segunda-feira, 25 de setembro de 2023

“Queria extinguir o inferno e... incendiar o céu!” - Pe. João..MC

 Queria extinguir o inferno e... incendiar o céu!”

 

Ano A - 25º Domingo do Tempo Comum
Mateus 20,1-16: “Ide vós também para a vinha”.

 

Iniciamos hoje um ciclo de três parábolas de Jesus sobre a vinha: a parábola dos trabalhadores contratados por um proprietário para trabalhar na sua vinha, neste domingo; a parábola dos dois filhos enviados a trabalhar na vinha, no próximo domingo; e, finalmente, a parábola dos vinhateiros assassinos, no domingo seguinte. 

 

1. Uma bondade escandalosa

A parábola chama a atenção, em primeiro lugar, para o comportamento insólito do dono da vinha, que vai à praça cinco vezes para arranjar trabalhadores: às 6h, às 9h, ao meio-dia, às 15h e até às 17h, uma hora antes do fim do dia de trabalho! O cerne da história reside no contraste entre os trabalhadores contratados de madrugada e os da undécima hora, a quem o patrão paga o mesmo: um denário a cada um, o salário acordado com os primeiros. Mas o que se torna irritante e provocador no comportamento do patrão é o facto de ele fazer esperar os primeiros para presenciarem a sua generosidade para com os últimos. Isto, num primeiro momento, suscita as expectativas dos primeiros, que acreditam que ele é um patrão bom e generoso, para depois suscitar o seu protesto, julgando-o, pelo contrário, um patrão injusto. E mais intrigante ainda é a conclusão de Jesus: “Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos”. Que parábola estranha! 

 

2. Um golpe contra a meritocracia!

É quase certo que esta parábola, que só encontramos no evangelho de Mateus, tem como alvo um certo número de crentes da primeira hora, provenientes do judaísmo, que se consideravam superiores e com mais direitos do que os da última hora, os pagãos recém-convertidos. Esta situação na comunidade de Mateus não é, infelizmente, anacrónica. Ainda hoje há “supercristãos” assim. E ai de nós, padres, se por acaso os pusermos contra nós, pois podem ser dos mais empenhados da comunidade, os bons! De facto, nós mesmos podemos ser de esses tais. Explico-me.

Durante séculos, fomos educados numa espiritualidade de “meritocracia”! Multiplicar as boas obras para acumular méritos no céu, diante de Deus, de modo a ter uma bela recompensa no paraiso. Mas será que a salvação é realmente alcançada desta forma? Já a primeira leitura nos adverte: “Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, os vossos caminhos não são os meus caminhos”! A salvação será sempre um dom. Não é um direito adquirido por ter “suportado o peso do dia e do calor” (v. 12); ou um salário devido a quem faz determinadas obras. 

Mas, se o mérito não tem direitos, porquê fazer muito esforço? Porque é que eu havia de entrar no seminário aos dez anos e tornar-me missionário? Não teria sido melhor casar e levar uma vida “normal” como toda a gente? É assim que raciocinam aqueles que concebem o Evangelho como um fardo, um esforço, um sacrifício e uma servidão, e não como uma boa nova, como um golpe de sorte que nos fez encontrar um tesouro no campo da nossa vida. 

 

3. A vida cristã vivida como escravo, servo ou filho

A vida cristã pode ser vivida com três atitudes e comportamentos diferentes: a do escravo que teme o castigo, para quem Deus é um juiz; a do servo que trabalha por interesse, para quem Deus é um patrão; e a do filho que trabalha desinteressadamente, por amor, para quem Deus é um Pai

Na realidade, porém - e isto é que é estranho! - o Evangelho parece dirigir-se a estas três classes de pessoas com a sua própria linguagem e expectativas. Com efeito Jesus diz:“Aquele que disser [ao seu irmão]: estupido, será destinado ao fogo da geena (Mateus 5,22). A Pedro, que lhe pergunta: “Eis que deixámos tudo e te seguimos; que teremos então?”, Jesus responde: “Sentar-vos-eis [comigo] em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel”. E àqueles que deixam tudo para o seguir, promete o “cêntuplo”. Jesus conclui dizendo: “Muitos dos primeiros serão os últimos, e muitos dos últimos serão os primeiros”, o que, por coincidência, enquadra o evangelho de hoje! (Mateus 19,27-30). 

