sábado, 20 de junho de 2026

O mistério do olhar - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

O mistério

do olhar


Não é dos olhos que se trata. O mistério é

o olhar. Um dia terão perguntado a Hegel o

que se manifesta e vê num olhar. E ele: “o

abismo do mundo”.

Num olhar, o que há é alguém que vem à

janela de si e nos visita. Também por isso,

para tornar alguém anónimo, venda-se-lhe

os olhos. Faz-se o mesmo a um condenado à

morte, porque é intolerável o seu olhar.

Até para nós próprios somos por vezes

terrivelmente estranhos. Quem nunca se

2

surpreendeu ao olhar para o seu próprio

olhar no espelho? “Quem é esse ou isso que

me vê, desde o abismo?”

Essa estranheza assalta-nos até no olhar

de um animal: um cão velho e abandonado

que nos olha não nos deixa indiferentes.

Mas é sobretudo o olhar de alguém que é

perturbador. Ele há o olhar triste. O olhar

meigo. O olhar arrogante. O olhar do terror.

O olhar da súplica. O olhar de gozo. O olhar

que baila num sorriso. O olhar concentrado.

O olhar disperso. O olhar da aceitação. O

olhar do desprezo. O olhar compassivo. O

olhar do desespero. O olhar sedutor. O

olhar envergonhado. Ah!, o olhar da

despedida final para sempre! O olhar

morto, que já não é olhar!

O olhar é a presença misteriosa de

alguém, que ao mesmo tempo se desvela e

se vela. Já ao nível do tal cão velho e

abandonado pode erguer-se o sobressalto

3

da pergunta: o que é e como é ser cão? Mas

é uma sensação de abismo, um belo dia,

precisamente perante o olhar de alguém,

ficarmos paralisados com a interrogação: o

que é ser alguém outro? Porque a outra

pessoa – o outro homem ou a outra mulher

– não é simplesmente outro eu, mas um eu

outro. Explicitando: o que é e como é ser o

Juan ou a Eunice, viver-se a si mesmo por

dentro como o Juan ou a Eunice? Nunca

saberei. E como é o mundo visto a partir

deles? E como é que ele ou ela me vêem? O

quê e quem sou eu realmente para eles, a

partir do seu olhar?

E como é que eu sei que há o outro, não

enquanto outro eu – ainda no

prolongamento de mim --, mas

precisamente como um eu outro, sujeito

inapreensível? Sartre teorizou que esse

saber é dado de modo indubitável no

sentimento da vergonha. E dá o exemplo de

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alguém que, num hotel, está, concentrado, a

espreitar pelo buraco da fechadura. Ouve

passos no corredor. Então, no sentimento

paralisante da vergonha, ao ficar

objectivado pelo olhar do outro a quem os

passos pertencem, sabe que há um sujeito

que não é ele. Ele é objecto para esse sujeito

que o vê: é visto.

Se a única ou a principal relação com o

outro fosse a da vergonha, não se aguentava

viver, porque “o inferno” seriam “os

outros”.

Seria insuportável estar sob a vigia de um

olhar omnipresente. Por isso, para

Nietzsche, o olhar de Deus é intolerável. Em

A Gaia Ciência, uma miúda pergunta à mãe:

“É verdade que Deus está em toda a

parte?”, respondendo ela própria: “eu

considero isso uma indecência.” Então, em

Assim Falava Zaratustra, escreve: o Deus que

objectiva o Homem “tinha de morrer,

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porque via com olhos que viam tudo. A sua

piedade desconhecia o pudor: ele metia-se

nos meus recantos mais sórdidos.”

Também Jean-Paul Sartre cortou relações

com Deus, o Todo-Poderoso, por causa do

seu olhar horrorosamente indiscreto. “Uma

só vez tive a sensação de que Ele existia.

Brincava com fósforos e queimava um

pequeno tapete; estava eu a dissimular o

meu crime quando, de súbito, Deus viu-me;

eu rodopiava na casa de banho,

horrivelmente visível, um alvo vivo.

Salvou-me a indignação. Blasfemei,

murmurei como o meu avô: ‘Maldito o

nome de Deus, nome de Deus, nome de

Deus’. Nunca mais Ele me contemplou.”

É certo que só vimos a nós pela mediação

do outro. Sem outros eus enquanto tus, não

há eu. Mas será que a única ou mesmo a

principal relação com o outro é a da

vergonha? Entre mim e o outro há uma

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tensão dialéctica: de distância e

proximidade. Afinal, a relação com o outro

pode ser de rivalidade ou de aliança, de

destruição ou de criação. Então,

precisamente no olhar do outro enquanto

próximo inobjectivável, irredutível, de que

não posso dispor, pode revelar-se o apelo

misterioso da proximidade infinita do Deus

infinitamente Outro, que é, como escreveu

Santo Agostinho, intimior intimo meo, , mais

íntimo a mim do que a minha maior

intimidade.

Sábado, 20 de Junho de 2026

Não tenhais medo! - P. Manuel João Pereira Correia mccj

 

Não tenhais medo!

Ano A – 12.º Domingo do Tempo Comum
Mateus 10,26-33: “Não tenhais medo!”

