segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

VEM ESPÍRITO SANTO CRIADOR! Frei Bento Domingues, O.P.

 

1. Quando se pretende desqualificar as intervenções e os escritos do Papa Francisco, diz-se que lhe falta um pensamento estruturado por grandes princípios de alcance universal. Deixa-se levar pelas urgências da pastoral marcada pelo tempo, pelo lugar, pelas circunstâncias e pela vida e aflições das comunidades.

Parece-me uma observação bastante ridícula. Bergoglio não foi eleito para reitor de uma universidade pontifícia, mas para cuidar, segundo o Espírito e o método do irmão Jesus de Nazaré, das fraternidades cristãs, de modo que estas sejam o fermento de um mundo de irmãos[1].

Para caracterizar a sua tarefa, Jesus usou a palavra pastor porque, na sua cultura, era a que melhor designava aquele que vai à frente e cuida de todos. João XXIII, na Mensagem inaugural ao Vaticano II, observou que importa ter em conta, «medindo tudo nas formas e proporções do magistério de carácter prevalentemente pastoral». Não opunha Teologia e Pastoral. Ele próprio nomeou alguns dos teólogos mais famosos pela sua abertura ao devir do mundo concreto. Ele não desprezava o contributo dos teólogos, antes pelo contrário. O que não lhe interessava era teólogos descolados do mundo em mudança.

K. Rahner e E. Schillebbekx, no primeiro número da revista Concilium, marcaram o que deve ser a nova orientação da Teologia: a necessidade de uma análise da hodierna experiência da existência humana à luz da revelação. Por toda a parte onde há vestígios da existência humana, essa existência é atingida e chamada pelo Deus vivo da salvação. Assim, a experiência existencial do ser humano, em qualquer parte onde se encontre, é sempre um locus theologicus, um lugar de descobertas para a convicção vital religiosa. O P. Chenu, o teólogo dos sinais dos tempos e dos mais influentes no desenrolar do Vaticano II, caracterizou bem a complementaridade entre teologia e magistério pastoral[2].

O Papa Francisco dirigiu-se, várias vezes, a algumas Faculdades de Teologia e à Comissão Teológica Internacional, para que as suas investigações e práticas cheirassem a “ovelhas”, a “povo”. Não era para diminuir a necessidade de rigor na investigação, mas para que esta não viva descolada do mundo real em contínua mudança.

Repetiu-se que a doutrina social da Igreja não se devia meter com situações concretas, sujeitas à mudança. Para manter as mãos limpas acabava por não ter mãos. A Igreja viria do eterno e caminharia para a eternidade, mas sem dizer por onde passava e com quem caminhava. De facto, o Papa Francisco situa-se num plano muito diferente: o abstrato paralisa-nos, mas focar-nos no concreto abre caminhos de possibilidades. É esta a posição que defende no seu novo livro, Sonhemos Juntos[3]. O 7Margens fez uma pré-publicação do início do primeiro capítulo: «Tem de se ir às periferias se se quer ver o mundo como ele é». Segue o conhecido método da Acção Católica: ver, julgar e agir.

2. Jesus de Nazaré não deixou nada escrito. Os primeiros escritos cristãos, os de S. Paulo, oferecem a sua experiência do Ressuscitado e as implicações que a sua experiência teve, para mostrar as superações da Lei antiga e a inclusão do mundo todo na graça universal de salvação. Esta deixou de ser o exclusivo do povo de Israel.

Se ficássemos só com os textos de S. Paulo, não sabíamos nada de concreto acerca do itinerário do Nazareno. A construção das narrativas dos quatro Evangelhos permite ter imagens e discursos retrabalhados do seu itinerário: as suas opções, os colaboradores que escolheu, as atitudes, as intervenções e as parábolas que elaborou para vencer o mundo das muitas formas de exclusão. De facto, encontrou-se com a exclusão criada pela religião oficial em que tinha sido formado: cegos, surdos, leprosos, possessos, publicanos e, mais radicalmente, as mulheres. Sobre essas situações concretas, não fez declarações abstractas: viu, julgou e agiu.

