domingo, 3 de março de 2024

Na Igreja, o serviço realista e eficaz - Pe Anselmo Borges

 Na Igreja, o serviço realista e eficaz

Anselmo Borges
02 março 2024

Quando se fala em Igreja, é difícil não se ser confrontado com uma situação complexa. De
facto, ela aparece frequentemente como uma hierarquia soberana e longínqua, que
comanda, que proíbe, uma instituição de poder.

Num primeiro momento, a Igreja pode até surgir como uma hiperorganização, tendo à
frente um monarca (o Papa), com os seus ministros (cardeais da Cúria romana), e também
altos funcionários (núncios ou embaixadores do Vaticano, espalhados pelo mundo, e bispos)
e ainda médios e pequenos funcionários (cónegos, padres).

Será assim? Vejamos. A palavra igreja em português (iglesia em castelhano, église em
francês) vem do grego Ekklesía. Ora, a Ekklesía era a assembleia do povo. No alemão
(Kirche), no inglês (Church), etc, a origem é outra: Kyrike (forma popular bizantina), com o
significado de “pertencente ao Senhor” (Kyrios, em grego) e, por extensão, “casa ou
comunidade do Senhor”. De qualquer modo, na dupla etimologia, a Igreja, no Novo
Testamento, significa a assembleia daqueles que acreditam em Jesus, que crêem nele como
o Messias e se tornaram seus discípulos, querendo segui-lo, fazendo durante a vida o que
ele fez e confiando nele na própria morte, esperando também a ressurreição. A Igreja desde
o início considerou-se a si mesma como a assembleia dos fiéis a Cristo, dos que pertencem
ao Senhor: o sinal dessa pertença é o baptismo e reuniam-se, celebrando, na Ceia, a sua
memória, “até que ele venha”.

Evidentemente, sendo constituída por homens e mulheres, a Igreja precisou de dar-se a si
mesma o mínimo de organização. Por isso, nela, há diferentes funções e serviços. A palavra
correcta é precisamente serviços. O Novo Testamento não fala de hierarquia (poder
sagrado), mas de diaconia, que quer dizer ministério, serviço (mas também os Ministros
não esqueceram já que ministro é aquele que serve?).

Que é que isto tudo quer dizer? A Igreja não é, na sua raiz, uma hiperorganização, mas
assembleia convocada por Deus e reunida em Cristo. Então, o papa, antes de papa, é cristão;
o bispo, antes de ser bispo, é cristão, um seguidor de Cristo; um cardeal, um cónego, um
padre são discípulos de Cristo, que têm uma missão de serviço. Que devem servir, como
qualquer cristão. Não há de um lado a hierarquia que manda e do outro os cristãos leigos
que obedecem. Há sim a comunidade dos que acreditam em Cristo, que procuram ser seus
discípulos e que obedecem uns aos outros, escutando-se uns aos outros, no Espírito Santo, e
que prestam serviços uns aos outros e a todos os homens e mulheres, jovens e crianças do
mundo, segundo os dons e as tarefas que foram dados a cada um para bem de todos.

Neste sentido, o cristão não acredita na Igreja, o que faz é professar o Credo cristão a fé
em Deus e no ser humano em Igreja. Ao serviço eficaz da humanidade toda.
Precisamente neste contexto de serviço, um serviço realista, operativo, pergunta-se se se
justifica a existência do Vaticano como Estado. Fica aí uma breve citação de uma profunda
reflexão de Paulo Rangel no Posfácio ao meu recente livro A Igreja e o Mundo. Que futuro?,
para o qual remeto.

Escreve: “São muitos os que apoiam uma ‘despolitização’ do Vaticano e da Igreja,
reconduzindo-o às suas missões puramente espirituais e pastorais. Há quem diga até que,
com a diversificação dos sujeitos da sociedade internacional que agora já não são somente
os Estados, à maneira tradicional , sobejaria espaço para uma entidade como a Igreja
Católica ter margem de manobra internacional, sem ter de se alcandorar à natureza de um
Estado. A questão é pertinente, insisto. Mas curiosamente são as próprias reflexões de
Anselmo Borges sobre os grandes desafios da Humanidade e do mundo que me ajudaram a
encontrar uma resposta. Compreendo bem a complexidade da questão e conheço-a até da
minha formação como jurista dedicado às coisas do direito público. Quando olho para o
Vaticano e para a sua actuação internacional, designadamente através da respectiva rede
diplomática e das missões diplomáticas, vejo uma total consonância com o espírito
evangélico e com a preocupação com os destinos da Humanidade no seu todo. São
incontáveis os exemplos da actuação benigna e benfazeja das missões diplomáticas da Santa
Sé e são deveras corajosas as tomadas de posição, mesmo contra as opções de política
internacional das maiores potências. Os Papas bem como os serviços diplomáticos da Santa
Sé têm naquele reconhecimento jurídico da natureza estadual um instrumento de exercício
do seu múnus profético. Um múnus de denúncia, de intermediação, de presença, de
influência. A missão profética da Igreja, no plano global na aludida dimensão comunitária
, é altamente potenciada por esta estrutura institucional. Se recensearmos as grandes
encruzilhadas em que se encontra a Humanidade, que o nosso Autor tão bem retrata, é
muito fácil perceber como a natureza institucional e estadual da Igreja e da sua cúpula
confere uma capacidade de acção, de denúncia e de influência sem paralelo. As negociações
entre partes desavindas, as visitas papais, a denúncia de perseguições e violências, a
organização de missões de emergência humanitária só são possíveis e só têm alcance e
visibilidade em razão daquela vertente político-institucional do Vaticano. A pergunta que
tem de se fazer vem a ser a que segue: o mundo estaria melhor e os humanos viveriam
melhor se a Igreja não dispusesse deste ‘aparelho’ estadual? É evidente que não.”

