sábado, 4 de julho de 2026

“Conjugados” com Cristo - P. Manuel João Pereira Correia mccj

 

“Conjugados” com Cristo

Ano A – 14º Domingo do Tempo Comum
Mateus 11,25-30: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e oprimidos”

Depois do discurso apostólico (Mateus 10), encontramos agora uma seção narrativa (Mateus 11–12), segundo o procedimento literário caro a Mateus, que alterna discursos e relatos.

Esta seção narrativa é caracterizada por um clima de tensão crescente. Jesus percebe que a sua mensagem e a sua obra não são compreendidas: João Batista alimenta dúvidas sobre o seu messianismo; as pessoas mostram-se caprichosas como crianças; as cidades ao redor do lago, onde ele tinha realizado tantos milagres, não se convertem; escribas e fariseus se opõem a ele. Jesus encontra-se, assim, diante do insucesso e da perspetiva do fracasso. Este é o contexto dramático do trecho evangélico de hoje.

O texto se articula em três parágrafos bem distintos: no primeiro, a oração de louvor que Jesus dirige ao Pai; no segundo, a estreita relação entre o Pai e o Filho; no terceiro, a relação entre Jesus e nós, com o convite para irmos até ele.

O trecho grego começa de modo singular: “Naquele tempo Jesus, respondendo, disse…”. Contudo, antes disso não encontramos nenhuma pergunta. Parece quase que Jesus responda à interrogação que esta situação de aparente fracasso coloca à sua missão. E qual é a sua resposta? “Eu te louvo, Pai!”.

1. Jesus dececionado, mas não desanimado

Perguntamo-nos: como é que Jesus, neste contexto de oposição e de aparente fracasso, reage com uma oração de louvor, com uma espécie de seu “Magnificat”?

O Senhor não se abate nem desanima, como talvez nós teríamos feito. Embora dececionado com o fechamento e a falta de fé de tantos ouvintes, testemunhas dos seus milagres, Jesus leva esta situação para a oração, para o diálogo com o Pai. E descobre que o Pai continua a realizar o seu projeto de amor não através dos sábios e dos doutos, mas através dos pequenos.

É uma situação muito atual. Hoje assistimos ao afastamento de tantos cristãos e à marginalização da fé cristã na cultura ocidental; perguntamo-nos, então, para que serve o anúncio do Evangelho num contexto assim. Talvez também nós estejamos dececionados porque as promessas de Deus parecem demorar a cumprir-se. Envelhecemos na esperança de uma Igreja renovada. É forte a tentação da resignação, do desânimo, do pessimismo cínico.

Pois bem, Jesus convida-nos à coragem da oração, para discernirmos de onde e para onde sopra o Espírito.

2. Um novo chamamento para todos: vinde, tomai, aprendei!

Jesus sai do encontro com o Pai renovado na consciência da sua missão messiânica: “Tudo me foi entregue por meu Pai”. E dirige-se novamente aos pequenos, ou melhor, a todos: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim”.

Quem é este povo cansado e oprimido? São aqueles que vivem sob o jugo da Lei. Com efeito, para a tradição rabínica, o jugo era uma imagem da Lei: os 613 preceitos extraídos da Escritura e os milhares de prescrições menores que obrigavam a “andar na linha”.

O jugo evocava uma condição de escravidão, pois geralmente eram os escravos que o usavam para transportar cargas pesadas (cf. Levítico 26,13).

Jesus convida a romper esse jugo e a ir até ele para encontrar alívio, isto é, o descanso prometido por Deus ao seu povo (cf. Carta aos Hebreus 3–4). Logo depois, porém, convida a tomar o seu jugo e a aprender dele, “manso e humilde de coração”.

Podemos certamente aprender com ele, mestre de coração manso e humilde, que não se comporta como os escribas e fariseus, os quais “atam fardos pesados e difíceis de carregar e os põem sobre os ombros das pessoas” (Mateus 23,4). No entanto, não esperaríamos uma associação entre jugo e descanso.

Qual é, então, este jugo de Jesus?

O jugo era um instrumento de madeira que unia dois animais para arar ou puxar uma carroça. O jugo de Jesus é a cruz: aquela que ele carregou por nós e, portanto, a nossa cruz, o nosso jugo. Jesus torna-se o nosso Cireneu, põe-se ao nosso lado. É o nosso companheiro, o nosso… “cônjuge”!

Sim, porque o termo cônjuge deriva do latim coniux, formado por cum e iugum: indica aquele que está unido ao outro sob o mesmo jugo, aquele que partilha o mesmo destino. Daí também o verbo “conjugar”. Trata-se, portanto, de uma imagem nupcial.

Jesus afirma: “O meu jugo é suave e o meu fardo é leve”. Por que é suave? Porque é o jugo do amor. Por que é leve? Porque ele o carrega connosco.

