O Homem:
criado à imagem de Deus?
Parece estender-se cada vez mais a
tentação de pensar que o Homem é um
animal entre outros. Se diferença houvesse,
não seria essencial e qualitativa, apenas de
grau.
Mas quem anda atento reconhecerá com
certeza que a diferença entre o Homem e os
outros animais não é apenas de grau, mas
essencial e qualitativa. Pelo menos, é
preciso manter a pergunta.
Também o Homem é corpo, mas um
corpo que fala e que diz eu. Ora, um corpo
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que produz sons duplamente articulados,
portanto, transportando sentido, é um
corpo que transcende a animalidade.
Que o ser humano não fica submerso na
instintividade da vida prova-o o facto de,
por exemplo, ao contrário do animal, no
domínio da sexualidade, ser capaz de pesar
razões, abster-se, pensar no que é melhor
para si e para o parceiro, ter inventado o
erotismo e também a pornografia, procurar
técnicas anticonceptivas... O ser humano é
dado a si mesmo como um eu único, senhor
de si, em autoposse... Aí está a liberdade, a
moralidade e, consequentemente, a
responsabilidade: como diz a palavra,
responde por si e pelos seus actos...
O Homem é capaz de renunciar à
satisfação imediata dos seus impulsos: é “o
asceta da vida”, escreveu o filósofo Max
Scheler. Por isso, é capaz de jejuar, e ergueu,
por exemplo, um edifício jurídico-penal,
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para evitar a vingança cega, dirimir
diferendos, não fazer justiça pelas próprias
mãos.
Quando vemos um animal sentado, de
olhos fechados, com a cabeça entre as mãos
ou encostada à mão direita, estamos em
presença de um ser humano que medita.
Está ensimesmado/a, entrou dentro de si
próprio/a, desceu à sua intimidade,
submerso/a na sua subjectividade pessoal.
O ser humano é consciente, mais:
autoconsciente, consciente de ser
consciente, autorreflexivo/a.
Não vivo longe de um aeroporto, e
reparo, quando passeio pela praia, como
cães da zona se põem a correr na areia, atrás
das sombras dos aviões que se apressam
para a pista. Cá está: o animal vive da
imediatidade dos instintos e o mundo para
ele é fundamentalmente um conjunto de
estímulos, que atraem ou repelem. O ser
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humano, ao contrário, dada a sua
capacidade de distanciação, vive no real: é
um “animal de realidades”, repetia o
filósofo Xavier Zubiri.
O Homem “começou a ser Homem
intentando criar beleza”, escreveu o filósofo
Pedro Laín Entralgo. O ser humano não
vive amarrado e encerrado na satisfação das
suas necessidades vitais. Ele transcende o
simplesmente biológico, criando cultura. E
vive do gratuito: cria e contempla a beleza,
pois é o ser “criativamente possuído pelo
fascinante esplendor do inútil” (George
Steiner). Para sobreviver, não precisava de
investigar na mecânica quântica. O que
ganha no tempo dedicado aos mortos? No
entanto, o tempo que gastamos inutilmente
com os mortos!...
Os animais também comunicam. Mas
nunca um animal fez perguntas. O Homem
é o animal que pergunta. E perguntar
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coloca-nos na perplexidade, pois implica ao
mesmo tempo saber e não saber. Se
perguntamos é porque não sabemos, mas
sobre aquilo de que nada sabemos não
perguntamos... Afinal, o que sabemos,
quando perguntamos? A pergunta nunca
acaba: de pergunta em pergunta vamos até
ao in-finito. No perguntar, o Homem revela
que é o ser do intervalo – entre o finito e o
Infinito – e que está ligado ao
Transcendente: perguntamos pelo
Fundamento e pelo Sentido último...
O Homem é um ser paradoxal. Somos
bípedes sanguinários, capazes de sadismo
feroz. Inventamos máquinas de guerra
brutal e instrumentos de tortura indizível.
Pilhamos, massacramos, somos de uma
ganância ilimitada, de uma vulgaridade
ridícula, de um materialismo rasteiro. No
entanto, como escreveu o agnóstico George
Steiner, “este mamífero desgraçado e
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perigoso gerou três ocupações, vícios ou
jogos de uma dignidade completamente
transcendente. São eles a música, a
matemática e o pensamento especulativo
(no qual incluo a poesia, cuja melhor
definição será música do pensamento).
Radiantemente inúteis, estas três
actividades são exclusivas dos homens e
das mulheres e aproximam-se tanto quanto
algo se pode aproximar da intuição
metafórica de que fomos realmente criados
à imagem de Deus.”
É por isso que, apesar dos avanços das
ciências humanas, da genética, das
neurociências, da IA, que devem ser
promovidos, permanecerá, íntegra, talvez
até mais intensa, a pergunta: o que é o
Homem? Quanto mais potente se torna o
império tecnológico mais urgente e
imperiosa se torna a reflexão sobre a pessoa
humana, a sua dignidade, os seus direitos
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— universais, inalienáveis, invioláveis... —
e, consequentemente, também os seus
deveres, para consigo e a humanidade
inteira, e o planeta Terra, a casa comum...
Aí está a importância histórica da
primeira encíclica de Leão XIV, sobre a
inteligência artificial, justamente com o
título Magnifica Humanitas (Magnífica
humanidade). O Papa, já a concluir a sua
apresentação — foi a primeira vez que um
Papa apresentou uma encíclica sua —, no
passado dia 25: “Não temamos a IA, mas
mantenhamos sempre presente a questão
humana. Não podemos ser negligentes com
os nossos instrumentos técnicos mais
avançados”.
Sábado, 30 de Maio de 2026