Embora saibamos que é uma forma de enfatizar o seu discurso, porque é que Jesus usa a linguagem de castigo da “geena” (7 vezes em Mateus)? Porque é que Jesus usa tanto a palavra “recompensa” (uma dúzia de vezes em Mateus)? É certo que, para Jesus, Deus é o “Pai” (mencionado cerca de quarenta vezes no evangelho de Mateus, incluindo “Meu Pai”, 16 vezes, e “Vosso Pai”, 14 vezes). O Pai quer filhos, não servos e muito menos escravos! E o objetivo da missão de Jesus é tornar-nos semelhantes ao Pai: “para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus” (Mateus 5,45). Deus gostaria que todos nós fôssemos filhos que o procuram por amor. Infelizmente, muitas vezes o que nos move é o medo ou o interesse próprio. E quem sabe se mesmo uma motivação imperfeita pode servir em certos momentos da vida! E Deus emprega-os porque não quer perder nenhum dos seus filhos!

Surpreendentemente, esta convicção de que Deus deve ser servido por amor, e não por interesse ou medo, aparece também noutros contextos religiosos. O testemunho de uma mística sufi muçulmana do século VIII, Rabia de Basra, é eloquente: “Queria incendiar o paraíso e extinguir o inferno para que estes dois véus desaparecessem e os Seus servos O adorassem sem esperar recompensas e sem temer castigos”. 

 

Para reflexão pessoal

- Que motivação prevalece na minha relação com Deus: o medo, o interesse ou o amor?
- Que responderia à provocação de alguém: “Se o céu não existisse, continuaria a acreditar em Deus?”
- Medita no belo testemunho de S. Paulo na segunda leitura de hoje: “Para mim, o viver é Cristo”.

P. Manuel João Pereira, Comboniano
Castel d'Azzano (Verona) 22 de setembro de 2023

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Quantas vezes já perdoaste a Deus? Pe. João. MC

 Quantas vezes já perdoaste a Deus?

 

Ano A - 24º Domingo do Tempo Comum
Mateus 18,21-35: Quantas vezes hei-de perdoar?

 

Hoje concluímos o quarto discurso de Jesus, que reúne os ensinamentos do Senhor sobre a vida comunitária. O trecho evangélico é a continuação do de domingo passado sobre a correção fraterna. Neste contexto, Pedro pergunta a Jesus: “Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?”. Pedro mostra-se generoso, propondo o número sete, o número da plenitude. Ele sabia certamente que os rabinos falavam de três ou, no máximo, quatro vezes, mas tinha bem presente a insistência de Jesus no perdão. De facto, ao ensinar-lhes o Pai-Nosso, a única petição que tinha comentado era a do perdão: “Se não perdoardes aos outros, também o vosso Pai não perdoará os vossos pecados” (Mateus 6,15). Depois, num contexto semelhante, Jesus disse: “E se ele [o teu irmão] cometer uma falta sete vezes por dia contra ti e sete vezes voltar a ti dizendo: "Estou arrependido", tu perdoar-lhe-ás”. Então os Apóstolos disseram: “Aumenta em nós a fé!” (Lucas 17,4-5). Era de facto demasiado! Diríamos, portanto, que a questão do perdão era uma ideia fixa de Jesus!

À pergunta de Pedro, Jesus responde, mais uma vez, de forma inesperada e surpreendente: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”! Sabemos que, nestes casos, os números bíblicos não se referem à quantidade mas à “qualidade”. 7 x 10 x 7, ou seja, a “perfeição” de 7 multiplicada pela “totalidade” de 10. Trata-se, por isso, dos antípodas de Lameque, descendente de Caim, que se gabava de se ter vingado setenta e sete vezes (Génesis 4,24). Ou se é filho de Deus ou se é filho de Caim! É claro, portanto, que é preciso perdoar sempre e em qualquer situação! 

O assunto parecia estar encerrado, mas Jesus acrescenta a parábola do patrão misericordioso e do servo mau. Porquê? Porque quer ligar, mais uma vez, o perdão dos irmãos ao perdão do Pai!

Conhecemos bem a parábola, que é muito eloquente. “O reino de Deus pode comparar-se a um rei que quis ajustar contas com os seus servos...” Um rei que teve compaixão de um dos seus servos e lhe perdoou uma dívida de dez mil talentos, uma soma astronómica e improvável, deliberadamente exagerada. Na linguagem atual, isso equivaleria a vários milhares de milhões de euros! Ora, este servo, que acabara de sair da presença do rei, foi implacável para com um outro servo, seu colega, que lhe devia 100 denários, o equivalente a cem dias de trabalho. O facto chegou aos ouvidos do rei que, com razão, se enfureceu: “Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque mo pediste. Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti? E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia”. 
Pois bem, a conclusão de Jesus não deixa de ser surpreendente: “Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração”!

