sábado, 28 de março de 2026

O Calvário do mundo - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 rónicas PÁRA E PENSA

O Calvário do mundo


Jürgen Moltmann, um dos maiores

teólogos do século XX, teólogo protestante,

escreveu que, na juventude, feito

prisioneiro, na Segunda Guerra Mundial,

embora não sendo particularmente crente e

o que mais lhe apetecesse era comida, o que

o capelão lhe ofereceu foi o Novo

Testamento. Leu-o e, a partir da experiência

dramática por que estava a passar por causa

do Nazismo, percebeu que ou Deus não

existe mesmo ou então o Deus verdadeiro é

o que se revela em Jesus Cristo pregado na

cruz para dar testemunho da verdade e do

amor incondicional. E foi dessa experiência

que partiu para o estudo da Teologia, tendo

escrito obras que a marcaram no século XX:

O Deus crucificado e Teologia da esperança,

entre outras.

Na altura, com o terramoto de Lisboa,

aconteceu um sismo no pensamento

europeu, que abalou os grandes

intelectuais. A famosa Teodiceia de Leibniz

afundava-se. Como é que este podia ser o

melhor dos mundos possíveis? E como

pode a razão finita justificar Deus frente ao

mal, pois é isso que pretende a teodiceia? O

mal físico talvez seja explicável; mas como

compreender o mal moral? Porque é que

não somos sempre bons e, pelo contrário,

criamos infernos de desumanidade? Há

aquele enigma que amargurava São Paulo:

“Ai de mim, que sou um homem

desgraçado, pois faço o mal que não quero e

não faço o bem que quero!”

A brutalidade do mal, que nos faz gritar

e nos esvazia a capacidade de pensar, tem

uma expressão terrível num passo célebre

de Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski,

quando Ivan refere a tortura exercida sobre

as crianças. Ele conta a história

estarrecedora de um menino de oito anos

que, um dia, quando se divertia a

arremessar pedras, feriu na pata um dos

cães favoritos de um antigo general, tendo,

por isso, de passar a noite na masmorra. No

dia seguinte, arrancado à mãe e

completamente nu, é obrigado a correr.

Como se de caça se tratasse, o general lança

sobre o miúdo toda a matilha, perante o

olhar aterrorizado e impotente da mãe.

Ivan diz que precisa de uma

compensação, pois de outra forma destruir-

se-á. Mas quer que ela seja aqui em baixo,

“uma compensação que eu veja”.

Ele quer estar presente, “quando todos

souberem o porquê das coisas.” Mas como

compreender qual possa ser o papel das

crianças que sofrem para concorrerem para

a harmonia eterna futura? “Compreendo a

solidariedade do pecado e do castigo, mas

não se pode aplicá-la aos inocentes”, diz.

No final da História, Deus revelará os

seus desígnios, e tudo ficará iluminado.

Ivan, porém, recusa-se a aceitar essa

harmonia superior, uma vez que não

elimina o horror do sofrimento das crianças.

“Acho que não vale uma lágrima de

criança”. Ele não quer, portanto, entrar

nessa harmonia última, pois o seu preço é

exagerado. “Acho melhor devolver o

bilhete... E é o que eu faço. Não me nego a

admitir Deus, mas devolvo-lhe

respeitosamente o meu bilhete.”

O mal é o espinho cravado na fé do

crente. Perante o horror do mundo e face à

morte, não se sabe quantos homens e

mulheres, se fosse possível escolher vir ou

não à existência – claro, é um pensamento-

limite e absurdo --, teriam escolhido existir.

Quem algum dia foi a Auschwitz fica

estarrecido, mudo, sem palavras. O Papa

Francisco também lá esteve, caminhou

sozinho, sem dizer uma única palavra. Ali, é

o horror pura e simplesmente. Mas também

houve generosidades puras e quem

caminhasse para as câmaras de gás com

uma oração nos lábios.