Padre e professor de Filosofia. Escreve de acor

TEOLOGIA E REVOLUÇÃO CULTURAL Frei Bento Domingues

 

1. S. Tomás de Aquino, dominicano, nasceu em 1224/1225 e morreu a 7 de Março de 1274. Era este, aliás, o dia tradicional da sua festa que, agora, se celebra a 28 de Janeiro.

Foi condenado no terceiro aniversário da sua morte, pelo Bispo de Paris, Estêvão Tempier, canonizado por João XXII, em 1323, e declarado Doutor da Igreja a 28 de Janeiro de 1567 por Pio V.

Leão XIII, em 1892, atreveu-se a dizer que «se se encontram doutores em desacordo com S. Tomás, qualquer que seja o seu mérito, a hesitação não é permitida: sejam os primeiros sacrificados ao segundo». O Concílio Vaticano II aconselhou que S. Tomás seja seguido nos Seminários e nas Universidades católicas. Paulo VI, comentando esse facto, disse: «é a primeira vez que um Concílio Ecuménico recomenda um teólogo e este é, precisamente, S. Tomás de Aquino».

2. Umberto Eco fez uma tese sobre a estética de S. Tomás de Aquino e nunca mais esqueceu esse revolucionário que, «em quarenta anos, mudou toda a política cultural do mundo cristão». Desconstruiu, com ternura e humor, o rol de sufocantes e vazios panegíricos eclesiásticos. Não considerou que a desgraça de frei Tomás de Aquino tenha sido a sua condenação por Tempier nem pelas condenações que se seguiram em Oxford até 1284. O que arruinou a sua carreira aconteceu em 1323, dois anos depois da morte de Dante, precisamente quando João XXII o canonizou. Fez dele "São" Tomás de Aquino! Aventura ingrata. É como receber o Prémio Nobel, entrar na Academia de França, ganhar um Óscar. Passa-se a ser como a Gioconda: um cliché. É o momento em que um grande incendiário é nomeado bombeiro[1].

 No sétimo centenário da sua morte, perguntou U. Eco: o que faria este teólogo se vivesse hoje? Os seus comentários já não seriam sobre Aristóteles e «aperceber-se-ia que não podia nem devia elaborar um sistema definitivo, como uma arquitectura acabada, mas uma espécie de sistema móvel, uma Suma de folhas substituíveis, porque na sua enciclopédia das ciências entraria a noção de provisoriedade histórica. Não sei dizer se ainda seria cristão. Julgo que sim. Sei, de certeza, que participaria nas suas comemorações apenas para nos recordar que não se trata de decidir como usar ainda aquilo que ele pensou, mas de pensar outra coisa. Ou, no máximo, de aprender com ele como fazer para pensar com limpeza, como um homem do nosso tempo. Depois disso, não queria estar na sua pele»[2].

Tomás de Aquino separou-se do positivismo teológico que o precedeu, do uso de exclusivos argumentos da autoridade revelada, que apenas documentam a fé, mas não explicam como é que é verdade aquilo que a Igreja confessa ser verdade. A fé cristã não é um calmante, mas o excitante da inteligência e dos afectos. Não cultiva a ignorância em nome de Deus, cuja existência não é evidente. Não dispensa, mesmo no interior da fé, os caminhos para a afirmação da Sua existência, não procurando, porém, saber como Deus é – algo impossível – mas, sobretudo, como Deus não é[3]. Uma teologia anti idolátrica.

Trabalhou num contexto de grande efervescência cultural, no encontro do pensamento grego, árabe, judaico e latino. Na sua elaboração teológica, convergiam todos os saberes do seu tempo. Como diz K. Rahner, um dos seus discípulos do século XX, Tomás é um místico consciente de que Deus está para além de qualquer possibilidade de expressão, mas nunca cedeu à preguiça mental e à mediocridade intelectual; não dispensava o exercício da inteligência mesmo no acolhimento da revelação da esperança[4].