Como não foi Ele que escreveu essas narrativas, o que temos são as interpretações dos autores dos quatro Evangelhos e dos Actos dos Apóstolos e das comunidades em que se inscreviam, muitos anos depois do que aconteceu a Jesus. Mas todas as narrativas, ditas canónicas, têm o mesmo assunto e o mesmo propósito, realizados segundo a significação que revestiam para as comunidades em que surgiram. Não falam de um mito, mas de alguém muito humano situado numa época e num mundo que, hoje, pode e é estudado com bastante verosimilhança.

Os escritos tiveram o cuidado de referir tudo a Jesus Cristo e ao seu Espírito criador. Para Ele, o Espírito de Deus não era a sua propriedade privada, mas a sua presença criativa no mundo e na Igreja.

As comunidades, na sua criatividade, nunca prescindiram dessa referência explícita ao Nazareno e ao seu Espírito.

Eram, no entanto, conscientes de que o Espírito de Cristo não se esgotou na criatividade da época apostólica, quer na referência ao número simbólico dos Doze – as 12 tribos de Israel –, como aos 72 discípulos enviados em missão – número simbólico das nações gentias.

3. Uma questão que está sempre em estudo, sem nenhuma conclusão, é o papel das mulheres na Igreja e nos chamados ministérios ordenados como, por exemplo, o da presidência da Eucaristia.

O Papa Francisco acaba de publicar uma Carta Apostólica sob a forma de «Motu Proprio», Spiritus Domini. É tão breve que se pode chamar um bilhete cheio de ironia. Diz que «Os leigos que tiverem a idade e as aptidões determinadas com decreto pela Conferência Episcopal, podem ser assumidos estavelmente, mediante o rito litúrgico estabelecido, nos ministérios de leitores e de acólitos; no entanto, tal concessão não lhes atribui o direito ao sustento ou à remuneração por parte da Igreja».

Posso estar muito enganado, mas esta Carta é um exercício magnífico de ironia pastoral. Bergoglio tem-se esforçado por realçar que o lugar das mulheres na Igreja está muito desfasado em relação ao papel que desempenham na vida social, cultural, económica e política em muitos países. Homens e mulheres gozam cada vez mais, ainda com muitas distorções, dos mesmos direitos e deveres cívicos.

No entanto, o Papa Francisco esbarra com a Carta Apostólica de João Paulo II, Ordinatio Sacerdotalis (22.05.1994): «A ordenação sacerdotal, mediante a qual se transmite a função confiada por Cristo aos apóstolos, de ensinar, santificar e reger os fiéis, foi reservada sempre, na Igreja Católica, exclusivamente aos homens». Esta Carta precisa de uma hermenêutica rigorosa que mostre que ela continua com as imagens de um mundo que está condenado a desaparecer.

Ao publicar um Motu Próprio sobre o que já não precisava de nenhuma publicação, o Papa Francisco manifesta o ridículo da situação actual.

Rezemos: Vem Espírito Santo Criador!

 

 

17. Janeiro. 2021



[1] Hb 2; Mt 23, 8. O Papa Francisco recordou tudo isto na Fratelli Tutti

[2] Cf. Concilium, Janeiro de 1967, 82-91

[3] Sonhemos Juntos. O Caminho para um futuro melhor, edições Planeta

sábado, 16 de janeiro de 2021

O Seminário deixa sempre boas recordações . UASP


 "Ao reler o Programa dos Seminários Arquidiocesanos de Braga do ano letivo 1966/67 com a capa alusiva ao cinquentenário das Aparições de Fátima, levou-me a escrever mais este texto sobre uma instituição que jamais esquecerei por tudo aquilo que nela adquiri. Foi uma das dádivas mais preciosas que auferi durante toda a minha vida, porque me abriu horizontes que me têm guiado neste meu caminhar." VER MAIS


Por Salvador de Sousa, ASSABraga

domingo, 10 de janeiro de 2021

UM MERGULHO NO MAR DE DEUS Frei Bento Domingues, O.P.

