sábado, 13 de junho de 2026

O cérebro, o eu e a liberdade - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

O cérebro,

o eu e a liberdade


O que diz alguém, quando diz “eu”?

Afirma-se a si mesmo como sujeito, autor

das suas acções conscientes, centro pessoal

responsável por elas, alguém referido a si

mesmo, na abertura e em contraposição a

tudo.

Mas há observações perturbadoras. Por

exemplo, pode acontecer que alguém

adulto, ao olhar para si em miúdo, se veja

de fora, apontando como que para um

outro: aquele era eu, sou eu?

2

Há filósofos que se referem à ilusão do

eu. Certas interpretações do budismo

caminham nesta direcção. No quadro da

impermanência e da interdependência de

todas as coisas, fala-se da inexistência do eu,

do não-eu. Matthieu Ricard, investigador

em genética celular e monge budista, deu-

me, num congresso no Porto, um exemplo:

veja ali o rio Douro. O que é o rio Douro?

Onde está o rio Douro? Ele não existe como

substância, pois não há senão uma corrente

de água. Está a ver a consciência? O que é

ela senão um fluxo permanente de

pensamentos fugazes, de vivências? O eu

não passa de um nome para designar um

continuum, como nomeamos um rio.

Mas há a experiência vivida e

inexpugnável do eu, ainda que numa

identidade em transformação, que

continuamente se faz, desfaz e refaz. O que

se passa é que, não se tratando de uma

3

realidade coisista, é inobjectivável e

inapreensível.

É e será sempre enigmático como

aparecem no mundo corpóreo o eu e a

consciência. É claro que o eu não pode ser

pensado à maneira de uma alma, um

homunculus, um observador dentro do

corpo – o fantasma dentro da máquina. Há,

portanto, uma correlação entre a consciência

e os processos cerebrais. Mas significa isto

que essa correlação é de causalidade, de tal

modo que haverá um dia uma explicação

neuronal adequada para os estados

espirituais? Ou, como já viu Leibniz e é

agora acentuado pelo filósofo Th. Nagel,

mesmo que, por exemplo, tivéssemos todos

os conhecimentos científicos sobre os

processos neuronais de um morcego, não

saberíamos o que é o mundo a partir do seu

ponto de vista? A questão é: como se passa

de acontecimentos eléctricos e químicos no

4

cérebro – processos neuronais da ordem da

terceira pessoa – para a experiência

subjectiva na primeira pessoa?

Apesar de se não afastar por princípio a

possibilidade de se poder vir a dar essa

compreensão, o filósofo Colin McGinn

pensa que talvez nunca venhamos a

entender como é que a consciência surge

num mundo corporal, a partir de processos

físicos. Também o neurocientista W. Prinz

disse numa entrevista: “Os biólogos podem

explicar como funcionam a química e a

física do cérebro. Mas até agora ninguém

sabe como se chega à experiência do eu nem

como é que o cérebro é capaz de gerar

significados.”

E sou livre ou não? É claro que, como

escreve o filósofo M. Pauen, se as nossas

actividades espirituais se identificassem

com processos cerebrais, segundo leis

naturais, já se não poderia falar em

5

liberdade – “as nossas acções seriam

determinadas não por nós, mas por aquelas

leis.”

Mas, afinal, quem age, quem é o autor

das minhas acções: o meu cérebro ou eu?

“Como não é a minha mão, mas eu, quem

esbofeteia esta ou aquela pessoa, não é o

meu cérebro, mas eu, quem decide. O facto

de eu pensar com o cérebro não significa

que seja o cérebro, e não eu, quem pensa”,

escreveu o filósofo Th. Buchheim.

Só existe liberdade, se há alguém capaz

de autodeterminação. A determinação por

um “eu”, segundo um juízo de valor, é que

faz com que uma acção seja livre e não puro

acaso ou enquadrada no determinismo das

leis naturais. Como disse P. Bieri — ver

citação na obra de Hans Küng: Der Anfang

aller Dinge (O princípio de todas as coisas)

—, “é inútil procurar na textura material de

um quadro o representado ou a sua beleza;

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é igualmente inútil procurar na mecânica

neurobiológica do cérebro a liberdade ou a

sua ausência. Ali, não há nem liberdade nem

falta de liberdade. Do ponto de vista lógico,

o cérebro não é o lugar adequado para esta

ideia. A vontade é livre, se se submete ao

nosso juízo sobre o que é adequado querer

em cada momento. A vontade carece de

liberdade, quando juízo e vontade seguem

caminhos divergentes.”

Como já aqui deixei escrito, a experiência

humana fundamental, quando se anda

minimamente atento, é esta: cada um é

dado a si mesmo, cada uma é dada a si

mesma; portanto, é dono de si, dona de si e,

assim, é responsável por si e pelos seus

actos, responde por si e por eles.

Sábado, 13 de Junho de 2026

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Da compaixão à missão! - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 

Da compaixão à missão!

Ano A – Tempo Comum – 11.º Domingo
Mateus 9,36–10,8: “Jesus, vendo as multidões, encheu-se de compaixão por elas”

Depois do caminho quaresmal e pascal e da celebração das grandes solenidades, regressamos ao Tempo Comum, durante o qual seremos acompanhados pelo Evangelho segundo São Mateus. Somos convidados a retomar a “normalidade” da nossa vida cristã, vivida no seguimento de Jesus.

