segunda-feira, 29 de maio de 2023

SONHOS DO UNIVERSALISMO CRISTÃO Frei Bento Domingues, O.P.

 

1. Podemos chamar etiologias míticas às narrativas que tentam explicar a origem de certas crenças, costumes, rituais, memórias, acontecimentos e monumentos que escapam à evidência racional. A Torre de Babel, de que fala a Bíblia (Génesis 11, 1-9), situa-se nesse universo mítico. As dificuldades que a multiplicidade das línguas nos causa seria um castigo divino.

O melhor é começar por ler essa célebre narrativa: «Em toda a Terra, havia somente uma língua e empregavam-se as mesmas palavras. Emigrando do oriente, os homens encontraram uma planície na terra de Chinear e nela se fixaram. Disseram uns para os outros: vamos fazer tijolos e cozamo-los ao fogo. Utilizaram o tijolo em vez da pedra e o betume serviu-lhes de argamassa. Depois disseram: vamos construir uma cidade e uma torre, cujo cimo atinja os céus. Assim, havemos de nos tornar famosos e evitamos que nos dispersemos por toda a superfície da Terra».

Ficamos com a ideia de que Deus ficou assustado com esta ousadia dos seres humanos que ambicionavam transformar-se em seus rivais.

«O Senhor reagiu: Eles constituem apenas um povo e falam uma única língua. Se principiaram desta maneira, coisa nenhuma os impedirá, de futuro, em realizarem todos os seus projectos. Vamos, pois, descer e confundir de tal modo a sua linguagem que não consigam compreender-se uns aos outros.

«E o Senhor dispersou-os dali por toda a superfície da Terra e suspenderam a construção da cidade. Por isso, foi-lhe dado o nome de Babel, visto ter sido lá que o Senhor confundiu a linguagem de todos os habitantes da Terra e foi também dali que o Senhor os dispersou».

Este mito etiológico não vem apenas na Bíblia. Esta recebe-o da cultura ambiente. Tem paralelos sumério e assírio, greco-romano e outras tradições antigas[1]. Está colado à experiência humana muito dolorosa de querer comunicar com outros seres humanos e não conseguir por causa de línguas diferentes.

Vendo bem, o que parece assustar a Deus é a destruição da diversidade humana: não aceita uma só língua para todos os povos. É uma apologia da diversidade e do apreço por todas as diferenças culturais. A tendência para a uniformidade é imperialista, totalitária, elimina a diferença em favor do mais forte, do mais poderoso.

Já me referi, várias vezes, a um texto exemplar de J. P. Audet, um grande exegeta, no qual sustenta que, na Bíblia, não existe o equivalente do mito de Prometeu tal como este vem apresentado em Hesíodo e Ésquilo.

Nesse mito, os deuses escondem aos seres humanos o segredo da vida feliz. Aquilo que os seres humanos precisam para fazer a sua vida, por sua conta e risco, o fogo (ciências e técnicas), tem de ser arrancado aos deuses contra a sua vontade, como o fez Prometeu. Deuses e seres humanos são rivais. A felicidade dos deuses é a desgraça dos seres humanos e a felicidade dos seres humanos é uma usurpação aos deuses. Nada disto na Bíblia. Aí, a terra é dada ao homem e à mulher para que a dominem e façam dela a sua morada.

A pastorícia, a agricultura, a música, as técnicas, os negócios, as ciências e a sabedoria não são roubos a Deus. São acontecimentos normalíssimos, embora não assim o trabalho escravizante, fruto de um ser humano que se desorienta e desorienta a vida toda, que se perde do seu irmão e perde o seu irmão[2].

2. Estamos a celebrar a festa cristã do Pentecostes. Conheci muito bem uma leitura que contrapunha radicalmente o mito de Babel ao Pentecostes cristão. Era só este o defensor da diversidade. Na leitura que acabei de fazer, este contraste fica muito atenuado.

O Pentecostes cristão inscreve-se numa tradição judaica, numa festa agrícola, na qual, é celebrada a entrega dos Dez Mandamentos no Monte Sinai (a Lei), 50 dias depois do Êxodo.

Para S. Lucas, os Actos dos Apóstolos são a primeira história da Igreja. É o próprio Lucas que o conta.

«No meu primeiro livro, ó Teófilo, narrei as obras e os ensinamentos de Jesus, desde o princípio até ao dia em que, depois de ter dado, pelo Espírito Santo, as suas instruções aos Apóstolos que escolhera, foi arrebatado ao Céu»[3].

«Quando chegou o dia do Pentecostes, encontravam-se todos reunidos no mesmo lugar. De repente, ressoou, vindo do céu, um som comparável ao de forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde eles se encontravam. Viram então aparecer umas línguas, à maneira de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles.

«Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes inspirava que se exprimissem. Ora, residiam em Jerusalém judeus piedosos provenientes de todas as nações que há debaixo do céu. Ao ouvir aquele ruído, a multidão reuniu-se e ficou estupefacta, pois cada um os ouvia falar na sua própria língua. Atónitos e maravilhados, diziam: Mas esses que estão a falar não são todos galileus? Que se passa então, para que cada um de nós os oiça falar na nossa língua materna? (…) Ouvimo-los anunciar, nas nossas línguas, as maravilhas de Deus!

«Estavam todos assombrados e, sem saber o que pensar, diziam uns aos outros: Que significa isto? Outros, por sua vez, diziam, troçando: Estão cheios de vinho doce.

«De pé, com os Onze, Pedro ergueu a voz e dirigiu-lhes então estas palavras: Homens da Judeia e todos vós que residis em Jerusalém, ficai sabendo isto e prestai atenção às minhas palavras. Não, estes homens não estão embriagados como imaginais, pois, apenas vamos na terceira hora do dia. Mas tudo isto é a realização do que disse o profeta Joel: Nos últimos dias, diz o Senhor, derramarei o meu Espírito sobre toda a criatura. Os vossos filhos e as vossas filhas hão-de profetizar; os vossos jovens terão visões e os vossos velhos terão sonhos»[4].

Sem a subversão da festa judaica do Pentecostes – da Lei do Sinai – não haveria a festa aberta a todos os povos de todas as línguas e culturas. É o anúncio da única globalização desejável, a do Espírito que tudo fecunda, sem nada apagar.

3. O Evangelho de S. João, ao terminar, adverte: «Jesus realizou muitos outros sinais na presença dos discípulos, que não estão escritos neste livro. Mas estas coisas foram escritas para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o filho de Deus e, para que, acreditando, tenhais vida em nome dele».