 

1. É um prazer ler um texto político com a qualidade da Carta aberta, editada com o título: Convite aos cidadãos e líderes para um novo poder democrático europeu[1]. Espero que suscite um movimento de experiências, estudos e debates fecundos «para enfrentar os imensos desafios ecológicos, económicos, sociais, de saúde e de segurança que incumbem às nossas sociedades». Desejo que este convite encontre um grande eco entre os cristãos, para que a Europa não ceda à tentação de levantar muralhas, mas de tecer pontes entre continentes. Sem a lucidez da ética da compaixão, a Europa perder-se-á na vontade de dominar e de excluir, tanto no interior de cada país, como na relação entre os membros da União e no acolhimento aos que fogem de guerras, da miséria e dos que procuram um futuro melhor para as suas famílias.

O grande teólogo protestante, W. Pannenberg, tocou, em 1994, num ponto que conserva, ainda hoje, toda a sua pertinência: a Europa não pode, sem mais nem menos, desembaraçar-se das suas origens cristãs, se pretende conservar o que é especificamente europeu na sua tradição cultural. Mas isso pressupõe que o Cristianismo não se apresente sectário, embora também não se possa dissolver na acomodação ao secularismo. Deve, antes, prosseguir no caminho de preservar, em si próprio, o melhor da herança da Antiguidade clássica – e assim a abertura à Razão – mas também as verdadeiras conquistas da cultura moderna e contemporânea[2].

Pannenberg  não podia prever o que aconteceu com a eleição do Papa Francisco e o que ele trouxe de novo, não apenas no campo do ecumenismo, do diálogo inter-religioso, mas no da intervenção na sociedade, fazendo das periferias o centro dos seus gestos, intervenções  e documentos, incitando todas as pessoas, dentro ou fora de qualquer religião, a descobrir e agir segundo o que há de latente em todos os seres humanos: tornarmo-nos todos irmãos – fratelli tutti. Os mais velhos, como eu, depois da morte de João XXIII e do longo esquecimento do espírito das suas inovações, apenas podiamos sonhar com o novo clima em que estamos a viver.

O modo como ajudou os cristãos, pelo seu próprio exemplo e orientações, sabendo gerir e integrar as celebrações dos ciclos litúrgicos da Páscoa e do Natal – com enormes restrições de participação presencial – permitiu sentir, de muitas formas, a proximidade afetuosa dos seus cuidados por todos.

2. Com a semana da Epifania, chegou ao fim o ciclo do Natal que constitui a condição de possibilidade de tudo o que diz respeito ao Cristianismo. Foram celebrações da ternura divina e humana centrada na família: família de Deus, família de Jesus, nascimento do mundo como família a realizar.

Apesar de já vermos alguma luz trémula ao fundo do túnel da pandemia, enfrentamos os desafios da desordem global. Os caminhos dos mais poderosos, e dos seus aprendizes, são caminhos que ensaiam novas formas de loucura política, servidas por novos e poderosos meios de comunicação.

 É verdade que o próprio Cristianismo está confrontado com imensos desafios: indiferença, secularismo agressivo, perseguições aos cristãos em vários pontos do globo, novos movimentos fundamentalistas político-religiosos e outros que referi na crónica do Domingo passado, ao evocar o ensaio de T. Halík. A questão prática é esta: onde encontrar inspiração e energia para lhes fazer face?

3. Este é o Domingo dedicado a aprofundar essa questão.  Segundo as narrativas dos quatro Evangelhos, Jesus de Nazaré levou muitos anos a encontrar o seu caminho. Quando pensava que o tinha encontrado como discípulo do austero João Baptista – foi por ele baptizado no rio Jordão –, teve uma experiência, durante a oração, que provocou uma viragem radical na sua vida: Deus não era o moralista que a pregação de João supunha e apresentava. Depois de sair do mergulho nas águas do Jordão, sentiu-se mergulhado no Espírito do mar de Deus donde lhe veio a íntima voz da pura graça do Amor: Tu és o meu filho muito amado; eu, hoje, te gerei. Então, o Espírito leva-o ao deserto para um longo retiro, durante o qual, é assaltado por tentações diabólicas, as tentações das expectativas do messianismo político-religioso[3]. São as tentações da dominação económica, política e religiosa, que Jesus recusou sem contemplações.

