domingo, 12 de fevereiro de 2023

ENTRE A SABEDORIA E A LOUCURA Frei Bento Domingues, O.P.

1. O conhecimento das sabedorias do passado é indispensável, mas não nos deve escravizar. O que sempre assim foi não pode abolir a novidade do presente e do futuro. Seria uma prisão e não uma luz. Este discernimento é essencial. Aliás, o sempre assim foi nem sequer é verdade. Pode-se também verificar que no começo não era assim. Não há culturas sem passado, mas culturas com muito passado, pouco presente e isoladas não abrem para um futuro imprevisível.

Da Bíblia, não consta apenas a Lei de Moisés e os profetas. É muito forte a corrente da literatura sobre a Sabedoria. Esta é um conhecimento baseado na experiência acumulada ao longo da vida e enriquecida através de várias gerações, que se fixou gradualmente em máximas, sentenças e provérbios breves e ritmados, recheados de imagens e comparações.

Um desses livros chama-se Ben-Sirá. O seu autor é Jesus Ben Sira, ou Sirácide. Terá vivido em Jerusalém no início do século II a.C.

Esta sabedoria religiosa não impede a liberdade nem a criatividade. O texto seleccionado para a liturgia de hoje diz precisamente: «Se quiseres, observarás os mandamentos; ser-lhes fiel será questão da tua boa vontade. Ele pôs diante de ti o fogo e a água; estende a mão para o que quiseres. Diante do ser humano estão a vida e a morte; o que ele escolher, isso lhe será dado, pois é grande a sabedoria do Senhor»[1].

Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios, tenta desvendar uma questão terrível: como foi possível cravar na cruz a própria Sabedoria de Deus, Jesus Cristo? Para aceder a esse mistério não há sabedoria humana que chegue. «A nós, porém, Deus o revelou por meio do Espírito. Pois o Espírito tudo penetra, até as profundidades de Deus»[2].

Mateus escreve para os judeus convertidos ao caminho do Nazareno. Perante a novidade do Evangelho de Jesus, muitos defendiam que os textos do Antigo Testamento (AT), sobretudo os da Lei, deviam ser abandonados. Mateus vai defender que a novidade cristã afirma-se não por essa negação, mas por um caminho que selecciona e absorve o que havia de melhor no AT, levando-o à plenitude. Nesse aspecto, abundam paradoxos do inverosímil. A sua mensagem podia ser resumida assim: vós, judeus convertidos, não perdeis nada do que é essencial e ganhais o que nem a Lei nem os profetas podiam dar. No entanto, se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus[3].

2. O caminho da sabedoria é o oposto ao da estupidez, da loucura e da vontade de dominar. René Girard (1923-2015) procurou estudar as raízes e a história da violência, mediante a análise do chamado desejo mimético, o desejo distorcido[4]. Sem a conversão do desejo não haverá paz.

O Papa Francisco é um peregrino contra a violência. Conseguiu ir em peregrinação à República Democrática do Congo e ao Sudão do Sul. Na crónica do Domingo passado, apresentei algumas passagens do seu extraordinário discurso em Kinshasa, com o qual abriu as suas intervenções, para que os cristãos não voltem a um passado de violência, mas se tornem obreiros da paz. É a opção que tem futuro.

Não posso reproduzir o seu belo discurso no Encontro com os Jovens, responsabilizando cada um. Ninguém, na história, te pode substituir. Pergunta-te então: Para que servem estas minhas mãos? Para construir ou destruir, dar ou reter, amar ou odiar? Vê! Podes apertar a mão e fechá-la, torna-se um punho; ou podes abri-la e colocá-la à disposição de Deus e dos outros. Aqui está a opção fundamental, desde os tempos antigos, desde Abel que ofereceu com generosidade os frutos do seu trabalho, enquanto Caim levantou a mão contra o irmão e o matou (cf. Gn 4, 8). Jovem que sonhas com um futuro diferente, é das tuas mãos que nasce o amanhã; das tuas mãos, pode vir a paz que falta a este país. Mas, concretamente, como fazer? Quero sugerir-vos alguns ingredientes para construir o futuro.

