Frei
Bento Domingues, O.P.
23
Março 2025
1.
No passado dia 13 de Março, o Papa Francisco fez 12 anos de um Pontificado
verdadeiramente original. Os católicos, e não só, puderam celebrar esta data numa
fase em que foram anunciadas melhorias na sua saúde, embora precárias. Em todo
o mundo, foi acompanhado pela oração insistente.
Verificou-se,
por outro lado, que antes de ser internado, não só já tinha inaugurado o Ano
Jubilar, em Roma, como tinha sido intensificado em todas as dioceses católicas
do mundo, de modo verdadeiramente inculturado. As expressões serão
necessariamente diferentes, mas todas unidas como o exprime o Logotipo, para
indicar a solidariedade e a fraternidade que deve unir todos os povos.
Ao
celebrar o Ano Jubilar, confessamos que precisamos de mudar, precisamos de nos
converter. Não podemos continuar agarrados às nossas rotinas sociais,
económicas e religiosas. Os clássicos gestos que propõe – jejum, esmola e
oração – só são verdadeiros se nos fizerem olhar para aqueles que não têm como
sustentar a vida. A oração autêntica dá a capacidade de ver, interpretar e agir
com misericórdia em tudo o que se passa no mundo. É uma forma de socorro.
O
que o profeta Isaías ouviu da parte de Deus reza assim: O jejum que me
agrada é este: libertar os que foram presos injustamente, livrá-los do jugo que
levam às costas, pôr em liberdade os oprimidos, romper com toda a espécie de
opressão, repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem
casa, atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão. Então, a tua luz
surgirá como a aurora e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se. A tua
justiça irá à tua frente e a glória do Senhor seguir-te-á[1].
Este
foi o apelo que suscitou o Jubileu do Antigo Testamento até aos nossos dias.
A
oração é a alma de todo este movimento de peregrinos, mas também ela precisa de
ser evangelizada. S. Mateus luta contra a hipocrisia que se infiltra nos
próprios actos religiosos: Nas vossas orações, não sejais como os gentios,
que usam de vãs repetições, porque pensam que, por muito falarem, serão
atendidos. Não façais como eles, porque o vosso Pai celeste sabe do que
necessitais antes de vós lho pedirdes[2].
S.
Lucas, como bom narrador, construiu uma longa parábola sobre a insistência no
pedido, que não posso reproduzir aqui na íntegra. Parece contrariar S. Mateus,
mas de facto não, pois termina assim: se vós, que sois maus, sabeis dar
coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo
àqueles que lho pedem![3].
A
oração não é uma técnica para informar e convencer a Deus, mas para nós acreditarmos
que Deus está sempre connosco, somos nós que nos temos de abrir a esse amor.
S.
Paulo já tinha escrito que é de acordo com Deus que o Espírito vem em
auxílio da nossa fraqueza, pois nem sequer sabemos o que havemos de pedir, mas
é Ele que intercede por nós. Esse mesmo Espírito dá testemunho ao nosso
espírito de que somos filhos de Deus e podemos dizer, com toda a ternura, Abbá (papá)[4].
Na
Bula de proclamação deste Ano Jubilar, o Papa retoma S. Paulo: A esperança
não engana[5],
ajuda-nos a resistir à loucura bélica dos nossos dias. É ela que faz de nós peregrinos
da esperança. Se Deus é por nós quem será contra nós? Ao dizer isto,
estamos em pleno mistério: o que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram,
o coração humano não pressentiu, foi isso que Deus preparou para aqueles que o
amam, por meio do Espírito, pois o Espírito tudo penetra, até as
profundidades de Deus[6].
2.
O Papa Francisco, apesar das dificuldades de saúde, convocou uma Assembleia
eclesial de toda a Igreja Católica no Vaticano, a realizar em Outubro de 2028,
para avaliar o estado da concretização da sinodalidade nas igrejas locais e em
todas as comunidades religiosas.
Quando
se pergunta se a Igreja ainda tem futuro, devemos reler a decisão pontifícia que
já foi comunicada a todos os bispos e presidentes de conferências episcopais
nacionais e internacionais, num comunicado assinado pelo cardeal Mario Grech,
secretário-geral do Sínodo dos Bispos.
Esta
decisão significa que, pela primeira vez na história, será realizada uma Assembleia
deste género, congregando representantes de todo o mundo, e de todos os sectores
eclesiais do catolicismo – clero, consagrados/as e leigos/as.
O
comunicado da Secretaria Geral do Sínodo informa que, por ora, não há a
intenção de convocar um novo sínodo dos bispos, optando-se, em vez disso,
por um pormenorizado processo de consolidação do caminho já percorrido, em
torno da construção de uma Igreja sinodal.
A
mobilização de toda a Igreja inicia-se com a presente convocatória e
desenvolve-se através das seguintes etapas: em Maio 2025 será publicado o
Documento de apoio, com orientações para esta fase de implementação; de Junho
2025 até Dezembro 2026 serão apresentados os percursos de implementação nas
Igrejas locais e nos seus agrupamentos; de 24 a 26 de Outubro 2025, acontecerá
o Jubileu das equipas sinodais e dos órgãos de participação; no primeiro
semestre de 2027 realizar-se-ão assembleias de avaliação nas dioceses e
eparquias (equivalente das dioceses nas Igrejas orientais); no segundo semestre
2027, serão as Assembleias de avaliação nas conferências episcopais nacionais e
internacionais, nas estruturas hierárquicas orientais e em outros agrupamentos
de Igrejas; no primeiro semestre 2028, realizar-se-ão as assembleias
continentais de avaliação; em Junho 2028, será publicado o Instrumentum
laboris para o trabalho da Assembleia Eclesial de Outubro de 2028, no
Vaticano.
Alegra-me
saber que o Sínodo não foi abandonado ou amortecido. Continua a ser a grande
tarefa da Igreja, seja qual for o Bispo de Roma.
3.
Segundo o documento apresentado, o caminho a percorrer até à Assembleia
Eclesial de 2028 permitirá o intercâmbio de experiências e percursos entre as
diferentes Igrejas e a avaliação conjunta das escolhas feitas ao nível local,
reconhecendo os progressos realizados em termos de sinodalidade.
O
objetivo é tornar concreta a perspectiva do intercâmbio de dons entre as
Igrejas e em toda a Igreja. Ao longo do caminho, todos poderão beneficiar da
riqueza e da criatividade dos percursos realizados pelas Igrejas locais, colhendo
os frutos nos seus agrupamentos territoriais.
Esse
percurso será também uma oportunidade para avaliar, conjuntamente, as escolhas
feitas a nível local e reconhecer os progressos realizados em termos de
sinodalidade. Graças a tal percurso, o Papa poderá escutar e confirmar as
orientações consideradas válidas para toda a Igreja em diálogo.
Por
fim, esse processo constitui o quadro no qual se situam as diversas iniciativas
para a realização das orientações sinodais, em particular os resultados do
trabalho dos Grupos de Estudo, que deverão ser apresentados daqui a três meses[7].
A
Igreja nunca se pode dar por terminada. Como peregrina da esperança, exige
uma incansável imaginação.