domingo, 22 de fevereiro de 2026

A LITURGIA NÃO É UMA PEÇA DE MUSEU - Frei Bento Domingues, O.P. 22 Fevereiro 2026

 

A LITURGIA NÃO É UMA PEÇA DE MUSEU


1. Este título foi tirado da última crónica. O subsecretário do Dicastério para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos (Santa Sé) destacou, em Braga, que a Liturgia nunca pode ser vista como uma peça de museu, apelando a uma criatividade na fidelidade para garantir a participação dos fiéis. A Igreja entregou-nos a Liturgia, mas não é uma Liturgia monolítica, fossilizada, deve ser uma Liturgia que muda de acordo com as necessidades dos fiéis. Nem sempre se pensou e se viveu assim. Quando surgiram movimentos da sua renovação, encontraram também, de formas diferentes, duras resistências organizadas internacionalmente.

Quem era pela reforma teve de enfrentar séculos de prática tridentina de celebrar em latim e de costas para o povo. Isto não significa que a reforma do Vaticano II seja definitiva. Como diz um poema de Camões, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades/ muda-se o ser, muda-se a confiança;/ todo o mundo é composto de mudança,/ tomando sempre novas qualidades.

Há um contraste: uns para diante e outros para trás – para trás não há paz, diz Guimarães Rosa –, isto é, os da renovação da liturgia do século XX e o movimento, em várias formas, do retorno à Missa de Pio V, chamada Missa tridentina. Não é por acaso que o primeiro documento do Vaticano II foi, precisamente, o da Liturgia, Sacrosanctum Concilium. A posição dos conservadores era uma forma mais ampla de não aceitar o Vaticano II. Isto era tão grave que o próprio Papa Paulo VI sentiu-se na obrigação de excluir o movimento dos lefebvristas que proclamavam que eles é que eram a verdadeira ortodoxia.

É curioso, para não dizer trágico, como alguns cristãos demonstram uma sensibilidade litúrgica finíssima para rubricas e idiomas mortos, mas uma surdez quase congénita para o grito dos vivos, como diz Marco Luciano, pároco de Rabo de Peixe.

Para que a liturgia não seja uma peça de museu, é preciso uma teologia de Cristo todo na vida toda e não, apenas, nas celebrações. O Domingo é o primeiro dia da semana, o da Ressurreição de Cristo. Muitos diziam que, na Eucaristia, se recolhiam os frutos do Mistério Pascal. Mas esse mistério ficava situado num tempo de há 2 000 anos. Ora, o que aconteceu com Cristo há 2 000 anos atinge todos os tempos e lugares. Cristo é nosso contemporâneo. A celebração é para nos acordar para essa realidade. O caso português é extraordinário. Domingo, dia do Senhor é o primeiro dia da semana, não é o fim de semana. Não é um acontecimento que tenha ficado no passado. Por isso, S. Tomás de Aquino sustenta que o Mistério Pascal não está arquivado: atinge todos os tempos e lugares[1].

Odo Casel (1886-1948), monge beneditino da abadia de Maria Laach (Almanha), por causa da sua teologia do Mistério, teve de enfrentar muitos adversários. Ele procurava fugir a um cristianismo reduzido a um código moral, a um credo, a uma religiosidade cúltico-devocional. O cristianismo é mais do que uma concepção da realidade com transfundo religioso, é um mistério. A instrumentalização da celebração litúrgica como lugar para ensinar doutrina ou para aumentar as disposições do fiel para cumprir normas morais é o desvio que a Teologia do Mistério queria evitar. Tal corrente teológica pretende colocar o fiel diante do mistério de Cristo para que ele possa participar da comunhão da vida divina.

Odo Casel recorreu a S. Tomás de Aquino para sustentar as suas posições. Foram alguns neo-tomistas que lhe resistiram, mas ele tinha razão. A actuação humano-divina de Cristo atinge todos os tempos e lugares. É o que dizem os textos da última parte da Suma Teológica.

Há pessoas que dizem que não vale a pena insistir nas festas litúrgicas mais marcantes porque serão sempre mais do mesmo. A Redenção foi feita num tempo histórico que não volta mais. Foi num tempo e num lugar, mas – como já foi referido – atinge todos os tempos e lugares.  A Páscoa está a acontecer aqui e agora. Sabemos que passamos da morte à vida porque amamos os irmãos[2].

