domingo, 14 de julho de 2024

VENCER O CEPTICISMO DEMOCRÁTICO Frei Bento Domingues, O.P. 14 Julho 2024

 

VENCER O CEPTICISMO DEMOCRÁTICO

Frei Bento Domingues, O.P.

14 Julho 2024

 

1. Realizou-se a 50ª Semana Social dos Católicos de Itália, em Trieste, com o tema No coração da democracia. Participar entre história e futuro. O Papa esteve presente no encerramento dessa Semana, dia 7, de forma muito activa, a começar por uma antologia dos seus discursos e mensagens com o mesmo tema. Além da apresentação do livro, temos de ter em conta o discurso que proferiu e a importante homilia da Missa.

A presença de Francisco, no nosso mundo, não é de conformismo, de cedência ao que está a acontecer, mas de mudança. Ao procurar redescobrir o que é a democracia, aponta os perigos que, hoje, está a correr e o contributo original que o Cristianismo pode e deve oferecer ao mundo contemporâneo. Ao dar sentido à nossa história, alimenta a esperança sem a qual não há futuro.

O Papa lembrou que democracia é um termo que se originou na Grécia antiga para indicar o poder exercido pelo povo por meio dos seus representantes. Uma forma de governo que, embora se tenha difundido globalmente, nas últimas décadas, parece estar a sofrer as consequências de uma doença perigosa, o cepticismo democrático.

A dificuldade das democracias em assumir a complexidade do tempo presente cede, muitas vezes, ao fascínio do populismo. A democracia tem em si um grande e indubitável valor: o de trabalhar e viver juntos em liberdade. O facto de o exercício do governo se realizar no contexto de uma comunidade que se confronta, livre e secularmente na arte da procura do bem comum, é um nome diferente para o que chamamos política.

No discurso, aos 1 200 participantes da Semana, afirmou: A própria palavra democracia não coincide simplesmente com o voto do povo, mas exige que se criem as condições para que todos se possam expressar e participar. E a participação não se pode improvisar: aprende-se desde criança, adolescente e deve ser treinada, também no sentido crítico, perante as tentações ideológicas e populistas. Nesta perspectiva, o Cristianismo pode contribuir, promovendo um diálogo fecundo com a comunidade civil e com as instituições políticas. Só assim será possível libertar-se das escórias da ideologia, reflectindo de modo comunitário, especialmente sobre os temas relacionados com a vida humana e com a dignidade da pessoa.

O caminho democrático exige debater juntos e saber que, só juntos, esses problemas podem encontrar solução.

2. Em última análise, é na palavra participar que encontramos o sentido autêntico da democracia e entramos no coração de um sistema democrático. Num regime de ditadura ou dirigista ninguém pode participar, todos assistem ou sofrem passivamente.

Uma verdadeira democracia não exclui ninguém nem nenhum país. Nós sabemos o que foram e são os regimes de ditadura. Sem democracia não há paz.

É esta forma de governo que ajuda as pessoas a serem cada vez mais livres, fraternas e criativas. Os totalitarismos são formas de dominação. Na vida social, o importante é perguntar em que posso eu ajudar, vencendo a tentação de dominar.

O Papa deu como exemplos de actuação democrática Giuseppe Toniolo (1845-1918), inspirador e fundador das próprias Semanas Sociais, e o famoso político católico italiano, Giorgio La Pira (1904-1977) – um grande amigo – que defendia para o laicado a capacidade de organizar a esperança porque, sem ela, pode administrar-se o presente, mas não se constrói o futuro.

Já evoquei, nesta coluna, os leigos e padres portugueses que muito sofreram e lutaram pelo derrube da ditadura que nos oprimiu até ao 25 de Abril[1]. E agora, entre nós, também existem organizações políticas cansadas da democracia.

Os que lutaram e lutam contra as ditaduras têm de vencer a indiferença – cancro da democracia – e a passividade de muitos perante os rumos dos movimentos sociais.

Em Trieste, o Papa lembrou que são muitas as questões sobre as quais, democraticamente, somos chamados a interagir. Pensemos num acolhimento inteligente e criativo, que coopera e integra as pessoas migrantes; pensemos no inverno demográfico que afeta, agora, de forma generalizada, toda a Itália e não só; pensemos na escolha de políticas autênticas para a paz, que coloquem em primeiro lugar a arte da negociação e não o recurso ao rearmamento. Em resumo, aquele cuidado pelos outros, que Jesus nos indica continuamente no Evangelho, como a atitude autêntica de ser pessoa, de sermos humanos.

3. Poderíamos dizer que, tanto no livro que apresentou, no discurso que fez e na Eucaristia que celebrou, foi o tema da esperança que esteve sempre presente. Foi mesmo para a despertar que Deus suscitou e suscita profetas entre o povo.

Na celebração da Eucaristia, questionou muitas das nossas representações da fé cristã e lembrou que são os profetas que não deixam adormecer a esperança. São a voz de Deus, muitas vezes rejeitados. O próprio Jesus teve a mesma dolorosa experiência dos profetas, tornando-se escândalo para os seus conterrâneos.

A palavra escândalo não se refere a algo obsceno ou indecente como a usamos hoje. Na homilia do Papa, escândalo significa a própria humanidade de Deus manifestada em Jesus de Nazaré.

Os seus conterrâneos não conseguiam entender como do filho de José, o carpinteiro – uma pessoa comum –, poderia surgir tanta sabedoria e até mesmo a capacidade de realizar prodígios. Sob o ponto de vista teológico, o escândalo é a própria humanidade de Jesus, Deus humanado. O obstáculo que impede de reconhecer a presença de Deus em Jesus é o facto de Ele ser humano. Este escândalo é uma fé fundada num Deus que faz parte da humanidade, que cuida dela, que se comove com as nossas feridas, que toma sobre si o nosso cansaço, que se parte como pão para nós.

Hoje, precisamos exatamente desse escândalo da fé. Não de uma religiosidade fechada em si mesma, que ergue o olhar para o céu, sem se preocupar com o que acontece na terra, e celebra liturgias no templo, esquecendo-se da poeira que corre pelas nossas estradas.

