domingo, 26 de abril de 2026

O clamor por Deus e a esperança final - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

O clamor por Deus

e a esperança final


1. Quem põe em dúvida que vivemos tempos

temíveis, brutais, de horrores sem fim? Ele há as

guerras, aquelas de que se fala e as outras de que

se não fala — por exemplo a do Sudão —,

multiplicando os seus campos de destruição e

ruinas, e os montões de cadáveres crescem e

crescem e crescem... E as crianças — tantas até

raptadas são — a gritar e as mulheres violadas, e

a fome não deixa de aumentar: todos os dias pelo

menos 8.000 crianças morrem por causa da fome.

E são milhões de milhões de euros que se gastam

em novos armamentos. Os prepotentes esmagam

os povos e os direitos das maiorias, e, vivendo

nós hoje em total interligação e interdependência,

quase todos no mundo acabam por ser vítimas

dessa prepotência. E lá andam todos numa

correria vertiginosa, todos ou quase todos a

dedar nas redes, e quem se lembra que brain rot

(apodrecimento do cérebro, cérebro apodrecido)

foi o termo considerado como a palavra do ano

pela Universidade de Oxford em 2024?...

Não creio que sejamos piores do que no

passado. Mas há uma questão terrível: temos

poder a mais. Pela primeira vez, a Humanidade

— basta pensar no armamento atómico — pode

pôr termo a si mesma. E há a IA, com imensas

vantagens, mas alguém pode dizer aonde nos

levará? E a crise climática... e os “cérebros

apodrecidos”?

Neste contexto, não deveria esquecer-se a

pergunta: Onde está o ser humano?, mas são mais

a perguntar: Onde está Deus?

Nestas circunstâncias — e não vou esquecer

também, por exemplo, as enfermarias dos

hospitais, verdadeiros acampamentos de dor e

solidão, os presos, os lares de idosos, as vítimas

de abusos de todo o género, os jovens com

ansiedade crescente... —, ainda em tempo de

Páscoa, alguns textos célebres podem vir ao nosso

encontro... Dou exemplos.

2. Para exprimir a sua consternação perante as

vítimas da História, todos os horrores do passado

e todos os mortos, “as ruínas da história”, Walter

Benjamin, da Escola de Frankfurt, que, numa

fuga falhada à perseguição nazi, se suicidou,

serviu-se de um quadro famoso do pintor suíço,

Paul Klee, chamado “Angelus Novus” e deixou-

nos o célebre texto sobre “O anjo da história”:

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus

Novus. Nele representa-se um anjo que parece

como se estivesse a ponto de afastar-se de algo

que o tem atordoado. Os seus olhos estão

desmesuradamente abertos, a boca também

aberta e as asas estão completamente estendidas.

E este deve ser o aspecto do anjo da história.

Voltou o rosto para o passado. Onde a nós se nos

manifesta uma cadeia de dados, ele vê uma

catástrofe única que amontoa incansavelmente

ruina sobre ruina, lançando-as a seus pés. Ele

bem quereria deter-se, despertar os mortos e

recompor o despedaçado. Mas a partir do paraíso

sopra um furacão que se enredou nas suas asas e

que é tão forte que o anjo já não consegue fechá-

las. Este furacão empurra-o irresistivelmente para

o futuro, para o qual ele está de costas, enquanto

os montões de ruinas crescem perante ele até ao

céu. Este furacão é o que nós chamamos

progresso”.

Estamos, na opinião de Manuel Fraijó, perante

um texto-chave da filosofia do século XX.

Benjamin era ateu, mas não o abandonava a

pergunta pelos mortos e, concretamente, pelas

vítimas inocentes da História...

3. No ano de 1796, Jean Paul (pseudónimo de

Johann Paul Friedrich Richter) escreveu um dos

textos mais sublimes e ao mesmo tempo mais

terríveis da grande literatura alemã: Rede des toten

Christus vom Welgebäude herab, dass kein Gott sei

(Discurso do Cristo morto, desde o cume do

mundo, sobre a não existência de Deus).

