terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Comboniano retorna para Missão no Congo aos 80 anos - Pe. Lorenzo Farronato

...Tentei dar sentido à minha vida e despertar o anseio por Deus ao tornar o evangelho conhecido. Embora tenha tentado fazer o melhor possível, Jesus me ensina a dizer: “Sou um servo inútil, me coloco nas mãos de seu amor misericordioso. Eu confio em ti!”...
...Agora volto feliz à minha missão ao serviço dos últimos...

O que a Igreja «mostra» e o que a Igreja «é» - João Teixeira - DM

1.Numa altura em que a Igreja se sobressalta com o
que «mostra», é imperioso recordar o que – efectivamente
– a Igreja «é».
Importa, pois, dizer bem alto que, embora nem
sempre o «mostre», a Igreja «é» santa.
2. A Igreja «é» santa porque é o inteiro Corpo de Cristo (cf.
1Cor 12, 12-13).
A santidade vem-lhe da sua cabeça. Mas o pecado subsiste
em muitos dos seus (outros) membros.
3. Porque é que os pecadores se mantêm na Igreja? Precisamente
para vencer o pecado.
Conscientes de que por si nada alcançam (cf. Jo 15, 5), alenta-
os saber que em Cristo tudo conseguirão (cf. Fil 4, 13).
4. Acontece que este não é um processo linear: envolve
avanços e recuos, com muitas lutas e quedas, tentações, tentativas
e constantes recomeços.
A Igreja nunca deixará de «ser» santa. Mas «com» pecadores.
5. Angel Antón percebeu que a Igreja «é uma “cópia” do
original Cristo».
Só que é uma «cópia» nem sempre transparente. Muitas
vezes, torna-se uma «cópia» tremida e embaciada, que mal
deixa ver o «original Cristo».
6. Perguntar-se-á. Como é que o Corpo de Cristo pode estar
«forrado» com um «tecido» tão grosseiro?
Sucede que nem o pecado dos seus membros impede que
a cabeça derrame fluxos infindáveis de santidade. Com todas
as fragilidades que a debilitam, a Igreja será sempre a
«sala» em que o Pai celebra os esponsais do Seu Filho com a
humanidade.
7. Todos são convidados já que, à partida, a Igreja não desiste
de ninguém.
Como sinalizou Henri de Lubac, ela «não é uma academia
de sábios, nem um cenáculo de intelectuais sublimes, nem
uma assembleia de super-homens». Há toda uma «legião de
medíocres que se sentem nela como em própria casa».
8. Neste mundo, ela será sempre «trigo misturado com palha
» e «barca repleta de maus passageiros que parecem arrastá-
la para o naufrágio».
Como rezava uma conhecida máxima de Santo Ambrósio,
a Igreja é «imaculada, mas composta por maculados» («immaculata
ex maculatis»).
9. Faz parte da sua natureza estar exposta, não lhe sendo
permitido ocultar as suas fraquezas.
Há comportamentos que ela não aceita e atitudes com as
quais não pode transigir.
10. A Igreja coexistirá sempre com o pecado, mas sem jamais
lhe render vassalagem.
O perigo de cair nunca deixará de espreitar. E, no entanto, ela «é» santa!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

OS OUTROS ESTÃO A MAIS? (2) Frei Bento Domingues, O.P.


1. A fonte da realidade, una e múltipla, é sempre oculta para quem olha de fora. É da experiência mais imediata que há outros e outros. Uns são acolhidos, outros são rejeitados e outros ainda são vistos com indiferença pelos nossos afectos e comportamentos. Por pouco que se aprofunde, cada ser humano é um abismo misterioso.

Quando falamos dos direitos e deveres humanos, enunciamos um reconhecimento e uma vontade que mais parecem uma veleidade do que uma energia de acção. Quando invocamos a fraternidade humana designamos apenas um horizonte e um desejo. Se desistíssemos desse horizonte, teríamos de responder a uma pergunta inquietante: quem tem direito a excluir os outros da condição comum? A pena de morte, por exemplo, significa um poder absoluto sobre o outro, em nome de quê?