Precisamos do escândalo da fé, de uma fé enraizada no Deus que se fez humano e, portanto, de uma fé humana, de uma fé de carne, que entra na história, que acaricia a vida das pessoas, que cura os corações partidos, que se torna fermento de esperança e germe de um mundo novo.

Deus esconde-se nos cantos escuros da vida e das nossas cidades. A Sua presença revela-se, precisamente, nos rostos escavados pelo sofrimento e onde a degradação parece triunfar.

O infinito de Deus está escondido na miséria humana, o Senhor agita-se e torna-se presença amiga, precisamente, na carne ferida dos últimos, dos esquecidos e dos descartados. Ali, Deus se manifesta[2].

Precisamos de uma teologia, de uma espiritualidade, de uma forma de viver que liguem o céu e a terra.

 

 



[1] Novos e velhos rostos da Igreja, in Público 29.04.2024; Memória e presos políticos no 25 de Abril, ibidem 05.05.2024

[2] Cf. www.vatican.va 07.07.2024

sábado, 13 de julho de 2024

A missão com as sandálias nos pés e o bastão na mão - Pe. Manuel João, MC

 A missão com as sandálias nos pés e o bastão na mão

Ano B - Tempo Comum – 15o Domingo
Marcos 6,7-13: “Jesus chamou os doze Apóstolos e começou a enviá-los dois a dois.”

O tema central das leituras deste XV domingo é a vocação e a missão:
- a vocação/missão do profeta:
 “Foi o Senhor que me tirou da guarda do rebanho e me disse: ‘Vai profetizar ao meu povo de Israel’” (primeira leitura, Amós 7,12-15);
- a vocação/missão do cristão: “Nele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença.” (segunda leitura, Efésios 1,3-14);
- a vocação/missão do apóstolo: “Jesus chamou os doze Apóstolos e começou a enviá-los dois a dois.” (evangelho).

Algumas reflexões sobre a Vocação

Antes de passar ao trecho do evangelho, reflitamos um momento sobre este binómio vocação/missão, ou seja, chamada e envio, eleição e incumbência, seguimento e apostolado... as duas dimensões inseparáveis do ser e do fazer!

Primeiramente, removamos da mente a velha ideia de que a vocação diz respeito apenas a padres e freiras, religiosos e missionários ou, no máximo, a alguns leigos chamados a desempenhar uma tarefa particular na comunidade cristã. Na realidade, a vida cristã é vocação, seja ela vivida numa consagração especial ou na vida leiga e matrimonial. Aliás, poderíamos dizer, num sentido amplo, que a “vocação” caracteriza toda vida humana, como busca de sentido.

Em segundo lugar, seria enganoso pensar que a questão da vocação diz respeito apenas aos jovens em busca de um projeto de vida ou do plano de Deus para eles. Ela abrange todo o arco de nossa existência. A “busca vocacional” não cessa, uma vez que descobrimos o que Deus quer de nós, mas continua por toda a vida. “Cada manhã ele abre o meu ouvido para que eu escute como um discípulo” (Isaías 50,4). Viver a nossa vida em tensão vocacional dá a cada momento um sabor de novidade. Caso contrário, facilmente caímos no cansaço do cotidiano cinzento. Para sermos fiéis à vocação, não basta seguir adiante por inércia. É preciso reavivar continuamente o ardor vocacional, como Paulo recomendava a Timóteo: “Lembro-te de reavivar o dom de Deus que há em ti mediante a imposição das minhas mãos.” (2Timóteo 1,6). O nosso “Sim” deve ser renovado diariamente, caso contrário, desgasta-se e desbota.

Finalmente, ouso dizer que o nosso “Sim” não diz respeito apenas ao presente e ao futuro, mas até mesmo ao passado porque, por mais estranho que isso nos possa parecer, a fidelidade passada nunca está segura até ao “Sim” final. Hoje eu posso arrepender-me de uma escolha que, na época, fiz com alegria e generosidade. Aliás, o grande “Sim” renovado ao passado pode ser ainda mais desafiador do que o “Sim” de hoje, dado, quem sabe, por força ou inércia. Isso explica como tantas vocações, consagradas ou matrimoniais, terminam na amargura ou no fracasso. E aqui reside a suprema bem-aventurança – a da salvação – que Jesus proclama justamente neste contexto do envio dos Doze em missão: “Quem perseverar até o fim será salvo” (Mateus 10,22).

Após estas considerações, talvez não totalmente pertinentes, passemos a destacar alguns aspectos do evangelho de hoje.

As três etapas da vocação

O trecho do evangelho começa por dizer que “Jesus chamou os doze Apóstolos”. Há três chamadas especiais na nossa vida. Há, antes de tudo, a chamada pessoal: “Passando, Jesus viu Simão e André... Tiago e João... e chamou-os” e eles tornaram-se discípulos (Marcos 1,16-20). Essa chamada também se deu com cada um de nós!
Num segundo momento, dá-se a vocação comunitária: “Subiu depois ao monte, chamou os que quis, e eles foram até ele. Designou doze – a quem chamou apóstolos –, para que estivessem com ele e para enviá-los a pregar.” (Marcos 3,13-14). Assim, os discípulos tornaram-se uma comunidade. Todos somos “convocados”, ‘chamados juntos’. Não há vocações 'privadas'!
Finalmente, há a chamada apostólica, o envio em missão. É o momento apresentado no evangelho de hoje: “Jesus chamou os doze Apóstolos e começou a enviá-los dois a dois” e eles tornaram-se apóstolos. Toda a vocação desemboca na missão. Uma missão comunitária (dois a dois), eclesial, não de franco-atiradores!

Aqui se trata do primeiro envio dos Doze, um estágio em vista do envio final, após a ressurreição, que os caracterizará definitivamente como “apóstolos”, enviados, missionários: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura.” (Marcos 16,15). Vejamos, então, mais de perto esta terceira etapa.

