sábado, 9 de maio de 2026

Fecundados pelo Espírito Santo - Pe. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 

Fecundados pelo Espírito Santo

Ano A - Páscoa - 6º domingo
João 14,15-21: “Eu pedirei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito”

Restam-nos duas semanas do Tempo Pascal. No próximo domingo celebraremos a Ascensão do Senhor e, no domingo seguinte, Pentecostes. A Palavra de Deus convida-nos a dirigir o nosso olhar para estes acontecimentos.

Hoje Jesus promete-nos o dom do Espírito: “Eu pedirei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito, para que permaneça convosco para sempre, o Espírito da verdade”. Jesus fala cinco vezes do envio do Espírito nestes seus discursos de despedida. Quatro vezes apresenta-o como o “Paráclito”, um termo grego muito rico que indica alguém chamado a estar ao nosso lado para nos ajudar, um consolador, um advogado defensor... Três vezes caracteriza-o como “Espírito da verdade”.

O amor, o “ninho” do Espírito

Jesus liga o dom do Espírito Santo ao amor: “Se me amais...”. O amor é o “ninho” do Espírito. O apóstolo Paulo afirma: “O fruto do Espírito é amor, alegria, paz, magnanimidade, benevolência, bondade, fidelidade, mansidão, domínio de si” (Gálatas 5,22). Todas características ligadas ao amor.

O trecho evangélico de hoje põe em destaque o amor — cinco vezes —, mas, surpreenden­temente, aqui Jesus fala do amor para com a sua pessoa. O amor, que no Antigo Testamento era reservado a Deus (Deuteronômio 6,4-9), Jesus agora o reclama para si. O Evangelho de João conclui-se com uma tríplice profissão de amor, em que Pedro representa cada um e cada uma de nós: “Simão, filho de João, tu me amas?” (João 21,17). Que honra Deus nos faz ao pedir a nossa amizade! Deus tem um coração apaixonado!

Jesus afirma que o amor por ele se manifesta na observância dos seus mandamentos: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos”. Por que fala de mandamentos, no plural? Podemos pensar que se refere, em geral, aos seus ensinamentos a serem guardados, mas sobretudo às duas dimensões inseparáveis do amor: amar a Deus e aos irmãos.

O amor é o motor da vida. Dizia Santo Agostinho: “Esteja em ti a raiz do amor, pois desta raiz não pode proceder senão o bem. Ama e faz o que quiseres!” E o apóstolo Paulo dirá: “O amor de Cristo nos impele” (2 Coríntios 5,14).

Em”, a preposição do amor

Chama a atenção a insistência de Jesus na profunda comunhão criada por este amor: uma verdadeira inabitação recíproca. “Naquele dia sabereis que eu estou em meu Pai, vós em mim e eu em vós”. Mesmo que encontremos outras expressões — “convosco”, “junto de vós”... —, a privilegiada é “em vós”, “em mim”, “no Pai”. Esta preposição, em — ἐν, em grego — aparece cerca de 25 vezes nos capítulos 14 e 15, evocando profunda intimidade, imanência, inabitação recíproca.

O nosso coração foi feito para ser habitado. Mais ainda, fecundado. Em cada crente renova-se algo do mistério de Maria, que “se encontrou grávida por obra do Espírito Santo” (Mateus 1,18). Orígenes de Alexandria, um dos maiores teólogos dos primeiros séculos e pai da exegese bíblica cristã (185-253), oferece-nos uma das imagens mais eficazes da vida cristã: “O cristão, enquanto está neste corpo, é semelhante a uma mulher grávida: traz dentro de si o Verbo de Deus” (In Exodum X, 10). Assim como a mulher grávida traz o filho no ventre, mas ainda não o vê face a face, assim o cristão traz Cristo dentro de si mediante a graça, mas ainda “caminha pela fé, não pela visão” (2 Coríntios 5,7). Tribulações, dificuldades e a própria morte constituem as dores do parto. O cristão vive no mundo, entre os homens, como uma mulher grávida de vida nova. “E não é necessário que a mulher grávida faça proclamações: é evidente para todos que há nela uma vida nova. Assim como para a mulher grávida a espera é o período mais vivo, mais feliz, mais criativo, também para nós: vivos, criativos, felizes; assim como a grávida é uma e duas ao mesmo tempo, vive uma vida feita de duas vidas, assim o cristão é um e dois”, comenta o Pe. Ermes Ronchi.

