quarta-feira, 25 de maio de 2022

IN MEMOMRIAM - JOSÉ LUIS MARINS FERREIRA

 Faleceu o Antigo Aluno José Luis e o seu funeral realizou-se hoje em Oliveira de Frades - S. Pedro do Sul.


Entrou para o seminário da missões de Viseu em 1959, juntamente com o Pe. Alfredo Neres vindos de Paço de Arcos onde eram elementos activos na comunidade comboniana aí, então, existente. Entraram para o seminário já jovens/adultos; o Pe. Neres tinha cerca de 20 anos e o Zé Luis pouco menos. Com eles conviví em Viseu e na Maia, no " Escolasticado". O Zé Luis era dedicado à música e muito activo na área cultural, nomeadamente no teatro. Apesar de mais velhos , um e outro se entrosaram muito bem no meio dos colegas mais novos. Guardo gratas memórias do tempo em que conviví com o Zé Luis que , desde há alguns anos, fixara residência em Oliveira de Frades, S. Pedro do Sul.

Um abraço de eterna saudade, em meu nome e em nome da AAA Combonianos.

António Pinheiro


domingo, 8 de maio de 2022

BONS PASTORES Frei Bento Domingues, O.P.

 

1. Comunicaram-me que, no dia 3 deste mês, o Público e o 7Margens, vão lembrar-se que, nessa data, cumprem-se 30 anos das minhas crónicas neste Jornal. Não vou falar das crónicas, mas apetece-me relembrar a introdução que escrevi para o primeiro livro, editado pelo Mário Figueirinhas[1], porque tentei exprimir, por contrastes, uma teologia que implicava uma antropologia. Há, no entanto, nessa introdução, o uso do termo homem para significar homem e mulher, mas que oculta as mulheres. Por isso, desde há muito, utilizo sempre a expressão ser humano.

Recordei, nessa introdução, que em 1935 pediram a Yves Congar, O.P. um diagnóstico sobre o inquérito, então realizado pela famosa Revista La Vie Intelectuelle, sobre as razões da “descrença actual”. A análise teológica do longo processo do divórcio entre a Igreja e os movimentos científicos, culturais e sociais que agitaram a gestação do mundo moderno ficou condensada numa frase que sempre me impressionou: «A uma religião sem mundo, sucedeu um mundo sem religião».

Trinta anos mais tarde, em pleno Vaticano II, voltou a insistir no mesmo ponto: «o maior obstáculo, que os seres humanos de hoje encontram no caminho da fé, vem da falta de ligação que julgam verificar entre, por um lado, a fé em Deus, no seu Reino e, por outro, o ser humano e a sua obra terrestre. É urgente mostrar o laço íntimo que os une. É na superação desse fosso que se deveria procurar a resposta mais eficaz às razões da descrença moderna»[2].

Teilhard de Chardin, em 1920, numa breve nota sobre a evangelização dos novos tempos, pressente a gravidade do que está a acontecer: «Cristão e humano tendem cada vez mais a não coincidir. É este o grande cisma que ameaça a Igreja».

Nos anos 50, esta impressão ainda não se tinha apagado: «indubitavelmente, por alguma razão obscura, há qualquer coisa que já não passa entre o ser humano e Deus, tal como é apresentado aos seres humanos de hoje. É como se o ser humano não tivesse diante de si a figura do Deus que procura adorar»[3].

Em 1960, o grande medievalista Marie-Dominique Chenu, O.P. verifica que «o novo mundo dos nossos dias ainda não foi integrado no pensamento cristão»[4]. Philippe Roqueplo, no começo da sua tese de doutoramento – Experiência do mundo, experiência de Deus? – mostrou a que ponto a teologia oficial permanecia impermeável a todas as tentativas de integrar, na experiência cristã, as tarefas da construção do mundo e de acolhimento do Reino de Deus. Percorreu o monumental Dictionnaire de Théologie Catholique, elaborado entre 1903 e 1950, constituído por 22 grandes e compactos volumes. Este dicionário pretendia abarcar «todas as questões que interessavam ao teólogo». Veja-se o resultado:

«Na entrada profissão, vem um artigo “profissão de fé”; em emprego: nada; em mulher: nada; em amor: um terço de coluna assim distribuído: v. “caridade”; amor do próximo: v. “caridade: amor próprio: algumas linhas que reenviam para “ambição”; amor puro: v. “caridade”; mas sobre amor humano propriamente dito: nada; em amizade: nada (…); em vida: um artigo “vida eterna” (…); em mal: vinte colunas; em economia: nada; em política: nada; em poder: finalmente um artigo de cento e três colunas (quatro vezes mais que “mal”) sobre… “o poder do Papa na ordem temporal”. Em técnica: nada; em ciência: mais um longo artigo dividido em quatro pontos: ciência sagrada; ciência de Deus; ciência dos anjos e das almas separadas; ciência de Cristo… mas sobre o que nós chamamos ciência: nada; em arte: um longo artigo sobre… a arte cristã; em beleza: nada; em valor: nada; em pessoa: v. “hipóstase”; em história: nada; em leigo e laicado: nada, a não ser um longo artigo sobre o laicismo estigmatizado como uma heresia»[5].