No domingo passado começámos a leitura do “discurso apostólico”, também chamado “discurso missionário”, apresentado no capítulo 10 do Evangelho de Mateus. A passagem evangélica introduziu-nos neste discurso com estas palavras: “Ao ver as multidões, encheu-se de compaixão por elas, porque andavam fatigadas e abatidas, como ovelhas sem pastor” (9,36). Jesus quis envolver os Doze na sua compaixão e decidiu enviá-los em missão. O Mestre deu-lhes as suas recomendações (10,5-25). A leitura litúrgica omite parte destas instruções por razões de brevidade, não porque elas não sejam atuais. Eram válidas para os apóstolos e para a Igreja primitiva, e continuam a sê-lo para nós hoje.

Jesus não esconde as dificuldades e os riscos de tal missão: “Eis que vos envio como ovelhas para o meio de lobos” (v. 16). São Mateus reúne aqui várias sentenças do Senhor sobre as exigências da missão e da vida do discípulo. Podemos imaginar qual poderá ter sido a reação dos apóstolos: o medo! Eis por que o Evangelho de hoje se articula em torno do triplo convite de Jesus: “Não tenhais medo!”.

1. De que lado estou: do lado da multidão ou dos discípulos?

Este segundo discurso de Jesus é inteiramente dirigido aos Doze: “Chamando a si os seus doze discípulos...”. De modo mais geral, podemos dizer que Jesus se dirige aos discípulos de todos os tempos. Por isso, seria oportuno perguntar-nos: sinto este discurso dirigido também a mim?

Duas categorias de pessoas seguem Jesus: a multidão e os discípulos. A multidão acompanha-o por simpatia: é atraída pelos seus prodígios e milagres, pela sua palavra e pelo seu ensinamento novo, pela sua personalidade livre e profética. O discípulo, pelo contrário, segue Jesus porque deseja escutar a sua palavra e partilhar o seu estilo de vida.

Em geral, todos nós começamos a vida cristã como multidão simpatizante. A certa altura, porém, o Senhor chama-nos a tornarmo-nos discípulos. Trata-se de nos separarmos da multidão para estarmos junto dele e, ao mesmo tempo, de nos comprometermos em favor da multidão, dos outros. A tentação é tornarmo-nos surdos e permanecer na multidão, isto é, simpatizar com os valores propostos por Cristo sem nos comprometermos demasiado. Perguntemo-nos, portanto: de que lado estou? Entre a multidão anónima ou no grupo dos discípulos?

2. Não tenhais medo!

O medo é um sentimento muito humano. Faz parte do instinto de sobrevivência e, portanto, é natural senti-lo. Mas ai de nós se ele se torna o princípio da nossa ação. Seria como avançar com o travão de mão puxado. O motor da vida, pelo contrário, é a confiança.

No nosso tempo, o medo é um dos sentimentos mais difundidos. E é também uma das maiores ameaças à fé cristã. O medo é a atitude de “uma alma encarcerada”, dizia o Papa Francisco. Eis por que a primeira palavra que Deus dirige ao ser humano quando o encontra é muitas vezes: “Não tenhas medo!”. Costuma dizer-se que, na Bíblia, este convite ressoa 365 vezes, um para cada dia do ano; segundo outros, até algumas vezes mais, para certas circunstâncias extraordinárias.

Jesus parece aludir a três medos em particular.

Não tenhais medo dos homens!”

O primeiro medo vem de dentro de nós. Muitas vezes nasce precisamente das exigências da própria mensagem: é o medo de sermos inadequados para a missão que Deus nos confia. Como posso testemunhar a minha fé se também eu tenho os meus momentos de dúvida? Se nem eu a vivo plenamente? Se tenho os meus limites e defeitos? Trata-se do medo de que nos sejam lançadas em rosto as nossas incoerências. Jesus, pelo contrário, convida-nos a anunciar a mensagem sem temor, em plena luz, sobre os terraços.

Para combater este medo, cultivemos a consciência de que não somos enviados ao acaso, mas estamos nas mãos do Espírito.

E não tenhais medo daqueles que matam o corpo”

O segundo medo é a morte. Trata-se do nosso medo radical. Para não termos de a enfrentar, ela tornou-se um assunto tabu na nossa sociedade. O carpe diem, “agarra o dia”, de Horácio — ou “aproveita o momento”, como hoje se prefere dizer — tornou-se a máxima de muitos. Mas só vencendo o medo da morte podemos apaixonar-nos pela beleza da vida e saborear cada momento.

Para vencer o medo da morte, não basta ignorá-la. É preciso enfrentá-la, reconciliando-nos com esta realidade, aceitando as pequenas “mortes” quotidianas e contemplando com serenidade o passar dos dias na ampulheta da vida. Mas, sobretudo, é necessário cultivar a esperança da vida eterna: o melhor ainda está para vir!

Não tenhais, pois, medo: vós valeis mais do que muitos pardais!”

O terceiro medo é o amanhã, o futuro. As exigências do discipulado muitas vezes tiram-nos aquelas seguranças humanas nas quais confiamos como garantias para o nosso amanhã. Noutro lugar, Jesus tinha dito: “Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã preocupar-se-á consigo mesmo. A cada dia basta a sua aflição” (6,34). Também aí tinha falado de pardais e de lírios. Não são simples imagens poéticas, mas expressões de uma grande ternura, aquela que a evocação do Pai desperta no coração de Jesus.