Desenvolveu, então, um autêntico tratado sobre a missão dos jovens, partindo dos dedos de uma mão, explicitando, a propósito de cada um, a importância da oração, da comunidade, da honestidade, do perdão e do serviço.

A peregrinação ao Sudão do Sul foi um acontecimento ecuménico. Com o Papa estava o Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, e o Pastor Iain Greenshields, moderador da Assembleia Geral da Igreja da Escócia.

Na Oração Ecuménica, o Papa salientou: Acabam de se elevar, desta amada e atribulada terra para o Céu, tantas orações. Vozes diferentes uniram-se, formando uma só voz. Juntos, como Povo santo de Deus, rezamos por este povo ferido. Como cristãos, a primeira coisa – e a mais importante – que somos chamados a fazer é rezar, para podermos trabalhar bem e termos a força de caminhar. Rezartrabalhar e caminhar: três verbos sobre os quais precisamos de refletir.

No Sudão do Sul existem dois milhões de deslocados internos. O grupo ecuménico foi visitá-los. Bergoglio destacou. Neste país, os jovens crescem aprendendo com as histórias dos idosos e, se a narrativa dos últimos anos aparece caraterizada pela violência, é possível – aliás, é necessário – inaugurar, a partir de vós, uma nova narrativa do encontro, onde aquilo que se sofreu não fique esquecido, mas seja habitado pela luz da fraternidade; uma narrativa que, no centro, coloque não só a dimensão trágica que vemos nos noticiários, mas também o desejo ardente da paz. Sede vós, jovens de diferentes etnias, as primeiras páginas desta narrativa! Se os conflitos, as violências e os ódios arrancaram das primeiras páginas de vida desta República as memórias boas, sede vós a escrever de novo a sua história de paz!

3. No regresso a Roma, o grupo ecuménico foi interrogado e todos deram o seu parecer sobre o que se tinha passado. Destaco duas passagens do Papa Francisco. Uma sobre a violência, o comércio de armas e o tribalismo em África e outra sobre a guerra mundial.

O tema da violência é de todos os dias. Acabamos de o constatar também aqui no Sudão do Sul. Mas custa ver como se provoca a violência. Um dos pontos é a venda de armas. Creio que esta seja a peste do mundo, a maior peste: o negócio, a venda de armas. A venda de armas não é só entre as grandes potências, mas também ao nível desta pobre gente. Por trás disto há interesses, sobretudo interesses económicos, visando explorar a terra, explorar os minerais, explorar as riquezas.

Hoje, estamos na guerra. Mas não é a única guerra: é justo que o diga! Há doze, treze anos, a Síria está em guerra; o Iémen está em guerra há mais de dez anos; pensa no Mianmar, no pobre povo rohingya que vagueia pelo mundo porque foi expulso da própria pátria. Guerra por todo o lado. Na América Latina, quantos focos de guerra! Sim, há guerras mais importantes pelo rumor que fazem, mas todo o mundo está em guerra, está autodestruindo-se. Paremos a tempo! É que uma bomba pede outra maior e outra ainda maior... sempre maior[5].

Não deixemos que a loucura da guerra vença a sabedoria da paz.

 

 

12 Fevereiro 2023



[1] Cf. Ben-Sirá 15, 15-20

[2] Cf. 1Cor 2, 6-10

[3] Cf. Mt, 5, 20-37

[4] Cf. René Girard, La Violence et le Sacré, 1972; Des chooses cachées depuis la fondation du monde, 1978; Le Bouc émissaire, 1982, Paris: Grasset.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Pe. ANTÓNIO MARTINS - IN MEMORIAM


 Faleceu o Pe Martins..