Estas ausências revelam um sobrenaturalismo teológico ignorante da significação das realidades terrestres com as quais é tecida a história humana, lugar da experiência cristã.

Veio o Concílio Vaticano II. Abriu com uma generosa mensagem ao mundo feita pelos Padres Conciliares.  A Constituição Pastoral Gaudium et Spes é um abraço franco ao mundo contemporâneo: «As alegrias e as esperanças dos seres humanos de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por seres humanos, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do Reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao género humano e à sua história» (nº 1).

2. É certo que João Paulo II percorreu o mundo, arrastou multidões e disse logo no começo do seu pontificado o essencial: «O ser humano, na plena verdade da sua existência, do seu ser pessoal e, ao mesmo tempo, do seu ser comunitário e social — no âmbito da própria família, no âmbito de sociedades e de contextos bem diversos, no âmbito da própria nação, ou povo (e, talvez, ainda somente do clã ou da tribo), enfim, no âmbito de toda a humanidade — este ser humano é o primeiro caminho que a Igreja deve percorrer no cumprimento da sua missão: ele é a primeira e fundamental via da Igreja, via traçada pelo próprio Cristo e via que imutavelmente conduz através do mistério da Encarnação e da Redenção»[6].

No entanto, muita gente considera que há posições das autoridades eclesiásticas, assumidas em nome da lei de Deus e da vontade de Cristo, que são actos da maior desumanidade.

De onde virá este profundo desencontro?

Não sei. Repetir que o ser humano concreto, em todas as suas coordenadas, é o primeiro caminho da Igreja ou acusar a Igreja de atraiçoar o seu próprio programa, não leva a lado nenhum.

Adianto a hipótese que tem guiado a minha colaboração no Público. A questão talvez esteja em identificar apressadamente a Igreja com o próprio Jesus Cristo.

Jesus sabia e sabe o que há no ser humano. Conhece a profundidade do nosso coração. Em todos os seus gestos e palavras canta e chora uma inesgotável ternura e compaixão pelo mundo. Jesus é a humanidade de Deus.

A Igreja não. A Igreja tem de aprender a ser humana com Jesus Cristo e com todos os seres humanos da terra.

3. A celebração deste Domingo é dedicada a evocar Cristo como Bom Pastor. As principais figuras do Bom Pastor que encontrei, no meio de muitas pessoas que vivem a espiritualidade do cuidado, foram o Papa João XXIII, nas audiências públicas a que fui fiel, enquanto estive em Roma por conselho de Giorgio La Pira, e o Papa Francisco que nos acompanha dia a dia. Com eles, as parábolas do Novo Testamento, as pinturas que, desde as catacumbas até hoje, as tentam exprimir, são pessoas que incarnam a misericórdia divina por todos os que se sentem perdidos nas periferias da desumanidade.

 

 

08. Maio. 2022



[1] Frei Bento Domingues, O.P., A Humanidade de Deus. Religião sem mundo, mundo sem religião, Mário Figueirinhas Editor, Porto, 1995

[2] Chrétiens en dialogue, Paris, Cerf, 1964, p. XXXIII

[3] L’Avenir de l’home, Paris, Seuil, 1959, p. 339

[4] I.C.I., nº 111, 1960, p.121

[5] In Experience du monde: experience de Dieu?, Cerf. Paris, 1968, p.19-20

[6] Redemptoris Hominis, nº 14

domingo, 1 de maio de 2022

PAIXÃO DE SERVIR E PAIXÃO DE MANDAR Frei Bento Domingues, O.P.

 

1. No Domingo passado, foi proclamado um texto do Evangelho segundo S. João[1], no qual, Cristo Ressuscitado repetiu, num pequeno espaço, três vezes: a paz esteja convosco. Isto significa que a cultura da paz faz parte da mensagem evangélica. Não se pode pregar o Evangelho apoiando ou não denunciando as guerras. Infelizmente, a história das religiões foi muitas vezes, e continua a ser, tecida pelo recurso a várias formas de violência. A guerra voltou à Europa com todos os seus horrores de destruição. Muito se tem mostrado, dito e escrito sobre a invasão da Ucrânia. Deixo, em nota, apenas algumas referências que se situam no espírito desta crónica[2].