3. Reconhecer Cristo diante dos homens

A perícope evangélica termina com o convite a ter a coragem de reconhecer Cristo diante dos homens e com a sua severa advertência: “Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai”. É uma advertência que encontramos também noutros lugares do Novo Testamento. Numa época de perseguição, a Igreja tinha plena consciência deste risco. É a tentação à qual sucumbe São Pedro: “Não conheço esse homem!” (Mateus 26,74).

Este perigo é real, hoje mais do que nunca, quando um cristão em cada sete vive em contextos de perseguição. Também nós vivemos numa sociedade que frequentemente nos ridiculariza. Este tipo subtil de perseguição encontra-se agora até na família. O cristão que se propõe viver os valores evangélicos acaba por ir contra a corrente e, por mais que procure evitá-lo, mais cedo ou mais tarde depara-se com incompreensões e oposições.

Eis então um quarto medo, o medo bom, a cultivar: o temor de negar Cristo diante dos homens. Este medo coincide com o saudável temor de Deus de que Jesus falou antes.

Como cultivar este temor para não sucumbirmos à tentação de Pedro? Não bastam a prudência e a coragem; é necessária sobretudo a oração. É aquilo que pedimos ao Pai todos os dias: “E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”.

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ


P. Manuel João Pereira Correia mccj
p.mjoao@gmail.com

sábado, 13 de junho de 2026

O cérebro, o eu e a liberdade - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

O cérebro,

o eu e a liberdade


O que diz alguém, quando diz “eu”?

Afirma-se a si mesmo como sujeito, autor

das suas acções conscientes, centro pessoal

responsável por elas, alguém referido a si

mesmo, na abertura e em contraposição a

tudo.

Mas há observações perturbadoras. Por

exemplo, pode acontecer que alguém

adulto, ao olhar para si em miúdo, se veja

de fora, apontando como que para um

outro: aquele era eu, sou eu?

2

Há filósofos que se referem à ilusão do

eu. Certas interpretações do budismo

caminham nesta direcção. No quadro da

impermanência e da interdependência de

todas as coisas, fala-se da inexistência do eu,

do não-eu. Matthieu Ricard, investigador

em genética celular e monge budista, deu-

me, num congresso no Porto, um exemplo:

veja ali o rio Douro. O que é o rio Douro?

Onde está o rio Douro? Ele não existe como

substância, pois não há senão uma corrente

de água. Está a ver a consciência? O que é

ela senão um fluxo permanente de

pensamentos fugazes, de vivências? O eu

não passa de um nome para designar um

continuum, como nomeamos um rio.

Mas há a experiência vivida e

inexpugnável do eu, ainda que numa

identidade em transformação, que

continuamente se faz, desfaz e refaz. O que

se passa é que, não se tratando de uma

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realidade coisista, é inobjectivável e

inapreensível.

É e será sempre enigmático como

aparecem no mundo corpóreo o eu e a

consciência. É claro que o eu não pode ser

pensado à maneira de uma alma, um

homunculus, um observador dentro do

corpo – o fantasma dentro da máquina. Há,

portanto, uma correlação entre a consciência

e os processos cerebrais. Mas significa isto

que essa correlação é de causalidade, de tal

modo que haverá um dia uma explicação

neuronal adequada para os estados

espirituais? Ou, como já viu Leibniz e é

agora acentuado pelo filósofo Th. Nagel,

mesmo que, por exemplo, tivéssemos todos

os conhecimentos científicos sobre os

processos neuronais de um morcego, não

saberíamos o que é o mundo a partir do seu

ponto de vista? A questão é: como se passa

de acontecimentos eléctricos e químicos no

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cérebro – processos neuronais da ordem da

terceira pessoa – para a experiência

subjectiva na primeira pessoa?

Apesar de se não afastar por princípio a

possibilidade de se poder vir a dar essa

compreensão, o filósofo Colin McGinn

pensa que talvez nunca venhamos a

entender como é que a consciência surge

num mundo corporal, a partir de processos

físicos. Também o neurocientista W. Prinz

disse numa entrevista: “Os biólogos podem

explicar como funcionam a química e a

física do cérebro. Mas até agora ninguém

sabe como se chega à experiência do eu nem

como é que o cérebro é capaz de gerar

significados.”

E sou livre ou não? É claro que, como

escreve o filósofo M. Pauen, se as nossas

actividades espirituais se identificassem

com processos cerebrais, segundo leis

naturais, já se não poderia falar em

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liberdade – “as nossas acções seriam

determinadas não por nós, mas por aquelas

leis.”

Mas, afinal, quem age, quem é o autor

das minhas acções: o meu cérebro ou eu?

“Como não é a minha mão, mas eu, quem

esbofeteia esta ou aquela pessoa, não é o

meu cérebro, mas eu, quem decide. O facto

de eu pensar com o cérebro não significa

que seja o cérebro, e não eu, quem pensa”,

escreveu o filósofo Th. Buchheim.