 

1. O perdão é uma decisão... a caminho!

Todos nós sabemos como é difícil perdoar. O perdão nunca é espontâneo. Espontâneos são a raiva e o desejo de se vingar. Há mesmo quem pense que o perdão é um sinal de fraqueza. “Aquele que perdoa é um fraco, é incapaz de fazer valer os seus direitos; a bondade é uma incapacidade de se revoltar, a paciência é uma cobardia, o perdão é uma incapacidade de se vingar”, dizia Nietzsche.

“Perdoar” vem do latim “perdonare” e é o reforçativo de “dar”, dar por inteiro, mas nunca é um dom “gratuito”, porque custa por vezes sangue e lágrimas a quem o dá. Mesmo o perdão de Deus é “uma graça a caro preço” (Bonhoeffer), porque custou o sangue de Cristo. É por isso que o perdão é fruto de uma decisão corroborada pela graça. E não é uma decisão tomada de uma vez por todas. Deve ser renovada sempre que a memória traz a ofensa à mente e o sofrimento ao coração. Porque o perdão consolida-se progressivamente antes de se tornar definitivo. O perdão dá-se... caminho fazendo!

Todos nós consideramos o perdão das ofensas uma consequência natural do mandamento do amor. No entanto, muitos cristãos escutarão esta palavra com o rancor no coração contra alguém, talvez desde há anos, determinados a não perdoar um mal sofrido. E escutam-na sem se sentirem minimamente tocados. “Sim, sim”, dizem a si próprios, “uma coisa bonita, mas irreal!” 

 

2. Mas... quantas vezes é que Deus perdoa?

A resposta parece óbvia: sempre! Mas será que estamos realmente convencidos? No tempo de Jesus, alguns rabinos diziam que Deus perdoa duas vezes, à terceira vez castiga! Embora o Antigo Testamento nos fale continuamente do amor de Deus, como no salmo responsorial de hoje: “O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade” (Salmo 102), há também passagens que parecem contradizê-lo: “O Senhor é um Deus ciumento e vingativo, o Senhor é vingativo, cheio de ira. O Senhor vinga-se dos seus adversários e guarda rancor contra os seus inimigos.” (Profeta Naum 1,2). O povo de Deus foi muito lento a abrir-se à revelação do amor de Deus. Jesus revelou-nos definitivamente que Deus é Amor e é Misericórdia. Mas também nós somos “de dura cerviz” como o povo de Israel e concebemos Deus “à nossa imagem e semelhança”: não um Deus Justo, mas justiceiro! não um Pai, mas um patrão! não para ser amado, mas para ser temido! 

Mas então porque é que Jesus parece quase ameaçar-nos na conclusão da parábola: “Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração”? É uma forma de enfatizar o seu ensinamento, mas a verdade é que o perdão de Deus não é.... automático! Requer a nossa recetividade. E a nossa capacidade de receber o perdão de Deus corresponde à nossa vontade de o oferecer aos nossos irmãos. Não perdoar é como um manto de plástico que nos cobre e impede que a água do perdão divino nos lave!

 

3. E quantas vezes já perdoaste a Deus?

A pergunta pode suscitar um sorriso. Mas penso que todos nós conhecemos alguém que abandonou a fé, zangado com Deus por não ter escutado uma oração num momento de angústia, por ter “permitido” uma desgraça, por causa de um luto trágico... Para não falar das guerras, do sofrimento, das injustiças que abundam por todo o lado... Atrevo-me a dizer que todos nós temos algo a “perdoar” a Deus, só que não temos coragem de o confessar e enterrámo-lo no inconsciente profundo do nosso coração. Penso que, sempre que saímos da confissão, deveríamos fazer o sinal da cruz virado para o céu e dizer: “Senhor, tu pregaste-me uma partida ao permitires que isto me acontecesse, mas eu também te perdoo porque te amo”. 