Aos discípulos de Cristo, de todos os tempos e lugares, pede-se que trabalhem na construção de um mundo, onde os instrumentos da guerra sejam transformados em instrumentos de desenvolvimento e de distribuição dos bens que são de todos e para todos[3]. Dir-se-á que esse espírito pacifista não tem resposta para todas as situações de injustiça, mas também não pode ser a recusa em divulgar e seguir as pessoas e os movimentos que mostraram e mostram a eficácia das lutas sem violência. A não-violência é muito exigente e muito trabalhosa, como mostraram, entre outros, Gandhi, Luther King e Mandela. É criminosa a eficácia dos movimentos e das pessoas que fazem fortunas com o fabrico e comércio das armas.

Essencial, para os cristãos, é o caminho percorrido por Jesus de Nazaré. Aprendeu a ganhar a vida como carpinteiro. A sua aldeia ficava perto de Séforis, a maior cidade da Galileia. Era um local de mistura de povos e culturas, um fervelhar de tensões políticas e de movimentos guerrilheiros contra a ocupação do Império Romano.

Em determinado momento, Jesus, homem feito, procurou dar um rumo novo à sua vida. Andou na corrente de renovação moral e religiosa, significada por um rito baptismal, no rio Jordão. Segundo os Evangelhos, depois desse baptismo ritual, teve uma experiência insólita. Estava em oração e ouviu uma voz, vinda do céu, que não tinha nada a ver com a voz de João Baptista: tu és o meu filho muito amado. A partir dessa experiência mística, há um corte radical como o seu passado e parte para um longo retiro no deserto, onde não encontra sossego. Pelo contrário, é agitado por um espírito diabólico que teima em contrariar, de forma muito hábil, a escolha que tinha feito: estar completamente ao serviço do Reino da Paz. São tentações de carácter messiânico, de um messianismo nacionalista, com respostas prontas e simplistas para todas as questões de conquista do poder económico, político e religioso.

Jesus recusou, de forma rotunda, essas solicitações diabólicas, vencendo as tentações dos tempos e poderes messiânicos[4]. Como diz o Evangelho de S. Lucas, tendo acabado toda a tentação, o diabo deixou-o até nova oportunidade. Encontrou essa oportunidade nos seus discípulos, bem testemunhada nos nossos textos fundadores[5].

2. S. Marcos conta que, depois de muitas discussões entre os discípulos a ver quem seria o primeiro, dois deles apresentam-se como candidatos aos primeiros lugares, quando Jesus tomasse o poder. Eram Tiago e João, filhos de Zebedeu, que lhe disseram: Mestre, queremos que nos faças o que te pedimos. E que quereis vós? Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda. Resposta de Jesus: Não sabeis o que estais a pedir. Podeis beber o cálice que Eu vou beber e receber o baptismo com que serei baptizado? Disseram: Podemos. Jesus replicou: Bebereis o cálice que Eu vou beber e sereis baptizados com o baptismo com que serei baptizado, mas sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me cabe a mim concedê-lo.

Tendo ouvido isto, os outros dez começaram a indignar-se com o atrevimento de Tiago e João. Jesus chamou-os e disse-lhes: Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam e os seus grandes as tiranizam. Entre vós não deverá ser assim: ao contrário, aquele que quiser ser grande, seja o vosso servo e aquele que quiser ser o primeiro entre vós, seja o servo de todos. Pois, o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos.

Parece-me que S. Marcos (que os outros sinópticos irão seguir) tocou num ponto essencial do itinerário de Jesus, que continua actual para as nossas relações familiares, sociais, políticas e religiosas. As pessoas deviam ser educadas para desenvolver todas as suas capacidades, para se tornarem competentes em servir o bem de todos. Isto é, procurar o próprio bem, o bem do grupo ou do país a que pertencem, no que fazem, não para dominar, não para destruir, mas para colaborarem com todas as pessoas boa vontade, seja qual for o país ou o continente. Acontece, no entanto, que são educadas, nas famílias e na escola, não para se tornarem competentes em servir, mas para se tornarem competentes em dominar os outros.

Desenvolver a ambição, a paixão de mandar, de dominar é a fonte de lutas destrutivas interpessoais, de grupos e de países. A fonte da paz é a paixão de servir a todos os níveis e em todas as relações humanas, locais ou globais.

3. Isto parece uma grande ingenuidade, o discurso de quem não quer ver a complexidade e a maldade das pessoas, dos grupos, dos governantes das nações e dos Estados. Não é uma ingenuidade, como mostrou René Girard[6].

Conta o Evangelho de S. João que Jesus teve uma conversa nocturna com um fariseu, membro do Sinédrio e seu simpatizante. Não se entenderam à primeira porque Jesus começou pela exigência máxima: se queres entender o meu caminho, tens de nascer de novo. Nicodemos faz-se desentendido: como pode um homem nascer de novo, sendo já velho? O Nazareno observa com ironia: sendo tu mestre em Israel, ignoras essas coisas?