Nele, o grande escritor descreve um sonho.

Pela meia noite e em pleno cemitério, numa visão

apavorante, o olhar estende-se até aos confins da

noite cósmica esvaziada, os túmulos estão

abertos, e, num universo que se abala, as sombras

voláteis dos mortos estremecem, aguardando,

aparentemente, a ressurreição. É então que, a

partir do alto, surge Cristo, uma figura

eminentemente nobre e arrasada por uma dor

sem nome. E, com um terrível pressentimento,

“os mortos todos gritam-lhe: ‘Cristo, não há

Deus?’ Ele respondeu: ‘Não, não há Deus’. Então,

a sombra de cada morto estremeceu, e umas a

seguir às outras desconjuntaram-se. E Cristo

continuou, anunciando o que aconteceu no

instante da sua própria morte: ‘Atravessei os

mundos, subi até aos sóis, voei com as galáxias

através dos desertos do céu; e não há Deus. Desci

até onde o ser estende as suas sombras, e olhei

para o abismo, gritando: ‘Pai, onde estás?’ Mas

apenas ouvi a tormenta eterna, que ninguém

governa”. Quando, no espaço incomensurável,

procurou o olhar divino, não o encontrou; apenas

o cosmos infindo o fixou petrificado “com uma

órbita ocular vazia e sem fundo, e a eternidade

jazia sobre o caos e roía-o e ruminava-se”. O

coração rebentou de dor, quando as crianças

sepultadas no cemitério se lançaram para Cristo,

perguntando: ‘Jesus, não temos Pai?’ E ele,

debulhado em lágrimas, respondeu: ‘Somos

todos órfãos, eu e vós, não temos Pai’. “Nada

imóvel, petrificado e mudo! Necessidade fria e

eterna! Acaso louco e absurdo! Como estamos

todos tão sós na tumba ilimitada do universo! Eu

estou apenas junto de mim. Ó Pai, ó Pai! Onde

está o teu peito infinito, para descansar nele? Ah!

Se cada eu é o seu próprio criador e pai, porque é

que não há-de poder ser também o seu próprio

exterminador?”

Para Jean Paul, a morte de Deus não é ainda

um destino espiritual inevitável, mas apenas a

tentação de uma possibilidade ameaçadora,

contra a qual quer prevenir. Quando acordou do

pesadelo ateu, a sua alma “chorava de alegria,

por poder de novo adorar a Deus — e a alegria e

o choro e a fé nele era a oração”.

4. Um século depois (1882), o louco de

Nietzsche proclamou a morte de Deus: “O louco

saltou para o meio deles e trespassou-os com o

olhar. ‘Quem vos vai dizer o que é feito de Deus

sou eu’, gritou! “Quem o matou fomos todos nós, vós

mesmos e eu!”

“Nunca existiu acto mais grandioso”. Mas, ao

mesmo tempo, Nietzsche não se mostra

completamente eufórico. “Para onde vamos nós,

agora? Não estaremos a precipitar-nos para todo

o sempre? Não andaremos errantes através de

um nada infinito? Não estará a ser noite para

todo o sempre, e cada vez mais noite?”

5. O filósofo Gilles Lipovetstky escreveu, em A

Era do Vazio, comentando, que Deus morreu e as

pessoas não estão preocupadas com isso. Mas

outro filósofo, agnóstico, Leszek Kolakowski,

disse que o nosso “é um mundo privado de todo

o sentido, de qualquer orientação, sinal de

direcção, estrutura”, de tal modo que, desde a

proclamação da morte de Deus por Nietzsche,

“praticamente nunca mais houve ateus serenos”:

“A ausência de Deus tornou-se a ferida sempre

aberta do espírito europeu, por maior que tenha

sido o esforço para esquecê-lo, recorrendo a toda

a espécie de narcótico.” De qualquer forma no

seu livro mais recente, A Sociedade da Decepção

(2012), Lipovetsky, reconhecendo “a reafirmação

do religioso”, veio dizer que, “privados de

sistemas de sentido englobante, numerosos

indivíduos encontram uma tábua de salvação no

reinvestimento de antigas e novas

espiritualidades capaz de oferecer a unidade, um

sentido, referências, uma integração comunitária:

é o que o ser humano necessita para combater a

angústia do caos, a incerteza e o vazio.”