Colocar-se na escola dos místicos apaixonados

Talvez não tenhamos interiorizado suficientemente esta realidade surpreendente e maravilhosa: somos morada de Deus, habitados por Deus, portadores e portadoras de uma vida nova gerada em nós pelo Espírito Santo. Muitas vezes pensamos em Deus “conosco”, “ao nosso lado”, ou às vezes distante ou ausente, e esquecemo-nos de que Ele está “em” nós.

Os místicos, pelo contrário, compreenderam muito bem isso. Trago o exemplo de um místico francês do século XVII: Lourenço da Ressurreição (Laurent de la Résurrection), irmão leigo num mosteiro dos Carmelitas Descalços em Paris. A espiritualidade vivida e ensinada por ele era muito simples: cultivar o sentido da presença de Deus, através do “exercício contínuo desta divina presença”, a cada instante e em todas as circunstâncias, trabalhando primeiro como cozinheiro e depois como sapateiro num grande convento com mais de uma centena de frades:

No tumulto da minha cozinha, onde às vezes várias pessoas me falam ao mesmo tempo de coisas diferentes, possuo Deus tão tranquilamente como se estivesse de joelhos diante do Santíssimo Sacramento. Não é necessário ter grandes coisas a fazer. Eu viro a minha omelete na frigideira por amor de Deus e, quando a termino, se não me resta mais nada, inclino-me até ao chão e adoro o meu Deus, que me concedeu a graça de fazê-la; depois disso, levanto-me mais feliz do que um rei”.

Apesar de mancar por causa de uma ferida de guerra, Frei Lourenço — “rude por natureza e delicado pela graça”, segundo Fénelon — era pontual e preciso nas suas tarefas, sem dar sinais de impaciência ou pressa... Mas...

Se às vezes me ausento um pouco demais desta presença divina, Deus logo se faz sentir na minha alma... com movimentos interiores tão fascinantes e tão deliciosos que me envergonho de falar deles”.

Vira também tu a omelete quotidiana da tua vida: nem sempre será perfeita, mas poderá estar sempre temperada com amor.

Pe. Manuel João Pereira Correia, MCCJ


P. Manuel João Pereira Correia mccj
p.mjoao@gmail.com
https://comboni2000.org

A vontade de poder e o Reino de Deus - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 A vontade de poder

e o Reino de Deus


1. Embora ao princípio tenha sido

bastante ignorada, trata-se de uma obra

decisivamente importante: Die Welt als

Wille und Vorstellung (O mundo como

vontade e representação), de Arthur

Schopenhauer.

“O mundo é a minha representação”,

assim começa, pois é sempre com a nossa

estrutura humana que o captamos. Mas o

ser humano não se reduz ao conhecimento.

Antes de pensarmos, vivemos: respiramos,

comemos, bebemos, movimentamo-nos.

Somos um corpo vivo que quer viver. No

mais fundo de nós, somos vontade de viver,

e a mais forte expressão dessa vontade está

no sexo e no instinto de reprodução.

Toda a vida orgânica é manifestação

dessa vontade. É aterrador o que se passa

na selva — também na “selva humana”.

Mais: a vontade está na raiz das

manifestações da natureza inorgânica —

pense-se na potência que põe os astros em

movimento, na energia nuclear, na força de

atracção e repulsa dos elementos, nas

tempestades, nos terramotos, nos vulcões. O

universo, aparentemente sereno, é um

reboliço infindo, gigantesco.

Foi também aqui que Nietzsche veio

beber a sua teorização da vontade de poder

e do super-homem. O que é a moral vulgar

senão a manifestação do ressentimento dos

fracos contra os fortes?

2. Já não se repara nisso, mas o

cristianismo é realmente um paradoxo e um

escândalo.

Jesus disse que veio para que tivéssemos

“a vida e a vida em abundância”. Ele é a

“ressurreição e a vida”. Mas a vida que ele

traz não é a vida para os mais fortes. Os

preferidos são os fracos, os doentes, os

aleijados, os pobres, os coxos, os cegos, os

leprosos, as prostitutas, os pecadores

públicos, os marginalizados pela sociedade,

os excluídos pela religião. E são

precisamente os poderosos da religião e da

política que em coligação o excluem do

mundo, condenando-o à morte e morte de

cruz – a morte dos escravos.

Portanto, Jesus aparece sem poder. Ele é

aparentemente o derrotado pelos

poderosos.

São Paulo percebeu o escândalo, dizendo

que só pregava Cristo, e Cristo crucificado.

