segunda-feira, 25 de maio de 2026

Onde e quando é a vida eterna? - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

Onde e quando é

a vida eterna?

1

Lembro-me perfeitamente. Eu estava em

Tubinga, Alemanha, quando, pela manhã,

fui surpreendido por este título na primeira

página do jornal: “O Presidente visita o

Filósofo”.

François Mitterand fora falar com o

filósofo Jean Guitton a sua casa, para

perguntar-lhe o que é a morte. “Qual é a

última barreira?” “Senhor Presidente, é

muito simples. A última barreira é a morte”.

“Mas... e depois da morte?” “Depois da

morte é o que se chama o Além”. “Mas o

que é o Além?” Aí, o conhecido filósofo

2

católico, discípulo de Bergson, amigo de

Paulo VI, observador no Concílio Vaticano

II, respondeu que não sabia; precisamente

“porque é o Além”.

Outro grande filósofo do século XX,

Ernst Bloch, o filósofo ateu da esperança,

deixou escrito que “o cristianismo, na

concorrência com outros profetas da

imortalidade e da sobrevivência, venceu em

grande parte graças à proclamação de

Cristo: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida’. No

século primeiro depois do acontecimento do

Gólgota, a ressurreição foi referida ao

Gólgota de uma forma inteiramente pessoal,

de tal modo que pelo baptismo na morte de

Cristo se experiencia a ressurreição com ele.

Imperava então um desespero apaixonado,

que hoje nos parece incompreensível.” De

facto, hoje, face ao Além e à vida eterna, o

que parece estar em vigência é a

indiferença. Mas Bloch prevenia: “nada

3

impede que dentro de 50 ou 100 anos volte

essa neurose ou psicose de angústia da

morte, de tipo metafísico, com a pergunta

radical: para quê o esforço da nossa

existência, se morremos completamente,

vamos para a cova e, em última instância,

não nos resta nada?”

Outro filósofo marxista, B. Bosnjak,

contemporâneo de Bloch, também escreveu:

“Determinadas formas de religião podem

deixar de existir. Mas, como antítese da

morte, quer dizer, como aspiração de

eternidade, a religião pode sempre tornar a

renascer. De facto, encontramo-nos perante

o maior dos mistérios: não sabemos porque

é que existe alguma coisa em vez do nada”.

Já São Paulo tinha proclamado que, se

Cristo não ressuscitou, é vã a fé dos cristãos.

Mas, há relativamente poucos anos,

precisamente em tempos de Páscoa –

celebração da morte e da ressurreição de

4

Jesus – andaram os média alarmados por

causa de um filme de James Cameron, The

Lost Tomb of Jesus, com um documentário

sobre uma descoberta arqueológica de 1980

em Jerusalém: dez ossários, seis dos quais

com nomes decisivos do Novo Testamento

e supostamente ligados à família de Jesus:

Jesus, filho de José; Maria; José; Mariamme

(Maria Madalena?); Judas, filho de Jesus;

Mateus. Encontrado o corpo de Jesus,

afundar-se-ia o edifício da Igreja cristã,

assente precisamente na ressurreição!

A maior parte dos arqueólogos e

investigadores veio dizer que a afirmação

de que se tinha encontrado o túmulo da

família de Jesus era um disparate ridículo.

No entanto, as pessoas gostam do esotérico

e do escândalo.

Vamos, porém, supor que um dia se

demonstrava que se tinha encontrado os

restos mortais de Jesus. Então?

5

Lembro-me de, ainda jovem estudante,

ter dito a um professor jesuíta, holandês, da

Universidade Gregoriana de Roma, que, se

viessem a encontrar os restos do cadáver de

Jesus, a fé cristã continuaria inabalável. Ele

ficou surpreendido com a minha ousadia,

mas remeteu-me para o famoso Lexikon für

Theologie und Kirche onde se defendia essa

posição.

É evidente que a ressurreição nada tem a

ver com a reanimação do cadáver, pois, se

fosse isso, a pessoa voltaria a morrer. A

ressurreição é a afirmação de fé, com razões,

de que Jesus, na morte, não soçobrou no

nada, mas foi encontrado pela plenitude do

mistério inominável de Deus.

O que é e como é esse encontro ninguém

sabe – a ultimidade transcende a razão

científica, empírico-matemática. Mas

aqueles que acreditam em Deus, o Vivente,

que é Amor, Criador de todas as coisas,

6

Fundamento e Sentido último de tudo

quanto existe, fazem suas aquelas palavras

que, noutro contexto, Espinosa deixou:

“sabemos e experienciamos que somos

eternos”.

Ainda neste contexto, permito-me citar,

mais uma vez, Herbert Haag, o grande

amigo e talvez o maior exegeta do século

XX. Para um dos últimos encontros, levei

uma pergunta que alguém me pediu para

lhe fazer: se acreditava na vida para lá da

morte. E ele, textualmente: “Diga-lhe que

sim. Eu creio na vida para lá da morte.

Como é ninguém sabe.”

A vida eterna é só depois da morte?

Quem não viveu na superfície das coisas,

quem perguntou até à raiz de tudo, quem

se exaltou indizivelmente com o fulgor da

beleza, quem criou uma obra, um filho,

quem alguma vez teve um gesto

absolutamente gratuito de amor, quem se

7

deixou surpreender pelo abismo in-finito do

olhar de alguém, quem teve a graça de

banquetes felizes com familiares e amigos,

aqueles amigos que levamos no coração,

quem fruiu exaltadamente de concertos

musicais, inolvidáveis, pois continuam a

morar connosco, quem tentou descer até ao

fundo sem fundo de si, quem foi abalado

pela exigência incondicionada do dever a

ponto de preferir ser morto a matar, quem

se deixou amorosamente tocar por um tu

que não se possui nem domina, quem foi

alguma vez avassaladoramente visitado

pela pergunta inconstruível: “porque há

algo e não nada?”, quem se deixou

confrontar com a vida de Jesus e o seu

Evangelho por palavras e obras, sem se

acobardar sabendo que acabaria por ser

julgado e condenado à morte, e morte de

cruz, por aqueles a quem a sua Mensagem

não interessava, pelo contrário —

8

representantes do Templo e do Império —,

foi, é, tangido pela fímbria da eternidade...