Que fazer para alterar aquilo que ofende a condição humana? É uma pergunta imensa, mas não nos impede de recordar coisas muito básicas. Parece evidente que existe, na consciência, a noção de bem e de mal. O bem deve-se praticar e o mal deve-se evitar. Diz-se que no concreto das tradições culturais e éticas, muitas vezes, aquilo a que uns chamam bem outros chamam mal. Mas não exageremos. Não pode ser uma apologia do relativismo: se vale tudo, nada vale!

As sabedorias antigas da reciprocidade pediam: não faças aos outros o que não desejas que os outros te façam a ti; ou de forma positiva, faz aos outros o que desejas que os outros te façam a ti.

Essas generalidades não servem para construir uma articulação concreta de direitos e deveres que tornem possível a vida em sociedade. Pertence às normas fundamentadas do Direito e aos diferentes órgãos legítimos do poder a busca da sabedoria e da arte de governar para evitar a tirania e a desordem.

2. Estas abstracções não movem montanhas. As religiões não aparecem sempre, nos grandes meios de comunicação social, pelos melhores motivos e com a melhor imagem. Umas vezes com muita razão e outras por má-fé, as religiões são acusadas de todos os males. Jesus Cristo, o homem da intimidade com o divino e com o humano, era um crítico de certas formas e instituições religiosas, a começar por aquelas em que foi iniciado. Parece que nunca lhe passou pela cabeça que esse mundo tivesse caído do céu com as normas e os interditos prontinhos a servir. Sabia distinguir o que era digno de Deus e do ser humano, daquilo que era fruto da construção histórica dos interesses do nacionalismo, dos grupos, das pessoas e do que, abusivamente, era atribuído à divindade.

O diálogo inter-religioso, para ser eficaz, exige que os intervenientes consintam em pôr em causa aquilo que estragou o melhor das suas tradições. Não se pode assemelhar a uma falsa e ridícula passagem de modelos de virtude.

No dia 4 de Fevereiro deste ano, no Founder’s Memorial, em Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos), o Papa Francisco e o Grande Imã da Mesquita de Al-Azhar (Cairo – Egipto), Ahmed Mohamed El-Tayeb, considerado como a autoridade máxima no mundo muçulmano sunita, assinaram o Documento sobre a fraternidade humana em prol da paz mundial e da convivência comum[1].

Importa destacar que vários líderes muçulmanos europeus já apoiaram a declaração de Abu Dhabi. A posição conjunta assume a Declaração como um documento-guia «para as gerações futuras promoverem uma cultura de respeito mútuo na consciência»[2]

É fundamental que os cristãos e os muçulmanos compreendam a importância do caminho que foi aberto em Abu Dhabi. É o gesto religioso, cultural e político mais importante, não apenas do começo do séc. XXI, mas desde há muitos séculos. As personalidades que assinaram o histórico documento não procuram defender as respectivas instituições religiosas. Estão a envolver as duas grandes religiões em prol do bem de toda a humanidade. A declaração é fundamentada na fé das duas configurações, mas é uma fé carregada com o empenhamento de cuidar da Casa Comum e de todas as pessoas da humanidade.

 «A fé leva o crente a ver no outro um irmão que se deve apoiar e amar. Da fé em Deus, que criou o universo, as criaturas e todos os seres humanos – iguais pela Sua Misericórdia –, o crente é chamado a expressar esta fraternidade humana, salvaguardando a criação e todo o universo, apoiando todas as pessoas, especialmente as mais necessitadas e pobres.

Partindo deste valor transcendente, em vários encontros dominados por uma atmosfera de fraternidade e amizade, compartilhámos as alegrias, as tristezas e os problemas do mundo contemporâneo, a nível do progresso científico e técnico, das conquistas terapêuticas, da era digital, dos mass-media, das comunicações; a nível da pobreza, das guerras e das aflições de tantos irmãos e irmãs, em diferentes partes do mundo, por causa da corrida às armas, das injustiças sociais, da corrupção, das desigualdades, da degradação moral, do terrorismo, da discriminação, do extremismo e de muitos outros motivos.

