segunda-feira, 6 de abril de 2026

MISTÉRIOS DA PÁSCOA - Frei Bento Domingues, O.P. 05 Abril 2026

 

MISTÉRIOS DA PÁSCOA

Frei Bento Domingues, O.P.

05 Abril 2026

 

1. Páscoa, em hebraico, diz-se Pessach que significa passagem. Refere-se à chamada libertação dos israelitas da escravidão no Egipto. Continua a significar a passagem da escravidão para a liberdade.

Segundo os textos do Novo Testamento, vivemos de uma referência fundamental que é Jesus, o Cristo. O que lhe aconteceu foi organizado, sob o ponto de vista litúrgico, na chamada Semana Santa. Começa com o Domingo de Ramos. Quinta, Sexta e Sábado constituem o Tríduo Pascal, o tempo mais intenso da semana.

Não se deve confundir o fim de semana laico que, agora, envolve sábado e Domingo. Nessa perspectiva, o começo da semana é segunda-feira. Do ponto de vista cristão, Domingo é o primeiro dia da semana, dia do Senhor, a Páscoa semanal.

A Páscoa ritual teve evoluções muito diferentes de local para local. O que importa é perceber o sentido desse ritual. Segundo o Evangelho de S. João, durante a Ceia, Jesus levantou-se, tomou uma toalha e lavou os pés aos discípulos. Depois, voltou à mesa[1]. Com este gesto, dava uma resposta radical à discussão entre eles: quem seria o maior?. Eles não entenderam. Precisaram de uma conversão radical. A Igreja só pode ser fiel, vivendo em permanente conversão ao serviço dos mais abandonados. Passaram 2 000 anos. É misterioso que os seres humanos gastem na guerra o que deveria ser gasto na promoção da paz, na fraternidade universal.

As mulheres entraram muito cedo e de vários modos na vida de Jesus de Nazaré. Hoje, é quase impossível imaginar a importância desse fenómeno. Seria necessário estudar o lugar da mulher na cultura religiosa do tempo de Jesus, para perceber o alcance da revolução que ele desencadeou. Vivemos numa época na qual a mulher tem um papel cada vez mais activo na vida e na liderança das sociedades, mas a sua situação na Igreja é um anacronismo que, esperamos, os anos se encarregarão de vencer.

De facto, a situação do estatuto da mulher, ainda tem muitas lacunas, mas segundo notícias recentes cresce, cada vez mais, na Europa, e nomeadamente em Portugal, o número de mulheres cientistas e engenheiras[2]. É importante que, na Igreja, não se esqueça este fenómeno, para não negar a sua mais antiga tradição: «todos vós sois filhos de Deus em Cristo Jesus, mediante a fé; pois todos os que fostes baptizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo mediante a fé. Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus»[3].

É verdade que também a exegese feminista conquistou, no âmbito das abordagens contextuais, um lugar, ainda não ao sol, mas à sombra, no documento da Comissão Pontifícia Bíblica de 1993, (A interpretação da Bíblia na Igreja).

O que espanta é a lentidão em reconhecer o que parece claro no Novo Testamento e que, ainda hoje, muitos não querem ver o que estão a ver, devido à resistência de uma cultura secular “antifeminista” que nos torna cegos.

No Evangelho de S. Lucas[4], depois da cena escandalosa da mulher que surpreendeu, tocou e beijou Jesus, na casa de um fariseu, onde ele estava a jantar – e para onde ela não tinha sido convidada –, são as mulheres que surgem em grupo, de uma forma estranha e ambígua. Vale a pena transcrever o texto: depois disso, ele andava por cidades e aldeias, pregando e anunciando a boa nova do reino de Deus. Os Doze acompanhavam-no, assim como algumas mulheres: Maria, chamada Madalena, Joana, mulher de Cuza, o procurador de Herodes, Suzana e várias outras, que os serviam com os seus bens. Iremos encontrá-las depois da Ressurreição dedicadas a converter, muito a custo, os Apóstolos que lhes não davam crédito[5]. São elas as mulheres da Páscoa cristã.