A nossa missão prolonga a de Jesus

Os apóstolos prolongam a missão de Jesus (Marcos 3,14-15): anunciar o Reino de Deus, expulsar demónios e curar enfermos. Por isso, o Senhor transmite-lhes o seu poder: “Deu-lhes poder sobre os espíritos impuros”. O Evangelho de Marcos é conhecido por destacar a atividade de Jesus em expulsar os espíritos impuros. Por que o faz? Não apenas para demonstrar o poder divino de Jesus, mas para evidenciar que o Reino de Deus está avançando e derrotando o reino de Satanás.

Os apóstolos estão conscientes de ter recebido esse “poder sobre os espíritos impuros” e exercem-no com sucesso. Infelizmente, connosco muitas vezes não é assim. Não temos fé nesse dom que nos é conferido com o sacramento da crisma. Por medo ou covardia, muitas vezes não combatemos o mal e assim permitimos que se expanda nos nossos ambientes de vida.

A missão do bastão e das sandálias

Uma vez conferido esse poder, o Senhor “ordenou-lhes que não levassem para a viagem nada além de um bastão: nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura; mas calçassem sandálias e não levassem duas túnicas”. Esta ordem de Jesus põe em crise qualquer missionário. É a única vez no evangelho de Marcos que Jesus ordena algo aos discípulos. Ele o faz porque isso não é algo natural. Somos tentados a fazer missão com meios poderosos e eficazes. No fundo, não confiamos no poder da Palavra de Deus e de sua providência. Por instinto, buscamos outras seguranças humanas.

Enquanto não fores pobre, tudo o que deres é apenas exercício de poder”, diz Silvano Fausti. A vida e a missão, porém, encarregam-se de despir o apóstolo. O insucesso, as desilusões, a oposição, a fragilidade... levam-nos à conclusão de que a missão se faz na fraqueza para que possa manifestar-se em nós o poder de Deus (2Coríntios 12,7-10).

Se olharmos os textos paralelos de Mateus (cap. 10) e Lucas (cap. 9 e 10), notaremos que Jesus diz para não levar nem mesmo o bastão e as sandálias. Nesse caso, o bastão é considerado a arma do pobre e a missão deve ser feita desarmada. Para Marcos, no entanto, o bastão é o instrumento do peregrino que o ajuda a caminhar. Além disso, é o sinal do poder que Deus dá ao seu enviado, como o bastão de Moisés. As sandálias para Mateus e Lucas são um luxo. Para Marcos, em outro contexto cultural, são sinal de liberdade. Os escravos andavam descalços. A evangelização, porém, traz uma mensagem de liberdade.

Para concluir, perguntemo-nos:

1) Sou um cristão peregrino ou um cristão sedentário, com demasiada “bagagem” para me poder deslocar?
2) Nas minhas fraquezas reconheço a ação de Deus que me despoja das falsas seguranças?
3) Qual é o “bastão” em que me apoio para caminhar?
4) Sou um cristão pascal, “com os lombos cingidos, as sandálias nos pés e o bastão na mão” (Êxodo 12,11), sempre pronto para partir?

P. Manuel João Pereira Correia mccj
Verona, 11 de julho de 2024

P. Manuel João Pereira Correia mccj
p.mjoao@gmail.com

 

domingo, 7 de julho de 2024

CABEÇAS DURAS E CORAÇÕES OBSTINADOS Frei Bento Domingues, O.P. 7 de Julho 2024

 

CABEÇAS DURAS E CORAÇÕES OBSTINADOS

Frei Bento Domingues, O.P.

7 de Julho 2024

 

1. Conhecemos as narrativas bíblicas, míticas, da Criação e a da expulsão do Paraíso (Génesis 1-3). Eduardo Lourenço acrescentava: somos nós que continuamos a expulsar-nos do Paraíso. Trocamos a criação pelas muitas formas de destruição. Este mundo podia ser muito diferente. Somos nós e as gerações que nos precederam que o estragámos. Somos nós e as gerações futuras que temos de o refazer.

Existe um poema, no capítulo 11 do livro bíblico, atribuído ao profeta Isaías, que procura recriar um mundo que parece insólito. É a História do Futuro, como diria o P. António Vieira.

Vou evocar esse poema, contra todas as formas de violência, quando nós, pelo contrário, andamos sempre a inventar novas formas de destruição. O que é gasto para desfigurar o mundo dava para sonhar e realizar um mundo outro. Eis o poema.

 «Brotará um rebento do tronco de Jessé e um renovo brotará das suas raízes. Sobre ele repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de temor do Senhor. Não julgará pelas aparências nem proferirá sentenças somente pelo que ouvir dizer; mas julgará os pobres com justiça e com equidade os humildes da terra. A justiça será o cinto dos seus rins e a lealdade circundará os seus flancos. Então, o lobo habitará com o cordeiro e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito; o novilho e o leão comerão juntos e um menino os conduzirá. A vaca pastará com o urso e as suas crias repousarão juntas; o leão comerá palha como o boi. A criancinha brincará na toca da víbora e o menino desmamado meterá a mão na toca da serpente. Não haverá dano nem destruição em todo o meu santo monte, porque a terra está cheia de conhecimento do Senhor, tal como as águas que cobrem a vastidão do mar»[1].

Os movimentos ecologistas são formas de esperança, histórias de futuro. Não se resignam à destruição da Criação, obra de Deus e do ser humano. A situação em que nos encontramos não era inevitável. Agora, só nos resta não continuar os erros do passado e tudo fazer para tornar este mundo sustentável, um paraíso.

2. Há mais de 70 anos, quando o mundo oscilava sobre o fio duma crise nuclear, o Papa João XXIII escreveu uma encíclica na qual não se limitava a rejeitar a guerra, mas quis transmitir uma proposta de paz. Dirigiu a sua mensagem Pacem in terris (1963) a todo o mundo católico, mas acrescentava: e a todas as pessoas de boa vontade. Agora, o Papa Francisco, à vista da deterioração global do ambiente, quer dirigir-se a cada pessoa que habita neste planeta. Na minha exortação Evangelii gaudium, escrevi aos membros da Igreja, a fim de os mobilizar para um processo de reforma missionária ainda pendente. Nesta encíclica [Laudato Si’], pretendo especialmente entrar em diálogo com todos acerca da nossa casa comum[2].