O trecho evangélico de hoje introduz-nos no segundo dos cinco grandes discursos de Jesus apresentados pelo evangelista Mateus: o chamado “discurso da missão”, que ocupa o capítulo 10. O primeiro tinha sido o discurso programático pronunciado no monte das Bem-aventuranças, nos capítulos 5-7. Depois de ter “falado”, Jesus tinha “agido”, curando “todas as doenças e enfermidades” nos capítulos 8-9.

“Jesus, vendo as multidões, encheu-se de compaixão por elas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor.”

Este segundo discurso, como o primeiro, nasce de um olhar de Jesus que lhe toca profundamente o coração: um olhar de compaixão. Quanto gostaríamos também nós de sentir este olhar pousar sobre nós quando nos sentimos cansados, desanimados e perdidos!

E, no entanto, esse mesmo olhar continua a pousar sobre as multidões sofredoras de hoje, sobre cada homem e cada mulher, sobre cada um de nós. Por que duvidamos disso? Ter-se-á tornado míope o olhar de Jesus? Ter-se-á endurecido o seu coração?

Não corremos o risco de raciocinar como acontece em algumas tradições religiosas da África Ocidental, onde vivi a missão? Acredita-se num deus supremo, Mawu, mas imagina-se que ele esteja distante, retirado no céu para não ser incomodado pelos homens, depois de ter confiado a terra aos vodus, que a governariam a seu bel-prazer. Só que os nossos vodus têm nomes diferentes: riqueza, poder, fortuna, destino, má sorte…

Também algumas correntes do pensamento contemporâneo podem conduzir, na prática, a uma mentalidade semelhante. Pensemos, por exemplo, numa visão filosófica que concebe o Criador como isolado e alheio à sua criação. Também algumas formas extremas da teologia pós-teísta correm o risco de pôr em causa a encarnação e os princípios fundamentais da mensagem cristã.

Ó Jesus, nós te pedimos: cruza hoje o teu olhar com o nosso e cura a nossa maneira de olhar!

“Então disse aos seus discípulos: A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos!”

A messe é grande? Talvez Jesus se refira ao vasto campo ainda por semear? Não, ele fala precisamente de uma messe pronta para ser recolhida, mas que corre o risco de se perder por falta de trabalhadores.

E onde se encontraria essa messe? “Certamente não aqui, onde só cresce o joio!”, diria alguém. Às vezes perguntamo-nos até se ainda vale a pena pregar o Evangelho numa sociedade que parece não se importar minimamente com ele. Jesus, pelo contrário, com o seu olhar de compaixão, vê precisamente aqui uma messe abundante a recolher no seu celeiro.

Ó Jesus, dá-nos o teu olhar límpido, livre de preconceitos, profundo e solidário, capaz de reconhecer o bem “abundante” ainda hoje presente na nossa sociedade!

“Pedi, pois, ao senhor da messe que envie trabalhadores para a sua messe!”

Rezar pelas vocações? Isso sim! Mas por que razão o dono da messe se deixa tanto suplicar? Não vê ele mesmo que faltam agentes pastorais, apóstolos e missionários?

O Senhor, porém, convida-nos a rezar para que o nosso olhar mude e o nosso coração se torne semelhante ao seu. E depois… envia-nos a nós! Sim: ele não pensa apenas nos padres e nas religiosas; pensa em cada um de nós. E aqui a questão torna-se séria!

Senhor, torna o nosso ouvido sensível ao teu chamamento para trabalhar na tua vinha!

“Chamando a si os seus doze discípulos, deu-lhes poder sobre os espíritos impuros, para os expulsarem e para curarem todas as doenças e enfermidades.”

Eis que Jesus nos chama e nos prepara. Não nos envia desprevenidos diante de uma tarefa tão imensa. Trata-se, de facto, de combater os “espíritos impuros” que atormentam a nossa sociedade. São muitos: a guerra, a fome, a injustiça, a exploração, o consumismo… É preciso expulsá-los e mandá-los de volta para o inferno! Mas acreditamos realmente no poder que o Senhor nos confiou, na força do mesmo Espírito que atuava nele?

Trata-se, além disso, de curar “todas as doenças e enfermidades”, físicas e espirituais, porque o Senhor quer promover a plenitude da vida e a nossa autêntica liberdade. Mas atenção: nós mesmos somos curadores feridos, não imunes a estas enfermidades. Também nós somos marcados pelo egoísmo, pela inveja, pelo amor-próprio, pela indiferença, pelo medo, pela dúvida e pela violência.

Senhor, torna-nos mais audazes diante dos desafios do mundo de hoje. Torna-nos conscientes de que também nós somos feridos pela vida, mas, como dizia o Papa Francisco: “Pecadores sim, corruptos nunca!”

“Os nomes dos doze apóstolos são estes: primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão, o Cananeu, e Judas Iscariotes, aquele que depois o traiu.”

São doze. Representam as doze tribos de Israel e, portanto, a totalidade do povo de Deus. Apenas homens? Não se trata de uma intenção exclusivista por parte de Jesus: hoje estamos bem conscientes disso. O que conta, no relato evangélico, é a totalidade simbolizada pelo número doze.

Notemos, antes de mais, que são pessoas muito diferentes entre si, cada uma com as suas qualidades e defeitos. Certamente não eram já todos “santos e capazes”, como Comboni desejava que fossem os seus missionários. Não sei quantos deles, hoje, seriam considerados aptos para entrar no seminário! Isto recorda-nos que Jesus não procura pessoas perfeitas: procura-te a ti e a mim!

