domingo, 25 de outubro de 2026

Fora do amor não há salvação! - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Ano A – 30.º Domingo do Tempo Comum

Mateus 22,34-40: «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?»

No domingo passado, assistimos a uma disputa entre Jesus e os fariseus, aliados aos herodianos, que tinham procurado armar-lhe uma cilada a propósito do imposto a pagar a César. O Evangelho deste domingo apresenta-nos outra controvérsia, uma vez mais com os fariseus.

A) Uma pergunta inocente e pertinente?

A controvérsia de hoje incide sobre uma questão teológica: «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?». Quem faz a pergunta é um doutor da Lei, um especialista na Torá, um teólogo, por assim dizer, que intervém para pôr à prova a ortodoxia de Jesus.

Mas onde está a cilada desta vez?

A pergunta parece inocente e pertinente. Com efeito, com a intenção de regular todos os aspetos da vida segundo a vontade de Deus, a tradição rabínica tinha identificado na Torá — o Pentateuco, isto é, os primeiros cinco livros da Bíblia — nada menos do que 613 preceitos, incluindo os dez mandamentos.

Segundo uma tradição referida no Talmude, estes preceitos dividiam-se em 365 negativos, isto é, proibições — coisas a não fazer —, correspondentes aos dias do ano solar, e 248 positivos, isto é, prescrições — coisas a fazer —, correspondentes aos membros do corpo humano, segundo a conceção antiga. Um simbolismo sugestivo: cada dia do ano e cada parte do corpo eram chamados a observar a vontade de Deus!

Nesta densa rede de preceitos, sentia-se, porém, a necessidade de discernir o essencial.

A tentativa de estabelecer uma hierarquia entre os mandamentos não era pacífica. No judaísmo da época existiam diferentes sensibilidades interpretativas. Era célebre o confronto entre as escolas de dois grandes mestres, Hillel e Shammai, que viveram entre o século I a.C. e o século I d.C.

A escola de Hillel, geralmente mais aberta e conciliadora, privilegiava uma leitura da Lei atenta à misericórdia e às relações humanas. A Hillel é atribuída esta célebre síntese: «O que te é odioso, não o faças ao teu próximo. Esta é toda a Torá; o resto é comentário» (Talmude Babilónico). A escola de Shammai, pelo contrário, era geralmente mais rigorosa na interpretação e aplicação dos preceitos.

Mas, se a pergunta era pertinente, onde estava a armadilha?

Na tradição de Israel, a observância do sábado ocupava um lugar central, porque remetia para o próprio descanso de Deus depois da obra da criação. Talvez os adversários de Jesus esperassem que ele indicasse precisamente o mandamento do sábado como o mais importante. Nesse momento, poderiam ter replicado: «Então porque é que tu e os teus discípulos não respeitais o sábado?». Era, de facto, uma das acusações que já lhe tinham dirigido (cf. Mt 12,1-14).

Jesus, porém, volta a surpreendê-los! Não cita nenhum dos dez mandamentos. Não se deixa aprisionar numa discussão sobre a precedência entre as normas, mas vai ao coração da Lei, à sua fonte e ao seu cumprimento: o amor!

Jesus evoca o Shema Israel, a grande profissão de fé de Israel (Deuteronómio 6,4-5), recitada diariamente de manhã e à tarde, e retomada também antes do descanso noturno: «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente. Este é o maior e o primeiro mandamento». Depois, associa-lhe outra passagem da Torá, retirada do Levítico(19,18): «O segundo é semelhante a este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo». O Mestre conclui com uma afirmação solene: «Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas». E a questão fica por aí!

Santo Agostinho, que nos deixou a célebre exortação «Ama e faz o que quiseres», oferece-nos outra intuição de extraordinária profundidade: «O amor a Deus é o primeiro que nos é ordenado, mas o amor ao próximo é o primeiro que devemos pôr em prática.»

B) Algumas pistas de reflexão

1. O amor é a Lei!

A primeira carta de João constitui um dos comentários mais profundos a este Evangelho: «É este o mandamento que recebemos dele: quem ama a Deus, ame também o seu irmão» (1 Jo 4,21).

Surpreendentemente, toda a carta se desenvolve como uma espiral que regressa continuamente ao tema do amor, aprofundando, de cada vez, as suas exigências e consequências: «Nós sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos (…) Nisto conhecemos o amor: ele deu a sua vida por nós; também nós devemos dar a vida pelos irmãos (…) Filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas com obras e em verdade» (3,14-18).

O amor ao irmão é o espelho e a prova da autenticidade do nosso amor a Deus. Por isso, Jesus resumirá tudo no seu mandamento novo: «Amai-vos uns aos outros como eu vos amei» (Jo 13,34; 15,12). O amor não é, portanto, um simples sentimento, nem uma virtude entre outras. O amor resume a vida do cristão e é a chave da existência.

2. Do deus-patrão ao Deus-Esposo

Que Deus seja amor não é de modo algum evidente! E, por conseguinte, também não o é o mandamento do amor. Que «Deus é amor» é uma revelação surpreendente, não uma conclusão óbvia do raciocínio humano. É uma realidade revelada pela Escritura. O caminho de amadurecimento até à revelação de Deus-Amor e à passagem do regime da lei para o do amor foi um longo processo levado por diante pelos Profetas. Jesus leva-o à plenitude. E o cristão é aquele que acreditou nesta surpreendente revelação: «Nós conhecemos e acreditámos no amor que Deus nos tem. Deus é amor» (1 Jo 4,16).

Muitas vezes, porém, a realidade parece contradizer esta revelação. As dificuldades quotidianas, as cruzes e as incertezas da existência, mas sobretudo o mal que parece prevalecer, o sofrimento dos inocentes e a expansão da injustiça põem duramente à prova a nossa fé.

Todos os dias somos chamados a renovar a nossa fé no Deus-Amor!