A essência do Baptismo cristão consiste, precisamente, em nascer de novo. Isso foi esquecido e, agora, só quase é lembrado quando se trata do baptismo de adultos, como acontece cada vez mais. O que dificulta este entendimento é pensar que basta praticar um ritual, de uma vez para sempre, sem exigências quotidianas. Nascer de novo todos os dias, em todas as circunstâncias, é o programa para todos os cristãos. Nada está resolvido de uma vez para sempre.

A arma que Jesus deixa aos discípulos é o sopro do Espírito. Sem Ele, estamos expostos ao espírito mundano, ao espírito de dominação, da violência, das guerras.

As dificuldades que a Igreja encontrou no decorrer dos tempos, e continua a encontrar, resultam de não oferecer um rosto de discípulos ressuscitados, aqueles que nascem de novo todos os dias.

A propósito da reforma da Cúria Romana, o Papa Francisco não se cansa de denunciar o carreirismo eclesiástico que não procura servir, mas encontrar lugares de dominação. Não crescem na paixão de servir, mas na paixão de mandar, de dominar.

 

 

01 Maio 2022



[1] Jo 20, 19-31

[2] Cf.Teresa Toldy, O ângulo morto da invasão, 7Margens, 24.04.2022; Unisinos, 11.03.2022: Tomáš Halík e Reportagem de Cécile Chambraud; Frei Bento Domingues, O.P., Da cultura da indiferença aos negócios da guerra, Público, 13. 02. 2022

[3] Cf. Is 2, 4 e Act 4, 32-37

[4] Lc 4, 1-13 e paralelos

[5] Mc 10, 35-45; Mt 20, 20-28; Lc 22,24-27

[6] René Girard, La Violence et le sacré, 1972; Des choses cachées depuis la fondation du monde, 1978; Le Bouc émissaire, 1982

segunda-feira, 25 de abril de 2022

A PÁSCOA DAS MULHERES Frei Bento Domingues, O.P.

 

1. Já publiquei, nesta coluna, várias crónicas sobre a controvérsia do papel das mulheres na Igreja[i]. Sentem-se descriminadas, pois, há ministérios que lhes estão vedados, apesar da posição categórica de S. Paulo: Todos vós sois filhos de Deus em Cristo Jesus, mediante a fé; pois todos os que fostes baptizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo mediante a fé. Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus[ii]. Esta afirmação diz que não há dois baptismos diferentes: um para homens e outro para mulheres.

O que sempre me intriga, sobretudo na Páscoa, é verificar que, em todas as narrativas do Novo Testamento sobre a Ressurreição, as mulheres é que aparecem em primeiro lugar e são elas as escolhidas, por Jesus, para vencerem a incredulidade dos discípulos. São elas as encarregadas de evangelizar os apóstolos. O que continua a intrigar-me são os argumentos pseudo-teológicos para as impedir de serem chamadas aos ministérios ordenados que se tornaram exclusivos dos homens. Parece-me que já é tempo de questionar a negacionista Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis, de João Paulo II (1994): «para que seja excluída qualquer dúvida em assunto da máxima importância, que pertence à própria constituição divina da Igreja, em virtude do meu ministério de confirmar os irmãos (cf. Lc 22,32), declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja».

Compreendo que o Papa Francisco não se sinta muito à vontade para enfrentar esse documento que, não sendo nenhum dogma, decreta que é uma sentença definitiva, como se fosse possível, a partir de um determinado contexto histórico e doutrinal, emitir uma decisão com valor definitivo.

O que o Papa Francisco tem feito é preparar o terreno para que se torne evidente que uma decisão temporal não pode travar a vida da Igreja para sempre. Interpreto, nesse sentido, as nomeações de mulheres para o governo da Igreja, que tem feito em muitas áreas. Na Páscoa deste ano, sempre em estilo coloquial, fez declarações e tomou posições fundamentais sobre vários assuntos, mas nomeadamente sobre as mulheres: numa longa entrevista a Lorena Bianchetti, na Sexta-Feira Santa; na sua extraordinária homilia na Vigília Pascal e na sua participação, no programa produzido pelo Dicastério para a Comunicação em colaboração com a Rai Cultura, transmitido na noite de Páscoa na RaiUno, sobre os “Rostos dos Evangelhos”[i].
Como se compreende, não posso reproduzir, aqui, as declarações em todos esses momentos nem comentá-las a todas. Gostaria muito se estas referências servirem para os leitores não passarem ao lado do que mais importa. Não são ordens, não são decretos, são experiências próprias e dos seus encontros com quem está só e esquecido.

2. No decorrer da referida entrevista, em relação à guerra na Ucrânia, Lorena Bianchetti perguntou-lhe: qual o papel activo das mulheres, na mesa de negociações, para construírem concretamente a paz? O Papa responde-lhe com um ditado: As mulheres são capazes de dar vida até a um morto. As mulheres estão na encruzilhada das maiores fatalidades, elas estão lá, são fortes. Por isso o que diz – dar às mulheres um papel em momentos difíceis, em momentos de tragédia – é tão importante, é muito importante. Elas sabem o que é vida, o que se prepara para a vida e o que é a morte, conhecem-na bem. Falam essa linguagem.