Diante deste convite de Jesus surgem duas tentações.

A primeira é querer romper todo jugo e todo vínculo, inclusive aquele “suave e leve” do amor. Como o falso profeta Hananias, que quebrou o jugo simbólico de madeira carregado por Jeremias, prometendo ao povo liberdade e prosperidade. O risco é acabar com um jugo de ferro (cf. Jeremias 28).

A segunda tentação é confiar no jugo das leis para garantir a ordem e preservar o poder, no âmbito social, eclesial, familiar ou em qualquer outro contexto, aumentando o cansaço e a opressão e sacrificando a solidariedade e o amor.

Exercício semanal de reflexão

  • Como reajo diante dos fracassos e das deceções?
  • Quem é o meu “cônjuge” ao carregar a cruz: Cristo ou o novo messianismo cultural?
  • Quero agradecer-te, Senhor, pelo dom da vida. Li em algum lugar que os homens são anjos com uma só asa: só podem voar permanecendo abraçados. Às vezes, nos momentos de intimidade, atrevo-me a pensar, Senhor, que também tu tens uma só asa. A outra manténs escondida: talvez para me fazer compreender que não queres voar sem mim” (mons. Tonino Bello).

Pe. Manuel João PPereira Correia, MCCJ

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P. Manuel João Pereira Correia mccj
p.mjoao@gmail.com

 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

O Homem pergunta por Deus. O grande enigma - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

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Crónicas RA E PENSA
O Homem pergunta por Deus.

O grande enigma


“Quando no século XXI falamos de céu,
inferno e paraíso, utilizamos metáforas. Não
cremos que Deus, na sua infinita sabedoria,
tenha criado um universo em que realmente
existam estes domínios ultra-terrenos. Tão-
pouco pensamos que a vida seja uma
peregrinação que conduz a Deus. Nisto nos
diferenciamos de Dante, o maior poeta da
Idade Média.” Aí está, com esta serenidade
límpida, a afirmação de entrada de uma
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breve introdução de Ch. Zschirnt à leitura
de A Divina Comédia de Dante Alghieri.

Reconhecendo, evidentemente, a
perplexidade toda destas questões e que
Dante se encontra no mundo das metáforas,
será assim tão universal e transparente esta
declaração de evidência na abolição de
Deus e do seu mistério?

Pouco antes da sua morte, o famoso
antropólogo René Girard, por exemplo, à
pergunta: “Crê que algo para da
morte?”, respondia: “Espero, é a minha fé,
um acto de vontade e de esperança. O
cristão afirma que não pode reduzir-se tudo
ao universo no qual se encontra. Que seja
tudo como se nada tivesse sido parece-me
demasiado abominável para ser real.
Aposto na Realidade.”

A. Lobo Antunes também disse que se
zangava com Deus porque permite o
sofrimento. “O sofrimento sempre me foi
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incompreensível porque nascemos para a
alegria.” E não é a morte “uma puta”? Mas
acreditava. “A minha relação é a de um
espírito naturalmente religioso, cada vez
mais, não no sentido desta ou daquela igreja
mas porque me parece que a ideia de Deus
é óbvia.” Não tem dúvidas? “Acredito
sempre mas a dúvida e pôr constantemente
em questão é próprio da fé. Muitas vezes
pergunto-me: será que existe? É óbvio que
sim.”

“Mas reza ou não?” Com as cruzes no
horizonte, Eduardo Lourenço pensa e sorri.
E respondeu ao EXPRESSO: “Pode-me
acontecer!” Neste enquadramento, permito-
me uma confidência. Vínhamos, já muito
tarde, depois de um debate no Casino da
Figueira da Foz, para o hotel. E disse-lhe
que o tinha citado. E ele: “Admira-se?
Todos os homens rezam”.
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Quem pode negar que as religiões
também trouxeram ao mundo barbaridade,
superstição, guerras, infantilismo? Afinal, o
mundo seria melhor sem elas? A causa da
indignidade está nas religiões ou nos seus
crentes e funcionários que delas se servem
de modo rasteiro e blasfemo para seus
propósitos desumanos?

Deus não é objecto de ciência nem pode
ser. Há razões para acreditar e há razões
para não acreditar. Mas não há um saber
científico sobre a existência ou não
existência de Deus. Como escreveu o
filósofo ateu André Comte-Sponville,
“ninguém sabe, no sentido forte da palavra,
se Deus existe ou não. Se encontrardes
alguém que vos diga: ‘Eu sei que Deus não
existe’, esse não é em primeiro lugar um
ateu, é um imbecil’.”

De qualquer forma, face a um deus que
anula o Homem, o escraviza e amesquinha,
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só se pode e deve ser ateu. Esse deus não
pode existir. E porquê?