Notemos, além disso, que os apóstolos são nomeados aos pares. Não se trata apenas de um recurso mnemónico: significa que não somos franco-atiradores. Somos testemunhas sustentadas por uma comunidade e enviadas juntamente com outros.

Notemos, por fim, que na “fotografia de família” aparece uma figura embaraçosa: Judas. Porquê? É uma advertência: Judas pode representar cada um de nós!

“Estes são os Doze que Jesus enviou, dando-lhes esta ordem: Não sigais pelo caminho dos pagãos nem entreis nas cidades dos samaritanos; ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel.”

Ai de nós, Jesus envia-nos precisamente para o meio dos nossos, para os próximos, para os de casa. “Não foste tu mesmo, Jesus, que disseste que nenhum profeta é bem recebido na sua terra?” Eu preferiria ir para África!

“Pelo caminho, proclamai que o Reino dos Céus está próximo. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes de graça, dai de graça.”

Somos enviados a testemunhar, com o sorriso e a alegria, com a bondade e o perdão, que o Reino dos Céus está próximo!

Somos enviados a realizar prodígios: não necessariamente os mais clamorosos, mas os pequenos milagres quotidianos, gratuitos e muitas vezes despercebidos. São gestos de amor capazes de curar as feridas, de ressuscitar a esperança em alguém, de purificar as lepras da alma e de expulsar os demónios dos corações.

Boa missão!
P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

P. Manuel João Pereira Correia mccj
p.mjoao@gmail.com
https://comboni2000.org

sábado, 6 de junho de 2026

Somos livres? - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

Somos livres?

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia

Esta é a pergunta decisiva. De facto, se

não somos livres, o que se chama dignidade

humana pode ser uma convenção, mas não

tem fundamento real.

Mas quem nunca foi assaltado pela

pergunta: a minha vida teria podido ser

diferente? Para sabê-lo cientificamente, seria

preciso o que não é possível: repetir a vida

exactamente nas mesmas circunstâncias. Só

assim se verificaria se as “escolhas” se

repetiam nos mesmos termos ou não.

2

Não há dúvida de que a liberdade

humana é condicionada. Mas ela existe ou é

uma ilusão? Não vêm agora neurocientistas

dizer que, mediante dados da tomografia de

emissão de positrões e da ressonância

magnética nuclear funcional, se mostra que

afinal as nossas decisões são dirigidas por

processos neuronais inconscientes?

De qualquer modo, em 2004, destacados

neurocientistas também tornaram público

um “Manifesto sobre o presente e o futuro

da investigação do cérebro” – cito Hans

Küng, no seu Der Anfang aller Dinge (O

princípio de todas as coisas) --, revelando-se

prudentes no que toca às “grandes

perguntas”: “Como surgem a consciência e

a vivência do eu? Como se entrelaçam a

acção racional e a acção emocional? Que

valor se deve conceder à ideia de ‘livre

arbítrio’? Colocar já hoje as grandes

perguntas das neurociências é legítimo, mas

3

pensar que terão resposta nos próximos dez

anos é muito pouco realista.” É preciso

continuar as investigações, no sentido de

perceber o nexo entre a mente e o cérebro.

“Mas nenhum progresso terminará num

triunfo do reducionismo neuronal. Mesmo

que alguma vez chegássemos a explicar a

totalidade dos processos neuronais

subjacentes à simpatia que o ser humano

pode sentir pelos seus congéneres, ao seu

enamoramento e à sua responsabilidade

moral, a autonomia da ‘perspectiva interna’

permaneceria intacta. Pois também uma

fuga de Bach não perde nada do seu

fascínio, quando se compreende com

exactidão como está construída.”

A liberdade não é desvinculável da

experiência subjectiva, da “perspectiva

interna”. Essa experiência é transcendental,

no sentido de que se afirma até na sua

negação. De facto, se tudo se movesse no

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quadro do determinismo total, como

surgiria o debate sobre a liberdade?

Essa experiência coloca-se concretamente

no campo da moral e da responsabilidade.

Neste contexto, há um célebre exercício

mental de Kant na Crítica da Razão Prática,

que é elucidativo e obriga a pensar.

Suponhamos que alguém, sob pena de

morte imediata, se vê confrontado com a

ordem de levantar um falso testemunho

contra uma pessoa que sabe ser inocente.

Nessas circunstâncias e por muito grande

que seja o seu amor à vida, pensará que é

possível resistir. “Talvez não se atreva a

assegurar que assim faria, no caso de isso

realmente acontecer; mas não terá outro

remédio senão aceitar sem hesitações que

tem essa possibilidade.” Existem as duas

possibilidades: resistir ou não. “Julga,

portanto, que é capaz de fazer algo, pois é

consciente de que deve moralmente fazê-lo

5

e, desse modo, descobre em si a liberdade

que, sem a lei moral, lhe teria passado

despercebida.”

O que confunde frequentemente o debate

é a falta de esclarecimento quanto ao que é

realmente a liberdade. Ela é a não

submissão à necessidade coactiva, externa e

interna, mas não pode, por outro lado, ser

confundida com a arbitrariedade e a pura

espontaneidade – não implica a

espontaneidade a necessidade?

A liberdade radica na experiência

originária do Homem como dom para si

mesmo. Paradoxalmente, é na abertura a

tudo, portanto, no horizonte da totalidade

do ser, que ele vem a si mesmo como eu

único e senhor de si. Então, agir livremente

é a capacidade de erguer-se acima dos

próprios interesses, para pôr-se no lugar do

outro e agir racionalmente.