O grande historiador judeu, Flávio Josefo, nas Antiguidades Judaicas, afirma, por duas vezes, que «o testemunho das mulheres não deve ser aceite por causa da fragilidade e presunção do seu sexo». Noutra passagem, com outras palavras, repete a mesma ideia: «das mulheres não se pode aceitar nada como certo, por causa da ligeireza e temeridade do seu sexo».

2. Um outro judeu, Jesus de Nazaré, parece que estava apostado em atirar pelos ares, costumes e ideias, que perpetuavam a marginalização do testemunho das mulheres. A opção deste Nazareno era de um atrevimento escandaloso, ao fazer delas testemunhas da sua Vida, da sua Paixão, da Ressurreição e do Pentecostes.

É certo que começam a aparecer, no Evangelho de S. Lucas, em grupo, mas de uma forma sorrateira e como que, apenas, financiadoras do novo projecto. Dá a ideia de que foram conquistando terreno até ao momento extremo de tornarem o futuro do movimento cristão dependente delas. Não me parece nada que tenha sido assim, embora não tenha espaço para o demonstrar.

As narrativas do Novo Testamento, aquilo a que chamamos os Evangelhos, são fruto de várias tradições, de várias comunidades, de tempos e culturas diferentes. O que espanta é que sendo textos escritos por homens, também eles marcados pela mentalidade reflectida por Flávio Josefo, os seus escritos testemunham uma presença impressionante de mulheres em torno de Jesus e nas Igrejas nascentes.

Podemos e devemos imaginar é o que deve ter sido a presença activa das mulheres, em todo o percurso de Jesus, para ter resistido ao aperto cultural e religioso do seu tempo.

3. Pertence aos exegetas bíblicos[6] continuar a analisar, com todos os métodos de que dispõem, as narrativas sobre o túmulo vazio e as aparições do Ressuscitado. Essas narrativas coincidem em algo essencial: A morte não saiu vencedora. Jesus está vivo e para sempre; é o mesmo, embora já não da mesma maneira. Aos discípulos/as pede que sejam testemunhas dessa esperança, essa memória de futuro.

Não se trata de nada que se possa provar por qualquer das ciências que existem. É de outra ordem. A fé, como diz o filósofo Wittengstein, é fé naquilo de que necessita o meu coração, a minha alma e não a minha inteligência especulativa. Pois é a minha alma com as suas paixões, por assim dizer, com a sua carne e sangue, que tem de ser salva e não a minha razão abstrata. Só o amor pode acreditar na Ressurreição.

O espantoso capítulo 20 do Evangelho de S. João conta que uma mulher, Madalena, liberta e apaixonada, não largou Jesus nem na vida, nem no vazio da morte, nem no túmulo. Continuou a procurá-lo. Não o encontrou, mas foi encontrada por Aquele que sabia o seu nome. A sua recompensa foram novos trabalhos, uma encomenda directa do Ressuscitado: «vai a meus irmãos e diz-lhes: subo a meu Pai e vosso Pai, a meu Deus e vosso Deus».

Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: vi o Senhor e as coisas que Ele lhe disse.

Porque impedir as mulheres da Páscoa de realizarem a sua missão apostólica na vida da Igreja ao serviço da transformação do mundo?

Que a celebração da Ressurreição de Cristo nos ajude a procurar os bons caminhos para vencer as raízes dos ódios que ensanguentam a terra.

 

 



[1] Cf. Jo 13

[2] Cf. E Rev. do Expresso, 20.03.2026, pp. 5-6

[3] Gal 3, 26-28

[4] Lc 7, 36-50. 8, 1-3

[5] Lc 24, 9-11

[6] Por ex.: A. Cunha de Oliveira, Jesus de Nazaré e as Mulheres, Instituto Açoriano de Cultura, 2011

Páscoa e vida eterna: o que queremos verdadeiramente? - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Páscoa e vida eterna:

o que queremos verdadeiramente?


Porque em devir e abertos ao futuro, a

esperança é princípio constituinte do

cosmos, do ser humano e da história. A

abertura ao futuro torna-se espera no

animal, que precisa de procurar o que lhe

falta. Tanto o animal como o ser humano

esperam, com uma diferença: o animal fica

satisfeito, quando obtém o que procura, mas

o ser humano, após a realização de cada

projecto, continua ilimitadamente aberto a

um para lá, que o move, num

transcendimento sem fim. Segundo essa

abertura ao futuro aconteça na confiança ou

na desconfiança, a espera configura-se como

esperança ou desesperança.

