Ano A - 23º Domingo do Tempo Comum
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
Correção fraterna uma questão de sinfonia! - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ
sábado, 29 de agosto de 2026
Palavras duras, pensamentos tristes? - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ
Ano A - 22.º Domingo do Tempo Comum
Mateus 16,21-27: “Se alguém quiser vir após mim...”
O Evangelho deste XXII domingo é a continuação do de domingo passado e tem novamente Pedro como protagonista. Apresenta-nos o primeiro dos três anúncios da paixão, morte e ressurreição de Jesus e constitui uma síntese da segunda parte do Evangelho.
1. Um díptico inquietante
Poder-se-ia dizer que os dois textos, o de hoje e o de domingo passado, formam um díptico insólito: de um lado, um ícone luminoso com um São Pedro entusiasmado, inspirado, que proclama Jesus como o Messias e é declarado bem-aventurado por Jesus e constituído pedra de fundamento da Igreja; do outro, um ícone cinzento com um São Pedro escandalizado com as palavras de Cristo, que repreende o Mestre e que, por sua vez, é repreendido por Jesus, chamado satanás e definido como pedra de tropeço. Difícil imaginar um contraste mais acentuado! No entanto, ele é um espelho perfeito da nossa realidade!
2. Um novo começo
“Jesus começou a explicar aos seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos chefes dos sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitar ao terceiro dia”.
Começou: trata-se de um novo começo. Aqui encontramos uma linha divisória nos três primeiros Evangelhos. A partir deste momento, mudam o rumo e o discurso. “Cada um de nós tem alguma coisa para começar” (Emmanuel Levinas). A vida nunca é um continuum. O problema é discernir quando chegou o momento de mudar de passo ou de começar algo novo. Pois bem, depois da investigação de domingo passado, Jesus decide “começar a explicar”.
O que deve explicar? “Que devia ir a Jerusalém e sofrer muito”. Por que “devia”? poderíamos perguntar-nos. Seria talvez “a vontade do Pai”? Falamos tanto de “fazer a vontade de Deus” e ele, pelo contrário, entrega-se à nossa! Falamos demasiado da vontade de Deus, associando-a muitas vezes ao mal, ao sofrimento, à injustiça que “devemos” suportar e aceitar, em vez de a associarmos ao bem, à justiça, ao amor que devemos desejar e procurar. E assim corremos o risco de a maltratar, desfigurando-a.
Jesus devia ir a Jerusalém, “a cidade que mata os profetas”, porque tinha decidido ir até ao fim na sua plena solidariedade com a nossa humanidade. Trata-se do dever do amor!
Em conclusão, Jesus quer explicar que não é o género de Messias que todos esperam: um messias-rei que deveria restaurar o reino de Israel (Atos 1,6); um messias-juiz que deveria julgar os ímpios (Mateus 3,12). O seu messianismo é o do Servo sofredor profetizado por Isaías 53, julgado e condenado pelas autoridades políticas e religiosas. Eis por que este anúncio semeia a confusão entre os seus discípulos. E também entre nós, admitamo-lo. Daí a reação de Pedro, em nome dos discípulos e em nosso nome.
3. Quem habita em nós: Deus ou “satanás”?
“Pedro tomou-o à parte e começou a repreendê-lo !”.
“Não, não digas essas coisas, isso nunca te poderá acontecer! Tu és o Messias, o Filho de Deus!”, parece querer dizer Pedro. A reação de Jesus é duríssima, até desproporcionada e injusta, dir-se-ia. “Vai para trás de mim, satanás!”. E assim Pedro é precipitado das alturas da revelação do céu para as profundezas do abismo.
Pedro teve coragem! Aquela coragem que, infelizmente, nos falta, pois preferimos guardar dentro de nós aquilo que realmente pensamos, para não sermos repreendidos como ele foi. E assim o nosso “satanás” (o adversário) permanece bem escondido dentro de nós, por detrás da bela fachada do moralismo e das nossas “práticas de piedade”.
4. Jesus toma as suas distâncias
O que mais me impressiona na reação de Jesus, para além da dureza, é a maneira como parece distanciar-se dos seus: “Se alguém quiser vir após mim...”. Não diz: “Se quiserdes vir...”, mas usa uma linguagem impessoal, como se estivesse disposto até a despedi-los. Um pouco como naquela dramática deserção, depois do discurso em Cafarnaum: “Também vós quereis ir embora?” (João 6,67).
Esta maneira dura terá ferido o coração dos discípulos. Também o nosso, diria eu. Pensando bem, Jesus estaria disposto a fazer o mesmo connosco, hoje. Ele não corre atrás de nós para nos convencer a ficar, talvez fazendo compromissos. Sim, ele é o Bom Pastor que ama e se preocupa com as suas ovelhinhas, mas recusa-se a violar a liberdade delas. Regras claras, amizade duradoura!