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É preciso distinguir entre causas e

razões. Quando se age sob uma causalidade

constringente, não há liberdade. Ser livre é

propor-se ideais, deliberar e agir segundo

razões e argumentos, impondo limites aos

impulsos, inclinações e desejos, o que

mostra que o ser humano pode ser senhor

dos seus actos e, assim, responsável, isto é,

pode e deve responder por eles e por si.

Sábado, 6 de Junho de 2026

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Man hu? O que é isto? - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Man hu? O que é isto?

Ano A – Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
João 6,51-58: “Eu sou o pão vivo, descido do céu”

Sessenta dias depois da Páscoa, na quinta-feira seguinte à solenidade da Santíssima Trindade, a Igreja celebra a solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo — segundo o Missal de Paulo VI — chamada também festa do Corpus Christi, segundo o uso tradicional. Trata-se de uma das três quintas-feiras mais solenes do ano litúrgico: a Quinta-feira Santa, a quinta-feira da Ascensão e a quinta-feira do Corpus Christi. Por razões pastorais, em muitos países esta solenidade é transferida para o domingo seguinte à Santíssima Trindade. Embora o tempo pascal já tenha terminado, esta referência cronológica estabelece uma ligação profunda entre a festa do Corpus Christi, a Páscoa e a solenidade da Santíssima Trindade.

As origens desta festividade remontam ao século XIII. Nascida no contexto da piedade eucarística que se desenvolveu na Bélgica, em particular graças ao impulso de santa Juliana de Cornillon, foi estendida a toda a Igreja pelo papa Urbano IV em 1264. Neste caminho teve também grande importância o milagre eucarístico de Bolsena, ocorrido no ano anterior. Com estes sinais, o Senhor quis consolidar a fé da Igreja na sua presença real no sacramento da santa Eucaristia, precisamente em tempos em que alguns a punham em dúvida.

Os milagres eucarísticos são numerosos, muitos dos quais documentados ao longo dos séculos. São Carlo Acutis, adolescente falecido aos 15 anos (1991-2006), foi um entusiasta divulgador deles. Grande amante da Eucaristia, chamava-a “a autoestrada para o céu”.

1. “Recorda-te… Não te esqueças!”

A primeira palavra que ressoa aos nossos ouvidos nas leituras de hoje é: Recorda-te. “Recorda-te de todo o caminho que o Senhor, teu Deus, te fez percorrer durante estes quarenta anos no deserto” (Dt 8,2). É um convite extremamente oportuno e urgente para nós, mulheres e homens de uma geração muitas vezes inclinada a esquecer o passado, alienada no presente, desenraizada da história e, consequentemente, pouco atenta a um futuro que não tenha uma repercussão imediata.

Esta tendência cultural corre o risco de minar também a identidade cristã. Disse Nelson Mandela: “A memória é o tecido da identidade”. Um cristão, e uma comunidade cristã, que não cultivam a memória de Deus e das suas obras correm o risco de perder a própria identidade. Se o povo de Israel não fizesse memória do Deus libertador, seria tentado a voltar ao “Egito” e a recair numa nova escravidão. Eis por que Moisés, no Deuteronómio, insiste tanto no binómio escutar/recordar (cf. Dt 6,4-10.12; 8,2.14.18).

A Eucaristia é o nosso memorial por excelência: “Fazei isto em memória de mim. Todas as vezes, de facto, que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha” (cf. 1Cor 11,23-26). Diante de uma comunidade que celebra a Eucaristia sem que a memória aqueça o coração, há que perguntar se não terá “abandonado o seu primeiro amor” (Ap 2,4). Presos no presente, perde-se então o impulso para a espera do Senhor que vem. A invocação do Espírito e da esposa — “Vem!” — já não aflora aos nossos lábios (Ap 22,17). A esperança enfraquece e perde-se o sentido da vida cristã.

2. Um só pão, um só corpo

A segunda leitura sublinha a ligação profunda entre a Eucaristia, a Igreja e a comunidade: “Porque há um só pão, nós, embora muitos, somos um só corpo” (1Cor 10,16-17). A dimensão comunitária da Eucaristia foi particularmente evidenciada depois do Concílio Vaticano II: “Não é possível que se forme uma comunidade cristã se não [...] tendo como raiz e eixo a celebração da sagrada Eucaristia” (Presbyterorum Ordinis, 6).

Não sei até que ponto esta consciência foi assimilada pelas nossas assembleias litúrgicas, se olharmos apenas para a dispersão física dos fiéis nas nossas igrejas. Tem-se, por vezes, a impressão de que a Eucaristia ainda é, para alguns de nós, um “assunto individual”, uma espécie de “bem de consumo” espiritual.

Desde 13 de outubro de 2020, por causa da doença, não posso receber diretamente a comunhão no Corpo e no Sangue de Cristo. Celebrar todos os dias a santa Missa com os meus confrades levou-me a refletir mais profundamente sobre a dimensão comunitária da Eucaristia: um só Pão e um só Corpo. Este Corpo é a Igreja, é a comunidade. Cristo dá-se a todo o Corpo. Os meus confrades são o corpo a que pertenço e que, também por mim, comunga do Corpo de Cristo. Isto vale para mim como para todos os cristãos que celebram a Eucaristia.

