Com que direito cristãos podem pretender celebrar o Natal daquele Jesus que o seu país, sem qualquer resistência ou protesto deles, expulsa o Homem no Filho de Deus?
A poucos dias da aprovação dessa lei com o voto positivo do senhor [Luigi] Di Maio [vice-primeiro-ministro italiano], que se deixa fotografar ao beijar o sangue de São Januário (pobre dele!), como é possível abrir as igrejas e se entreter com canções de ninar, “Tu scendi dalle stelle”, cantos gregorianos, presépios infames, quando, do lado de fora, o verdadeiro Cristo é ofendido, torturado, estuprado, vilipendiado, vendido, esbofeteado, morto, como o “Homem das Dores” do profeta Isaías? (Is 53).
O “decreto Salvini” é inconstitucional, e “primeiro os italianos” é um opróbrio jurídico que rasga séculos de conquistas da civilização jurídica. Enquanto esperamos a decisão da Suprema Corte que não chegará antes de dois anos, o Direito definha, a Democracia está ferida, a Constituição, dilacerada, e os cristãos... não têm vergonha de assistir e de ser coniventes com esse massacre contra cada “homem que vem a este mundo”. Só nos resta assumir o único gesto de dignidade que sobrou: a nossa consciência oposta como bastião de objeção total com ato público, radical, disruptivo e inequívoco: a Igreja de San Torpete em Gênova ficará fechada, porque um Natal sem Cristo, um Natal sem Deus é um Natal sem Homem.
Que a igreja, fechada por fracasso, possa estimular o pensamento e a reflexão dos fiéis e daqueles que têm consciência de que o Natal é “Deus-connosco-Emmanuel”. As celebrações serão retomadas com a Epifania (6 de janeiro de 2019), a “manifestação do Senhor aos povos do mundo”, festa de universalidade sem fronteiras, realizada por “uma grande multidão, que ninguém podia contar: gente de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Ap 7, 9). Não celebrem o meu nascimento – diz Jesus – porque Eu-sou desde sempre. Em vez disso, celebrem o renascimento de vocês como criaturas novas: convertam-se e voltem ao Evangelho (Mc 1, 15)”.
……
Esta atitude sacode-nos, convida-nos a acordar. Também nós precisamos de nos centralizar no que é importante, tornando-nos mais fraternos e solidários. Não podemos ser coniventes na degradação do Natal do Senhor e na banalização das suas consequências, tanto na vida pessoal e familiar, como na vida profissional e social!...
Depois de fazer o enquadramento histórico da paróquia, Farinella refere a paróquia de San Torpete como “um lugar de espiritualidade, de poesia, de cultura, de música e de política com o seu foco na Eucaristia dominical, frequentada por pessoas de outros bairros da cidade e de fora de Gênova”. Como “paróquia sem paroquianos”, San Torpete “tornou-se a paróquia da diáspora dos peregrinos nómadas”. E mais refere: “O Natal não é mais o Natal cristão: não é mais “memória” do nascimento de Jesus, mas um cínico fato comercial, misturado com ritos e liturgias repetitivos, “mercadorias à venda” no pagão “espírito de Natal”, sequestrado pelo mercado neocapitalista. Os católicos, de fato, não acreditam que o Natal seja a consciência da “proximidade de Deus” para construir uma nova humanidade universal. Eles se contentam, culpavelmente, com a fabulazinha inócua do presépio, que, entre gansos, animais, artesanatos, bonecos e mecanismos de engenharia hidráulica, faz do “mistério fundamental da fé cristã”, a Encarnação do Lógos-Verbum-Palavra, um instrumento de alienação em benefício de crianças e adultos infantis, que, embora batizados, só entram em uma igreja nessa ocasião. Turistas do religioso folclórico. O “clima de bondade” domina o tempo natalício, entre papais-noéis, bois, burros, bruxas e gaitas de foles, tanto que os jornais (como Il Secolo XIX do sábado, 1º de dezembro), falam de “espírito de Natal”, referindo-se às perspetivas de comércio e de vendas. O “mistério do Deus que vem” se reduz a uma religião civil e pagã, ocasião de circunstância da qual Deus é excluído e expulso. As luzes das ruas indicam as “lojas” como grutas de Belém, com os anjos adorando a mercadoria exposta à venda, marcada por uma estrela piscante. Os cristãos são cúmplices da degradação do Natal, porque a memória do nascimento de Jesus não tem nada a ver com esse Natal, transformado em saga camponesa de montanhas de presentes e presépios, enquanto, ao lado, “os pobres Cristos” morrem de fome e de frio no mar, nos bordéis da Líbia, pagos pela Itália, que fomenta as guerras com o imundo comércio de armas, do qual obtém lucros ilícitos. A comida é jogada fora, enquanto, nas mesmas ruas, “Jesus, o migrante dos migrantes”, morre de fome e de frio ao canto de “Tu scendi dalle stelle al freddo e al gelo” [Tu desces das estrelas ao frio e ao gelo”].