Sustentava que, de Deus, tanto mais saberemos quanto mais nos dermos conta de que não sabemos. Da sua experiência mística, no final da vida, brotou a confissão: tudo o que escrevi parece-me palha! No entanto, cantou numa belíssima poesia iluminista: atreve-te quanto puderes! Em suma: ousar e ser lúcido acerca dos limites da nossa ousadia.

Não é fácil de entender como conseguiu produzir uma obra filosófica, bíblica e teológica tão vasta em tão poucos anos. Do próprio punho não escreveu muito. Tinha má caligrafia, mas uma inteligência luminosa, uma memória extraordinária ao serviço de uma investigação constante. As oscilações de opinião eram pautadas pelas novas bibliotecas que frequentava, segundo o itinerário das suas viagens. Quem lhe valeu foram os secretários a quem ditava, por vezes, a 3 ao mesmo tempo.

Era muito sereno e silencioso, mas se o provocavam, não recusava a polémica e não se exprimia como um santinho. Bebeu em todas fontes de conhecimento que o seu mestre, o enciclopédico Alberto Magno, lhe proporcionou[5].

 3. O caminho que abriu não é bem servido pela ignorância do seu legado – filosófico e teológico – nem pela sua obsessiva repetição. Ser discípulo é ser fiel ao espírito da sua criatividade, ter a noção da mudança cultural, introduzida pelo Renascimento. Assim aconteceu, nos séculos XV e XVI, perante a descoberta do Novo Mundo de muitas culturas.

No século XX, os repetidores de S. Tomás foram os seus coveiros, mas os que entraram no seu espírito, no meio de muita repressão do Santo Ofício, conseguiram obras e realizações de ousada criatividade. Estou a lembrar-me das fundações da Escola Bíblica de Jerusalém, do Instituto Dominicano de Estudos Orientais (Cairo), das Edições do Cerf, do Centro francês de pastoral litúrgica, do Centro Economia e Humanismo do P. Lebret, dos movimentos de renovação da arte sacra de A. Couturier e P. Regamey, da música litúrgica de A. Gouzes, das propostas e das práticas de teologia literária, como as de J.-P. Jossua e J. A. Mourão. Os teólogos que prepararam e marcaram o Vaticano II, de forma muito sofrida, como D. Chenu, Y. Congar, E. Schillebeeck, são mundialmente conhecidos e estudados.

Há, no entanto, muitos desafios novos no campo teológico. O Papa Francisco tem dirigido repetidas exortações à teologia que falta fazer no mundo actual. Não tem sido muito bem sucedido, mas enquanto há vida, há esperança de conversão[6].

Que a criatividade de Tomás de Aquino nos ajude e nos afaste dos repetidores do mesmo.

 

 

03 Março 2024



[1] Cf. Um Santo inquietante (29.01.2006)

[2] Cf. Suma Teológica de folhas substituíveis (31.01.2010)

[3] I q.3, prol.

[4] Cf. Regressam as interrogações fundamentais (29.01.2012)

[5] Aconselho Mário A. Santiago de Carvalho, Ler São Tomás, Hoje? In Revista Filosófica de Coimbra, nº 7, Vol. 4 (1995), pp. 103-130. Está disponível na Internet. Ver também do mesmo autor, Tomás de Aquino. O ente e a essência, Afrontamento 2013 com boa selecção bibliográfica.

[6] Cf. Papa Francisco, Motu Proprio, Ad theologiam promovendam (2023)

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Do Monte Tabor ao Monte do Templo - Pe. Manuel João, MC

 Do Monte Tabor ao Monte do Templo

Ano B - Quaresma - 3º Domingo
João 2,13-25: “Não façais da casa de meu Pai casa de comércio!”

Eis-nos chegados ao terceiro domingo da Quaresma. Do deserto (para um encontro profundo connosco mesmos) subimos ao Tabor com Jesus (para um encontro transfigurador com Deus). Hoje subimos a Jerusalém, ao Templo do Senhor, para rever e purificar a nossa relação com Deus. Vamos com Jesus em peregrinação porque se aproxima a Páscoa, a festa por excelência, a festa da nossa libertação. 

A primeira Páscoa, o ponto de partida 

O evangelho que nos guia nesta visita ao Templo já não é Marcos, mas João. Curiosamente, o evangelista SJoão situa esta Páscoa no início da vida pública de Jesus, enquanto os sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas) a situam no fim do seu ministério, alguns dias antes de ser condenado e crucificado. Para S. João é o ponto de partida, para os outros evangelistas é o ponto de chegada. Este facto não nos deve surpreender, se tivermos em conta que as narrativas estão alinhadas de acordo com o objetivo catequético de cada evangelho. Note-se também que só S. João nos fala de três Páscoas durante a vida pública de Jesus (cf. Jo 2,13; 6,4; 11,55), enquanto os sinópticos falam apenas de uma, a última. O relato de João é mais articulado e fornece-nos dados históricos valiosos, enquanto os sinópticos narram o evangelho de forma mais linear, como se todo o ministério de Jesus fosse orientado e se desenrolasse em função daquela única Páscoa da sua paixão, morte e ressurreição. 