Então, onde e quando é a vida eterna?

Aqui e agora, no Aberto. Sem esquecer os

horrores do mundo.

Sábado, 23 de Maio de 2026

sábado, 23 de maio de 2026

As quatro Pentecostes - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 As quatro Pentecostes

Ano A – Domingo de Pentecostes
João 20,19-23: «Recebei o Espírito Santo»

A Igreja celebra hoje a grande solenidade de Pentecostes, a festa da descida do Espírito Santo, cinquenta dias depois da Páscoa, segundo o relato dos Atos dos Apóstolos, proposto na primeira leitura.

A palavra Pentecostes significa “quinquagésimo dia” e deriva do grego. Na origem, era uma festa judaica, uma das três grandes festas de peregrinação ao templo de Jerusalém: a Páscoa, o Pentecostes e a Festa das Tendas, festa outonal da colheita. Tratava-se de uma festa agrícola, a festa da ceifa e dos primeiros frutos, celebrada no quinquagésimo dia depois da Páscoa judaica. Era também chamada “Festa das Semanas”, porque ocorria sete semanas depois da Páscoa. A esta festa agrícola foi depois associado o memorial do dom da Lei, a Torah, recebida por Moisés no monte Sinai.

O Pentecostes cristão é o cumprimento e a conclusão do tempo pascal. É a nossa Páscoa: a passagem para uma nova condição, já não sob o regime da Lei, mas sob o regime do Espírito. É a festa do nascimento da Igreja e o início da missão.

As leituras da festa, na realidade, apresentam-nos quatro vindas do Espírito Santo, ou quatro modalidades diferentes, mas complementares, da sua presença. Poderíamos dizer que se trata de quatro “Pentecostes”. Hoje existe uma sensibilidade teológica que fala de “encarnação profunda” — deep incarnation. A encarnação de Cristo não estaria orientada unicamente para a humanidade, mas para toda a criação. O mesmo se pode dizer da sua ressurreição. E, de forma analógica, podemos dizê-lo também do Pentecostes.

1. O Pentecostes sobre a Igreja

A primeira leitura, tirada dos Atos dos Apóstolos, apresenta-nos uma vinda do Espírito impetuosa, arrebatadora, irresistível, abrasada:
«Veio de repente do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde se encontravam. Apareceram-lhes línguas como de fogo, que se dividiam, e pousaram sobre cada um deles, e todos ficaram cheios do Espírito Santo».

É uma vinda que suscita espanto e maravilha, entusiasmo e euforia, consolação e coragem. É absolutamente gratuita, imprevisível e nunca programável. Trata-se de acontecimentos excecionais. Encontramos alguns no livro dos Atos, mas também os houve na história da Igreja: nem sempre tão visíveis e impetuosos, mas sempre de grande fecundidade.

De facto, a esta Pentecostes segue-se sempre uma primavera eclesial. Deus sabe quanto dela precisamos, no inverno eclesial que estamos a atravessar no Ocidente! Só a oração incessante no cenáculo da Igreja, a paciência humilde do semeador e a docilidade ao Espírito podem obter uma graça semelhante.

2. O Pentecostes sobre o mundo

A efusão do Espírito estende-se a toda a criação. É Ele «que dá vida e santifica o universo» — como proclama a Oração Eucarística III. É Ele que «leva pólenes de primavera ao seio da história e de todas as coisas», para usar uma expressão de Ermes Ronchi.

Por isso, com o salmista, invocámos o Pentecostes sobre toda a terra:
«Enviai, Senhor, o vosso Espírito, e renovai a face da terra» — Salmo 103

Esta deveria ser uma oração típica do cristão: invocar o Pentecostes sobre o mundo, sobre as dinâmicas que sustentam a nossa vida social, sobre os acontecimentos da história. Todos se lamentam de “como o mundo vai mal”, dos “maus espíritos” que o animam; mas quantos de nós fazem verdadeiramente a “epiclese”, isto é, a invocação do Espírito, para que desça sobre as pessoas, sobre as situações e sobre os acontecimentos da nossa vida quotidiana?

3. O Pentecostes dos carismas ou do serviço

O apóstolo Paulo, na segunda leitura, tirada da Primeira Carta aos Coríntios, chama a nossa atenção para outra epifania do Espírito: os carismas:
«Há diversidade de carismas, mas o Espírito é o mesmo... A cada um é dada uma manifestação particular do Espírito para o bem comum... De facto, todos nós fomos batizados num só Espírito, para formarmos um só corpo...».

Hoje falamos muito de carismas e de partilha dos serviços eclesiais, mas assistimos também a um crescente e inquietante descompromisso das novas gerações. O sacramento da Confirmação, a “Pentecostes pessoal”, que deveria marcar a passagem para uma participação plena na vida eclesial, torna-se infelizmente, para muitos, o momento da deserção. É um sinal evidente de que falhámos o objetivo da iniciação cristã.

Que fazer? A Igreja deverá tornar-se um grande ouvido e potenciar as suas antenas, para perceber a voz do Espírito neste particular momento histórico. Ousaria dizer que o problema mais grave é a mediocridade espiritual das nossas comunidades. Preocupados em salvaguardar a ortodoxia e a boa ordem da liturgia, perdemos de vista o essencial: a experiência da fé.

4. O Pentecostes dominical

A liturgia propõe-nos de novo o Evangelho da aparição de Jesus ressuscitado na tarde de Páscoa. É uma passagem inteiramente cheia de ressonâncias pascais:
«Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, por medo dos judeus, veio Jesus, colocou-se no meio deles e disse-lhes: “A paz esteja convosco!”. Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. E os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: “A paz esteja convosco! Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós”. Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos”».

Esta passagem é chamada “a pequena Pentecostes” do Evangelho de João, porque aqui Páscoa e Pentecostes coincidem. O Ressuscitado dá o Espírito na própria tarde de Páscoa. Todo o contexto faz pensar na assembleia dominical e na Eucaristia. É aí que o Espírito paira sobre as águas do medo e da morte, trazendo a paz e a alegria da vida.

É necessário redescobrir o papel eminente do Espírito. Este é o seu tempo. Sem Ele não podemos proclamar que «Jesus é Senhor» — 1 Coríntios 12,3 — nem invocar: «Abbá! Pai!» — Gálatas 4,6. Não há Eucaristia sem a intervenção do Espírito. Por isso, entremos na Eucaristia suplicando no nosso coração: Vem, vem, Espírito Santo!