Este Evangelho concentrou tudo no dia de Páscoa: «Ao entardecer no mesmo dia, primeiro da semana, e estando as portas trancadas onde estavam os discípulos devido ao medo dos judeus, veio Jesus e pôs-se de pé no meio deles e diz-lhes: Paz para vós. E dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos alegraram-se ao verem o Senhor. Jesus falou-lhes de novo: Paz para vós. Tal como o Pai me enviou, eu envio-vos a vós. E dizendo isto, soprou e diz-lhes: Recebei o Espírito Santo».

O seu Pentecostes deve tornar-se a missão da Igreja entre todos os povos, de todos os tempos. É o sonho do universalismo cristão!

 

 

28 Maio 2023



[1] Cf. Wikipédia

[2] Cf. J. P. Audet, La revanche de Promété ou le drama de la religion et de la culture, Rev. Biblique, 73 (1964) 5-29

[3] Act 1, 1-2

[4] Act 2, 1-17

sábado, 27 de maio de 2023

Os quatro Pentecostes - Pe. João mc

                                Os quatro Pentecostes

Ano A - Pentecostes
Evangelho: João 20,19-23

Hoje a Igreja celebra a grande solenidade do Pentecostes, a festa da descida do Espírito Santo, cinquenta dias depois da Páscoa, segundo a narração dos Actos dos Apóstolos (ver primeira leitura). 

O Pentecostes, que significa "quinquagésimo dia" (do grego), era uma festa judaica, uma das três festas de peregrinação ao templo de Jerusalém: a Páscoa, o Pentecostes e a Festa das Tendas (a festa das colheitas, no Outono). Trata-se de uma festa agrícola pela colheita dos primeiros frutos, celebrada no 50.º dia após a Páscoa. É também chamada de "Festa das Semanas", devido ao facto de ocorrer sete semanas após a Páscoa. Esta festa agrícola estava associada também à recordação da entrega da Lei ou Torá por Moisés no Monte Sinai. 

O Pentecostes cristão é o cumprimento e a conclusão do tempo pascal. É a nossa Páscoa, a passagem para uma nova condição, já não sob o domínio da Lei, mas do Espírito. É a festa do nascimento da Igreja e o início da Missão.

As leituras da festa apresentam-nos, de facto, quatro vindas do Espírito Santo ou quatro modos diferentes, mas complementares da Sua presença. Eu diria que são quatro "Pentecostes"! 

 

1. O Pentecostes da Igreja

A primeira leitura (Actos 2,1-11) apresenta-nos uma vinda do Espírito surpreendente, impetuosa e luminosa: "Quando chegou o dia de Pentecostes, os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um barulho como se fosse uma forte ventania, que encheu a casa onde eles se encontravam. Então apareceram línguas como de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo". É uma vinda que suscita espanto e admiração, entusiasmo e euforia, consolação e coragem. É absolutamente gratuita, imprevisível e nunca programável. 

Trata-se de casos, pentecostes excepcionais. Encontramos alguns deles no livro dos Actos, mas houve-os também na história da Igreja, embora não tão vistosos e imponentes, mas sempre de grande fecundidade. De facto, o Pentecostes é sempre seguido de uma primavera eclesial. Deus sabe como precisamos dela, no Inverno eclesial que estamos a atravessar no Ocidente! Só a oração incessante da Igreja, a humilde paciência do semeador e a docilidade ao Espírito podem obter uma tal graça!

 

2. O Pentecostes do mundo

A efusão do Espírito estende-se a toda a criação. É Ele "que dá vida e santifica o universo" (Oração Eucarística III). É Ele que "faz entrar o pólen primaveril no seio da história e de todas as coisas" (Ermes Ronchi). Por isso, com o Salmista, invocámos o Pentecostes sobre toda a terra: "Enviai, Senhor, o vosso Espírito, e renovai a face da terra." (Salmo 103). 

Esta deveria ser uma típica oração do cristão: invocar o Pentecostes sobre o mundo, sobre as dinâmicas que regem a nossa vida social, sobre os acontecimentos da história. Toda a gente se queixa de "como o mundo vai mal", do "mau espírito" que o anima, mas quantos de nós fazem a "epiclese" (invocação) do Espírito para que Ele desça sobre as pessoas, as situações e os acontecimentos da nossa vida quotidiana?

 

3. O Pentecostes dos carismas ou do serviço

O apóstolo Paulo, na segunda leitura (1 Coríntios 12), chama a nossa atenção para uma outra epifania do Espírito: os carismas. "Há vários carismas, mas um só é o Espírito.... A cada um é dada uma manifestação particular do Espírito para o bem comum ..." Hoje fala-se muito de carismas e da partilha dos serviços eclesiais, mas há um crescente e preocupante desinteresse das gerações mais jovens. O sacramento da confirmação, o "Pentecostes pessoal", que deveria tornar-se a passagem para a plena participação na vida da Igreja, é infelizmente o momento da deserção. Um sinal claro de que falhámos no nosso objectivo de iniciação cristã. O que é que se deve fazer? A Igreja deverá dotar-se de um "ouvido" extremamente sensível e reforçar as suas "antenas" para perceber a Voz do Espírito neste momento particular da sua história. Atrevo-me a dizer que o problema mais grave é a mediocridade espiritual das nossas comunidades. Preocupados em salvaguardar a ortodoxia e a boa ordem da liturgia, perdemos de vista o essencial: a experiência de fé!

 

4. O Pentecostes do domingo

A liturgia propõe-nos de novo o evangelho da aparição de Jesus ressuscitado na tarde de Páscoa (João 20,19-23). Um evangelho cheio de ressonâncias pascais: 
"Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos”". 
Este evangelho é chamado o "pequeno Pentecostes" do evangelho de João, porque aqui a Páscoa e o Pentecostes coincidem. O Ressuscitado oferece o Espírito na tarde de Páscoa. Todo este contexto faz pensar na reunião dominical e na Eucaristia. É aí que o Espírito "paira sobre as águas" (Gênesis 1,2) do caos e do medo da morte e traz a paz, a harmonia e a alegria da vida. O papel preeminente do Espírito deve ser redescoberto. Este é o Seu tempo. Sem Ele, não podemos proclamar que "Jesus é o Senhor" (I Coríntios 12,3), nem clamar "Abbá! Pai!" (Gálatas 4,6). Não há Eucaristia sem a intervenção do Espírito. Por isso, entremos na Eucaristia suplicando no nosso coração: Vem, vem, Espírito Santo! 

 

Para concluir, como é que navegas no mar da vida: a remos ou à vela?

Respiramos o Espírito Santo. Ele é o oxigénio do cristão. Sem Ele, a vida cristã é lei e dever, é um remar constante, com esforço e cansaço. Com Ele, é a alegria de viver e de amar, é a leveza de navegar à vela. Agora que, depois do tempo pascal, retomamos o tempo comum, com a rotina da vida, como te preparas para navegar: com a força dos remos ou deixando-te levar pelo Vento que sopra na vela desfraldada do teu coração?

