sábado, 31 de janeiro de 2026

Na continuação do Papa Francisco - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

Na continuação
do Papa Francisco


O Papa Leão XIV já declarou várias vezes que quer
seguir a herança do Papa Francisco e, por isso, quer
continuar a sinodalidade, que, como diz até o étimo,
quer dizer caminhar juntos.

Sim, pensando de modo consequente,
verdadeiramente o caminho só pode ser esse, o
sinodal. Evidentemente, quando se pensa na Igreja
cristã, a mensagem é que tem de ser o núcleo, e a
mensagem é: a fé em Jesus e no seu Evangelho, o
Deus-Amor, Pai-Mãe, com todas as consequências:
agir com a dignidade de filhos e filhas e amarmo-
nos todos como irmãos e irmãs... E o caminho é
juntos.

Evidentemente, é de igual modo claro que, onde
há muita gente, muitos e muitas, e espalhados por
toda a Terra, se impõe um mínimo de organização,
que tem de ser meio e não fim, pois tem de estar
ao serviço da mensagem. Não foi o que, como se lê
no Evangelho segundo São Mateus, Jesus quis dizer
a Pedro, louvando-o porque proclamou que ele é o
Messias, mas chamando-o Satanás, porque pensou
que a salvação vinha mediante o poder? Que diria
Jesus hoje das Paróquias, das Dioceses e sobretudo
do Vaticano, da sua pompa, das suas vestes, das
suas mitras, das suas intrigas, escândalos,
privilégios...? E não era sobretudo da Cúria que se
queixava Francisco? Dizia acidamente: “É mais difícil
reformar a Cúria do que limpar a esfinge do Egipto
com uma escova de dentes”.

Afinal, quem decide na Igreja? Poucos, muito
poucos, homens celibatários e de idade avançada,
numa Igreja hierárquica, vertical, clerical, misógina,
sem divisão de poderes... Francisco queria uma
Igreja sinodal, com a participação de todos. Um
parêntesis: já se reparou no que se passa na Igreja,
quando se pensa, por exemplo, num Consistório de
cardeais, mesmo que mundial? Afinal, o Papa
reúne-se com aqueles que o elegeram a ele, tendo
eles próprios sido escolhidos por ele ou outro
Papa... Não estamos perdoe-se a expressão
perante um círculo incestuoso?

Numa obra importante, Quem manda na
Igreja? (Quién manda en la Iglesia? Notas para una
sociología del poder en la Iglesia Católica del siglo
XXI), o sociólogo católico Javier Elzo apresenta outro
modelo para a Igreja do século XXI: “Uma Igreja em
rede, à maneira de um gigantesco arquipélago que
cubra a face da Terra, com diferentes nós em
diferentes partes do mundo, inter-relacionados e
todos religados a um central, que não
centralizador, que, na actualidade, está no Vaticano.
Aí ou noutras parte do planeta, todos os anos se
reuniria uma representação universal de bispos,
padres, religiosas e religiosos, leigos (homens e
mulheres), todos sob a presidência do Papa, para
debater a situação da Igreja no mundo e adoptar as
decisões pertinentes” e iluminar os grandes
problemas da Humanidade. Portanto, um Sínodo
verdadeiramente universal, no qual o Papa continua
a ter uma palavra decisiva, mas onde todos têm
direito a voto e tomando decisões com uma maioria
clara (dois terços?)...

Continuaremos. Mas, para já, ficam estas duas
perguntas, inevitáveis: Continuará a lei do celibato
obrigatório para os padres? Continuará a intolerável
discriminação da mulher na Igreja, que a impede de
presidir à celebração da Eucaristia?

Sábado, 31 de Janeiro de 2026

domingo, 25 de janeiro de 2026

A obsessão pelo sucesso, a «cultura da pressa» e o desafio da unidade - Octávio Carmo

 Começamos a semana com um convite a abrandar e a olhar para o essencial. Num mundo marcado pela velocidade e pela busca de aprovação, as mensagens deste domingo, vindas do Vaticano e de Lisboa, convergem num ponto: é preciso tempo para o que realmente importa.

No Ângelus deste domingo, o Papa Leão XIV deixou um alerta muito claro sobre a obsessão contemporânea pela «visibilidade» e pelo «sucesso». O Papa pede-nos que rejeitemos o que chama de «substitutos de felicidade», que muitas vezes nos aprisionam, e propõe, em contrapartida, a procura de momentos de silêncio no quotidiano. Leia a notícia completa

O olhar do Papa voltou-se também para a grave crise humanitária que afeta a República Democrática do Congo e o Burundi. Há populações a fugir da violência e a enfrentar a fome, uma realidade que exige a nossa atenção e oração pela paz. Saiba mais aqui

 

Semana da Unidade

Arrancou este domingo a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. O Papa pediu a todas as comunidades que reforcem a oração pela unidade visível da Igreja. Em Portugal, o tema ganha atualidade com a nova «Carta Ecuménica». Numa entrevista conjunta Ecclesia/Renascença, a pastora Sandra Reis (Igreja Evangélica Presbiteriana) foi perentória: as Igrejas devem rejeitar a instrumentalização da fé para fins políticos e «abrir a mesa» aos imigrantes.