Para concluir: como navegas no mar da vida, a remos ou à vela?

Nós respiramos o Espírito Santo. O Espírito é o nosso oxigénio. Sem Ele, a vida cristã torna-se lei e dever: um remar contínuo, com esforço e fadiga. Com Ele, pelo contrário, é alegria de viver e de amar; é a leveza de navegar de velas cheias.

Agora que, depois do tempo pascal, retomamos o tempo comum, com a rotina da vida quotidiana, como te preparas para navegar: com a força dos remos ou deixando-te levar pelo Vento do Espírito que sopra na vela desfraldada do teu coração?

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ



P. Manuel João Pereira Correia mccj
p.mjoao@gmail.com

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Em missão, em onze! - P. Manuel João Pereira Correia mccj

 

Em missão, em onze!

Ano A – Páscoa – 7.º domingo – Ascensão do Senhor
Mateus 28,16-20: “Ide, pois, e fazei discípulos todos os povos”.

Chegámos à festa da Ascensão do Senhor, que o livro dos Atos dos Apóstolos situa simbolicamente quarenta dias depois da Páscoa (cf. primeira leitura: Atos 1,1-11). É particularmente significativo notar que esta é a única aparição de Jesus aos seus discípulos narrada no Evangelho de São Mateus. Antes, de facto, tinha aparecido apenas às duas Marias que tinham ido ao sepulcro, confiando-lhes a missão de dizer aos discípulos que fossem para a Galileia: “Ide anunciar aos meus irmãos que vão para a Galileia: lá me verão” (Mateus 28,10).

Não se trata de uma incongruência histórica entre os Evangelhos. Os factos principais da vida de Jesus, transmitidos pelos apóstolos, eram já património comum das comunidades cristãs. Quando os evangelistas escrevem o Evangelho, recolhem alguns relatos e dão-lhes uma estrutura literária, com uma orientação teológica e catequética particular, pensando nas necessidades das suas comunidades.

Partilho convosco algumas reflexões, tendo diante dos olhos o Evangelho de hoje — um texto de apenas cinco versículos — e procurando interiorizar a sua mensagem. Trata-se da conclusão do Evangelho de Mateus e, portanto, do seu ponto culminante e da chave de releitura de todo o Evangelho. Dificilmente poderíamos exagerar a sua importância.

1. Galileia, o lugar do encontro

Os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes tinha indicado”.

Jesus marca encontro com os apóstolos longe do centro religioso e político de Jerusalém: na Galileia, lugar de periferia e de fronteira, onde tudo tinha começado. É dali que se recomeça, já não em direção ao centro, mas em direção aos confins do mundo, a todos os povos. É o início da grande aventura da Igreja, que durará “até ao fim do mundo”. Jesus, que tinha partido da Galileia para concluir o seu caminho em Jerusalém, agora parece deixar para trás a cidade santa e o seu templo: são já realidades ultrapassadas!

A Galileia é o lugar da vida ordinária, onde Jesus tinha encontrado e chamado os seus discípulos. É o símbolo da vida quotidiana. Depois do tempo pascal, o Ressuscitado envia-nos de novo para a nossa vida de todos os dias. É aí que o veremos.

O encontro é no monte. Trata-se do sétimo e último monte do Evangelho de Mateus: o monte da missão. Ele corresponde ao primeiro, o monte da tentação, onde o diabo tinha procurado afastar Jesus do plano de Deus, oferecendo-lhe o poder e a glória do mundo (Mateus 4,8).

2. Os onze discípulos, os protagonistas

São onze, apenas onze, e já não doze. Essa ausência será pesada, embaraçosa, cheia de interrogações, causa de tristeza e de espanto. Por isso Pedro proporá preencher aquele lugar vazio com a escolha de Matias (Atos 1,26). Mas Matias poderia representar cada um de nós!

É com estes onze — um número que fala de incompletude e imperfeição — que também nós somos convocados para a grande missão. Diante da imensidão da tarefa, seríamos tentados a fazer o recenseamento das forças com que podemos contar, como fez o rei David, provocando a ira de Deus (cf. 2 Samuel 24,9). No fundo, não serão talvez isso muitas das nossas estatísticas?

Deus parece quase troçar dos nossos cálculos e reduz cada vez mais as nossas forças, como fez com as tropas de Gedeão, em marcha contra os madianitas: de trinta e dois mil para trezentos homens, porque “Israel poderia gloriar-se diante de mim e dizer: Foi a minha mão que me salvou” (Juízes 7,2). E agora será com onze homens que Jesus fará fermentar o mundo!

3. A dúvida que torna verdadeira a fé

Quando o viram, prostraram-se. Eles, porém, duvidaram”.

Viram-no, prostraram-se, mas duvidaram! As mulheres junto ao sepulcro, quando viram Jesus, “aproximaram-se, abraçaram-lhe os pés e adoraram-no” (Mateus 28,9). Aqui, pelo contrário, há dúvida, e é Jesus que tem de se aproximar dos onze.

Os evangelistas não poupam os apóstolos! Põem em evidência os seus limites, as suas fraquezas, as suas incompreensões, as suas lentidões: numa palavra, a sua inadequação. São homens como nós. Pensando neles, ninguém poderá mais dizer: “Mas como, queres escolher precisamente a mim?”. Não devemos envergonhar-nos das nossas dúvidas. A dúvida leva a sério a grandeza da fé.

4. Todo o poder ao... “maldito” na cruz!

Jesus aproximou-se e disse-lhes: Foi-me dado todo o poder no céu e na terra”.

Aquele que tinha sido julgado pelas autoridades religiosas como blasfemo e maldito por Deus recebe do Pai “todo o poder no céu e na terra”! Que ironia! Dá que pensar, sobretudo a nós que exercemos um “poder” em nome de Deus!

Tudo está agora nas suas mãos (João 13,3): nas mãos do Amor. Nada nem ninguém nos pode arrancar dessas mãos (Romanos 8,35; João 10,28). É uma certeza consoladora e libertadora, capaz de desfazer os laços paralisantes dos nossos medos.