Em 2018, não se pode celebrar o Natal também por “objeção de consciência” ao Decreto-Lei n. 113/2018, despudoradamente conhecido como “decreto de segurança”, embora seja um decreto de insegurança máxima e de afronta aos valores e aos sentimentos mais profundos da Democracia e do Direito. Por trás de palavras bombásticas, confusas e imorais, esconde-se a vontade determinada de atacar “os Migrantes”, justamente às vésperas daquele Natal que celebra o nascimento de Jesus, migrante perseguido pela polícia de Herodes, que fugiu da perseguição, que foi acolhido no Egito e que voltou a se estabelecer em Nazaré, depois de uma viagem alucinante e perigosa através do deserto de Neguev. Tudo isso ocorre no silêncio cúmplice de um mundo católico que exalta um ministro que balança um presépio de plástico, que sacode um evangelho falso e ilude com o terço nas mãos, sem provocar um regurgito de vômito dos chamados católicos de salão. O Papa Francisco os chama de “cristãos de pastelaria”. Neste ano de 2018, se Jesus, com Maria e José, se apresentasse entre nós para celebrar o seu nascimento, com o decreto imundo de Salvini, ele seria detido na fronteira e enviado de volta por ser um migrante económico, por não ter uma permissão de residência e porque na Palestina há uma guerra “velha” desde 1948. Exaltando Salvini, homem inculto, sem qualquer senso do Estado e do Direito, os católicos são cúmplices de crimes de lesa humanidade e de “deicídio”, porque, cada vez que se comete um erro no plano do Direito contra a pessoa do pobre, faz-se isso diretamente contra Jesus na carne viva dos migrantes.
Com que direito cristãos podem pretender celebrar o Natal daquele Jesus que o seu país, sem qualquer resistência ou protesto deles, expulsa o Homem no Filho de Deus?
A poucos dias da aprovação dessa lei com o voto positivo do senhor [Luigi] Di Maio [vice-primeiro-ministro italiano], que se deixa fotografar ao beijar o sangue de São Januário (pobre dele!), como é possível abrir as igrejas e se entreter com canções de ninar, “Tu scendi dalle stelle”, cantos gregorianos, presépios infames, quando, do lado de fora, o verdadeiro Cristo é ofendido, torturado, estuprado, vilipendiado, vendido, esbofeteado, morto, como o “Homem das Dores” do profeta Isaías? (Is 53).
O “decreto Salvini” é inconstitucional, e “primeiro os italianos” é um opróbrio jurídico que rasga séculos de conquistas da civilização jurídica. Enquanto esperamos a decisão da Suprema Corte que não chegará antes de dois anos, o Direito definha, a Democracia está ferida, a Constituição, dilacerada, e os cristãos... não têm vergonha de assistir e de ser coniventes com esse massacre contra cada “homem que vem a este mundo”. Só nos resta assumir o único gesto de dignidade que sobrou: a nossa consciência oposta como bastião de objeção total com ato público, radical, disruptivo e inequívoco: a Igreja de San Torpete em Gênova ficará fechada, porque um Natal sem Cristo, um Natal sem Deus é um Natal sem Homem.
Que a igreja, fechada por fracasso, possa estimular o pensamento e a reflexão dos fiéis e daqueles que têm consciência de que o Natal é “Deus-connosco-Emmanuel”. As celebrações serão retomadas com a Epifania (6 de janeiro de 2019), a “manifestação do Senhor aos povos do mundo”, festa de universalidade sem fronteiras, realizada por “uma grande multidão, que ninguém podia contar: gente de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Ap 7, 9). Não celebrem o meu nascimento – diz Jesus – porque Eu-sou desde sempre. Em vez disso, celebrem o renascimento de vocês como criaturas novas: convertam-se e voltem ao Evangelho (Mc 1, 15)”.
……
Esta atitude sacode-nos, convida-nos a acordar. Também nós precisamos de nos centralizar no que é importante, tornando-nos mais fraternos e solidários. Não podemos ser coniventes na degradação do Natal do Senhor e na banalização das suas consequências, tanto na vida pessoal e familiar, como na vida profissional e social!...
Antonino Dias
Portalegre-Castelo Branco, 14-12-2018.
Portalegre-Castelo Branco, 14-12-2018.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2018
Fé em Deus move médico que faz mil cirurgias por ano no Sudão 13 de Dezembro de 2018
Tom Catena foi eleito “médico do ano” nos Estados Unidos, mas trabalha há uma década em Nuba (Sudão), onde atende em média 400 doentes por dia e faz mil cirurgias por ano. À Renascença diz que não se sente “um herói”, que é “a fé em Deus” que o move, e que se algum mérito os prémios que já ganhou têm, será o de chamar a atenção para o sofrimento do povo sudanês, que não pode continuar a ser ignorado.
“Como médico quero estar onde seja mesmo preciso, e no Sudão, em especial nas montanhas de Nuba, não havia um único médico para uma população de mais de um milhão de pessoas. Por isso foi uma grande oportunidade de trabalhar numa área onde fazia mesmo falta a minha ajuda”, conta à Renascença, acrescentando que como missionário católico esta também foi uma “escolha lógica”, porque “Cristo diz-nos para ajudarmos os irmãos e irmãs, portanto foi um chamamento muito direto o que senti”.
Enviado para o Sudão pela «Missão Médica Católica» americana, Tom Catena diz que a fé em Deus tem “muita importância” na sua vida. “Foi a fé que me empurrou para ir para as montanhas de Nuba e é a fé que me tem mantido lá. Sem isso acho que não conseguiria ficar 10 anos e querer continuar”. Até porque, apesar do trabalho ser “muito desafiante”, há “muita frustração por todas as coisas que acontecem”.
Em Nuba estão irmãs combonianas e alguns, poucos, sacerdotes dos Apóstolos de Jesus, uma congregação criada por padres combonianos no Quénia, onde Tom Catena também fez missão em 1992. No hospital uma das enfermeiras que colabora consigo é uma religiosa queniana.
O padre José Vieira, dos missionários combonianos, conheceu Tom Catena quando ainda estava no Sudão, e chegou a entrevistá-lo para a rede de rádio católicas que fundou naquele país.
A entrevista é de Ângela Roque, publicada pela Rádio renascença.
Subscrever:
Mensagens (Atom)