Só existe liberdade, se há alguém capaz

de autodeterminação. A determinação por

um “eu”, segundo um juízo de valor, é que

faz com que uma acção seja livre e não puro

acaso ou enquadrada no determinismo das

leis naturais. Como disse P. Bieri — ver

citação na obra de Hans Küng: Der Anfang

aller Dinge (O princípio de todas as coisas)

—, “é inútil procurar na textura material de

um quadro o representado ou a sua beleza;

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é igualmente inútil procurar na mecânica

neurobiológica do cérebro a liberdade ou a

sua ausência. Ali, não há nem liberdade nem

falta de liberdade. Do ponto de vista lógico,

o cérebro não é o lugar adequado para esta

ideia. A vontade é livre, se se submete ao

nosso juízo sobre o que é adequado querer

em cada momento. A vontade carece de

liberdade, quando juízo e vontade seguem

caminhos divergentes.”

Como já aqui deixei escrito, a experiência

humana fundamental, quando se anda

minimamente atento, é esta: cada um é

dado a si mesmo, cada uma é dada a si

mesma; portanto, é dono de si, dona de si e,

assim, é responsável por si e pelos seus

actos, responde por si e por eles.

Sábado, 13 de Junho de 2026

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Da compaixão à missão! - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 

Da compaixão à missão!

Ano A – Tempo Comum – 11.º Domingo
Mateus 9,36–10,8: “Jesus, vendo as multidões, encheu-se de compaixão por elas”

Depois do caminho quaresmal e pascal e da celebração das grandes solenidades, regressamos ao Tempo Comum, durante o qual seremos acompanhados pelo Evangelho segundo São Mateus. Somos convidados a retomar a “normalidade” da nossa vida cristã, vivida no seguimento de Jesus.

O trecho evangélico de hoje introduz-nos no segundo dos cinco grandes discursos de Jesus apresentados pelo evangelista Mateus: o chamado “discurso da missão”, que ocupa o capítulo 10. O primeiro tinha sido o discurso programático pronunciado no monte das Bem-aventuranças, nos capítulos 5-7. Depois de ter “falado”, Jesus tinha “agido”, curando “todas as doenças e enfermidades” nos capítulos 8-9.

“Jesus, vendo as multidões, encheu-se de compaixão por elas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor.”

Este segundo discurso, como o primeiro, nasce de um olhar de Jesus que lhe toca profundamente o coração: um olhar de compaixão. Quanto gostaríamos também nós de sentir este olhar pousar sobre nós quando nos sentimos cansados, desanimados e perdidos!

E, no entanto, esse mesmo olhar continua a pousar sobre as multidões sofredoras de hoje, sobre cada homem e cada mulher, sobre cada um de nós. Por que duvidamos disso? Ter-se-á tornado míope o olhar de Jesus? Ter-se-á endurecido o seu coração?

Não corremos o risco de raciocinar como acontece em algumas tradições religiosas da África Ocidental, onde vivi a missão? Acredita-se num deus supremo, Mawu, mas imagina-se que ele esteja distante, retirado no céu para não ser incomodado pelos homens, depois de ter confiado a terra aos vodus, que a governariam a seu bel-prazer. Só que os nossos vodus têm nomes diferentes: riqueza, poder, fortuna, destino, má sorte…

Também algumas correntes do pensamento contemporâneo podem conduzir, na prática, a uma mentalidade semelhante. Pensemos, por exemplo, numa visão filosófica que concebe o Criador como isolado e alheio à sua criação. Também algumas formas extremas da teologia pós-teísta correm o risco de pôr em causa a encarnação e os princípios fundamentais da mensagem cristã.

Ó Jesus, nós te pedimos: cruza hoje o teu olhar com o nosso e cura a nossa maneira de olhar!

“Então disse aos seus discípulos: A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos!”

A messe é grande? Talvez Jesus se refira ao vasto campo ainda por semear? Não, ele fala precisamente de uma messe pronta para ser recolhida, mas que corre o risco de se perder por falta de trabalhadores.

E onde se encontraria essa messe? “Certamente não aqui, onde só cresce o joio!”, diria alguém. Às vezes perguntamo-nos até se ainda vale a pena pregar o Evangelho numa sociedade que parece não se importar minimamente com ele. Jesus, pelo contrário, com o seu olhar de compaixão, vê precisamente aqui uma messe abundante a recolher no seu celeiro.

Ó Jesus, dá-nos o teu olhar límpido, livre de preconceitos, profundo e solidário, capaz de reconhecer o bem “abundante” ainda hoje presente na nossa sociedade!

“Pedi, pois, ao senhor da messe que envie trabalhadores para a sua messe!”

Rezar pelas vocações? Isso sim! Mas por que razão o dono da messe se deixa tanto suplicar? Não vê ele mesmo que faltam agentes pastorais, apóstolos e missionários?

O Senhor, porém, convida-nos a rezar para que o nosso olhar mude e o nosso coração se torne semelhante ao seu. E depois… envia-nos a nós! Sim: ele não pensa apenas nos padres e nas religiosas; pensa em cada um de nós. E aqui a questão torna-se séria!

Senhor, torna o nosso ouvido sensível ao teu chamamento para trabalhar na tua vinha!