2. O Papa Francisco falou, há muito tempo, de que nos encontrávamos numa terceira guerra mundial aos pedaços. As consequências de não se ter em conta os avisos sobre a ameaça de desastres ecológicos estão à vista e não é preciso sair do nosso país. Ora, todas estas situações devem ser assumidas pelo espírito desta Quaresma.

Como sustenta Viriato Soromenho-Marques, «o ambiente não é propriedade da física ou da biologia, nem sequer das mais recentemente designadas ciências da Terra. O ambiente só poderá ser compreendido em todas as suas implicações se mobilizar os esforços de todos os domínios do conhecimento, da cultura e da organização social, incluindo as ciências sociais e humanas»[3].

Em regime cristão, está desaconselhada a exibição da virtude. Na Quarta-Feira de Cinzas, o Evangelho de S. Mateus diz muito claramente: Tu, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto para que os outros não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai que está presente no segredo[4].

Por outro lado, o imperativo divino, sede santos, porque Eu, o Senhor, sou santo, realiza-se em atitudes muito concretas, resumidas no mandamento: amarás o teu próximo como a ti mesmo[5]. No Novo Testamento, tornar-se próximo é aproximar-se de quem precisa, só porque precisa, seja qual for a sua nacionalidade, a sua religião ou o seu ateísmo[6].

Nietzsche acusava os cristãos de andarem sempre com cara de Sexta-Feira Santa. Para que a Igreja não se torne uma tristeza, tem de se lembrar que, segundo S. João, na revelação de Jesus Cristo, tudo é para que a nossa alegria seja completa na transfiguração do quotidiano.

Quem entendeu e viveu, como ninguém, o evangelho da alegria foi São Filipe Neri (1515-1595), o santo humorista, o meu santo, como lhe chamou o luterano Goethe, e o santo da devoção do recentemente proclamado Doutor da Igreja, cardeal Henry Newman (1801-1890).

3. O Papa Leão XIV, na sua Mensagem da Quaresma, apontou três palavras para caracterizar o que ela deve ser: Escutar a voz de Deus e do Mundo, Jejuar das palavras ofensivas para estarmos mais Juntos uns dos outros. Destaco, apenas, um fragmento desta Mensagem.

Entre as muitas vozes que passam pela nossa vida pessoal e social, as Sagradas Escrituras tornam-nos capazes de reconhecer aquela que surge do sofrimento e da injustiça, para que não fique sem resposta. Entrar nesta disposição interior de receptividade significa deixar-se instruir hoje por Deus para escutar como Ele, até reconhecer que «a condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e económicos e, sobretudo, a Igreja».

Se estivermos atentos às várias dimensões da Quaresma, as nossas liturgias não serão peças de museu. Serão a introdução do Reino da Alegria.

 

 



[1] Suma Teológica III, q. 48, a. 6; p. 56, a. 1

[2] 1Jo 3, 13-18

[3] In A ecologia integral na época da antropodiceia e os seus obstáculos fundamentais.

[4] Mt 6

[5] Levítico 19

[6] Mt 25

sábado, 21 de fevereiro de 2026

As dez heresias do catolicismo actual. - 3 Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 As dez heresias

do catolicismo actual. 3


Concluo a apresentação das heresias do catolicismo actual,

segundo J. I. González Faus.

7. "Apresentar a Igreja como objecto de fé".

Que se entende por Igreja? É decisivo responder

adequadamente a esta pergunta, para afastar o perigo em

que caiu o Papa Pio IX, que se negava a renunciar aos

Estados Pontifícios, alegando que "aqueles territórios não

eram seus, mas de Cristo". A Igreja não é Deus, é

comunidade de comunidades formadas por homens e

mulheres que acreditam em Jesus e no Deus que Jesus

revelou e anunciou. Homens e mulheres que acreditam no

Deus de Jesus formam a Igreja e é em Igreja que

acreditam em Deus. Temos, pois, um erro quando "a

Igreja se apresenta como objecto de fé, equiparando-se ao

Deus trino e esquecendo que só em Deus, e em mais

ninguém, é possível crer, no sentido pleno da palavra".

Percebe-se também que a autoridade na Igreja só como

serviço se pode compreender.

8. "A divinização do Papa". "Confessamos que o Papa

romano tem poder para mudar a Escritura e aumentá-la ou

diminuí-la de acordo com a sua vontade. Confessamos que

o santíssimo Papa deve ser honrado por todos com a honra

devida a Deus e com a genuflexão maior devida a Cristo."