Quem nega Deus também é confrontado

com a pergunta dilacerante do mal. E é

necessário tomar a sério o ateu e a sua

convicção. Ignacio Sotelo, o filósofo

espanhol agnóstico, escreveu numa troca de

cartas com o teólogo González Faus: “a vida

é uma luta que, por muito que nos

esforcemos, está perdida à partida –

desapareceremos no nada e os verdugos

continuarão a dominar – e, no entanto,

sustenta-nos a convicção de que não

podemos abandonar o combate sem nos

aniquilarmos a nós mesmos. Viver é lutar

pela justiça, sabendo que a batalha está

perdida à partida e que não podemos

abandonar o combate.”

O crente que sabe o que quer dizer a fé

participa no mesmo combate pela justiça.

Mas ousa entregar-se confiadamente ao

Mistério último. A História do mundo é um

processo que ainda não transitou em

julgado, e o crente confia, sem ingenuidade

e convivendo com a dúvida, em que o juízo

definitivo será de salvação para todos.

Na Sexta-Feira Santa histórica de há

dois mil anos, Jesus, inocente e condenado

como blasfemo religioso e subversivo social

e político, morreu a rezar esta pergunta in-

finita, que atravessa os séculos: “Meu Deus,

meu Deus, porque é que me abandonaste?”

Mas as suas últimas palavras foram de

esperança confiada no Mistério da Bondade

radical: “Pai, entrego-me nas tuas mãos”.

Sábado, 28 de Março de 2026

sábado, 21 de março de 2026

O ser humano: mistério para si mesmo - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 O ser humano:

mistério para si mesmo


A questão que o ser humano é para si

mesmo mostra-se paradoxal. Por um lado, é

inevitável: o abismo insuperável entre o

que espera e quer ser e o que realmente

alcança, obriga-o a perguntar: o que sou?

Que ser é esse que é entre ser e não ser e

que nunca é plenamente? Por outro lado, a

questão é insolúvel, porque, para conhecer-

se, o ser humano precisava de saltar para

fora de si em ordem a poder ver-se de fora,

objectivamente. Ora, precisamente este salto

é impossível.

Depois, o ser humano vive-se a si mesmo

em processo e em tensão. E são muitas as

suas tensões. Lá está sempre a pulsão e a

lógica, a afectividade e o pensamento, o

inconsciente e o consciente, a emoção e o

cálculo, o impulso e a razão. Aliás, essa

tensão inscreve-se numa base

neurofisiológica — há o cérebro que

funciona holisticamente, mas com três

níveis: o paleocérebro, o cérebro arcaico,

reptiliano, o mesocéfalo, o cérebro da

afectividade, e o córtex com o neocórtex, em

conexão com as capacidades lógico-

racionais. Não é sabido, até por experiência

própria, que muitas vezes as respostas

emocionais escapam ao controlo racional

por causa do chamado “atalho neuronal” e

do “sequestro emocional”, como mostrou

Paul D. Mac Lean? De repente, demos uma

resposta a alguém de que depois nos

arrependemos, a pulsão sobrepôs-se à

razão...

É verdadeiramente paradoxal a

constituição humana. Somos constituídos e

vamo-nos constituindo a partir de uma

herança genética e de uma história, numa

determinada cultura em contacto com

tantas culturas. É próprio do ser humano

não ter uma natureza fixa e imóvel, porque

é histórico e cultural...

Somos afectivos e racionais. Ninguém

começa com a inquirição racional do

mundo. Primeiro, o ser humano sentiu o

mundo e foi afectado por ele, positiva ou

negativamente. É muito lentamente que a

razão se vai erguendo no seu uso teórico-

prático.

O ser humano é situado, sumamente

concreto: resulta daquele óvulo fecundado

por aquele espermatozóide, naquele

instante, e, sempre, com uma história

concreta — esta e não outra. Ao mesmo

tempo é aberto: ao presente, ao passado e ao

futuro, a todos os outros seres humanos, à

realidade toda, ao que há e ao que não há,

pois é também o ser da utopia e do sonho e

do ilimitadamente possível.

Por isso, é único. Nunca houve nem

haverá outro como eu. Lá está o grito de

Unamuno: “Cada um de nós é único e

insubstituível. Não há outro eu no mundo!