S. Lucas acrescenta que não são tentações que se vençam de uma vez para sempre: Tendo acabado toda a tentação, o diabo o deixou, até outra ocasião mais oportuna.

Regressando a Nazaré, onde fora criado, entrou, em dia de sábado, na sinagoga e apresentou o seu programa, servindo-se de uma passagem do profeta Isaías: O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano da graça do Senhor, um jubileu.

Depois, acontece algo de insólito que vai provocar a vontade de acabarem com Ele. Jesus tinha entregue o livro ao servente e, sentando-se, declarou que estava a cumprir-se o que acabava de ser lido. O público estava atento. Notou que fechara o livro como se mandasse na palavra sagrada, ao evitar o dia da vingança de Deus. Para o Nazareno, de Deus só pode vir amor. João dirá mesmo que Deus é amor de pura gratuidade. Em Deus não há ódio nem vingança e o que importa é nascer desse e para esse amor.

Jesus começou a realizar o seu programa contra a vontade de escribas e fariseus: o seu mundo era o dos excluídos, fosse qual fosse o motivo. Foi nos seus discípulos que também encontrou resistências porque eles tinham aderido ao seu chamamento, julgando que eram escolhidos para uma carreira económica, política e religiosa, o que levava a disputas entre eles para saberem quem seria mais privilegiado. Aí, Jesus não cede: quem quiser ser o primeiro ponha-se ao serviço de todos. No entanto, ainda depois da experiência da ressurreição, continuam a sonhar com uma carreira de poder. Jesus parece sentir-se impotente perante o renascer contínuo, na Igreja, do messianismo que tinha vencido e declara: só quando acolherdes o Espírito de Deus, o Espírito da minha vida, podereis entender o que é o programa da minha intervenção na história do mundo e da Igreja, a começar pelos seus líderes.

Isto significa que a cedência ao mundanismo e o renascimento no Espírito de Cristo é uma história a retomar em cada geração.

Não se admirem que tenha de voltar a esta questão.

 

10. Janeiro. 2021

 



[1] Cf. Público, 04.01.2021

[2] Cf. Wohlfart Pannenberg, As Igrejas e o nascer da unidade da Europa, in Communio, nº 4 Julho/Agosto 1994, pp. 339-351

[3] Cf. Mc 1, 9-13; Mt 3, 13 - 4,11; Lc 3,21 – 4, 13; Jo 1, 31-34

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

A EPIFANIA À PROCURA DE NOVAS LINGUAGENS Frei Bento Domingues, O.P.

 

1. Desde Março até ao final de 2020, vivemos, de modos diversos, uma longa noite. Repetia-se a frase pouco alentadora: “ainda não vemos nenhuma luz ao fundo do túnel”.

 A investigação científica é um processo. Como é evidente, o cientista não pode prever, à partida, os resultados do seu caminho. Agora, a vacina contra a Covid-19 existe e já começou a ser distribuída. É a epifania da conjugação feliz da ciência, da técnica e da ética política, ao serviço de todos. O Papa Francisco pede que a vacina seja para todos e, em primeiro lugar, para os mais vulneráveis.

É verdade que o final de 2020 e o início de 2021 ainda não podem ser celebrados com euforia, porque a vacina vai levar algum tempo a ser generalizada e testada a sua eficácia. Importa manter os cintos apertados até ao fim da viagem para reduzir o perigo de algum imprevisto.

As resistências ao acesso universal à vacina podem surgir por várias sem-razões. A política que aposta em manter e aumentar as grandes desigualdades entre países, e no interior de cada país, não pode aceitar que os seres humanos sejam todos irmãos, com os mesmos direitos e deveres. Acaba de ser traduzida, para português, a nova obra de Thomas Piketty na qual faz a história social, económica e ideológica da desigualdade[1]. Não estamos condenados a sofrer a intoxicação legitimadora do crescimento das desigualdades criminosas.

2. A celebração cristã da Epifania pertence ao ciclo do Natal, à irrupção de Deus na carne do mundo. Nada nos faz pensar que a Igreja primitiva pretendesse celebrar, nesses dias, o aniversário do nascimento de Jesus. De facto, revelam-se infrutíferas as tentativas de fixar a época do ano em que Jesus nasceu.