5. O mandato missionário da Igreja

Ide, pois, e fazei discípulos todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo o que vos mandei”.

Ir é a primeira palavra de ordem. Retomar o caminho da missão, a missão de Jesus. É impressionante ver como, desde o início, a Igreja — uma realidade minúscula e insignificante — tinha uma consciência tão forte de ser enviada a todo o mundo!

Para fazer discípulos: dele, não nossos. Batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, isto é, mergulhando-os — este é o significado do verbo grego “batizar” — no Amor da Trindade. Ensinando-os não como mestres, mas como discípulos e testemunhas do único Mestre (Mateus 23,10).

6. A Ascensão, plenitude da Encarnação

E eis que Eu estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo”.

É a última palavra de Jesus, o Emanuel (Mateus 1,23). É a sua encarnação em cada um de nós. A presença é algo difícil de definir. Pode-se estar presente com o corpo e ausente com a mente e com o coração.

A Ascensão não é uma partida, mas uma nova e mais profunda modalidade de presença: Cristo é “mais íntimo a nós do que nós somos a nós mesmos”, para dizê-lo com Santo Agostinho. Por isso São Paulo poderá dizer: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gálatas 2,20).

7. Uma sugestão

Quando te parecer que Cristo é o grande ausente da tua vida ou da nossa sociedade; quando te parecer que o “príncipe deste mundo” retomou nas mãos o poder… volta a pegar neste Evangelho e escuta esta palavra que nunca passará: “Foi-me dado todo o poder no céu e na terra”.

E recorda-te da última e definitiva promessa de Jesus: “E eis que Eu estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo”.

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ


P. Manuel João Pereira Correia mccj
p.mjoao@gmail.com

sábado, 9 de maio de 2026

Fecundados pelo Espírito Santo - Pe. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 

Fecundados pelo Espírito Santo

Ano A - Páscoa - 6º domingo
João 14,15-21: “Eu pedirei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito”

Restam-nos duas semanas do Tempo Pascal. No próximo domingo celebraremos a Ascensão do Senhor e, no domingo seguinte, Pentecostes. A Palavra de Deus convida-nos a dirigir o nosso olhar para estes acontecimentos.

Hoje Jesus promete-nos o dom do Espírito: “Eu pedirei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito, para que permaneça convosco para sempre, o Espírito da verdade”. Jesus fala cinco vezes do envio do Espírito nestes seus discursos de despedida. Quatro vezes apresenta-o como o “Paráclito”, um termo grego muito rico que indica alguém chamado a estar ao nosso lado para nos ajudar, um consolador, um advogado defensor... Três vezes caracteriza-o como “Espírito da verdade”.

O amor, o “ninho” do Espírito

Jesus liga o dom do Espírito Santo ao amor: “Se me amais...”. O amor é o “ninho” do Espírito. O apóstolo Paulo afirma: “O fruto do Espírito é amor, alegria, paz, magnanimidade, benevolência, bondade, fidelidade, mansidão, domínio de si” (Gálatas 5,22). Todas características ligadas ao amor.

O trecho evangélico de hoje põe em destaque o amor — cinco vezes —, mas, surpreenden­temente, aqui Jesus fala do amor para com a sua pessoa. O amor, que no Antigo Testamento era reservado a Deus (Deuteronômio 6,4-9), Jesus agora o reclama para si. O Evangelho de João conclui-se com uma tríplice profissão de amor, em que Pedro representa cada um e cada uma de nós: “Simão, filho de João, tu me amas?” (João 21,17). Que honra Deus nos faz ao pedir a nossa amizade! Deus tem um coração apaixonado!

Jesus afirma que o amor por ele se manifesta na observância dos seus mandamentos: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos”. Por que fala de mandamentos, no plural? Podemos pensar que se refere, em geral, aos seus ensinamentos a serem guardados, mas sobretudo às duas dimensões inseparáveis do amor: amar a Deus e aos irmãos.

O amor é o motor da vida. Dizia Santo Agostinho: “Esteja em ti a raiz do amor, pois desta raiz não pode proceder senão o bem. Ama e faz o que quiseres!” E o apóstolo Paulo dirá: “O amor de Cristo nos impele” (2 Coríntios 5,14).

Em”, a preposição do amor

Chama a atenção a insistência de Jesus na profunda comunhão criada por este amor: uma verdadeira inabitação recíproca. “Naquele dia sabereis que eu estou em meu Pai, vós em mim e eu em vós”. Mesmo que encontremos outras expressões — “convosco”, “junto de vós”... —, a privilegiada é “em vós”, “em mim”, “no Pai”. Esta preposição, em — ἐν, em grego — aparece cerca de 25 vezes nos capítulos 14 e 15, evocando profunda intimidade, imanência, inabitação recíproca.

O nosso coração foi feito para ser habitado. Mais ainda, fecundado. Em cada crente renova-se algo do mistério de Maria, que “se encontrou grávida por obra do Espírito Santo” (Mateus 1,18). Orígenes de Alexandria, um dos maiores teólogos dos primeiros séculos e pai da exegese bíblica cristã (185-253), oferece-nos uma das imagens mais eficazes da vida cristã: “O cristão, enquanto está neste corpo, é semelhante a uma mulher grávida: traz dentro de si o Verbo de Deus” (In Exodum X, 10). Assim como a mulher grávida traz o filho no ventre, mas ainda não o vê face a face, assim o cristão traz Cristo dentro de si mediante a graça, mas ainda “caminha pela fé, não pela visão” (2 Coríntios 5,7). Tribulações, dificuldades e a própria morte constituem as dores do parto. O cristão vive no mundo, entre os homens, como uma mulher grávida de vida nova. “E não é necessário que a mulher grávida faça proclamações: é evidente para todos que há nela uma vida nova. Assim como para a mulher grávida a espera é o período mais vivo, mais feliz, mais criativo, também para nós: vivos, criativos, felizes; assim como a grávida é uma e duas ao mesmo tempo, vive uma vida feita de duas vidas, assim o cristão é um e dois”, comenta o Pe. Ermes Ronchi.

Colocar-se na escola dos místicos apaixonados

Talvez não tenhamos interiorizado suficientemente esta realidade surpreendente e maravilhosa: somos morada de Deus, habitados por Deus, portadores e portadoras de uma vida nova gerada em nós pelo Espírito Santo. Muitas vezes pensamos em Deus “conosco”, “ao nosso lado”, ou às vezes distante ou ausente, e esquecemo-nos de que Ele está “em” nós.

