domingo, 8 de fevereiro de 2026

VIVER, PRATICAR E CELEBRAR A FRATERNIDADE - Frei Bento Domingues, O.P. 08 Fevereiro 2026

 

VIVER, PRATICAR E CELEBRAR A FRATERNIDADE

Frei Bento Domingues, O.P.

08 Fevereiro 2026

 

1. A Bíblia não é um livro, é uma biblioteca. A Igreja Católica reconhece 73 livros, divididos em 46 do Antigo Testamento e 27 do Novo. São um testemunho escrito acerca de Deus e da Criação, revelado em Jesus Cristo, mistério da Terra e do Céu.

Como diz S. João, no princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e Deus era o Verbo. Este estava no princípio com Deus. Todas as coisas existiram por acção dele e sem ele nada veio à existência. Nele estava a Vida e a Vida era a Luz dos seres humanos. A Luz brilha na escuridão e a escuridão não dominou a luz. (…) Porém, quantos o receberam, a esses deu licitude de se tornarem filhos de Deus[1].

Hoje, na Igreja Católica, a celebração dominical da Eucaristia procura ser fiel a essa realidade múltipla. O subsecretário do Dicastério para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos (Santa Sé) destacou, em Braga, que a Liturgia nunca pode ser vista como uma peça de museu, apelando a uma criatividade na fidelidade para garantir a participação dos fiéis. A Igreja entregou-nos a Liturgia, mas não é uma Liturgia monolítica, fossilizada, deve ser uma Liturgia que muda de acordo com as necessidades dos fiéis.

A primeira leitura é do profeta Isaías que não nos deixa no vazio. Testemunha que o jejum que agrada a Iavé consiste em repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão. Então, a tua luz surgirá como a aurora e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se. A tua justiça irá à tua frente e a glória de Iavé atrás de ti. Então, invocarás Iavé e Ele te atenderá, pedirás auxílio e te dirá: «Aqui estou!» Se retirares da tua vida toda a opressão, o gesto ameaçador e o falar ofensivo, se repartires o teu pão com o faminto e matares a fome ao pobre, a tua luz brilhará na tua escuridão e as tuas trevas tornar-se-ão como o meio dia[2].

O profeta Miqueias apontou o essencial do profetismo bíblico: Já te foi revelado, ó homem, o que é bom, o que Iavé requer de ti: nada mais do que praticares a justiça, amares a lealdade e andares humildemente diante do teu Deus[3].

2. A liturgia cristã não pode ser um exercício de retórica com sublimidades de linguagem, aparentando uma grande sabedoria humana. O pregador não pode esquecer que lhe pertence anunciar o mistério de Deus, revelado em Jesus Cristo e Jesus Cristo crucificado. S. Paulo confessa que a sua palavra e a sua pregação não resultam da sabedoria humana, mas é uma manifestação do Espírito Santo, poder de Deus[4].

Por outro lado, o anúncio do Evangelho tem de ser saboroso, que dê gosto em aprofundar o sentido da Palavra que testemunha a alegria de Deus. Jesus usa expressões caseiras para falar da vida saborosa e iluminada e iluminante.  Não se pode parecer como uma comida sem sal ou como uma casa às escuras.

Se os discípulos são o sal da terra e a luz do mundo, ao transmitirem o gosto de viver, não se podem deixar corromper. Seria perder tudo. Pois, se o sal se corromper, com que se há-de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser desprezado. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do candelabro e, assim, alumia todos os que estão em casa. Assim brilhe a vossa luz diante dos seres humanos, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu[5].

A grande responsabilidade dos discípulos é fazer brilhar a Palavra, não é esconderem-se, mas navegar nas tempestades actuais, centrados no Evangelho e na pessoa de Cristo, mesmo perante as suas próprias divisões e desafios, como disse o cardeal dominicano, Timothy Radcliffe.

A vida das comunidades cristãs, tanto no quotidiano da vida como nas suas celebrações, deve ser uma alegria. Como diz S. Tomás de Aquino, «A tristeza é, entre todas as emoções, a que mais dano causa ao corpo. Justamente porque a tristeza se opõe à vida humana quanto ao seu movimento (isto é, quanto ao movimento que a alma lhe imprime)»[6].