Esta Páscoa é a que é conhecida como a da “purificação do Templo”. Jesus “encontrou no templo os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas sentados às bancas”. Perante esta visão, Jesus enfureceu-se: “fez então um chicote de cordas e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas e os bois; deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou-lhes as mesas”. Nunca se tinha visto tal coisa desde o tempo dos profetas! O gesto de Jesus é um acto de provocação, um gesto profético de indignação. O profeta Malaquias (3,1-6) tinha dito que o Messias, “como o fogo da fundição e como a lixívia das lavadeiras”, purificaria o Templo e o culto. É por isso que os chefes religiosos lhe perguntam o significado desse gesto: “Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?”

A purificação do Templo do nosso coração

Qual é o significado profundo deste episódio para nós, hoje? Em que é que ele nos interpela? Limitar-me-ei a apresentar quatro aspectos.

1) A cólera do “Leão de Judá”. Estamos habituados a ver um Jesus “manso e humilde de coração” e, por isso, ficamos espantados e perplexos com a sua reação. Não nos apressemos a descrever esta cólera como “santa”, mas antes... saudável! Jesus, o Filho de Deus, é verdadeiro homem e conhece todos os nossos sentimentos de reação aos acontecimentos. Como é que este gesto deve ser interpretado? O evangelista oferece-nos a chave: “Os discípulos recordaram-se do que estava escrito: «Devora-me o zelo pela tua casa» (Salmo 69,10). Esta cólera de Jesus põe em causa uma certa atitude nossa de “pescoço torto” e “sem espinha dorsal”. Sim, ele é “o Cordeiro de Deus”, mas é também “o Leão de Judá” (Apocalipse 5,5), e assim devem ser os seus discípulos. O nosso problema é que, quando deveríamos ser “leões”, comportamo-nos como “cordeiros”, por medo e cobardia. Quando deveríamos ser “cordeiros”, comportamo-nos como “leões”, movidos pela violência e pela agressividade!

2) A combinação de Deus com o dinheiro! “Não façais da casa de meu Pai casa de comércio!”. Eis a denúncia profética de Jesus: o deus mamon tinha-se apoderado do Templo de Deus! A Páscoa era a grande ocasião para os negócios, para a venda de animais para os sacrifícios, para a troca de moeda, para os que vinham da diáspora, e do dinheiro que circulava no Templo, onde não se podia entrar com a moeda “profana” com a efígie do César. Além disso, era na Páscoa que entrava o imposto do Templo. Naqueles dias, corria um rio de dinheiro, gerido pela classe sacerdotal, especialmente pela família dos sumos sacerdotes, Anás e Caifás. Só para termos uma ideia, o Templo de Jerusalém era considerado o maior “banco” do antigo Médio Oriente. Não nos precipitemos e pensemos que esta denúncia não nos diz respeito ou, quando muito, diz respeito à Igreja institucional. Na realidade, todos nós corremos o risco de servir o deus dinheiro e que este ídolo ocupe o lugar de Deus nos nossos corações!

3) A era dos “sacrifícios” acabou! Tirai tudo isto daqui!”, diz Jesus aos vendedores, expulsando do Templo os animais para os sacrifícios. Mas, se não há animais, como é que se fazem os sacrifícios! Se não há cordeiro, como é que se celebra a Páscoa? A era dos sacrifícios acabou; é tempo de dar um passo em frente nesta religiosidade pagã que pretende agradar a Deus com sacrifícios. Deus é livre no seu amor; não quer sacrifícios, mas justiça, amor e compaixão! Não tomemos este passo por garantido. Todos somos tentados a pensar que Deus nos ama se... formos bons; se cumprirmos certos deveres; se formos à missa ao domingo! Certas práticas correm o risco de serem feitas com uma verdadeira mentalidade mercantil, uma forma de comprar o favor de Deus. Somos facilmente “religiosos”, mas somos lentos a ter fé!

4) Jesus, o novo Santuário. “Destruí este templo e em três dias o levantarei”, responde Jesus enigmaticamente aos chefes religiosos. Os seus discípulos só o compreenderão após a ressurreição: “Jesus, porém, falava do templo do seu corpo...” Jesus dirá à mulher samaritana: “Está a chegar a hora - e é agora - em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade” (João 4,23). Jesus é o novo e definitivo Templo.Já não existe um espaço e um tempo sagrados que possam circunscrever a presença de Deus. No Novo Testamento, há a convicção de que o cristão está associado a este novo Templo e à nova liturgia. S. Pedro diz: “Como pedras vivas, sois também vós edificados como um edifício espiritual, para serdes sacerdócio santo e oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” (1 Pedro 2,5). S. Paulo diz também: “Não sabeis que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus destruí-lo-á” (1 Coríntios 3,16-17). Actualmente, há uma consciência crescente de que não só o cristão, mas todos os homens e mulheres são um templo de Deus que deve ser respeitado!