Os místicos, pelo contrário, compreenderam muito bem isso. Trago o exemplo de um místico francês do século XVII: Lourenço da Ressurreição (Laurent de la Résurrection), irmão leigo num mosteiro dos Carmelitas Descalços em Paris. A espiritualidade vivida e ensinada por ele era muito simples: cultivar o sentido da presença de Deus, através do “exercício contínuo desta divina presença”, a cada instante e em todas as circunstâncias, trabalhando primeiro como cozinheiro e depois como sapateiro num grande convento com mais de uma centena de frades:

No tumulto da minha cozinha, onde às vezes várias pessoas me falam ao mesmo tempo de coisas diferentes, possuo Deus tão tranquilamente como se estivesse de joelhos diante do Santíssimo Sacramento. Não é necessário ter grandes coisas a fazer. Eu viro a minha omelete na frigideira por amor de Deus e, quando a termino, se não me resta mais nada, inclino-me até ao chão e adoro o meu Deus, que me concedeu a graça de fazê-la; depois disso, levanto-me mais feliz do que um rei”.

Apesar de mancar por causa de uma ferida de guerra, Frei Lourenço — “rude por natureza e delicado pela graça”, segundo Fénelon — era pontual e preciso nas suas tarefas, sem dar sinais de impaciência ou pressa... Mas...

Se às vezes me ausento um pouco demais desta presença divina, Deus logo se faz sentir na minha alma... com movimentos interiores tão fascinantes e tão deliciosos que me envergonho de falar deles”.

Vira também tu a omelete quotidiana da tua vida: nem sempre será perfeita, mas poderá estar sempre temperada com amor.

Pe. Manuel João Pereira Correia, MCCJ


P. Manuel João Pereira Correia mccj
p.mjoao@gmail.com
https://comboni2000.org

A vontade de poder e o Reino de Deus - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 A vontade de poder

e o Reino de Deus


1. Embora ao princípio tenha sido

bastante ignorada, trata-se de uma obra

decisivamente importante: Die Welt als

Wille und Vorstellung (O mundo como

vontade e representação), de Arthur

Schopenhauer.

“O mundo é a minha representação”,

assim começa, pois é sempre com a nossa

estrutura humana que o captamos. Mas o

ser humano não se reduz ao conhecimento.

Antes de pensarmos, vivemos: respiramos,

comemos, bebemos, movimentamo-nos.

Somos um corpo vivo que quer viver. No

mais fundo de nós, somos vontade de viver,

e a mais forte expressão dessa vontade está

no sexo e no instinto de reprodução.

Toda a vida orgânica é manifestação

dessa vontade. É aterrador o que se passa

na selva — também na “selva humana”.

Mais: a vontade está na raiz das

manifestações da natureza inorgânica —

pense-se na potência que põe os astros em

movimento, na energia nuclear, na força de

atracção e repulsa dos elementos, nas

tempestades, nos terramotos, nos vulcões. O

universo, aparentemente sereno, é um

reboliço infindo, gigantesco.

Foi também aqui que Nietzsche veio

beber a sua teorização da vontade de poder

e do super-homem. O que é a moral vulgar

senão a manifestação do ressentimento dos

fracos contra os fortes?

2. Já não se repara nisso, mas o

cristianismo é realmente um paradoxo e um

escândalo.

Jesus disse que veio para que tivéssemos

“a vida e a vida em abundância”. Ele é a

“ressurreição e a vida”. Mas a vida que ele

traz não é a vida para os mais fortes. Os

preferidos são os fracos, os doentes, os

aleijados, os pobres, os coxos, os cegos, os

leprosos, as prostitutas, os pecadores

públicos, os marginalizados pela sociedade,

os excluídos pela religião. E são

precisamente os poderosos da religião e da

política que em coligação o excluem do

mundo, condenando-o à morte e morte de

cruz – a morte dos escravos.

Portanto, Jesus aparece sem poder. Ele é

aparentemente o derrotado pelos

poderosos.

São Paulo percebeu o escândalo, dizendo

que só pregava Cristo, e Cristo crucificado.

Aos Coríntios escreveu: “Enquanto os

judeus pedem sinais e os gregos andam em

busca da sabedoria, nós pregamos um

Messias crucificado, escândalo para os

judeus e loucura para os gentios”. E foi ao

Areópago, em Atenas, pregar “o Deus

desconhecido”, que ressuscitou Jesus.

Agora, “quem quiser ganhar a vida deve

perdê-la, quem a perder por amor ganha-a”.

É tal o paradoxo que, aqui, se agita uma

pergunta tentadora: Porque não criou Deus

um mundo mais amoroso e menos violento?

Mas, desgraçadamente, não há quem

continua a pregar um deus sádico: Deus

mandou o seu Filho Jesus para, pela morte

na cruz, pagar a dívida infinita pelo pecado

e assim Deus aplacar a sua ira e reconciliar-

se com a humanidade?...

3. Os seres humanos debatem-se com três

impulsos – manifestações fundamentais da

vida como potência -- de cuja gestão

depende uma vida humana boa para todos:

o prazer, o ter e o poder.

Alguns dos primeiros cristãos

resolveram a questão de modo radical,

entregando o poder a César, renunciando

ao casamento, dando os bens aos pobres. A

sua fidelidade era facilitada pela convicção

da chegada iminente do Reino de Deus,

com a segunda vinda de Jesus. Se o Reino

de Deus, aquele Reino onde Deus reina e

onde não haverá escassez nem exploração

nem dor nem morte e se realizarão todas as

esperanças, está para chegar, César que

fique com o poder, efémero, a questão do

casamento não se põe, já não se trabalha e

tudo é comum...

Depois, foi o que se sabe. Até o Papa se

declarou “sumo pontífice”, sucedendo ao

imperador, também com cerimoniais da

corte, os bispos ocuparam palácios, os

cristãos mataram e mataram-se por causa

do prazer, do ter e do poder...