“Chamando a si os seus doze discípulos, deu-lhes poder sobre os espíritos impuros, para os expulsarem e para curarem todas as doenças e enfermidades.”

Eis que Jesus nos chama e nos prepara. Não nos envia desprevenidos diante de uma tarefa tão imensa. Trata-se, de facto, de combater os “espíritos impuros” que atormentam a nossa sociedade. São muitos: a guerra, a fome, a injustiça, a exploração, o consumismo… É preciso expulsá-los e mandá-los de volta para o inferno! Mas acreditamos realmente no poder que o Senhor nos confiou, na força do mesmo Espírito que atuava nele?

Trata-se, além disso, de curar “todas as doenças e enfermidades”, físicas e espirituais, porque o Senhor quer promover a plenitude da vida e a nossa autêntica liberdade. Mas atenção: nós mesmos somos curadores feridos, não imunes a estas enfermidades. Também nós somos marcados pelo egoísmo, pela inveja, pelo amor-próprio, pela indiferença, pelo medo, pela dúvida e pela violência.

Senhor, torna-nos mais audazes diante dos desafios do mundo de hoje. Torna-nos conscientes de que também nós somos feridos pela vida, mas, como dizia o Papa Francisco: “Pecadores sim, corruptos nunca!”

“Os nomes dos doze apóstolos são estes: primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão, o Cananeu, e Judas Iscariotes, aquele que depois o traiu.”

São doze. Representam as doze tribos de Israel e, portanto, a totalidade do povo de Deus. Apenas homens? Não se trata de uma intenção exclusivista por parte de Jesus: hoje estamos bem conscientes disso. O que conta, no relato evangélico, é a totalidade simbolizada pelo número doze.

Notemos, antes de mais, que são pessoas muito diferentes entre si, cada uma com as suas qualidades e defeitos. Certamente não eram já todos “santos e capazes”, como Comboni desejava que fossem os seus missionários. Não sei quantos deles, hoje, seriam considerados aptos para entrar no seminário! Isto recorda-nos que Jesus não procura pessoas perfeitas: procura-te a ti e a mim!

Notemos, além disso, que os apóstolos são nomeados aos pares. Não se trata apenas de um recurso mnemónico: significa que não somos franco-atiradores. Somos testemunhas sustentadas por uma comunidade e enviadas juntamente com outros.

Notemos, por fim, que na “fotografia de família” aparece uma figura embaraçosa: Judas. Porquê? É uma advertência: Judas pode representar cada um de nós!

“Estes são os Doze que Jesus enviou, dando-lhes esta ordem: Não sigais pelo caminho dos pagãos nem entreis nas cidades dos samaritanos; ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel.”

Ai de nós, Jesus envia-nos precisamente para o meio dos nossos, para os próximos, para os de casa. “Não foste tu mesmo, Jesus, que disseste que nenhum profeta é bem recebido na sua terra?” Eu preferiria ir para África!

“Pelo caminho, proclamai que o Reino dos Céus está próximo. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes de graça, dai de graça.”

Somos enviados a testemunhar, com o sorriso e a alegria, com a bondade e o perdão, que o Reino dos Céus está próximo!

Somos enviados a realizar prodígios: não necessariamente os mais clamorosos, mas os pequenos milagres quotidianos, gratuitos e muitas vezes despercebidos. São gestos de amor capazes de curar as feridas, de ressuscitar a esperança em alguém, de purificar as lepras da alma e de expulsar os demónios dos corações.

Boa missão!
P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

P. Manuel João Pereira Correia mccj
p.mjoao@gmail.com
https://comboni2000.org

sábado, 6 de junho de 2026

Somos livres? - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

Somos livres?

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia

Esta é a pergunta decisiva. De facto, se

não somos livres, o que se chama dignidade

humana pode ser uma convenção, mas não

tem fundamento real.

Mas quem nunca foi assaltado pela

pergunta: a minha vida teria podido ser

diferente? Para sabê-lo cientificamente, seria

preciso o que não é possível: repetir a vida

exactamente nas mesmas circunstâncias. Só

assim se verificaria se as “escolhas” se

repetiam nos mesmos termos ou não.

2

Não há dúvida de que a liberdade

humana é condicionada. Mas ela existe ou é

uma ilusão? Não vêm agora neurocientistas

dizer que, mediante dados da tomografia de

emissão de positrões e da ressonância

magnética nuclear funcional, se mostra que

afinal as nossas decisões são dirigidas por

processos neuronais inconscientes?

De qualquer modo, em 2004, destacados

neurocientistas também tornaram público

um “Manifesto sobre o presente e o futuro

da investigação do cérebro” – cito Hans

Küng, no seu Der Anfang aller Dinge (O

princípio de todas as coisas) --, revelando-se

prudentes no que toca às “grandes

perguntas”: “Como surgem a consciência e

a vivência do eu? Como se entrelaçam a

acção racional e a acção emocional? Que

valor se deve conceder à ideia de ‘livre

arbítrio’? Colocar já hoje as grandes

perguntas das neurociências é legítimo, mas

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pensar que terão resposta nos próximos dez

anos é muito pouco realista.” É preciso

continuar as investigações, no sentido de

perceber o nexo entre a mente e o cérebro.