 

P. Manuel João Pereira Correia mccj
Castel d'Azzano (Verona), 26 de Maio de 2023

P. Manuel João Pereira Correia mccj
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domingo, 21 de maio de 2023

POR UMA IGREJA EM CONTÍNUA TRANSFORMAÇÃO Frei Bento Domingues, O.P.

 

1. O tema da conspiração contra o Papa Francisco parece inesgotável.  Deparei, na Religión Digital, com uma longa entrevista de Jesus Bonito a Vicens Lozano, autor do livro VaticanGate[1], a investigação que desvenda as raízes e os protagonistas dessa militante oposição. A Espanha estaria à cabeça desse movimento contra Francisco, acompanhada pela Itália e os Estados Unidos. Com grandes recursos económicos procuram que a Europa volte a ser a “Europa cristã” anterior ao concílio Vaticano II. O objetivo é que este Papa renuncie, desapareça quanto antes e voltemos a ter uma Igreja tradicional, como Deus manda.

Aqui fica o registo dessa obra, mas não estou nada interessado em alimentar o vício da autorreferencialidade da Igreja.

Como escreveu Enzo Bianchi[2], «há mais de sessenta anos, desde antes do Concílio, que [a Igreja] só se preocupa consigo própria. Todos os discursos que temos feito desde então colocam a Igreja no centro, a Igreja e a sua estrutura, a Igreja e os seus ministérios, a Igreja e a sua missão, a Igreja e a sua liturgia, sempre e só a Igreja, obsessivamente, colocada no centro de todos os discursos. E tenho a impressão de que isto, mesmo que nem todos estejam conscientes disso, frustrou e cansou as pessoas e não deu esse primado à Palavra do Evangelho, que pelo menos brilhou durante o Concílio como uma urgência, nem deu essa centralidade a Cristo que deveria ser objecto de fé, de preocupação, de toda a solicitude pastoral. Em vez disso, sempre, sempre a Igreja. Creio que este eclesiocentrismo reinante, do qual não somos capazes de nos despojar, não nos faz bem, não nos fez nenhum bem. Também esperava que este Sínodo assumisse uma forma em que Cristo fosse colocado mais no centro, mas em vez disso, ficamos mais uma vez centrados nos problemas da Igreja»[3].

É breve este texto, mas toca numa questão essencial. A Igreja não existe para falar dela própria, mas para celebrar a presença de Cristo no nosso mundo, para nos lembrar que Ele é nosso contemporâneo em todas as dimensões da vida. Na liturgia cristã, nunca se pode prescindir da proclamação do Novo Testamento (NT) que fala de um acontecimento histórico, de há dois mil anos, mas cuja realidade mística, salvífica, atinge todos os tempos e lugares, acolhida pela fé viva, como confessa e explica Tomás de Aquino[4].

Além disso, nunca se pode esquecer que Deus não está dependente da Igreja nem dos sacramentos, como se actuasse apenas por meio da Igreja e dos sacramentos. Deus misterioso está presente e actuante em todo o mundo, mas não se impõe à liberdade humana. Quando se dizia que fora da Igreja não há salvação, estávamos inconscientemente a dizer que a acção da Igreja restringia a presença de Deus no mundo.  A Igreja estaria, segundo essa falsa concepção, a mandar em Deus e na sua liberdade. Deixava de ser uma mediação do divino para se tornar proprietária de Deus. Isso seria um puro absurdo teológico.

É a própria Igreja institucional que não pode aceitar esse exclusivismo eclesial. Seria um atentado contra Deus e o Seu mistério insondável. A missão essencial das igrejas consiste em proclamar que, em Jesus de Nazaré, Deus revelou-se nosso irmão para nos dizer que, fora do trabalho por um mundo de irmãos, não há salvação.

2. As comunidades cristãs nasceram da convicção de que Jesus de Nazaré não desapareceu com a sua morte. Todos os textos confessam que Deus O ressuscitou. Continua vivo. Como escreveu Frederico Lourenço, esses textos, «por terem sido escritos num grego despretensioso, sem vestígios da sumptuosidade verbal dos grandes autores helénicos, é provável que estes quatro textos nem merecessem ao leitor culto da época o alto estatuto de literatura. No entanto, estes textos conquistaram o mundo antigo, tanto grego como romano. Lendo-os dois mil anos depois, não é difícil perceber porquê. Sobre um desses textos já se escreveu que se trata do “mais divino de todos os livros divinos”: na verdade, essa descrição assenta a qualquer um deles. São textos que – com a sua mensagem sublime veiculada por palavras cuja beleza desarmante ainda deixa arrepiado quem os leu e releu ao longo de uma vida inteira – estão simplesmente numa categoria à parte»[5].

Não se deve contrapor Cristo e as comunidades cristãs. Do ponto de vista histórico, as comunidades cristãs das origens não nasceram com o apóstolo dos gentios, mas precederam-no. Paulo reconhece a sua dívida em relação a essas comunidades. Na Carta aos Gálatas, recordando a importantíssima assembleia de Jerusalém que acolheu os gentios na Igreja, que era só de Judeus, escreve: «Para que não corresse o risco de correr em vão (…) estenderam-me a sua mão direita em sinal de comunhão»[6]. Paulo não cultivava a mística do isolamento, mas da comunhão.

3. José Tolentino Mendonça, numa obra encantadora para reler S. Paulo, observa: «Não admira que nas gerações seguintes, junto dos Padres da Igreja dos séculos I e II, se tenha assistido a uma certa marginalização de Paulo, ou a uma desconfiança persistente. Como escreve Pierre-Marie Beaude, “eles estavam preocupados com a disciplina, a criação de estruturas estáveis, sublinhando a importância dos ritos identitários – tudo coisas que não estavam no horizonte do pensamento metafórico do apóstolo”. Para Paulo, a Igreja está destinada a habitar uma contínua transformação. E que transformação é essa? O epistolário paulino não deixa margem para dúvidas: essa transformação é mística. Não é certamente por acaso que Paulo utiliza fórmulas do domínio da mística para descrever, não um exercício de piedade individual, mas o itinerário básico de todo o crente. Acolher continuamente o Espírito e tornar-se portador de Cristo é a condição normal e vulgar de todo o cristão»[7]. A festa da Ascensão não é uma evasão da história, mas a universalização da Sua presença.

Tomás de Aquino, no interior de uma obra imensa e muito arrazoada para nos dar razões da nossa fé e da nossa esperança, afirma, de uma forma muito enxuta, que o que há de essencial no NT é a graça do Espírito Santo acolhida na fé. Tudo o resto é só para ajudar[8].