De tais fraternas e sinceras acareações que tivemos e do encontro cheio de esperança num futuro luminoso para todos os seres humanos, nasceu a ideia deste “Documento sobre a Fraternidade Humana”. Um documento pensado com sinceridade e seriedade para ser uma declaração conjunta de boas e leais vontades, capaz de convidar todas as pessoas, que trazem no coração a fé em Deus e a fé na fraternidade humana, a unirem-se e trabalharem em conjunto, de modo que tal documento se torne, para as novas gerações, um guia rumo à cultura do respeito mútuo, na compreensão da grande graça divina que torna irmãos todos os seres humanos».

3. Na mesma altura, o Papa Francisco fez um discurso notável[3], de que destaco um ponto: Se acreditamos na existência da família humana, esta deve ser salvaguardada. Consegue-se através dum diálogo diário e efectivo. Pressupõe a própria identidade, da qual não se deve abdicar para agradar ao outro; mas, ao mesmo tempo, requer a coragem da alteridade. Supõe o pleno reconhecimento do outro, da sua liberdade e impõe-me o compromisso de tudo fazer para que os seus direitos fundamentais sejam sempre respeitados, em toda parte e por quem quer que seja. Sem liberdade, não se é filho da família humana, mas escravo. Entre as liberdades, o Papa salienta a liberdade religiosa. Esta não se limita à mera liberdade de culto, mas vê no outro verdadeiramente um irmão, um filho da mesma humanidade, que Deus deixa livre e, por conseguinte, nenhuma instituição humana pode forçar, nem mesmo em nome d’Ele.

Isto não se ouve muitas vezes.

24.02.2019



[2] 7Margens, jornal digital, 2019.02.17
[3] Deus está com o homem que procura a paz, http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2019/february/documents/papa-francesco_20190204_emiratiarabi-incontrointerreligioso.html

domingo, 17 de fevereiro de 2019

OS OUTROS ESTÃO A MAIS? (1) Frei Bento Domingues, O.P.


1. Nietzsche (1844-1900), um dos primeiros filósofos que estudei, é uma figura de contrastes desmedidos. Tem tanto de visionário fascinante como de classificador irritante. Disse o pior do Sermão da Montanha, uma das peças mais belas e revolucionárias do Novo Testamento[1], proposto, hoje, como desafio às comunidades eucarísticas. Classificou-o como um atentado contra a natureza: a vida acaba quando começa o Reino de Deus e a prática da Igreja aí está para o confirmar[2].

Deixemos, para já, o sermão de Nietzsche, sermão da morte de Deus em nome da exaltação da vida e do Super- Homem, aproveitado pelos nazis para a glorificação do crime nacionalista, anti-semita e racista.

 No entanto, as religiões estão em maus lençóis por razões mais óbvias e imediatas. A embriaguez criada pelas revoluções, agrícola, científica, industrial e cultural ainda não serenou. Tornou-se mais aguda. Entrou em delírio. O império da tecnociência em todos os domínios e, agora, as promessas do reino prometido da inteligência artificial, nas suas infindáveis aplicações, estariam a deixar Deus cada vez mais desempregado. Por outro lado, diz-se que a extensão da robótica se encarregará de dispensar aqueles que a criaram. Depois da morte de Deus viria, não a emancipação, mas a morte do ser humano. Já há muito tempo que desconfio de tanta promessa e de tanta ameaça.

Yuval Noah Harari escreveu um livro sedutor[3]. Termina o posfácio de um modo pouco entusiasmante: «Estamos mais poderosos do que alguma vez estivemos, mas não fazemos a mínima ideia do que fazer com todo esse poder. Mas pior ainda é que os humanos parecem mais irresponsáveis do que nunca. Deuses autoproclamados, com apenas as leis da física para nos fazerem companhia, não somos responsabilizados por ninguém. Estamos, assim, a espalhar o caos sobre os nossos companheiros animais e o ecossistema envolvente, em busca de pouco mais do que o nosso próprio conforto e divertimento, sem, no entanto, nos darmos por satisfeitos».

Estar insatisfeito é a maior graça humana. Significa que o ser humano ainda não está acabado. Mas pergunta o citado autor: «Existirá algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem?»