Aos Coríntios escreveu: “Enquanto os

judeus pedem sinais e os gregos andam em

busca da sabedoria, nós pregamos um

Messias crucificado, escândalo para os

judeus e loucura para os gentios”. E foi ao

Areópago, em Atenas, pregar “o Deus

desconhecido”, que ressuscitou Jesus.

Agora, “quem quiser ganhar a vida deve

perdê-la, quem a perder por amor ganha-a”.

É tal o paradoxo que, aqui, se agita uma

pergunta tentadora: Porque não criou Deus

um mundo mais amoroso e menos violento?

Mas, desgraçadamente, não há quem

continua a pregar um deus sádico: Deus

mandou o seu Filho Jesus para, pela morte

na cruz, pagar a dívida infinita pelo pecado

e assim Deus aplacar a sua ira e reconciliar-

se com a humanidade?...

3. Os seres humanos debatem-se com três

impulsos – manifestações fundamentais da

vida como potência -- de cuja gestão

depende uma vida humana boa para todos:

o prazer, o ter e o poder.

Alguns dos primeiros cristãos

resolveram a questão de modo radical,

entregando o poder a César, renunciando

ao casamento, dando os bens aos pobres. A

sua fidelidade era facilitada pela convicção

da chegada iminente do Reino de Deus,

com a segunda vinda de Jesus. Se o Reino

de Deus, aquele Reino onde Deus reina e

onde não haverá escassez nem exploração

nem dor nem morte e se realizarão todas as

esperanças, está para chegar, César que

fique com o poder, efémero, a questão do

casamento não se põe, já não se trabalha e

tudo é comum...

Depois, foi o que se sabe. Até o Papa se

declarou “sumo pontífice”, sucedendo ao

imperador, também com cerimoniais da

corte, os bispos ocuparam palácios, os

cristãos mataram e mataram-se por causa

do prazer, do ter e do poder...

Jesus ainda não voltou, e a vida sem

algum prazer não tem interesse; para haver

futuro, é preciso continuar a gerar; a

economia tem de funcionar, e não há

comunidades humanas sem um mínimo de

exercício do poder, não o poder como

dominação, mas como serviço para o bem

comum universal, segundo o direito, a

justiça e a paz. Assim, o desafio essencial

para os cristãos e todas as pessoas de boa

vontade é a gestão do prazer, do ter e do

poder, no horizonte da mensagem de Jesus

com as bem-aventuranças: “felizes os

pobres em espírito” — não fazem da

riqueza o seu deus —, “os mansos, os

misericordiosos, os pacificadores, os puros

de coração, os que se batem pela justiça e a

paz...”

Não permitindo que se realize a queixa

de Nietzsche: “Cristãos? Só houve um, e

morreu na cruz.” Depois, veio a Igreja e “o

Disangelho”.

Sábado, 2 de Maio de 2026

sábado, 2 de maio de 2026

Deus é uma palavra insuficiente! - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Depois de um período de interregno da publicação deste artigo semanal do Pe.Manuel Correia , voltei a ter acesso ao último pelas mãos do Isidro. Penso que foi por ter deixado de usar o email da Clix. Tenho pena que nenhum dos leitores do blog me não tenha alertado para essa situação. Espero que o Pe. Manuel Augusto ou o Pe. Correia me voltem a fazer chegar o semanal artigo que muito gosto de ler, agora para o ajfspinheiro@gmail.com.

Deus é uma palavra insuficiente!

Ano A – Tempo da Páscoa – 5.º Domingo


João 14,1-12: “Vou preparar-vos um lugar”


Com os últimos domingos do tempo pascal, entramos na preparação das festas da Ascensão e do Pentecostes. São os domingos da despedida. No Evangelho de hoje e do próximo domingo, escutaremos algumas passagens do capítulo 14 de São João, tiradas do discurso de despedida de Jesus durante a última ceia. Trata-se do seu testamento, antes da paixão e da morte.

Por que retomar estes textos precisamente no período pascal? A Igreja segue a antiga tradição de ler, durante este tempo, os cinco capítulos do Evangelho de João relativos à última ceia, do capítulo 13 ao 17, nos quais Jesus apresenta o sentido da sua Páscoa. Além disso, poderíamos dizer que, tratando-se do seu legado, o testamento deve ser aberto depois da sua morte. Jesus deixa-nos a sua herança, os seus bens, a nós, seus herdeiros.

Não se perturbe o vosso coração!