Reflexão para a semana

1) Confrontar-se com os quatro aspectos acima mencionados para purificar o Templo do nosso coração. Peçamos ao Senhor que intervenha em nós com o “chicote” da sua Palavra!
2) Perguntemo-nos até que ponto cresceu em nós a consciência de que cada homem/mulher é o Templo de Deus.

P. Manuel João Pereira Correia, mccj
Verona, 28 de fevereiro de 2024

NB. Para a reflexão completa, ver: https://comboni2000.org/2024/02/28/la-mia-riflessione-domenicale-dal-monte-tabor-al-monte-del-tempio/ p.mjoao@gmail.com
https://comboni2000.org

 

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

7MARGENS E 7MONTES Frei Bento Domingues, O.P.

 

1. O Jornal digital 7Margens fez 5 anos no passado dia 7 de Janeiro. Em 2019, nasceu da vontade de um pequeno grupo de jornalistas especializados que encontrou eco entre vários grupos que, então, contactaram. Como eles próprios dizem, no horizonte deste jornal, estavam algumas preocupações: o cada vez menor lugar dado ao fenómeno espiritual e religioso pelos média generalistas; a falta de um espaço onde os crentes (sobretudo os católicos, expressão ainda maioritária no país) possam debater ideias, quer sobre o que se passa no interior das suas comunidades, quer sobre a relação da sua fé com a sociedade; a ausência de expressão pública das minorias religiosas; a falta de maior atenção a vários temas ligados aos direitos humanos, ao cuidado da casa comum e à justiça social[1].

É já uma referência na informação e no aprofundamento do debate religioso. Entretanto, mostrou a sua fecundidade com um novo título: 7Montes.

Este novo Jornal digital resultou de uma iniciativa sem fins lucrativos lançada pelo 7Margens e selecionada, no passado mês de Dezembro, para receber o financiamento do programa europeu Local Media for Democracy, destinado a servir comunidades locais que residam em áreas consideradas «desertos noticiosos». Centrado na realidade de Trás-os-Montes, o 7Montes pretende, através da difusão de notícias, histórias e realidades, «apoiar a capacidade de gerar futuro» naquela que é uma das regiões mais isoladas e esquecidas de Portugal[2].

2. De Trás-os-Montes, era o Frei Augusto José Matias (1947-2024), falecido no passado dia 17. Este dominicano nasceu na freguesia de Franco, concelho de Mirandela. Entrou na Ordem dos Pregadores (Dominicanos) a 4 de Agosto de 1965. Foi ordenado diácono em Maio de 1981.

O frei Matias viveu marcado por questões sociais. Foi animador cultural em bairros degradados integrado num projecto da UNESCO, para dois bairros – Curraleira (Lisboa), Estrada de Benfica (Amadora) – sobre «educação social, alfabetização, questões de higiene ambiental, planeamento familiar, além de outros apoios mais de circunstância». Para a mesma paisagem social, editou os Cadernos Libertar com uma metodologia, próxima de Paulo Freire, com o título, Isto tem que mudar.

Na sua configuração, a reflexão teológica era também uma preocupação constante. Entre 1977 a 1991 editou o jornal Libertar que apresentou deste modo: «Pretende dar notícia da Igreja portuguesa, textos de reflexão aproximada desses acontecimentos e tratar problemas mais importantes entre a Igreja e a política. Fazer textos simples sobre o Evangelho, teologia simples e popular».

Todas as celebrações da Eucaristia são uma resistência contra a morte, não morrerás. O Frei José Nunes, OP, foi o que nos disse no funeral do Frei Matias, lembrando-nos as muitas facetas da vida deste nosso Irmão.

O Frei Matias não precisou da vinda do Papa Francisco para entender e viver a recusa radical de estatutos de grandeza. Nem sequer quis ser padre e trabalhou silenciosamente, durante muitos anos, numa tipografia.

Lutou pela defesa da justiça e partilha de vida com os mais pobres. Foi militante antifascista, membro do CIDAC (que deu seguimento ao Boletim Anti-Colonial), activista em numerosos grupos de Justiça e Paz, trabalhador silencioso em bairros de barracas (as favelas de Lisboa…).

Simultaneamente, gastou grande parte dos seus anos a servir os irmãos nas comunidades de Lisboa, Barreiro ou Fátima, como ecónomo conventual, ecónomo provincial, Procurador das Missões, etc. Foi também, durante muitos anos, o grande animador do ISTA (Instituto São Tomás de Aquino).