Tal como o Pe. Anjos, recentemente falecido em Moçambique, foi meu condiscípulo em Viseu, na Maia e em Venegono. Levava, porém, um avanço de 4 anos em relação a mim. Ele no último ano em cada uma daquelas Casas e eu no primeiro. Foi meu mestre nas artes cénicas sobretudo em Viseu e no Faleiro. Era um artista de mão cheia sobretudo nos papéis cómicos. Quem, dessa época, se não lembra do " Zé Pacóvio", papel que lhe ficou colado na pele dado o seu espírito alegre e brincalhão? Era um exímio jogador de futebol ombreando como Pe. Anjos ,o Alcides, o Delgado, entre outros bons  à época. Tinha talentos musicais dedicando-se à regência dos condiscípulos. Andou pelos Andes largos anos feito "andarilho de Deus". Cumpriu serviço militar em Angola com capelão onde o vim a reencontrar...ele de crucifixo na mão e eu de G3. Regressou, por fim, às "Casas" onde se formou desenvolvendo aí o seu apostolado missionário até que S. Pedro se lembrou dele e o chamou para a sua equipa. Em 2014 presidiu ao nosso grande encontro anual de Viseu.

Obrigado, Pe Martins, em meu nome e em nome da Olívia que muito te está grata. Obrigado em nome da AAAlunos Combonianos.


Viseu, Maio de 2014

domingo, 5 de fevereiro de 2023

LUZ DO MUNDO E SAL DA TERRA Frei Bento Domingues, O.P.

 

1. Para alguns meios de comunicação, a religião em Portugal deixou de ser clandestina. Não são apenas os noticiários sobre as JMJ, como veremos. Existem também estudos fundamentais, como o coordenado por Alfredo Teixeira, sobre a Religião à luz das ciências humanas[1].

A liturgia de hoje abre com uma proclamação de Isaías que destaca o que deve ser a luz das religiões: «Reparte o teu pão com o faminto, dá pousada aos pobres sem abrigo, leva roupa ao que não tem que vestir e não voltes as costas ao teu semelhante. Então, a tua luz despontará como a aurora e as tuas feridas não tardarão a sarar»[2].

É assim que nos podemos tornar sal da terra, como disse Jesus segundo o Evangelho de S. Mateus. Mas, se o sal perder a força, não serve para nada senão para ser lançado fora e pisado. Vós sois a luz do mundo. Não se acende uma lâmpada para a esconder, mas para a colocar sobre o candelabro que ilumina toda a casa. É assim que deve brilhar a vossa luz para que, vendo as vossas boas obras, os seres humanos glorifiquem o vosso Pai que ninguém vê. São as vossas boas obras que falam da sua presença[3].

O conhecido teólogo russo, P. Evdokimov (1901-1970), dizia que «os cristãos têm feito todo o possível para esterilizar o Evangelho; parece que o submergiram num líquido neutralizante»[4].

As JMJ serão uma luz para a sociedade de todos os continentes? São tantas as discussões sobre as questões económicas que levanta, num país pobre e cheio de carências a muitos níveis da vida colectiva, que as interrogações sobre o alcance cristão das JMJ têm sido muito pouco debatidas.

2. Qual terá sido o percurso sinodal da preparação destas Jornadas? Deveriam inscrever-se no processo desencadeado, em todo o mundo católico, por esta iniciativa do Papa Francisco para dar continuidade à pergunta que vem do Vaticano II: Igreja, que dizes de ti mesma? Já passou por várias etapas. Começou pelas paróquias, pelos movimentos, pelas dioceses de todo o mundo. O seu intuito era de se interrogar a partir das bases, para sentir o que elas pensavam e propõem para a Igreja. O resultado desse questionamento foi entregue às dioceses e às Conferências Episcopais de cada país, cujos resultados foram enviados ao Secretariado Geral do Sínodo. Está em curso a etapa continental antes da Reunião Sinodal em Outubro 2023, em Roma.

Dito isto, já foram apresentados os ganhos e perdas económicos das JMJ nos diversos países que as acolheram. Não sei que lições foram tiradas para medir o que era e não era possível realizar em Portugal, mas seria continuar apenas no plano económico e político. Não pode ser essa a perspectiva cristã das Jornadas Mundiais. Surge a pergunta: já terão sido avaliados os frutos, à luz do Evangelho, colhidos nesse grande acontecimento – a nível local e mundial – na reanimação das comunidades cristãs segundo o caminho sinodal multifacetado?

Dirão, com verdade, que são interrogações de um ignorante que não terá acompanhado suficientemente a preparação das JMJ desde o início.

As minhas interrogações nada têm a ver com a desconfiança e a hostilidade, manifestada por alguns bispos e cardeais, à realização do Sínodo.

