sábado, 11 de julho de 2026

Todos os dias são tempo de sementeira! - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 

Todos os dias são tempo de sementeira!

Ano A – 15.º Domingo do Tempo Comum
Mateus 13,1-23: “Eis que o semeador saiu a semear”

Começa neste domingo o “discurso em parábolas” do capítulo 13 do Evangelho de Mateus. Trata-se do terceiro discurso de Jesus, depois do discurso inaugural “da montanha” (caps. 5–7) e do “discurso missionário” do envio dos apóstolos em missão (cap. 10). Este discurso é composto por sete parábolas. As primeiras quatro são dirigidas à multidão — o semeador, o joio, o grão de mostarda e o fermento — e as outras três aos discípulos: o tesouro, a pérola e a rede. Sete parábolas para apresentar “os mistérios do reino dos céus” (13,11).

A expressão “reino dos céus”, “reino de Deus” ou simplesmente “o reino” aparece cerca de cinquenta vezes no Evangelho de Mateus: a primeira vez na boca de João Batista (3,2) e a segunda nos lábios de Jesus: “Convertei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (4,17). O reino é o tema da pregação de Jesus, o objetivo da sua vida e da sua missão. O que é o Reino de Deus? Jesus expõe-no através destas parábolas.

O que é uma parábola? É uma narrativa que, partindo de um facto, de uma história verosímil ou de uma realidade da vida quotidiana, pretende transmitir, de modo simbólico, uma mensagem mais profunda, por vezes misteriosa, que exige um esforço de interpretação. Jesus usou frequentemente as parábolas na sua pregação. É preciso distinguir, porém, entre parábola e alegoria. Na alegoria, cada elemento narrativo tem um significado específico; na parábola, pelo contrário, é preciso procurar sobretudo o sentido global.

1. A parábola do otimismo e da esperança

A parábola do semeador é uma das mais conhecidas do Evangelho, “a mãe de todas as parábolas”, como a definiu o Papa Francisco. O trecho tem três partes distintas: na primeira, o relato da parábola (vv. 1-9); na segunda, a razão pela qual Jesus fala em parábolas (vv. 10-17); na terceira, uma explicação alegórica da parábola (vv. 18-23).

Esta parábola situa-se num momento delicado da vida de Jesus, quando começava a desenhar-se o aparente fracasso da sua missão. Neste ponto perguntamo-nos: porque parece o mal triunfar sempre? Porque é que o bem tem tanta dificuldade em criar raízes no mundo e no coração das pessoas?

Dir-se-ia que a resposta da parábola é esta: tudo depende da qualidade do terreno sobre o qual a semente é lançada. A intenção principal, porém, não é tanto convidar-nos a perguntar que tipo de terreno é o nosso coração, mas antes encorajar os discípulos — e a nós — a anunciar o Evangelho “na esperança de que haja, em algum lugar, terra boa” (São Justino).

Os obstáculos, a oposição e a rejeição que a Palavra encontra podem levar-nos ao pessimismo. Pois bem, Jesus encoraja-nos a continuar a anunciar a Palavra, confiantes na sua fecundidade extraordinária, prodigiosa, até ao cento por um. De facto, no solo palestiniano, o máximo que se podia esperar era o dez por um: de um grão de trigo, uma espiga com dez grãos!

2. O princípio “capitalista” do espírito

À pergunta dos discípulos: “Porque lhes falas em parábolas?”, Jesus parece responder de modo discriminatório: “Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não é dado”. Como é possível? Parece que Jesus fala de propósito em parábolas para não se fazer compreender, quando seria de esperar o contrário. Na realidade, trata-se de um “semitismo”, isto é, de um modo típico de falar, entre a ironia, a tristeza e a desilusão, diante do fechamento dos corações. 

Impressiona-me a afirmação de Jesus: “Pois àquele que tem, será dado e terá em abundância; mas àquele que não tem, até o que tem lhe será tirado”. É aquilo a que eu chamaria o “princípio capitalista” do espírito: tal como o dinheiro corre para quem tem muito e desaparece dos bolsos do pobre, assim acontece no âmbito do espírito. Quanto mais tens, mais graça receberás; quanto menos tens — por preguiça, negligência ou fechamento do coração — tanto menos terás.