Não há outro eu! Havê-los-á mais velhos e

mais novos, melhores e piores, mas não

outro eu. Eu sou algo inteiramente novo. Eu

não quero deixar-me classificar, porque eu,

Miguel de Unamuno, como qualquer outro

homem que aspire à consciência plena, sou

espécie única”. Ao mesmo tempo, o ser

humano é relacional e, precisamente porque

é relação sem limites, aberto a tudo, vem a

si mesmo como único, pessoal e

comunitário.

Na gigantesca história do universo e da

evolução, sabemos que há ser humano,

quando aparecem rituais funerários. Como

os outros animais, o ser humano também

morre, mas, ao contrário dos outros, sabe

que é mortal e angustia-se com a morte. É

no confronto com a morte que o mistério se

adensa. Como é que com a morte se passa

de alguém — um eu único — a ninguém,

coisa cadavérica que apodrece? Nunca

esquecerei como no funeral da minha mãe,

quando o caixão descia à cova no cemitério,

a minha irmã se agarrou a mim com esta

pergunta: “Como é que a gente não

enlouquece...” E constituiu para mim um

profundo abalo a confissão do grande

teólogo José I. González Faus sobre o pai,

que lhe transmitiu a fé e que considerava

“uma grande personalidade”: “Terminou a

sua vida derrotado e duvidando de Deus

como quase todos os humanos.”

O ser humano sabe que é finito, mas essa

consciência da finitude é-lhe dada na

abertura ao Infinito. Esta abertura é

condição de possibilidade da consciência do

finito enquanto finito. É nela que se enraíza

a condição da pergunta religiosa enquanto

tal.

O ser humano é festivo e sério,

condicionado e livre, é homo sapiens e

também homo demens — sapiens sapiens e

demens demens (sapiente sapiente e demente

demente). E homo dolens (sofredor) e homo

sperans (esperante).

Precisamos de reflectir sobre nós

mesmos. Todos os dias, particularmente

nestes tempos de agitação constante e

barulho sem fim, devíamos consagrar

algum tempo à meditação.

É muito interessante a constatação do

vínculo entre meditação, medicina e

moderação. As três têm como étimo o

radical med.-, que dá origem ao verbo latino

mederi, que tem o sentido de medir, pensar,

curar, restabelecer o equilíbrio. Cá está! É

sempre a medida e a justeza que estão em

causa. Porque a saúde resulta do equilíbrio

e da harmonia. A moderação tem a ver com

a medida justa. A meditação é ponderação e

pesagem para o equilíbrio harmónico.

Precisamos de viver

reconciliados/reconciliadas, em harmonia.

Para evitar perigo maior, de que já falava D.

António Ferreira Gomes, o famoso bispo do

Porto: a agitação paralisante e a paralisia

agitante. Com a sequência de uma procissão

de indignidades e horrores...

Sábado, 21 de Março de 2026

segunda-feira, 16 de março de 2026

Optimismo e pessimismo: a ambiguidade do mundo e a religião - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

Optimismo e pessimismo:
a ambiguidade do mundo e a religião


Foi Leibniz que, numa obra célebre
Teodiceia -, na qual, perante a existência do mal,
queria defender e justificar Deus, se apresentou
como arauto do optimismo. O nosso mundo é o
melhor dos mundos possíveis.

Leibniz era um cristão convicto e, portanto,
entre os mundos possíveis, Deus tinha de ter
criado o melhor. De facto, se este nosso mundo
criado não fosse o melhor, haveria a
possibilidade de outro melhor, o que significaria
que ou Deus não tinha conhecido esse mundo
melhor ou não o tinha querido ou não tinha
podido criá-lo, o que contradiz a sua
omnisciência, a sua bondade infinita e a sua
omnipotência.

O terramoto de Lisboa em 1755 tornava
impossível a manutenção de ideias optimistas.
Voltaire escreveria o famoso “Poema sobre o
desastre de Lisboa”, onde pede aos filósofos
enganados que venham ver as mulheres e as
crianças empilhadas umas sobre as outras, todos
esses desgraçados enterrados debaixo dos seus
tectos, terminando os seus dias no horror dos
tormentos.