A esperança tem um duplo pólo:

subjectivo e objectivo, devendo assim falar-

se de esperança esperante e esperança

esperada. Neste quadro, é fácil constatar no

ser humano a diferença constitutiva entre a

primeira e a segunda: por mais que a

esperança esperante se materialize nas suas

realizações concretas, nunca se realiza

adequadamente, continuando insuperável

um abismo, de tal modo que se impõe um

plus ultra, um para lá de todo alcançado. Aí

está a razão por que todo o ser humano

morre inacabado, insatisfeito, sempre por

fazer adequada e plenamente.

Insere-se aqui a esperança pessoal para lá

da morte, mas uma esperança tal que salve

o ser humano real, de modo pessoal, e não

numa “imortalidade” impessoal, apenas

pela continuação na família, nas obras, na

sociedade...

A esperança não é certeza. Tem razões,

mas não é demonstrável cientificamente.

Não consiste em mero desejo, não pode ser

wishful thinking. Tem de fundamentar-se no

possível, em potencialidades reais. Assim,

quando se pensa na vida eterna pessoal,

entende-se que só Deus pode ser

fundamento dessa esperança. Como viu São

Paulo na Carta aos Romanos, “só o Deus que

criou a partir do nada pode ressuscitar os

mortos”. Na sua continuação, Kant

postulou a imortalidade, mas

simultaneamente postulou o Deus criador

como seu garante. Imortalidade pessoal e

Deus pessoal criador implicam-se

mutuamente.

Mas será que queremos a vida eterna?

Na sua encíclica sobre a esperança (Spe

salvi), Bento XVI debateu-se honestamente

com esta pergunta. Reconheceu que muitos

hoje recusam a fé porque “a vida eterna lhes

não parece algo desejável”. Querem a vida

presente, e a vida eterna é “um obstáculo”.

Continuar a viver para sempre, numa vida

interminável, “mais parece uma condenação

do que uma graça”. Quereríamos adiar a

morte, mas viver sempre, sem um final,

tornar-se-ia, em última análise,

“insuportável”. A eliminação da morte –

pense-se no romance de José Saramago: As

Intermitências da Morte – faria da vida na

Terra uma impossibilidade, e que benefícios

poderia trazer para o indivíduo? Então, na

nossa existência, há uma contradição: por

um lado, “não queremos morrer”, mas, por

outro, “também não desejamos continuar a

existir ilimitadamente nem a Terra foi

criada com esta perspectiva.” Que

queremos então realmente?

Esta pergunta abre para outra: “que é

realmente a ‘vida’ e que significa

verdadeiramente ‘eternidade’?” O Papa

Bento XVI respondeu apelando para

algumas das nossas experiências – a beleza,

o amor, a criação --, em que nos

aproximamos do que seria verdadeiramente

viver, de tal modo que aí até dizemos: assim

deveria ser sempre. No fundo, queremos

esta vida, que amamos, mas plena.

Queremos a bem-aventurança, a felicidade.

Não sabemos exactamente o que queremos,

pois é o desconhecido -- um “não sei quê --,

mas neste não saber sabemos e

experienciamos que essa realidade tem de

existir: é ela que nos arrasta e é para ela que

somos impelidos.

Não sabemos o que queremos dizer com

“vida eterna”. Apenas podemos pressentir

que “a eternidade não é um contínuo

suceder-se de dias no calendário, mas como

o instante pleno de satisfação, no qual a

totalidade nos abraça e nós abraçamos a

totalidade”. Seria o instante da submersão

na imensidade do ser, na vida plena, “no

oceano do amor infinito, no qual o tempo já

não existe.”

Na Páscoa, o que se celebra são estes

mistérios do cosmos, do ser humano e da

história, da vida, da morte e da vida

eterna...

Páscoa Feliz!