No domingo, muitos milhares de pessoas escutarão esta Palavra nas nossas igrejas: uma parte sairá enriquecida, a outra empobrecida. Mas ninguém ficará igual a antes, porque uma oportunidade perdida contribui para a “esclerocardia” espiritual, isto é, para o endurecimento do coração, que se torna cada vez mais insensível à Palavra.

3. A explicação alegórica da parábola

Vós, portanto, escutai a parábola do semeador...”. O evangelista atribui a Jesus a explicação alegórica da parábola. Na realidade, talvez se trate de uma aplicação sua à vida concreta da comunidade de Mateus.

Podemos perguntar-nos: como é que o semeador espalha o trigo pelo caminho, em terreno pedregoso e entre os espinhos, em vez de o semear diretamente na terra boa? É preciso saber que, na Palestina, primeiro se semeava e só depois se lavrava, para enterrar a semente. Esperava-se que o arado desfizesse o caminho marcado pelos transeuntes, levantasse as pedras e arrancasse os espinhos.

Permiti-me acrescentar outro elemento alegórico: neste caso, o que é o arado? Será talvez o da cruz de Cristo, que, escavando no nosso coração, o torna terra boa? Aliás, o arado era feito de madeira, com uma ponta de ferro! Nós iludimo-nos pensando que podemos evitar todo o sofrimento, contornar a cruz, mas “temos de entrar no reino de Deus através de muitas tribulações” (Atos 14,22).

Deixo-vos a tarefa de vos confrontardes com a Palavra e de vos interrogardes sobre o tipo de terreno que é o vosso coração. Talvez a resposta nos deixe um pouco desolados. Que nos conforte, então, esta citação do dramaturgo irlandês Samuel Beckett: “Sempre tentei. Sempre falhei. Não importa. Tenta outra vez. Falha outra vez. Falha melhor!”.

Conclusão: “Eis que o semeador saiu a semear!”

Jesus saiu de casa e sentou-se à beira-mar”. Esta Palavra encontrará alguns de vós enquanto desfrutais de um merecido tempo de descanso. Pois bem, Jesus virá também até vós! Encontrareis um pouco de tempo para o escutar?

Não esqueçamos, contudo, que os semeadores são muitos. Atenção às sementes de joio que as mãos do maligno semeiam abundantemente no nosso coração, especialmente de “noite”. Façamos como a esposa do Cântico dos Cânticos: “Eu durmo, mas o meu coração vela” (Ct 5,2).

Por fim, recordemo-nos de que também nós somos semeadores. Todas as manhãs, antes de sair, abasteçamos a nossa pequena mochila para semear a boa semente por onde quer que passemos. Todos os dias são tempo de sementeira!

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

sábado, 4 de julho de 2026

“Conjugados” com Cristo - P. Manuel João Pereira Correia mccj

 

“Conjugados” com Cristo

Ano A – 14º Domingo do Tempo Comum
Mateus 11,25-30: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e oprimidos”

Depois do discurso apostólico (Mateus 10), encontramos agora uma seção narrativa (Mateus 11–12), segundo o procedimento literário caro a Mateus, que alterna discursos e relatos.

Esta seção narrativa é caracterizada por um clima de tensão crescente. Jesus percebe que a sua mensagem e a sua obra não são compreendidas: João Batista alimenta dúvidas sobre o seu messianismo; as pessoas mostram-se caprichosas como crianças; as cidades ao redor do lago, onde ele tinha realizado tantos milagres, não se convertem; escribas e fariseus se opõem a ele. Jesus encontra-se, assim, diante do insucesso e da perspetiva do fracasso. Este é o contexto dramático do trecho evangélico de hoje.

O texto se articula em três parágrafos bem distintos: no primeiro, a oração de louvor que Jesus dirige ao Pai; no segundo, a estreita relação entre o Pai e o Filho; no terceiro, a relação entre Jesus e nós, com o convite para irmos até ele.

O trecho grego começa de modo singular: “Naquele tempo Jesus, respondendo, disse…”. Contudo, antes disso não encontramos nenhuma pergunta. Parece quase que Jesus responda à interrogação que esta situação de aparente fracasso coloca à sua missão. E qual é a sua resposta? “Eu te louvo, Pai!”.

1. Jesus dececionado, mas não desanimado

Perguntamo-nos: como é que Jesus, neste contexto de oposição e de aparente fracasso, reage com uma oração de louvor, com uma espécie de seu “Magnificat”?