6. Lá está, sempre, a sublevação dos versos de

Heinrich Heine: “E continuamos

perguntando,/uma e outra vez,/até que um

punhado de terra/nos cale a boca./Mas isto é uma

resposta?”

7. E há, tocando o absurdo, aquela pergunta

terrível, pergunta-limite: se soubessem o que

agora sabem pela experiência vivida e a morte no

fim, quantos, quantas, se pudessem escolher,

teriam escolhido vir à existência?

É nesta pergunta-limite, entre ser e não ser,

finito-infinito, que, em confiança racional, pode

dar-se a experiência da verdade salvadora do

Evangelho: Jesus anunciou por palavras e obras o

Evangelho, notícia boa e felicitante, a melhor

notícia que a Humanidade alguma vez ouviu:

Deus é bom, Pai-Mãe, e só quer a alegria, a

felicidade, a plena realização de todos os seus

filhos e filhas, e Jesus, que sabia que nem todos

estavam de acordo com esta mensagem, não se

acobardou, foi até ao fim para dar testemunho da

Verdade e do Amor e, julgado como blasfemo

religioso e subversivo político, foi condenado à

morte e morte de cruz, a morte mais horrenda,

rezando aquela oração que atravessa os séculos:

“Meu Deus, meu Deus, porque é que me

abandonaste?”, e Deus infinitamente poderoso e

bom não o deixou na morte, ele está vivo na

plenitude da vida em Deus para sempre, como

desafio e esperança para todos..., para mim.

Sábado, 25 de Abril de 2026

quinta-feira, 23 de abril de 2026

A Páscoa: não à opressão e à morte - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

A Páscoa:
não à opressão e à morte


Nota introdutória: Na semana passada, não
houve crónica. A razão é simples: estive
internado no hospital. Aí, paramos mesmo e,
queiramos ou não, somos obrigados a pensar.
Quero agradecer, de coração, a tantos e tantas
que, tendo sabido, quiseram manifestar a sua
solidariedade. Nestas circunstâncias,
conhecemos verdadeiramente os amigos reais:
“precisa de alguma coisa?; em que posso
ajudar?; já sabe: se precisar de alguma coisa, é só
dizer; disponha, por favor...”. E a gente sabe que
é verdade.
E aí fica a crónica prevista:
O famoso filósofo Johann Gottlieb
Fichte tem um texto com perguntas que
todo o ser humano, minimamente atento à
vida, alguma vez fez, pois são perguntas
que ele transporta consigo, melhor, que ele
é.

O filósofo alemão escreveu que o ser
humano não deixará facilmente de resistir a
uma vida que consista em “eu comer e
beber para apenas logo a seguir voltar a ter
fome e sede e poder de novo comer e beber
até que se abra debaixo dos meus pés o
sepulcro que me devore e seja eu próprio
alimento que brota do solo”; como poderei
aceitar a ideia de que tudo gira à volta de
“gerar seres semelhantes a mim para que
também eles comam e bebam e morram e
deixem atrás de si outros seres que façam o
mesmo que eu fiz? Para quê este círculo que
gira sem cessar à volta de si?... Para quê este
horror, que incessantemente se devora a si
mesmo, para de novo poder gerar-se,
gerando-se, para poder de novo devorar-
se?”

Também Ernst Bloch, o filósofo ateu
religioso, com quem tive o privilégio de
conversar, escreveu que o Homem nunca
-de contentar-se com o cadáver.

aquelas perguntas in-finitas: Quem
sou? Para onde vou? Onde estarei quando
cá já não estiver?