3. Perante a escuridão do nosso tempo, Leão XIV, na sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz, insiste numa paz desarmada e desarmante e não na corrida ao armamento. Esta mensagem não pode ficar adormecida no primeiro dia de 2026.

«Na verdade, o contraste entre as trevas e a luz não é apenas uma imagem bíblica para descrever o sofrimento do qual está a nascer um mundo novo: é uma experiência que nos atravessa e nos surpreende diante das provações que encontramos, nas circunstâncias históricas em que vivemos. Ora, para não afundarmos na escuridão, é necessário ver a luz e acreditar nela. Trata-se de uma exigência que os discípulos de Jesus são chamados a viver de maneira única e privilegiada, mas que, de muitas maneiras, sabe abrir caminho no coração de cada ser humano. A paz que deseja habitar-nos, tem o poder suave de iluminar e alargar a inteligência, resiste à violência e vence-a».

Cristo é a nossa paz porque, na sua pessoa, no seu agir, é a reconciliação da humanidade com Deus, derrubando as barreiras de inimizade entre os povos e as religiões. Tudo Nele respira vontade de destruir o ódio e promover a amizade e a paz.

A sua presença, o seu dom e a sua vitória brilham na perseverança de muitas testemunhas, por meio das quais, a obra de Deus continua no mundo, tornando-se ainda mais perceptível e luminosa na escuridão dos tempos.

Entre vários outros, dispomos de dois textos luminosos do nosso tempo e para o nosso tempo. São eles o Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da Convivência Comum, assinado, em Abu Dhabi a 4 de Fevereiro de 2019, pelo Grande Imame de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyib e pelo Papa Francisco (1936-2025). Este Papa, inspirado no Evangelho e na figura de Francisco de Assis (1181?-1226), escreveu a célebre Fratelli Tutti, apresentada junto do túmulo deste santo a 3 de Outubro de 2020. Deles se pode dizer que são sal da terra e luz do mundo.

Francisco de Assis, dirigia-se aos seus irmãos e irmãs para lhes propor uma forma de vida com sabor a Evangelho. Destes conselhos, quero destacar o convite a um amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço; nele declara feliz quem ama o outro, «o seu irmão, tanto quando está longe, como quando está junto de nós». Com poucas e simples palavras, explicou o essencial duma fraternidade aberta, que permite reconhecer, valorizar e amar todas as pessoas, independentemente da sua proximidade física, do ponto da terra onde cada uma nasceu ou habita[7].

Não se trata apenas de acolher e ler belos textos, mas de transformar e ajudar a transformar a vida de todos os dias nas suas diversas dimensões.

 

 



[1] Jo 1, 1-12, Tradução de Frederico Lourenço, Os quatro Evangelhos, bilingue, Quetzal 2024.

[2] Is 58, 7-10

[3] Miqueias 6, 8

[4] 1Cor 2, 1-5

[5] Mt 5, 13-16

[6] Suma Teológica, I-II, 37

[7] Fratelli Tutti, nº 1

sábado, 7 de fevereiro de 2026

As dez heresias do catolicismo actual.1 - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

As dez heresias

do catolicismo actual. 1


O ilustre teólogo José I. González Faus morreu vai fazer

um ano no próximo dia 6 de Março. Era um bom amigo, e

quero recordá-lo, voltando ao seu livro: Herejías del

catolicismo actual, traduzido para português com o título

As dez heresias do catolicismo actual.

Heresia vem do grego háiresis, com o significado de

parcialidade. Ora, pode acontecer que uma parcialidade se

absolutize de tal modo que já não deixa espaço para

elementos imprescindíveis da identidade cristã. É neste

sentido que ele, um dos teólogos mais sólidos e cristãos

que conheci, escreveu este livro intenso, para desmontar as

dez heresias que inconscientemente foram tomando conta

da teologia e da vida, arruinando a identidade cristã. Será

o nosso guia também nas duas próximas semanas.

1. Primeira heresia: "Negação da verdadeira humanidade

de Jesus." Como reconhecer em Jesus "uma psicologia

humana como a nossa: sujeita ao erro e à ignorância ou à

fraqueza, à angústia, ao medo ou à sensação de fracasso"?