“Mas nenhum progresso terminará num

triunfo do reducionismo neuronal. Mesmo

que alguma vez chegássemos a explicar a

totalidade dos processos neuronais

subjacentes à simpatia que o ser humano

pode sentir pelos seus congéneres, ao seu

enamoramento e à sua responsabilidade

moral, a autonomia da ‘perspectiva interna’

permaneceria intacta. Pois também uma

fuga de Bach não perde nada do seu

fascínio, quando se compreende com

exactidão como está construída.”

A liberdade não é desvinculável da

experiência subjectiva, da “perspectiva

interna”. Essa experiência é transcendental,

no sentido de que se afirma até na sua

negação. De facto, se tudo se movesse no

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quadro do determinismo total, como

surgiria o debate sobre a liberdade?

Essa experiência coloca-se concretamente

no campo da moral e da responsabilidade.

Neste contexto, há um célebre exercício

mental de Kant na Crítica da Razão Prática,

que é elucidativo e obriga a pensar.

Suponhamos que alguém, sob pena de

morte imediata, se vê confrontado com a

ordem de levantar um falso testemunho

contra uma pessoa que sabe ser inocente.

Nessas circunstâncias e por muito grande

que seja o seu amor à vida, pensará que é

possível resistir. “Talvez não se atreva a

assegurar que assim faria, no caso de isso

realmente acontecer; mas não terá outro

remédio senão aceitar sem hesitações que

tem essa possibilidade.” Existem as duas

possibilidades: resistir ou não. “Julga,

portanto, que é capaz de fazer algo, pois é

consciente de que deve moralmente fazê-lo

5

e, desse modo, descobre em si a liberdade

que, sem a lei moral, lhe teria passado

despercebida.”

O que confunde frequentemente o debate

é a falta de esclarecimento quanto ao que é

realmente a liberdade. Ela é a não

submissão à necessidade coactiva, externa e

interna, mas não pode, por outro lado, ser

confundida com a arbitrariedade e a pura

espontaneidade – não implica a

espontaneidade a necessidade?

A liberdade radica na experiência

originária do Homem como dom para si

mesmo. Paradoxalmente, é na abertura a

tudo, portanto, no horizonte da totalidade

do ser, que ele vem a si mesmo como eu

único e senhor de si. Então, agir livremente

é a capacidade de erguer-se acima dos

próprios interesses, para pôr-se no lugar do

outro e agir racionalmente.

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É preciso distinguir entre causas e

razões. Quando se age sob uma causalidade

constringente, não há liberdade. Ser livre é

propor-se ideais, deliberar e agir segundo

razões e argumentos, impondo limites aos

impulsos, inclinações e desejos, o que

mostra que o ser humano pode ser senhor

dos seus actos e, assim, responsável, isto é,

pode e deve responder por eles e por si.

Sábado, 6 de Junho de 2026

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Man hu? O que é isto? - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Man hu? O que é isto?

Ano A – Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
João 6,51-58: “Eu sou o pão vivo, descido do céu”

Sessenta dias depois da Páscoa, na quinta-feira seguinte à solenidade da Santíssima Trindade, a Igreja celebra a solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo — segundo o Missal de Paulo VI — chamada também festa do Corpus Christi, segundo o uso tradicional. Trata-se de uma das três quintas-feiras mais solenes do ano litúrgico: a Quinta-feira Santa, a quinta-feira da Ascensão e a quinta-feira do Corpus Christi. Por razões pastorais, em muitos países esta solenidade é transferida para o domingo seguinte à Santíssima Trindade. Embora o tempo pascal já tenha terminado, esta referência cronológica estabelece uma ligação profunda entre a festa do Corpus Christi, a Páscoa e a solenidade da Santíssima Trindade.

As origens desta festividade remontam ao século XIII. Nascida no contexto da piedade eucarística que se desenvolveu na Bélgica, em particular graças ao impulso de santa Juliana de Cornillon, foi estendida a toda a Igreja pelo papa Urbano IV em 1264. Neste caminho teve também grande importância o milagre eucarístico de Bolsena, ocorrido no ano anterior. Com estes sinais, o Senhor quis consolidar a fé da Igreja na sua presença real no sacramento da santa Eucaristia, precisamente em tempos em que alguns a punham em dúvida.

Os milagres eucarísticos são numerosos, muitos dos quais documentados ao longo dos séculos. São Carlo Acutis, adolescente falecido aos 15 anos (1991-2006), foi um entusiasta divulgador deles. Grande amante da Eucaristia, chamava-a “a autoestrada para o céu”.

1. “Recorda-te… Não te esqueças!”

A primeira palavra que ressoa aos nossos ouvidos nas leituras de hoje é: Recorda-te. “Recorda-te de todo o caminho que o Senhor, teu Deus, te fez percorrer durante estes quarenta anos no deserto” (Dt 8,2). É um convite extremamente oportuno e urgente para nós, mulheres e homens de uma geração muitas vezes inclinada a esquecer o passado, alienada no presente, desenraizada da história e, consequentemente, pouco atenta a um futuro que não tenha uma repercussão imediata.