O que observamos, hoje, é uma sementeira de violência. Entrando na guerra, é preciso fazer tudo para renovar o armamento continuamente, para poder destruir o outro, em vez de gastar esses recursos para capacitar os povos todos a viver em paz e não no medo uns dos outros. Em vez de construirmos instrumentos de destruição e de morte, poderíamos fazer instrumentos de desenvolvimento.

É também atribuído ao profeta Isaías outro sonho que está na nossa imaginação e nas nossas mãos realizar.

«No fim dos tempos o monte do templo do Senhor estará firme, será o mais alto de todos, e dominará sobre as colinas. Acorrerão a ele todas as gentes, virão muitos povos e dirão: Vinde, subamos à montanha do Senhor, à casa do Deus de Jacob. Ele nos ensinará os seus caminhos e nós andaremos pelas suas veredas; porque de Sião sairá a lei, e de Jerusalém, a palavra do Senhor. Ele julgará as nações e dará as suas leis a muitos povos, os quais transformarão as suas espadas em relhas de arados e as suas lanças em foices. Uma nação não levantará a espada contra outra e não se adestrarão mais para a guerra. Vinde, Casa de Jacob! Caminhemos à luz do senhor»[3].

Não parece que sejam estes textos, e outros semelhantes, a leitura e a prática do cabeça dura e coração obstinado, Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelita, de que fala o texto do profeta Ezequiel:

«Naqueles dias, o Espírito entrou em mim e fez-me levantar. Ouvi então alguém que me dizia: Filho do homem, Eu te envio aos filhos de Israel, a um povo rebelde que se revoltou contra Mim. Eles e seus pais ofenderam-Me até ao dia de hoje. É a esses filhos de cabeça dura e coração obstinado que te envio, para lhes dizeres: Eis o que diz o Senhor. Podem escutar-te ou não – porque são uma casa de rebeldes –,
mas saberão que há um profeta no meio deles»[4].

3. O Papa Francisco convocou os novos Arcebispos Metropolitanos para receber a bênção dos Pálios, na Celebração da Missa, no dia de S. Pedro e S. Paulo (29 Junho). Este dia foi escolhido para significar e nos dizer a importância dos serviços (dos ministérios) na Igreja, a não confundir com as metas de uma carreira. Não são para restringir, mas para abrir o futuro e construir a esperança em todas as situações. Em comunhão com Pedro e seguindo o exemplo de Cristo, porta das ovelhas (cf. Jo 10, 7), os Arcebispos Metropolitanos são chamados a ser pastores zelosos, que abrem as portas do Evangelho e que, com o seu ministério, ajudam a construir uma Igreja e uma sociedade de portas abertas. O próprio Natal deste ano será marcado pela abertura a todos os povos, todos, todos, todos. É esta abertura que dá início ao novo Ano Jubilar, um ano de graça para todos.

Enquanto uns abrem as portas, outros fecham-nas. O Jornal 7Margens (01.07.2024) refere que as Igrejas da Terra Santa denunciam ataque coordenado das autoridades israelitas contra os cristãos. Os patriarcas e líderes das Igrejas Cristãs em Jerusalém escreveram uma carta ao primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, lamentando o que consideram ser um ataque coordenado à presença cristã na Terra Santa.

Em vez de convocar israelitas, muçulmanos e cristãos para construírem um futuro de paz, de todos, por todos e com todos, procuram tornar a vida impossível entre estes povos.

Fala-se de Terra Santa, mas para poder usar este nome deveria ser uma Terra de diálogo entre muçulmanos, judeus e cristãos.

 



[1] Is 11, 1-9

[2] Cf. Laudato Sí, nº 3

[3] Cf. Is 2, 3-5

[4] Ez 2, 2-5

sábado, 6 de julho de 2024

O primeiro insucesso apostólico de Jesus - Pe Manuel João , MC

 O primeiro insucesso apostólico de Jesus

Ano B – Tempo Comum – 14º Domingo
Marcos 6,1-6: “Jesus dirigiu-se à sua terra”

Hoje encontramos Jesus em Nazaré. Meses atrás, os seus familiares, preocupados com o que se dizia sobre ele, tinham descido a Cafarnaum, onde Jesus havia estabelecido a sua nova morada, com a intenção (sem sucesso) de o levar de volta para casa. Agora é o próprio Jesus que toma a iniciativa de ir à sua aldeia natal. São cerca de cinquenta quilômetros e uma subida de setecentos metros, por isso não era uma caminhada fácil. 

Porque é que ele faz isto? Podemos pensar em motivações muito humanas, como o rever os seus, estar com os amigos, passar alguns dias de descanso nos ambientes onde cresceu... Mas também haverá outros motivos mais profundos, como apresentar a sua nova família, os Doze, e anunciar a boa nova do Reino também na sua aldeia. Podemos imaginar que a acolhida foi amigável e até entusiástica. Jesus era um deles, certamente querido por todos. A situação, no entanto, mudou radicalmente no sábado, quando todos se reuniram na humilde sinagoga de Nazaré.

Vamos também nós a Nazaré, não como espectadores passivos, mas procurando confrontar-nos com os protagonistas presentes no relato. Pensemos particularmente nos três grupos de pessoas ali presentes: os habitantes de Nazaré, os doze discípulos que acompanhavam Jesus e o grupo de familiares mais próximos, com Maria, a mãe de Jesus, à frente.

Da admiração ao escândalo

Jesus frequentou aquela sinagoga por trinta anos, mas desta vez havia um ar de expectativa particular. A sua fama já se havia espalhado por toda a Galileia e na sua aldeia todos se interrogavam sobre o que estava a acontecer, porque eles conheciam bem Jesus e não conseguiam entender o que se dizia sobre ele. Sabiam que ele não tinha estudado, não era um rabino: como é que ele se apresentava com um séquito de doze discípulos?! Tinha as mãos calejadas de carpinteiro: como é que agora impunha essas mãos sobre os doentes e os curava?! Ele era um deles, de condição humilde, de uma aldeia perdida que não prometia nada de bom: como é que ele se tornara famoso e seu nome era comentado por todos?! Eles conheciam-no bem, mas não o reconheciam de forma alguma como o “profeta de Nazaré”!