A história das igrejas mostra que aquilo que foi concebido para ajudar corre o risco de se transformar, muitas vezes, no centro de todas as preocupações. Bergoglio vê aí uma das patologias da Igreja que se tem mostrado muito difícil de curar, mas quem se deixa possuir pelo Espírito de Cristo não desiste nem pode desistir da verdadeira reforma da Igreja.

 

 

 21 Maio 2023



[1] RD, 01.05.2023; Roca Editorial, Março 2023

[2] Enzo Bianchi, fundador e ex-prior do Mosteiro de Bose e da comunidade religiosa ecuménica, Comunità di Bose.

[3] Cf. Luís Castro, As raízes do dinamismo sinodal da Igreja nos Actos dos Apóstolos, in Igreja e Missão, 251 (Set.-Dez. 2022), Ano 75, pp. 255-256

[4] ST, III Pars, q. 48 e 49

[5] Frederico Lourenço, Bíblia I. Novo Testamento. Os Quatro Evangelhos, Quetzal, 2016, p. 22

[6] Gal 2, 2.9

[7] José Tolentino Mendonça, Metamorfose necessária. Reler São Paulo, Quetzal, 2022, pp. 150-151

[8] Cf. ST I-II, qq. 106-108

Em missão, em onze! - Pe. João

 Em missão, em onze!

Ano A - Páscoa - 7º Domingo - Ascensão do Senhor
Evangelho: Mateus 28,16-20

Estamos na festa da Ascensão do Senhor, que o livro dos Actos dos Apóstolos situa, simbolicamente, 40 dias depois da Páscoa (ver primeira leitura Actos 1,1-11). Gostaria de salientar que, segundo a versão do Evangelho de Mateus, esta é a única aparição de Jesus aos seus discípulos. Anteriormente, só tinha aparecido às duas Marias que tinham ido ao sepulcro e a quem Jesus tinha confiado a missão de dizer aos discípulos que fossem para a Galileia: "Ide dizer aos meus irmãos que se dirijam à Galileia, pois é lá que eles me verão" (Mateus 28,10).

Creio que nenhum de nós se escandaliza com esta incoerência histórica entre os evangelhos. Os principais factos da vida de Jesus, relatados pelos apóstolos, eram já património comum das comunidades. Quando os evangelistas escreveram os evangelhos, recolheram as narrações e deram-lhes uma estrutura literária com uma orientação teológica e catequética particular, tendo em conta as necessidades das suas comunidades.

Partilho convosco algumas reflexões, tendo em vista o evangelho de hoje (um texto de apenas cinco versículos!) e tentando interiorizar a sua mensagem. É a conclusão do evangelho de Mateus e, portanto, o seu clímax e a chave para reler todo o seu evangelho. Não poderíamos sobrestimar o seu significado.

 

1. A Galileia, o lugar do encontro: Os onze discípulos partiram para a Galileia, em direcção ao monte que Jesus lhes indicara.

Um encontro longe do centro religioso e político de Jerusalém, na periferia, na fronteira dos gentios, onde tinha começado a aventura de Jesus e dos doze. De lá, de cá, da nossa Galileia, se parte agora, já não para o centro, mas para as fronteiras do mundo, para todos os povos. É a grande aventura da Igreja, que durará "até ao fim dos tempos". Jesus, que deixara a Galileia para concluir a sua viagem em Jerusalém, parece agora deixá-la para trás e ignorar o templo. São realidades que pertencem ao passado! 

 

2. Os onze discípulos, os protagonistas 

São onze, apenas onze, e já não doze. Falta um. Essa ausência será pesada, cheia de interrogações, motivo de tristeza e de embaraço. É por isso que Pedro vai propor preencher essa cadeira vazia com a escolha de Matias (Actos 1,26). Mas Matias lembra-me que eu poderia ser tanto ele, Matias, o novo recruta, como aquele que ele foi chamado a substituir, Judas.

É com estes onze, sinal de incompletude e imperfeição, que também nós somos convocados para a grande missão. Perante a imensidão da tarefa, seríamos tentados a fazer um recenseamento das forças com que podemos contar, como fez o rei David, suscitando a ira de Deus (ver 2 Samuel 24). Não serão isso, de facto, tantas das nossas estatísticas? Deus parece quase zombar dos nossos cálculos e reduzir cada vez mais as nossas forças, como reduziu as fileiras de Gedeão, em marcha contra os madianitas: de trinta e dois mil para trezentos homens, porque "Israel poderia gloriar-se, dizendo:‘Foi a minha mão que me salvou’" (Juízes 7,2). E agora será com onze homens que Jesus vai fermentar o mundo!

 

3. A dúvida que torna a fé verdadeira: Quando o viram, prostraram-se. Mas duvidaram. Jesus aproximou-se e disse-lhes...

Eles viram-no, prostraram-se, mas duvidaram! As mulheres que tinham ido ao túmulo, ao verem Jesus, "aproximaram-se, abraçaram os seus pés e adoraram-no" (Mateus 28,9). Aqui, porém, há dúvidas e é Jesus que tem de se aproximar dos onze. Os evangelistas não poupam os apóstolos! Põem em evidência os seus limites, as suas fraquezas, as suas incompreensões, a sua lentidão, isto é, a sua inadequação! São homens como nós. Pensando neles, ninguém poderá dizer: "Mas como poderia o Senhor escolher-me a mim?!" 

Não devemos envergonhar-nos das nossas dúvidas. Elas fazem parte da dinâmica da fé. Pelo contrário, deveríamos interrogar-nos seriamente se acreditaríamos de facto, se a nossa fé fosse "sem dúvidas"! A dúvida leva a sério a grandeza da fé.

 

4. Todo o poder é dado a um ... blasfemo e maldito de Deus: Todo o poder me foi dado no Céu e na terra!

Aquele que tinha sido julgado pelas autoridades religiosas como blasfemo e amaldiçoado por Deus recebe do Pai "todo o poder no céu e na terra"! Que bofetada àqueles que se julgavam os representantes de Deus! 
Tudo está agora nas Suas mãos (João 13,3). Nas mãos do Amor. Nada nem ninguém nos pode tirar dessas mãos (Romanos 8,35; João 10,28). Uma certeza consoladora e libertadora que solta as amarras paralisantes dos nossos medos.

 

5. O mandato missionário da Igreja: Ide e ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei.

Ide é a primeira palavra de ordem. Retomar o caminho da missão, a de Jesus. É impressionante como desde o início a Igreja, uma realidade minúscula e insignificante, teve esta consciência muito forte de ser enviada ao mundo inteiro! Para fazer discípulos de todas as nações, discípulos DELE, não nossos! Baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ou seja, mergulhando-as (é este o sentido do verbo grego baptizar) no Amor da Trindade! Ensinando, não como mestres, mas como discípulos e testemunhas do Mestre (Mateus 23,10).

