As mulheres
na Igreja
1. Retorno ao tema, pois é de actualidade
candente e amanhã, 8 de Março, é o Dia
Internacional da Mulher; faço-o, solidarizando-me
com todos os que lutam contra a misoginia da
Igreja — atendendo à data, nomeadamente muitas
associações de mulheres apresentaram protestos
—, e retomando o que já aqui escrevi em 2011:
“As mulheres têm motivo para estar zangadas com
a Igreja, que as discrimina. Jesus, porém, não só
não as discriminou como foi um autêntico
revolucionário na sua dignificação, até ao
escândalo.”
Veja-se a estranheza dos discípulos ao encontrar
Jesus com a samaritana, que tinha tudo contra ela:
mulher, estrangeira, herética, com o sexto marido,
mas foi a ela que se revelou como o Messias.
Condenou a desigualdade de tratamento de
homens e mulheres quanto ao divórcio. Fez-se
acompanhar — coisa inédita e mesmo escandalosa
na época — por discípulos e discípulas. Acabou com
o tabu da impureza ritual. Estabeleceu relações de
verdadeira amizade com algumas. Maria Madalena
constitui um caso especial nessa amizade: ela
acompanhou-o desde o início até à morte e foi ela
que primeiro intuiu e fez a experiência
avassaladora de fé de que o Jesus crucificado não
foi entregue à morte para sempre, pois é o Vivente
em Deus, está vivo em Deus para sempre como
esperança e desafio para todos os que crêem nele,
a ponto de Santo Tomás de Aquino e outros,
apesar da sua misoginia, a declararem a “Apóstola
dos Apóstolos”, precisamente por causa do seu
papel fundamental na convocação dos outros
discípulos para a fé na Ressurreição: na morte, não
caímos no nada, pois entramos na plenitude da
vida em Deus, Deus de vivos e não de mortos.
Aliás, já São Paulo, na Carta aos Romanos, pede
que saúdem Júnia, “Apóstola exímia”.
2. Num dos seus últimos escritos antes da morte,
o grande teólogo José M. Castillo — faleceu em
2023 — veio lembrar isso precisamente. Quando se
lê os Evangelhos, o que constatamos é que Jesus
teve conflitos e confrontos com vários grupos,
desde as mais altas autoridades religiosas até aos
discípulos que o acompanhavam: a Pedro, por
exemplo, chegou a chamar-lhe Satanás. Mas há
um dado que “chama poderosamente a atenção:
as mulheres são o único grupo com o qual Jesus
não teve problema algum, inclusivamente naquele
caso da mulher cananeia que suplicava a cura da
sua filha doente; parece que Jesus lhe deu uma má
resposta, mas o carinho daquela mãe foi tão
intenso que até fez Jesus dizer: ‘Mulher, como é
grande a tua fé!’. E a filha ficou curada.”
Castillo insiste que Jesus esteve sempre do lado
das mulheres, mesmo quando eram adúlteras ou
prostitutas. Jesus deixou que uma mulher o
perfumasse com perfume caro, ou lhe beijasse os
pés com lágrimas e lhos enxugasse com os
cabelos. E foram as mulheres que se mantiveram
sempre fiéis no caminho do Calvário e depois da
morte, diante da Cruz. E foram as primeiras
testemunhas do Ressuscitado, do Jesus vivo em
Deus para sempre.
E, atravessando a história da Igreja, lança a
pergunta: “Como é possível o que está a
acontecer? Se há tantos bispos que vivem em
palácios, usam vestimentas que já ninguém usa,
têm privilégios que ninguém mais tem, julgam ter
poderes que Deus lhes deu a eles e a mais
ninguém, não é lógico e inevitável que na Igreja
esteja a acontecer o que todos vemos?” E conclui:
“Como é possível que as mulheres continuem nesta
Igreja que as marginaliza, as exclui, as anula em
tantas coisas...? Porque é que hão-de continuar
numa Igreja que, apoiada em séculos, nega e
resiste a que celebrem Missa ou que possam ser
esposas de padres? Se Jesus não proibiu nada
disso, porque é que havemos de ser nós a proibir
e, para cúmulo, ficando com a consciência do dever
cumprido? O que é mais importante: agradar a uns
tantos cardeais ou servir toda a gente?”
3. A Igreja continua a ser um dos maiores
esteios da sociedade patriarcal. Até
inconscientemente, com a doutrina tradicional,
embora esta não encontre apoio no Evangelho.