Ele começou a ensinar na sinagoga.” Como era seu costume, precisa o evangelista Lucas, que situa este episódio no início da pregação de Jesus, como seu discurso programático (Lucas 4,16-30). Lucas diz no seu relato que “os olhos de todos estavam fixos nele” (v. 20) e que todos “se maravilhavam das palavras de graça que saíam de sua boca” (v. 22). O início, portanto, parecia prenunciar uma boa acolhida, como acontecera em outros lugares. No entanto, Marcos e Mateus (13,54-58) se expressam de uma forma mais cautelosa, dizendo que as pessoas “ficaram admiradas”. De facto, seus conterrâneos ficaram mais perplexos do que maravilhados. No murmúrio da assembleia emergem (três) comentários de dúvida e desconfiança sobre a origem das suas palavras, sua sabedoria e seus prodígios. Seguem-se (quatro) perguntas retóricas e desdenhosas sobre a sua identidade, profissão, sobre a mãe, os irmãos e as irmãs. “Quem pensa ele que é?”, perguntavam-se entre si. “E ficavam perplexos a seu respeito,” melhor dito, escandalizados. Da admiração passam ao escândalo.

Estamos diante de um emaranhado de sentimentos não fácil de desvendar, uma mistura de maravilha e admiração, de ciúme e inveja, de dúvida e suspeita, de contrariedade e oposição, que se tornam indignação e rejeição. Como explicar esta mudança drástica? Se tivermos coragem de escavar em nosso coração, podemos entender. Os conterrâneos de Jesus são um espelho que reflete muitos dos nossos comportamentos. Quantas vezes também nós fechamos a mente e o coração a uma verdade que nos incomoda, elaborando uma série de raciocínios? Quantas vezes também nós recorremos a preconceitos para neutralizar uma mensagem de novidade que nos incomoda? Quantos de nós acolhemos de bom grado uma “voz profética” que nos questiona e nos coloca em crise? Acolhemos melhor os profetas depois de mortos!

O desconcerto e a consternação do discípulo

O que terá experimentado o grupo dos Doze? O texto não o diz, mas podemos imaginar. Eles também tinham expectativas sobre Jesus. Orgulhavam-se do Mestre e esperavam assistir a mais um de seus sucessos. Portanto, ficaram desconcertados ao ver a reviravolta dos eventos. Tiago de Alfeu e Judas Tadeu, dois primos de Jesus e que conheciam bem o bairrismo de seus conterrâneos, terão lamentado internamente que Jesus tenha citado aquele provérbio popular “ninguém é profeta na sua pátria”. Os outros dez terão ficado desconcertados com esse primeiro insucesso de Jesus, justamente em sua casa. Um fracasso que certamente não esperavam. Eles igualmente terão pensado que Jesus deveria ter sido mais cauteloso, menos franco e mais condescendente. Assim, os discípulos descobrem que a missão de Jesus - e a missão deles - não seria um mar de rosas. E quem sabe se terão pensado na profecia de Ezequiel da primeira leitura de hoje (2,2-5): “É a esses filhos de cabeça dura e coração obstinado que te envio”.

Também nós certamente compartilhamos a opinião dos apóstolos. Diante da oposição e rejeição do nosso mundo, nos perguntamos se a Igreja não deveria ser mais condescendente em certas coisas; se não deveria baixar o padrão de suas propostas; se não deveria actualizar-se, adaptando-se à sensibilidade dos tempos... Na nossa tarefa apostólica, não somos tentados nós também a adequar-nos ao “politicamente correto”?

Uma espinha no coração

O que terá acontecido no coração de Maria, a mãe de Jesus? Certamente um véu de dor e tristeza o envolveu. Talvez lembrou-se da profecia de Simeão: “Uma espada transpassará a tua alma.” (Lucas 2,35). A lembrança daquele sábado cravou-se em seu coração como um espinho.

Esse espinho ainda fere o coração da Igreja, que sofre pelos seus filhos perseguidos, pelos escândalos que mancham seu testemunho, pelo afastamento de tantos de seus filhos e filhas, pela crescente rejeição da mensagem evangélica...

Esse espinho também o sentimos no nosso coração. A nossa fraqueza é para nós motivo de tristeza, sofrimento, empecilho e escândalo. Como Paulo, também nós pedimos ao Senhor que nos libertasse desse espinho, e ele respondeu-nos: “Basta-vos a minha graça; a força se manifesta plenamente na fraqueza.” (2 Coríntios 12,7-10).

P. Manuel João Pereira Correia mccj
Verona, 5 de julho de 2024

P. Manuel João Pereira Correia mccj
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segunda-feira, 1 de julho de 2024

TEOLOGIA SEM ARROGÂNCIA Frei Bento Domingues, O.P. 30 Junho 2024

 

TEOLOGIA SEM ARROGÂNCIA

Frei Bento Domingues, O.P.

30 Junho 2024

 

1. A prática da Teologia cristã não é nem devia ser nunca privilégio do clero nem exclusivo dos homens. Hoje, o pluralismo teológico já se apresenta como um dado adquirido e irreversível.

A própria Comissão Pontifícia Bíblica elaborou um documento notável – a que já me referi várias vezes – sobre a interpretação da Bíblia na Igreja e as suas diversas abordagens. Os sofrimentos do Padre Marie Joseph Lagrange, O.P. (1855-1938) foram, de certo modo, compensados.

É preciso nunca esquecer a recomendação de S. Pedro, dirigida a todos os cristãos: «Estai sempre prontos a dar razão da vossa Esperança a todo aquele que vo-la pede; fazei-o, porém, com mansidão e respeito, isto é, sem arrogância»[1].

É atribuída a Santo Agostinho (354-430) uma fórmula que coloca a prática teológica onde deve ser colocada, no interior da fé, na adesão cogitante ao mistério de Deus, mistério do mundo. Não queiras entender a realidade de Deus para crer; crê para que possas entender. Se não crês, não entenderás. Já o Salmo 39 exprimia este modo teologal de aderir ao Deus de toda a Luz: é na Tua luz que vemos a luz[2].