Jesus ainda não voltou, e a vida sem

algum prazer não tem interesse; para haver

futuro, é preciso continuar a gerar; a

economia tem de funcionar, e não há

comunidades humanas sem um mínimo de

exercício do poder, não o poder como

dominação, mas como serviço para o bem

comum universal, segundo o direito, a

justiça e a paz. Assim, o desafio essencial

para os cristãos e todas as pessoas de boa

vontade é a gestão do prazer, do ter e do

poder, no horizonte da mensagem de Jesus

com as bem-aventuranças: “felizes os

pobres em espírito” — não fazem da

riqueza o seu deus —, “os mansos, os

misericordiosos, os pacificadores, os puros

de coração, os que se batem pela justiça e a

paz...”

Não permitindo que se realize a queixa

de Nietzsche: “Cristãos? Só houve um, e

morreu na cruz.” Depois, veio a Igreja e “o

Disangelho”.

Sábado, 2 de Maio de 2026

sábado, 2 de maio de 2026

Deus é uma palavra insuficiente! - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Depois de um período de interregno da publicação deste artigo semanal do Pe.Manuel Correia , voltei a ter acesso ao último pelas mãos do Isidro. Penso que foi por ter deixado de usar o email da Clix. Tenho pena que nenhum dos leitores do blog me não tenha alertado para essa situação. Espero que o Pe. Manuel Augusto ou o Pe. Correia me voltem a fazer chegar o semanal artigo que muito gosto de ler, agora para o ajfspinheiro@gmail.com.

Deus é uma palavra insuficiente!

Ano A – Tempo da Páscoa – 5.º Domingo


João 14,1-12: “Vou preparar-vos um lugar”


Com os últimos domingos do tempo pascal, entramos na preparação das festas da Ascensão e do Pentecostes. São os domingos da despedida. No Evangelho de hoje e do próximo domingo, escutaremos algumas passagens do capítulo 14 de São João, tiradas do discurso de despedida de Jesus durante a última ceia. Trata-se do seu testamento, antes da paixão e da morte.

Por que retomar estes textos precisamente no período pascal? A Igreja segue a antiga tradição de ler, durante este tempo, os cinco capítulos do Evangelho de João relativos à última ceia, do capítulo 13 ao 17, nos quais Jesus apresenta o sentido da sua Páscoa. Além disso, poderíamos dizer que, tratando-se do seu legado, o testamento deve ser aberto depois da sua morte. Jesus deixa-nos a sua herança, os seus bens, a nós, seus herdeiros.

Não se perturbe o vosso coração!

O texto evangélico de hoje é um dos mais densos do Evangelho de João. O contexto — depois do anúncio da traição e da sua morte violenta — é triste e dramático. Jesus não esconde aos seus a gravidade daquela hora, mas consola-os, convidando-os à confiança. É a hora da prova, da crise. A noite desce sombria no coração de todos.

É uma palavra dirigida também a nós que, depois da exultação pascal, voltamos a cair na dureza da nossa vida quotidiana. “Credes em Deus, crede também em mim”, é a palavra de ordem!

Vou preparar-vos um lugar!

Na passagem evangélica encontramos, cerca de dez vezes, verbos e substantivos ligados ao movimento. O homem é um caminhante, um viandante — homo viator, segundo Gabriel Marcel. Também a fé implica pôr-se a caminho: “Sai da tua terra... para a terra que eu te indicarei” (Génesis 12,1). Assim foi para Abraão e assim continua a ser para nós. A Bíblia está cheia de estradas e caminhos, de bifurcações e encruzilhadas. “Feliz o homem que traz no coração os teus caminhos!” (Salmo 84,6).

Para o homem bíblico e para Jesus, o caminho tem uma orientação precisa: Deus, o Pai. Santo Inácio de Antioquia, na sua Carta aos Romanos, 7,2, exprime assim a sua experiência: “Uma água viva murmura dentro de mim e diz-me: Vem para o Pai!”

Infelizmente, hoje parece faltar o sentido da vida, a sua orientação. Cumpre-se aquilo que disse certa vez o dramaturgo francês Eugène Ionesco (1909-1994): “O mundo perdeu o caminho, não porque faltem ideologias-guia, mas porque elas não levam a parte alguma. Na gaiola do seu planeta, os homens movem-se em círculo porque se esqueceram de que podem olhar para o céu.”

Embora estejamos a caminho, o nosso coração procura o repouso. A promessa de Deus é precisamente “entrar no seu repouso” (ver Carta aos Hebreus 4,1). Não se trata de um repouso passageiro, mas do repouso de quem sente que chegou a casa, à sua morada. Jesus, com a sua Páscoa, abre-nos o caminho: vai preparar-nos essa morada e depois voltará para nos levar consigo. Esta morada é a casa do Pai. Porque cada um habita onde é amado, comenta o biblista jesuíta Silvano Fausti (1940-2015).

E a minha morada, onde está? Onde me sinto em casa, conhecido, apreciado e amado? É aí que se encontra a minha identidade, o meu verdadeiro eu. O coração do Pai é verdadeiramente a minha morada?

Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, TOMÉ.

Jesus supõe que os apóstolos o tenham compreendido: “E para onde eu vou, vós conheceis o caminho.” Mas, na verdade, não compreenderam nada. Como, aliás, talvez também nós não tenhamos compreendido.

Tomé, homem prático e concreto, é o porta-voz deles — e também o nosso: “Senhor, não sabemos para onde vais; como podemos conhecer o caminho?” E aqui Jesus dá-nos uma sua surpreendente e novíssima autodefinição: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.” Caminho, Verdade e Vida: três palavras que, no fundo, se equivalem e podem aplicar-se ao próprio Deus. O caminho é o amor, a verdade é o amor, a vida é o amor. E Jesus acrescenta: “Ninguém vai ao Pai senão por mim!” Jesus é o mediador entre Deus e a humanidade. Não como um intermediário neutro entre os dois, mas como aquele que assume em si ambos.

Quem me viu, viu o Pai, FILIPE.

Neste momento, ao ouvir Jesus falar tanto do Pai, intervém Filipe, mais idealista e sonhador, e faz uma belíssima oração: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta.” É o sonho de Moisés (Êxodo 33,18-20) e o desejo secreto de todo homem: “Quando irei contemplar o rosto de Deus?” (Salmo 42,3; 27,8-9). Diante deste pedido, porém, Jesus fica decepcionado: “Há tanto tempo estou convosco e tu não me conheces, Filipe? Quem me viu, viu o Pai... Não acreditas que eu estou no Pai e o Pai está em mim?” Por três vezes, Jesus repete esta habitação recíproca: “Eu estou no Pai e o Pai está em mim.”