Estas "palavras incríveis" provêm da profissão de fé que

os jesuítas propunham aos protestantes húngaros para

passarem à Igreja Católica nos finais do século XVII. O

Papa Bento XVI, quando era professor, denunciou esta

profissão como "monstruosa", reconhecendo depois que o

magistério nunca a condenou.

As citações nesta linha são quase infindáveis. Atribuíram-

se ao Papa títulos como "Vice-Deus da humanidade", "o

Verbo encarnado que se prolonga". Num livro de

meditações atribuído a São João Bosco, lê-se: "O Papa é

Deus na Terra. Jesus colocou o Papa no mesmo nível de

Deus." Chama-se a isto culto da personalidade e idolatria.

Leia-se o "incrível" texto chamado Dictatus Papae, do

Papa Gregório VII, século XI: "A Igreja romana foi

fundada só por Jesus Cristo. Por isso, só o Romano

Pontífice é digno de ser chamado universal. Só ele é digno

de usar insígnias imperiais; ele é o único homem cujos pés

todos os príncipes beijam. Não existe texto jurídico algum

fora da sua autoridade; a sua sentença não pode ser

reformada por ninguém e ele pode reformar as de todos.

Ele não pode ser julgado por ninguém. A Igreja romana

nunca errou e nunca poderá errar. O Romano Pontífice

canonicamente ordenado é sem dúvida santo pelos méritos

de São Pedro." Na famosa bula Unam sanctam, o Papa

Bonifácio VIII define que "submeter-se ao Romano

Pontífice é necessário para a salvação de todos os

homens". O Papa Gregório XVI opôs-se à tradição que

fala de uma "Igreja com necessidade constante de

reforma", acusando-a de "absurda e injuriosa", porque não

se pode "nem sequer pensar que a Igreja esteja sujeita a

defeito ou ignorância ou a quaisquer outras imperfeições".

A Igreja acabou por ser confundida com o Papa, como

consta no programa do grupo La Sapinière, que o Papa

São Pio X (está canonizado) apoiou tacitamente: "Pode-se

dizer que o Papa e a Igreja são uma só coisa." E, embora a

palavra hierarquia (poder sagrado) nunca apareça no Novo

Testamento, e, na linguagem eclesiástica, só no século V,

de facto o cristianismo foi sendo reduzido a um

eclesiocentrismo e este a um hierarcocentrismo: "A Igreja

reduzida ao poder sagrado e o resto dos fiéis é apenas

objecto deste poder, cuja única missão é "aceitar ser

governado e obedecer" (e pagar), como disse o Papa Pio

X. E, por fim, este hierarcocentrismo é reduzido à figura

do Papa, separado do colégio episcopal pela forma como a

cúria romana costuma governar."

E aí está como o Papa, cuja missão é de unidade, foi fonte

de ruptura: lembrar o cisma do Oriente (1054) e a Reforma

protestante (1517), e como se percebe o fascínio que o

Papa Francisco exerceu, porque, como eu próprio disse na

televisão logo dois dias depois da sua eleição, era “um

papa cristão”.

9. "Clericalismo". Tudo se concentra nesta pergunta: Deus

pode ser concebido como Poder, quando Jesus o revelou

como "Amor que capacita para amar"?

No Novo Testamento, "a comunidade toda de crentes é

"clerical", porque foi chamada a compartilhar a herança

(klêros) dos santos na luz", como se lê na Carta aos

Colossenses. "Não existem, portanto, clero e leigos, mas

uma comunidade, um povo afortunado que, como

qualquer grupo humano, precisará de diversos serviços":

ensino, direcção, coordenação. E "os responsáveis das

Igrejas são chamados presbíteros, supervisores, servidores,

"os que trabalham por vós"..., mas nunca sacerdotes." Só

mais tarde os ministérios eclesiais se revestiram de

dignidade mundana, passando-se então do "povo

afortunado" para "os afortunados do povo". E aí está o

clericalismo para dentro e para fora da Igreja. Francisco

não se cansou de repetir que o clericalismo é “a peste da

Igreja”.

10. "Esquecimento do Espírito Santo". A raiz de todas

estas heresias: o esquecimento do Espírito do Deus de

Jesus, Espírito criador, que une na diferença e renova

todas as coisas.

Sábado, 21 de Fevereiro de 2026

domingo, 15 de fevereiro de 2026

As dez heresias do catolicismo actual - 2 Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 As dez heresias

do catolicismo actual. 2

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia

Continuo, com J.I. González Faus, a apresentar as dez

heresias do catolicismo actual.

