nos fizeste isto? Olha que teu pai e eu
andávamos aflitos à tua procura. Ele
respondeu: Não sabíeis que devia estar na
casa de meu Pai? Mas eles não
compreenderam as palavras que lhes
disse”. E Jesus ia crescendo “em sabedoria,
em estatura e em graça”. E no Evangelho
segundo São Marcos: “E quando os seus
familiares ouviram isto, saíram a ter mão
nele, pois diziam: Está fora de si”.
Os Evangelhos escrevem sobre a
realidade histórica, mas foram escritos por
quem, à luz do fim, já acreditava que Jesus
é, na confissão de São Pedro, “o Filho do
Deus vivo”. Concretamente no que se
refere aos Evangelhos ditos da infância, é
necessário ter em atenção a sua
significatividade mais do que a
historicidade. De facto, eles são
construções teológicas, colocando no
princípio a revelação do fim: Jesus é o
Messias. Se é o Messias, nele realizam-se
as profecias e as promessas de Deus.
Assim:
3. 1. O que é o Natal? Sim, é “um novo
começo”, como bem viu o famoso teólogo
Hans Küng, com quem falei várias vezes.
Também tive o privilégio de ter tido como
professor talvez o maior teólogo católico do
século XX, Karl Rahner, que escreveu:
"Quando dizemos ‘é Natal’, estamos a
dizer: (Em Jesus de Nazaré), ‘Deus disse ao
mundo a sua palavra última, a sua mais
profunda e bela palavra numa Palavra feita
carne’. E esta Palavra significa: amo-vos, a
ti, mundo, e a vós, seres humanos."
3. 2. Como foi o seu nascimento? Maria é
virgem? Jesus teve irmãos? Foi também a
Karl Rahner que ouvi pela primeira vez que
os Evangelhos e a teologia não são tratados
de biologia e anatomia.
Diz o Evangelho segundo São Lucas,
referindo a admiração dos seus
conterrâneos, quando Jesus começou a
pregar: “Donde é que isto lhe vem e que
sabedoria é esta que lhe foi dada? Não é
ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão
de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E
as suas irmãs não estão aqui entre nós? E
isto parecia-lhes escandaloso.”
Maria é bem-aventurada, não por ser a
mãe de Jesus, mas porque acreditou e se
converteu à mensagem do seu Filho, como
se lê no Evangelho segundo São Lucas:
“Enquanto Jesus falava, uma mulher,
levantando a voz do meio da multidão,
disse: Bem-aventuradas as entranhas que
te trouxeram e os seios que te
amamentaram! Ele, porém, retorquiu:
Bem-aventurados, antes, os que escutam a
Palavra de Deus e a põem em prática”.
Outro jesuíta, filósofo e teólogo, Juan
Masiá, disse, neste contexto, o essencial:
Maria é bem-aventurada “ao conceber com
José a Jesus por cooperação com o Espírito
Santo. Agraciada ao dar à luz Jesus e os
seus irmãos e irmãs. Salve!, Maria e José,
agraciados e abençoados, com todas as
mães e pais que recebem como um dom do
Espírito os filhos que procriam e, ao gerá-
los, consumam a virgindade simbólica que
se realiza na maternidade e na
paternidade. Porque não é incompatível a
união dos progenitores com a acção do
Espírito: a criatura nasce pela união dos
seus progenitores e pela graça, a força, do
Espírito Santo”.
Acrescenta: “Toda a criatura nasce em
graça original. Maria não é uma excepção.
O chamado pecado original não é originário
nem mancha. O seu nome exacto é o
pecado do mundo. A criatura, que nasce
sem nenhuma mancha, vem à luz num
mundo no qual já é vasta uma rede de
pecado. Como quem entra numa sala de
fumadores e se contamina com o fumo”.
3. 3. Quando nasceu? Ninguém sabe
exactamente, mas terá sido entre o ano 6 e
o ano 4 a.C. Parece paradoxal, mas isso
deve-se a um erro do monge Dionísio, o
Exíguo, quando no século VI quis
estabelecer precisamente a data do
nascimento de Jesus.
Evidentemente, não se pode dizer que
nasceu no dia 25 de Dezembro. O que se
passou é que, quando, nos séculos III-IV já
havia comunidades cristãs espalhadas pelo
Império Romano, a festa pagã do Dies
Natalis Solis Invicti (Natal do Sol Invicto),
associada ao solstício do Inverno, deu lugar
ao Natal cristão, pois Jesus é que é o
verdadeiro Sol, a Luz invencível.
3. 4. Onde nasceu? É quase certo que
Jesus nasceu em Nazaré, por isso lhe
chamavam o Nazareno. Mas, se ele,
segundo a fé, é o Messias, então ele é o
verdadeiro rei, da linhagem de David, que
era de Belém. E puseram-no a nascer em
Belém.
3. 5. Os pastores foram os primeiros
avisados, porque Deus manifestou a sua
salvação a todos, a começar pelos que
constituíam a classe baixa dos pequenos e
pobres e viviam à margem da prática
religiosa.
3. 6. E os magos vieram do Oriente? E
quantos eram? E viram uma estrela sobre a
manjedoura?
Será inútil procurar nessa data algum
sinal especial no céu, porque, mais uma
vez, os Evangelhos também não são
nenhum tratado de astronomia. Eles vêm
do Oriente, porque “ex Oriente lux” (a luz
vem do Oriente) e Jesus é a verdadeira luz.
E o salvador veio para todos, também para
os pagãos. E Herodes não precisava de se
preocupar com a notícia, porque Jesus é
rei, mas o seu reino implica um reinado de
serviço e não de domínio.
3. 7. E, claro, a chamada fuga para o
Egipto não aconteceu, é apenas uma
metáfora para dizer que Jesus é que é o
verdadeiro novo Moisés, porque é o
Libertador definitivo de toda a escravidão e
opressão, incluindo a libertação da morte.
Como Jesus não morreu para o nada, mas
para a plenitude da vida em Deus, com a fé
nele nasceu para todos a esperança da vida
plena e definitiva em Deus.
4. Para todos, cada uma e cada um, de
coração, vai o meu vivo desejo de um novo
ano de 2026 bom, realmente bom, e feliz.
Com Jesus.
Sábado, 3 de Janeiro de 2026