O Senhor não se abate nem desanima, como talvez nós teríamos feito. Embora dececionado com o fechamento e a falta de fé de tantos ouvintes, testemunhas dos seus milagres, Jesus leva esta situação para a oração, para o diálogo com o Pai. E descobre que o Pai continua a realizar o seu projeto de amor não através dos sábios e dos doutos, mas através dos pequenos.

É uma situação muito atual. Hoje assistimos ao afastamento de tantos cristãos e à marginalização da fé cristã na cultura ocidental; perguntamo-nos, então, para que serve o anúncio do Evangelho num contexto assim. Talvez também nós estejamos dececionados porque as promessas de Deus parecem demorar a cumprir-se. Envelhecemos na esperança de uma Igreja renovada. É forte a tentação da resignação, do desânimo, do pessimismo cínico.

Pois bem, Jesus convida-nos à coragem da oração, para discernirmos de onde e para onde sopra o Espírito.

2. Um novo chamamento para todos: vinde, tomai, aprendei!

Jesus sai do encontro com o Pai renovado na consciência da sua missão messiânica: “Tudo me foi entregue por meu Pai”. E dirige-se novamente aos pequenos, ou melhor, a todos: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim”.

Quem é este povo cansado e oprimido? São aqueles que vivem sob o jugo da Lei. Com efeito, para a tradição rabínica, o jugo era uma imagem da Lei: os 613 preceitos extraídos da Escritura e os milhares de prescrições menores que obrigavam a “andar na linha”.

O jugo evocava uma condição de escravidão, pois geralmente eram os escravos que o usavam para transportar cargas pesadas (cf. Levítico 26,13).

Jesus convida a romper esse jugo e a ir até ele para encontrar alívio, isto é, o descanso prometido por Deus ao seu povo (cf. Carta aos Hebreus 3–4). Logo depois, porém, convida a tomar o seu jugo e a aprender dele, “manso e humilde de coração”.

Podemos certamente aprender com ele, mestre de coração manso e humilde, que não se comporta como os escribas e fariseus, os quais “atam fardos pesados e difíceis de carregar e os põem sobre os ombros das pessoas” (Mateus 23,4). No entanto, não esperaríamos uma associação entre jugo e descanso.

Qual é, então, este jugo de Jesus?

O jugo era um instrumento de madeira que unia dois animais para arar ou puxar uma carroça. O jugo de Jesus é a cruz: aquela que ele carregou por nós e, portanto, a nossa cruz, o nosso jugo. Jesus torna-se o nosso Cireneu, põe-se ao nosso lado. É o nosso companheiro, o nosso… “cônjuge”!

Sim, porque o termo cônjuge deriva do latim coniux, formado por cum e iugum: indica aquele que está unido ao outro sob o mesmo jugo, aquele que partilha o mesmo destino. Daí também o verbo “conjugar”. Trata-se, portanto, de uma imagem nupcial.

Jesus afirma: “O meu jugo é suave e o meu fardo é leve”. Por que é suave? Porque é o jugo do amor. Por que é leve? Porque ele o carrega connosco.

Diante deste convite de Jesus surgem duas tentações.

A primeira é querer romper todo jugo e todo vínculo, inclusive aquele “suave e leve” do amor. Como o falso profeta Hananias, que quebrou o jugo simbólico de madeira carregado por Jeremias, prometendo ao povo liberdade e prosperidade. O risco é acabar com um jugo de ferro (cf. Jeremias 28).

A segunda tentação é confiar no jugo das leis para garantir a ordem e preservar o poder, no âmbito social, eclesial, familiar ou em qualquer outro contexto, aumentando o cansaço e a opressão e sacrificando a solidariedade e o amor.

Exercício semanal de reflexão

  • Como reajo diante dos fracassos e das deceções?
  • Quem é o meu “cônjuge” ao carregar a cruz: Cristo ou o novo messianismo cultural?
  • Quero agradecer-te, Senhor, pelo dom da vida. Li em algum lugar que os homens são anjos com uma só asa: só podem voar permanecendo abraçados. Às vezes, nos momentos de intimidade, atrevo-me a pensar, Senhor, que também tu tens uma só asa. A outra manténs escondida: talvez para me fazer compreender que não queres voar sem mim” (mons. Tonino Bello).