O texto evangélico de hoje é um dos mais densos do Evangelho de João. O contexto — depois do anúncio da traição e da sua morte violenta — é triste e dramático. Jesus não esconde aos seus a gravidade daquela hora, mas consola-os, convidando-os à confiança. É a hora da prova, da crise. A noite desce sombria no coração de todos.

É uma palavra dirigida também a nós que, depois da exultação pascal, voltamos a cair na dureza da nossa vida quotidiana. “Credes em Deus, crede também em mim”, é a palavra de ordem!

Vou preparar-vos um lugar!

Na passagem evangélica encontramos, cerca de dez vezes, verbos e substantivos ligados ao movimento. O homem é um caminhante, um viandante — homo viator, segundo Gabriel Marcel. Também a fé implica pôr-se a caminho: “Sai da tua terra... para a terra que eu te indicarei” (Génesis 12,1). Assim foi para Abraão e assim continua a ser para nós. A Bíblia está cheia de estradas e caminhos, de bifurcações e encruzilhadas. “Feliz o homem que traz no coração os teus caminhos!” (Salmo 84,6).

Para o homem bíblico e para Jesus, o caminho tem uma orientação precisa: Deus, o Pai. Santo Inácio de Antioquia, na sua Carta aos Romanos, 7,2, exprime assim a sua experiência: “Uma água viva murmura dentro de mim e diz-me: Vem para o Pai!”

Infelizmente, hoje parece faltar o sentido da vida, a sua orientação. Cumpre-se aquilo que disse certa vez o dramaturgo francês Eugène Ionesco (1909-1994): “O mundo perdeu o caminho, não porque faltem ideologias-guia, mas porque elas não levam a parte alguma. Na gaiola do seu planeta, os homens movem-se em círculo porque se esqueceram de que podem olhar para o céu.”

Embora estejamos a caminho, o nosso coração procura o repouso. A promessa de Deus é precisamente “entrar no seu repouso” (ver Carta aos Hebreus 4,1). Não se trata de um repouso passageiro, mas do repouso de quem sente que chegou a casa, à sua morada. Jesus, com a sua Páscoa, abre-nos o caminho: vai preparar-nos essa morada e depois voltará para nos levar consigo. Esta morada é a casa do Pai. Porque cada um habita onde é amado, comenta o biblista jesuíta Silvano Fausti (1940-2015).

E a minha morada, onde está? Onde me sinto em casa, conhecido, apreciado e amado? É aí que se encontra a minha identidade, o meu verdadeiro eu. O coração do Pai é verdadeiramente a minha morada?

Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, TOMÉ.

Jesus supõe que os apóstolos o tenham compreendido: “E para onde eu vou, vós conheceis o caminho.” Mas, na verdade, não compreenderam nada. Como, aliás, talvez também nós não tenhamos compreendido.

Tomé, homem prático e concreto, é o porta-voz deles — e também o nosso: “Senhor, não sabemos para onde vais; como podemos conhecer o caminho?” E aqui Jesus dá-nos uma sua surpreendente e novíssima autodefinição: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.” Caminho, Verdade e Vida: três palavras que, no fundo, se equivalem e podem aplicar-se ao próprio Deus. O caminho é o amor, a verdade é o amor, a vida é o amor. E Jesus acrescenta: “Ninguém vai ao Pai senão por mim!” Jesus é o mediador entre Deus e a humanidade. Não como um intermediário neutro entre os dois, mas como aquele que assume em si ambos.

Quem me viu, viu o Pai, FILIPE.

Neste momento, ao ouvir Jesus falar tanto do Pai, intervém Filipe, mais idealista e sonhador, e faz uma belíssima oração: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta.” É o sonho de Moisés (Êxodo 33,18-20) e o desejo secreto de todo homem: “Quando irei contemplar o rosto de Deus?” (Salmo 42,3; 27,8-9). Diante deste pedido, porém, Jesus fica decepcionado: “Há tanto tempo estou convosco e tu não me conheces, Filipe? Quem me viu, viu o Pai... Não acreditas que eu estou no Pai e o Pai está em mim?” Por três vezes, Jesus repete esta habitação recíproca: “Eu estou no Pai e o Pai está em mim.”

Poderia ser a mesma decepção que Jesus sente diante de nós: “Mas como? Há tantos anos estás comigo, vês aquilo que faço e escutas a minha palavra, e ainda não me conheces? Quando eu te lavava os pés, era o próprio Pai ajoelhado diante de ti!”