 

6. A Ascensão, plenitude da Encarnação: Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos!

É a última palavra de Jesus, o Emanuel (Mateus 1,13), e a sua encarnação em cada um de nós. A presença é algo de indefinível. Pode-se estar presente com o corpo e estar ausente! A Ascensão não é uma partida, mas um modo novo e mais profundo de presença, "mais íntimo de nós do que nós próprios" (Santo Agostinho), de tal modo que "já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim" (Gálatas 2,20).

 

7. Uma sugestão 

Quando vos parecer que Cristo é o grande ausente na vossa vida ou na nossa sociedade; quando vos parecer que o "príncipe deste mundo" já retomou o seu poder sobre ele... tomai de novo nas vossas mãos este evangelho e escutai esta palavra que nunca passará: Todo o poder me foi dado no Céu e na terra! E lembremo-nos da última e derradeira promessa de Jesus: Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos!

 

P. Manuel João Pereira Correia mccj
Castel d'Azzano (Verona), de Abril de 2023

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terça-feira, 16 de maio de 2023

Mulheres a votar no Sínodo dos Bispos - Pe Anselmo Borges

 Será que, de modo geral, as mães não são mais sacrificadas pelos e para os filhos do que os pais? Evidentemente, é um amor diferente, mas a pergunta tem sentido: alguém se sacrificou e nos amou e ama mais do que a mãe? Por isso, dá que pensar o modo como as mulheres foram e são tratadas ao longo da História. E impressiona que também as religiões tenham de ser acusadas, pois, com excepção do taoísmo, tendem para a misoginia. Ficam aí alguns textos universais significativos. "A mulher deve adorar o homem como um deus" (Zaratustra). Um texto antigo budista diz que "a filha deve obedecer ao pai; a esposa, ao marido; por morte deste, a mãe deve obedecer ao filho". "A natureza só faz mulheres quando não pode fazer homens. A mulher é, portanto, um homem falhado" (Aristóteles). "Toda a malícia é leve, comparada com a malícia da mulher" (Bíblia, Ben Sira). "Dou-te graças, Senhor, por não ter nascido mulher" (oração dos judeus ortodoxos). "As mulheres estão essencialmente feitas para satisfazer a luxúria dos homens. Não permito à mulher ensinar nem ter autoridade frente ao homem, mas estar em silêncio" (São João Crisóstomo). "A ordem justa só se dá quando o homem manda e a mulher obedece" (Santo Agostinho). "Nada mais impuro do que uma mulher com a menstruação. Tudo o que toca fica impuro" (São Jerónimo). "No que se refere à natureza do indivíduo, a mulher é defeituosa e mal nascida, porque o poder activo da semente masculina tende a produzir um ser perfeito parecido, do sexo masculino, enquanto que a produção de uma mulher provém de uma falta do poder activo " (Santo Tomás de Aquino). "Os homens têm autoridade sobre as mulheres em virtude da preferência que Deus deu a uns sobre outros" (Alcorão, que permite desposar duas, três ou quatro mulheres e também bater nas que se rebelem). A pergunta é: que razões se apresentam para esta situação? As primeiras figurações da divindade foram femininas, mas, depois, com a sedentarização, seguiu-se, também no domínio religioso, o modelo predominantemente patriarcal, com as mulheres no lar e sob a tutela dos homens. Alguma inveja em relação às mulheres: afinal, da vida quem percebe são elas. Os homens têm mais força física, mas elas são mais resistentes. As mulheres estavam sujeitas à impureza ritual e eram consideradas passivas também na geração, pois o óvulo feminino só foi descoberto em 1827; dada esta passividade, a mulher não poderia ser imagem de Deus e, embora Deus esteja para lá da determinação sexual, nunca se poderia recitar o Credo, dizendo: "Creio em Deus, Mãe todopoderosa, criadora dos céus e da terra." Ela não poderia pregar. Foi um escândalo quando o Papa João Paulo I disse que Deus também é Mãe. E há outra razão: quem escreveu os textos eram homens, a educação era para os rapazes... E Jesus? Escandalosamente, pois era contra o espírito e a atitude daquele tempo, tinha discípulos e discípulas. Segundo o Evangelho de São Lucas, "acompanhavam-no os Doze e algumas mulheres", ensinava tanto homens como mulheres, ficando em casa, por exemplo, de Marta e Maria. Acabou com o tabu da impureza feminina, deixou-se tocar e acarinhar publicamente por uma prostituta, louvando o seu gesto de o perfumar e perdoou-lhe os pecados. Seguiram-no até à morte, como se lê no Evangelho segundo São Mateus: "Junto à cruz havia muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia, entre elas Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e José, e a mãe dos filhos de Zebedeu." As primeiras testemunhas da fé na ressurreição - na morte, Jesus não caiu no nada, pois entrou na plenitude da vida em Deus, está vivo em Deus para sempre como esperança e desafio para todos -, foram mulheres, a começar por Maria Madalena, chamada até por Santo Agostinho a "Apóstola dos Apóstolos". E como poderiam ser de São Paulo, que está na base da tomada de consciência da igual dignidade de todos, ao proclamar, na Carta ao Gálatas: "Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus", certas afirmações de menosprezo e subordinação das mulheres, que lhe são indevidamente atribuídas? Não é ele que, na Carta aos Romanos chama "apóstola" a Júnia? "Saudai Andrónico e Júnia, meus concidadãos e meus companheiros de prisão, que tão notáveis são entre os apóstolos e que, inclusivamente, se tornaram cristãos antes de mim." Foi com a lenta transformação da Igreja numa gigantesca instituição de poder e com a sacerdotalização dos ministérios - a ordenação sacerdotal, distinguindo duas classes na Igreja: o clero e o povo -, que os leigos em geral e sobretudo as leigas foram, contra a vontade de Jesus, que tinha declarado explicitamente: "sois todos irmãos", sendo subordinados e desiguais, como se pode ler na encíclica Vehementer Nos do Papa Pio X (foi canonizado): "A Igreja é, por natureza, uma sociedade desigual. É uma sociedade composta por uma dupla ordem de pessoas: os pastores e o rebanho... a multidão não tem outro dever senão o de aceitar ser governada e cumprir com submissão as ordens dos seus pastores." Neste contexto, é necessário considerar como histórica, quase uma revolução, a recente decisão do Papa Francisco anunciando que 80 entre os participantes com direito a voz e voto no próximo Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade, em Outubro, não serão bispos e "que 50% deles serão mulheres". Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografi

Vira a tua omelete na frigideira, por amor de Deus! - Pe João m.c.

 Vira a tua omelete na frigideira, por amor de Deus!