No dia em que acreditarmos verdadeiramente no seu amor, cumprir-se-á também para nós a profecia de Oseias: «Naquele dia — oráculo do Senhor — chamar-me-ás: “Meu marido”, e já não me chamarás: “Baal, meu senhor”» (Oseias 2,18).

Entretanto, corremos o risco trágico de continuar a adorar um «baal», um ídolo, um falso deus ao qual sacrificamos as nossas energias e a nossa própria vida.

3. Amarás!

Os deuses pagãos eram frequentemente imaginados como divindades que era necessário apaziguar através de sacrifícios e da submissão, sob o domínio do medo. O Deus revelado por Jesus Cristo, pelo contrário, quer filhos livres, capazes de responder ao seu amor com amor.

O verbo amar — ahav em hebraico — ocorre, segundo o biblista italiano Fernando Armellini, 248 vezes no Antigo Testamento. Para lá da exatidão da contagem, este número chama a minha atenção pelo seu valor simbólico: segundo a tradição rabínica, 248 é, de facto, o número dos preceitos positivos, ou seja, das coisas a fazer. Como que a sugerir que, no fundo, a única coisa que somos verdadeiramente chamados a fazer é amar. E fazê-lo sempre, todos os dias do ano — os 365, tantos quantos são, também segundo a tradição rabínica, os preceitos negativos, isto é, as proibições — e com cada fibra do nosso ser.

Para a reflexão semanal

Ler pausadamente a primeira carta de São João, deixando-nos conduzir pela sua vertiginosa espiral do amor.

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ


sábado, 17 de outubro de 2026

A quem pertenço? - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Ano A – 29.º Domingo do Tempo Comum

Mateus 22,15-21: «Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus»

Nos domingos anteriores ouvimos como Jesus denunciou duramente os chefes religiosos e políticos através de três parábolas, atraindo sobre si a hostilidade deles: já tinham decidido eliminá-lo. Agora procuram apenas um pretexto.

1. Uma armadilha bem arquitetada

«Os fariseus retiraram-se e reuniram-se para deliberar sobre a maneira de surpreender Jesus nas suas próprias palavras. Enviaram-lhe então os seus discípulos, juntamente com os herodianos».

Herodianos e fariseus unem-se, embora sejam adversários entre si, com o objetivo de encontrar uma maneira de eliminar Jesus. Os discípulos dos fariseus começam por tecer um longo elogio ao «Mestre», antes de lhe apresentar a questão combinada com os herodianos: «Diz-nos, pois, o que pensas: é lícito ou não pagar o imposto a César?»
A armadilha estava bem montada. Se Jesus respondesse «sim», correria o risco de se indispor com o povo, que suportava mal o domínio romano. Se respondesse «não», poderiam acusá-lo de ser um subversivo.

2. Jesus, mestre do discernimento

Na resposta de Jesus podemos entrever, apesar da sua brevidade, uma verdadeira lição sobre o discernimento do cristão e, concretamente, quatro indicações preciosas também para nós.

1) LIBERDADE: «Hipócritas!»

Primeiro passo: Jesus manifesta-se como uma pessoa livre. Não se deixa conquistar pela adulação dos fariseus e desmascara a sua hipocrisia.
E é precisamente aqui que tantas vezes também nós tropeçamos. Deixamo-nos condicionar pelos elogios ou pela opinião dos outros, acabando por limitar a nossa liberdade e a nossa lucidez.

2) INTERROGAR: «Por que me quereis pôr à prova?»

Jesus responde muitas vezes a uma pergunta com outra pergunta.Fazer perguntas a quem nos interpela é uma maneira de o envolver, responsabilizar e convidar a refletir.
Uma atitude passiva diante dos problemas foi uma das limitações que marcaram parte do laicado católico, também como consequência de um clericalismo que, durante séculos, incidiu profundamente sobre a vida da Igreja. Também o modo de por vezes se apresentar como quem já possui todas as respostas pode ter contribuído para a dificuldade que a Igreja experimenta hoje no diálogo com alguns setores da cultura ocidental.
Parece-me que devemos aprender também a dizer: «Não sei».Significa reconhecer com humildade os nossos limites diante da complexidade e da novidade de muitas questões contemporâneas, sem renunciar à procura, mas colocando-nos sinceramente a caminho para compreender melhor.

3) OLHAR: «Mostrai-me a moeda do imposto»

Jesus dá um terceiro passo decisivo: olhar para a realidade concreta. Pede que lhe mostrem a moeda do imposto e, ao fazê-lo, desconcerta os seus interlocutores.
Aquela moeda, com a efígie de Tibério e uma inscrição de forte significado religioso, tornava visível o poder de Roma. O facto de ela estar presente precisamente na área do Templo punha ainda em evidência uma contradição manifesta, dada a desconfiança judaica perante imagens que podiam assumir um caráter idolátrico.
Assim, aqueles que queriam pôr Jesus à prova acabam por ser eles próprios confrontados com as suas contradições.

4) RECOLOCAR: «Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus!»

O quarto momento consiste em recolocar a situação concreta dentro de um horizonte mais amplo. Com efeito, uma questão isolada e absolutizada corre o risco de se tornar uma verdade parcial e, precisamente por isso, enganadora. Só uma luz maior permite redimensioná-la e colocá-la na perspetiva justa.

«Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus» é uma das frases mais famosas do Evangelho, mas também uma das mais enigmáticas. Muitas vezes é interpretada como se existissem dois âmbitos claramente separados: as «coisas terrenas» confiadas a César e as «coisas espirituais» reservadas a Deus.

Mas o que pertence a César? A César compete aquilo que diz respeito à vida civil: garantir a ordem, a paz social, a liberdade e a justiça.

E o que pertence a Deus? Tudo. «Eu sou o Senhor e não há outro; fora de mim não há Deus… Eu sou o Senhor, não há outro!» (Isaías 45,1.4-6).

Se a moeda traz a imagem de César e, por isso, pode ser devolvida a César, o ser humano traz impressa a imagem de Deus. É, portanto, a Deus que deve ser devolvido o ser humano inteiro. Aqui está a grande reivindicação de Jesus: «Dai a Deus o que é de Deus!»