4. "Desfiguração da Ceia do Senhor." Imaginemos uma

conversa entre um cristão piedoso de hoje e um cristão do

século I. Aquele dirá que o centro da sua vida cristã é a

"adoração eucarística" e este só lentamente entenderá que

se está a referir à "fracção do pão" e também que a Missa

quer dizer "a Ceia do Senhor". O que se passou?

Os primeiros cristãos celebravam a Eucaristia em casas

particulares, com todos à volta da mesma mesa; ali, pela

primeira vez na História, escravos e senhores sentaram-se

uns ao lado dos outros. De acordo com o Novo

Testamento, "nem sequer era o presbítero que presidia à

celebração, embora pouco a pouco se tenha imposto que o

presidente da Eucaristia fosse aquele que presidia à

comunidade, talvez para aprender que devia exercer a

autoridade não impositivamente, mas igualitariamente, e

procurando o máximo de comunhão possível".

Quando os cristãos se tornaram multidão, foram

necessários locais amplos, o latim deixou de ser entendido

pelo povo, os assistentes já não participavam, com o

celebrante de costas e à distância e as pessoas a fazerem

"outra coisa" (rezar o terço...) enquanto "estão na Missa",

atentos ao momento da "consagração" e, depois, alguns

vão receber a hóstia. Tudo se centrou no culto da hóstia,

"totalmente separado do gesto do partir, partilhar o pão".

Da refeição passou-se a um acto de culto, com uma

deturpação fundamental da Eucaristia: "Separar

completamente a matéria (pão e vinho) do gesto (partilhá-

los)", quando "partir o pão significa compartilhar a

necessidade humana (da qual o pão é símbolo primário) e

passar a taça é comunicar a alegria, da qual o vinho é

outro símbolo humano ancestral". O corpo e o sangue são

a pessoa e a vida de Jesus vivo que se dá a nós.

5. "Transformar o cristianismo numa doutrina teórica."

Heresia fundamental, que consiste em desfigurar a fé

cristã, "transformada numa doutrina teórica ou numa

religião centrada no culto, em vez de ser uma vida e um

caminho crente para a transformação do mundo". À

maneira dos gnósticos, põe-se o acento no conhecimento,

que pode ser passivo, em vez de no amor, que é

essencialmente activo: o decisivo do cristianismo não é

dizer "Senhor, Senhor", mas "fazer a vontade do Pai", que

consiste em que "todos tenham vida e vida em

abundância". "A glória de Deus é a vida do homem", dizia

Santo Ireneu.

O que então fica resume-se, infelizmente, em duas teses:

a) "Deixadas à sua própria inércia, as sociedades

estruturam-se de modo anticristão, não porque se

estruturem de maneira laica ou reconheçam as uniões

homossexuais, mas porque se estruturam na desigualdade,

que é o valor mais contrário à paternidade do único Deus e

o mais característico da divindade do Dinheiro"; b) "O

Dinheiro é o único Deus verdadeiro das nossas sociedades

que se consideram modernas, mas também o verdadeiro

"senhor" de todos nós, que ameaça levar-nos à nossa

própria destruição e à destruição do planeta." E "o nosso

catolicismo foi cúmplice deste processo degenerador tão

contrário à sua essência".

6. "Negação da absoluta incompatibilidade entre Deus e o

Dinheiro." Afinal, a inscrição do dólar não é "In God we

trust", mas "In Gold we trust", como parodiou E. Dussel.

O problema dos imensamente ricos frente aos pobres que

morrem a cada dia de fome aos milhares, mais do que um

escândalo moral monstruoso, é a idolatria do deus

Dinheiro, sendo essa a razão de se contar no número das

heresias: "Uma visão teológica que pode desfigurar nada

menos que a identidade do Deus bíblico. Deus é o Deus

dos pobres, conhecê-lo não é especular muito nem sequer

rezar muito, mas "praticar a justiça", como disse o profeta

Jeremias."