O problema está em que já se tem uma ideia prévia de

Deus e estas características parecem incompatíveis com a

dignidade divina. Mas qual é a consequência? Ao exigir

que, em Jesus, Deus corresponda à imagem que temos

dele, acabamos por impedir que Jesus revele

efectivamente Deus. São Paulo, esse, percebeu, ao

escrever que o Deus que anunciamos é "loucura para os

sábios e escândalo para as pessoas religiosas". Afinal, a

noção de dignidade divina deve ser concebida em

consonância com a ideia humana ou a partir do exemplo

de Jesus? "Eu, Senhor e Mestre, dei-vos o exemplo,

lavando-vos os pés." Jesus, de condição divina, escreve

São Paulo, "apresentou-se como um entre outros", "sendo

rico, fez-se pobre por nós, a fim de enriquecer-nos com a

sua pobreza", mostrando que a verdade de Deus é o seu

amor na autenticidade e fidelidade.

2. Vinculada à primeira, a segunda heresia: "Negação da

eminente dignidade dos pobres na Igreja." De facto, a

negação da verdadeira humanidade e humilhação do

Messias leva a não preocupar-se com os humilhados, os

pobres, os atribulados, famintos, refugiados ou presos,

embora seja com eles que Jesus em primeiro lugar se

identificou. O Papa Francisco tinha razão, voltando a uma

Igreja pobre para os pobres.

O que lemos no capítulo 25 do Evangelho segundo São

Mateus, referente ao Juízo Final? Todos são julgados pela

maneira como reagiram diante do Deus presente no

necessitado, no faminto, no nu, embora o não soubessem:

"O que fizestes a um destes mais pequeninos foi a mim

que o fizestes." Este passo do Evangelho é abissal, pois

nele não temos um ensinamento em primeiro lugar ético

mas teológico, um ensinamento sobre Deus, como ele se

comporta e é: não é possível falar sobre Deus sem a sua

relação com os seres humanos, a começar pelos mais

desamparados. "É falso todo o Deus cuja glória não seja a

vida do homem." Também está na Primeira Carta de São

João: "Se alguém possui bens deste mundo e, vendo o seu

irmão passar necessidade, não o socorre, não pode estar

nele o amor de Deus."

3. Terceira heresia: "Falsificação da cruz de Cristo." "O

que foi que condenou Jesus a uma morte tão atroz? Foi

Pilatos? Foram os escribas e fariseus? Não, meus irmãos,

não. Foi a Justiça divina que nunca quis dizer "basta" até

que o viu expirar sob este suplício. O Salvador bondoso

agonizava suspenso no ar por três cravos, derramava

lágrimas de sangue, sangrava por todos os lados. Mas a

Justiça divina, inexorável, dizia: "Ainda não. Mais." A sua

doce mãe chorava ao pé da cruz, soluçavam as piedosas

mulheres, gemiam todos os anjos e espíritos bem-

aventurados diante de tão cruel espectáculo. Mas a Justiça

divina, sem se deixar comover, repetia: "Ainda não.

Mais." E não disse "já basta" enquanto o não viu exalar o

último suspiro. O que dizeis então, meus irmãos? "Se a

Justiça divina tratou tão severamente o Unigénito do Pai

só porque havia tomado sobre si os nossos pecados, como

nos tratará a nós que somos os verdadeiros pecadores?"

Muitos terão ouvido sermões semelhantes a este, de São

Leonardo de Porto Maurício. Jesus tinha de morrer para

pagar uma dívida infinita contraída com Deus pela

humanidade e assim reconciliá-lo. Foi esta concepção que

levou muitos ao abandono da fé. Aí está um Deus bárbaro,

monstruoso, inexorável, que se não deixa comover, e uma

teologia da satisfação expiatória que santifica a justiça

próxima da vingança. O contrário do Deus que Jesus

revelou como Abbá (querido Paizinho) e Misericórdia, na

parábola do filho pródigo. "O dolorismo heterodoxo que a

Cruz produziu no nosso catolicismo vem, em boa parte,

daqui: estamos a um passo de uma redenção

"sadomasoquista", com a perversão de uma grande

verdade: "Tudo o que vale custa" transformou-se num

falso princípio: "Tudo o que custa vale." "A Cruz

transformou-se assim em factor de resignação, quando na

realidade é o resultado de Jesus não se ter resignado

perante a injustiça estabelecida." A morte de Jesus é "uma

consequência da sua vida e não uma exigência metafísica

da justiça de Deus". Não morreu vítima de um Deus irado,

que precisa de ser aplacado, mas vítima da maldade do

mundo; morreu para dar testemunho da verdade e do

amor, ser consequente com a sua mensagem, dando

testemunho até à morte do Deus que é Amor.