 

Ano A - Páscoa - 6º Domingo
Evangelho: João 14,15-21

 

Faltam duas semanas para concluir o tempo pascal. No próximo domingo celebraremos a Ascensão do Senhor e no domingo seguinte o Pentecostes. A Palavra de Deus convida-nos a dirigir o nosso olhar para estas festas. 

Hoje, Jesus promete-nos o dom do Espírito: "Eu pedirei ao Pai e ele dar-vos-á outro Paráclito para que fique convosco para sempre, o Espírito da verdade". Nos seus discursos de despedida, Jesus fala cinco vezes do envio do Espírito. Quatro vezes apresenta-o como o "Paráclito", termo grego muito rico que designa alguém chamado para ajudar, um consolador, um advogado de defesa... Por três vezes, Jesus caracteriza-o como o "Espírito da verdade": "Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ele vos ensinará toda a verdade" (João 16,13).

Aqui, o dom do Espírito Santo aparece ligado ao amor ("Se me amardes..."). O amor é o "ninho" do Espírito. O apóstolo Paulo afirma que: "O fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, mansidão, temperança" (Gálatas 5,22-23). Todas elas qualidades ligadas ao amor.

 

O amor, motor da vida

O evangelho de hoje coloca em destaque precisamente o amor (cinco vezes), mas - surpreendentemente! - aqui Jesus fala do amor para com a sua pessoa. O amor que, no Antigo Testamento, era reservado a Deus (Deuteronómio 6,4-9), Jesus reclama-o agora para si próprio. Se a vida cristã nasce da fé, ela se manifesta e floresce no amor. O Evangelho de João termina com um tríplice pedido de profissão de amor, onde Pedro representa cada um de nós e toda a Igreja: "Simão, filho de João, tu amas-me?" (João 21,17). Que honra nos dá Deus ao pedir a nossa amizade! Deus tem um coração de amante!

Jesus afirma que o amor por ele se manifesta na observância dos seus mandamentos: "Se me amardes, guardareis os meus mandamentos". Esta afirmação é repetida duas vezes, como introdução e conclusão da passagem do Evangelho de hoje. Mas não se trata certamente de novas regras ou leis (já temos demasiadas!). Pouco antes, Jesus fala de um "mandamento novo", o do amor fraterno, distintivo dos seus discípulos (13,34-35). Falará disso mais duas vezes. Jesus preocupa-se com os seus, para que permaneçam unidos depois da sua partida, e por isso diz-lhes: "Isto vos mando: que vos ameis uns aos outros" (15,17). Mas porque é que ele fala de mandamentos, no plural? Podemos pensar que se refere em geral aos seus ensinamentos, mas sobretudo às duas dimensões inseparáveis do amor: amar a Deus e os irmãos.

No entanto, não é o fazer que leva ao amor, mas é o amor que conduz à ação, como motor da vida. Os apaixonados sabem-no bem. Santo Agostinho, ele próprio um apaixonado, dizia: "Deixai que a raiz do amor esteja em vós, pois dela só pode sair o bem. Ama e faz o que quiseres!". E o apóstolo Paulo dirá: "O amor de Cristo impele-nos" (2 Coríntios 5,14). Atrever-me-ia a pensar, portanto, que a afirmação de Jesus não coloca a observância como condição do amor, mas o amor como condição prévia da observância. E quando Jesus diz: "Aquele que guarda os meus mandamentos e os observa, esse é o que me ama" ... não se poderia aplicar também ao não crente?

 

"Em", a preposição do amor

Chama-me a atenção a insistência de Jesus sobre a comunhão profunda criada por este amor: uma habitação mútua! "Naquele dia, sabereis que estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós". Embora encontremos outras preposições, como convosco, junto de vós, a vós, a privilegiada é em vós, em mim, no Pai... Esta preposição em (έν, em grego) aparece cerca de 25 vezes, nestes dois capítulos 14 e 15, com esta conotação de intimidade profunda, de imanência, de habitação mútua. É por isso que Paulo diz que somos "templo de Deus" (1 Coríntios 3,16). O nosso coração é feito para ser habitado. Mas quem é que o habita?

 

Aprendamos dos místicos enamorados

Talvez não tenhamos interiorizado suficientemente esta realidade surpreendente e maravilhosa: somos morada de Deus, habitados por Deus, imersos em Deus! Os místicos, pelo contrário, compreenderam-no bem. Tomo o exemplo de um místico francês do século XVII que me fascina há vários anos: Lourenço da Ressurreição (Laurent de la Résurrection), irmão leigo num mosteiro carmelita de Paris. A espiritualidade que viveu e ensinou era muito simples: cultivar o sentido da presença de Deus, através do "exercício contínuo desta presença divina", em todos os momentos e em todas as circunstâncias, sendo primeiro cozinheiro e depois sapateiro num grande convento: 
"Na azáfama da minha cozinha, onde por vezes várias pessoas me falam ao mesmo tempo de coisas diferentes, possuo Deus tão tranquilamente como se estivesse ajoelhada diante do Santíssimo Sacramento. Não é necessário fazer grandes coisas. Viro a minha omelete na frigideira por amor de Deus e, depois de a ter feito, se não me resta mais nada, inclino-me e adoro o meu Deus que me concedeu a graça de a fazer, após o que me levanto mais feliz do que um rei".
Apesar de ser coxo, devido a uma ferida de guerra, e desajeitado ("grosseiro por natureza e delicado por graça", segundo o filósofo e teólogo Fénelon, seu admirador), o Irmão Lourenço, sem nunca dar sinais de impaciência ou de pressa, era pontual e preciso nas suas tarefas. Mas...
"Se por vezes me ausento um pouco desta presença divina, Deus faz-se logo sentir na minha alma... com movimentos interiores tão fascinantes e tão deliciosos que me envergonho de falar deles."

Também eu procuro preparar a omelete da minha reflexão dominical, esperando que seja saborosa ou pelo menos não indigesta, mas em todo o caso feita por amor!

P. Manuel João Pereira Correia mccj
Castel d'Azzano (Verona), 12 de Maio de 2023

P. Manuel João Pereira Correia mccj
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segunda-feira, 8 de maio de 2023

Deus é uma palavra insuficiente! - Pe. João m.c.

 Deus é uma palavra insuficiente!

Ano A - Páscoa - 5º Domingo
Evangelho: João 14,1-12

Com os últimos domingos do tempo pascal, entramos na preparação para as festas da Ascensão e do Pentecostes. São os domingos da despedida. O evangelho deste domingo e do próximo oferece-nos passagens do capítulo 14 do evangelho de São João, o discurso de despedida de Jesus aos seus discípulos na última ceia. É o seu testamento, antes da sua paixão e morte. Porquê retomar estes textos precisamente no tempo pascal? A Igreja segue a antiga tradição de ler durante este tempo os cinco capítulos de João relativos à Última Ceia, de 13 a 17, nos quais Jesus apresenta o sentido da sua morte, a sua "Páscoa". Além disso, poderíamos dizer que, tratando-se do seu legado, o testamento deve ser aberto após a sua morte. Jesus deixa-nos a sua herança, os seus bens, oferece-os a nós, seus herdeiros.