2. Há várias formulações para esses entusiasmos e medos. Nesse primeiro ponto, fica a ideia de uma rivalidade radical entre Deus e o ser humano. Antigamente, essa rivalidade tinha a formulação de uma espiritualidade conflitual: se damos muito a Deus, tiramos ao ser humano; se damos muito ao ser humano, roubamos a Deus. Esta forma de falar de Deus nada tem a ver com a que S. Paulo descobriu em poetas gentios: na divindade temos a vida, o movimento e o ser[4]. Nessa perspectiva, os dois entendem-se bem: um recebe o outro como pura graça existencial. Não há clima para um antagonismo entre as descobertas e criações humanas e a presença divina vivificante. Estão mutuamente implicados com regozijo recíproco. Ao pensar num, surge a apreciada diferença do outro.

A persistência da ideia de rivalidade tem razões históricas bem documentadas, resultado de uma antropologia e de uma teologia que não podiam conviver. A beleza da própria ética de que fala o Génesis[5]não vale tudo – é diabolicamente interpretada como a ordem de um deus assustado com o alargamento da ciência humana. É o índice de uma persistente e falsa rivalidade entre o divino e o humano. Não são capazes de viver na alegria recíproca.

Com a simbólica narrativa da morte de Abel pela inveja do seu irmão Caim alarga-se o mito da rivalidade. Este mundo, na diferença humana, é de todos e para todos, de todos os povos e culturas, é a vocação de irmãos. Não há duas humanidades, a nossa e a dos outros! A ficção narrada pretende mostrar que uns são de Deus e outros do diabo. O outro, se não nos ajudar, é o nosso inferno que é preciso destruir.

Nessa concepção não há lugar para todos. Ao falar de Abel e Caim como irmãos, o conto fratricida do Génesis não perdeu actualidade. O mundo de hoje é completamente diferente daquela sociedade de pastores e agricultores, mas a tentação de julgar que este mundo não dá para todos é a mesma.

Os avanços científicos e técnicos dos últimos tempos conseguiram resultados espectaculares em todos os âmbitos do progresso aplicável ao ser humano e ao seu ambiente. Apesar dos conflitos locais e globais, de guerras declaradas e latentes, seria ridículo não reconhecer os avanços espectaculares alcançados.

Existe um pequenino senão: as desigualdades entre países e continentes, e dentro de muitos países, acentuaram-se. Não se pensa na arte de construir pontes entre os seres humanos, mas no dinheiro que é preciso para levantar muros físicos ou simbólicos. O destino universal de todos os bens do planeta é uma afirmação de generosidade.

Entretanto, as vítimas das guerras, da pobreza imposta, da miséria e das doenças que provoca, não manifestam grande vontade de filosofar ou de fazer exercícios de espiritualidade zen.

As obras que se escreveram e escrevem a anunciar as datas do fim da pobreza imposta, com certo aparato científico, parecem seguir a lógicas das Testemunhas de Jeová a anunciar o fim do mundo.

Como apontámos, as estatísticas vão mostrando avanços e recuos, segundo os países e os continentes, das medidas para erradicar essa vergonha. As estatísticas não podem contabilizar os pobres que vão tendo a morte, antes de tempo, como solução.

Para além disto, as desigualdades entre ricos e pobres acentuam-se. A distância entre o que certas pessoas ganham e o mínimo que outras conseguem para sobreviver, no seu dia-a-dia, poderia ser um pecado que bradaria aos céus se neles acreditassem.

Consta que existe uma espiritualidade para consumidores neoliberais. Diz-se que os seus exercícios espirituais são engenhosos. Usam receitas de marca individualista/consumista, corporativa/capitalista.

A homilia que o Papa Francisco fez em Abu Dhabi diz que há outras formas de ser feliz. São paradoxais como as do Evangelho, mas nunca tornaram ninguém desgraçado. Assinou com o Grão Imame de Al-Azhar um notável documento sobre a Fraternidade Humana.

Que fazer para o não deixar nos arquivos religiosos?

Fica para a próxima crónica.