 

4. E quantas vezes já te perdoaste a ti próprio?

Muitas vezes temos dificuldade em perdoar porque não estamos em paz connosco próprios. Não nos perdoámos a nós próprios um fracasso, a humilhação de uma fraqueza, o remorso de um erro grave ou de um pecado que cometemos... Não basta que Deus nos perdoe, nem que sejamos perdoados por aqueles que magoámos. Temos de pedir a graça de nos perdoarmos a nós próprios. E assim, de forma semelhante, depois de cada confissão, devo virar a mão para mim e traçar o sinal da cruz sobre mim mesmo para me absolver a mim próprio: “Manuel João, eu te absolvo da asneira que fizeste. Vai em paz!”.

 

P. Manuel João Pereira, comboniano
Verona (Itália) 15 de setembro de 2023

terça-feira, 12 de setembro de 2023

RETOMANDO O RITMO DESTAS CRÓNICAS Frei Bento Domingues, O.P.

 

 

1. Como toda a gente sabe, o passado mês de Agosto, em Portugal, esteve polarizado pela Jornada Mundial da Juventude (JMJ), que devia ter acontecido em 2022, mas foi adiada para 2023 devido à pandemia. Este evento acontece de três em três anos. Foi uma iniciativa de João Paulo II, sendo a primeira realizada em Roma em 1986.

A JMJ Lisboa 2023 foi anunciada no dia 27 de Janeiro de 2019, na Missa de Envio da JMJ Panamá. Em Portugal, contou com a colaboração do Presidente da República, do Governo e das autarquias de Lisboa e Loures. Entre nós, o conjunto da Igreja parece ter tomado consciência, muito lentamente, do significado e da importância desse anúncio. No entanto, correu tudo muito bem. Os próprios jornalistas e o Papa, de regresso a Roma, destacaram a qualidade da organização.

 Que marca terá deixado nos jovens presentes em Lisboa, vindos de mais de 180 países? O modelo foi criado pelo Papa João Paulo II e foi seguido, o que levou algumas pessoas a dizer que, além da juventude, havia mitras a mais. O Papa Francisco foi fiel a esse modelo, mas tudo o que disse e fez tinha a sua marca, a sua originalidade, isto é, uma Igreja de todos e não apenas da hierarquia, uma Igreja de portas abertas que não exclui ninguém.

Eis o texto na sua significativa insistência repetitiva: Amigos, quero ser claro convosco, que sois alérgicos à falsidade e às palavras vazias: na Igreja há espaço para todos. Para todos. Na Igreja, ninguém é de sobra. Nenhum está a mais. Há espaço para todos. Assim como somos. Todos. Jesus di-lo claramente. Quando manda os apóstolos chamar para o banquete daquele senhor que o preparara, diz: «Ide e trazei todos», jovens e idosos, sãos, doentes, justos e pecadores. Todos, todos, todos! Na Igreja, há lugar para todos. «Padre, mas para mim que sou um desgraçado, que sou uma desgraçada, também há lugar?» Há espaço para todos! Todos juntos… Peço a cada um que, na própria língua, repita comigo: «Todos, todos, todos». Não se ouve; outra vez! «Todos, todos, todos». E esta é a Igreja, a Mãe de todos. Há lugar para todos. O Senhor não aponta o dedo, mas abre os braços. É curioso! O Senhor não sabe fazer isto [aponta com o dedo em riste], mas isto sim [faz o gesto de abraçar]. Abraça a todos. No-lo mostra Jesus na cruz, onde abriu completamente os braços para ser crucificado e morrer por nós[1]. Dir-se-á que é uma teologia mais gestual do que argumentativa, mas é muito mais convincente.

Pode parecer infantil, mas é na própria Carta aos Romanos, que Paulo se atreve a atribuir ao Espírito Santo a ousadia de usar, em relação a Deus, a linguagem com que as crianças se dirigiam ao pai: Abba, papá[2]. No Evangelho, segundo S. Mateus, é aos adultos que lhes pede que sejam crianças[3].

2. Desde o Programa que apresentou para o seu pontificado – O Evangelho da Alegria, 2013 – mostrou e desenvolveu, na Laudato Sí (2015), que a alegria da Igreja não é de carácter intimista. Exige o trabalho e o esforço de todos os domínios do conhecimento, da cultura e da organização social, incluindo as ciências sociais e humanas, isto é, uma ecologia integral que deve estar sempre em desenvolvimento[4]. Daí a alegria de saber que é, precisamente neste desenvolvimento, que o Papa está a trabalhar e que será apresentado no próximo dia 4 de Outubro.