O que une os homens e as mulheres é
colocar perguntas. O Homem é ele mesmo
pergunta para si mesmo: o que é ser
Homem? E há uma pergunta maior, que é a
da perguntabilidade, isto é, a pergunta pelo
perguntar: qual é a condição de
possibilidade do perguntar?

Na tentativa de responder a esta
pergunta radical, o que se encontra é a
presença do in/finito. O Homem pergunta
porque a sua constituição é a da tensão
entre o finito e o infinito. Essa é a sua
morada: uma finitude aberta ao infinito e,
assim, constitutivamente, questão de Deus
enquanto questão, no Aberto.

Deus não se impõe, não se manifesta com
evidência, e o crente sabe que Deus poderá
não existir e o ateu sabe que Deus poderá
existir.
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Na modernidade crítica e agora vou
citar o filósofo jesuíta na sua obra de
referência El Gran Enigma, O grande Enigma
, “teísmo e ateísmo são possíveis e podem
ser construídos pela razão de forma
legítima e honesta moralmente. Aliás, é o
que vemos socialmente”: há crentes e ateus
honestos, que sabem o que isso quer dizer e
se respeitam mutuamente, já que o carácter
enigmático do Universo está aberto às duas
alternativas.

Segundo o modelo cosmológico padrão,
vivemos num universo que se produziu no
Big Bang e terminará numa morte
energética futura: “um universo que nasce a
partir de um “fundo” desconhecido no qual
será reabsorvido.” Trata-se, pois, de um
universo que, existindo num tempo finito,
dificilmente pode ter a sua suficiência em si
mesmo, pondo assim a pergunta: qual é o
seu fundamento último e absoluto? Como
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entender esse fundo ou “mar de energia”,
“essa espécie de meta-realidade ou
dimensão metafísica à qual este nosso
universo parece estar referido, segundo as
evidências empíricas?” Pode-se argumentar
que, a partir da finitude e das propriedades
antrópicas deste universo, a realidade
última, raiz e fundamento último em que
assenta, é uma “Inteligência Pessoal capaz
de criá-lo.” O ateísmo seria outra conjectura
metafísica, também filosófica: no
pressuposto das teorias especulativas de
multiversos ou múltiplos universos e de
supercordas, essa meta-realidade
apresentar-se-ia como uma realidade
impessoal na qual se produziria de modo
cego o nosso universo.”

De qualquer modo, teísmo e ateísmo são
confrontados com o silêncio de Deus. Este
silêncio manifesta-se num duplo plano: no
plano cósmico, porque Deus não se revela
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de modo evidente enquanto criador do
universo. O outro é o silêncio de Deus
“perante o drama da História, devido ao
sofrimento humano pessoal e colectivo e ao
mal natural cego e à perversidade humana.”
Previno que estou a escrever sob a tristeza
esmagadora causada pela violência do
duplo sismo que abalou a Venezuela, numa
tragédia incomensurável...

Para o ateísmo, o silêncio de Deus é
“prova” da sua inexistência, pois
incompatibilidade entre um Deus real e o
seu silêncio, sobretudo quando se pensa no
calvário do mundo, neste calvário concreto
da Venezuela, por exemplo. Como é que um
Deus criador, infinitamente bom e
poderoso, cala, quando, perante o
sofrimento atroz, insuportável,
concretamente dos inocentes, se lhe pede
ajuda, gritando, suplicando? O silêncio de
Deus faz que o ateísmo seja como que “um
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ajuste de contas” com Deus, sobretudo
quando se pensa na malvadez dos
responsáveis religiosos. Se Deus existe, é
como se não quisesse que acreditemos nele.
Para o crente, não é menor o desconcerto, ao
ver-se confrontado com a dor alucinante, o
abandono, o fracasso, a traição, a guerra,
um tsunami, a angústia da vida, o
afundamento na morte...

“Tanto a religiosidade humana como o
ateísmo são sempre rácio-emocionais”,
embora no juízo sobre Deus predomine a
força dos impulsos emocionais, da
esperança e do sentido. Afinal, a fé é um
combate, e a razão e a emoção podem
manter o Homem aberto à esperança da
existência de um Deus que quer salvar,
acreditando na existência de um Deus
oculto e libertador, por cima do seu
silêncio”. É possível dar a Deus um voto
livre e pessoal de confiança, voto que
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mostra a sua razoabilidade no próprio acto
de confiar. “Não tem sentido viver sem
sentido”, mas, ousando entregar-se
confiadamente a Deus pela fé, tudo aparece
como mais razoável, com luz, com sentido,
sentido final precisamente em Deus, o Deus
oculto e salvador.

Nota: 1. Em meu nome e em nome de
todos os leitores e leitoras vai a mais sentida
solidariedade com todas as vítimas na
Venezuela.

2. Nos meses de Julho e Agosto, a
publicação destas crónicas fica suspensa.

Sábado, 27 de Junho de 2026