sábado, 23 de março de 2024

Jesus e o Reino de Deus Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia 23 março 2024

 Jesus e o Reino de Deus

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

23 março 2024

Na fé, pergunta nuclear é em que Deus se acredita e no que é que, acreditando, muda na vida, na
compreensão do ser humano e do mundo. Não seria digno da pessoa acreditar por medo, acreditar
num Deus que humilha o Homem, num Deus que, na sua eternidade feliz, permanecesse indiferente à
História humana enquanto um mundo de sofrimento.

Na tradição da experiência cristã, embora a relação com Deus se não esgote na ética, a salvação a
partir de Deus é experienciada e vivida no meio do mundo, na relação inter-humana, tanto no amor
face a face como na transformação política das estruturas e situações que impedem um mundo de
rosto humano. Neste sentido, “fora do mundo não há salvação”, como sublinhava o teólogo E.
Schillebeeckx.

Para os cristãos, Deus revelou-se de modo definitivo, embora não exclusivo, na figura histórica de
Jesus de Nazaré. E o núcleo da mensagem de Jesus, na sua pessoa, nas suas palavras, na sua vida, na
sua morte, é o Reino de Deus. E o Reino de Deus é o próprio Deus enquanto amor incondicional, amor
soberanamente libertador dos homens, que fazem a sua vontade. E a vontade de Deus é o Homem
digno e livre, o mundo na paz, na alegria, as pessoas na justiça, no amor, num mundo fraterno, sem
dominadores nem dominados.

No contacto com Jesus, muitos, sobretudo os pobres, os desprezados, os doentes, os publicanos e
pecadores públicos, os leprosos, os excluídos tanto pela sociedade, como pela religião oficial,
experienciaram a libertação e a salvação vinda de Deus, reencontrando a dignidade de ser ser humano
e saboreando outra vez a alegria de viver. E Jesus tinha consciência de agir e proceder como o próprio
Deus procederia, e aqueles que nele acreditaram tiveram a experiência de que, com ele, o próprio
Deus e o seu Reino estava no meio deles.

Outros contemporâneos aperceberam-se nitidamente da ameaça e do perigo que Jesus constituía,
tanto no domínio religioso, como político. Para Jesus, também se tornou claro que o seu anúncio e
práxis de um Deus, a quem chamava Abbá, Pai querido, e que não se deixa confiscar por uma casta
religiosa que, em ordem à salvação, se apoiava no mérito, no cumprimento da “Lei” e no sacrifício,
desconhecendo a misericórdia e a graça, o levariam inevitavelmente à morte. A sua crucifixão teve,
assim, motivos religiosos e políticos: o seu Deus era não só perigoso e subversivo politicamente, mas
também falso do ponto de vista religioso oficial. Jesus não foi vítima de um Deus sádico, mas de
homens, que queriam perpetuar o mal e o sofrimento nos outros homens. A morte de Jesus é a
expressão do seu amor incondicional, até ao fim, a Deus tal como o compreendia, isto é, como um
“Deus dos homens”, portanto, a favor da dignidade e contra o mal e o sofrimento. Condenado como
blasfemo e subversivo, a sua mensagem, do alto da cruz, continua a ser: sois livres para o amor sem
condições.

Ressuscitando Jesus, Deus mesmo confirma que está do seu lado, comprometendo-se com a libertação
total do ser humano. Também para os cristãos, na História há acaso e necessidade, autonomia e
liberdade. Não sendo um mero espectáculo de marionetas, a História pode falhar; porém, a fé no Deus
de Jesus, desde a criação por liberdade doadora, funda a esperança de que nem o mal, nem a morte
dão xeque-mate definitivo a Deus. A fé na ressurreição estaria, no entanto, sempre ameaçada de
projecção ilusória, se não tivesse tido realizações fragmentárias antecipadas de libertação e sentido:
como a cruz é consequência da maneira de viver de Jesus, também a ressurreição não superaria a
acusação de ideologia compensatória, se não tivesse havido a sua antecipação na práxis histórica de
libertação e salvação, apoiada na fé de que Deus mesmo, na sua liberdade soberana, decidiu ser um
“Deus dos homens".
Por isso, como o ponto de partida da obra de Jesus foi o anúncio do Reino de Deus, isto é, “a sua
experiência do contraste que clama aos céus entre este mundo de injustiça e de sofrimento e a sua
vivência de Deus como Pai ou a sua experiência de Deus como princípio de vida simultaneamente
paterno e materno”, assim a evangelização por parte da Igreja não pode ser indoutrinação, mas tem,
em primeiro lugar, de consistir em “tornar os homens conscientes do intolerável da opressão em que
vivem”: este é “o verdadeiro ponto de partida para uma missionação autêntica” (E. Schillebeeckx).
Assim, a evangelização não consiste propriamente em conquistar adeptos para a Igreja, mas situa-se
na frente dos conflitos, quando a Igreja se coloca do lado dos oprimidos na sua luta por mais
humanidade e futuro. Precisamente a preferência pelos pobres e desprezados é a prova maior do
significado e relevância universais do Evangelho. Neste combate, está viva uma leitura da História no
seu reverso, que é a história dos oprimidos, e a denúncia dos males que os homens causam aos outros
homens. Sem este serviço profético-crítico e político, a fé não tem conteúdo real e continua sob a
ameaça de ilusão ideológica. Por outro lado, a política, sem a referência à reserva escatológica divina,
sem a relação festiva, contemplativa e doxológica com o mistério do Deus vivo, estará sempre
radicalmente ameaçada de totalitarismo, niilismo e barbárie. Sem realizações, embora fragmentárias,
de libertação intra-histórica, a salvação meta-histórica não seria crível. A salvação começa a operar-se
neste mundo, esperando a sua consumação para lá dele.
(Escreve de acordo com a antiga ortografia)

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