Soube viver na alegria, dando alegria aos outros. Este filósofo e poeta dizia: «Eu rio-me do riso»! Mas não tolerava a solidão da sua mãe e, por isso, foi durante anos cuidar dela.

A este Irmão diz o livro do Apocalipse: «Bem-aventurados os que dormem no Senhor, porque agora descansam dos seus trabalhos e as suas obras os acompanham».

Não me admira a notícia de que existem várias iniciativas para não deixar morrer o seu exemplo.

3. No Domingo passado, quando me referi à Quaresma, foi na perspectiva e com as palavras do Papa Francisco: vencer com alegria as mil tristezas que nos assaltam.

O olhar inicial de Jesus não se dirigia ao pecado, mas ao sofrimento. Esta é a metáfora de todos os milagres: do paralítico, do coxo, do cego, do leproso, do defunto, etc. Para Ele, pecar era virar as costas ao sofrimento dos outros, negar-se a não estar junto de quem sofre.

A narrativa de S. Marcos, que a liturgia de hoje nos apresenta, mostra-nos uma igreja em movimento. Pedro, Tiago e João são figuras alteradas, modificadas e sempre expostas a novas transfigurações.

Estes discípulos preferiam o sossego do passado: Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés, outra para Elias. Não sabiam o que diziam, pois estavam atemorizados. Veio então uma nuvem que os cobriu com a sua sombra e da nuvem fez-se ouvir uma voz: Este é o meu Filho muito amado: escutai-O. De repente, olhando em redor, não viram mais ninguém, a não ser Jesus, sozinho com eles. Ao descerem do monte, Jesus ordenou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, enquanto o Filho do homem não ressuscitasse dos mortos. Eles guardaram a recomendação, mas perguntavam entre si o que seria ressuscitar dos mortos[3].

A Ressurreição é considerada a expressão máxima da fé cristã. Repetimos isto muitas vezes, mas esquecemo-nos de perguntar o que é que isso significa. Significa que que não podemos consentir no mundo como ele está, tudo isto tem que mudar (Frei Matias). Acreditar na Ressurreição é uma forma de resistir à morte.

 

        25 Fevereiro 2024



[1] Cf. 7Margens, 06. 01. 2023

[2] Cf. Clara Raimundo, 7Margens, 24. 01. 2024

[3] C. Mc 9, 2-10

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Livres. Para onde queremos ir? - Pe. Anselmo Borges, Prof de Filosofia

 Livres. Para onde queremos ir?

Anselmo Borges

24 fevereiro 2024

Aparentemente, não há nada que o ser humano tanto preze como a liberdade. Mas, tendo de

optar entre a segurança -- intelectual, espiritual, social, política, religiosa... -- e a liberdade,

não se sabe quantos ficariam do lado da liberdade e não da segurança.

Dostoiévski disse-o de modo ácido e também sublime num texto em que também se critica

a Igreja de Roma. Fá-lo em Os Irmãos Karamázov, no poema de Ivan com o nome O Grande

Inquisidor.

A história passa-se em Espanha, em Sevilha, nos tempos terríveis da Inquisição,

precisamente no dia a seguir a um “magnificente auto-de-fé” em que foram queimados de

uma assentada, na presença do rei, da corte, dos cardeais e das damas mais encantadoras da

corte e da numerosa população de Sevilha, quase uma centena de hereges. Cristo “apareceu,

devagarinho, sem querer dar nas vistas e... coisa estranha, toda a gente O reconhece.” Mas o

cardeal inquisidor aponta o dedo e manda que os guardas O prendam. E é num calabouço do

Santo Ofício que lhe diz que no dia seguinte O queima na fogueira como ao pior dos hereges.

E a razão é que a liberdade de fé tinha sido para Cristo a coisa mais preciosa. Não foi Ele que

disse tantas vezes: “Quero tornar-vos livres?”

Cristo, afinal, não percebeu que “o Homem não tem preocupação mais torturante do que

encontrar alguém em quem possa delegar o mais depressa possível a dádiva da sua

liberdade.” “Em vez de Te apoderares da liberdade das pessoas, acrescentaste ainda mais à

sua liberdade!”, diz-lhe o inquisidor. “Esqueceste-Te de que a tranquilidade e até a morte

são mais queridas para o Homem do que a escolha livre do bem e do mal? Não há nada mais

sedutor para o Homem do que a liberdade da sua consciência, mas também não há nada

mais torturante.” Assim, ao longo de quinze séculos, os hierarcas eclesiásticos corrigiram a

façanha de Cristo, baseando-a em milagre, mistério e autoridade. Agora, todos sabem em

que é que hão-de acreditar e o que é que hão-de fazer, sem terem de perguntar porquê nem

de escolher. “E as pessoas ficaram contentes por serem de novo guiadas como um rebanho e

por ter sido tirada dos seus corações a dádiva terrível que tanto sofrimento lhes causava.”