Alargou, no entanto, o âmbito da resposta: A exploração das mulheres é o nosso pão quotidiano. A violência contra as mulheres é o nosso pão de cada dia. Mulheres que sofrem golpes, que sofrem violência por parte dos seus companheiros e carregam isto em silêncio ou afastam-se sem dizer porquê. Nós, homens, teremos sempre razão: somos os perfeitos. As mulheres estão condenadas ao silêncio pela sociedade. Não, mas esta é louca, é uma pecadora. Era o que costumavam dizer sobre Madalena: Olha o que ela fez, é uma pecadora! E tu não és um pecador? Não erras?
As mulheres são a reserva da humanidade, posso dizer isto: estou convencido disto. As mulheres são a força. Ali, aos pés da cruz, os discípulos fugiram, as mulheres não, as que o seguiram ao longo da vida. Jesus, a caminho do Calvário, pára em frente de um grupo de mulheres que choravam. Elas têm a capacidadede chorar, nós, homens, somos mais brutos. Ele pára e diz: Chorai pelos vossos filhos, porque farão muitas coisas contra eles.

Na homilia da Vigília Pascal, não esqueceu a guerra: Muitos escritores evocavam assim a beleza das noites iluminadas pelas estrelas. Ao contrário, as noites de guerra são atravessadas por rastos luminosos de morte. Nesta noite, irmãos e irmãs, deixemo-nos guiar pelas mulheres do Evangelho, para descobrir com elas a aurora da luz de Deus que brilha nas trevas do mundo.

Quando já a noite ia clareando e irrompiam, silenciosas, as primeiras luzes da aurora, aquelas mulheres foram ao sepulcro para ungir o corpo de Jesus. Lá vivem uma experiência que as inquietou: primeiro, descobrem que o sepulcro está vazio; depois, veem duas figuras em trajes resplandecentes que lhes dizem que Jesus ressuscitou; imediatamente, correm a anunciá-lo aos outros discípulos (cf. Lc 24, 1-10). Elas veem, escutam, anunciam. Com estas três acções, entremos também nós na Páscoa do Senhor.

A homilia está construída em torno destes três verbos de acção. Ao mostrar o que as mulheres viram, escutaram e anunciaram, fez delas as grandes pregadoras dessa noite. Não são os padres a falar, são elas.


3. No programa da Rai, transmitido na noite de Páscoa, o Papa Francisco, depois de apresentar vários rostos do Novo Testamento que o impressionaram, falou da importância das mulheres no Evangelho. Este começa com uma muito jovem, em Nazaré: é uma mulher, Maria, que abre a porta e diz sim, eu aceito Deus feito homem. É também uma mulher, tida como pecadora, que foi escolhida para dar a outra grande notícia: Ele ressuscitou.
É ela. É curioso: os apóstolos não acreditam nas mulheres. Sim, sim, mas vamos ao túmulo para ver como estão as coisas. Ou os de Emaús que dizem esta frase: Sim, algumas mulheres vieram dizer que não havia corpo, que ele havia ressuscitado, que havia anjos...Falta o pensamento final desses dois: Vão acreditar nas mulheres?!, foi isso que eles sentiram, não é? Sim, a fobia em relação às mulheres, que muitas vezes temos, é curiosa: parece que eram seres humanos de segunda classe, de segunda categoria. Mas o Senhor revelou-se às mulheres e através das mulheres. 
O que nos falta ver, escutar e anunciar, para que os desejos e atitudes do Papa Francisco se tornem desejos e atitudes de toda a Igreja?

 

 

24 Abril 2022


[i] Para ler e meditar, todos os textos evocados podem ser encontrados em www.vatican.va/content/vatican/pt.html


[i] Entre elas, destaco: Frei Bento Domingues, O.P., As trapalhadas das mulheres na Igreja I, Público, 14.01.2018; As trapalhadas das mulheres na Igreja II, Público, 21.01.2018

[ii] Gal 3, 26-28

segunda-feira, 18 de abril de 2022

PÁSCOA DE CRISTO, NOSSA PÁSCOA Frei Bento Domingues, O.P.

 

1. Porque será que os católicos e, de forma muito mais ampla, os cristãos celebram a Páscoa todos os anos da mesma maneira, com a repetição dos mesmos textos e dos mesmos gestos? No geral, os liturgistas não se revelam muito criativos. Tenho saudades das celebrações do Frei José Augusto Mourão (1947-2011), que sabia combinar as tradições litúrgicas com ousadas inovações.

No Cristianismo não contam, sobretudo, as mudanças rituais. Estas devem estar ao serviço da mudança de vida. Só esta pode provocar expressões sempre novas.