Daqui nasce uma pergunta decisiva: a quem pertenço eu? A uma família, a uma profissão, a um grupo social, a um povo, a uma nação? Certamente. Mas Jesus recorda-nos que existe uma pertença mais profunda do que todas as outras: tu pertences a Deus.

3. O dinheiro de César e a moeda de Jesus

Permitam-me agora uma imagem um pouco ousada. O dinheiro do imposto a César faz-me pensar naquela moeda que Pedro, por indicação de Jesus, tira da boca do peixe para pagar o imposto do Templo (Mateus 17,24-27). Uma única moeda para Jesus e para Pedro: ambos, de algum modo, associados naquela moeda.

Que imagem simbólica poderíamos imaginar gravada nela? No anverso, a imagem de Cristo; no reverso, a de Pedro. A imagem de Cristo à frente e, atrás, a minha ou a tua. Duas faces da mesma moeda! Cada um de nós pertence a Cristo e Cristo… “pertence” a cada um de nós! (cf. 1 Coríntios 3,22-23).

Para a reflexão e a oração pessoal

Hoje, penúltimo domingo de outubro, a Igreja celebra o Dia Mundial das Missões. Instituído por Pio XI em 1926, celebra este ano a sua centésima edição. O Papa Leão XIV escolheu como tema: «Um em Cristo, unidos na missão». Convido-vos a ler a Mensagem do Santo Padre e, durante esta semana, a retomar a oração que encontramos na sua conclusão:

Pai Santo, concede-nos ser um em Cristo, enraizados no seu amor que une e renova. Faz com que todos os membros da Igreja estejam unidos na missão, dóceis ao Espírito Santo, corajosos no testemunho do Evangelho, anunciando e encarnando cada dia o teu amor fiel por todas as criaturas.
Abençoa os missionários e as missionárias, sustenta-os nos seus esforços, guarda-os na esperança!
Maria, Rainha das Missões, acompanha a nossa obra de evangelização em todos os cantos da terra: faz de nós instrumentos de paz e faz com que o mundo inteiro reconheça em Cristo a luz que salva. Amém.

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

sábado, 10 de outubro de 2026

Convites recusados, convites acolhidos e convites traídos - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Ano A – 28.º Domingo do Tempo Comum

Mateus 22,1-14: «Tudo está preparado; vinde às bodas!»

Há já cinco domingos que Jesus nos fala através de parábolas. A de hoje – a dos convidados para as bodas do filho do rei – é a terceira dirigida aos chefes religiosos e aos responsáveis do povo, depois das parábolas dos dois filhos enviados a trabalhar na vinha e dos vinhateiros homicidas.

O contexto de tempo e lugar em que Jesus conta estas três parábolas é particularmente significativo e dramático. Estamos no templo, no dia seguinte à sua entrada solene em Jerusalém. Para nos entendermos, estamos na... Segunda-feira Santa. É a última oportunidade para sacudir a alma do povo e dos seus chefes políticos e religiosos e levá-los a tomar consciência da gravidade da hora.

1. Uma parábola estranha e inverosímil

A parábola de hoje recorda-nos a dos vinhateiros homicidas do domingo passado. Neste caso, porém, apresenta-se mais complexa. A narrativa parece reunir dois núcleos parabólicos: o dos convidados para as bodas (vv. 1-10) e o da veste nupcial (vv. 11-14). Para o perceber, basta ler a versão de São Lucas, onde a mensagem é muito mais simples e direta (cf. Lucas 14,15-24). São Mateus quis acrescentar à parábola do chamamento universal dirigido a todos, tal como apresentada por São Lucas, uma segunda parte destinada à comunidade cristã, tornando a narrativa mais complexa e, em certos aspetos, inverosímil.

A parábola fala de um banquete preparado por um rei para as bodas do seu filho, portanto de uma ocasião de festa e alegria. Na narrativa, porém, são introduzidos três elementos anómalos que contrastam com o ambiente festivo: 1) a recusa e até a reação violenta dos primeiros convidados; 2) o envio do exército para matar os assassinos e incendiar a sua cidade; 3) quando a sala está finalmente cheia de novos convidados, recolhidos nas encruzilhadas, a dura intervenção do rei contra um deles, que não trazia a veste nupcial.

Como compreender a parábola?

Na primeira parte, dirigida aos chefes políticos e religiosos de Israel, São Mateus parece apresentar, de forma alegórica, a história da salvação. Os dois primeiros grupos de servos representam os profetas enviados ao povo de Deus, talvez antes e depois do exílio. A cidade incendiada pode evocar a destruição de Jerusalém no ano 70 d.C. O terceiro grupo de enviados representaria os apóstolos e os missionários, enviados ao mundo para convidar todos a entrar no banquete do Reino.

A segunda parte da parábola, a do convidado sem a veste nupcial, parece, pelo contrário, dirigir-se à comunidade cristã como uma advertência sobre as condições necessárias para participar no banquete.

Qual é a mensagem da parábola?

A primeira parte revela o chamamento universal de Deus, agora dirigido a todos, maus e bons, sem excluir ninguém. O convite de Deus ultrapassa todas as fronteiras e alcança agora todos os povos: «Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda a criatura» (Marcos 16,15). Assim se realiza o que Isaías profetizou: «O Senhor do universo preparará para todos os povos, neste monte, um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos excelentes, de carnes saborosas, de vinhos purificados» (cf. primeira leitura, Isaías 25,6-10).

A segunda parte da parábola, porém, sublinha que não basta acolher o convite: é preciso converter-se, isto é, entrar em sintonia com a alegria das bodas messiânicas do Filho do Rei e participar da comunhão com todos os convivas.

Concentremos a nossa atenção nesta dupla mensagem.

2. Um convite à festa: Vinde às bodas!

«Eis que preparei o meu banquete... e tudo está pronto; vinde às bodas!»