Quando se olha para a linguagem oficial da Igreja, "dá a

sensação de que toda a moral se reduz ao sexo e que é aqui

que é preciso levantar a voz, ao passo que se deixa o

dinheiro correr pecaminosamente sem o molestar". Ao

contrário de Jesus, que foi parco no tema sexual, exigente

na teoria e compreensivo com as pessoas concretas, mas

duro quanto à riqueza opressora. "Não podeis servir a

Deus e a Dinheiro." Significativamente, os Evangelhos,

escritos em grego, mantiveram a palavra aramaica

“Mamôn” (e além disso, sem artigo, como se fosse um

nome próprio) para designar a riqueza: porque vem da

mesma raiz (mn) do verbo crer, acreditar. "É uma maneira

de dizer, mais uma vez, que God e Gold são muito

aparentados: não se pode adorar ao mesmo tempo Deus e

o Dinheiro." Quando se pensa na força crescente do

Dinheiro, cada vez com mais possibilidades, pois já não se

trata de meros poderes pessoais, mas estruturais e

anónimos, é preciso rever a sociologia da religião: afinal,

ela está em aumento, o que diminui é a fé no Deus de

Jesus, o Deus que criou o mundo para todos e não apenas

para os ricos. "O deus dos senhores é diferente." (J.M.

Arguedas).

Continua.

Sábado, 14 de Fevereiro de 202

domingo, 8 de fevereiro de 2026

VIVER, PRATICAR E CELEBRAR A FRATERNIDADE - Frei Bento Domingues, O.P. 08 Fevereiro 2026

 

VIVER, PRATICAR E CELEBRAR A FRATERNIDADE

Frei Bento Domingues, O.P.

08 Fevereiro 2026

 

1. A Bíblia não é um livro, é uma biblioteca. A Igreja Católica reconhece 73 livros, divididos em 46 do Antigo Testamento e 27 do Novo. São um testemunho escrito acerca de Deus e da Criação, revelado em Jesus Cristo, mistério da Terra e do Céu.

Como diz S. João, no princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e Deus era o Verbo. Este estava no princípio com Deus. Todas as coisas existiram por acção dele e sem ele nada veio à existência. Nele estava a Vida e a Vida era a Luz dos seres humanos. A Luz brilha na escuridão e a escuridão não dominou a luz. (…) Porém, quantos o receberam, a esses deu licitude de se tornarem filhos de Deus[1].

Hoje, na Igreja Católica, a celebração dominical da Eucaristia procura ser fiel a essa realidade múltipla. O subsecretário do Dicastério para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos (Santa Sé) destacou, em Braga, que a Liturgia nunca pode ser vista como uma peça de museu, apelando a uma criatividade na fidelidade para garantir a participação dos fiéis. A Igreja entregou-nos a Liturgia, mas não é uma Liturgia monolítica, fossilizada, deve ser uma Liturgia que muda de acordo com as necessidades dos fiéis.

A primeira leitura é do profeta Isaías que não nos deixa no vazio. Testemunha que o jejum que agrada a Iavé consiste em repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão. Então, a tua luz surgirá como a aurora e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se. A tua justiça irá à tua frente e a glória de Iavé atrás de ti. Então, invocarás Iavé e Ele te atenderá, pedirás auxílio e te dirá: «Aqui estou!» Se retirares da tua vida toda a opressão, o gesto ameaçador e o falar ofensivo, se repartires o teu pão com o faminto e matares a fome ao pobre, a tua luz brilhará na tua escuridão e as tuas trevas tornar-se-ão como o meio dia[2].

O profeta Miqueias apontou o essencial do profetismo bíblico: Já te foi revelado, ó homem, o que é bom, o que Iavé requer de ti: nada mais do que praticares a justiça, amares a lealdade e andares humildemente diante do teu Deus[3].

2. A liturgia cristã não pode ser um exercício de retórica com sublimidades de linguagem, aparentando uma grande sabedoria humana. O pregador não pode esquecer que lhe pertence anunciar o mistério de Deus, revelado em Jesus Cristo e Jesus Cristo crucificado. S. Paulo confessa que a sua palavra e a sua pregação não resultam da sabedoria humana, mas é uma manifestação do Espírito Santo, poder de Deus[4].

Por outro lado, o anúncio do Evangelho tem de ser saboroso, que dê gosto em aprofundar o sentido da Palavra que testemunha a alegria de Deus. Jesus usa expressões caseiras para falar da vida saborosa e iluminada e iluminante.  Não se pode parecer como uma comida sem sal ou como uma casa às escuras.

Se os discípulos são o sal da terra e a luz do mundo, ao transmitirem o gosto de viver, não se podem deixar corromper. Seria perder tudo. Pois, se o sal se corromper, com que se há-de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser desprezado. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do candelabro e, assim, alumia todos os que estão em casa. Assim brilhe a vossa luz diante dos seres humanos, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu[5].