Pe. Manuel João PPereira Correia, MCCJ

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Lá encontrarás mais de 17.000 artigos dedicados à cultura, à espiritualidade e à missão, nas suas dimensões humana e cristã.



P. Manuel João Pereira Correia mccj
p.mjoao@gmail.com

 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

O Homem pergunta por Deus. O grande enigma - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

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Crónicas RA E PENSA
O Homem pergunta por Deus.

O grande enigma


“Quando no século XXI falamos de céu,
inferno e paraíso, utilizamos metáforas. Não
cremos que Deus, na sua infinita sabedoria,
tenha criado um universo em que realmente
existam estes domínios ultra-terrenos. Tão-
pouco pensamos que a vida seja uma
peregrinação que conduz a Deus. Nisto nos
diferenciamos de Dante, o maior poeta da
Idade Média.” Aí está, com esta serenidade
límpida, a afirmação de entrada de uma
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breve introdução de Ch. Zschirnt à leitura
de A Divina Comédia de Dante Alghieri.

Reconhecendo, evidentemente, a
perplexidade toda destas questões e que
Dante se encontra no mundo das metáforas,
será assim tão universal e transparente esta
declaração de evidência na abolição de
Deus e do seu mistério?

Pouco antes da sua morte, o famoso
antropólogo René Girard, por exemplo, à
pergunta: “Crê que algo para da
morte?”, respondia: “Espero, é a minha fé,
um acto de vontade e de esperança. O
cristão afirma que não pode reduzir-se tudo
ao universo no qual se encontra. Que seja
tudo como se nada tivesse sido parece-me
demasiado abominável para ser real.
Aposto na Realidade.”

A. Lobo Antunes também disse que se
zangava com Deus porque permite o
sofrimento. “O sofrimento sempre me foi
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incompreensível porque nascemos para a
alegria.” E não é a morte “uma puta”? Mas
acreditava. “A minha relação é a de um
espírito naturalmente religioso, cada vez
mais, não no sentido desta ou daquela igreja
mas porque me parece que a ideia de Deus
é óbvia.” Não tem dúvidas? “Acredito
sempre mas a dúvida e pôr constantemente
em questão é próprio da fé. Muitas vezes
pergunto-me: será que existe? É óbvio que
sim.”

“Mas reza ou não?” Com as cruzes no
horizonte, Eduardo Lourenço pensa e sorri.
E respondeu ao EXPRESSO: “Pode-me
acontecer!” Neste enquadramento, permito-
me uma confidência. Vínhamos, já muito
tarde, depois de um debate no Casino da
Figueira da Foz, para o hotel. E disse-lhe
que o tinha citado. E ele: “Admira-se?
Todos os homens rezam”.
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Quem pode negar que as religiões
também trouxeram ao mundo barbaridade,
superstição, guerras, infantilismo? Afinal, o
mundo seria melhor sem elas? A causa da
indignidade está nas religiões ou nos seus
crentes e funcionários que delas se servem
de modo rasteiro e blasfemo para seus
propósitos desumanos?

Deus não é objecto de ciência nem pode
ser. Há razões para acreditar e há razões
para não acreditar. Mas não há um saber
científico sobre a existência ou não
existência de Deus. Como escreveu o
filósofo ateu André Comte-Sponville,
“ninguém sabe, no sentido forte da palavra,
se Deus existe ou não. Se encontrardes
alguém que vos diga: ‘Eu sei que Deus não
existe’, esse não é em primeiro lugar um
ateu, é um imbecil’.”

De qualquer forma, face a um deus que
anula o Homem, o escraviza e amesquinha,
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só se pode e deve ser ateu. Esse deus não
pode existir. E porquê?

O que une os homens e as mulheres é
colocar perguntas. O Homem é ele mesmo
pergunta para si mesmo: o que é ser
Homem? E há uma pergunta maior, que é a
da perguntabilidade, isto é, a pergunta pelo
perguntar: qual é a condição de
possibilidade do perguntar?

Na tentativa de responder a esta
pergunta radical, o que se encontra é a
presença do in/finito. O Homem pergunta
porque a sua constituição é a da tensão
entre o finito e o infinito. Essa é a sua
morada: uma finitude aberta ao infinito e,
assim, constitutivamente, questão de Deus
enquanto questão, no Aberto.