17.02.2019



[1] Lc 6, 17-26; Mt 5, 1-12 (ver os contrastes entre as duas versões)
[2] A moral como contra-natureza, in Nietzsche. O Crepúsculo dos Ídolos, Prisa Innova, 2008, 511-518
[3] Sapiens. De Animais a Deuses. História Breve da Humanidade, Elsinore, uma chancela da 20/20 Editora, 2018. Depois deste já saiu o Homo Deus. História Breve do Amanhã.
[4] Actos 17, 27-28
[5] Gn 3

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

NÃO NOS PREOCUPEMOS COM OS ANJOS Frei B D, O.P.


1. Não escolhemos as perguntas que nos fazem. Na semana passada, uma senhora muito idosa perguntou-me aflita: os anjos existem ou não? Toda a vida rezei ao meu anjo da guarda, mas a minha neta disse-me que, agora, já nem os padres acreditam nisso.

Deduzi que não era a sua crença que estava abalada, mas a dificuldade em transmiti-la à nova geração. Não vem ao caso a conversa que tivemos. O imaginário da luta entre os anjos bons a quererem salvar as nossas almas e os demónios a fazerem tudo para nos perderem era a representação religiosa da nossa infância. Lembrei-lhe que, na Eucaristia, o louvor divino é sempre associado à música dos anjos e dos santos!

  Quando a ansiedade serenou, lembrei-lhe duas histórias que me divertiram. Em 1961, à saída de Liège, à espera de uma boleia para Colónia, li, no Assimile de alemão, que um pároco pediu a um pintor que enchesse de anjos as paredes de uma capela recém-construída. Quando foi ver as pinturas ficou irritado: quando é que se viram anjos com tamancos? O pintor observou-lhe: e sem tamancos?

Em 1962, era assistente da Juventude da Igreja de Cristo Rei (Porto) – a primeira associação católica mista de jovens, em Portugal – quando um rapaz interessado por teologia veio dizer-me que tinha descoberto as razões do mundo andar tão desorientado. Os Anjos não se reproduzem e os seres humanos são cada vez mais. Resultado: há muita gente sem anjo da guarda!

Os meus anjos preferidos são as criaturas da pura beleza de Fra Angélico, mas há dias, numa celebração da Eucaristia, deparei com uma passagem da Carta aos Hebreus que desloca todas as preocupações com a angelolatria. Reza assim: «Uma vez que os filhos dos homens têm o mesmo sangue e a mesma carne, também Jesus participou igualmente da mesma natureza para destruir, pela sua morte, aquele que tinha poder sobre a morte, isto é, o diabo, e libertar aqueles que estavam a vida inteira sujeitos à servidão, pelo temor da morte. Porque Ele não veio em auxílio dos anjos, mas dos descendentes de Abraão. Por isso, devia tornar-se semelhante, em tudo, aos seus irmãos, para ser um sumo sacerdote misericordioso e fiel no serviço de Deus e assim expiar os pecados do povo. De facto, porque Ele próprio foi provado pelo sofrimento, pode socorrer aqueles que sofrem de provação»[1].

S. Paulo, na Missa deste Domingo, lembra-nos que, pela ressurreição, Jesus venceu a morte. É esse o Evangelho que ele anuncia, fonte de toda a esperança. Não tem explicação para o facto. Usa analogias para dizer que essa Fé está em consonância com os ritmos da natureza. É anti niilista. Por isso, exclama: morte, onde está tua vitória?[2].

O prefácio da impropriamente dita Missa de defuntos é de uma beleza extraordinária: a vida não acaba, apenas se transforma.

2. O medo da morte é absolutamente natural. Há muitos anos que administro a santa unção e celebro missas ditas de corpo presente e de funeral. Lamento vários aspectos do ritual e sobretudo as celebrações nas capelas mortuárias, mas mais ainda os funerais transformados numa competição comercial.