 

Não se perturbe o vosso coração!

Convém sublinhar que o texto do evangelho de hoje é um dos mais densos do evangelho de João. O contexto, o da última ceia após o anúncio da traição e da sua morte violenta, é triste e dramático. Jesus não esconde aos seus a gravidade dessa hora, mas consola-os, convidando-os a confiar. É a hora da provação, da crise, e a noite escurece no coração de todos. É uma palavra dirigida também a nós que, depois da "euforia" pascal, caímos de novo na dureza do nosso quotidiano. "Tende fé em Deus e tende fé também em mim", é a sua palavra de ordem! 

 

Vou preparar-vos um lugar!

Cerca de dez vezes, nesta passagem, encontramos verbos e substantivos ligados ao movimento. O homem é um viajante ("homo viator"). A fé implica também pôr-se a caminho:"Sai da tua terra... para a terra que eu te mostrarei" (Génesis 12,1). Foi assim para Abraão e continua a ser assim para nós. A Bíblia está cheia de estradas e caminhos, de bifurcações e encruzilhadas, de projectos e esperanças. "Feliz o homem que tem no seu coração os teus caminhos!" (Salmo 84,6). Mas o homem, no seu coração, procura uma morada estável onde possa finalmente encontrar descanso (Carta aos Hebreus 3-4 e 13,14). Jesus, com a sua "Páscoa", vai preparar uma morada para nós e voltará para nos levar consigo. Por conseguinte, a meta final, o objectivo do nosso caminho é a morada, o regresso a casa. Que morada é essa? É a morada do Pai. Mas onde é que o Pai habita? "Eu estou no Pai e o Pai está em mim",porque se habita onde se é amado! (Silvano Fausti). E onde está a minha morada? Onde me sinto em casa, onde está a minha identidade, o meu verdadeiro eu? O coração do Pai é realmente a minha morada?

[Permitam-me um parêntesis. Infelizmente, o sentido da vida, ou seja, a sua orientação, parece estar a faltar hoje em dia. Mais do que nunca, o que o dramaturgo francês Eugène Ionesco disse um dia torna-se realidade: "O mundo perdeu o rumo, não porque lhe faltem ideologias orientadoras, mas porque elas não levam a lado nenhum. Na gaiola do seu planeta, os homens movem-se em círculos porque se esqueceram de que podem olhar para o céu". Alguns pensadores vão muito mais longe, como o filósofo italiano Umberto Galimberti, que acusa a tradição judaico-cristã de ter introduzido na cultura ocidental o optimismo, a ilusão de que o "eu" está acima da natureza e pode dar-se um projecto. E denuncia a virtude da esperança. Cultivar a esperança é criar o desespero! A vida não tem sentido e o indivíduo está à mercê da natureza e existe em função da espécie. Segundo ele, é preciso regressar à visão grega do "drama" da vida (fatum, destino) e do ritmo cíclico da história]. 

 

Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.

Jesus parte do princípio de que os apóstolos compreenderam isto: "E do lugar para onde eu vou, vós conheceis o caminho". Mas eles não o compreenderam, tal como nós também não o compreendemos. Tomé é o seu e nosso porta-voz: "Senhor, não sabemos para onde vais; como podemos saber o caminho?" E aqui Jesus dá-nos uma sua surpreendente e novíssima auto-definição: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida". Caminho, Verdade e Vida, três palavras que são basicamente equivalentes e podem ser aplicadas ao próprio Deus. O caminho é o amor, a verdade é o amor, a vida é o amor. E acrescenta: "Ninguém vem ao Pai senão por mim!". Jesus é o mediador entre Deus e os homens. Não como um intermediário neutro entre os dois, mas como aquele que toma em si as duas partes. Ele é a Aliança!

 

Quem me viu, viu o Pai! 

Nesta altura, ouvindo Jesus falar tanto do Pai, Filipe intervém e faz uma bela oração: "Senhor, mostra-nos o Pai, e isto nos basta". É o sonho de Moisés (Êxodo 33,18-20) e o desejo secreto de todo o homem: "Quando irei contemplar a face de Deus?" (Salmo 42,3; 27,8-9). A este pedido, porém, Jesus fica desiludido: "Há tanto tempo que estou contigo e não me conheces, Filipe? Quem me vê a mim, vê o Pai". É a mesma decepção que Jesus sente em relação a nós: "Mas como é que, há tantos anos que estás comigo, que vês o que eu faço e ouves a minha palavra, e ainda não me conheces? Quando te lavei os pés, era o Pai que estava ajoelhado diante de ti!" Na realidade, Jesus não é como Deus (que nós não conhecemos!), é Deus que é como Jesus! (Alberto Maggi). Ele é a imagem perfeita do Deus invisível (Carta aos Colossenses 1,15). "O que era invisível do Filho era o Pai, e o que era visível do Filho era o Pai" (Santo Ireneu). Por três vezes, Jesus repete esta mútua habitação: "Eu estou no Pai e o Pai está em mim".

Impressionou-me a declaração do monge Enzo Bianchi, numa entrevista há dois meses, quando lhe perguntaram quem era Deus para ele: "A palavra 'Deus' sempre me pareceu ambígua, insuficiente. Sinto uma grande relação com Jesus Cristo. Penso que vou ter com Deus, que o vou conhecer, através de Jesus Cristo, mas não sei quem é Deus, não sabemos nada, nunca ninguém o viu, falamos demasiado dele sem o conhecer. Na minha opinião, é um dos maiores erros continuar a falar de Deus quando Deus continua a ser desconhecido, "O Mistério". Para mim, Jesus Cristo é suficiente para me levar a Ele.... Não passo o tempo a questionar Deus ou a proclamá-lo". E no seu comentário ao Evangelho de hoje, diz: "Às vezes pergunto-me se nós, cristãos, herdeiros do mundo grego, não acabamos por professar um teísmo com um verniz cristão. Temos de ter a coragem de dizer que, para nós cristãos, Deus é uma palavra insuficiente".

P. Manuel João Pereira Correia mccj
Castel d'Azzano (Verona), 5 de Maio de 2023

p.mjoao@gmail.com

 

TUDO POR CAUSA DA ALEGRIA Frei Bento Domingues, O.P.