Continua.

Sábado, 7 de Fevereiro de 202

sábado, 31 de janeiro de 2026

Na continuação do Papa Francisco - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

Na continuação
do Papa Francisco


O Papa Leão XIV já declarou várias vezes que quer
seguir a herança do Papa Francisco e, por isso, quer
continuar a sinodalidade, que, como diz até o étimo,
quer dizer caminhar juntos.

Sim, pensando de modo consequente,
verdadeiramente o caminho só pode ser esse, o
sinodal. Evidentemente, quando se pensa na Igreja
cristã, a mensagem é que tem de ser o núcleo, e a
mensagem é: a fé em Jesus e no seu Evangelho, o
Deus-Amor, Pai-Mãe, com todas as consequências:
agir com a dignidade de filhos e filhas e amarmo-
nos todos como irmãos e irmãs... E o caminho é
juntos.

Evidentemente, é de igual modo claro que, onde
há muita gente, muitos e muitas, e espalhados por
toda a Terra, se impõe um mínimo de organização,
que tem de ser meio e não fim, pois tem de estar
ao serviço da mensagem. Não foi o que, como se lê
no Evangelho segundo São Mateus, Jesus quis dizer
a Pedro, louvando-o porque proclamou que ele é o
Messias, mas chamando-o Satanás, porque pensou
que a salvação vinha mediante o poder? Que diria
Jesus hoje das Paróquias, das Dioceses e sobretudo
do Vaticano, da sua pompa, das suas vestes, das
suas mitras, das suas intrigas, escândalos,
privilégios...? E não era sobretudo da Cúria que se
queixava Francisco? Dizia acidamente: “É mais difícil
reformar a Cúria do que limpar a esfinge do Egipto
com uma escova de dentes”.

Afinal, quem decide na Igreja? Poucos, muito
poucos, homens celibatários e de idade avançada,
numa Igreja hierárquica, vertical, clerical, misógina,
sem divisão de poderes... Francisco queria uma
Igreja sinodal, com a participação de todos. Um
parêntesis: já se reparou no que se passa na Igreja,
quando se pensa, por exemplo, num Consistório de
cardeais, mesmo que mundial? Afinal, o Papa
reúne-se com aqueles que o elegeram a ele, tendo
eles próprios sido escolhidos por ele ou outro
Papa... Não estamos perdoe-se a expressão
perante um círculo incestuoso?

Numa obra importante, Quem manda na
Igreja? (Quién manda en la Iglesia? Notas para una
sociología del poder en la Iglesia Católica del siglo
XXI), o sociólogo católico Javier Elzo apresenta outro
modelo para a Igreja do século XXI: “Uma Igreja em
rede, à maneira de um gigantesco arquipélago que
cubra a face da Terra, com diferentes nós em
diferentes partes do mundo, inter-relacionados e
todos religados a um central, que não
centralizador, que, na actualidade, está no Vaticano.
Aí ou noutras parte do planeta, todos os anos se
reuniria uma representação universal de bispos,
padres, religiosas e religiosos, leigos (homens e
mulheres), todos sob a presidência do Papa, para
debater a situação da Igreja no mundo e adoptar as
decisões pertinentes” e iluminar os grandes
problemas da Humanidade. Portanto, um Sínodo
verdadeiramente universal, no qual o Papa continua
a ter uma palavra decisiva, mas onde todos têm
direito a voto e tomando decisões com uma maioria
clara (dois terços?)...

Continuaremos. Mas, para já, ficam estas duas
perguntas, inevitáveis: Continuará a lei do celibato
obrigatório para os padres? Continuará a intolerável
discriminação da mulher na Igreja, que a impede de
presidir à celebração da Eucaristia?

Sábado, 31 de Janeiro de 2026