Para Santo Anselmo (c. 1033-1109), a fé não paralisa a inteligência, ela é, antes, uma provocação, uma excitação. A Teologia é a fé que procura entender (Fides quaerens intellectum).

Por outro lado, o terminal da fé não são os enunciados do Credo, mas a própria realidade de Deus. Os enunciados do Credo são apenas mediações para esse encontro – existem muitas outras[3]. Aliás, de Deus tanto mais sabemos, quanto mais nos apercebermos que excede tudo o que Dele compreendemos. A linguagem metafórica é a que mais convém usar e as metáforas serão tanto melhores, quanto maior salto provocarem, quanto maior ruptura exigirem[4].

A Teologia deve tornar sabidas as coisas que eram apenas acreditadas. Importa mostrar como é que é verdade aquilo que se confessa ser verdade. Sem isso, a fé é documentada, mas a cabeça fica vazia[5]. A fé cristã não é visão, mas cogitação, mesmo depois da mais firme aceitação. A fé cristã não é um calmante, mas um excitante[6].

2. Em Portugal, desde 1910 até 1968, não existiu nenhuma faculdade de teologia reconhecida pela Igreja católica. O catolicismo português dispensou a teologia universitária. É estranho, mas foi mesmo assim.

Significaria isto que não havia prática teológica em Portugal? Não conheço estudos sobre o género de teologia desenvolvida nos Seminários Maiores do país, embora seja de supor que passou por diversas fases e que não foi da mesma qualidade em todos eles. Qual seria, por outro lado, o suporte teológico dos movimentos laicais, nomeadamente, da Acção Católica? Também esta situação precisa de ser investigada.

Na primeira parte do século XX – tirando a importantíssima controvérsia em torno da Voz de Santo António –, o grande contributo, testemunhado em escritos, da teologia extra-universitária, foi sobretudo o de Joaquim Alves Correia (1886-1951) [7].

O Anuário Católico refere 23 Centros/Escolas de formação de agentes de Pastoral. Não conheço nenhuma avaliação da sua qualidade. O caso do Centro de Cultura Católica do Porto, o mais antigo, fundado em 1964, é também o mais conhecido. A sua criação soube beneficiar do ambiente do Vaticano II e teve um grande impacto na renovação da Igreja diocesana, nas relações entre Igreja, sociedade, movimentos populares e política nacional. Tinha o seu bispo, D. António Ferreira Gomes, no exílio.

Além dos cursos regulares de Teologia e Ciências Religiosas, ficaram célebres os seus cursos especiais, com temáticas precisas, ligadas à situação de um país em guerra, assim como os vários ciclos de conferências e colóquios com a participação de nomes bem conhecidos, alguns deles grandes nomes da investigação teológica internacional, como E. Schillebeeckx, H. Küng, B. Häring, J. Daniélou, entre outros. Conheci e participei, nessa fase, em algumas das suas iniciativas de teologia incarnada nas questões mais acesas do país.

Maria Julieta Mendes Dias, uma teóloga feminista, fez uma investigação sobre A Teologia Católica em Portugal de 1910 à actualidade, no âmbito da Licenciatura de Ciência das Religiões, da Universidade Lusófona. Grande parte dessa investigação refere-se, precisamente, à teologia extra-universitária.

Catarina Silva Nunes, na sua tese de doutoramento[8], recolheu e estudou o que personalidades, movimentos e instituições pensavam sobre os intelectuais católicos portugueses. Os grupos estudados e respectivas publicações foram: Instituto S. Tomás de Aquino (ISTA); secção portuguesa do GRAAL; Centro de Reflexão Cristã (CRC); Movimento Católico de Estudantes (MCE); MetanoiaMovimento Católico de Profissionais.

3. O que verdadeiramente faz falta não é, apenas, a referência a algumas publicações sobre a teologia portuguesa extra-universitária. Importante seria estudar os seus documentos. Eu próprio fiquei espantado com a qualidade teológica dos muitos textos do Boletim do ISET, da Revista do CRC, sem esquecer o período da Revista e Colóquios Igreja e Missão dirigidos pelo P. Anselmo Borges.

O grande marco do catolicismo do século XX foi o Concílio Vaticano II (1962-1965). D. Manuel de Almeida Trindade (1918-2008) dizia que, em Portugal, não foi preparado, não foi seguido nem aplicado. Não se pode esquecer, porém, que a Revista internacional Concilium, na sua primeira fase, foi traduzida e editada em Portugal, tendo na sua direcção o Frei Mateus Peres, O.P. Ficaram célebres alguns debates que provocou. Em contraste com a revista Concilium foi editada a revista internacional Communio com certa autonomia em cada país.

Sem investigação histórica não compreenderemos o que aconteceu nem o que está a acontecer. No entanto, para se manter viva e actuante, a prática teológica tem de procurar o sentido do que está, hoje, a acontecer na sociedade, nos movimentos espirituais e nas igrejas. Isto exige um grande espírito de escuta e de acolhimento.

Voltando à Carta de S. Pedro, todos devemos estar prontos a dar razões da nossa Esperança. Sem arrogância.

 



[1] 1Pd 3, 15-17

[2] Sl 36, 10

[3] S. Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II q. 1, a. 2, ad 2º

[4] Ibidem, I q. 1, a.9

[5] S. Tomás de Aquino, Quodlibet, IV, q.VIII, a.XVIII

[6] S. Tomás de Aquino, C. G. III, c.40

[7] Cf. A Largueza do Reino de Deus, Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1931; De que Espírito somos, Lisboa, Portugália Editora, 1933; O Cristianismo e a mensagem evangélica, Lisboa, Cosmos, 1941; Cristianismo e Revolução. Selecção de textos e coordenação de Anselmo Borges, Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1977. A sua Biografia mais completa é de Francisco Lopes, Pe Joaquim Alves Correia – Ao Serviço do Evangelho e da Democracia, Lisboa, Rei dos Livros, 1996.

