segunda-feira, 16 de março de 2026

Optimismo e pessimismo: a ambiguidade do mundo e a religião - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

Optimismo e pessimismo:
a ambiguidade do mundo e a religião


Foi Leibniz que, numa obra célebre
Teodiceia -, na qual, perante a existência do mal,
queria defender e justificar Deus, se apresentou
como arauto do optimismo. O nosso mundo é o
melhor dos mundos possíveis.

Leibniz era um cristão convicto e, portanto,
entre os mundos possíveis, Deus tinha de ter
criado o melhor. De facto, se este nosso mundo
criado não fosse o melhor, haveria a
possibilidade de outro melhor, o que significaria
que ou Deus não tinha conhecido esse mundo
melhor ou não o tinha querido ou não tinha
podido criá-lo, o que contradiz a sua
omnisciência, a sua bondade infinita e a sua
omnipotência.

O terramoto de Lisboa em 1755 tornava
impossível a manutenção de ideias optimistas.
Voltaire escreveria o famoso “Poema sobre o
desastre de Lisboa”, onde pede aos filósofos
enganados que venham ver as mulheres e as
crianças empilhadas umas sobre as outras, todos
esses desgraçados enterrados debaixo dos seus
tectos, terminando os seus dias no horror dos
tormentos.

Voltaire escreveu também o Cândido, onde
escalpeliza a ideia de que tudo contribui para o
melhor. O optimismo de Pangloss e a candura
de Cândido vêem-se confrontados com a
realidade bruta do mal: as desgraças humanas
causadas pelas catástrofes naturais, pela
estupidez humana, pelas instituições, pelas
guerras, pela avareza, pela superstição, pela
escravatura, pela hipocrisia, pelo tédio, por todo
o tipo de exploração.
Se, para Leibniz, o nosso é o melhor dos
mundos possíveis, para Arthur Schopenhauer, é
precisamente o contrário: este é o pior dos
mundos possíveis. Existir é sofrer.

Segundo Schopenhauer, o mundo na sua
realidade última é vontade , em última
análise, vontade cega. Tudo é impulsionado pela
vontade de viver, uma vontade infinita nunca
saciada, de tal modo que os nossos impulsos e
desejos nunca encontram satisfação. O
optimismo não passa de escárnio frente à dor
sem fim nem limites da humanidade.

Schopenhauer acompanha-nos pelos
hospitais, pelas cadeias, pela selva (pensa-se
pouco na dor dos animais), pelos campos de
batalha, pelos matadouros, pelas câmaras de
tortura, por todas as moradas dos horrores e da
miséria. A necessidade é o açoute permanente
dos humanos, mas, quando a satisfazem, entram
no tédio e desejam outra coisa a vida é como
um pêndulo entre a dor e o tédio. No fim, o
destino é a solidão atroz, pois cada um, no mais
profundo, está sempre sozinho. Depois, é a
morte.
Devemos ser optimistas ou pessimistas? O
mundo tal como se nos apresenta exige o
optimismo ou a única atitude razoável é o
pessimismo? O optimismo celebra o óptimo, que
é o superlativo absoluto simples de bom. O
pessimismo deixa-se derrotar pelo péssimo, que
é o superlativo absoluto simples de mau.

Mas o mundo nem é óptimo nem é péssimo.
O mundo é ambíguo, uma mistura de bem e de
mal. E nele fazemos experiências negativas de
contraste: deparamo-nos com a negatividade,
mas sempre como aquilo que não devia ser, isto
é, em confronto com a positividade. Isto
significa que nos vivemos a nós mesmos no
mundo na perplexidade. O mundo não nos
aparece como completamente absurdo e, por
isso, perguntamos, à procura de um sentido, de
sentido último.

A própria Bíblia, que é toda atravessada
pela esperança, não é de modo nenhum ingénua
nem ignora o horror do mundo. O livro de Job é
paradigmático. Job, inocente, açoitado pela
desgraça, ousa erguer a voz em quase blasfémia,
quer levar Deus a tribunal e chega a amaldiçoar
ter nascido: “Job tomou a palavra e disse:
‘Desapareça o dia em que nasci e a noite em que
foi dito: ‘Foi concebido um varão!’ Porque não
morri no seio da minha mãe? Por que razão foi
dada luz ao infeliz e vida àqueles para quem só
há amargura? Esses esperam a morte que não
vem e procuram mais do que um tesouro; esses
saltariam de júbilo e se alegrariam por chegar ao
sepulcro.”

De qualquer modo, no meio de uma história
de calvário, a Bíblia é uma gritaria por
liberdade, salvação e sentido.

Num mundo comum ambíguo, onde há bem
e há mal, um lugar para o espanto positivo e o
espanto negativo, para horas de exaltação sem
nome e para horrores de abismo sem fim, o ser
humano, pela sua própria natureza o ser da
pergunta, é inevitavelmente confrontado, de
pergunta em pergunta, com a pergunta pelo
Fundamento último e do Sentido último, isto é,
a pergunta por Deus.

Assim, neste enquadramento, como
escreveu o eminente teólogo, meu querido
amigo, Andrés Torres Queiruga, estamos
confrontados com a religião e, na estrutura
íntima do processo religioso, “não se interpreta
o mundo de uma determinada maneira porque
se é crente ou ateu, mas é-se crente ou ateu
porque a fé ou a não crença aparecem ao crente
e ao ateu, respectivamente, como a melhor
maneira de interpretar o mundo comum.”
Evidentemente, também se poderá ser
agnóstico.

Sábado, 14 de Março de 2026