Comenta então, de modo provocador, o biblista italiano Alberto Maggi: Jesus não é como Deus — que não conhecemos! —; é Deus que é como Jesus. Cristo é a revelação plena do Pai, a imagem perfeita do Deus invisível (Colossenses 1,15). “Aquilo que era invisível no Filho era o Pai, e aquilo que era visível no Filho era o Pai”, conclui Santo Ireneu.

O que Jesus diz revoluciona completamente a nossa noção de Deus. O monge Enzo Bianchi, fundador da comunidade de Bose, numa entrevista de alguns anos atrás, quando lhe perguntaram quem era Deus para ele, respondeu:

«Sempre percebi a palavra “Deus” como ambígua, insuficiente. Sinto uma relação muito forte com Jesus Cristo. Penso que irei a Deus, que o conhecerei, através de Jesus Cristo, mas não sei quem é Deus; não sabemos nada, ninguém jamais o viu, falamos demasiado dele sem o conhecer. Na minha opinião, um dos maiores erros é continuar a falar de Deus quando Deus permanece incognoscível, “o mistério”. Para mim, basta Jesus Cristo, que me conduzirá a Ele... Não gasto tempo a discutir sobre Deus ou a anunciar Deus.»

E no comentário ao Evangelho de hoje diz: “Às vezes pergunto-me se nós, cristãos, herdeiros do mundo grego, não acabamos por professar um teísmo com uma camada cristã. Devemos ter a coragem de dizer que, para nós cristãos, Deus é uma palavra insuficiente!

Em conclusão, nestes tempos de incerteza ou até de desorientação, sejamos também concretos como Tomé e perguntemos: Jesus, para onde vamos? Ele nos responderá: Segue-me, eu sou o Caminho!
Se temos um coração ansioso por ver o Pai, no contexto de um mundo e de uma história tão atribulados, repitamos também como Filipe: “Senhor, mostra-nos o Pai.” E Jesus continuará a responder-nos: Olha para mim, escuta-me. O Pai está no meu modo de amar, de servir, de perdoar, de lavar os pés.

Se queres saber quem é Deus, não o procures longe: olha para Jesus. E deixa-te conduzir por ele à casa do Pai.

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

domingo, 26 de abril de 2026

O clamor por Deus e a esperança final - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

O clamor por Deus

e a esperança final


1. Quem põe em dúvida que vivemos tempos

temíveis, brutais, de horrores sem fim? Ele há as

guerras, aquelas de que se fala e as outras de que

se não fala — por exemplo a do Sudão —,

multiplicando os seus campos de destruição e

ruinas, e os montões de cadáveres crescem e

crescem e crescem... E as crianças — tantas até

raptadas são — a gritar e as mulheres violadas, e

a fome não deixa de aumentar: todos os dias pelo

menos 8.000 crianças morrem por causa da fome.

E são milhões de milhões de euros que se gastam

em novos armamentos. Os prepotentes esmagam

os povos e os direitos das maiorias, e, vivendo

nós hoje em total interligação e interdependência,

quase todos no mundo acabam por ser vítimas

dessa prepotência. E lá andam todos numa

correria vertiginosa, todos ou quase todos a

dedar nas redes, e quem se lembra que brain rot

(apodrecimento do cérebro, cérebro apodrecido)

foi o termo considerado como a palavra do ano

pela Universidade de Oxford em 2024?...

Não creio que sejamos piores do que no

passado. Mas há uma questão terrível: temos

poder a mais. Pela primeira vez, a Humanidade

— basta pensar no armamento atómico — pode

pôr termo a si mesma. E há a IA, com imensas

vantagens, mas alguém pode dizer aonde nos

levará? E a crise climática... e os “cérebros

apodrecidos”?

Neste contexto, não deveria esquecer-se a

pergunta: Onde está o ser humano?, mas são mais

a perguntar: Onde está Deus?

Nestas circunstâncias — e não vou esquecer

também, por exemplo, as enfermarias dos

hospitais, verdadeiros acampamentos de dor e

solidão, os presos, os lares de idosos, as vítimas

de abusos de todo o género, os jovens com

ansiedade crescente... —, ainda em tempo de

Páscoa, alguns textos célebres podem vir ao nosso

encontro... Dou exemplos.