 

1.  Faz parte da diferença humana a capacidade de perguntar, de investigar, de receber e criar as mais diversas formas de expressão cultural alimentadas pelo sentido do humor. Da consciência da nossa infinita ignorância brota a sabedoria do sorriso perante as vazias promoções do carreirismo, seja em que domínio for.  A realidade será sempre mais vasta do que todas as nossas ciências, filosofias e religiões.

 É verdade que também faz parte da diferença humana a possibilidade de desenvolver cada vez mais ciências, técnicas e ideologias que destroem as suas melhores criações. Verificamos, a toda a hora, que a chamada globalização não é garantia da universal solidariedade entre os povos. Mas é possível.

O Papa Francisco, durante os seus dez anos de pontificado, não desistiu nem desiste de associar pessoas, movimentos cívicos, políticos e religiosos, para fazer deste mundo a casa de todos e para todos.

Continuamos a perguntar: com tantas capacidades para reduzir os males no mundo e aumentar as condições do gosto de viver, porque regressamos à guerra, uma das mais velhas formas de estupidez?

     Em vez de investir em universalizar os meios de uma vida mais feliz para todos, aumentamos e sofisticamos os meios de fazer mal, de destruir, de provocar milhões de deslocados, de refugiados e a quem se nega um lugar neste mundo.

Por essa razão, Bergoglio acaba de ir à Hungria, um país de maioria católica e protestante para lembrar o essencial. A esta grande maioria falta-lhe praticar um humanismo inspirado no Evangelho e enraizado em duas pistas fundamentais: reconhecer-se como filhos amados do Pai e amar cada um como irmão.

Perante tantos desesperados que fogem dos conflitos, da pobreza e das alterações climáticas, é urgente que nós, enquanto Europa, trabalhemos em vias seguras e legais, em mecanismos partilhados face a um desafio que não pode ser travado pela rejeição, mas que deve ser abraçado para preparar um futuro que, se não for em conjunto, não será.

Neste tempo pascal, confrontamo-nos de forma mais viva com as contradições que podem acompanhar as próprias celebrações litúrgicas, com os seus textos, gestos e músicas admiráveis, nas diversas dimensões da vida cristã: vida pessoal, familiar, profissional, cívica, política e económica. Diante destas e outras incongruências, foi-se criando um ambiente, ora de indiferença ora de abandono efectivo da prática religiosa. Não são a única alternativa.

Para que seja realizado o enlace dessas diversas dimensões, a melhor alternativa é a nossa conversão nunca acabada. Só com esse enlace é possível saborear o movimento suscitado por Jesus de Nazaré, para que todos tinham vida e vida em abundância.

Não estou a inventar. A Primeira Carta de S. João começa desta maneira: O que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram a Palavra da Vida, porque a Vida manifestou-se: nós vimos e damos testemunho e vos anunciamos esta Vida eterna que estava com o Pai e que se manifestou a nós.

O que vimos e ouvimos vo-lo anunciamos, para que estejais também em comunhão connosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo. Escrevemos isto para que a nossa alegria seja completa.

O evangelista João também não inventou nada. Foi da boca de Cristo que ouviu esta declaração solene: Digo-vos isto para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena e ninguém vo-la possa tirar[1].

2. Isto foi dito há dois mil anos. Não é evidente na nossa sociedade e talvez nunca tenha sido evidente, mas é para nós, e para sempre, que foi dito. Essa alegria é preciso procurá-la no mundo da nossa experiência. O mundo na sua complexidade – não a fuga do mundo – será sempre o nosso verdadeiro lugar teológico. A mística da fuga do mundo desenvolve-se numa falsa teologia.

Como é sabido, na Bíblia, a palavra mundo tem vários significados. Uma das narrativas poéticas da criação termina com a exclamação: Deus viu que tudo era muito bom! No entanto, o ser humano pode usar a sua liberdade para fazer o pior, tornar este mundo inabitável, mas também o pode transformar num novo jardim. É esse o sentido incarnacionista da esperança cristã. Deus não fez só a dança da criação. Tornou-se nosso aliado, um de nós, para relançar a tarefa nunca acabada da nossa conversão.

Como diz Auden, poeta católico, «eu não sei nada que cada um de vós já não saiba. Se estivermos lá, onde a Graça de Deus dança, também nós dançaremos». Tolentino de Mendonça lembra a ronda maravilhosa dos eleitos que Frei Angélico pintou no meio de anjos músicos todos de mãos dadas. É uma imagem muito mais próxima da tradição bíblica do que se poderia imaginar, como canta o Salmo 33: Alegrai-vos no Senhor, louvai o Senhor com cítaras e poemas, com a harpa das dez cordas louvai o Senhor; cantai-lhe um cântico novo, tocai e dançai com arte por entre aclamações[2].

3. O cristianismo não é propriamente conhecido por ser a religião da alegria e é uma pena. Como escreveu Nietzsche, o cristianismo seria muito mais credível se os cristãos vivessem em alegria.

É preciso não perder a leitura do texto do Evangelho deste Domingo. É uma narrativa de despedida. Jesus notou que os seus discípulos estavam perturbados com o pressentimento de uma triste separação. Jesus apressa-se a apaziguá-los com expressões altamente teológicas e enigmáticas.

Quem escreveu o texto captou bem o humor no diálogo de despedida entre o Mestre e os discípulos. Não se perturbe o vosso coração. Para onde eu vou, conheceis o caminho.

Reacção de Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos conhecer o caminho? Jesus respondeu-lhe: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim. Se me conheceis, também conhecereis o meu Pai. Desde agora o conheceis e o vistes.

Esta resposta só aumentou a confusão dos discípulos que Filipe tenta resolver de forma prática: mostra-nos o Pai e isso nos basta!

Jesus suspira fundo: Há tanto tempo que estou convosco e tu não me conheceste, Filipe? Quem me vê, vê o Pai. Como podes dizer, mostra-nos o Pai? Não crês que estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que vos digo, não as digo por mim mesmo, mas o Pai, que permanece em mim, realiza as suas obras. Acreditai, ao menos, por causa destas obras. Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim fará as obras que eu realizo e fará até maiores, porque vou para o Pai[3].

Este diálogo, situado no passado, não é só do passado que fala. É um texto sobre o futuro da Igreja, sobre o futuro das suas tarefas de evangelização, em cada época, segundo o ritmo dos problemas que vão surgindo. Houve épocas muito criativas e outras que sufocaram a criatividade. Interessava mais assegurar a permanência do passado do que o carisma da inovação.

Tudo no cristianismo é por causa da alegria. Sempre ameaçada. Não podemos, no entanto, desistir deste caminho de Deus, caminho de irmãos.

 

 

07 Maio 2023



[1] Cf. Jo 15, 11; 16, 22

[2] Cf. Tolentino Mendonça, Testemunhar o Bom Humor de Deus, in Encontros do Lumiar

[3] Cf. Jo 14, 1-12