Ainda em 2015, ao comemorar 50º aniversário do Vaticano II, insistiu noutra tarefa para toda a Igreja, que é o Sínodo. Não apenas dos bispos, mas um caminho comum de leigos, pastores, Bispo de Roma, através do fortalecimento da assembleia dos bispos e de uma descentralização salutar. Lembro que a abertura do novo Sínodo aconteceu nos dias 9 e 10 de Outubro 2021, tanto no Vaticano como nas diferentes dioceses. Desenvolveu-se em três fazes – diocesana, continental, universal – que visavam tornar possível uma verdadeira escuta do povo de Deus e, ao mesmo tempo, envolver todos os bispos em diferentes níveis da vida eclesial. A sua realização global terá duas sessões: Outubro de 2023 e de 2024.

No documento sobre a Fraternidade Humana em prol da paz mundial e da convivência comum (2019) envolve o sentido e o papel das religiões, ao assinar esse texto maravilhoso juntamente com os muçulmanos, mediante o Grão Imame de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb.

O grande contributo de todas as Igrejas cristãs é de mostrar a vocação universal de todos os seres humanos: Fratelli Tutti (2020).

Quando, agora, nos fixamos nos seus dez anos de pontificado, é para não perder a memória do que representaram na transformação da Igreja. Foram anos de muitas controvérsias e de muitas inovações.

Em Outubro de 2022, saiu um livro do Papa Francisco, com o título, O que vos peço em nome de Deus[5]. Nesse livro faz um retrato da situação actual do mundo que, ao mesmo tempo, relança a esperança. O próprio Papa Francisco, entrevistado por Francesca Ambrogetti e Sergio Rubin, explica como viveu os seus dez anos de pontificado[6].

3. É interessante verificar que o Papa Francisco continua fiel às Igrejas das periferias. A prova disso é a sua recente Visita Apostólica à Mongólia[7], um dos grandes países do mundo com apenas cerca de 2,9 milhões de pessoas e situado entre dois grandes países comunistas: a Rússia e a China. Sob o ponto de vista cristão, conta apenas com 2%. A comunidade católica tem cerca 1400 fiéis cuja percentagem populacional é 0,04%!

Esta situação ultraminoritária da população católica da Mongólia serviu, ao Papa, para dizer o que é a essência da própria Igreja, desfazendo alguns mitos.

«Em primeiro lugar, o mito segundo o qual só as pessoas ricas se podem comprometer no voluntariado. É uma ilusão. A realidade aponta para o contrário: não é preciso ser rico para fazer bem; aliás, são quase sempre as pessoas comuns que dedicam tempo, conhecimentos e coração para cuidar dos outros. Um segundo mito a dissipar: a Igreja Católica, que se distingue no mundo pelo seu grande empenho em obras de promoção social, não o deve fazer por proselitismo, como se cuidar do outro fosse uma forma de convencer, visando atrair “para o seu lado”. Não é isso! A Igreja não avança através do proselitismo, avança através da atração. Os cristãos identificam a pessoa necessitada e fazem todo o possível por aliviar as suas tribulações. Apraz-me imaginar esta Casa da Misericórdia como o espaço onde pessoas de diferentes credos e mesmo não-crentes unem os seus esforços aos dos católicos locais para socorrer compassivamente tantos irmãos e irmãs em humanidade.

O que é indispensável para fazer verdadeiramente o bem é um coração bom, um coração decidido a procurar aquilo que é melhor para o outro. Só o amor vence o egoísmo e faz avançar o mundo. Em toda a parte, a Igreja ou é a Casa da Misericórdia ou não é nada[8].

 

 

 

10 Setembro 2023



[1] Papa Francisco, JMJ Lisboa 2023. Paulus / Paulinas, 2023, pp. 44-45

[2] Cf. Rm 8

[3] Cf. Mt 18

[4] Implica o desenvolvimento da chamada Economia de Francisco. Parece-me incontornável o texto de Viriato Soromenho-Marques sobre a Laudato Sí

[5] Em Portugal, foi publicado pela Editorial Presença, em Março 2023

[6] O Pastor, Paulinas Maio 2023

[7] De 31 de Agosto a 04 de setembro 2023

[8] Cf. Discurso do Papa Francisco na despedida da Mongólia

 

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Correção fraterna, uma questão de sinfonia! - Pe. João mC

 Correção fraterna, uma questão de sinfonia!

 

Ano A - 23º Domingo do Tempo Comum
Mateus 18,15-20: “Se o teu irmão cometer um pecado...”