Sábado, 4 de Abril de 2026

sábado, 28 de março de 2026

O Calvário do mundo - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 rónicas PÁRA E PENSA

O Calvário do mundo


Jürgen Moltmann, um dos maiores

teólogos do século XX, teólogo protestante,

escreveu que, na juventude, feito

prisioneiro, na Segunda Guerra Mundial,

embora não sendo particularmente crente e

o que mais lhe apetecesse era comida, o que

o capelão lhe ofereceu foi o Novo

Testamento. Leu-o e, a partir da experiência

dramática por que estava a passar por causa

do Nazismo, percebeu que ou Deus não

existe mesmo ou então o Deus verdadeiro é

o que se revela em Jesus Cristo pregado na

cruz para dar testemunho da verdade e do

amor incondicional. E foi dessa experiência

que partiu para o estudo da Teologia, tendo

escrito obras que a marcaram no século XX:

O Deus crucificado e Teologia da esperança,

entre outras.

Na altura, com o terramoto de Lisboa,

aconteceu um sismo no pensamento

europeu, que abalou os grandes

intelectuais. A famosa Teodiceia de Leibniz

afundava-se. Como é que este podia ser o

melhor dos mundos possíveis? E como

pode a razão finita justificar Deus frente ao

mal, pois é isso que pretende a teodiceia? O

mal físico talvez seja explicável; mas como

compreender o mal moral? Porque é que

não somos sempre bons e, pelo contrário,

criamos infernos de desumanidade? Há

aquele enigma que amargurava São Paulo:

“Ai de mim, que sou um homem

desgraçado, pois faço o mal que não quero e

não faço o bem que quero!”

A brutalidade do mal, que nos faz gritar

e nos esvazia a capacidade de pensar, tem

uma expressão terrível num passo célebre

de Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski,

quando Ivan refere a tortura exercida sobre

as crianças. Ele conta a história

estarrecedora de um menino de oito anos

que, um dia, quando se divertia a

arremessar pedras, feriu na pata um dos

cães favoritos de um antigo general, tendo,

por isso, de passar a noite na masmorra. No

dia seguinte, arrancado à mãe e

completamente nu, é obrigado a correr.

Como se de caça se tratasse, o general lança

sobre o miúdo toda a matilha, perante o

olhar aterrorizado e impotente da mãe.

Ivan diz que precisa de uma

compensação, pois de outra forma destruir-

se-á. Mas quer que ela seja aqui em baixo,

“uma compensação que eu veja”.

Ele quer estar presente, “quando todos

souberem o porquê das coisas.” Mas como

compreender qual possa ser o papel das

crianças que sofrem para concorrerem para

a harmonia eterna futura? “Compreendo a

solidariedade do pecado e do castigo, mas

não se pode aplicá-la aos inocentes”, diz.

No final da História, Deus revelará os

seus desígnios, e tudo ficará iluminado.

Ivan, porém, recusa-se a aceitar essa

harmonia superior, uma vez que não

elimina o horror do sofrimento das crianças.

“Acho que não vale uma lágrima de

criança”. Ele não quer, portanto, entrar

nessa harmonia última, pois o seu preço é

exagerado. “Acho melhor devolver o

bilhete... E é o que eu faço. Não me nego a

admitir Deus, mas devolvo-lhe

respeitosamente o meu bilhete.”

O mal é o espinho cravado na fé do

crente. Perante o horror do mundo e face à

morte, não se sabe quantos homens e

mulheres, se fosse possível escolher vir ou

não à existência – claro, é um pensamento-

limite e absurdo --, teriam escolhido existir.

Quem algum dia foi a Auschwitz fica

estarrecido, mudo, sem palavras. O Papa

Francisco também lá esteve, caminhou

sozinho, sem dizer uma única palavra. Ali, é

o horror pura e simplesmente. Mas também

houve generosidades puras e quem

caminhasse para as câmaras de gás com

uma oração nos lábios.