3. Maná, man hu? O que é isto?

O maná que alimentou o povo de Israel no deserto é figura da Eucaristia, o Pão essencial para a nossa sobrevivência. Tradicionalmente considera-se que o termo maná provém da pergunta man hu?, isto é: “O que é isto?”, que os israelitas se fizeram, cheios de espanto, ao vê-lo descer do céu.

Pois bem, Jesus diz-nos hoje: “Este é o pão descido do céu” (Jo 6,58). Ele é o verdadeiro maná. Os judeus que o escutavam ficaram escandalizados. Nós não — talvez, infelizmente! Damos tudo isto por adquirido. Mas até que ponto o levamos a sério?

Os olhos do corpo veem um pequeno e frágil pedaço de pão. Mas os olhos do coração, os olhos da fé, o que veem? É realmente necessário que nos interroguemos sobre isso. Não podemos subestimar a influência de uma mentalidade secularizada, muitas vezes alérgica à dimensão do mistério, nem a de uma visão redutora da Eucaristia, que corre o risco de obscurecer a sua presença real.

Que o Senhor abra os nossos olhos, como fez com os dois discípulos de Emaús, para que possamos reconhecê-lo no partir do Pão.

Exercício espiritual para a semana

  1. Antes de comungar, olha com espanto e maravilha para o Pão colocado na tua mão e pergunta-te: Man hu? O que é isto? E o Senhor te responderá: É o meu Corpo!
  2. Medita sobre estas perguntas provocadoras do papa Francisco:

“Se olharmos à nossa volta, percebemos que há tantas ofertas de alimento que não vêm do Senhor e que, aparentemente, satisfazem mais... Cada um de nós, hoje, pode perguntar-se: e eu? Onde quero comer? A que mesa quero alimentar-me? À mesa do Senhor? Ou sonho comer comidas saborosas, mas na escravidão? Além disso, cada um de nós pode perguntar-se: qual é a minha memória? A do Senhor que me salva ou a do alho e das cebolas da escravidão? Com que memória sacio eu a minha alma?” (19 de junho de 2014).

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

terça-feira, 2 de junho de 2026

O Homem: criado à imagem de Deus?- Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 O Homem:

criado à imagem de Deus?



Parece estender-se cada vez mais a

tentação de pensar que o Homem é um

animal entre outros. Se diferença houvesse,

não seria essencial e qualitativa, apenas de

grau.

Mas quem anda atento reconhecerá com

certeza que a diferença entre o Homem e os

outros animais não é apenas de grau, mas

essencial e qualitativa. Pelo menos, é

preciso manter a pergunta.

Também o Homem é corpo, mas um

corpo que fala e que diz eu. Ora, um corpo

2

que produz sons duplamente articulados,

portanto, transportando sentido, é um

corpo que transcende a animalidade.

Que o ser humano não fica submerso na

instintividade da vida prova-o o facto de,

por exemplo, ao contrário do animal, no

domínio da sexualidade, ser capaz de pesar

razões, abster-se, pensar no que é melhor

para si e para o parceiro, ter inventado o

erotismo e também a pornografia, procurar

técnicas anticonceptivas... O ser humano é

dado a si mesmo como um eu único, senhor

de si, em autoposse... Aí está a liberdade, a

moralidade e, consequentemente, a

responsabilidade: como diz a palavra,

responde por si e pelos seus actos...

O Homem é capaz de renunciar à

satisfação imediata dos seus impulsos: é “o

asceta da vida”, escreveu o filósofo Max

Scheler. Por isso, é capaz de jejuar, e ergueu,

por exemplo, um edifício jurídico-penal,

3

para evitar a vingança cega, dirimir

diferendos, não fazer justiça pelas próprias

mãos.

Quando vemos um animal sentado, de

olhos fechados, com a cabeça entre as mãos

ou encostada à mão direita, estamos em

presença de um ser humano que medita.

Está ensimesmado/a, entrou dentro de si

próprio/a, desceu à sua intimidade,

submerso/a na sua subjectividade pessoal.

O ser humano é consciente, mais:

autoconsciente, consciente de ser

consciente, autorreflexivo/a.

Não vivo longe de um aeroporto, e

reparo, quando passeio pela praia, como

cães da zona se põem a correr na areia, atrás

das sombras dos aviões que se apressam

para a pista. Cá está: o animal vive da

imediatidade dos instintos e o mundo para

ele é fundamentalmente um conjunto de

estímulos, que atraem ou repelem. O ser

4

humano, ao contrário, dada a sua

capacidade de distanciação, vive no real: é

um “animal de realidades”, repetia o

filósofo Xavier Zubiri.

O Homem “começou a ser Homem

intentando criar beleza”, escreveu o filósofo

Pedro Laín Entralgo. O ser humano não

vive amarrado e encerrado na satisfação das

suas necessidades vitais. Ele transcende o

simplesmente biológico, criando cultura. E

vive do gratuito: cria e contempla a beleza,

pois é o ser “criativamente possuído pelo

fascinante esplendor do inútil” (George

Steiner). Para sobreviver, não precisava de

investigar na mecânica quântica. O que

ganha no tempo dedicado aos mortos? No

entanto, o tempo que gastamos inutilmente

com os mortos!...