3. A tão aguardada peregrinação de paz e reconciliação do Papa Francisco à República Democrática do Congo já aconteceu. Também já me comovi com o seu extraordinário discurso no Encontro com as Autoridades, a Sociedade civil e o Corpo Diplomático em Kinshasa.

Este discurso, várias vezes aplaudido, teve como ritmo, não apenas a realidade e metáfora do diamante, mas também o seu apelo: «tirem as mãos da República Democrática do Congo, tirem as mãos da África! Basta com este sufocar a África: não é uma mina para explorar, nem uma terra para saquear. Que a África seja protagonista do seu destino! Que o mundo recorde os desastres perpetrados ao longo dos séculos em prejuízo das populações locais, e não esqueça este país e este continente. Que a África, sorriso e esperança do mundo, conte mais: fale-se mais sobre ela, tenha mais peso e representatividade entre as Nações!».

Esta declaração vem a seguir a uma evocação histórica: «é trágico que estes lugares, e o continente africano em geral, padeçam ainda de várias formas de exploração. Existe aquele lema que vem do inconsciente de muitas culturas e de muitas pessoas: África deve ser explorada. Isto é terrível! De facto, depois da exploração política, desencadeou-se um colonialismo económico igualmente escravizador».

Em consonância com a própria liturgia dominical, o Papa refere-se a um célebre filósofo e teólogo africano: «Na sociedade, muitas vezes o que obscurece a luz do bem são as trevas da injustiça e da corrupção. Já há séculos se perguntava Santo Agostinho, nascido neste continente: Se não se respeita a justiça, que são os Estados senão grandes bandos de ladrões?[5] Deus está do lado de quem tem fome e sede de justiça (cf. Mt 5, 6). É preciso não se cansar de promover, em cada sector, o direito e a equidade contrastando a impunidade e a manipulação das leis e da informação».

Não larga, na sua intervenção, a eficácia da simbólica do diamante abundante naquele país: «Um diamante sai da terra genuíno, mas em estado bruto, carecendo de ser trabalhado. Assim, também os diamantes mais preciosos da terra congolesa, que são os filhos desta nação, devem poder usufruir de válidas oportunidades educativas, que lhes permitam fazer frutificar plenamente os brilhantes talentos que possuem. A educação é fundamental: é o caminho para o futuro, o caminho a percorrer para se alcançar a plena liberdade deste país e do continente africano. É urgente investir nela para preparar sociedades que só serão consolidadas se bem instruídas, só serão autónomas se plenamente conscientes das suas potencialidades e capazes de as desenvolver com responsabilidade e perseverança. Mas há muitas crianças que não vão à escola: quantas, em vez de receberem uma digna instrução, são exploradas! Muitas morrem, sujeitas a trabalhos escravizadores nas minas. Não se poupem esforços para denunciar o flagelo do trabalho infantil e acabar com ele. Quantas adolescentes são marginalizadas e violadas na sua dignidade! As crianças, as adolescentes, os jovens são o presente da esperança, são a esperança: não permitamos que seja extinta, mas cultivemo-la com paixão!»

A dimensão ecológica não foi esquecida: «Dom da terra, o diamante faz apelo à salvaguarda da criação, à protecção do meio ambiente. Situada no coração da África, a República Democrática do Congo abriga um dos maiores pulmões verdes do mundo, que deve ser preservado».

Este espantoso discurso não se refere apenas à RDC e à África. É um alerta para todos os que, em vez de a ajudarem, a exploram.

Francisco não pode renunciar! Precisamos do sal e da luz do seu contínuo testemunho de alegria e de indignação.

 

Fevereiro 2023



[1] Alfredo Teixeira (coord.), Religião, Território e Identidade. Contextos Metropolitanos, Imprensa Nacional, Colecção Estudos de Religião, 2022

[2] Cf. Is 58, 7-10

[3] Cf. Mt 5. 13-16

[4] Citado por José A. Pagola, in Religión Digital, 30.01.2023. Cf. Paul Evdokimov, El Amor Loco de Dios, Narcea Editora, 1990

[5] De civitate Dei, IV, 4