Como não fazer nosso, então, o desabafo do profeta Jeremias?“Seduziste-me, Senhor, e eu deixei-me seduzir... Dizia comigo: «Não pensarei mais nele, não falarei mais em seu nome!». Mas no meu coração havia como que um fogo ardente... esforçava-me por contê-lo, mas não conseguia” (Primeira leitura, Jeremias 20,7-9).
5. O simbolismo do número três
Outro aspeto do texto que chama a atenção é a sua estrutura baseada no número 3, símbolo da perfeição e da plenitude, que sublinha a importância do conteúdo:
Jesus alude ao tríplice aspeto do “mistério pascal”: paixão-morte-ressurreição;
três vezes Jesus anunciará a sua paixão e, de cada vez, haverá uma reação negativa dos apóstolos, seguida de uma catequese de Jesus;
Jesus será perseguido por três categorias de pessoas: pelos anciãos (guardiães da tradição e do poder), pelos chefes dos sacerdotes (guardiães da religião) e pelos escribas (guardiães da lei);
Jesus estabelece três condições para o seguir: renega-te a ti mesmo, toma a tua cruz, segue-me!;
Jesus apresenta três argumentos sapienciais para mostrar que as condições para o seguir, à primeira vista tão duras, são na realidade as únicas sensatas.
6. O que está em jogo: a vida!
A palavra “vida” é a que mais se repete no nosso texto (4 vezes), juntamente com os verbos a ela ligados: perder (3), salvar, encontrar, ganhar. Acho isto significativo. O que está em jogo é a vida: perdê-la ou encontrá-la! Quem investe no imediato acabará por ser um perdedor. Quem investe com coragem, generosidade e largueza de horizontes será um vencedor.
Para a reflexão e a oração pessoal
Encontra um momento de calma para meditar sobre o texto da segunda leitura:
“Exorto-vos, pela misericórdia de Deus, a oferecer os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o vosso culto espiritual. Não vos conformeis com este mundo, mas deixai-vos transformar, renovando a vossa maneira de pensar, para poderdes discernir a vontade de Deus, aquilo que é bom, agradável a seus olhos e perfeito” (Romanos 12,1-2).
Um desejo: que as palavras duras de Jesus não nos deixem tristes ou desanimados. Mas pensativos, sim!
P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ
sexta-feira, 21 de agosto de 2026
Mas tu, Jesus, quem dizes que eu sou? - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ
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sexta-feira, 14 de agosto de 2026
Jesus, arqueiro da fé - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ
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sexta-feira, 7 de agosto de 2026
Ordena-me que vá ter contigo!” - P. Manuel João Pereira Correia mccj
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sábado, 1 de agosto de 2026
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Ano A – Tempo Comum – 18.º Domingo
sábado, 25 de julho de 2026
Onde está o teu tesouro? - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ
Onde está o teu tesouro?
Ano A – 17.º Domingo do Tempo Comum
Mateus 13,44-52: «O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo»
Neste
domingo concluímos a leitura do capítulo 13 do Evangelho de Mateus, que
contém o terceiro grande discurso de Jesus, no qual o Reino de Deus é
apresentado através de sete parábolas. Hoje escutamos as três últimas,
dirigidas aos apóstolos: o tesouro escondido, o negociante de pérolas e a
rede que apanha toda a espécie de peixes.
As
duas primeiras são semelhantes e falam-nos da alegria de quem descobriu
o Reino. A terceira, pelo contrário, recorda a parábola do trigo e do
joio, escutada no domingo passado, e diz respeito à convivência entre o
bem e o mal.
A
parábola da rede, tal como a do trigo e do joio, evoca o «fim do
mundo», isto é, a conclusão da nossa vida, como o momento supremo em que
será comprovada a sua autenticidade e desmascarada a falsidade daqueles
que «chamam ao mal bem e ao bem mal, que fazem das trevas luz e da luz
trevas, que fazem do amargo doce e do doce amargo» (Isaías 5,20).
Detenhamo-nos nas duas breves parábolas do tesouro e da pérola.
1. QUEM são os que procuram tesouros e pérolas?
«O
Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. Um homem
encontra-o e torna a escondê-lo. Depois, cheio de alegria, vai, vende
todos os seus bens e compra aquele campo.»
As
histórias de tesouros são sempre fascinantes, hoje como no tempo de
Jesus. Numa terra frequentemente assolada por guerras, era comum, quando
um inimigo se aproximava, esconder as próprias riquezas, enterrando-as
num campo ou sob o chão da casa antes de fugir, na esperança de poder
recuperá-las mais tarde. Contudo, isso nem sempre acontecia.
Pois
bem, o pobre trabalhador agrícola da parábola é um dos afortunados que,
por um acaso inesperado, encontra a grande oportunidade da sua vida e
não a deixa escapar: cheio de alegria, vende todos os seus bens e compra
aquele campo!
«O
Reino dos Céus é também semelhante a um negociante que procura pérolas
preciosas. Encontrando uma pérola de grande valor, vai, vende todos os
seus bens e compra-a.»