Poderia ser a mesma decepção que Jesus sente diante de nós: “Mas como? Há tantos anos estás comigo, vês aquilo que faço e escutas a minha palavra, e ainda não me conheces? Quando eu te lavava os pés, era o próprio Pai ajoelhado diante de ti!”

Comenta então, de modo provocador, o biblista italiano Alberto Maggi: Jesus não é como Deus — que não conhecemos! —; é Deus que é como Jesus. Cristo é a revelação plena do Pai, a imagem perfeita do Deus invisível (Colossenses 1,15). “Aquilo que era invisível no Filho era o Pai, e aquilo que era visível no Filho era o Pai”, conclui Santo Ireneu.

O que Jesus diz revoluciona completamente a nossa noção de Deus. O monge Enzo Bianchi, fundador da comunidade de Bose, numa entrevista de alguns anos atrás, quando lhe perguntaram quem era Deus para ele, respondeu:

«Sempre percebi a palavra “Deus” como ambígua, insuficiente. Sinto uma relação muito forte com Jesus Cristo. Penso que irei a Deus, que o conhecerei, através de Jesus Cristo, mas não sei quem é Deus; não sabemos nada, ninguém jamais o viu, falamos demasiado dele sem o conhecer. Na minha opinião, um dos maiores erros é continuar a falar de Deus quando Deus permanece incognoscível, “o mistério”. Para mim, basta Jesus Cristo, que me conduzirá a Ele... Não gasto tempo a discutir sobre Deus ou a anunciar Deus.»

E no comentário ao Evangelho de hoje diz: “Às vezes pergunto-me se nós, cristãos, herdeiros do mundo grego, não acabamos por professar um teísmo com uma camada cristã. Devemos ter a coragem de dizer que, para nós cristãos, Deus é uma palavra insuficiente!

Em conclusão, nestes tempos de incerteza ou até de desorientação, sejamos também concretos como Tomé e perguntemos: Jesus, para onde vamos? Ele nos responderá: Segue-me, eu sou o Caminho!
Se temos um coração ansioso por ver o Pai, no contexto de um mundo e de uma história tão atribulados, repitamos também como Filipe: “Senhor, mostra-nos o Pai.” E Jesus continuará a responder-nos: Olha para mim, escuta-me. O Pai está no meu modo de amar, de servir, de perdoar, de lavar os pés.

Se queres saber quem é Deus, não o procures longe: olha para Jesus. E deixa-te conduzir por ele à casa do Pai.

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

domingo, 26 de abril de 2026

O clamor por Deus e a esperança final - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

O clamor por Deus

e a esperança final


1. Quem põe em dúvida que vivemos tempos

temíveis, brutais, de horrores sem fim? Ele há as

guerras, aquelas de que se fala e as outras de que

se não fala — por exemplo a do Sudão —,

multiplicando os seus campos de destruição e

ruinas, e os montões de cadáveres crescem e

crescem e crescem... E as crianças — tantas até

raptadas são — a gritar e as mulheres violadas, e

a fome não deixa de aumentar: todos os dias pelo

menos 8.000 crianças morrem por causa da fome.

E são milhões de milhões de euros que se gastam

em novos armamentos. Os prepotentes esmagam

os povos e os direitos das maiorias, e, vivendo

nós hoje em total interligação e interdependência,

quase todos no mundo acabam por ser vítimas

dessa prepotência. E lá andam todos numa

correria vertiginosa, todos ou quase todos a

dedar nas redes, e quem se lembra que brain rot

(apodrecimento do cérebro, cérebro apodrecido)

foi o termo considerado como a palavra do ano

pela Universidade de Oxford em 2024?...

Não creio que sejamos piores do que no

passado. Mas há uma questão terrível: temos

poder a mais. Pela primeira vez, a Humanidade

— basta pensar no armamento atómico — pode

pôr termo a si mesma. E há a IA, com imensas

vantagens, mas alguém pode dizer aonde nos

levará? E a crise climática... e os “cérebros

apodrecidos”?

Neste contexto, não deveria esquecer-se a

pergunta: Onde está o ser humano?, mas são mais

a perguntar: Onde está Deus?

Nestas circunstâncias — e não vou esquecer

também, por exemplo, as enfermarias dos

hospitais, verdadeiros acampamentos de dor e

solidão, os presos, os lares de idosos, as vítimas

de abusos de todo o género, os jovens com

ansiedade crescente... —, ainda em tempo de

Páscoa, alguns textos célebres podem vir ao nosso

encontro... Dou exemplos.

2. Para exprimir a sua consternação perante as

vítimas da História, todos os horrores do passado

e todos os mortos, “as ruínas da história”, Walter

Benjamin, da Escola de Frankfurt, que, numa

fuga falhada à perseguição nazi, se suicidou,

serviu-se de um quadro famoso do pintor suíço,

Paul Klee, chamado “Angelus Novus” e deixou-

nos o célebre texto sobre “O anjo da história”:

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus

Novus. Nele representa-se um anjo que parece

como se estivesse a ponto de afastar-se de algo

que o tem atordoado. Os seus olhos estão

desmesuradamente abertos, a boca também

aberta e as asas estão completamente estendidas.

E este deve ser o aspecto do anjo da história.

Voltou o rosto para o passado. Onde a nós se nos

manifesta uma cadeia de dados, ele vê uma

catástrofe única que amontoa incansavelmente

ruina sobre ruina, lançando-as a seus pés. Ele

bem quereria deter-se, despertar os mortos e

recompor o despedaçado. Mas a partir do paraíso

sopra um furacão que se enredou nas suas asas e

que é tão forte que o anjo já não consegue fechá-

las. Este furacão empurra-o irresistivelmente para

o futuro, para o qual ele está de costas, enquanto

os montões de ruinas crescem perante ele até ao

céu. Este furacão é o que nós chamamos

progresso”.

Estamos, na opinião de Manuel Fraijó, perante

um texto-chave da filosofia do século XX.