Os animais também comunicam. Mas

nunca um animal fez perguntas. O Homem

é o animal que pergunta. E perguntar

5

coloca-nos na perplexidade, pois implica ao

mesmo tempo saber e não saber. Se

perguntamos é porque não sabemos, mas

sobre aquilo de que nada sabemos não

perguntamos... Afinal, o que sabemos,

quando perguntamos? A pergunta nunca

acaba: de pergunta em pergunta vamos até

ao in-finito. No perguntar, o Homem revela

que é o ser do intervalo – entre o finito e o

Infinito – e que está ligado ao

Transcendente: perguntamos pelo

Fundamento e pelo Sentido último...

O Homem é um ser paradoxal. Somos

bípedes sanguinários, capazes de sadismo

feroz. Inventamos máquinas de guerra

brutal e instrumentos de tortura indizível.

Pilhamos, massacramos, somos de uma

ganância ilimitada, de uma vulgaridade

ridícula, de um materialismo rasteiro. No

entanto, como escreveu o agnóstico George

Steiner, “este mamífero desgraçado e

6

perigoso gerou três ocupações, vícios ou

jogos de uma dignidade completamente

transcendente. São eles a música, a

matemática e o pensamento especulativo

(no qual incluo a poesia, cuja melhor

definição será música do pensamento).

Radiantemente inúteis, estas três

actividades são exclusivas dos homens e

das mulheres e aproximam-se tanto quanto

algo se pode aproximar da intuição

metafórica de que fomos realmente criados

à imagem de Deus.”

É por isso que, apesar dos avanços das

ciências humanas, da genética, das

neurociências, da IA, que devem ser

promovidos, permanecerá, íntegra, talvez

até mais intensa, a pergunta: o que é o

Homem? Quanto mais potente se torna o

império tecnológico mais urgente e

imperiosa se torna a reflexão sobre a pessoa

humana, a sua dignidade, os seus direitos

7

— universais, inalienáveis, invioláveis... —

e, consequentemente, também os seus

deveres, para consigo e a humanidade

inteira, e o planeta Terra, a casa comum...

Aí está a importância histórica da

primeira encíclica de Leão XIV, sobre a

inteligência artificial, justamente com o

título Magnifica Humanitas (Magnífica

humanidade). O Papa, já a concluir a sua

apresentação — foi a primeira vez que um

Papa apresentou uma encíclica sua —, no

passado dia 25: “Não temamos a IA, mas

mantenhamos sempre presente a questão

humana. Não podemos ser negligentes com

os nossos instrumentos técnicos mais

avançados”.

Sábado, 30 de Maio de 2026

sábado, 30 de maio de 2026

Tudo navega no Mar infinito do Amor! - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Tudo navega no Mar infinito do Amor!

Ano A – Solenidade da Santíssima Trindade
João 3,16-18: “Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigénito”

Celebramos hoje a Solenidade da Santíssima Trindade. É uma festa relativamente recente: foi introduzida no calendário litúrgico em 1334 pelo papa João XXII. O motivo principal era dar uma celebração solene ao mistério central da nossa fé: Deus uno e trino, Pai, Filho e Espírito Santo. A encarnação e a Trindade são os dois mistérios essenciais da fé cristã. Todos os cristãos, de facto, são batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

A colocação desta solenidade no domingo depois do Pentecostes não é casual. Ao longo dos noventa dias do tempo quaresmal e pascal, tendo no centro a Semana Santa da Paixão, morte e ressurreição de Jesus, fizemos a experiência da ação salvífica do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Neste domingo depois do Pentecostes contemplamos a ação amorosa das três Pessoas divinas na sua unidade e comunhão. “Esta festa é como um oásis de contemplação, depois da plenitude do Pentecostes” (dom Angelo Casati).

A todos é possível chegar à existência de Deus através da sua epifania na criação. A inteligência humana pode também chegar à unicidade de Deus, isto é, ao monoteísmo. À Trindade das Pessoas no único Deus, porém, guiou-nos a fé em Jesus, porque “a Deus, ninguém jamais o viu: o Filho unigénito é que no-lo revelou” (João 1,18). Não se trata, porém, de um conhecimento teórico ou puramente dogmático, que pouco ou nada serviria, mas de uma introdução à intimidade de Deus, de uma imersão no seu mistério imenso, surpreendente e fascinante.

Deus é amor

As leituras propostas pela liturgia, breves mas densas, ajudam-nos a aprofundar este mistério. Todas sublinham o amor de Deus. Na primeira leitura, o Senhor apresenta-se como “Deus misericordioso e compassivo, lento para a ira e rico em amor e fidelidade” (Êxodo 34). Na segunda, conclusão da segunda carta aos Coríntios, São Paulo, com palavras cheias de ternura, despede-se da comunidade dizendo: “Irmãos, vivei na alegria, tende à perfeição, encorajai-vos mutuamente, tende os mesmos sentimentos, vivei em paz, e o Deus do amor e da paz estará convosco” (2Coríntios 13,11-13). O Evangelho apresenta-nos uma das afirmações mais extraordinárias e revolucionárias de toda a Sagrada Escritura: “Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigénito, para que todo aquele que acredita nele não se perca, mas tenha a vida eterna”.

Na sua primeira carta, São João desenvolve esta verdade até afirmar: “Deus é amor” (1João 4,16). A Trindade é uma exigência do amor: Deus é amor, portanto é Trindade! Na meditação deste Mistério permanece insuperável a intuição de Santo Agostinho, que define o Pai como aquele que ama, o Filho como o amado e o Espírito Santo como o amor que os une.