Deus não se impõe, não se manifesta com
evidência, e o crente sabe que Deus poderá
não existir e o ateu sabe que Deus poderá
existir.
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Na modernidade crítica e agora vou
citar o filósofo jesuíta na sua obra de
referência El Gran Enigma, O grande Enigma
, “teísmo e ateísmo são possíveis e podem
ser construídos pela razão de forma
legítima e honesta moralmente. Aliás, é o
que vemos socialmente”: há crentes e ateus
honestos, que sabem o que isso quer dizer e
se respeitam mutuamente, já que o carácter
enigmático do Universo está aberto às duas
alternativas.

Segundo o modelo cosmológico padrão,
vivemos num universo que se produziu no
Big Bang e terminará numa morte
energética futura: “um universo que nasce a
partir de um “fundo” desconhecido no qual
será reabsorvido.” Trata-se, pois, de um
universo que, existindo num tempo finito,
dificilmente pode ter a sua suficiência em si
mesmo, pondo assim a pergunta: qual é o
seu fundamento último e absoluto? Como
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entender esse fundo ou “mar de energia”,
“essa espécie de meta-realidade ou
dimensão metafísica à qual este nosso
universo parece estar referido, segundo as
evidências empíricas?” Pode-se argumentar
que, a partir da finitude e das propriedades
antrópicas deste universo, a realidade
última, raiz e fundamento último em que
assenta, é uma “Inteligência Pessoal capaz
de criá-lo.” O ateísmo seria outra conjectura
metafísica, também filosófica: no
pressuposto das teorias especulativas de
multiversos ou múltiplos universos e de
supercordas, essa meta-realidade
apresentar-se-ia como uma realidade
impessoal na qual se produziria de modo
cego o nosso universo.”

De qualquer modo, teísmo e ateísmo são
confrontados com o silêncio de Deus. Este
silêncio manifesta-se num duplo plano: no
plano cósmico, porque Deus não se revela
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de modo evidente enquanto criador do
universo. O outro é o silêncio de Deus
“perante o drama da História, devido ao
sofrimento humano pessoal e colectivo e ao
mal natural cego e à perversidade humana.”
Previno que estou a escrever sob a tristeza
esmagadora causada pela violência do
duplo sismo que abalou a Venezuela, numa
tragédia incomensurável...

Para o ateísmo, o silêncio de Deus é
“prova” da sua inexistência, pois
incompatibilidade entre um Deus real e o
seu silêncio, sobretudo quando se pensa no
calvário do mundo, neste calvário concreto
da Venezuela, por exemplo. Como é que um
Deus criador, infinitamente bom e
poderoso, cala, quando, perante o
sofrimento atroz, insuportável,
concretamente dos inocentes, se lhe pede
ajuda, gritando, suplicando? O silêncio de
Deus faz que o ateísmo seja como que “um
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ajuste de contas” com Deus, sobretudo
quando se pensa na malvadez dos
responsáveis religiosos. Se Deus existe, é
como se não quisesse que acreditemos nele.
Para o crente, não é menor o desconcerto, ao
ver-se confrontado com a dor alucinante, o
abandono, o fracasso, a traição, a guerra,
um tsunami, a angústia da vida, o
afundamento na morte...

“Tanto a religiosidade humana como o
ateísmo são sempre rácio-emocionais”,
embora no juízo sobre Deus predomine a
força dos impulsos emocionais, da
esperança e do sentido. Afinal, a fé é um
combate, e a razão e a emoção podem
manter o Homem aberto à esperança da
existência de um Deus que quer salvar,
acreditando na existência de um Deus
oculto e libertador, por cima do seu
silêncio”. É possível dar a Deus um voto
livre e pessoal de confiança, voto que
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mostra a sua razoabilidade no próprio acto
de confiar. “Não tem sentido viver sem
sentido”, mas, ousando entregar-se
confiadamente a Deus pela fé, tudo aparece
como mais razoável, com luz, com sentido,
sentido final precisamente em Deus, o Deus
oculto e salvador.

Nota: 1. Em meu nome e em nome de
todos os leitores e leitoras vai a mais sentida
solidariedade com todas as vítimas na
Venezuela.

2. Nos meses de Julho e Agosto, a
publicação destas crónicas fica suspensa.

Sábado, 27 de Junho de 2026