 

Os trechos do evangelho deste domingo e do próximo pertencem ao Quarto Discurso de Jesus, segundo São Mateus, o discurso eclesial ou comunitário (Mateus 18). Recordamos os anteriores: o primeiro, o Discurso da Montanha (cap. 5-7); o segundo, o Discurso Apostólico ou Missionário (cap. 10); o terceiro, o Discurso das Parábolas (cap. 13). Neste quarto discurso, Mateus recolheu alguns dos ensinamentos de Jesus sobre a vida da comunidade eclesial.

A passagem de hoje trata da “correção fraterna”, no caso de um pecado grave que impede a comunhão fraterna. Há duas versões do texto: uma curta, que sublinha mais a dimensão eclesial: “Se o teu irmão cometer um pecado”, e uma mais longa, que acrescenta “contra ti”, falando de uma ofensa pessoal. A versão escolhida pelo texto litúrgico é a segunda: “Se o teu irmão te ofender...”. 

A passagem é constituída por três ditos de Jesus, interligados. As três leituras deste domingo estão, aliás, interligadas, trazendo mais uma luz ao evangelho, com o profeta Ezequiel colocado como sentinela à frente dos seus irmãos (Ez 33) e S. Paulo a proclamar a caridade como plenitude da Lei (Rm 13, 8-10). 

 

A arte da correção fraterna

A correção fraterna é uma arte que exige caridade e delicadeza, inteligência e tato. Não é fácil falar da correção fraterna. Por três razões. 

A primeira, por causa da dificuldade inerente a esta tarefa. 

A segunda porque, durante séculos, nós, padres, tomámos abusivamente esta tarefa sobre nós, como um “direito” nosso, quando ela é um dever de todo o batizado; além disso, exercêmo-la de forma infeliz e, por vezes, desastrosa. Por isso, em vez de corrigir, devemos deixar-nos corrigir! 

Em terceiro lugar, hoje em dia, falar de correção não é “politicamente correto”; corremos o risco de ir contra a “privacidade” da pessoa e de sermos censurados por nos metermos nos assuntos dos outros. 

Assim, entramos num “campo minado” e preferimos recuar para a crítica, o mexerico ou a indiferença! 

 

1. Uma operação de salvamento!

POR ONDE começar? Do versículo que precede imediatamente a passagem de hoje: “É vontade do vosso Pai que está nos céus que nenhum destes pequeninos se perca” (v. 14). Como ponto de partida, encontramos a vontade salvífica do Pai. Trata-se, portanto, de uma “pedagogia da recuperação” (Papa Francisco). E o objetivo é “ganhar o irmão” (v. 15). Recuperar um filho e ganhar um irmão! É uma operação de.... resgate!

O QUE fazer concretamente? Jesus sugere um método articulado em três etapas graduais, introduzidas pela partícula “se” (5 vezes): primeiro a sós, depois eventualmente com uma ou duas testemunhas e, por fim, se necessário, fazendo intervir a comunidade, até ao caso extremo da (auto)exclusão do irmão da comunidade: “Considera-o como um pagão ou um publicano”, o que não o exclui, contudo, do amor fraterno, porque Jesus era amigo dos publicanos e dos pecadores. 

 

2. Uma ação de fraternidade

COMO FAZER? Qual é a condição essencial para fazer correção? A fraternidade! Fraternizar! A palavra “irmão” no Evangelho de Mateus tem uma importância especial. É interessante notar que é geralmente acompanhada de um adjetivo possessivo: “meu irmão”, “teu irmão”, “meus irmãos"”... O evangelista quer sublinhar o valor relacional que está no centro da mensagem de Jesus: “um só é o vosso Pai” e “todos vós sois irmãos” (Mateus 23,8-9). Ele é o Filho primogénito de uma multidão de irmãos (Romanos 8,29). 

O amor está no centro da relação: Não devais a ninguém coisa alguma, a não ser o amor de uns para com os outros” (Romanos 13,8, segunda leitura). A caridade e a verdade dão-se as mãos, mas a caridade é a irmã mais velha. Na correção fraterna, a verdade em primeiro lugar é como o sol do meio-dia: cega o irmão conduzido para fora do quarto escuro do erro. A caridade, pelo contrário, é como a aurora que conduz gradualmente à plena luz! Corrigir na verdade, mas privilegiando a caridade!