A grande responsabilidade dos discípulos é fazer brilhar a Palavra, não é esconderem-se, mas navegar nas tempestades actuais, centrados no Evangelho e na pessoa de Cristo, mesmo perante as suas próprias divisões e desafios, como disse o cardeal dominicano, Timothy Radcliffe.

A vida das comunidades cristãs, tanto no quotidiano da vida como nas suas celebrações, deve ser uma alegria. Como diz S. Tomás de Aquino, «A tristeza é, entre todas as emoções, a que mais dano causa ao corpo. Justamente porque a tristeza se opõe à vida humana quanto ao seu movimento (isto é, quanto ao movimento que a alma lhe imprime)»[6].

3. Perante a escuridão do nosso tempo, Leão XIV, na sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz, insiste numa paz desarmada e desarmante e não na corrida ao armamento. Esta mensagem não pode ficar adormecida no primeiro dia de 2026.

«Na verdade, o contraste entre as trevas e a luz não é apenas uma imagem bíblica para descrever o sofrimento do qual está a nascer um mundo novo: é uma experiência que nos atravessa e nos surpreende diante das provações que encontramos, nas circunstâncias históricas em que vivemos. Ora, para não afundarmos na escuridão, é necessário ver a luz e acreditar nela. Trata-se de uma exigência que os discípulos de Jesus são chamados a viver de maneira única e privilegiada, mas que, de muitas maneiras, sabe abrir caminho no coração de cada ser humano. A paz que deseja habitar-nos, tem o poder suave de iluminar e alargar a inteligência, resiste à violência e vence-a».

Cristo é a nossa paz porque, na sua pessoa, no seu agir, é a reconciliação da humanidade com Deus, derrubando as barreiras de inimizade entre os povos e as religiões. Tudo Nele respira vontade de destruir o ódio e promover a amizade e a paz.

A sua presença, o seu dom e a sua vitória brilham na perseverança de muitas testemunhas, por meio das quais, a obra de Deus continua no mundo, tornando-se ainda mais perceptível e luminosa na escuridão dos tempos.

Entre vários outros, dispomos de dois textos luminosos do nosso tempo e para o nosso tempo. São eles o Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da Convivência Comum, assinado, em Abu Dhabi a 4 de Fevereiro de 2019, pelo Grande Imame de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyib e pelo Papa Francisco (1936-2025). Este Papa, inspirado no Evangelho e na figura de Francisco de Assis (1181?-1226), escreveu a célebre Fratelli Tutti, apresentada junto do túmulo deste santo a 3 de Outubro de 2020. Deles se pode dizer que são sal da terra e luz do mundo.

Francisco de Assis, dirigia-se aos seus irmãos e irmãs para lhes propor uma forma de vida com sabor a Evangelho. Destes conselhos, quero destacar o convite a um amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço; nele declara feliz quem ama o outro, «o seu irmão, tanto quando está longe, como quando está junto de nós». Com poucas e simples palavras, explicou o essencial duma fraternidade aberta, que permite reconhecer, valorizar e amar todas as pessoas, independentemente da sua proximidade física, do ponto da terra onde cada uma nasceu ou habita[7].

Não se trata apenas de acolher e ler belos textos, mas de transformar e ajudar a transformar a vida de todos os dias nas suas diversas dimensões.

 

 



[1] Jo 1, 1-12, Tradução de Frederico Lourenço, Os quatro Evangelhos, bilingue, Quetzal 2024.

[2] Is 58, 7-10

[3] Miqueias 6, 8

[4] 1Cor 2, 1-5

[5] Mt 5, 13-16

[6] Suma Teológica, I-II, 37

[7] Fratelli Tutti, nº 1

sábado, 7 de fevereiro de 2026

As dez heresias do catolicismo actual.1 - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

As dez heresias

do catolicismo actual. 1


O ilustre teólogo José I. González Faus morreu vai fazer

um ano no próximo dia 6 de Março. Era um bom amigo, e

quero recordá-lo, voltando ao seu livro: Herejías del

catolicismo actual, traduzido para português com o título

As dez heresias do catolicismo actual.

Heresia vem do grego háiresis, com o significado de

parcialidade. Ora, pode acontecer que uma parcialidade se

absolutize de tal modo que já não deixa espaço para

elementos imprescindíveis da identidade cristã. É neste

sentido que ele, um dos teólogos mais sólidos e cristãos

que conheci, escreveu este livro intenso, para desmontar as

dez heresias que inconscientemente foram tomando conta

da teologia e da vida, arruinando a identidade cristã. Será

o nosso guia também nas duas próximas semanas.