No ano passado, lembrei alguns contributos teológicos acessíveis e desafiantes[i]. O tempo não pára nem as suas surpresas. Quem poderia adivinhar que estaríamos, depois de uma época terrível de pandemia, numa guerra absurda e abençoada por algumas lideranças designadas como cristãs, embora não possamos desconhecer todos os movimentos, cristãos ou não, que não podem pactuar com o abandono das vítimas da estupidez[ii]! De facto, a perspicácia do Papa Francisco já tinha repetido várias vezes que estávamos à beira de uma guerra mundial aos bocados. Como acontece frequentemente, as vozes mais lúcidas são as mais esquecidas.

Os produtores de armamento, cada vez mais sofisticado, precisam desse comércio para fazerem fortunas à custa do sofrimento e da morte dos outros. Heidegger dizia que o ser humano é para a morte. Se isso fosse verdade, teríamos de agradecer a todas as máquinas de guerra que facilitam esse objectivo. Prefiro o que nos disse a filósofa judia Hanna Arendt: os seres humanos, embora tenham de morrer, não nasceram para morrer, mas para começar.

Por outro lado, os bons programas de governo insistem na qualidade do ministério da saúde, para que haja adequados serviços que possam cuidar dignamente de todas as pessoas, sobretudo das mais pobres.

Durante muito tempo, repetia-se que, fora da Igreja, não há salvação. E. Schillebeecckx alterou esse adágio: fora do mundo não há salvação[iii]. Quer dizer que não nos podemos resignar ao mundo que temos. Isto não é mundo que se apresente. Em todas as circunstâncias, a esperança cristã confessa que a morte não é a última palavra. Quem morre é recebido pelo amor infinito que é o próprio Deus.

2. É neste mundo que precisamos descobrir o sentido da vida, dos acontecimentos, de tudo o que nos rodeia. Com a Laudato Sí’ e a sua concepção de uma ecologia integral, cristãos e não cristãos são chamados a descobrir que é este mundo que devemos salvar, se nos quisermos salvar a todos. O Papa Francisco, ao assumir tudo o que se tem feito para salvar a Casa Comum, procurou envolver todas as pessoas de boa vontade.

Com efeito, a ecologia diz respeito, não apenas a um oásis para os ricos e poderosos, mas à gestão de um ambiente mais amplo, no qual vivem os indivíduos, a comunidade local e o conjunto de todas as pessoas, de todas as gerações. Ora, a casa em questão não é só a natureza que nos rodeia, com todos os seus recursos de ar, água, luz, animais e plantas; ela também inclui o ambiente humano, isto é, as pessoas com quem vivemos e com quem nos encontramos ligados por vínculos de parentesco, de amizade, de trabalho, de cidadania a todos os níveis.

Trata-se de uma ecologia que deve ser realizada com as pessoas e pelas pessoas, que não pode, de modo algum, limitar-se a chorar pela luta entre as espécies vivas, particularmente entre aquela espécie de animal ávido e destruidor que é o ser humano e as demais criaturas, que muitos consideram como guardiões inconscientes dos equilíbrios naturais. A ecologia assim entendida adquire novos fundamentos, novas motivações, prevê tarefas nas quais indivíduos e sociedades, no respeito pelos direitos universais, são chamadas a fortalecer-se.

Quando S. Pedro pede aos cristãos para estarem sempre prontos a dar razão da sua esperança[1], esta não se refere, apenas, ao mundo depois da morte, mas à tarefa de começar, já, os trabalhos para um novo céu e uma nova terra, como diz o Apocalipse.

O que está a acontecer não é a construção de novo céu e nova terra, mas a destruição de povos inteiros e do seu mundo.

3. Não devemos desligar a participação na Eucaristia da participação na nossa transformação e na transformação do nosso mundo. Na anáfora de São Basílio (329-379) ninguém é esquecido:

“Lembrai-vos, Senhor, do povo que está ao vosso redor e daqueles que, por um justo motivo, foram omitidos, e tende misericórdia delas e de nós, segundo a abundância da vossa misericórdia: enchei as suas despensas de todo bem; conservai as suas uniões conjugais na paz e na concórdia; criai as crianças, educai os jovens, fortalecei os idosos; consolai os fracos de ânimo, reuni os dispersos, reconduzi os errantes e reuni-os à vossa santa, católica e apostólica Igreja.

Libertai aqueles que são afligidos por espíritos imundos; navegai com os navegantes; caminhai junto com aqueles que caminham; cuidai das viúvas, protegei os órfãos, libertai os prisioneiros, curai os doentes; lembrai-vos daqueles que estão nos tribunais, nas minas, no exílio, em dura escravidão e em todas as tribulações e necessidades e na perturbação; lembrai-vos também, ó Deus, de todos aqueles que precisam da vossa grande compaixão, daqueles que nos amam e daqueles que nos odeiam, daqueles que pediram a nós, indignos, que rezássemos por eles.