[8] Compromissos incontestados. A auto-representação dos intelectuais católicos portugueses, Lisboa, Paulinas, 2005.

sábado, 29 de junho de 2024

Immanuel Kant: O Homem e Deus Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia 29 Junho 2024

 Immanuel Kant: O Homem e Deus

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia

29 Junho 2024

Neste tempo dominado por maquinarias de estupidificação, quando o que mais

falta é, por isso mesmo, pensar criticamente, não podia deixar passar o terceiro

centenário do seu nascimento sem uma brevíssima referência. Refiro-me a

Immanuel Kant, que nasceu no dia 22 de Abril de 1724 em Königsberg, antiga

Prússia, actualmente Kaliningrado, um enclave russo entre a Polónia e a Lituânia, e

que morreu nessa mesma cidade no dia 12 de Fevereiro de 1804. É lá, na catedral

de Kaliningrado, que se encontra uma lápide com a sua frase célebre: “Duas coisas

enchem a mente de uma admiração e um respeito sempre novos e crescentes

quanto mais frequentemente e com maior persistência delas se ocupa a reflexão: o

céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim”.

Kant, um dos maiores filósofos de sempre, deixou um legado essencial: uma atitude

de pensamento crítico que vá ao essencial. “Sapere aude!” Ousa saber, ousa pensar,

atreve-te a saber, atreve-te a pensar! “Que é Iluminismo? O Iluminismo é a

libertação do ser humano da sua incapacidade culpada. A incapacidade significa a

impossibilidade de servir-se da sua inteligência sem a guia de outro. Esta

incapacidade é culpada porque a sua causa não reside na falta de inteligência mas

na falta de decisão e coragem para servir-se por si mesmo dela sem a tutela de

outro. Sapere aude! Tem a coragem de servir-te da tua própria razão!”

Em síntese, a obra de Kant vai ao encontro destas três perguntas essenciais: “Que

posso saber?”, “Que devo fazer?”, “O que é que me é permitido esperar?”

Na sequência do sua “revolução copernicana” quanto ao conhecimento, concluiu

que, escapando à experiência, Deus e a imortalidade não podem ser conhecidos.

Não são demonstráveis.

Como agir bem, moralmente? Há para isso um critério seguro? Este critério não

está em seguir os desejos ou inclinações pessoais, os hábitos de acção dos grupos

ou países. Esse critério também não se encontra na busca da felicidade. Para Kant,

esse critério consiste num “imperativo categórico”. Em que consiste? Se queremos

saber se uma acção é moral, deve-se sujeitar a máxima ou regra pela qual nos

guiamos a um teste de universalização. Assim, numa das suas formulações: “Age

como se a máxima da tua acção devesse ser erigida pela tua vontade em lei

universal de natureza”. Quando agimos, se queremos saber se estamos a agir

moralmente, perguntemos: o que aconteceria se todos aplicassem a regra ou

máxima. Um exemplo: a mentira. É moral mentir? Para sabê-lo, perguntemos: é

universalizável? O que sucederia se todos mentissem? É evidente que a própria

mentira se tornaria absurda, pois mentir só vale, isto é, só tem eficácia, no

pressuposto de que as pessoas confiam no que alguém lhes diz. Portanto, mentir é

imoral. Outro exemplo, este pela positiva: aliviar o sofrimento dos desgraçados.

Neste caso, os sofrimentos próprios da condição humana encontrariam sempre um

alívio. Aí está, pois, uma acção moral. Kant segue, portanto, na sua apreciação

moral, um critério racional em autonomia. Mas, uma vez que nem sempre é fácil

este critério da universalização, Kant propõe outra formulação do mesmo

imperativo categórico: “Age de tal modo que trates a humanidade tanto na tua

pessoa como na pessoa de todos os outros sempre como um fim, nunca como um

simples meio”. Cá está, pois: as coisas têm um preço, porque são meios, o Homem

não tem preço, mas dignidade, porque é fim.

Do dever moral enquanto imperativo categórico, seguem-se os chamados

postulados da razão prática.

Em primeiro lugar, a liberdade. Diz Kant: “Podes, porque deves”. Se deves, podes; é

pela lei moral que sabemos que somos livres; agir moralmente é afirmar a

liberdade, que não é arbítrio, e, por isso, educar tem de ser educar para a liberdade.

Neste sentido, há um célebre exercício mental na sua Crítica da razão prática, que

obriga a pensar. Suponhamos que alguém, sob pena de morte imediata, se vê

confrontado com a ordem de levantar um falso testemunho contra uma pessoa que

sabe ser inocente. Nessas circunstâncias e por muito grande que seja o seu amor à

vida, pensará que é possível resistir. “Talvez não se atreva a assegurar que assim

faria, no caso de isso realmente acontecer; mas não terá outro remédio senão

aceitar sem hesitações que tem essa possibilidade.” Existem as duas

possibilidades: resistir ou não. “Julga, portanto, que é capaz de fazer algo, pois é

consciente de que deve moralmente fazê-lo e, desse modo, descobre em si a

liberdade que, sem a lei moral, lhe teria passado despercebida.”

A esperança da felicidade, imortalidade e Deus. Não é critério da moralidade a

busca da felicidade. Mas quem cumpre o seu dever moral incondicional torna-se

digno de ser feliz. Este merecer ser feliz mostra-se no exemplo acabado de

apresentar. Suponhamos que a pessoa preferiu de facto ser morta a levantar um

falso testemunho contra o inocente. Casos destes acontecem, há muitos exemplos

históricos. Ora, a ligação entre o dever cumprido e a felicidade não se dá neste

mundo, pelo contrário, o cumprimento do dever implicou dar a vida. Por isso,

postula-se a imortalidade e exige-se moralmente que Deus exista.

Embora nunca tenha saído da sua cidade natal, tinha ideias cosmopolitas e é dele a

expressão Völkerbund (Liga de Povos) como organização internacional em ordem à

paz mundial, concretizada no século XX na Sociedade das Nações e na ONU.

P. S. Estimados leitores e leitoras, até Agosto!

ONDE ESTÁ O TEU TESOURO? Pe. Manuel João, MC

 ONDE ESTÁ O TEU TESOURO?

