A
LITURGIA NÃO É UMA PEÇA DE MUSEU
1. Este
título foi tirado da última crónica. O subsecretário do Dicastério para o Culto
Divino e Disciplina dos Sacramentos (Santa Sé) destacou, em Braga, que a
Liturgia nunca pode ser vista como uma peça de museu, apelando a uma criatividade
na fidelidade para garantir a participação dos fiéis. A Igreja
entregou-nos a Liturgia, mas não é uma Liturgia monolítica, fossilizada, deve
ser uma Liturgia que muda de acordo com as necessidades dos fiéis. Nem
sempre se pensou e se viveu assim. Quando surgiram movimentos da sua renovação,
encontraram também, de formas diferentes, duras resistências organizadas
internacionalmente.
Quem era pela reforma teve de
enfrentar séculos de prática tridentina de celebrar em latim e de costas
para o povo. Isto não significa que a reforma do Vaticano II seja definitiva.
Como diz um poema de Camões, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades/
muda-se o ser, muda-se a confiança;/ todo o mundo é composto de mudança,/
tomando sempre novas qualidades.
Há um contraste: uns para
diante e outros para trás – para trás não há paz, diz Guimarães Rosa –, isto
é, os da renovação da liturgia do século XX e o movimento, em várias formas, do
retorno à Missa de Pio V, chamada Missa tridentina. Não é por acaso que o primeiro
documento do Vaticano II foi, precisamente, o da Liturgia, Sacrosanctum
Concilium. A posição dos conservadores era uma forma mais ampla de não
aceitar o Vaticano II. Isto era tão grave que o próprio Papa Paulo VI sentiu-se
na obrigação de excluir o movimento dos lefebvristas que proclamavam que eles é
que eram a verdadeira ortodoxia.
É curioso, para não dizer
trágico, como alguns cristãos demonstram uma sensibilidade litúrgica finíssima
para rubricas e idiomas mortos, mas uma surdez quase congénita para o grito
dos vivos, como diz Marco Luciano, pároco de Rabo de Peixe.
Para que a liturgia não seja
uma peça de museu, é preciso uma teologia de Cristo todo na vida toda e
não, apenas, nas celebrações. O Domingo é o primeiro dia da semana, o da
Ressurreição de Cristo. Muitos diziam que, na Eucaristia, se recolhiam os
frutos do Mistério Pascal. Mas esse mistério ficava situado num tempo de há 2
000 anos. Ora, o que aconteceu com Cristo há 2 000 anos atinge todos os
tempos e lugares. Cristo é nosso contemporâneo. A celebração é para nos
acordar para essa realidade. O caso português é extraordinário. Domingo, dia
do Senhor é o primeiro dia da semana, não é o fim de semana. Não é um
acontecimento que tenha ficado no passado. Por isso, S. Tomás de Aquino sustenta
que o Mistério Pascal não está arquivado: atinge todos os tempos e lugares[1].
Odo Casel (1886-1948), monge
beneditino da abadia de Maria Laach (Almanha), por causa da sua teologia do
Mistério, teve de enfrentar muitos adversários. Ele procurava fugir a um cristianismo reduzido a um código moral, a um credo, a
uma religiosidade cúltico-devocional. O cristianismo é mais do que uma
concepção da realidade com transfundo religioso, é um mistério. A
instrumentalização da celebração litúrgica como lugar para ensinar doutrina ou
para aumentar as disposições do fiel para cumprir normas morais é o desvio que
a Teologia do Mistério queria evitar. Tal corrente teológica pretende
colocar o fiel diante do mistério de Cristo para que ele possa participar da
comunhão da vida divina.
Odo Casel recorreu
a S. Tomás de Aquino para sustentar as suas posições. Foram alguns neo-tomistas
que lhe resistiram, mas ele tinha razão. A actuação humano-divina de Cristo
atinge todos os tempos e lugares. É o que dizem os textos da última parte da Suma
Teológica.
Há pessoas que dizem que não
vale a pena insistir nas festas litúrgicas mais marcantes porque serão sempre
mais do mesmo. A Redenção foi feita num tempo histórico que não volta
mais. Foi num tempo e num lugar, mas – como já foi referido – atinge todos os
tempos e lugares. A Páscoa está a
acontecer aqui e agora. Sabemos que passamos da morte à vida porque amamos os
irmãos[2].
2. O
Papa Francisco falou, há muito tempo, de que nos encontrávamos numa terceira
guerra mundial aos pedaços. As consequências de não se ter em conta os avisos
sobre a ameaça de desastres ecológicos estão à vista e não é preciso sair do
nosso país. Ora, todas estas situações devem ser assumidas pelo espírito desta
Quaresma.
Como
sustenta Viriato Soromenho-Marques, «o ambiente não é propriedade da física ou
da biologia, nem sequer das mais recentemente designadas ciências da Terra. O
ambiente só poderá ser compreendido em todas as suas implicações se mobilizar
os esforços de todos os domínios do conhecimento, da cultura e da organização
social, incluindo as ciências sociais e humanas»[3].
Em
regime cristão, está desaconselhada a exibição da virtude. Na Quarta-Feira de
Cinzas, o Evangelho de S. Mateus diz muito claramente: Tu, quando jejuares,
perfuma a cabeça e lava o rosto para que os outros não percebam que jejuas, mas
apenas o teu Pai que está presente no segredo[4].
Por
outro lado, o imperativo divino, sede santos, porque Eu, o Senhor, sou santo,
realiza-se em atitudes muito concretas, resumidas no mandamento: amarás o
teu próximo como a ti mesmo[5].
No Novo Testamento, tornar-se próximo é aproximar-se de quem precisa, só porque
precisa, seja qual for a sua nacionalidade, a sua religião ou o seu ateísmo[6].
Nietzsche
acusava os cristãos de andarem sempre com cara de Sexta-Feira Santa. Para que a
Igreja não se torne uma tristeza, tem de se lembrar que, segundo S. João, na
revelação de Jesus Cristo, tudo é para que a nossa alegria seja completa
na transfiguração do quotidiano.
Quem
entendeu e viveu, como ninguém, o evangelho da alegria foi São Filipe Neri
(1515-1595), o santo humorista, o meu santo, como lhe chamou o luterano
Goethe, e o santo da devoção do recentemente proclamado Doutor da Igreja,
cardeal Henry Newman (1801-1890).
3. O
Papa Leão XIV, na sua Mensagem da Quaresma, apontou três palavras para
caracterizar o que ela deve ser: Escutar a voz de Deus e do Mundo, Jejuar
das palavras ofensivas para estarmos mais Juntos uns dos outros. Destaco,
apenas, um fragmento desta Mensagem.
Entre
as muitas vozes que passam pela nossa vida pessoal e social, as Sagradas
Escrituras tornam-nos capazes de reconhecer aquela que surge do sofrimento e da
injustiça, para que não fique sem resposta. Entrar nesta disposição interior de
receptividade significa deixar-se instruir hoje por Deus para
escutar como Ele, até reconhecer que «a condição dos pobres
representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a
nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e económicos e,
sobretudo, a Igreja».
Se
estivermos atentos às várias dimensões da Quaresma, as nossas liturgias não
serão peças de museu. Serão a introdução do Reino da Alegria.