2. Para exprimir a sua consternação perante as

vítimas da História, todos os horrores do passado

e todos os mortos, “as ruínas da história”, Walter

Benjamin, da Escola de Frankfurt, que, numa

fuga falhada à perseguição nazi, se suicidou,

serviu-se de um quadro famoso do pintor suíço,

Paul Klee, chamado “Angelus Novus” e deixou-

nos o célebre texto sobre “O anjo da história”:

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus

Novus. Nele representa-se um anjo que parece

como se estivesse a ponto de afastar-se de algo

que o tem atordoado. Os seus olhos estão

desmesuradamente abertos, a boca também

aberta e as asas estão completamente estendidas.

E este deve ser o aspecto do anjo da história.

Voltou o rosto para o passado. Onde a nós se nos

manifesta uma cadeia de dados, ele vê uma

catástrofe única que amontoa incansavelmente

ruina sobre ruina, lançando-as a seus pés. Ele

bem quereria deter-se, despertar os mortos e

recompor o despedaçado. Mas a partir do paraíso

sopra um furacão que se enredou nas suas asas e

que é tão forte que o anjo já não consegue fechá-

las. Este furacão empurra-o irresistivelmente para

o futuro, para o qual ele está de costas, enquanto

os montões de ruinas crescem perante ele até ao

céu. Este furacão é o que nós chamamos

progresso”.

Estamos, na opinião de Manuel Fraijó, perante

um texto-chave da filosofia do século XX.

Benjamin era ateu, mas não o abandonava a

pergunta pelos mortos e, concretamente, pelas

vítimas inocentes da História...

3. No ano de 1796, Jean Paul (pseudónimo de

Johann Paul Friedrich Richter) escreveu um dos

textos mais sublimes e ao mesmo tempo mais

terríveis da grande literatura alemã: Rede des toten

Christus vom Welgebäude herab, dass kein Gott sei

(Discurso do Cristo morto, desde o cume do

mundo, sobre a não existência de Deus).

Nele, o grande escritor descreve um sonho.

Pela meia noite e em pleno cemitério, numa visão

apavorante, o olhar estende-se até aos confins da

noite cósmica esvaziada, os túmulos estão

abertos, e, num universo que se abala, as sombras

voláteis dos mortos estremecem, aguardando,

aparentemente, a ressurreição. É então que, a

partir do alto, surge Cristo, uma figura

eminentemente nobre e arrasada por uma dor

sem nome. E, com um terrível pressentimento,

“os mortos todos gritam-lhe: ‘Cristo, não há

Deus?’ Ele respondeu: ‘Não, não há Deus’. Então,

a sombra de cada morto estremeceu, e umas a

seguir às outras desconjuntaram-se. E Cristo

continuou, anunciando o que aconteceu no

instante da sua própria morte: ‘Atravessei os

mundos, subi até aos sóis, voei com as galáxias

através dos desertos do céu; e não há Deus. Desci

até onde o ser estende as suas sombras, e olhei

para o abismo, gritando: ‘Pai, onde estás?’ Mas

apenas ouvi a tormenta eterna, que ninguém

governa”. Quando, no espaço incomensurável,

procurou o olhar divino, não o encontrou; apenas

o cosmos infindo o fixou petrificado “com uma

órbita ocular vazia e sem fundo, e a eternidade

jazia sobre o caos e roía-o e ruminava-se”. O

coração rebentou de dor, quando as crianças

sepultadas no cemitério se lançaram para Cristo,

perguntando: ‘Jesus, não temos Pai?’ E ele,

debulhado em lágrimas, respondeu: ‘Somos

todos órfãos, eu e vós, não temos Pai’. “Nada

imóvel, petrificado e mudo! Necessidade fria e

eterna! Acaso louco e absurdo! Como estamos

todos tão sós na tumba ilimitada do universo! Eu

estou apenas junto de mim. Ó Pai, ó Pai! Onde

está o teu peito infinito, para descansar nele? Ah!

Se cada eu é o seu próprio criador e pai, porque é

que não há-de poder ser também o seu próprio

exterminador?”

Para Jean Paul, a morte de Deus não é ainda

um destino espiritual inevitável, mas apenas a

tentação de uma possibilidade ameaçadora,

contra a qual quer prevenir. Quando acordou do

pesadelo ateu, a sua alma “chorava de alegria,

por poder de novo adorar a Deus — e a alegria e

o choro e a fé nele era a oração”.

4. Um século depois (1882), o louco de

Nietzsche proclamou a morte de Deus: “O louco

saltou para o meio deles e trespassou-os com o

olhar. ‘Quem vos vai dizer o que é feito de Deus

sou eu’, gritou! “Quem o matou fomos todos nós, vós

mesmos e eu!”