1. Primeira heresia: "Negação da verdadeira humanidade

de Jesus." Como reconhecer em Jesus "uma psicologia

humana como a nossa: sujeita ao erro e à ignorância ou à

fraqueza, à angústia, ao medo ou à sensação de fracasso"?

O problema está em que já se tem uma ideia prévia de

Deus e estas características parecem incompatíveis com a

dignidade divina. Mas qual é a consequência? Ao exigir

que, em Jesus, Deus corresponda à imagem que temos

dele, acabamos por impedir que Jesus revele

efectivamente Deus. São Paulo, esse, percebeu, ao

escrever que o Deus que anunciamos é "loucura para os

sábios e escândalo para as pessoas religiosas". Afinal, a

noção de dignidade divina deve ser concebida em

consonância com a ideia humana ou a partir do exemplo

de Jesus? "Eu, Senhor e Mestre, dei-vos o exemplo,

lavando-vos os pés." Jesus, de condição divina, escreve

São Paulo, "apresentou-se como um entre outros", "sendo

rico, fez-se pobre por nós, a fim de enriquecer-nos com a

sua pobreza", mostrando que a verdade de Deus é o seu

amor na autenticidade e fidelidade.

2. Vinculada à primeira, a segunda heresia: "Negação da

eminente dignidade dos pobres na Igreja." De facto, a

negação da verdadeira humanidade e humilhação do

Messias leva a não preocupar-se com os humilhados, os

pobres, os atribulados, famintos, refugiados ou presos,

embora seja com eles que Jesus em primeiro lugar se

identificou. O Papa Francisco tinha razão, voltando a uma

Igreja pobre para os pobres.

O que lemos no capítulo 25 do Evangelho segundo São

Mateus, referente ao Juízo Final? Todos são julgados pela

maneira como reagiram diante do Deus presente no

necessitado, no faminto, no nu, embora o não soubessem:

"O que fizestes a um destes mais pequeninos foi a mim

que o fizestes." Este passo do Evangelho é abissal, pois

nele não temos um ensinamento em primeiro lugar ético

mas teológico, um ensinamento sobre Deus, como ele se

comporta e é: não é possível falar sobre Deus sem a sua

relação com os seres humanos, a começar pelos mais

desamparados. "É falso todo o Deus cuja glória não seja a

vida do homem." Também está na Primeira Carta de São

João: "Se alguém possui bens deste mundo e, vendo o seu

irmão passar necessidade, não o socorre, não pode estar

nele o amor de Deus."

3. Terceira heresia: "Falsificação da cruz de Cristo." "O

que foi que condenou Jesus a uma morte tão atroz? Foi

Pilatos? Foram os escribas e fariseus? Não, meus irmãos,

não. Foi a Justiça divina que nunca quis dizer "basta" até

que o viu expirar sob este suplício. O Salvador bondoso

agonizava suspenso no ar por três cravos, derramava

lágrimas de sangue, sangrava por todos os lados. Mas a

Justiça divina, inexorável, dizia: "Ainda não. Mais." A sua

doce mãe chorava ao pé da cruz, soluçavam as piedosas

mulheres, gemiam todos os anjos e espíritos bem-

aventurados diante de tão cruel espectáculo. Mas a Justiça

divina, sem se deixar comover, repetia: "Ainda não.

Mais." E não disse "já basta" enquanto o não viu exalar o

último suspiro. O que dizeis então, meus irmãos? "Se a

Justiça divina tratou tão severamente o Unigénito do Pai

só porque havia tomado sobre si os nossos pecados, como

nos tratará a nós que somos os verdadeiros pecadores?"