O que me espanta é a recusa de não se fazer ritual nenhum, sejam de crentes ou descrentes. Se fosse o fim de tudo, não tinha sentido qualquer celebração. Morreu, acabou. Usamos uma linguagem simbólica e rituais para evocar o que não podemos descrever. Ninguém sabe nada do que acontece depois da morte. Esquecemos que sabemos pouco do que é mais importante antes da morte. A vida! O mais significativo escapa à linguagem factual e à das ciências. Como disse Nélida Piñon, «tudo o que preside ao humano provém do mistério. Amor, vida, morte, nada disto se explica. O mistério é puro encanto. (…). O que me define talvez seja a teologia do mistério, sim. O mistério roça em Deus, no pecado, em tudo. Não sabemos o que é, sei que somos filhos dele. Deus está sempre presente na minha vida, mas sem questionamentos. Não batalhamos. Deus foi um senhor maravilhoso, gentil, que não me incomodou, porque desde cedo descobri, como Dostoiévski, o peso da consciência. (…). Estive atenta, enquanto pude, aos mistérios da fé. Sorri e chorei diante das adversidades. Amei e fui amada. Deixei que Deus pousasse no meu regaço. Resta-me agora dizer Amém»[3].

3. Precisamos de anjos e de muitos. Acerca das referências do Novo Testamento (NT) recomendo o exegeta Xavier Léon-Dufour[4]. Não são essas referências, essenciais, que importa convocar para esta crónica. Os anjos são mensageiros de boas notícias, mensageiros de esperança.

Foi para mim um anjo! São muitas as pessoas, todos conhecem algumas, a quem apetece dizer esta bendita oração. Muitas famílias têm doentes em casa, que só elas conhecem. Mas nos hospitais, nos lares de idosos, nas cadeias, debaixo das pontes, sem abrigo, sem amigos, imigrantes, mutilados da guerra existem mundos que precisam de quem lhes acuda. De facto, existe também um mundo dos que visitam, atendem, sorriem, ajudam, socorrem pela única razão que essas pessoas precisam. Não fazem propaganda, não aparecem nos meios de comunicação nem nas redes sociais. Não são condecorados. São os anjos da música silenciosa da pura gratuidade.

Essas pessoas, com ou sem referências aos textos NT, seguem a ordem de Jesus: não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita[5]. A nossa vocação humana e divina é a de sermos anjos uns dos outros, mas sem esquecer o aviso do Mestre.

A publicidade, mesmo a do bem, pode não ser um apelo à generosidade de todos, mas apenas um grande negócio da vaidade e do lucro. Uma coisa é o método de envolver cada vez mais pessoas na prática gratuita da generosidade criativa, outra é a táctica hipócrita da autopromoção em nome da virtude.

Não é por acaso que a Bíblia fala de anjos bons e anjos maus.

10.02.19.



[1] Hb 2, 14-18
[2] Cor 1Cor 15,1-11
[3] Nélida Piñon, A vida e a literatura, in JL, págs. 14-18
[4] Cf. Dictionnaire du Nouveau Testament, Seuil, 1975, entrada Anje
[5] Mt.6, 3-4

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

P. Jeremias e P. Alcides visitam comunidades no Quénia

Desde o dia 15 de janeiro que a província do Quénia recebe a visita oficial do P. Jeremias dos Santos Martins, vigário geral dos Combonianos. No dia 1 de fevereiro, o P. Alcides da Costa, assistente geral, juntou-se ao P. Jeremias, para ambos prosseguirem a visita, agora já na área de Nairobi, capital do país.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

1."O acesso à experiência da fé, hoje!”. V FORUM - uaasp

O Acesso à Experiência da Fé, hoje!
Dificuldades e oportunidades que a cultura actual oferece na comunicação da Fé
José Milhazes