“Nunca existiu acto mais grandioso”. Mas, ao

mesmo tempo, Nietzsche não se mostra

completamente eufórico. “Para onde vamos nós,

agora? Não estaremos a precipitar-nos para todo

o sempre? Não andaremos errantes através de

um nada infinito? Não estará a ser noite para

todo o sempre, e cada vez mais noite?”

5. O filósofo Gilles Lipovetstky escreveu, em A

Era do Vazio, comentando, que Deus morreu e as

pessoas não estão preocupadas com isso. Mas

outro filósofo, agnóstico, Leszek Kolakowski,

disse que o nosso “é um mundo privado de todo

o sentido, de qualquer orientação, sinal de

direcção, estrutura”, de tal modo que, desde a

proclamação da morte de Deus por Nietzsche,

“praticamente nunca mais houve ateus serenos”:

“A ausência de Deus tornou-se a ferida sempre

aberta do espírito europeu, por maior que tenha

sido o esforço para esquecê-lo, recorrendo a toda

a espécie de narcótico.” De qualquer forma no

seu livro mais recente, A Sociedade da Decepção

(2012), Lipovetsky, reconhecendo “a reafirmação

do religioso”, veio dizer que, “privados de

sistemas de sentido englobante, numerosos

indivíduos encontram uma tábua de salvação no

reinvestimento de antigas e novas

espiritualidades capaz de oferecer a unidade, um

sentido, referências, uma integração comunitária:

é o que o ser humano necessita para combater a

angústia do caos, a incerteza e o vazio.”

6. Lá está, sempre, a sublevação dos versos de

Heinrich Heine: “E continuamos

perguntando,/uma e outra vez,/até que um

punhado de terra/nos cale a boca./Mas isto é uma

resposta?”

7. E há, tocando o absurdo, aquela pergunta

terrível, pergunta-limite: se soubessem o que

agora sabem pela experiência vivida e a morte no

fim, quantos, quantas, se pudessem escolher,

teriam escolhido vir à existência?

É nesta pergunta-limite, entre ser e não ser,

finito-infinito, que, em confiança racional, pode

dar-se a experiência da verdade salvadora do

Evangelho: Jesus anunciou por palavras e obras o

Evangelho, notícia boa e felicitante, a melhor

notícia que a Humanidade alguma vez ouviu:

Deus é bom, Pai-Mãe, e só quer a alegria, a

felicidade, a plena realização de todos os seus

filhos e filhas, e Jesus, que sabia que nem todos

estavam de acordo com esta mensagem, não se

acobardou, foi até ao fim para dar testemunho da

Verdade e do Amor e, julgado como blasfemo

religioso e subversivo político, foi condenado à

morte e morte de cruz, a morte mais horrenda,

rezando aquela oração que atravessa os séculos:

“Meu Deus, meu Deus, porque é que me

abandonaste?”, e Deus infinitamente poderoso e

bom não o deixou na morte, ele está vivo na

plenitude da vida em Deus para sempre, como

desafio e esperança para todos..., para mim.

Sábado, 25 de Abril de 2026

quinta-feira, 23 de abril de 2026

A Páscoa: não à opressão e à morte - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

A Páscoa:
não à opressão e à morte


Nota introdutória: Na semana passada, não
houve crónica. A razão é simples: estive
internado no hospital. Aí, paramos mesmo e,
queiramos ou não, somos obrigados a pensar.
Quero agradecer, de coração, a tantos e tantas
que, tendo sabido, quiseram manifestar a sua
solidariedade. Nestas circunstâncias,
conhecemos verdadeiramente os amigos reais:
“precisa de alguma coisa?; em que posso
ajudar?; já sabe: se precisar de alguma coisa, é só
dizer; disponha, por favor...”. E a gente sabe que
é verdade.
E aí fica a crónica prevista:
O famoso filósofo Johann Gottlieb
Fichte tem um texto com perguntas que
todo o ser humano, minimamente atento à
vida, alguma vez fez, pois são perguntas
que ele transporta consigo, melhor, que ele
é.