Voltaire escreveu também o Cândido, onde
escalpeliza a ideia de que tudo contribui para o
melhor. O optimismo de Pangloss e a candura
de Cândido vêem-se confrontados com a
realidade bruta do mal: as desgraças humanas
causadas pelas catástrofes naturais, pela
estupidez humana, pelas instituições, pelas
guerras, pela avareza, pela superstição, pela
escravatura, pela hipocrisia, pelo tédio, por todo
o tipo de exploração.
Se, para Leibniz, o nosso é o melhor dos
mundos possíveis, para Arthur Schopenhauer, é
precisamente o contrário: este é o pior dos
mundos possíveis. Existir é sofrer.

Segundo Schopenhauer, o mundo na sua
realidade última é vontade , em última
análise, vontade cega. Tudo é impulsionado pela
vontade de viver, uma vontade infinita nunca
saciada, de tal modo que os nossos impulsos e
desejos nunca encontram satisfação. O
optimismo não passa de escárnio frente à dor
sem fim nem limites da humanidade.

Schopenhauer acompanha-nos pelos
hospitais, pelas cadeias, pela selva (pensa-se
pouco na dor dos animais), pelos campos de
batalha, pelos matadouros, pelas câmaras de
tortura, por todas as moradas dos horrores e da
miséria. A necessidade é o açoute permanente
dos humanos, mas, quando a satisfazem, entram
no tédio e desejam outra coisa a vida é como
um pêndulo entre a dor e o tédio. No fim, o
destino é a solidão atroz, pois cada um, no mais
profundo, está sempre sozinho. Depois, é a
morte.
Devemos ser optimistas ou pessimistas? O
mundo tal como se nos apresenta exige o
optimismo ou a única atitude razoável é o
pessimismo? O optimismo celebra o óptimo, que
é o superlativo absoluto simples de bom. O
pessimismo deixa-se derrotar pelo péssimo, que
é o superlativo absoluto simples de mau.

Mas o mundo nem é óptimo nem é péssimo.
O mundo é ambíguo, uma mistura de bem e de
mal. E nele fazemos experiências negativas de
contraste: deparamo-nos com a negatividade,
mas sempre como aquilo que não devia ser, isto
é, em confronto com a positividade. Isto
significa que nos vivemos a nós mesmos no
mundo na perplexidade. O mundo não nos
aparece como completamente absurdo e, por
isso, perguntamos, à procura de um sentido, de
sentido último.

A própria Bíblia, que é toda atravessada
pela esperança, não é de modo nenhum ingénua
nem ignora o horror do mundo. O livro de Job é
paradigmático. Job, inocente, açoitado pela
desgraça, ousa erguer a voz em quase blasfémia,
quer levar Deus a tribunal e chega a amaldiçoar
ter nascido: “Job tomou a palavra e disse:
‘Desapareça o dia em que nasci e a noite em que
foi dito: ‘Foi concebido um varão!’ Porque não
morri no seio da minha mãe? Por que razão foi
dada luz ao infeliz e vida àqueles para quem só
há amargura? Esses esperam a morte que não
vem e procuram mais do que um tesouro; esses
saltariam de júbilo e se alegrariam por chegar ao
sepulcro.”

De qualquer modo, no meio de uma história
de calvário, a Bíblia é uma gritaria por
liberdade, salvação e sentido.

Num mundo comum ambíguo, onde há bem
e há mal, um lugar para o espanto positivo e o
espanto negativo, para horas de exaltação sem
nome e para horrores de abismo sem fim, o ser
humano, pela sua própria natureza o ser da
pergunta, é inevitavelmente confrontado, de
pergunta em pergunta, com a pergunta pelo
Fundamento último e do Sentido último, isto é,
a pergunta por Deus.

Assim, neste enquadramento, como
escreveu o eminente teólogo, meu querido
amigo, Andrés Torres Queiruga, estamos
confrontados com a religião e, na estrutura
íntima do processo religioso, “não se interpreta
o mundo de uma determinada maneira porque
se é crente ou ateu, mas é-se crente ou ateu
porque a fé ou a não crença aparecem ao crente
e ao ateu, respectivamente, como a melhor
maneira de interpretar o mundo comum.”
Evidentemente, também se poderá ser
agnóstico.

Sábado, 14 de Março de 2026