Caros amigos, penso que o desafio que me foi feito para falar de tão altas matérias deveria ser dirigido a outras pessoas melhor preparadas do que eu. Por isso, perdoem-me se ficar aquém das expectativas criadas. Gostaria de iniciar a minha intervenção não pelas dificuldades, mas pelas oportunidades que a cultura actual oferece na comunicação da Fé. Será uma banalidade afirmar que as novas tecnologias de informação e a globalização criaram possibilidades nunca vistas. Basta ter um computador em casa ou na escola ligado à Internet para aceder a um mundo a que eu chegava com enorme dificuldade e atraso quando comecei a minha carreira de jornalista em 1989, para já não falar quando estudava no Seminário dos Combonianos. Daí eu me debruçar inicialmente sobre as oportunidades que a Cultura, através de meios tecnológicos e humanos, oferece na comunicação da Fé. Além do mais, as manifestações e variedades de Cultura multiplicam-se com uma rapidez nunca vista, fruto também da veloz evolução tecnológica e humana. O principal problema continua a ser tão antigo como a Cultura: a sua definição e formas de manifestação. Iúri Lotman, um dos pais da Semiótica, definia assim a Cultura: “Conjunto de informação geneticamente não herdada no campo do comportamento humano”, ou seja, aquilo que tem como raiz a espiritualidade do homem, a forma como ele olha para o mundo cujas folhas e frutos são a Cultura. Para mim, pessoalmente, e penso que para muitos de vós, nem tudo o que é apresentado como Cultura o é, por muito popular que possa ser. É minha opinião que a Cultura deve ter por objectivo o aperfeiçoamento da Humanidade e, por isso, é uma via importante para se chegar à Fé. Aliás, quanto mais culta for a base da Fé, mais sólida é esta. Mas outro problema com que nos defrontamos é que, no momento actual, vive-se uma profunda crise tanto na Cultura como na Fé. E isto tem várias explicações. A qualidade da Cultura é cada vez mais relativa e a Fé, pelo menos no mundo ocidental, parece ser cada vez mais um fenómeno exótico, raro. E isto, frequentemente, deve-se ao facto de tentarem fazer da Cultura um instrumento de combate à Fé, considerando esta uma espécie de obscurantismo. Parece impossível, mas é verdade, que em Portugal não exista um “Museu dos Descobrimentos”. Porquê? Porque minorias agressivas, mas fortemente posicionadas, por exemplo, no nosso Ensino Superior, acham que afinal esse passo civilizacional dado pelos portugueses não o merece. Retire-se já o monumento ao Padre António Vieira em Lisboa, devido ao seu “esclavagismo selectivo”, mas já não protestam contra culpados pela morte de dezenas de milhões de pessoas, como Lenine, Trotski, Estaline, Mao ou Fidel Castro. Pelo contrário, baseando-se na sua fé inabalável, pedem ao povo que os deixem fazer, mais uma vez, experiências desse tipo, prometendo utilizar outros métodos e evitar “danos colaterais”.

Vivemos numa época em que velhas utopias malditas pareciam ter passado ao lixo da História – o fascismo e o comunismo –, mas estão de volta e, aqui, mais importante ainda é fazer da Cultura, do Conhecimento uma via para a Fé. A Igreja tem de competir no mundo da informação. Mas quando é que a Igreja Católica Portuguesa terá um canal televisivo próprio, onde faça chegar a sua palavra aos portugueses sobre os mais diferentes aspectos da vida nacional e internacional? Quando poderemos ler um jornal electrónico de tendência claramente católica? Deram conta do chinfrim que os defensores de todas as causas fizeram quando a jornalista Diana Aguiar, grande profissional, pronunciou a frase: “Até amanhã, se Deus quiser!”? Talvez a reacção fosse bem mais pacífica se ele pronunciasse: “até amanhã, camaradas!” Talvez eu esteja a dizer isto por estar mal informado devido ao facto de ter andado por fora tantos anos, mas parece-me que a Igreja Católica demora a reagir aos desafios dos tempos, perdendo terreno para aqueles que prometem tudo e rapidamente. Por exemplo, quantos anos nós tivemos de esperar para que a Igreja Católica começasse a limpar as suas fileiras de padres pedófilos? A iniciativa devia ter sido tomada pelo Vaticano, mas isso não foi feito, facto que é aproveitado pelos adversários para desacreditarem a Igreja Romana. Recentemente, li, com surpresa, que o padre e poeta português Tolentino Mendonça foi nomeado pelo Santo Padre, e passo a citar a imprensa, “responsável pelo Arquivo Secreto do Vaticano”. Numa Igreja que se quer e deve ser transparente, que “documentos secretos” existirão nesse arquivo? Depois não se venham queixar dos milhões de livros que se vendem à custa das teorias da conspiração em torno do secretismo do Vaticano. Como historiador, jornalista e católico, não compreendo.
A Cultura oferece oportunidades únicas na comunicação da Fé, mas para isso é indispensável reagir, agir para a solução dos problemas e não esperarmos que alguém o faça por nós.
Fátima 24 Novembro 2018