 A história da sua liturgia é muito complexa e resulta, não de acontecimentos históricos datáveis, mas de razões de inculturação das convicções cristãs mais ousadas. As suas experiências e interpretações estão sempre marcadas pelos mundos culturais em que se desenvolvem. Não se trata de operações oportunistas e indiferentes à investigação da verdade, mas de fidelidade à matriz incarnacionista do cristianismo. O que parece mais verosímil pode ser dito assim: o Ocidente exportou para as Igrejas do Oriente a festa do Natal; o Oriente, por sua vez, exportou para o Ocidente a festa da Epifania[2].

Em Portugal, a festa litúrgica dos Reis Magos (Epifania) é, agora, celebrada no primeiro Domingo de Janeiro. A sua significação é apresentada em quatro textos: dois do Antigo[3] e dois do Novo[4] Testamentos. A escolha é comandada pela narrativa de S. Mateus. Ela, por seu lado, reflecte um caminho praticado, de formas diferentes, pelas comunidades cristãs, marcadas pela vitória da pregação de S. Paulo. A graça de Deus, manifestada em Jesus Cristo, é uma oferta universal sem acepção de pessoas, povos ou culturas. Ele que era judeu não fez depender da observância da Lei de Israel o acesso à salvação de Deus: Os gentios são admitidos à mesma herança, membros do mesmo Corpo e participantes da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho. Acabaram os privilégios religiosos: todas as pessoas, de todos os mundos, estão no coração de Deus.

Podemos dizer que todas as narrativas, dos chamados Evangelhos da Infância, estão marcadas por este universalismo. S. Lucas, adepto da visão de Paulo, vai ao ponto de fazer do mítico Adão o antepassado directo de Jesus Cristo. Ele assumia, no presente, todo o passado da humanidade e todo o futuro.

Não basta dizer que a salvação é uma graça da pura generosidade de Deus. Isso está certo, mas não dispensa os esforços da tacteante caminhada humana. S. Mateus imaginou uns Magos, vindos do Oriente, pessoas dedicadas à investigação, nos ziguezagues da vida, da “estrela” que dê sentido à nossa noite.

Todos os anos faço, por esta altura, a releitura de Os Três Reis do Oriente, de Sophia de M.B. Andresen[5]. Na figura de Baltasar manifesta-se a procura da originalidade cristã de Deus:

«(…) Dizei-me onde está o altar do deus que protege os humilhados e os oprimidos, para que eu o implore e adore. Ao cabo de um longo silêncio, os sacerdotes responderam: – Desse deus nada sabemos.

«Naquela noite o rei Baltasar, depois de a Lua ter desaparecido atrás das montanhas, subiu ao cimo dos seus terraços e disse: – Senhor, eu vi. Vi a carne do sofrimento, o rosto da humilhação, o olhar da paciência. E como pode aquele que viu estas coisas não te ver? E como poderei suportar o que vi se não te vir?»

3. Em 2018, as Edições Paulinas, depois de terem publicado quatro obras de Tomáš Halík, apresentaram Diante de Ti, os meus caminhos, que conta o itinerário da sua vida, marcado pela vontade da construção de pontes entre crentes e ateus, católicos e evangélicos, religiões cristãs e não cristãs, entre a Igreja e a sociedade, a fé e a cultura, a Igreja e a universidade, entre a nossa identidade nacional, entre gerações, entre as diferentes disciplinas das humanidades, entre a assistência espiritual e a psicoterapia…

Agora, manifesta a sua indignação perante novos movimentos tribais que são a negação de todas essas experiências. 7Margens[6] publicou um ensaio recente e militante deste teólogo para responder à seguinte questão: O que têm em comum os terroristas que proclamam slogans religiosos, os apoiantes cristãos de Donald Trump, os radicais pró-vida, os adversários do Papa Francisco que lhe enviam “correcções filiais”, as bandas de guerrilha que afirmam “defender o homem heterossexual branco”, ou Jarosław Kaczyński e os esforços para transformar a Polónia num Estado católico autoritário?