Lembrai-vos também de todo o vosso povo, Senhor, nosso Deus, e derramai sobre todos a abundância da vossa misericórdia, concedendo a todos o cumprimento dos pedidos de salvação; e daqueles de quem não fizemos memória por ignorância ou por esquecimento ou pela abundância de nomes, lembrai-vos vós mesmo, ó Deus, que de cada um conheceis a idade e o nome, que conheceis a cada um desde o ventre de sua mãe.

De facto, Senhor, sois o cuidado dos que são negligenciados, a esperança dos desesperados, o salvador dos que estão agitados, o porto dos navegadores, o médico dos doentes; sede tudo para todos eles, vós que conheceis cada um e o seu pedido, a sua casa e a sua necessidade.

Libertai, Senhor, este rebanho e toda a cidade e região, da fome, da peste, do terremoto, do naufrágio, do fogo, da espada e da invasão estrangeira e da guerra civil...”[2].

S. João, na sua primeira carta, ainda foi mais radical, abrangente e desafiante: sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos[3]. Esta é a nossa Páscoa de todos os dias!

 

 

17 Abril 2022



[1] 1Pd 3, 13-17

[2] Revista IHU on-line, 11 Outubro 2019

[3] 1Jo 3, 14



[i]Cf. entre outros, Andrés Torres Queiruga, Repensar la resurrección, Trotta, 2005; José Antonio Pagola, Jesus. Uma abordagem histórica, Gráfica de Coimbra, 2008; A. Cunha de Oliveira, A ressurreição dos mortos, Instituto Açoriano da Cultura, 2016.

[ii] Cf. Anselmo Borges, Francisco vai a Kiev?, DN, 09.04.2022

[iii] Edward Schillebeeckx, L’histoire des hommes, récit de Dieu, Cerf 1992

segunda-feira, 11 de abril de 2022

SEMANA SANTA OU SEMANA DA COLIGAÇÃO ASSASSINA? Frei Bento Domingues, O.P.

 

1. Com o Domingos de Ramos começa a Semana Santa e é proclamada a Paixão de Cristo, segundo S. Lucas[i]; na Quinta-feira, a leitura da última Ceia é de S. João[ii]; é do mesmo evangelista a leitura da Paixão na Sexta-Feira[iii]. Esta é uma selecção. De facto, existem quatro narrativas, tantas como os Evangelhos. São textos essenciais porque é em torno das razões da condenação de Jesus à morte, da teimosia experiencial em dizer que Ele ressuscitou, que pelo seu Espírito reúne e anima todos os que acolhem o seu projecto de abertura universal, que se afirmaram os movimentos cristãos.

Importa ter presente que a escrita dos textos do Novo Testamento recolhe várias tradições orais. É feita bastante depois dos acontecimentos. Não são escritos de reportagem. São interpretações de comunidades que viviam e celebravam a certeza de que, com Jesus, participavam no advento de um céu novo e uma nova terra[iv]. Celebravam, faziam memória e viviam, no seu presente, o que depois foi passado a texto. Os exegetas, de várias gerações e com problemáticas diferentes, têm trabalhado para encontrar os traços do Jesus histórico e o Cristo da fé.

As narrativas da Paixão precisam de mostrar o falso processo jurídico e religioso que O condenou. É por isso que, ao apresentarem os anúncios da Paixão, têm de jogar com a crueldade do processo e, ao mesmo tempo, dar a ideia que Deus nunca abandonou o seu Filho. Precisam da ficção do tudo previsto, para deixar bem a divindade e, em simultâneo, a surpresa ambígua que atingiu a humanidade de Jesus: vai sofrer, mas ao terceiro dia tudo acaba ou recomeça na alegria da vitória.

Na oração Eucarística II, rezamos: «Na hora em que ele se entregava, para voluntariamente sofrer a morte…». Precisamos de ter cuidado, porque podemos dar a ideia, não da tragédia que O atingiu, mas de um suicídio assistido. Significa, apenas, que Jesus não abandonou o seu testemunho, mesmo sob a ameaça da morte.

Os Actos dos Apóstolos parecem mais realistas acerca do processo que condenou Jesus à crucifixão[v]: «Sim, verdadeiramente coligaram-se, nesta cidade contra o Teu santo servo Jesus que ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos com as nações pagãs e os povos de Israel, para executarem tudo o que, em Teu poder e na Tua sabedoria, havias predeterminado». Também aqui, os textos precisam de mostrar que Deus não foi surpreendido, mas também que não foi Ele o responsável pela morte de Jesus. Deus não é assassino.