Quem nega Deus também é confrontado

com a pergunta dilacerante do mal. E é

necessário tomar a sério o ateu e a sua

convicção. Ignacio Sotelo, o filósofo

espanhol agnóstico, escreveu numa troca de

cartas com o teólogo González Faus: “a vida

é uma luta que, por muito que nos

esforcemos, está perdida à partida –

desapareceremos no nada e os verdugos

continuarão a dominar – e, no entanto,

sustenta-nos a convicção de que não

podemos abandonar o combate sem nos

aniquilarmos a nós mesmos. Viver é lutar

pela justiça, sabendo que a batalha está

perdida à partida e que não podemos

abandonar o combate.”

O crente que sabe o que quer dizer a fé

participa no mesmo combate pela justiça.

Mas ousa entregar-se confiadamente ao

Mistério último. A História do mundo é um

processo que ainda não transitou em

julgado, e o crente confia, sem ingenuidade

e convivendo com a dúvida, em que o juízo

definitivo será de salvação para todos.

Na Sexta-Feira Santa histórica de há

dois mil anos, Jesus, inocente e condenado

como blasfemo religioso e subversivo social

e político, morreu a rezar esta pergunta in-

finita, que atravessa os séculos: “Meu Deus,

meu Deus, porque é que me abandonaste?”

Mas as suas últimas palavras foram de

esperança confiada no Mistério da Bondade

radical: “Pai, entrego-me nas tuas mãos”.

Sábado, 28 de Março de 2026

sábado, 21 de março de 2026

O ser humano: mistério para si mesmo - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 O ser humano:

mistério para si mesmo


A questão que o ser humano é para si

mesmo mostra-se paradoxal. Por um lado, é

inevitável: o abismo insuperável entre o

que espera e quer ser e o que realmente

alcança, obriga-o a perguntar: o que sou?

Que ser é esse que é entre ser e não ser e

que nunca é plenamente? Por outro lado, a

questão é insolúvel, porque, para conhecer-

se, o ser humano precisava de saltar para

fora de si em ordem a poder ver-se de fora,

objectivamente. Ora, precisamente este salto

é impossível.

Depois, o ser humano vive-se a si mesmo

em processo e em tensão. E são muitas as

suas tensões. Lá está sempre a pulsão e a

lógica, a afectividade e o pensamento, o

inconsciente e o consciente, a emoção e o

cálculo, o impulso e a razão. Aliás, essa

tensão inscreve-se numa base

neurofisiológica — há o cérebro que

funciona holisticamente, mas com três

níveis: o paleocérebro, o cérebro arcaico,

reptiliano, o mesocéfalo, o cérebro da

afectividade, e o córtex com o neocórtex, em

conexão com as capacidades lógico-

racionais. Não é sabido, até por experiência

própria, que muitas vezes as respostas

emocionais escapam ao controlo racional

por causa do chamado “atalho neuronal” e

do “sequestro emocional”, como mostrou

Paul D. Mac Lean? De repente, demos uma

resposta a alguém de que depois nos

arrependemos, a pulsão sobrepôs-se à

razão...

É verdadeiramente paradoxal a

constituição humana. Somos constituídos e

vamo-nos constituindo a partir de uma

herança genética e de uma história, numa

determinada cultura em contacto com

tantas culturas. É próprio do ser humano

não ter uma natureza fixa e imóvel, porque

é histórico e cultural...

Somos afectivos e racionais. Ninguém

começa com a inquirição racional do

mundo. Primeiro, o ser humano sentiu o

mundo e foi afectado por ele, positiva ou

negativamente. É muito lentamente que a

razão se vai erguendo no seu uso teórico-

prático.

O ser humano é situado, sumamente

concreto: resulta daquele óvulo fecundado

por aquele espermatozóide, naquele

instante, e, sempre, com uma história

concreta — esta e não outra. Ao mesmo

tempo é aberto: ao presente, ao passado e ao

futuro, a todos os outros seres humanos, à

realidade toda, ao que há e ao que não há,

pois é também o ser da utopia e do sonho e

do ilimitadamente possível.

Por isso, é único. Nunca houve nem

haverá outro como eu. Lá está o grito de

Unamuno: “Cada um de nós é único e

insubstituível. Não há outro eu no mundo!