Toda a Sagrada Escritura poderia ser relida à luz da palavra «convite»: um convite à festa, à alegria, à participação na vida de Deus, nas suas bodas de amor com a humanidade. Infelizmente, a visão predominante da vida como sofrimento e sacrifício distorceu a nossa perceção da existência e condicionou negativamente a nossa relação com Deus e a prática da fé.

A criação, o próprio facto de virmos à existência, é já um convite para o banquete da vida. Somos chamados à alegria e à partilha na fraternidade. Contudo, esta perspetiva da vida como convite não é partilhada por todos. Muitos preferem comportar-se como lhes apetece. Para eles, a vida é um assunto pessoal. Comportam-se com aquela atitude ávida e predatória de que falávamos no domingo passado. Alguns chegam mesmo a maltratar aqueles que lhes recordam que a vida é, pelo contrário, um convite de Deus a alegrarmo-nos juntos. O cenário de destruição e morte, consequência desta atitude, está diante dos olhos de todos. Aquilo que na parábola é apresentado, em linguagem metafórica, como castigo divino muitas vezes não é senão a consequência natural das nossas escolhas.

Eis a primeira mensagem da parábola: mudar a nossa perspetiva sobre a vida, sobre a vocação cristã e, de modo particular, sobre a Eucaristia, memorial de uma visão revolucionária da existência.

Não podemos deixar de constatar como, tantas vezes, as nossas celebrações estão longe de ser um banquete festivo. Como dar-lhes aquele toque de alegria e de festa? É difícil dizê-lo. Mas uma coisa podemos afirmar: tudo começa, antes de mais, por uma mudança de mentalidade e de coração em cada um de nós. O espírito da parábola leva-nos a pensar que o Reino de Deus não se parecerá com uma imensa catedral onde todos estejam recolhidos em adoração e contemplação, entoando cânticos angélicos. Faz-nos imaginar, antes, uma imensa sala cósmica onde se festeja numa simpática e agradável confusão!

Eis a urgente conversão da Igreja: abrir-se à novidade e à alegria do Espírito Santo. Então cada convidado tornar-se-á um «anjo», um enviado, um apóstolo, um missionário, e a sala do banquete encher-se-á!

3. Onde está a tua veste nupcial?

«Amigo, como entraste aqui sem a veste nupcial?»

Não sabemos com certeza a que costume concreto alude a veste nupcial na narrativa, mas parece que, no antigo Oriente, o rei oferecia aos convidados também uma veste para as bodas, talvez uma espécie de faixa festiva. A pessoa encontrada sem a veste nupcial, porém, tinha-a inexplicavelmente recusado, desonrando assim o convite.

O que é para nós a veste nupcial?

Alguns comentadores pensam na retidão moral, outros no compromisso cristão, especialmente na caridade e no serviço.

Convém, porém, evocar as ressonâncias bíblicas do tema da veste. Encontramo-lo no princípio, quando a humanidade toma consciência de estar nua e Deus a reveste com túnicas de pele (Génesis 3). Voltamos a encontrá-lo em Cristo nu na cruz, despojado das suas vestes. Finalmente, reaparece no Apocalipse, quando à esposa é dado «linho fino, resplandecente e puro» (19,8).

É particularmente útil recordar que, no Novo Testamento, a vida cristã é muitas vezes comparada à veste nova que se recebe no dia do batismo: «Todos vós que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo» (Gálatas 3,27).

Ser encontrado sem a veste nupcial pode, portanto, significar querer participar no «banquete» à nossa maneira, vestindo a roupa habitual dos velhos hábitos. Mas não podemos apresentar-nos com os farrapos da vida antiga. Também não basta pôr um remendo de tecido novo num vestido velho (Lucas 5,36). O convite pode ser exteriormente acolhido, mas traído na vida.

A parábola termina com a advertência de Jesus: «Muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos». Todos são chamados, mas poucos acolhem o convite a deixar-se «revestir do Senhor Jesus Cristo» (Romanos 13,14).

Não basta responder ao convite: é preciso honrá-lo!

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

NOS OITOCENTOS ANOS DA MORTE DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - Alfredo Monteiro (AAAFranciscanos)

 Tomás de Celano, biógrafo de Francisco de Assis, escreveu sobre a morte do Santo o seguinte: “Passou em acção de graças os poucos dias que lhe restaram de vida e convidou os companheiros mais queridos a louvarem com ele a Cristo. Francisco “entoou como pôde o salmo”: “Em alta voz clamo ao Senhor, em alta voz imploro o Senhor…”. E continua: “Convidou também todas as criaturas a louvarem a Deus e, com estrofes que já antes compusera, exortou-os a amá-LO. Até a própria morte, para todos tão odiosa e terrível, ele exortava ao louvor, e, saindo-lhe ao encontro com ânimo alegre, convidou-a a hospedar-se em sua casa”: “Bendita seja – dizia – a minha irmã morte”. Francisco, já moribundo, pediu para ser embrulhado numa serapilheira e colocado no chão. Pediu, depois, a um irmão que lhe lesse a Paixão de Cristo do Evangelho de São João. Na tarde de sábado, mesmo antes do cair da noite, um grande bando de cotovias voou em círculo por cima da cela onde Francisco jazia, enchendo o ar com a sua música. A cotovia era o seu pássaro favorito, porque tinha um “hábito castanho e um capuz”. Nessa noite os frades mantiveram a vigília ao corpo de Francisco, recitando o Saltério e outras orações para os defuntos. O Cantor da Natureza, Irmão Universal, viveu heroicamente o Evangelho. É um dos santos mais populares e amado  da Igreja Católica. Sentiu o Chamamento divino para reconstruir a Igreja com a radicalidade da fé e o amor a Jesus Cristo. E desse amor profundo amou também todas as criaturas. Um místico da Natureza, ecologista, pacifista, uma “Voz do nosso tempo”! O “grito da Terra” pede-nos que assim seja.