Ainda neste espírito de recuperar o tempo, o Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, presidiu à abertura do Ano Jubilar das Irmãs Concepcionistas. Na sua homilia, apresentou a vida contemplativa como o grande antídoto contra a «cultura da pressa», alertando que, nesta engrenagem onde tudo é para ontem, corremos o risco de nos tornarmos «ausentes de nós mesmos».

Olhando para o futuro do país, D. Alexandre Palma considerou que a escolha para a Presidência da República será «decisiva». O bispo pediu «sentido crítico» e responsabilidade, tanto aos candidatos como aos cidadãos.

 

Para anotar na agenda:

  • Inteligência Artificial: O clero das dioceses do Sul (Algarve, Beja, Évora e Setúbal) reúne-se a partir de hoje em Albufeira para refletir sobre os desafios da IA.
  • História Religiosa: A UCP apresenta hoje, em Lisboa (17h00), a «Enciclopédia de História Religiosa em Portugal» online.
  • Cultura: O Seminário Maior de Coimbra inicia hoje o ciclo «Sursum corda», com Frederico Lourenço a falar sobre "Lentos de coração". Em Lisboa, a Capela do Rato arranca com o curso «Da Alegria».
  • Funchal: A Diocese assinala hoje a Semana da Unidade com uma Vigília Ecuménica no Convento de Santa Clara (19h30).

Na RTP2, o programa ECCLESIA destaca a nova edição da Missão País. Milhares de universitários trocam as férias por uma semana de missão em 75 localidades. Conheça os bastidores deste projeto com os chefes nacionais, Maria Belo Braga e Bernardo Carpinteiro.

Despeço-me com votos de boas notícias,

Octávio Carmo

NO MEIO DAS TEMPESTADES - Frei Bento Domingues, O.P. 25 Janeiro 2026

 

NO MEIO DAS TEMPESTADES

Frei Bento Domingues, O.P.

25 Janeiro 2026

 

1. Nos dias 7 e 8 deste mês, realizou-se o primeiro Consistório, convocado pelo Papa Leão XIV. Que fazer para que o Consistório não seja só a voz dos cardeais? É fundamental que, nesta instituição, estejam também as vozes de leigos, mulheres e homens. Na Igreja, segundo o Vaticano II, a palavra não pertence, apenas, à hierarquia. Não será um Consistório, que exclui representantes de todas as componentes da Igreja, uma traição à própria Igreja sinodal?

Espera-se que, no futuro, o governo da Igreja nasça de toda a Igreja, Povo de Deus. A noção de caminhar juntos – Igreja sinodal – é incompatível com o sistema que exclui os leigos, mulheres e homens. Os próprios Bispos sem os leigos não são bispos. Neste ponto, não deve ser esquecida a palavra de Santo Agostinho: convosco sou cristão, para vós sou bispo.

Um erro, por excesso ou por defeito nesta matéria, destrói aquilo que se julgava já adquirido. Com o Papa Francisco, foram desencadeados processos para que, em nome da memória, não se trave o presente e o futuro. O tempo da Igreja pode ser entendido como já, mas ainda não.

É uma ilusão pensar que se abrem caminhos definitivos. Temos de ter em conta o essencial, o Querigma, o primeiro anúncio do Evangelho, para não nos perdermos em regras, numa floresta de assuntos secundários, como acontece muitas vezes. A letra mata, o Espírito vivifica[i]. Como diz S. Tomás de Aquino, o que há de essencial no Novo Testamento é a graça do Espírito Santo, tudo o resto é secundário. É esse Espírito que abre o diálogo entre as Igrejas, entre as religiões e entre os problemas da sociedade actual[ii]. Nunca perder de vista a correlação que deve existir entre a vida humana e a vida cristã. Como diz Hélder Câmara, Põe o ouvido no chão/ e interpreta os rumores à volta.

A perspectiva que deve prevalecer é o caminho que já foi feito e o que falta percorrer. Leão XIV mostra-se muito atento à agitação do mundo actual, inclusive da própria Igreja. No dizer de Timothy Radcliffe, «Não devemos ter medo. Nós também vivemos em tempos de tempestades terríveis, marcados pela escalada da violência, o crime armado, a guerra. (…) Sem ignorar os problemas internos da Igreja, a própria Igreja está a ser abalada pelas suas próprias tempestades»[iii].

As catequeses deste Papa, das quartas-feiras de 2026, não são apenas para não perder a memória e não deixar que a Igreja contraia a doença de Alzheimer, mas também para não perder o sonho dos novos Céus e da nova Terra. É no presente que vivemos, abrindo o futuro.