Dou três exemplos.
Eva, que estaria, segundo a doutrina tradicional,
a partir de uma leitura literal da Bíblia, na base do
“pecado original”, criou a imagem da mulher
tentadora, associada ao pecado.
Quando João Paulo I se referiu a Deus como
Mãe foi um escândalo tal que não faltaram os
protestos, clamando que Deus é Pai e não Mãe.
Para esta visão, contribuiu também o
desconhecimento da biologia. De facto, o óvulo
feminino só foi descoberto em 1827. Por isso, na
geração, a mulher era passiva e não activa. Neste
quadro, nunca se poderia rezar o Credo,
começando assim: “Creio em um só Deus, Mãe
toda-poderosa, criadora dos céus e da terra...”
nem rezar o “Pai Nosso”, dizendo “Mãe Nossa”.
Mas, em relação a esta concepção, é preciso tomar
consciência de que Deus está para lá da
determinação sexual e, por isso, tanto nos
podemos dirigir a Ele como Pai ou como Mãe,
melhor: Pai-Mãe...
Também se diz que Deus encarnou no homem
Jesus. Sim, esta afirmação é clara para a fé cristã,
desde que não se ignore que, no Evangelho de São
João, se lê que o Logos, que é Deus, se fez carne,
no sentido de humanidade frágil. De facto, a
palavra utilizada no original grego é “sárx”, que
significa precisamente a humanidade enquanto
frágil, e não “anér, andrós”, que se refere ao
homem masculino (daí, andrologia e
androcentrismo). Deus manifestou-se, revelou-se a
todo o ser humano, na humanidade frágil do
homem Jesus.
Neste contexto, pergunta-se: a mulher não
poderá presidir à Eucaristia? Já há anos, o então
cardeal-patriarca de Lisboa, José Policarpo, que
sabia Teologia, fez uma declaração que teve muito
eco nos média, inclusive estrangeiros:
“Teologicamente não há nenhum obstáculo
fundamental” à ordenação de mulheres. A recusa
baseia-se apenas na tradição. É evidente que,
perante esta afirmação, os protestos choveram e o
meu amigo cardeal José Policarpo, por pressão do
Vaticano, teve de recuar, dando esclarecimentos.
Mas, evidentemente, era ele que tinha razão, como
também outros cardeais reconhecem.
Para contrapor, invoca-se que na Última Ceia não
houve mulheres. Ora, esta afirmação é contestada
por grandes exegetas. De qualquer modo, onde é
que está que Jesus ordenou alguém “in sacris”
naquela noite? Mais: o famoso biblista, talvez o
maior exegeta do século XX, Herbert Haag, da
Universidade de Tubinga, com quem tive o
privilégio de privar, ironizou: como eram só judeus
os presentes, então a Igreja devia ordenar só
homens judeus!... Sobretudo: é sabido que as
primeiras comunidades cristãs — não havia igrejas
nem capelas nem basílicas ou catedrais — se
reuniam na casa de cristãos mais abastados, pois
sempre teriam uma casa mais ampla, e quem
presidia era o dono ou a dona da casa. Então, se já
foi possível mulheres presidirem à Eucaristia...
A questão da mulher na Igreja tem, pois, de ser
revista. Para não ferir o que Jesus disse: “Sois
todos irmãos e iguais” nem este princípio
fundamental do Concílio Vaticano II: “Toda a forma
de discriminação nos direitos fundamentais da
pessoa por razão do sexo deve ser vencida e
eliminada, por ser contrária ao plano divino.”
Afinal, a linguagem que nos leva a dizer: “a
Igreja discrimina as mulheres” revela bem onde
reside o nervo do problema. Que Igreja é que
discrimina? Quem é a Igreja? Evidentemente, ao
dizer que a Igreja discrimina as mulheres, estamos
a referir-nos à Igreja hierárquica: Papa, cardeais,
bispos, padres, cónegos, monsenhores — com duas
classes: clero e leigos —, quando o que Jesus
queria era a Igreja como comunidade de
comunidades, que obriga a dizer: “a Igreja somos
nós”, a comunidade dos baptizados, homens e
mulheres, uma comunidade de iguais, com
carismas e ministérios vários ao serviço de todos,
entre eles, o da presidência da Eucaristia, exercido
por homens ou mulheres.
Sábado, 7 de Março de 2026