Neste ano Jubilar Franciscano em que a Ordem dos Frades Menores celebra solenemente os 800 anos da sua morte, os Irmãos e Padres Franciscanos continuam a aproximar os homens de Deus e a cuidarem com zelo da nossa “Casa Comum”. Francisco dizia aos seus irmãos: “….vamos por todo o mundo exortar mais com o exemplo do que com as palavras”. O “grito da Terra” pede-nos que assim seja, porque os povos, mormente os mais pobres, em todos os continentes, sentiram as dramáticas e dolorosas consequências do aquecimento global, dos ventos ciclónicos, dos sismos e de outros fenómenos extremos… Recordamos bem, com profunda tristeza, os últimos acontecimentos, de destruição e morte, em Portugal, na Venezuela, Colômbia, Indonésia, Nepal….

O Papa Leão XIV, inspirado no Santo de Assis, como o seu predecessor de boa memória, (com as Encíclicas Laudato Si e Fratelli Tutti), associa-se às celebrações solenes, louvando o Senhor com esta bela oração que vamos acompanhar:

“São Francisco, nosso irmão,

tu que, há oitocentos anos,

ias ao encontro da irmã morte

como um homem pacificado,

intercede por nós junto do Senhor.

Tu que no Crucifixo de São Damião,

reconheceste a verdadeira paz,

ensina-nos a buscar n’Ele

a fonte de toda a reconciliação,

que derruba todos os muros.

Tu que desarmado,

atravessaste as linhas da guerra

e da incompreensão

concede-nos a coragem

de construir pontes

onde o mundo ergue fronteiras.

Neste tempo afligido

por conflitos e divisões,

intercede para que nos tornemos

construtores da Paz:

testemunhas desarmadas

e desarmantes

da Paz que vem de Cristo.

Ámen

LEO PP. XIV

Alfredo Monteiro (AAAFranciscanos)


www.uasp.pt | Faceboock.com/uasp

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Guardiões ou predadores? - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Ano A – 27.º Domingo do Tempo Comum

Mateus 21,33-43: Escutai outra parábola!

O Evangelho deste domingo oferece-nos a terceira parábola que tem como tema a vinha. Tal como a dos dois filhos enviados à vinha no domingo passado, é dirigida aos sumos sacerdotes e aos anciãos do povo, bem como aos fariseus (cf. v. 45), que, num primeiro momento, não percebem que é precisamente a eles que se dirige. A parábola, conhecida como a dos “vinhateiros homicidas”, é pronunciada no Templo, tem tons dramáticos e prefigura profeticamente o fim trágico de Jesus, “agarrado, lançado para fora da vinha e morto” fora das muralhas de Jerusalém.

1. Deus é um vinhateiro

A simbologia da vinha como representação do povo de Deus, Israel, é bem conhecida e é iluminada pela primeira leitura do profeta Isaías (5,1-7). Jesus, porém, conta a parábola contra os responsáveis religiosos que se apoderaram desta vinha, surdos aos apelos dos profetas (os “servos” da parábola) e agora também ao do Filho, enviado por Deus, o Dono da vinha.

As primeiras gerações cristãs interpretaram a parábola alegoricamente: o primeiro grupo de servos representaria os profetas e o segundo, os apóstolos. A sua conclusão: “O Reino de Deus ser-vos-á tirado e será dado a um povo que produza os seus frutos”, foi por vezes interpretada como o anúncio da substituição de Israel pela Igreja. Contudo, não parece ser este o sentido principal da parábola, mas antes uma forte repreensão às autoridades religiosas do seu tempo e de todos os tempos.

2. Nós somos a vinha de Deus

Parece-me oportuno deter-nos, antes de mais, no cuidado solícito de Deus para com a sua vinha, que espelha o seu amor pelo seu povo e por cada um de nós. “Que mais devia eu ter feito pela minha vinha que não tenha feito?”, lamenta-se o Senhor, constatando que a vinha, em vez de produzir uvas, produziu uvas bravas (Isaías 5,1-7).

Aquela vinha plantada “numa colina fértil”, “cavada e limpa de pedras”, para que se tornasse boa terra, e formada por “cepas escolhidas”, refere-se também a nós. Também nós fazemos parte daquela vinha, ramos unidos Àquele que é a verdadeira videira (João 15). No nosso coração Ele construiu uma “torre”, não a de Babel, mas a do Pentecostes do Espírito. “Cavou um lagar”, que nos recorda a água do Batismo e o vinho da Eucaristia. Protegeu-nos dentro da cerca da Igreja...

Esta é, portanto, uma boa oportunidade para reconhecer que “o Senhor fez por nós grandes coisas” (Salmo 125,3). Mas é também uma ocasião para nos interrogarmos sobre os frutos que a nossa vida cristã está a produzir: uvas ou uvas bravas?

3. Nós somos os vinhateiros de Deus

Deus “partiu para longe” e, com extrema confiança, confiou-nos a sua vinha para que cuidássemos dela. Isto é, confiou os seus dons à nossa responsabilidade: a vida e a saúde, a terra e os bens, os dons e os talentos, a fé e as graças espirituais... Tudo deve ser administrado com sabedoria ao serviço de todos.

A grande tentação é apoderar-se da “vinha”, isto é, daquilo que Deus confiou à nossa guarda, utilizando-o a nosso bel-prazer e em nosso benefício exclusivo. Aliás, já no relato do primeiro pecado encontramos a tentação de nos apropriarmos daquilo que não nos pertence. A nossa ganância leva-nos a açambarcar os bens, a ignorar as necessidades dos outros e as suas justas reivindicações, a submeter as pessoas ao nosso serviço, a espezinhar os pobres e até a matar, como a parábola bem ilustra.

Perguntemo-nos qual é a nossa “vinha” e como a estamos a administrar: como donos ou como arrendatários? Como exercemos uma função: como serviço ou como poder? O Senhor perguntar-nos-á: que fizestes da minha vinha? Como acolhestes os meus mensageiros? Como tratastes o meu Filho? E tenhamos presente que há muitas maneiras de matar Cristo!...