Trata-se de um texto a não perder porque, também em Portugal, já existem partidos e grupos afectados por esta patologia político-religiosa.

As celebrações da Epifania precisam de linguagens em criação permanente porque só a beleza redime. Já falei, nestas crónicas, das novas linguagens da arquitectura cristã. Existe também um movimento de renovação na música litúrgica, que oscila entre a recriação de uma herança musical litúrgica e uma “via culturalizante, abrindo a liturgia aos diferentes idiomas musicais disponíveis”.

Alfredo Teixeira e João Andrade Nunes manifestaram ao 7Margens os movimentos de renovação da música litúrgica, os limites e potencialidades que encontram na criação contemporânea, as linguagens que os têm inspirado e as potencialidades da música como experiência comunitária a merecer hospitalidade. A música pode ser uma arte de dizer Deus[7].

Tornou-se um slogan repetir que a Igreja anda atrasada, vários séculos, em relação aos movimentos culturais da história moderna. Certo. Em relação à extraordinária mensagem de Jesus Cristo, são os movimentos sociais, culturais e espirituais, dentro e fora da Igreja, que andam sempre atrasados.

 

03. Janeiro. 2021

 

 



[1] Thomas Piketty, Capital e Ideologia, Temas e Debates, 2020

[2] Cf. José Manuel Bernal, Para Viver O Ano Litúrgico, Gráfica de Coimbra, 2001, 277-345

[3] Isaías 60, 1-6 e Salmo 72

[4] Efésios 3, 2-6 e Mateus 2, 1-12

[5] Contos Exemplares, Figueirinhas, 200435, 143-165

[6] Nós Somos Igreja reproduziu este texto essencial

[7] Cf. 7Margens (26 Dez 20)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

UMA DISTÂNCIA CARITATIVA? Frei Bento Domingues, O.P.

 

1. Comecei por não achar graça nenhuma à expressão que acabei por escolher para título desta crónica, embora de forma interrogativa. A história é simples. Recebi, como os dominicanos de todo o mundo, uma mensagem de Natal de um irmão filipino muito jovem, eleito Mestre Geral da Ordem dos Pregadores, em 2019, no Capítulo geral, realizado no Vietname, no qual também participaram dois delegados portugueses como eleitores.

O Mestre Geral chama-se Gerard Francisco Timoner III. Gostei muito da sua carta extremamente fraterna, orientada pela pergunta: Como pode haver alegria natalícia nesta época de pandemia?

Passámos a Páscoa ansiosos a lutar contra o medo. Agora, celebramos o Natal ameaçados pelo mesmo vírus, com a obrigação de nos protegermos a nós e aos outros, mantendo o que ele chama uma distância caritativa. Mas, se o Natal cristão existe como a festa da proximidade, donde poderá vir a alegria com a afirmação pública e ostensiva da distância?

 S. Paulo exorta-nos a contemplar a glória de Deus a rosto descoberto[i]. Ora, quando as celebrações eucarísticas são possíveis, a conta-gotas e com números clausus, as máscaras e as abluções tornaram-se parte da paramentaria litúrgica! As novas tecnologias passaram a ser também, em muitos casos, abençoadas alfaias do culto.

No entanto, o Natal deve continuar a ser a celebração do nascimento do Emmanuel, Deus-connosco em carne viva. Valha-nos Santo Agostinho para nos lembrar o clandestino que tão frequentemente esquecemos: Ele está mais próximo de nós do que nós de nós mesmos. Mas com que linguagem, com que gestos poderemos evocar essa intimíssima proximidade?

A expressão distância caritativa, que escolhi para título desta crónica, procura dar sentido à imposta distância social ou física. É uma expressão admirável. Para entender e sentir o seu alcance, talvez fosse preferível chamar-lhe distância amorosa. É o afecto, o amor recíproco, que exige esta distância física. Deve simbolizar uma intensificação da proximidade afectiva e as expressões criativas que a testemunhem. Doutro modo, a distância física acaba por fazer esquecer a presença real.