Esta tendência cultural corre o risco de minar também a identidade cristã. Disse Nelson Mandela: “A memória é o tecido da identidade”. Um cristão, e uma comunidade cristã, que não cultivam a memória de Deus e das suas obras correm o risco de perder a própria identidade. Se o povo de Israel não fizesse memória do Deus libertador, seria tentado a voltar ao “Egito” e a recair numa nova escravidão. Eis por que Moisés, no Deuteronómio, insiste tanto no binómio escutar/recordar (cf. Dt 6,4-10.12; 8,2.14.18).

A Eucaristia é o nosso memorial por excelência: “Fazei isto em memória de mim. Todas as vezes, de facto, que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha” (cf. 1Cor 11,23-26). Diante de uma comunidade que celebra a Eucaristia sem que a memória aqueça o coração, há que perguntar se não terá “abandonado o seu primeiro amor” (Ap 2,4). Presos no presente, perde-se então o impulso para a espera do Senhor que vem. A invocação do Espírito e da esposa — “Vem!” — já não aflora aos nossos lábios (Ap 22,17). A esperança enfraquece e perde-se o sentido da vida cristã.

2. Um só pão, um só corpo

A segunda leitura sublinha a ligação profunda entre a Eucaristia, a Igreja e a comunidade: “Porque há um só pão, nós, embora muitos, somos um só corpo” (1Cor 10,16-17). A dimensão comunitária da Eucaristia foi particularmente evidenciada depois do Concílio Vaticano II: “Não é possível que se forme uma comunidade cristã se não [...] tendo como raiz e eixo a celebração da sagrada Eucaristia” (Presbyterorum Ordinis, 6).

Não sei até que ponto esta consciência foi assimilada pelas nossas assembleias litúrgicas, se olharmos apenas para a dispersão física dos fiéis nas nossas igrejas. Tem-se, por vezes, a impressão de que a Eucaristia ainda é, para alguns de nós, um “assunto individual”, uma espécie de “bem de consumo” espiritual.

Desde 13 de outubro de 2020, por causa da doença, não posso receber diretamente a comunhão no Corpo e no Sangue de Cristo. Celebrar todos os dias a santa Missa com os meus confrades levou-me a refletir mais profundamente sobre a dimensão comunitária da Eucaristia: um só Pão e um só Corpo. Este Corpo é a Igreja, é a comunidade. Cristo dá-se a todo o Corpo. Os meus confrades são o corpo a que pertenço e que, também por mim, comunga do Corpo de Cristo. Isto vale para mim como para todos os cristãos que celebram a Eucaristia.

3. Maná, man hu? O que é isto?

O maná que alimentou o povo de Israel no deserto é figura da Eucaristia, o Pão essencial para a nossa sobrevivência. Tradicionalmente considera-se que o termo maná provém da pergunta man hu?, isto é: “O que é isto?”, que os israelitas se fizeram, cheios de espanto, ao vê-lo descer do céu.

Pois bem, Jesus diz-nos hoje: “Este é o pão descido do céu” (Jo 6,58). Ele é o verdadeiro maná. Os judeus que o escutavam ficaram escandalizados. Nós não — talvez, infelizmente! Damos tudo isto por adquirido. Mas até que ponto o levamos a sério?

Os olhos do corpo veem um pequeno e frágil pedaço de pão. Mas os olhos do coração, os olhos da fé, o que veem? É realmente necessário que nos interroguemos sobre isso. Não podemos subestimar a influência de uma mentalidade secularizada, muitas vezes alérgica à dimensão do mistério, nem a de uma visão redutora da Eucaristia, que corre o risco de obscurecer a sua presença real.

Que o Senhor abra os nossos olhos, como fez com os dois discípulos de Emaús, para que possamos reconhecê-lo no partir do Pão.

Exercício espiritual para a semana

  1. Antes de comungar, olha com espanto e maravilha para o Pão colocado na tua mão e pergunta-te: Man hu? O que é isto? E o Senhor te responderá: É o meu Corpo!
  2. Medita sobre estas perguntas provocadoras do papa Francisco:

“Se olharmos à nossa volta, percebemos que há tantas ofertas de alimento que não vêm do Senhor e que, aparentemente, satisfazem mais... Cada um de nós, hoje, pode perguntar-se: e eu? Onde quero comer? A que mesa quero alimentar-me? À mesa do Senhor? Ou sonho comer comidas saborosas, mas na escravidão? Além disso, cada um de nós pode perguntar-se: qual é a minha memória? A do Senhor que me salva ou a do alho e das cebolas da escravidão? Com que memória sacio eu a minha alma?” (19 de junho de 2014).

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

terça-feira, 2 de junho de 2026

O Homem: criado à imagem de Deus?- Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 O Homem:

criado à imagem de Deus?



Parece estender-se cada vez mais a

tentação de pensar que o Homem é um

animal entre outros. Se diferença houvesse,

não seria essencial e qualitativa, apenas de

grau.

Mas quem anda atento reconhecerá com

certeza que a diferença entre o Homem e os

outros animais não é apenas de grau, mas

essencial e qualitativa. Pelo menos, é

preciso manter a pergunta.