Jesus, na sua actuação, nos seus gestos e palavras, pôs em causa a versão do judaísmo que encontrou e na qual foi educado. Era uma religião da exclusão dos pobres, dos doentes, das mulheres e dos publicanos: todos os que cabiam na classificação de pecadores, por uma razão ou outra. Se a vida lhes corria mal é porque não estavam de bem com o Deus da Lei. Era a todos esses que Jesus trazia uma esperança. Não estavam condenados, cabiam no Reino de Deus que anunciava. Não contente com isso, aproveitava um pilar semanal da religião – o Sábado – para fazer o que estava proibido, sobretudo curas. Declarava que, naquela religião, os animais tinham mais sorte do que os doentes. Dos animais podiam cuidar, dos humanos doentes era proibido. Por fim, pôs em causa o próprio Templo, em torno do qual girava, não só a vida religiosa, mas também, e sobretudo, a vida económica e social. Isto era o mais grave para todas as tendências do judaísmo, do país e da grande diáspora que o frequentavam nas grandes festas e eram uma grande fonte de receitas.

O que era importante mostrar é que o zelo de Jesus, para fazer do Templo uma casa de oração e não de negócios fraudulentos, não é obra de um profeta verdadeiro, mas de um falso profeta que deviam denunciar e julgar. Era preciso, no entanto, envolver o poder romano, o poder do Império, na morte de Jesus. A forma mais directa era a de mostrar que Jesus se movimentava para chefiar uma insurreição contra Roma.

2. Na Paixão, segundo S. João, Pedro nega três vezes a sua pertença ao grupo dos discípulos. Jesus, pelo contrário, enfrenta o tribunal em todos os momentos, diante de Anás, Caifás e Pilatos. A coligação de interesses, de que falavam os Actos dos Apóstolos, torna-se dramática. Pilatos não vê razões para condenar Jesus, mas também não quer problemas, nem com Judeus nem com Roma, porque ele tem de mandar fazer uma acta acerca da condenação à morte por crucifixão.

O texto mostra que o projecto de Jesus não se situava nem ao nível dos poderes do Império Romano nem dos poderes do judaísmo. Essas eram as tentações do começo da sua intervenção pública, eram tentações de um messianismo diabólico. O domínio económico, político e religioso não entrava no seu projecto. Era outra coisa, queria um mundo outro.

Ao forjarem a acusação de que Ele queria ser uma alternativa política – o rei dos judeus –, Pilatos mostra que não acredita em nada disso, mas a acusação é feroz: se O soltas, não és amigo de César! Condenado à crucifixão, Pilatos redigiu num letreiro, em hebraico, latim e grego, as razões da condenação: Jesus Nazareno rei dos judeus. Apesar dos protestos contra este letreiro terrível, não foi alterado. Os poderes judaicos procuraram encostar Pilatos à parede. Agora, é Pilatos que os responsabiliza por tudo o que aconteceu.

3. Dir-se-á que essa é uma história antiga. Não tem nada a ver com o que estamos a viver hoje, não só na Europa, mas no mundo: uma guerra mundial aos bocados, como via e previa o Papa Francisco. Agora, temos, de facto, na própria Europa, novas narrativas de destruições e massacres incríveis, mais precisamente na Ucrânia.

Quando os discípulos de Jesus lutavam pelo poder, no interior do grupo, o Mestre observa-lhes: os reis das nações exercem domínio sobre elas e os que as tiranizam são chamados benfeitores. Quanto a vós, não deverá ser assim. Pelo contrário, aquele que governa seja o servo de todos. O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida por todos[1].

É muito triste que algumas formas de cristianismo e suas lideranças legitimem essa violência e destruição, perdendo a memória do Crucificado. É Ele que, ao ser morto, matou o espírito de vingança: Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem[2]. Não era a morte que dominava o seu coração e, por isso, os seus discípulos devem trabalhar, com todos os movimentos que dão a sua vida para destruir a guerra e as suas loucuras e instaurar a paz.

Os discípulos de Jesus têm de voltar a meditar a Carta aos Efésios que não pode ser mais clara: Cristo é a nossa paz. Na sua carne, anulou a lei, que contém os mandamentos em forma de prescrições, para, a partir do judeu e do pagão, criar em si próprio um só homem novo, fazendo a paz, e para os reconciliar com Deus, num só Corpo, por meio da cruz, matando assim a inimizade. E, na sua vinda, anunciou a paz a vós que estáveis longe e paz àqueles que estavam pertoPorque, é por Ele que uns e outros, num só Espírito, temos acesso ao Pai[3].

Que fazer para tornar Santa esta semana assassina?

 

 

10 Abril 2022



[1] Cf. Mc 10, 35-45; Lc 22, 24-27

[2] Lc 23, 34

[3] Ef 2, 14-18



[i] Lc 22,14 – 23,56

[ii] Jo 13, 1-15

[iii] Jo 18,1 – 19,42

[iv] Ap 21

[v] Act 4, 27-28