A bela palavra caridade (em latim, caritas e em grego, agapé) significa o amor de pura gratuidade, que é a própria realidade de Deus e do amor recíproco, quando a sua manifestação não encobre segundas intenções. Foi, no entanto, tão adulterada pela esmola humilhante da pessoa pobre que, no próprio hino da Primeira Carta aos Coríntios, usado frequentemente nas celebrações cristãs de casamento, é substituída pela palavra amor que intensifica e excede qualitativamente o amor erótico.

Nos últimos tempos, ainda antes da pandemia, a proximidade e o toque eram vistos, em certas circunstâncias, com suspeita: poderiam ser sinais de abuso ou assédio. Com a ameaça da Covid-19, converteram-se em ameaças de contágio e de risco. A malícia contaminou o toque e fez com que a proximidade seja arriscada e imprudente; a caridade táctil tornou-se tabu. Paradoxalmente, manter uma distância segura, como protecção e prevenção da transmissão viral, transformou-se em sinal sincero da nossa "proximidade" e de uma preocupação genuína pela saúde e segurança dos outros.

O Mestre Geral da Ordem dos Pregadores, perante tantos condicionamentos, alegra-se ao verificar que, por toda a parte, nestes tempos difíceis, os seus irmãos e irmãs dominicanas multiplicaram a sua pregação e as suas obras de solidariedade que tocaram e alegraram a vida e o coração dos mais aflitos.

2. Neste Domingo, continuamos a proclamar que o Natal, com todas as suas limitações, traições, dolorosas separações, loucos sofrimentos, guerras e mortes, é a grande festa da família, mesmo quando é impossível manifestá-la. É o Domingo da Sagrada Família, porque todas as famílias, na sua grande diversidade, são realidades sagradas. Deus tornou-se ser humano numa família atribulada, como tantas que conhecemos em nossos dias.

Espanta, por isso, que Jesus tenha manifestado, ao longo da sua vida, um estranho contencioso com a sua própria família e com as famílias dos seus discípulos. Porquê?

Conta o Evangelho de S. Marcos que Jesus, depois dos primeiros tempos de actuação e de ter convocado um número simbólico de seguidores, voltou para casa. Mas, de novo, a multidão era tanta que nem se podiam alimentar. Quando os seus familiares observaram tudo isto, saíram para o deter, porque diziam: enlouqueceu[ii].

S. João não esconde que os próprios irmãos de Jesus não acreditavam nele e até se divertiam a provocá-lo com piadas afrontosas sobre as suas intervenções públicas[iii].

   Voltemos, porém, a S. Marcos. Se os seus familiares julgavam que ele estava doido, os escribas, que tinham vindo de Jerusalém para estudar a sua duvidosa actividade terapêutica, sentenciaram: ele expulsa demónios porque está ao serviço do príncipe dos demónios, Beelzebu. Jesus procurou rebater esse absurdo, mas nada feito, pois continuaram: nele habita um espírito imundo.

Isto deixou a sua família ainda mais intrigada. Chegaram, então, a sua mãe e os seus irmãos e, ficando do lado de fora, mandaram-no chamar. Havia uma multidão sentada em torno dele. Disseram-lhe: A tua mãe, os teus irmãos e as tuas irmãs estão lá fora e procuram-te. Ele perguntou: quem é minha mãe e meus irmãos? E, percorrendo com o olhar os que estavam sentados ao seu redor, disse: Eis a minha mãe e os meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe[iv].

Tocamos, aqui, na maior revolução cristã sobre a família. Não é negada a sua composição de pais, filhos, irmãos e primos ou outras combinações, segundo a diversidade de culturas. Jesus nasceu nesse quadro, mas deu-se conta de que a família é tentada a fechar-se sobre si mesma e sobre os seus interesses egoístas. O resto não conta. Jesus, pelo gesto provocatório narrado por S. Marcos, não pretende destruir a família, mas que esta se torne o espaço e o tempo em que aprendemos o mundo todo como nossa família. Quando, agora, muita gente católica, bem situada, julga que o Papa Francisco, com a Fratelli Tutti, está a ser ingénuo e simplista, de facto, está apenas, no contexto contemporâneo, a ser fiel à revolução, inaugurada e traída, de Jesus Cristo. O mundo cristão não devia aceitar o mundo que temos construído à base de uma economia anti fraterna.