Benjamin era ateu, mas não o abandonava a

pergunta pelos mortos e, concretamente, pelas

vítimas inocentes da História...

3. No ano de 1796, Jean Paul (pseudónimo de

Johann Paul Friedrich Richter) escreveu um dos

textos mais sublimes e ao mesmo tempo mais

terríveis da grande literatura alemã: Rede des toten

Christus vom Welgebäude herab, dass kein Gott sei

(Discurso do Cristo morto, desde o cume do

mundo, sobre a não existência de Deus).

Nele, o grande escritor descreve um sonho.

Pela meia noite e em pleno cemitério, numa visão

apavorante, o olhar estende-se até aos confins da

noite cósmica esvaziada, os túmulos estão

abertos, e, num universo que se abala, as sombras

voláteis dos mortos estremecem, aguardando,

aparentemente, a ressurreição. É então que, a

partir do alto, surge Cristo, uma figura

eminentemente nobre e arrasada por uma dor

sem nome. E, com um terrível pressentimento,

“os mortos todos gritam-lhe: ‘Cristo, não há

Deus?’ Ele respondeu: ‘Não, não há Deus’. Então,

a sombra de cada morto estremeceu, e umas a

seguir às outras desconjuntaram-se. E Cristo

continuou, anunciando o que aconteceu no

instante da sua própria morte: ‘Atravessei os

mundos, subi até aos sóis, voei com as galáxias

através dos desertos do céu; e não há Deus. Desci

até onde o ser estende as suas sombras, e olhei

para o abismo, gritando: ‘Pai, onde estás?’ Mas

apenas ouvi a tormenta eterna, que ninguém

governa”. Quando, no espaço incomensurável,

procurou o olhar divino, não o encontrou; apenas

o cosmos infindo o fixou petrificado “com uma

órbita ocular vazia e sem fundo, e a eternidade

jazia sobre o caos e roía-o e ruminava-se”. O

coração rebentou de dor, quando as crianças

sepultadas no cemitério se lançaram para Cristo,

perguntando: ‘Jesus, não temos Pai?’ E ele,

debulhado em lágrimas, respondeu: ‘Somos

todos órfãos, eu e vós, não temos Pai’. “Nada

imóvel, petrificado e mudo! Necessidade fria e

eterna! Acaso louco e absurdo! Como estamos

todos tão sós na tumba ilimitada do universo! Eu

estou apenas junto de mim. Ó Pai, ó Pai! Onde

está o teu peito infinito, para descansar nele? Ah!

Se cada eu é o seu próprio criador e pai, porque é

que não há-de poder ser também o seu próprio

exterminador?”

Para Jean Paul, a morte de Deus não é ainda

um destino espiritual inevitável, mas apenas a

tentação de uma possibilidade ameaçadora,

contra a qual quer prevenir. Quando acordou do

pesadelo ateu, a sua alma “chorava de alegria,

por poder de novo adorar a Deus — e a alegria e

o choro e a fé nele era a oração”.

4. Um século depois (1882), o louco de

Nietzsche proclamou a morte de Deus: “O louco

saltou para o meio deles e trespassou-os com o

olhar. ‘Quem vos vai dizer o que é feito de Deus

sou eu’, gritou! “Quem o matou fomos todos nós, vós

mesmos e eu!”

“Nunca existiu acto mais grandioso”. Mas, ao

mesmo tempo, Nietzsche não se mostra

completamente eufórico. “Para onde vamos nós,

agora? Não estaremos a precipitar-nos para todo

o sempre? Não andaremos errantes através de

um nada infinito? Não estará a ser noite para

todo o sempre, e cada vez mais noite?”

5. O filósofo Gilles Lipovetstky escreveu, em A

Era do Vazio, comentando, que Deus morreu e as

pessoas não estão preocupadas com isso. Mas

outro filósofo, agnóstico, Leszek Kolakowski,

disse que o nosso “é um mundo privado de todo

o sentido, de qualquer orientação, sinal de

direcção, estrutura”, de tal modo que, desde a

proclamação da morte de Deus por Nietzsche,

“praticamente nunca mais houve ateus serenos”:

“A ausência de Deus tornou-se a ferida sempre

aberta do espírito europeu, por maior que tenha

sido o esforço para esquecê-lo, recorrendo a toda

a espécie de narcótico.” De qualquer forma no

seu livro mais recente, A Sociedade da Decepção

(2012), Lipovetsky, reconhecendo “a reafirmação

do religioso”, veio dizer que, “privados de

sistemas de sentido englobante, numerosos

indivíduos encontram uma tábua de salvação no

reinvestimento de antigas e novas

espiritualidades capaz de oferecer a unidade, um

sentido, referências, uma integração comunitária:

é o que o ser humano necessita para combater a

angústia do caos, a incerteza e o vazio.”

6. Lá está, sempre, a sublevação dos versos de

Heinrich Heine: “E continuamos

perguntando,/uma e outra vez,/até que um

punhado de terra/nos cale a boca./Mas isto é uma

resposta?”

7. E há, tocando o absurdo, aquela pergunta

terrível, pergunta-limite: se soubessem o que

agora sabem pela experiência vivida e a morte no

fim, quantos, quantas, se pudessem escolher,

teriam escolhido vir à existência?

É nesta pergunta-limite, entre ser e não ser,

finito-infinito, que, em confiança racional, pode

dar-se a experiência da verdade salvadora do

Evangelho: Jesus anunciou por palavras e obras o

Evangelho, notícia boa e felicitante, a melhor

notícia que a Humanidade alguma vez ouviu:

Deus é bom, Pai-Mãe, e só quer a alegria, a

felicidade, a plena realização de todos os seus

filhos e filhas, e Jesus, que sabia que nem todos

estavam de acordo com esta mensagem, não se

acobardou, foi até ao fim para dar testemunho da

Verdade e do Amor e, julgado como blasfemo

religioso e subversivo político, foi condenado à

morte e morte de cruz, a morte mais horrenda,

rezando aquela oração que atravessa os séculos:

“Meu Deus, meu Deus, porque é que me

abandonaste?”, e Deus infinitamente poderoso e

bom não o deixou na morte, ele está vivo na

plenitude da vida em Deus para sempre, como

desafio e esperança para todos..., para mim.

Sábado, 25 de Abril de 2026