No
Oriente, as pérolas eram consideradas uma das coisas mais preciosas,
tal como os diamantes o são para nós. Eram símbolo de beleza, a tal
ponto que «Penina», isto é, «Pérola», era também um nome dado às
raparigas (cf. 1 Samuel 1,2). O negociante da parábola procurava essas
pérolas e, quando encontra uma de grande valor, não hesita também ele em
vender todos os seus bens para a adquirir.
Ambos,
o pobre camponês e o rico negociante, comportam-se da mesma maneira:
encontram o tesouro ou a pérola, vão, vendem tudo e compram. Mas,
enquanto o camponês encontra o tesouro inesperadamente, o negociante
encontra a pérola depois de a ter procurado durante muito tempo.
Nós somos esses exploradores de tesouros e de pérolas, de
riqueza e de beleza, de perfeição e de infinito. A nossa vida é um
campo semeado de tesouros escondidos debaixo dos nossos pés, mas a
«lama» impede-nos de os ver. A nossa vida é um bazar repleto de pérolas,
muitas vezes demasiado cobertas de pó para que possamos perceber o seu
esplendor. Acontece, contudo, sacrificarmos tudo, a vida e a alma,
deslumbrados por algo falso, para depois ficarmos de mãos vazias.
2. O QUE são o tesouro e a pérola?
O
que representam aquele tesouro e aquela pérola? Para Salomão, são a
Sabedoria (cf. a primeira leitura); para o salmista, são a Lei, a Torá
(cf. o Salmo Responsorial 118); para São Paulo, são a vocação e o
projeto de Deus para a nossa vida (cf. a segunda leitura). Para Jesus,
porém, são o Reino. Podemos, contudo, refletir sobre as duas parábolas,
ampliando ainda mais a sua perspetiva.
O tesouro é, antes de mais, Cristo. Por
Ele, os apóstolos abandonaram tudo, e muitos outros fizeram o mesmo
depois deles. Paulo considerou tudo como lixo diante da sublimidade do
conhecimento de Cristo (cf. Filipenses 3,8). Muitos cristãos estão
dispostos a dar até a própria vida para não O perderem.
Há,
porém, também aqueles que não descobriram em Jesus esse tesouro: como o
jovem rico, que se afastou triste; como Judas, que O vendeu por trinta
moedas; e como tantos cristãos que, por nunca O terem encontrado
verdadeiramente, O trocaram por alguma quinquilharia.
Também nós, contudo, somos aquele tesouro e aquela pérola que
Cristo encontrou no campo ou no mercado do mundo. Por isso, Ele
resgatou-nos, «não por meio de coisas corruptíveis, como a prata e o
ouro, […] mas pelo sangue precioso de Cristo» (1 Pedro 1,18-19).
Pérolas
são também as pessoas que estão ao nosso lado, muitas vezes escondidas
por detrás dos seus defeitos, da sua aspereza e das suas conchas.
3. ONDE encontrar o tesouro?
Onde
e como podemos encontrar o tesouro ou a pérola? Permitam-me que o diga
através de um conto hassídico — o hassidismo é um movimento espiritual
judaico —: a história do Rabi Eisik, filho do Rabi Jekel, de Cracóvia,
narrada por Martin Buber, filósofo judeu.
«Depois
de muitos e muitos anos de dura miséria, que, apesar de tudo, não tinha
abalado a sua confiança em Deus, o Rabi Eisik recebeu em sonhos a ordem
de ir a Praga procurar um tesouro debaixo da ponte que conduzia ao
palácio real. Quando o sonho se repetiu pela terceira vez, Eisik pôs-se a
caminho e chegou a Praga a pé.
A ponte, porém, era vigiada dia e
noite por sentinelas, e ele não teve coragem de escavar no lugar
indicado. Contudo, voltava à ponte todas as manhãs e vagueava pelas
proximidades até ao anoitecer. Por fim, o capitão da guarda, que tinha
reparado nas suas idas e vindas, aproximou-se dele e perguntou-lhe
amavelmente se tinha perdido alguma coisa ou se esperava alguém. Eisik
contou-lhe o sonho que o levara até ali, desde a sua longínqua terra.
O
capitão desatou a rir: “E tu, pobre homem, por dares ouvidos a um
sonho, vieste até aqui a pé? Ah, ah, ah! Estás bem arranjado se confias
nos sonhos! Nesse caso, também eu deveria ter-me posto a caminho para
obedecer a um sonho e ir até Cracóvia, à casa de um judeu, um tal Eisik,
filho de Jekel, procurar um tesouro debaixo do fogão! Eisik, filho de
Jekel… estás a brincar? Estou mesmo a imaginar-me a entrar e a revolver
todas as casas de uma cidade onde metade dos judeus se chama Eisik e a
outra metade Jekel!” E voltou a rir. Eisik despediu-se dele, regressou a
casa e desenterrou o tesouro.»
Martin
Buber conclui: «Há algo que não podes encontrar em nenhuma outra parte
do mundo; contudo, existe um lugar onde o podes encontrar: onde te
encontras, no lugar mais íntimo de ti mesmo!» (O caminho do homem).
P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