 

3. Uma questão de sinfonia!

AONDE conduz a correção fraterna? À sinfonia da comunhão fraterna! “Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa...”. O verbo grego usado aqui por Mateus para unir-se ou concordar (symphonei) é um verbo musical e significa fazer sinfonia, “sinfonizar”! A comunidade é como uma orquestra em que cada um desempenha o seu papel, toca o seu instrumento. Cada um traz uma nota ou um som particular que enriquece a beleza global da sinfonia. Se alguém desafina, não o excluímos, mas “corrigimo-lo”. O Pai, que ama a “sinfonia” criada pela presença do seu Filho, escuta de bom grado este grupo, esta comunidade. E o céu entra em sintonia com a terra: “Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu; e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu”.

Pode acontecer, no entanto, que alguém queira impor a sua voz ou sobrepor-se aos outros instrumentos, provocando desarmonia e desordem. Ou então alguém pretende ser capaz de tocar todos os instrumentos e dispensar a colaboração dos outros. Este protagonismo conduz à passividade, à apatia e ao desinteresse.

Infelizmente, mesmo nesse momento privilegiado de “sinfonia” que deveria ser a Eucaristia, falta muitas vezes este “sinfonizar-se”. Por vezes, as pessoas rezam umas ao lado das outras, justapostas. Repetem-se as mesmas orações e os mesmos gestos, mas não há “um só corpo e uma só alma” (Actos 4,32). Além disso, o presbítero que preside à Eucaristia, que deveria ser como o “maestro da orquestra”, é quase o único protagonista, ocupando 90% da celebração. Temos de facto uma necessidade urgente de “sinodalidade”, de caminhar juntos como povo de Deus.

 

Reflexão para a semana

Convido-vos a meditar e a aplicar a vós próprios o versículo do Aleluia: “Deus reconciliou consigo o mundo em Cristo, confiando-nos a palavra da reconciliação” (2 Cor 5,19). A vocação do cristão é RECONCILIAR!

P. Manuel João Pereira, Comboniano
Castel d'Azzano (Verona) 8 de setembro de 2023

P. Manuel João Pereira Correia mccj
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segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Palavras duras, pensamentos tristes? - Pe João , mc

 Palavras duras, pensamentos tristes?


Ano A - 22º Domingo do Tempo Comum
Mateus 16,21-27: Se alguém quiser seguir-me


O evangelho deste 22º domingo é a continuação do do domingo passado, tendo Pedro como protagonista. Apresenta-nos o primeiro dos três anúncios da paixão, morte e ressurreição de Jesus e é um concentrado da segunda parte do evangelho.


1. Um díptico inquietante!

Poder-se-ia dizer que as duas passagens, a de hoje e a de domingo passado, formam um díptico invulgar: por um lado, um ícone luminoso, com um São Pedro entusiasta e inspirado, que proclama Jesus Messias e é declarado abençoado por Jesus e estabelecido como pedra angular da Igreja; por outro lado, um ícone escuro, com um São Pedro escandalizado com as palavras de Jesus, que contesta o Mestre e que, por sua vez, é repreendido por Jesus e declarado Satanás e pedra de tropeço. É difícil imaginar um contraste mais nítido! É, no entanto, um espelho perfeito da nossa realidade!


2. Um novo começo!

Jesus começou a explicar aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia”.
Começou: este é um novo início. E aqui deparamo-nos com um verdadeiro ponto de viragem nos três primeiros evangelhos. A partir de agora, há uma mudança de rumo e de discurso. “Cada um de nós tem algo com que começar” (Emmanel Levinas). A vida nunca é um continuum. O problema é discernir quando é altura de mudar de passo ou de começar algo novo. Pois bem, depois da sondagem de domingo passado, Jesus decide “começar a explicar”
O que é que ele tem de explicar? Que tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito”. Porquê “tinha de ir”? podemos perguntar. Era “a vontade de Deus”?! Falamos tanto de “fazer a vontade de Deus” e ele vem, pelo contrário, submeter-se à nossa! Talvez eu esteja enganado, mas falamos demasiado da vontade de Deus, associando-a muitas vezes ao mal, ao sofrimento, à injustiça, que temos de suportar e aceitar, em vez de a associarmos ao bem, à justiça, ao amor, que hemos de desejar e procurar! E assim corremos o risco de a maltratar, de a deformar.
Jesus tinha de ir a Jerusalém, “a cidade que mata os profetas”, porque tinha decidido ir até ao fim na sua total solidariedade com a nossa humanidade! Trata-se do dever do amor!