Como única resposta o prisioneiro beijou-o, e o velho cardeal vai até à porta, abre-a e diz:

“Vai-te embora e não voltes mais... não voltes... nunca, nunca!”.

O ser humano angustia-se com a liberdade. Porque ser livre quer dizer ser senhor de si e

dos seus actos e ter de escolher e ter de responder por si e pelo mundo e pelos outros. Ter

de escolher é para o ser humano, que quer tudo e todos os caminhos, ter de escolher algo e

um caminho só de cada vez e ter de renunciar a tantas outras possibilidades, sem poder

ficar com tudo, na consciência disso. Ser livre quer dizer entrar na urgência de um projecto

e poder falhar e, num tempo irreversível, que inexoravelmente caminha para a morte,

nunca mais ter tempo para remediar, para refazer, para fazer outra coisa e um ser si mesmo

outro: é tudo sempre pela primeira e última vez, sem ensaios...

A angústia da liberdade e da responsabilidade e a busca falaz da segurança explicam a

facilidade da entrega a poderes totalitários, a seitas cegas, a colonizadores de corpos e de

almas, a vendedores de “verdades e certezas” tapadas e irracionais.

A liberdade é condição de possibilidade da ética. Mas até do ponto de vista da raiz

etimológica grega -- ethos com épsilon e ethos com eta, que significam, respectivamente,

acção, costume, modo habitual de agir, e toca do animal, morada, casa -- se diz que a questão

ética é indissociável da pergunta pela nossa morada enquanto horizonte de sentido, pátria

onde se quer habitar. Sim! Afinal, para onde queremos ir? Na presente situação de

hecatombe político-moral no país e no mundo, para onde vamos sem uma conversão ética?

Ao contrário do animal, que vem ao mundo já feito e age no quadro de uma rede de

instintos, o homem vem ao mundo praticamente desarmado de instintos e aberto a

possibilidades sem conta e tendo de fazer-se a si mesmo no mundo com os outros. Pode

escolher entre esta e aquela possibilidade, até tem a capacidade de não escolher, mas quem

tenta escolher não escolher também escolhe. De qualquer modo, é capaz de erguer-se a si

mesmo acima do simplesmente agradável ou útil e colocar-se no lugar do outro. Transcende

os interesses particulares da natureza e enquanto ser racional dá a si mesmo de modo

autónomo a lei moral universal que é a lei da liberdade. Kant formulou-a nestes termos:

“Age segundo uma máxima que queiras ao mesmo tempo que se transforme em lei

universal de acção”, ou então: “Trata a humanidade em ti e nos outros sempre como fim e

nunca como simples meio.”

Sem capacidade moral e liberdade -- a liberdade é a condição de possibilidade da

moralidade e, consequentemente, da responsabilidade --, o Homem não seria digno de

louvor nem estaria sujeito à censura, e não haveria distinção entre o bem e o mal. Como

escreveu o filósofo Luc Ferry, “um materialismo consequente deveria limitar-se, sempre, a

uma ‘etologia’, sem nunca falar de moral a não ser como uma ilusão mais ou menos

necessária, fazendo parte do real mas, sem embargo, enganadora”. Embora condicionado, só

porque não é completamente subordinado nem guiado pela natureza é que o ser humano

“pode cometer excessos, quer no mal (o ódio e a maldade) quer no bem (o amor e a generodidade.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Domingo das Três Montanhas - Pe.Manuel João, mc

 Domingo das Três Montanhas - Ano B - Quaresma - 2º Domingo 

Mateus 9,2-10: "Rabi, é bom para nós estarmos aqui!"

No domingo passado, o Espírito Santo conduziu-nos com Jesus ao deserto para enfrentarmos "os nossos demónios" e sairmos vitoriosos como Jesus, o novo Adão. A luta não acabou, os demónios voltarão "no momento oportuno", mas não podemos ficar aqui. O nosso caminho quaresmal inclui várias etapas, seis para ser exato, tantas quantas os domingos da Santa Quaresma. 

1. Do deserto para a montanha

Se no primeiro domingo da Quaresma lhe chamámos "das tentações", no segundo poderíamos chamar-lhe "das montanhas". De facto, a primeira leitura fala do monte Mória, onde Abraão tinha ido oferecer o seu filho Isaac, um monte que a tradição identificou com o monte do Templo de Jerusalém. No evangelho, trata-se de "um monte alto", da Transfiguração, que a tradição considera ser o monte Tabor, na Galileia. No fundo destes dois, vislumbramos um terceiro monte: o Gólgota! 