Não há outro eu! Havê-los-á mais velhos e

mais novos, melhores e piores, mas não

outro eu. Eu sou algo inteiramente novo. Eu

não quero deixar-me classificar, porque eu,

Miguel de Unamuno, como qualquer outro

homem que aspire à consciência plena, sou

espécie única”. Ao mesmo tempo, o ser

humano é relacional e, precisamente porque

é relação sem limites, aberto a tudo, vem a

si mesmo como único, pessoal e

comunitário.

Na gigantesca história do universo e da

evolução, sabemos que há ser humano,

quando aparecem rituais funerários. Como

os outros animais, o ser humano também

morre, mas, ao contrário dos outros, sabe

que é mortal e angustia-se com a morte. É

no confronto com a morte que o mistério se

adensa. Como é que com a morte se passa

de alguém — um eu único — a ninguém,

coisa cadavérica que apodrece? Nunca

esquecerei como no funeral da minha mãe,

quando o caixão descia à cova no cemitério,

a minha irmã se agarrou a mim com esta

pergunta: “Como é que a gente não

enlouquece...” E constituiu para mim um

profundo abalo a confissão do grande

teólogo José I. González Faus sobre o pai,

que lhe transmitiu a fé e que considerava

“uma grande personalidade”: “Terminou a

sua vida derrotado e duvidando de Deus

como quase todos os humanos.”

O ser humano sabe que é finito, mas essa

consciência da finitude é-lhe dada na

abertura ao Infinito. Esta abertura é

condição de possibilidade da consciência do

finito enquanto finito. É nela que se enraíza

a condição da pergunta religiosa enquanto

tal.

O ser humano é festivo e sério,

condicionado e livre, é homo sapiens e

também homo demens — sapiens sapiens e

demens demens (sapiente sapiente e demente

demente). E homo dolens (sofredor) e homo

sperans (esperante).

Precisamos de reflectir sobre nós

mesmos. Todos os dias, particularmente

nestes tempos de agitação constante e

barulho sem fim, devíamos consagrar

algum tempo à meditação.

É muito interessante a constatação do

vínculo entre meditação, medicina e

moderação. As três têm como étimo o

radical med.-, que dá origem ao verbo latino

mederi, que tem o sentido de medir, pensar,

curar, restabelecer o equilíbrio. Cá está! É

sempre a medida e a justeza que estão em

causa. Porque a saúde resulta do equilíbrio

e da harmonia. A moderação tem a ver com

a medida justa. A meditação é ponderação e

pesagem para o equilíbrio harmónico.

Precisamos de viver

reconciliados/reconciliadas, em harmonia.

Para evitar perigo maior, de que já falava D.

António Ferreira Gomes, o famoso bispo do

Porto: a agitação paralisante e a paralisia

agitante. Com a sequência de uma procissão

de indignidades e horrores...

Sábado, 21 de Março de 2026

segunda-feira, 16 de março de 2026

Optimismo e pessimismo: a ambiguidade do mundo e a religião - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

Optimismo e pessimismo:
a ambiguidade do mundo e a religião


Foi Leibniz que, numa obra célebre
Teodiceia -, na qual, perante a existência do mal,
queria defender e justificar Deus, se apresentou
como arauto do optimismo. O nosso mundo é o
melhor dos mundos possíveis.

Leibniz era um cristão convicto e, portanto,
entre os mundos possíveis, Deus tinha de ter
criado o melhor. De facto, se este nosso mundo
criado não fosse o melhor, haveria a
possibilidade de outro melhor, o que significaria
que ou Deus não tinha conhecido esse mundo
melhor ou não o tinha querido ou não tinha
podido criá-lo, o que contradiz a sua
omnisciência, a sua bondade infinita e a sua
omnipotência.

O terramoto de Lisboa em 1755 tornava
impossível a manutenção de ideias optimistas.
Voltaire escreveria o famoso “Poema sobre o
desastre de Lisboa”, onde pede aos filósofos
enganados que venham ver as mulheres e as
crianças empilhadas umas sobre as outras, todos
esses desgraçados enterrados debaixo dos seus
tectos, terminando os seus dias no horror dos
tormentos.