 

Ano A - 17o domingo do tempo comum
Mateus 13,44-52

 

Neste domingo concluímos a leitura do capítulo 13 do evangelho de Mateus, o terceiro discurso de Jesus, no qual ele apresenta o Reino de Deus através de sete parábolas. Hoje apresenta-nos as três últimas, contadas aos apóstolos: o tesouro escondido, o negociante de pérolas e a rede que apanha toda a espécie de peixes. As duas primeiras são semelhantes e falam-nos da alegria daqueles que descobriram o Reino. A terceira é semelhante à do trigo e do joio de domingo passado, ou seja, fala da coexistência do bem e do mal. 

 

1. QUEM são os buscadores de tesouros e pérolas

 

O reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. O homem que o encontrou tornou a escondê-lo e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía e comprou aquele campo”.

As histórias de tesouros são sempre cativantes, tanto hoje como no tempo de Jesus. Numa terra muitas vezes palco de guerras, era comum esconder as riquezas quando o inimigo chegava, enterrando-as no campo ou no chão da casa antes de fugir, na esperança de as recuperar mais tarde, o que nem sempre acontecia. Ainda hoje acontece os arqueólogos encontrarem “tesouros” de moedas durante as escavações. Ora, este pobre agricultor da parábola é um dos felizardos que, por um golpe de sorte, encontra a grande oportunidade da sua vida e não a deixa escapar: cheio de alegria, vende todos os seus bens para comprar aquele campo! 

 

O reino dos Céus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Ao encontrar uma de grande valor, foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola”.

No Oriente, as pérolas eram consideradas o bem mais precioso, como os diamantes para nós. Eram o símbolo da beleza, daí que “Peniná”, “Pérola”, fosse também um nome dado às raparigas (ver 1 Samuel 1,2). O negociante da parábola andava à procura destas pérolas e, quando encontrou uma de grande valor, também ele não hesitou em vender todos os seus bens para a comprar.

Ambos, o pobre camponês e o rico comerciante, têm o mesmo comportamento: encontram, vão, vendem tudo e compram. Mas enquanto o camponês encontra o tesouro por um golpe de sorte, o comerciante encontra a pérola, talvez após uma longa busca. 

Nós somos esses buscadores de tesouros e pérolas, de riqueza e beleza, de perfeição e infinito. A nossa vida é um campo semeado de tesouros escondidos debaixo dos nossos pés, mas a lama impede-nos de os ver. A nossa vida é um bazar de pérolas, mas demasiado empoeiradas para perceber o seu esplendor. E acontece também que sacrificamos tudo, a vida e a alma, deslumbrados por um falso tesouro, para nos encontrarmos com um punhado de moscas nas mãos.

 

2. O QUE são o tesouro e a pérola?

 

O que é esse tesouro ou essa pérola? Para Salomão, é a Sabedoria (primeira leitura). Para o salmista, é a Lei, a Torah (Salmo 118). Para São Paulo, é a vocação cristã (segunda leitura). Para Jesus, é o Reino. Mas poderíamos refletir sobre as duas parábolas, alargando as suas perspectivas.

 

O tesouro é, antes de mais, Cristo. Por ele, os apóstolos renunciaram a tudo, e muitos outros o fizeram depois deles. Paulo considerava tudo como lixo em comparação com Cristo (Filipenses 3,8). Muitos cristãos estão prontos a dar a vida para não o perderem. Mas há também aqueles que não descobriram este tesouro nele, como o jovem rico que se afastou triste. Como Judas, que o vendeu por trinta moedas. Como muitos cristãos que, de facto, talvez nunca o tenham encontrado e por isso facilmente o trocam por uma 'quinquilharia' qualquer. 

Também nós somos o tesouro, a pérola que Cristo encontrou no campo ou no mercado do mundo. É por isso que Cristo nos resgatou “não a preço de coisas corruptíveis, como a prata e o ouro... mas com o seu precioso sangue” (1 Pedro 1,18-19).

Pérolas ou tesouros são também as pessoas que nos rodeiam, embora escondidos por detrás dos seus limites, defeitos e misérias. 

 

3. ONDE encontrar o tesouro?

 

Onde e como encontrar o tesouro ou a pérola? Não é preciso ir longe, atravessar mares e montanhas, subir aos céus ou descer às profundezas... (Deuteronómio 30,11-14). Mas deixem-me contar-vo-lo através duma história chassídica (o chassidismo é um movimento espiritual judaico): a história do rabino Eisik, filho do rabino Jekel de Cracóvia. 

 

Após anos e anos de dificuldades, que não tinham abalado a sua confiança em Deus, recebeu em sonho a ordem de ir a Praga procurar um tesouro debaixo da ponte que conduzia ao palácio real. Quando o sonho se repetiu pela terceira vez, Eisik pôs-se a caminho e chegou a Praga a pé. Mas a ponte era vigiada dia e noite por sentinelas e ele não teve coragem de escavar no local indicado. No entanto, regressou à ponte todas as manhãs, percorrendo-a até ao fim da tarde. Por fim, o capitão dos guardas, que tinha reparado nas suas idas e vindas, aproximou-se dele e perguntou-lhe amigavelmente se tinha perdido alguma coisa ou se estava à espera de alguém. Eisik contou-lhe o sonho que o tinha trazido do seu país distante. O capitão desatou a rir: “E tu, pobre coitado, vieste até aqui a pé por causa de um sonho? Ha, ha, ha! Estás bem arranjado se confias em sonhos! Então eu também para seguir um sonho que tive devia ter ido até Cracóvia, à casa de um judeu, um tal Eisik, filho de Jekel, para procurar um tesouro debaixo da sua lareira! Eisik, filho de Jekel, estás a brincar? Estou a ver-me a entrar e a vasculhar todas as casas de uma cidade onde metade dos judeus se chama Eisik e a outra metade Jekel!” E voltou a rir-se. Eisik despediu-se dele, voltou para a sua casa e desenterrou o tesouro escondido debaixo da sua lareira!
Há algo que não se pode encontrar em parte alguma do mundo e, no entanto, há um lugar onde se pode encontrar: lá onde nós nos encontramos !
(de Martin Buber, “O caminho do homem”)

P. Manuel João Pereira, comboniano
Castel d'Azzano (Verona) 28 de Julho de 2023

P. Manuel João Pereira Correia mccj
p.mjoao@gmail.com
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