sábado, 3 de fevereiro de 2024

Lugares, tempos, actividades e proximidade: quatro desafios para o cristão! - Pe. Manuel João, MC

 Lugares, tempos, actividades e proximidade: quatro desafios para o cristão!

 

Ano B - Tempo Comum - 5º Domingo: Marcos 1,29-39: Todos te procuram!

 

O evangelho de hoje é a continuação do de domingo passado e completa a unidade literária de Marcos 1,21-39, conhecido como o "Dia de Cafarnaum", o "primeiro" dia de atividade de Jesus, de plena imersão na realidade da humanidade sofredora.

 

1. Notemos a atenção que o evangelista dá aos LUGARES: saindo da sinagoga, Jesus entra em casa de Simão e André, situada a poucos passos; depois, sai para a "praça" da cidade; de madrugada, vai para um lugar deserto e, em seguida, percorre as aldeias de toda a Galileia. Jesus é um rabino invulgar, que atravessa continuamente os limiares e transgride; está sempre em caminho e escolhe a estrada como lugar do seu ensinamento; não acaricia os sucessos, está sempre "em saídas"; "faz-se tudo para todos" (ver Paulo na segunda leitura), animado pelo desejo de estar presente em todo o lado! Jesus não é um "Messias doméstico", facilmente domesticável e que teria evitado a oposição das autoridades! (F. Armellini).

Esta presença de Jesus em "todos os lugares" é um desafio para mim! Procuro privilegiar certos lugares, onde me sinto "em casa", onde me sinto amado e estimado. Tenho dificuldade em ligar os lugares onde vivo e procurar ou levar a presença de Deus para lá: na sinagoga (igreja) e em casa (vida doméstica); na cidade e na solidão; no centro e nas periferias da minha Galileia. Talvez me faltem os "lugares desertos" para discernir para onde Deus quer que eu vá. Com demasiada facilidade faço passar por "vontade de Deus" o facto de ficar onde me sinto confortável ou onde tenho sucesso! 

 

2. Consideremos também a atenção que o evangelista dá aos TEMPOS: o sábado, a tarde, o pôr do sol, a noite, a manhã... Notemos de novo o advérbio temporal "imediatamente". Jesus parece animado por uma "urgência" apostólica. Não tem tempo a perder. Sabe que tem apenas "três dias": "Ide e dizei a essa raposa” [Herodes]: “Eu expulso demónios e faço curas hoje e amanhã, e ao terceiro dia a minha obra está terminada. Mas é necessário que eu continue hoje, amanhã e depois de amanhã, pois não é possível que um profeta morra fora de Jerusalém" (Lucas 13,22-23).

Esta atitude de Jesus em relação aos "tempos" interpela-me. Procuro e demoro-me nos tempos agradáveis, sem olhar a prioridades, e evito ou "apresso-me" nos tempos difíceis que exigem empenhamento e sacrifício! Muitas vezes não combino os tempos de forma harmoniosa. Quantas vezes digo: "Estou ansioso por..." que este tempo difícil acabe ou para que chegue um tempo bom. Assim, os meus tempos são interrompidos por períodos que não são vividos em pleno, sofridos ou rejeitados! 

 

3. Detenhamo-nos nas ACTIVIDADES realizadas por Jesus neste evangelho. São essencialmente três: Jesus cura, Jesus reza, Jesus evangeliza! Não são estas as "actividades" que o cristão é chamado a realizar?

 

a) Jesus cura os doentes e expulsa os demónios"Trouxeram-lhe todos os doentes e os possessos.... Ele curou muitos doentes de várias doenças e expulsou muitos demónios". Notemos a ligação estabelecida pelo evangelista entre as "várias doenças" e os "muitos demónios". Jesus "saiu" para vencer o mal em todas as suas formas. E os demónios que ainda hoje afligem a nossa humanidade são muitos! Jesus já venceu o mal, mas esta vitória de Cristo ainda não é visível em todas as suas dimensões. Deus não transformará o mundo sem nós. Somos chamados a lutar com Cristo para participar na sua vitória! 

 

b) Jesus reza"Levantou-se de manhã cedo, quando ainda estava escuro, saiu e retirou-se para um lugar deserto, e ali rezou". O homem que era Jesus também precisava de rezar. Não só para cultivar a intimidade com o Pai, mas também para discernir a sua vontade e beber na Fonte da Vida. "Sem mim nada podeis fazer" (Jo 15,5) é uma experiência que Jesus fez, antes de no-la dizer a nós!

 

c) Jesus evangeliza"Vamos a outro lugar, às aldeias vizinhas, para que eu pregue também lá". Jesus quer chegar a todo o lado, porque onde ele chega o fermento do Reino começa a fermentar a massa do mundo. Mas quais são as mãos que levam o fermento ou o sal do Evangelho à realidade do mundo? As nossas! "Ai de mim se eu não anunciar o evangelho!", diz hoje São Paulo na segunda leitura. E este "ai de mim!" não é só do Apóstolo, mas de cada cristão!

 

4. Por fim, notemos como o evangelista sublinha a atitude de PROXIMIDADE"Aproximou-se [da sogra de Simão] e fê-la levantar-se, tomando-a pela mão"; sai ao encontro da multidão de doentes e possessos reunidos à porta; percorre a Galileia ao encontro de quem precisa de uma palavra de esperança e de um gesto de conforto.

Não será este um apelo urgente à Igreja - isto é, a cada um de nós - para se "converter"... ao mundo?! isto é, para ir ao encontro das pessoas?! para estar presente onde a humanidade sofre e luta?! Queixamo-nos de que as pessoas abandonaram as nossas igrejas e talvez ainda esperemos por um milagre: que reconsiderem e voltem, mas agora é óbvio que não será assim. Somos nós que devemos sair e estar ao lado deles numa atitude de serviço humilde. Mas para isso é preciso que o Senhor venha ao nosso encontro e nos faça levantar, tomando-nos pela mão, libertando-nos da febre do triunfalismo. Quando esperaríamos como primeiro milagre algo de sensacional, Marcos apresenta-nos a cura da sogra de Simão, o mais humilde dos milagres, mas talvez o mais significativo!

 

Exercício para a semana

1) Tentar concretizar na minha vida (pelo menos um pouco!) um dos quatro desafios que mencionámos.

2) Interrogar-me sobre a minha reação à afirmação de Paulo: "Ai de mim se não anunciar o Evangelho! Comboni dizia: "O missionário não pode ir sozinho para o céu. Sozinho irá para o inferno!". E o que pensar do cristão que só espera "salvar a sua própria alma"?

 

P. Manuel João Pereira Correia

Verona, 2 de fevereiro de 2024

P. Manuel João Pereira Correia mccj

p.mjoao@gmail.com

https://comboni2000.org

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