Voltaire escreveu também o Cândido, onde
escalpeliza a ideia de que tudo contribui para o
melhor. O optimismo de Pangloss e a candura
de Cândido vêem-se confrontados com a
realidade bruta do mal: as desgraças humanas
causadas pelas catástrofes naturais, pela
estupidez humana, pelas instituições, pelas
guerras, pela avareza, pela superstição, pela
escravatura, pela hipocrisia, pelo tédio, por todo
o tipo de exploração.
Se, para Leibniz, o nosso é o melhor dos
mundos possíveis, para Arthur Schopenhauer, é
precisamente o contrário: este é o pior dos
mundos possíveis. Existir é sofrer.

Segundo Schopenhauer, o mundo na sua
realidade última é vontade , em última
análise, vontade cega. Tudo é impulsionado pela
vontade de viver, uma vontade infinita nunca
saciada, de tal modo que os nossos impulsos e
desejos nunca encontram satisfação. O
optimismo não passa de escárnio frente à dor
sem fim nem limites da humanidade.

Schopenhauer acompanha-nos pelos
hospitais, pelas cadeias, pela selva (pensa-se
pouco na dor dos animais), pelos campos de
batalha, pelos matadouros, pelas câmaras de
tortura, por todas as moradas dos horrores e da
miséria. A necessidade é o açoute permanente
dos humanos, mas, quando a satisfazem, entram
no tédio e desejam outra coisa a vida é como
um pêndulo entre a dor e o tédio. No fim, o
destino é a solidão atroz, pois cada um, no mais
profundo, está sempre sozinho. Depois, é a
morte.
Devemos ser optimistas ou pessimistas? O
mundo tal como se nos apresenta exige o
optimismo ou a única atitude razoável é o
pessimismo? O optimismo celebra o óptimo, que
é o superlativo absoluto simples de bom. O
pessimismo deixa-se derrotar pelo péssimo, que
é o superlativo absoluto simples de mau.

Mas o mundo nem é óptimo nem é péssimo.
O mundo é ambíguo, uma mistura de bem e de
mal. E nele fazemos experiências negativas de
contraste: deparamo-nos com a negatividade,
mas sempre como aquilo que não devia ser, isto
é, em confronto com a positividade. Isto
significa que nos vivemos a nós mesmos no
mundo na perplexidade. O mundo não nos
aparece como completamente absurdo e, por
isso, perguntamos, à procura de um sentido, de
sentido último.

A própria Bíblia, que é toda atravessada
pela esperança, não é de modo nenhum ingénua
nem ignora o horror do mundo. O livro de Job é
paradigmático. Job, inocente, açoitado pela
desgraça, ousa erguer a voz em quase blasfémia,
quer levar Deus a tribunal e chega a amaldiçoar
ter nascido: “Job tomou a palavra e disse:
‘Desapareça o dia em que nasci e a noite em que
foi dito: ‘Foi concebido um varão!’ Porque não
morri no seio da minha mãe? Por que razão foi
dada luz ao infeliz e vida àqueles para quem só
há amargura? Esses esperam a morte que não
vem e procuram mais do que um tesouro; esses
saltariam de júbilo e se alegrariam por chegar ao
sepulcro.”

De qualquer modo, no meio de uma história
de calvário, a Bíblia é uma gritaria por
liberdade, salvação e sentido.

Num mundo comum ambíguo, onde há bem
e há mal, um lugar para o espanto positivo e o
espanto negativo, para horas de exaltação sem
nome e para horrores de abismo sem fim, o ser
humano, pela sua própria natureza o ser da
pergunta, é inevitavelmente confrontado, de
pergunta em pergunta, com a pergunta pelo
Fundamento último e do Sentido último, isto é,
a pergunta por Deus.

Assim, neste enquadramento, como
escreveu o eminente teólogo, meu querido
amigo, Andrés Torres Queiruga, estamos
confrontados com a religião e, na estrutura
íntima do processo religioso, “não se interpreta
o mundo de uma determinada maneira porque
se é crente ou ateu, mas é-se crente ou ateu
porque a fé ou a não crença aparecem ao crente
e ao ateu, respectivamente, como a melhor
maneira de interpretar o mundo comum.”
Evidentemente, também se poderá ser
agnóstico.

Sábado, 14 de Março de 2026