3. Estamos a chegar ao fim do ano 2020 e já surgem julgamentos políticos sobre ele e prognósticos sobre as dificuldades de 2021.

Quando, numa entrevista, perguntaram a Sophia de Mello Breyner Andresen, o que gostaria de ver realizado, em Portugal neste novo século, respondeu: «Gostaria que se realizasse a justiça social, a diminuição das diferenças entre ricos e pobres. Mais justiça para os pobres e menos ambições para os ricos. O resto é-me indiferente».

Não me ocorre nada de mais adequado para 2021.

 

27. Dezembro.


[i] 2 Corintios 3,18

[ii] Mc 3, 20-21.

[iii] Jo 7, 1-24

[iv] Mc 3, 31-35

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

UASP - Saudação de Natal do Presidente



"Então, porque celebramos o nascimento de Jesus a 25 de Dezembro? A escolha deste dia é resposta à decisão do imperador Aureliano que, no ano 274, estendeu a festa do “Nascimento do Sol Invicto” da cidade de Roma a todo o Império, procurando assim contribuir para a sua coesão e paz, seriamente ameaçadas. Esta celebração do deus Sol assinalava a vitória da luz sobre as trevas. De facto, desde o Solstício de Verão até ao de Inverno, a noites vão sempre crescendo; por isso, na inversão do ciclo, os romanos festejavam a vitória da luz sobre as trevas, pois até ao Solstício de Verão, as noites vão sempre diminuindo". (Continua) VER MAIS

Por P. Armindo Janeiro, presidente da Direcção

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terça-feira, 22 de dezembro de 2020

LABORATÓRIO DA FÉ - Diário do Minho de 22/12

 A NOITE QUE É AMANHECER - A noite de Natal simboliza tudo o que é mais formoso e desejável: inocência, carinho, bondade, amabilidade, ternura, sorriso, alegria, vida, futuro e eternidade. Tudo isto se faz presente no nascimento de um Menino. O Menino tem Deus no mais profundo do seu ser. A sua essência é ser de Deus. Desde essa noite, a bondade, a amabilidade, a alegria e a vida humana estão impregnadas de eternidade. O passado, o presente e o futuro deste Menino é o passado de todos os humanos (vimos de Deus), o presente de cada um de nós (estamos em Deus) e o nosso futuro (somos feitos para Deus e Deus é a meta e o sentido da nossa vida). A noite de Natal recapitula os desejos de paz e de entendimento que habitam em cada ser humano, os desejos que as circunstâncias quotidianas corrompem com demasiada frequência. A paz fundada na inocência, no olhar o outro sem ressentimentos, com uma confiança espontânea. A paz que é fruto do amor. O entendimento que se baseia na necessidade que todos temos do outro, como uma criança que precisa dos outros para nascer, sustentar a existência e crescer em harmonia. Precisa deles, estende os braços para acolher e ser acolhida. A noite de Natal une o humano com o divino, une o divino com o humano. Numa só pessoa. Ao unir o divino com o humano, une-nos uns aos outros. Ao fazer-se carne, Deus diz-nos que a nossa condição humana é dom maravilhoso. A humanidade de Deus ensina que o divino está ao nosso alcance, e sobretudo que somos capazes de amar, somos feitos para o amor. Humano não é o ódio ou a rejeição, mas o acolhimento e o encontro, o amor e a fraternidade. A noite de Natal é amanhecer, nela tudo aponta para o Sol que vem «iluminar os que vivem nas trevas e na sombra da morte e dirigir os nossos passos no caminho da paz» (Lucas 1, 79). Deus revela o rosto oculto do seu ser: graça, amor, misericórdia, comunhão. Por isso, nesta noite importa proclamar que o mais urgente, o mais necessário é conhecer e dar a conhecer o verdadeiro Deus, a Palavra que se pronuncia Jesus Cristo. Este é o único nome que nos pode salvar; o nome que, mesmo sem o saber, todos procuramos; o nome que nos dá o sentido da vida.