Enquanto não acolhermos no coração esta novidade evangélica, corremos o risco de fazer de Deus um ídolo, construído à “nossa imagem e semelhança”: desde o deus juiz até às distorções mais perversas, como podemos ver em certos fundamentalismos. Mas não pretendamos conhecer Deus depressa demais. A Palavra apresenta-nos “o Deus desconhecido” aos atenienses, mas também a nós (Atos 17,23)!

Como perceber o amor de Deus? Como chegar àquilo que São Paulo deseja aos Efésios: “Que Cristo habite, pela fé, nos vossos corações e assim, enraizados e fundados na caridade, sejais capazes de compreender, com todos os santos, qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e de conhecer o amor de Cristo, que ultrapassa todo o conhecimento” (Efésios 3,17-19)?

Uma viagem do exterior para as profundezas

Hoje vivemos projetados para o mundo e para o universo, desejosos — justamente — de descobrir os mistérios do cosmos e da vida. Procuramos também conhecer o “cosmos” que trazemos dentro de nós: o que nos torna humanos, o que nos torna únicos, o que nos distingue da inteligência artificial... Poucos, todavia, parecem interessados em aprofundar o Mistério por excelência!

Os progressos espantosos das ciências, os nossos conhecimentos sobre a origem e a expansão do universo, sobre a evolução e sobre as leis que fizeram acender a centelha da vida, suscitam assombro e maravilha. Apesar de tudo, porém, o sentido do infinito e o significado profundo da vida parecem escapar-nos, inapreensíveis. Parecem remeter-nos sempre... para mais além! Nós próprios continuamos a ser um enigma para nós mesmos. Ao crente ocorre espontaneamente pensar: não será talvez que só o conhecimento de Deus e do seu Mistério nos pode oferecer a chave da existência?

Eis como fala dele o teólogo Paolo Scquizzato:
“Deus-Trindade, o Mistério insondável, quem sabe, talvez seja o Fundo do ser, a criatividade do Universo, a Beleza do belo, a Bondade do bem, a Vida dos viventes, a Informação do Cosmos, a Alma do mundo, a Consciência do Universo, a ternura dos amantes, o Fermento da matéria, o Amor que me pede, a cada instante, que me exprima plenamente e que apreenda a sacralidade de tudo o que existe”.

Uma mudança de direção: de dentro para fora

“O amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”, afirma São Paulo na carta aos Romanos (5,5). Falamos habitualmente de “seguir Jesus”, de ir atrás dele. É a perspetiva dos Evangelhos sinóticos: Marcos, Mateus e Lucas. Todavia, São João e sobretudo São Paulo preferem falar de Cristo e de Deus “em nós”: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gálatas 2,20). Cristo habita Paulo, anima-o, transforma-o.

Talvez não tenhamos aprofundado suficientemente esta dimensão. Não é preciso procurar Deus sabe-se lá onde, fora de nós. Ele está no íntimo de cada um, no núcleo mais profundo, lá onde recebemos o nosso ser do amor de Deus. Jesus vem ao nosso encontro “de dentro para fora”, diz o beato João de Ruusbroec, místico medieval. Nós estamos naturalmente voltados para o exterior; Ele, pelo contrário, está dentro. Esta maravilhosa realidade faz Santo Agostinho exclamar, com assombro: “Tu eras mais íntimo a mim do que eu mesmo e mais alto do que há em mim de mais alto”. Deus está escondido no nosso coração. Aí encontramos a fonte da dignidade da nossa humanidade.

Como concluir a nossa reflexão?

Os cristãos não são aqueles que creem simplesmente em Deus criador do céu e da terra, um Deus eterno e omnipotente. De um tal Deus poderíamos ter medo. Poderíamos respeitá-lo, mas não amá-lo. Poderíamos desconfiar dele e vê-lo como uma ameaça à nossa liberdade. Os cristãos, pelo contrário, definem-se assim: “Nós acreditámos no amor que Deus tem por nós” (1João 4,16). Um tal Deus podemos amá-lo. De um tal Deus podemos confiar e a Ele podemos abandonar-nos!

Proposta de oração para a semana:

Trindade eterna, és como um mar profundo, no qual quanto mais procuro, mais encontro; e quanto mais encontro, mais cresce a sede de Te procurar. Tu és insaciável; e a alma, saciando-se no teu abismo, não se sacia, porque permanece na fome de Ti, cada vez mais Te deseja, ó Trindade eterna, desejando ver-Te com a luz da tua luz.” (Santa Catarina de Sena)

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

p.mjoao@gmail.com

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Onde e quando é a vida eterna? - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

Onde e quando é

a vida eterna?

1

Lembro-me perfeitamente. Eu estava em

Tubinga, Alemanha, quando, pela manhã,

fui surpreendido por este título na primeira

página do jornal: “O Presidente visita o

Filósofo”.

François Mitterand fora falar com o

filósofo Jean Guitton a sua casa, para

perguntar-lhe o que é a morte. “Qual é a

última barreira?” “Senhor Presidente, é

muito simples. A última barreira é a morte”.

“Mas... e depois da morte?” “Depois da

morte é o que se chama o Além”. “Mas o

que é o Além?” Aí, o conhecido filósofo

2

católico, discípulo de Bergson, amigo de

Paulo VI, observador no Concílio Vaticano

II, respondeu que não sabia; precisamente

“porque é o Além”.