Para concluir, Jesus quer explicar que não é o tipo de Messias que todos esperam: um messias-rei que deve “restaurar o reino de Israel” (Actos 1,6); um messias-juiz que deve julgar os ímpios (Mateus 3,12). O seu messianismo é o do Servo sofredor profetizado por Isaías 53, julgado e condenado pelas autoridades políticas e religiosas. É por isso que este anúncio semeia a confusão entre os seus discípulos. E também entre nós, reconheçamo-lo! Daí a reação de Pedro, em nome dos apóstolos e em nosso nome!


3. Quem habita em nós: Deus ou “satanás”?

Pedro, tomando-o à parte, começou a contestá-lo, dizendo: Deus te livre de tal, Senhor! Isso não há de acontecer!”... porque tu és o Messias, o Filho de Deus! A reação de Jesus é dura, até mesmo desproporcionada e injusta, diria eu. “Vai-te daqui, Satanás!”. E assim o pobre Pedro despenha-se das alturas da revelação do céu para as profundezas do abismo! Sejamos realistas, Pedro teve coragem! A coragem que, infelizmente, nos falta a nós, que preferimos manter dentro de nós o que realmente pensamos, para não sermos repreendidos como ele foi. E assim o nosso “satanás” (o adversario) permanece bem escondido dentro de nós, por detrás da bela fachada da respeitabilidade e das nossas “práticas piedosas”.


4. Jesus demarca-se de seus discípulos!

O que mais me impressiona na reação de Jesus, para além da dureza, é a distância que parece tomar em relação aos seus: Se alguém quiser seguir-me...”. Não diz: “Se quiserdes seguir-me...”, mas usa uma linguagem impessoal, como se estivesse mesmo disposto a dispensá-los. Um pouco como naquela dramática deserção após o discurso de Cafarnaum: “Também vós quereis ir embora?” (João 6,67). Esta forma dura deve ter ferido profundamente o coração dos discípulos. E o nosso também, diria eu. Se pensarmos bem, Jesus estaria disposto a fazer o mesmo hoje. Não é ele que corre atrás de nós para nos persuadir a ficar, talvez por compromisso! Sim, ele é o Bom Pastor que ama e cuida das suas ovelhas, mas recusa-se a violar a nossa liberdade.

Como não fazer nosso então o desabafo do profeta Jeremias?!: “Vós me seduzistes, Senhor, e eu deixei-me seduzir... Então eu disse: ...Não falarei mais em seu nome!. Mas havia no meu coração um fogo ardente... mas não podia.” (Primeira leitura, Jeremias 20,7-9)


5. O simbolismo do algarismo 3

Outro aspeto do texto que me chama a atenção é a sua estrutura baseada no número 3, símbolo da perfeição e da plenitude, que sublinha a importância do conteúdo:
- Jesus faz alusão ao tríplice aspeto do “mistério pascal”: paixão-morte-ressurreição;
- Três vezes Jesus anunciará a sua paixão e de cada vez haverá uma reação negativa por parte dos apóstolos, seguida de uma sua tríplice catequese;
- Jesus será perseguido por três categorias de pessoas: os anciãos (guardiães da tradição e do poder), os chefes dos sacerdotes (guardiães da religião) e os escribas (guardiães da Lei);
- Jesus impõe três condições para o seguir: negar-se a si próprio, tomar a sua cruz, segui-lo! 
- Jesus apresenta três argumentos sapienciais para provar que as condições para o seguir, à primeira vista tão duras, são de facto as únicas que fazem sentido.


6. Apostar na vida!

A palavra “vida” é a mais recorrente no nosso texto (4 vezes), juntamente com os verbos que lhe estão associados: perder (3), salvar, encontrar, ganhar. Considero este facto significativo. O que está em jogo é a vida: perdê-la ou encontrá-la! Quem investe no imediato acaba por ser um perdedor. Aquele que investe com coragem, generosidade e abertura de espírito será um vencedor! 


Para a reflexão e a oração pessoal

- Encontrar um momento de silêncio para meditar o texto da segunda leitura:
“Peço-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, que vos ofereçais a vós mesmos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus, como culto espiritual. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, pela renovação espiritual da vossa mente, para saberdes discernir, segundo a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe é agradável, o que é perfeito” (Romanos 12,1-2).
- Um desejo: que as palavras duras de Jesus não nos deixem tristes, mas pensativos!...

P. Manuel João Pereira; Comboniano
Castel d'Azzano (Verona) 1 de setembro de 2023

P. Manuel João Pereira Correia mccj
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