4. Na vinha da criação: guardiões ou predadores?

Esta responsabilidade não diz respeito apenas aos dons pessoais, mas estende-se também à grande “vinha” que Deus confiou à humanidade: a criação. Em 4 de outubro de 2023, o Papa Francisco publicou a exortação apostólica Laudate Deum, continuação da Laudato si’, na qual chamava todos à responsabilidade na gestão dos bens da terra. As consequências de uma utilização desenfreada, egoísta e predatória da natureza estão à vista de todos.

Muitas vezes assumimos uma atitude de quase indiferença ou de minimização, como se a questão não nos dissesse assim tanto respeito, talvez porque não estamos dispostos a mudar o nosso estilo de vida. Outras vezes, descarregamos a responsabilidade sobre os outros, especialmente sobre os políticos, frequentemente condicionados por grandes interesses económicos, mas não assumimos a nossa parte de responsabilidade, considerando-a talvez insignificante. Fazer da terra um paraíso ou um deserto depende também de cada um de nós!

Perante a insuficiência das respostas postas em prática por muitos governos e pela comunidade internacional, o Papa Francisco lançava, por isso, um novo grito de alarme, convidando a agir antes que fosse demasiado tarde. Recordava-nos que “o mundo que nos rodeia não é um objeto de exploração, de uso desenfreado, de ambição ilimitada” (n. 25). “Fizemos progressos tecnológicos impressionantes e surpreendentes, e não nos damos conta de que, ao mesmo tempo, nos tornámos altamente perigosos, capazes de pôr em risco a vida de muitos seres e a nossa própria sobrevivência” (n. 28).

E o Papa concluía dizendo: “‘Louvai a Deus’ é o nome desta carta. Porque um ser humano que pretende substituir-se a Deus torna-se o pior perigo para si mesmo” (n. 73).

Perguntemo-nos: a nossa relação com a natureza é um ato de louvor a Deus ou uma forma de espezinhar o seu dom? Na vinha da criação comportamo-nos como guardiões ou como donos e predadores?

Para a reflexão semanal

  1. Para vermos se a nossa vida está a produzir as boas uvas do amor e da justiça ou, pelo contrário, as uvas bravas do egoísmo e da injustiça, confrontemo-nos com as oito características do agir cristão indicadas por São Paulo na segunda leitura de hoje: “Tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é honroso, tudo o que é virtude e tudo o que merece louvor, seja isso objeto dos vossos pensamentos” (Filipenses 4,6-9).
  2. O que poderias fazer concretamente para “poluir menos, reduzir o desperdício, consumir de modo prudente” (n. 71) e criar uma nova sensibilidade de respeito pela “vinha” da criação?

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 

sábado, 26 de setembro de 2026

Procura-se um terceiro filho! - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Ano A – 26.º Domingo do Tempo Comum

Mateus 21,28-32: «Um homem tinha dois filhos»

Hoje escutamos a segunda parábola que diz respeito à vinha. No domingo passado falava-se de trabalhadores chamados a trabalhar na vinha; hoje, pelo contrário, trata-se de dois filhos que o pai convida a ir para lá.

1. Um Deus que põe tudo de pernas para o ar!

«Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigiu-se ao primeiro e disse-lhe: “Filho, vai hoje trabalhar na vinha”. Ele respondeu: “Não quero”. Mas depois arrependeu-se e foi. Dirigiu-se ao segundo e disse-lhe o mesmo. Ele respondeu: “Sim, senhor”. Mas não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai?» Responderam: «O primeiro».

Quem são estes dois filhos? Jesus identifica-os claramente. O primeiro, que diz NÃO mas depois muda de ideia, representa os publicanos e as prostitutas, as duas categorias de pecadores mais desprezadas, consideradas “inconvertíveis” e acusadas de atrasar a chegada do Reino de Deus.

O segundo representa os sumos sacerdotes e os anciãos do povo, a quem Jesus se está a dirigir. A estes poderíamos acrescentar os escribas e os fariseus, tantas vezes repreendidos por Jesus: aqueles que se consideravam justos e, consequentemente, sem necessidade de conversão.

Pois bem, a estes, cujo SIM é na realidade um NÃO, àqueles que«dizem e não fazem» (Mateus 23,3), Jesus dirige uma afirmação escandalosa, cortante: «Em verdade vos digo: os publicanos e as prostitutas vão à vossa frente para o reino de Deus».

É mesmo caso para dizer que Deus não respeita as nossas classificações, as nossas categorias, os nossos critérios de ordem e de valor!

2. Em qual dos filhos me revejo?

Com qual dos dois filhos nos identificamos? Talvez sintamos algum desconforto em escolher um ou outro. Precisávamos de um terceiro filho, alguém que diga SIM e vá realmente para a vinha! Este terceiro filho ideal, porém, não existe. Ou melhor: existe, sim, mas não somos nós. É Cristo, cuja vida foi um SIM: «Nele houve o “sim”. Com efeito, todas as promessas de Deus encontram nele o seu “sim”» (2 Coríntios 1,19-20).

Mas a Palavra obriga-nos a confrontar-nos com estes dois filhos.Se pensarmos bem, ambos coabitam em nós. Goethe dizia: «Duas almas habitam, infelizmente, no meu peito». Aliás, o próprio Paulo disse: «Não consigo compreender o que faço: pois não faço aquilo que quero, mas aquilo que detesto» (Romanos 7,15).

Também nós tantas vezes falamos «com um coração dividido», como diz o salmista (Salmo 12,3). São tantas as nossas invocações «Senhor, Senhor» (Mateus 7,21) e tantos os nossos Améns — isto é, os nossos SIM — que entram em contraste com a vida concreta!

De manhã, todos os dias, digo SIM ao Senhor, escutando a sua Palavra. E depois? Depois, o dia é uma coisa completamente diferente. Claro. Mas como poderia eu dizer NÃO ao Pai?