Hoje o Senhor leva-nos consigo e conduz-nos a esse "alto monte" do Tabor. Talvez alguns de nós já lá tenham estado e apreciado a vista ampla e bela que oferece. Hoje, porém, não vamos lá como turistas ou caminhantes, nem sequer como peregrinos. Vamos lá como discípulos, personificados pelos três amigos íntimos de Jesus: Pedro, Tiago e João. Para o podermos fazer, temos de nos identificar com a sua situação. Estão a atravessar um mau momento de crise. Seis dias antes, tinham feito a sua profissão de fé. À pergunta de Jesus: "Quem dizes que eu sou?", Pedro tinha respondido em nome de todos: "Tu és o Cristo!". Jesus, no entanto, tinha-os gelado com um anúncio sem precedentes, dizendo-lhes que não era o Messias que esperavam, mas que o esperavam o sofrimento e a morte, antes de ressuscitar ao terceiro dia. Pedro sentiu-se obrigado a admoestá-lo, afastando-se, mas Jesus repreendeu-o duramente diante de todos: "Para trás de mim, Satanás!" Depois, com uma atitude de grande desprendimento que entristeceu profundamente o coração de todos, disse: "Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me!”. Como se dissesse: ou isso ou vai para casa, és livre! O escândalo da cruz foi a primeira grande tentação do discípulo!

Podemos imaginar como foi difícil e cansativa a subida da montanha. Não tanto pela subida de cerca de 500 metros - com Jesus tinham-se tornado grandes caminhantes! - mas por causa do pesado lastro que levavam no coração. É uma experiência que também nós conhecemos, a não ser que tenhamos levado a sério esta palavra de Jesus na cruz! 

2. O mistério do Rosto e dos rostos!

Ouvimos do Evangelho a narração do que aconteceu na montanha: uma experiência apaixonante de beleza e de luz; de encontro entre o humano e o divino; de diálogo entre a Palavra (Cristo) e a Torah (Moisés) e os Profetas (Elias); de admiração sagrada ao entrar na nuvem luminosa; de escuta da Voz que proclama: "Este é o meu Filho, o Amado: escutai-o!"... É uma antecipação da experiência da ressurreição de Jesus e da nossa bem-aventurança! 

Esta experiência não está reservada a alguns escolhidos, mas é oferecida a cada um de nós. É certo que de uma forma mais humilde, mas nem por isso menos verdadeira. Sem ela, a fé ficaria privada da alegria do Evangelho e a vida cristã tornar-se-ia um fardo insuportável. A Quaresma é um tempo propício para fazer esta experiência. Mas sob certas condições! Antes de mais, é preciso ter a coragem de deixar a "planície" e enfrentar a subida da montanha. Depois, parar durante muito tempo no cume, em oração de contemplação. Isto dá-nos uma perspetiva totalmente nova da existência. Por fim, descemos ao vale renovados para retomar a vida com novo vigor, guardando no coração a Luz e a Palavra desse encontro. A Transfiguração é um ícone de oração. Na iconografia oriental, o ícone da Transfiguração é o verdadeiro exame do iconógrafo, porque todos os outros ícones são iluminados pela luz do Tabor!

A fonte desta luz é o rosto de Cristo. "O seu rosto brilhava como o sol", diz Mateus (17,2). Todos nós procuramos esse rosto, como diz o salmista: "O teu rosto, Senhor, eu procuro! (Salmo 23). Esse rosto revela-nos a nossa identidade mais profunda, o nosso verdadeiro rosto, por detrás das muitas máscaras e maquilhagens. Desse encontro, saímos transfigurados, com o rosto radiante, como Moisés ao sair da presença de Deus (Êxodo 34,35). 

Só quem contemplou a beleza desse Rosto pode reconhecê-lo também no "Ecce Homo" e em todos os rostos marcados pelo sofrimento e pela injustiça e, por isso, trabalhará para secar as lágrimas e curar as feridas dos que sofrem! 

3. De cruz em cruz ou de glória em glória?

A vida cristã é uma experiência de transfiguração contínua até à transfiguração final da ressurreição. Considero muito eloquente um texto de S. Paulo: "E todos nós, com o rosto descoberto, reflectindo como um espelho a glória do Senhor, estamos a ser transformados nessa mesma imagem, de glória em glória, segundo a ação do Espírito do Senhor". (2 Coríntios 3:18). 

Esta visão paulina da vida do cristão contrasta com o nosso entendimento da fé como um vaguear de cruz em cruz para chegar ao céu. Em vez disso, Paulo diz-nos que vamos de transfiguração em transfiguração, de glória em glória, até à Transfiguração final. Esta é uma visão muito mais bela e desafiante da vida cristã!

Para uma reflexão pessoal esta semana 

1) Retomar a segunda leitura: Romanos 8,31-34.

2) Compare a tua compreensão da vida cristã com a de Paulo.

3) Sentes que cultivas momentos de exposição à luz do Rosto de Cristo?

P. Manuel João Pereira Correia, Comboniano

Verona, 21 de fevereiro de 2024

NB. Para uma reflexão completa ver:

https://comboni2000.org/2024/02/21/la-mia-riflessione-domenicale-domenica-dei-tre-monti/