Muitos terão ouvido sermões semelhantes a este, de São

Leonardo de Porto Maurício. Jesus tinha de morrer para

pagar uma dívida infinita contraída com Deus pela

humanidade e assim reconciliá-lo. Foi esta concepção que

levou muitos ao abandono da fé. Aí está um Deus bárbaro,

monstruoso, inexorável, que se não deixa comover, e uma

teologia da satisfação expiatória que santifica a justiça

próxima da vingança. O contrário do Deus que Jesus

revelou como Abbá (querido Paizinho) e Misericórdia, na

parábola do filho pródigo. "O dolorismo heterodoxo que a

Cruz produziu no nosso catolicismo vem, em boa parte,

daqui: estamos a um passo de uma redenção

"sadomasoquista", com a perversão de uma grande

verdade: "Tudo o que vale custa" transformou-se num

falso princípio: "Tudo o que custa vale." "A Cruz

transformou-se assim em factor de resignação, quando na

realidade é o resultado de Jesus não se ter resignado

perante a injustiça estabelecida." A morte de Jesus é "uma

consequência da sua vida e não uma exigência metafísica

da justiça de Deus". Não morreu vítima de um Deus irado,

que precisa de ser aplacado, mas vítima da maldade do

mundo; morreu para dar testemunho da verdade e do

amor, ser consequente com a sua mensagem, dando

testemunho até à morte do Deus que é Amor.

Continua.

Sábado, 7 de Fevereiro de 202

sábado, 31 de janeiro de 2026

Na continuação do Papa Francisco - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

Na continuação
do Papa Francisco


O Papa Leão XIV já declarou várias vezes que quer
seguir a herança do Papa Francisco e, por isso, quer
continuar a sinodalidade, que, como diz até o étimo,
quer dizer caminhar juntos.

Sim, pensando de modo consequente,
verdadeiramente o caminho só pode ser esse, o
sinodal. Evidentemente, quando se pensa na Igreja
cristã, a mensagem é que tem de ser o núcleo, e a
mensagem é: a fé em Jesus e no seu Evangelho, o
Deus-Amor, Pai-Mãe, com todas as consequências:
agir com a dignidade de filhos e filhas e amarmo-
nos todos como irmãos e irmãs... E o caminho é
juntos.

Evidentemente, é de igual modo claro que, onde
há muita gente, muitos e muitas, e espalhados por
toda a Terra, se impõe um mínimo de organização,
que tem de ser meio e não fim, pois tem de estar
ao serviço da mensagem. Não foi o que, como se lê
no Evangelho segundo São Mateus, Jesus quis dizer
a Pedro, louvando-o porque proclamou que ele é o
Messias, mas chamando-o Satanás, porque pensou
que a salvação vinha mediante o poder? Que diria
Jesus hoje das Paróquias, das Dioceses e sobretudo
do Vaticano, da sua pompa, das suas vestes, das
suas mitras, das suas intrigas, escândalos,
privilégios...? E não era sobretudo da Cúria que se
queixava Francisco? Dizia acidamente: “É mais difícil
reformar a Cúria do que limpar a esfinge do Egipto
com uma escova de dentes”.

Afinal, quem decide na Igreja? Poucos, muito
poucos, homens celibatários e de idade avançada,
numa Igreja hierárquica, vertical, clerical, misógina,
sem divisão de poderes... Francisco queria uma
Igreja sinodal, com a participação de todos. Um
parêntesis: já se reparou no que se passa na Igreja,
quando se pensa, por exemplo, num Consistório de
cardeais, mesmo que mundial? Afinal, o Papa
reúne-se com aqueles que o elegeram a ele, tendo
eles próprios sido escolhidos por ele ou outro
Papa... Não estamos perdoe-se a expressão
perante um círculo incestuoso?

Numa obra importante, Quem manda na
Igreja? (Quién manda en la Iglesia? Notas para una
sociología del poder en la Iglesia Católica del siglo
XXI), o sociólogo católico Javier Elzo apresenta outro
modelo para a Igreja do século XXI: “Uma Igreja em
rede, à maneira de um gigantesco arquipélago que
cubra a face da Terra, com diferentes nós em
diferentes partes do mundo, inter-relacionados e
todos religados a um central, que não
centralizador, que, na actualidade, está no Vaticano.
Aí ou noutras parte do planeta, todos os anos se
reuniria uma representação universal de bispos,
padres, religiosas e religiosos, leigos (homens e
mulheres), todos sob a presidência do Papa, para
debater a situação da Igreja no mundo e adoptar as
decisões pertinentes” e iluminar os grandes
problemas da Humanidade. Portanto, um Sínodo
verdadeiramente universal, no qual o Papa continua
a ter uma palavra decisiva, mas onde todos têm
direito a voto e tomando decisões com uma maioria
clara (dois terços?)...

Continuaremos. Mas, para já, ficam estas duas
perguntas, inevitáveis: Continuará a lei do celibato
obrigatório para os padres? Continuará a intolerável
discriminação da mulher na Igreja, que a impede de
presidir à celebração da Eucaristia?

Sábado, 31 de Janeiro de 2026