2. O Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé tem a responsabilidade de ajudar a abrir caminhos, de alargar as perspectivas teológicas, de estimular as iniciativas da cultura da Fé. Deve, por isso, resistir à tentação de querer ser o único que, na Igreja, pensa que tem o exclusivo da teologia ortodoxa. Já conhecemos períodos que foram um travão à criatividade.

No início do Consistório, o Cardeal Víctor Manuel Fernández, perante o Papa Leão XIV e o Colégio Cardinalício, apresentou a exortação programática de Francisco – Evangelii Gaudium como um desafio «que não pode ser enterrado» e como a chave hermenêutica para o actual impulso sinodal e missionário: «Não se trata de uma antiga opção pastoral que possa ser substituída por outra», mas sim de uma maneira de conceber toda a vida da Igreja a partir da perspectiva do anúncio do Evangelho.

Este Cardeal, bem diferente de outros de má memória, recorda as três motivações espirituais propostas na Evangelii Gaudium e que «continuam relevantes hoje»:

 a). Renovar a experiência de não conseguir viver sem o Senhor Jesus, sem a sua amizade e a sua presença viva. Ele é a minha rocha, o meu tesouro, a minha vida, a minha esperança. b). Renovar a paixão pelo povo, o prazer de estar com o povo, a decisão de sofrer e caminhar com ele. c) A convicção de fé de que a nossa dedicação à proclamação do Evangelho sempre dá frutos, além do que vemos, além do que podemos verificar… sem pretender saber como, onde ou quando.

«Diante dos grandes desafios do mundo e da Igreja, podemos sentir que temos pouco a oferecer. O que podemos dizer ou fazer que realmente faça a diferença? No entanto, com a graça de Deus, o nosso pouco será mais do que suficiente. Não endureçamos os nossos corações, mas abramo-los aos dons imensuráveis ​​de Deus, que nos concede graça ilimitada se abrirmos as nossas mãos e os nossos ouvidos para Ele e para os outros»[iv].

A meditação de Radcliffe serviu como um apelo à unidade, ao discernimento e à acção missionária, convidando os cardeais a não se esconderem, mas a navegarem nas tempestades actuais, centrados no Evangelho e na pessoa de Cristo, mesmo perante as suas próprias divisões e desafios.

3. Estamos em plena Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Recordemos: o Papa Leão XIII (1810-1903) tinha pensado promover uma novena pela unidade dos cristãos, aproveitando a semana que vai do dia da Ascensão à festa de Pentecostes. Mais tarde, a ideia foi muito divulgada por Paul Wattson (1863-1940), um anglicano que se tornou católico romano. A proposta de data feita por Wattson era de 18 de Janeiro (festa da cátedra de S. Pedro em Roma) a 25 de Janeiro (festa de S. Paulo). Estariam assim representados, nos dois apóstolos, estilos diferentes de vivência cristã (1908). Mas, de acordo com a mentalidade católica da época, pensava-se em unidade como retorno de todos os cristãos à Igreja com sede em Roma. Como era de esperar, tal proposta não foi bem aceite por ortodoxos e protestantes. Em 1926, o movimento Fé e Constituição, que mais tarde esteve na origem da formação do Conselho Mundial de Igrejas, lançou um apelo para a realização de uma Semana de Oração pela Unidade, a ser feita nos dias que antecedem a festa de Pentecostes.

Um grande impulso veio do padre católico francês Paul Couturier (1881-1953), a partir de 1935. Mas desta vez, a proposta mostrava uma abertura da parte católica: não se tratava de um retorno ao catolicismo, mas da reunião fraterna de Igrejas, cada uma com a sua identidade. Dizia: «Que chegue a unidade do Reino de Deus, tal como Cristo a quer e pelos meios que ele quiser!»  O Movimento Ecuménico, com o Vaticano II (1962-1965), tornou-se um caminho de reforma da Igreja, em diálogo com todos os cristãos e aberta a toda a Humanidade. O Papa Francisco compreendeu a dimensão universal deste movimento: Fratelli Tutti.

«Não haverá paz entre as nações, se não existir paz entre as religiões; não haverá paz entre as religiões, se não existir diálogo entre as religiões; não haverá diálogo entre as religiões, se não existirem padrões éticos globais; o nosso planeta não irá sobreviver se não houver um ethos global, uma ética para o mundo inteiro»[v].

Fora do diálogo não há salvação.



[i] 2 Coríntios 3, 6

[ii] Frei Bento Domingues, O.P., Fora do Diálogo não há Salvação, Temas e Debates, 2024

[iii] Timothy Radcliff, no início do Consistório: Pedro não deve enfrentar a tempestade sozinho.

[iv] Timothy Radcliff, ao concluir a sua intervenção, no início do Consistório

[v] Hans Küng (1928-2021)