Outro grande filósofo do século XX,

Ernst Bloch, o filósofo ateu da esperança,

deixou escrito que “o cristianismo, na

concorrência com outros profetas da

imortalidade e da sobrevivência, venceu em

grande parte graças à proclamação de

Cristo: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida’. No

século primeiro depois do acontecimento do

Gólgota, a ressurreição foi referida ao

Gólgota de uma forma inteiramente pessoal,

de tal modo que pelo baptismo na morte de

Cristo se experiencia a ressurreição com ele.

Imperava então um desespero apaixonado,

que hoje nos parece incompreensível.” De

facto, hoje, face ao Além e à vida eterna, o

que parece estar em vigência é a

indiferença. Mas Bloch prevenia: “nada

3

impede que dentro de 50 ou 100 anos volte

essa neurose ou psicose de angústia da

morte, de tipo metafísico, com a pergunta

radical: para quê o esforço da nossa

existência, se morremos completamente,

vamos para a cova e, em última instância,

não nos resta nada?”

Outro filósofo marxista, B. Bosnjak,

contemporâneo de Bloch, também escreveu:

“Determinadas formas de religião podem

deixar de existir. Mas, como antítese da

morte, quer dizer, como aspiração de

eternidade, a religião pode sempre tornar a

renascer. De facto, encontramo-nos perante

o maior dos mistérios: não sabemos porque

é que existe alguma coisa em vez do nada”.

Já São Paulo tinha proclamado que, se

Cristo não ressuscitou, é vã a fé dos cristãos.

Mas, há relativamente poucos anos,

precisamente em tempos de Páscoa –

celebração da morte e da ressurreição de

4

Jesus – andaram os média alarmados por

causa de um filme de James Cameron, The

Lost Tomb of Jesus, com um documentário

sobre uma descoberta arqueológica de 1980

em Jerusalém: dez ossários, seis dos quais

com nomes decisivos do Novo Testamento

e supostamente ligados à família de Jesus:

Jesus, filho de José; Maria; José; Mariamme

(Maria Madalena?); Judas, filho de Jesus;

Mateus. Encontrado o corpo de Jesus,

afundar-se-ia o edifício da Igreja cristã,

assente precisamente na ressurreição!

A maior parte dos arqueólogos e

investigadores veio dizer que a afirmação

de que se tinha encontrado o túmulo da

família de Jesus era um disparate ridículo.

No entanto, as pessoas gostam do esotérico

e do escândalo.

Vamos, porém, supor que um dia se

demonstrava que se tinha encontrado os

restos mortais de Jesus. Então?

5

Lembro-me de, ainda jovem estudante,

ter dito a um professor jesuíta, holandês, da

Universidade Gregoriana de Roma, que, se

viessem a encontrar os restos do cadáver de

Jesus, a fé cristã continuaria inabalável. Ele

ficou surpreendido com a minha ousadia,

mas remeteu-me para o famoso Lexikon für

Theologie und Kirche onde se defendia essa

posição.

É evidente que a ressurreição nada tem a

ver com a reanimação do cadáver, pois, se

fosse isso, a pessoa voltaria a morrer. A

ressurreição é a afirmação de fé, com razões,

de que Jesus, na morte, não soçobrou no

nada, mas foi encontrado pela plenitude do

mistério inominável de Deus.

O que é e como é esse encontro ninguém

sabe – a ultimidade transcende a razão

científica, empírico-matemática. Mas

aqueles que acreditam em Deus, o Vivente,

que é Amor, Criador de todas as coisas,

6

Fundamento e Sentido último de tudo

quanto existe, fazem suas aquelas palavras

que, noutro contexto, Espinosa deixou:

“sabemos e experienciamos que somos

eternos”.

Ainda neste contexto, permito-me citar,

mais uma vez, Herbert Haag, o grande

amigo e talvez o maior exegeta do século

XX. Para um dos últimos encontros, levei

uma pergunta que alguém me pediu para

lhe fazer: se acreditava na vida para lá da

morte. E ele, textualmente: “Diga-lhe que

sim. Eu creio na vida para lá da morte.

Como é ninguém sabe.”

A vida eterna é só depois da morte?

Quem não viveu na superfície das coisas,

quem perguntou até à raiz de tudo, quem

se exaltou indizivelmente com o fulgor da

beleza, quem criou uma obra, um filho,

quem alguma vez teve um gesto

absolutamente gratuito de amor, quem se

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deixou surpreender pelo abismo in-finito do

olhar de alguém, quem teve a graça de

banquetes felizes com familiares e amigos,

aqueles amigos que levamos no coração,

quem fruiu exaltadamente de concertos

musicais, inolvidáveis, pois continuam a

morar connosco, quem tentou descer até ao

fundo sem fundo de si, quem foi abalado

pela exigência incondicionada do dever a

ponto de preferir ser morto a matar, quem

se deixou amorosamente tocar por um tu

que não se possui nem domina, quem foi

alguma vez avassaladoramente visitado

pela pergunta inconstruível: “porque há

algo e não nada?”, quem se deixou

confrontar com a vida de Jesus e o seu

Evangelho por palavras e obras, sem se

acobardar sabendo que acabaria por ser

julgado e condenado à morte, e morte de

cruz, por aqueles a quem a sua Mensagem

não interessava, pelo contrário —

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representantes do Templo e do Império —,

foi, é, tangido pela fímbria da eternidade...

Então, onde e quando é a vida eterna?

Aqui e agora, no Aberto. Sem esquecer os

horrores do mundo.

Sábado, 23 de Maio de 2026