O filósofo alemão escreveu que o ser
humano não deixará facilmente de resistir a
uma vida que consista em “eu comer e
beber para apenas logo a seguir voltar a ter
fome e sede e poder de novo comer e beber
até que se abra debaixo dos meus pés o
sepulcro que me devore e seja eu próprio
alimento que brota do solo”; como poderei
aceitar a ideia de que tudo gira à volta de
“gerar seres semelhantes a mim para que
também eles comam e bebam e morram e
deixem atrás de si outros seres que façam o
mesmo que eu fiz? Para quê este círculo que
gira sem cessar à volta de si?... Para quê este
horror, que incessantemente se devora a si
mesmo, para de novo poder gerar-se,
gerando-se, para poder de novo devorar-
se?”

Também Ernst Bloch, o filósofo ateu
religioso, com quem tive o privilégio de
conversar, escreveu que o Homem nunca
-de contentar-se com o cadáver.

aquelas perguntas in-finitas: Quem
sou? Para onde vou? Onde estarei quando
cá já não estiver?

E o dramático é que, por um lado, a vida
depois da morte é completamente não
figurável para lá do espaço e do tempo,
não é possível qualquer representação.
Nunca poderei dizer: morri, estou morto --
serão outros a dar a notícia.

Por outro lado, é insuportável acabar,
andar, na vida, de sentido em sentido e, no
fim, afundar-se no nada o ir para lado
nenhum. Sendo o Homem “alguém”, quem
afirma o nada no termo vê-se confrontado
com a pergunta: como se passa de “alguém”
a “ninguém”? Como conceber uma
consciência morta? Afinal, o que era antes
de morrer? Se tudo desembocasse no nada,
qual seria a distinção entre bem e mal,
honestidade e desonestidade, honradez e
mentira, verdade e falsidade, já que no fim
tudo se afundaria no nada e tudo seria o
mesmo: precisamente nada?

Nos seus inícios, o cristianismo triunfou,
porque a uma sociedade angustiada com a
morte se apresentou com a promessa
inaudita da esperança na ressurreição. Mas
hoje a morte é tabu, e a ressurreição dos
mortos e a vida eterna tornaram-se não
plausíveis e sem interesse. Parece que as
pessoas se contentam com o consumo
diletante, entretidos na corrida louca duma
agitação paralisante, desfrutando instantes e
entregando-se à morte inevitável, numa
espécie de melancolia resignada.

E não será assim porque hoje se ama
pouco, pois só o amor requer eternidade?
Mas então, numa sociedade sem eternidade,
o que resta são só instantes, que não podem
fazer texto nem encontrar sentido último,
porque se devoram uns aos outros.

Para quem se não perdeu na superfície
da banalidade, a Páscoa, no seu sentido de
passagem, é a experiência do transcender
constitutivo do ser ser humano. O Homem
nunca se contenta com o dado nem com os
factos brutos: vai sempre além, num além
sem limites, transgredindo, pela esperança,
as próprias fronteiras da morte.

Na perspectiva bíblica. a primeira
Páscoa é a do Antigo Testamento e consiste
na libertação da escravidão no Egipto: Deus
não aceita a opressão. A segunda Páscoa é a
culminação da primeira: Deus não tolera a
morte. Jesus crucificado não morreu para o
nada, mas para o interior de Deus, que é a
Vida eterna. Como diz São Paulo na Carta
aos Romanos, o Deus que cria a partir do
nada ressuscita os mortos.

É tão próprio do ser humano saber que é
mortal como esperar para lá morte. Mas é
mesmo de esperança que se trata, pois a
morte é a experiência de que o ser humano
não pode dar a si mesmo a salvação ela é
dom de Deus. O Novo Testamento só utiliza
a palavra imortalidade duas vezes: uma em
que se diz que Deus possui a
imortalidade, e outra em que se afirma que
o nosso corpo mortal há-de revestir-se da
imortalidade da ressurreição, o que significa
que a imortalidade é um dom.

Então, como escreveu o teólogo José I.
González Faus, o crente dirá ao não crente:
espero que no fim, para da morte,
encontrarás esse Pai ou Mãe ou essa Luz de
braços abertos para ti, encontrarás esse
Mistério último acolhedor.

Mas o não crente poderá responder ao
crente: verás a surpresa que vais ter quando
vires que não há nada.

Aí, ao crente só resta a resposta: valeu a
pena viver como vivi, se vivi no bem.
Acreditando, a minha vida foi mais
humana, abriu-se a mais dimensões da
realidade, encontrou Fundamento e Sentido
último. A prova de que a fé dos crentes não
é vã só pode ser a luta contra todas as
formas de morte: a fome, a guerra, a
injustiça, e a favor da liberdade, da
dignidade, da paz, da realização plena de
todos os seres humanos.

Sábado, 18 de Abril de 2026