Também o Homem é corpo, mas um

corpo que fala e que diz eu. Ora, um corpo

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que produz sons duplamente articulados,

portanto, transportando sentido, é um

corpo que transcende a animalidade.

Que o ser humano não fica submerso na

instintividade da vida prova-o o facto de,

por exemplo, ao contrário do animal, no

domínio da sexualidade, ser capaz de pesar

razões, abster-se, pensar no que é melhor

para si e para o parceiro, ter inventado o

erotismo e também a pornografia, procurar

técnicas anticonceptivas... O ser humano é

dado a si mesmo como um eu único, senhor

de si, em autoposse... Aí está a liberdade, a

moralidade e, consequentemente, a

responsabilidade: como diz a palavra,

responde por si e pelos seus actos...

O Homem é capaz de renunciar à

satisfação imediata dos seus impulsos: é “o

asceta da vida”, escreveu o filósofo Max

Scheler. Por isso, é capaz de jejuar, e ergueu,

por exemplo, um edifício jurídico-penal,

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para evitar a vingança cega, dirimir

diferendos, não fazer justiça pelas próprias

mãos.

Quando vemos um animal sentado, de

olhos fechados, com a cabeça entre as mãos

ou encostada à mão direita, estamos em

presença de um ser humano que medita.

Está ensimesmado/a, entrou dentro de si

próprio/a, desceu à sua intimidade,

submerso/a na sua subjectividade pessoal.

O ser humano é consciente, mais:

autoconsciente, consciente de ser

consciente, autorreflexivo/a.

Não vivo longe de um aeroporto, e

reparo, quando passeio pela praia, como

cães da zona se põem a correr na areia, atrás

das sombras dos aviões que se apressam

para a pista. Cá está: o animal vive da

imediatidade dos instintos e o mundo para

ele é fundamentalmente um conjunto de

estímulos, que atraem ou repelem. O ser

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humano, ao contrário, dada a sua

capacidade de distanciação, vive no real: é

um “animal de realidades”, repetia o

filósofo Xavier Zubiri.

O Homem “começou a ser Homem

intentando criar beleza”, escreveu o filósofo

Pedro Laín Entralgo. O ser humano não

vive amarrado e encerrado na satisfação das

suas necessidades vitais. Ele transcende o

simplesmente biológico, criando cultura. E

vive do gratuito: cria e contempla a beleza,

pois é o ser “criativamente possuído pelo

fascinante esplendor do inútil” (George

Steiner). Para sobreviver, não precisava de

investigar na mecânica quântica. O que

ganha no tempo dedicado aos mortos? No

entanto, o tempo que gastamos inutilmente

com os mortos!...

Os animais também comunicam. Mas

nunca um animal fez perguntas. O Homem

é o animal que pergunta. E perguntar

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coloca-nos na perplexidade, pois implica ao

mesmo tempo saber e não saber. Se

perguntamos é porque não sabemos, mas

sobre aquilo de que nada sabemos não

perguntamos... Afinal, o que sabemos,

quando perguntamos? A pergunta nunca

acaba: de pergunta em pergunta vamos até

ao in-finito. No perguntar, o Homem revela

que é o ser do intervalo – entre o finito e o

Infinito – e que está ligado ao

Transcendente: perguntamos pelo

Fundamento e pelo Sentido último...

O Homem é um ser paradoxal. Somos

bípedes sanguinários, capazes de sadismo

feroz. Inventamos máquinas de guerra

brutal e instrumentos de tortura indizível.

Pilhamos, massacramos, somos de uma

ganância ilimitada, de uma vulgaridade

ridícula, de um materialismo rasteiro. No

entanto, como escreveu o agnóstico George

Steiner, “este mamífero desgraçado e

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perigoso gerou três ocupações, vícios ou

jogos de uma dignidade completamente

transcendente. São eles a música, a

matemática e o pensamento especulativo

(no qual incluo a poesia, cuja melhor

definição será música do pensamento).

Radiantemente inúteis, estas três

actividades são exclusivas dos homens e

das mulheres e aproximam-se tanto quanto

algo se pode aproximar da intuição

metafórica de que fomos realmente criados

à imagem de Deus.”

É por isso que, apesar dos avanços das

ciências humanas, da genética, das

neurociências, da IA, que devem ser

promovidos, permanecerá, íntegra, talvez

até mais intensa, a pergunta: o que é o

Homem? Quanto mais potente se torna o

império tecnológico mais urgente e

imperiosa se torna a reflexão sobre a pessoa

humana, a sua dignidade, os seus direitos

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— universais, inalienáveis, invioláveis... —

e, consequentemente, também os seus

deveres, para consigo e a humanidade

inteira, e o planeta Terra, a casa comum...

Aí está a importância histórica da

primeira encíclica de Leão XIV, sobre a

inteligência artificial, justamente com o

título Magnifica Humanitas (Magnífica

humanidade). O Papa, já a concluir a sua

apresentação — foi a primeira vez que um

Papa apresentou uma encíclica sua —, no

passado dia 25: “Não temamos a IA, mas

mantenhamos sempre presente a questão

humana. Não podemos ser negligentes com

os nossos instrumentos técnicos mais

avançados”.

Sábado, 30 de Maio de 2026