E o dramático é que, por um lado, a vida
depois da morte é completamente não
figurável para lá do espaço e do tempo,
não é possível qualquer representação.
Nunca poderei dizer: morri, estou morto --
serão outros a dar a notícia.

Por outro lado, é insuportável acabar,
andar, na vida, de sentido em sentido e, no
fim, afundar-se no nada o ir para lado
nenhum. Sendo o Homem “alguém”, quem
afirma o nada no termo vê-se confrontado
com a pergunta: como se passa de “alguém”
a “ninguém”? Como conceber uma
consciência morta? Afinal, o que era antes
de morrer? Se tudo desembocasse no nada,
qual seria a distinção entre bem e mal,
honestidade e desonestidade, honradez e
mentira, verdade e falsidade, já que no fim
tudo se afundaria no nada e tudo seria o
mesmo: precisamente nada?

Nos seus inícios, o cristianismo triunfou,
porque a uma sociedade angustiada com a
morte se apresentou com a promessa
inaudita da esperança na ressurreição. Mas
hoje a morte é tabu, e a ressurreição dos
mortos e a vida eterna tornaram-se não
plausíveis e sem interesse. Parece que as
pessoas se contentam com o consumo
diletante, entretidos na corrida louca duma
agitação paralisante, desfrutando instantes e
entregando-se à morte inevitável, numa
espécie de melancolia resignada.

E não será assim porque hoje se ama
pouco, pois só o amor requer eternidade?
Mas então, numa sociedade sem eternidade,
o que resta são só instantes, que não podem
fazer texto nem encontrar sentido último,
porque se devoram uns aos outros.

Para quem se não perdeu na superfície
da banalidade, a Páscoa, no seu sentido de
passagem, é a experiência do transcender
constitutivo do ser ser humano. O Homem
nunca se contenta com o dado nem com os
factos brutos: vai sempre além, num além
sem limites, transgredindo, pela esperança,
as próprias fronteiras da morte.

Na perspectiva bíblica. a primeira
Páscoa é a do Antigo Testamento e consiste
na libertação da escravidão no Egipto: Deus
não aceita a opressão. A segunda Páscoa é a
culminação da primeira: Deus não tolera a
morte. Jesus crucificado não morreu para o
nada, mas para o interior de Deus, que é a
Vida eterna. Como diz São Paulo na Carta
aos Romanos, o Deus que cria a partir do
nada ressuscita os mortos.

É tão próprio do ser humano saber que é
mortal como esperar para lá morte. Mas é
mesmo de esperança que se trata, pois a
morte é a experiência de que o ser humano
não pode dar a si mesmo a salvação ela é
dom de Deus. O Novo Testamento só utiliza
a palavra imortalidade duas vezes: uma em
que se diz que Deus possui a
imortalidade, e outra em que se afirma que
o nosso corpo mortal há-de revestir-se da
imortalidade da ressurreição, o que significa
que a imortalidade é um dom.

Então, como escreveu o teólogo José I.
González Faus, o crente dirá ao não crente:
espero que no fim, para da morte,
encontrarás esse Pai ou Mãe ou essa Luz de
braços abertos para ti, encontrarás esse
Mistério último acolhedor.

Mas o não crente poderá responder ao
crente: verás a surpresa que vais ter quando
vires que não há nada.

Aí, ao crente só resta a resposta: valeu a
pena viver como vivi, se vivi no bem.
Acreditando, a minha vida foi mais
humana, abriu-se a mais dimensões da
realidade, encontrou Fundamento e Sentido
último. A prova de que a fé dos crentes não
é vã só pode ser a luta contra todas as
formas de morte: a fome, a guerra, a
injustiça, e a favor da liberdade, da
dignidade, da paz, da realização plena de
todos os seres humanos.

Sábado, 18 de Abril de 2026