Acontece-me um pouco como em algumas culturas africanas onde trabalhei, nas quais seria desrespeitoso dizer NÃO. Quando muito, dizem-te: «Amanhã». E esse «amanhã», já sabes, significa NÃO.

Assim faço eu também com Deus: cortesmente desobediente!

As fronteiras entre os nossos SIM e os nossos NÃO são muito ténues. Comenta o padre Ermes Ronchi: «Um homem tinha dois filhos. E poder-se-ia dizer: um homem tinha dois corações. Porque aqueles dois filhos são o nosso coração dividido, um coração que diz sim e que diz não, um coração que diz e depois se contradiz… Uma das orações mais importantes dos salmos pede: Senhor, dá-me um coração íntegro, faz com que eu não tenha dois corações em luta entre si; dá-me um coração unificado (cf. Salmo 101)».

3. Quem é o meu irmão?

Dois filhos, dois irmãos! Sim, porque a filiação cria fraternidade.

Quem é o meu irmão? Talvez aquele que tem a ousadia de dizer NÃO, que preza a sua liberdade de qualquer vínculo, um rebelde. Penso em quem se declara indiferente ou não praticante, não crente… No entanto, para minha grande surpresa, encontro-o a trabalhar na vinha da solidariedade e da fraternidade, lutando por um mundo melhor.

«Que vos parece?… Qual dos dois fez a vontade do pai?» Também eu respondo: «O primeiro», isto é, aquele que eu considerava distante e que pensava não querer saber da vinha!

4. Procura-se o terceiro filho e irmão!

Alguém imaginou a presença de um terceiro filho na parábola. Este tinha ouvido o Pai convidar os dois irmãos e, em silêncio, sem dizer uma palavra, tinha ido trabalhar na vinha.

Não sei se alguma vez encontrastes este terceiro irmão. Eu encontrei-o várias vezes nas nossas comunidades: irmãos discretos, generosos, disponíveis e solícitos que, sem se fazerem notar nem ser preciso pedir-lhes, fazem com que encontremos as coisas já feitas. São uma bênção para uma comunidade. É pena que muitas vezes só nos apercebamos disso quando eles faltam.

Nas famílias há frequentemente alguém que assume este papel — muitas vezes foram, e continuam a ser, as mães. Pois bem, este terceiro filho ou esta terceira filha torna presente a figura de Jesus, «aquele que está no meio de nós como quem serve» (cf. Lucas 22,27). O Pai procura filhos e filhas assim: «os verdadeiros adoradores» (cf. João 4,23).

Para a reflexão e a oração pessoal

  • «Vós dizeis: “A maneira de proceder do Senhor não é justa”»(Ezequiel 18,25-28, primeira leitura).
    Quantas vezes também eu pensei assim, no meu moralismo presunçoso! Converte-me, Senhor, ao teu modo de agir.
  • «Cada um de vós, com toda a humildade, considere os outros superiores a si mesmo» (Filipenses 2,1-11, segunda leitura).
    Liberta-me, Senhor, da inveja e faz com que o meu coração se alegre com o bem dos outros.
  • «Em verdade vos digo: os publicanos e as prostitutas vão à vossa frente para o reino de Deus» (Evangelho).
    Despoja-me, Senhor, das minhas pretensões de superioridade. Faz com que eu me maravilhe ao ver-me ultrapassado pelos últimos da fila e que vá contente ocupar «o último lugar» (Lucas 14,9).

Cada dia é o HOJE da parábola:
«Filho, hoje vai trabalhar na vinha!»

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Quantas vezes perdoaste a Deus? - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Ano A – 24.º Domingo do Tempo Comum

Mateus 18,21-35: «Quantas vezes devo perdoar?»
Hoje concluímos o quarto discurso de Jesus, que reúne os ensinamentos do Senhor sobre a vida comunitária. O trecho evangélico é a continuação do de domingo passado, dedicado à correção fraterna.
Neste contexto, Pedro pergunta a Jesus: «Senhor, se o meu irmão cometer faltas contra mim, quantas vezes devo perdoar-lhe? Até sete vezes?» Pedro propõe um número generoso: sete, o número da plenitude. Certamente sabia que os rabinos falavam de três ou, no máximo, quatro vezes, mas tinha bem presente a insistência de Jesus no perdão.
Com efeito, ao ensinar aos discípulos o Pai-Nosso, o único pedido da oração que Jesus depois comentou explicitamente foi precisamente o que dizia respeito ao perdão: «Porque, se perdoardes aos outros as suas faltas, também o vosso Pai celeste vos perdoará; mas, se não perdoardes aos outros, também o vosso Pai não perdoará as vossas faltas» (cf. Mateus 6,14-15).
E, num contexto semelhante, Jesus teria dito: «E se [o teu irmão] cometer uma falta contra ti sete vezes ao dia e sete vezes voltar para junto de ti, dizendo: “Estou arrependido”, tu lhe perdoarás» […] e apenas cem denários, o equivalente a cerca de cem dias de trabalho. Quando o senhor toma conhecimento do que aconteceu, indigna-se e revoga o perdão da dívida. E a conclusão de Jesus é, mais uma vez, surpreendente e severa: «Assim também fará convosco o meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar de coração ao seu irmão».
1. O perdão é uma decisão… a caminho!
Todos temos plena consciência de como é difícil perdoar. O perdão quase nunca é espontâneo. Espontâneos são, antes, a raiva, o ressentimento e a vontade de pagar na mesma moeda. Diz um velho ditado: «À primeira perdoa-se, à segunda desculpa-se, à terceira bate-se!» Alguns chegam mesmo a considerar o perdão uma forma de fraqueza: quem perdoa seria incapaz de fazer valer os seus direitos; a bondade seria incapacidade de se revoltar, a paciência cobardia e o perdão incapacidade de se vingar (Nietzsche).
A pala perdoar reforça a ideia de «dar»: é um dar plenamente. Mas, para quem perdoa, não se trata de modo algum de um gesto «barato». Por vezes custa sangue e lágrimas. Também a graça de Deus, recordava Bonhoeffer, não é uma «graça barata»: o perdão foi-nos oferecido através do amor de Cristo levado até à cruz.
Por isso, o perdão é fruto de uma decisão sustentada pela graça. E nem sempre é uma decisão tomada de uma vez para sempre. Muitas vezes é preciso renová-la cada vez que a memória traz de novo à mente a ofensa e reacende no coração o sofrimento. O perdão amadurece progressivamente, até poder tornar-se uma disposição profunda e estável.
Aprende-se a perdoar… caminhando pelo caminho do perdão.
Infelizmente, muitos cristãos ouvirão esta palavra levando no coração rancor contra alguém, talvez há anos, decididos a não perdoar uma ofensa sofrida. E poderão ouvi-la sem se sentirem minimamente interpelados. «Sim, sim — dizem para si mesmos —, é uma coisa bonita, mas irreal. A vida verdadeira é outra coisa! E depois, aquilo que me fez é demasiado grave…»
2. Mas… quantas vezes Deus perdoa?
A resposta parece óbvia: sempre! Mas estaremos realmente convencidos disso?
No tempo de Jesus, alguns rabinos discutiam até o número de vezes que Deus perdoaria antes de castigar. E, no entanto, o Antigo Testamento fala-nos continuamente do amor e da misericórdia de Deus, como proclama o salmo responsorial de hoje: «O Senhor é bom e grande no amor» (cf. Salmo 102).
Há, contudo, também textos com uma linguagem muito dura, como o do profeta Naum: «O Senhor é um Deus ciumento e vingador; o Senhor é vingador e cheio de ira. O Senhor vinga-se dos seus adversários e guarda rancor contra os seus inimigos» (Naum 1,2).
O povo de Deus foi compreendendo progressivamente a profundidade do amor divino. Em Jesus, esta revelação atinge a sua plenitude: Deus é Pai, Deus é amor, Deus é misericórdia. E, contudo, também nós corremos o risco de imaginar Deus à nossa imagem e semelhança: não um Deus justo, mas um justiceiro; não um Pai, mas um senhor; não Alguém a amar, mas alguém a temer e a quem é preciso «manter satisfeito».
Mas então, por que razão Jesus parece quase ameaçar-nos na conclusão da parábola: «Assim também fará convosco o meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar de coração ao seu irmão»? Jesus quer sublinhar com força quanto o perdão recebido e o perdão oferecido são inseparáveis. Não porque a misericórdia de Deus tenha uma medida ou seja concedida apenas sob certas condições, mas porque o coração pode fechar-se ao dom. O perdão de Deus pede para ser acolhido. Recusar obstinadamente perdoar é como estender sobre nós uma lona impermeável: a água da misericórdia continua a cair, mas não consegue penetrar.
3. E tu, quantas vezes «perdoaste» a Deus?
A pergunta pode surpreender e até fazer sorrir. Naturalmente, Deus, em sentido próprio, não precisa do nosso perdão, porque não comete injustiças nem faltas contra nós. E, no entanto, o nosso coração pode chegar a acusá-lo, a sentir-se ferido por ele e até a alimentar ressentimento contra ele.
Todos conhecemos alguém que se afastou da fé zangado com Deus porque, num momento de angústia, uma oração pareceu ficar sem resposta; porque Deus teria «permitido» uma desgraça; por causa de um luto trágico; de uma doença; de uma dor incompreensível.
E que dizer das guerras, do sofrimento dos inocentes e das injustiças que se espalham pelo mundo?
Atrever-me-ia a dizer que quase todos temos alguma coisa a «perdoar» a Deus, isto é, alguma censura, alguma pergunta sem resposta, alguma ferida que lhe atribuímos. Por vezes nem sequer temos coragem de o confessar e enterramo-lo no mais profundo do coração.
Talvez devêssemos ter a coragem de permanecer diante de Deus com toda a nossa verdade. Mesmo depois da confissão, poderíamos erguer os olhos para o céu e dizer-lhe: «Senhor, há coisas que ainda não compreendo. Onde estavas quando isto me aconteceu? Por que permitiste aquilo? Sofri e, por vezes, até fiquei zangado contigo. Mas quero continuar a confiar em ti. Confio-te as minhas perguntas, a minha raiva e as minhas feridas, porque te amo».
Também isto pode ser um caminho de reconciliação com Deus: não porque seja ele quem precise de ser perdoado, mas porque somos nós que precisamos de curar a imagem ferida que guardamos dele.
4. E quantas vezes te perdoaste a ti mesmo?
Muitas vezes temos dificuldade em perdoar os outros porque não estamos em paz connosco próprios. Talvez não nos tenhamos perdoado um fracasso, a humilhação de uma fraqueza, uma escolha errada ou algum problema que causámos. Podemos saber que Deus nos perdoou e ter sido perdoados também pelas pessoas que ferimos e, no entanto, continuar a condenar-nos interiormente.
Precisamos, então, de pedir a graça de acolher plenamente o perdão recebido e de aprender também a perdoar-nos a nós próprios. Poderia dizer a mim mesmo: «Manuel João, Deus perdoou-te. Acolhe a sua misericórdia. Não permaneças prisioneiro dos teus erros. Aprende com eles e vai em paz!»
Perdoar-se a si mesmo não significa banalizar o mal praticado nem fugir às próprias responsabilidades. Significa reconhecer que nenhum erro tem o direito de pronunciar a última palavra sobre a nossa vida.
A última palavra pertence sempre à misericórdia.
Para meditar…
• Efésios 4,32 — «Sede bondosos e misericordiosos uns para com os outros, perdoando-vos mutuamente, como Deus vos perdoou em Cristo.»
• Colossenses 3,13 — «Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente… Como o Senhor vos perdoou, assim fazei vós também.»
• 2 Coríntios 5,18-20 — Deus «confiou-nos o ministério da reconciliação»: o cristão é chamado a ser embaixador da reconciliação.
P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