sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Jesus, arqueiro da fé - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Jesus, arqueiro da fé

Ano A – 20.º Domingo do Tempo Comum
Mateus 15,21-28: «Mulher, grande é a tua fé!»
O Evangelho deste XX Domingo apresenta-nos o encontro de Jesus, fora das fronteiras de Israel, com uma mulher cananeia que lhe suplica que cure a sua filha. À primeira vista, o episódio pode parecer desconcertante e até escandaloso: aos gritos angustiados da mulher, Jesus responde inicialmente com o silêncio — «não lhe respondeu palavra alguma» —; depois, apesar da intervenção dos discípulos, com uma recusa: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel»; por fim, recorre a uma expressão muito dura: «Não é justo tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos». Só depois desta dramática sequência Jesus atende o pedido da mulher e elogia a sua fé.
O relato encontra-se também no Evangelho de Marcos, de forma mais concisa (Marcos 7,24-30). Lucas não relata este episódio, talvez porque desenvolva noutras narrativas o tema da abertura aos pagãos.
Como compreender esta passagem evangélica? Podemos propor três chaves de leitura.
1. Uma explicação ligada às circunstâncias. Jesus tinha-se afastado da Galileia para se retirar com os seus, depois de um confronto duríssimo com os escribas e os fariseus, enviados de Jerusalém, sobre a questão do puro e do impuro. Desejava, portanto, passar despercebido. Marcos 7,24 confirma-o: «Não queria que ninguém o soubesse, mas não pôde permanecer oculto».
2. Uma explicação metodológica. Durante o seu ministério terreno, Jesus reconhece uma prioridade à missão junto de Israel, sem excluir significativas aberturas aos pagãos.
3. Uma explicação pedagógica. Segundo uma possível leitura pedagógica, através deste diálogo intenso, Jesus leva a mulher pagã a manifestar uma fé extraordinária e apresenta-a como exemplo aos discípulos e a nós. É um contraste particularmente significativo com Pedro, que, no Evangelho do domingo anterior, tinha sido chamado por Jesus «homem de pouca fé».
Mas avancemos por etapas.
1. Jesus, um homem disponível para ser… interrompido!
Jesus não era um profeta que vagueava sem rumo, deixando-se guiar apenas pelas circunstâncias ou por encontros casuais. Tinha recebido do Pai uma missão e levava-a adiante com constância e determinação, orientando tanto os espaços — «É necessário que eu anuncie a Boa-Nova do Reino de Deus também às outras cidades, pois para isso fui enviado» (Lucas 4,43) — como os tempos: «Ide dizer a essa raposa [o rei Herodes]: “Eis que expulso demónios e realizo curas hoje e amanhã; e, no terceiro dia, a minha obra estará concluída”» (Lucas 13,32).
E, no entanto, quantas vezes Jesus se deixou “interromper” pelos acontecimentos e pelas pessoas! Recordemos, por exemplo, quando quis retirar-se com os seus para um lugar solitário, mas mudou de planos porque encontrou diante de si uma grande multidão e teve compaixão dela (cf. Marcos 6,30-34). É o que acontece também aqui, no encontro com a mulher cananeia. E algo semelhante já tinha ocorrido em Caná, quando Maria, sua mãe, o interpelou antes de ter chegado «a sua hora».
Jesus deixa-se alcançar pelo sofrimento concreto das pessoas. A sua é uma vida aberta ao imprevisto, até à interrupção extrema e dramática da cruz.
Isto deveria levar-nos a refletir sobre a nossa vida — e também sobre a vida da Igreja —, por vezes tão programada e planeada que não deixa espaço para interrupção alguma; nem sequer para aquela necessária para parar diante do homem abandonado, meio morto, à beira da estrada.
2. Jesus, o profeta… que ultrapassa fronteiras!
A passagem de Jesus para os territórios pagãos evidencia um traço característico da sua missão: ele supera as cercas e as barreiras produzidas por interpretações rígidas da lei, por certos costumes sociais e por qualquer forma de exclusivismo religioso. Embora declare dirigir-se, naquela fase da sua missão, às «ovelhas perdidas da casa de Israel», Jesus não se deixa aprisionar por esquemas rígidos e preconcebidos.
Aproxima-se daqueles que a sociedade religiosa considera impuros ou pecadores, não divide o mundo de maneira simplista entre bons e maus e sabe reconhecer o bem onde quer que ele se encontre. É como uma abelha que recolhe o néctar de cada flor e transforma cada encontro numa oportunidade de vida.
Também aqui encontramos um verdadeiro desafio para nós, crentes. Muitas vezes “ultrapassamos as fronteiras” na crítica, nas conversas e na indevida intromissão na vida alheia; ao mesmo tempo, porém, “confinamos” as nossas relações, erguemos cercas, cortamos pontes e cultivamos bairrismos que criam mundos separados e incomunicáveis. Jesus convida-nos, pelo contrário, a “ultrapassar fronteiras” no diálogo e no encontro com quem é diferente de nós.
3. Jesus, … arqueiro da fé!
Ao comentar o episódio da mulher cananeia, o cardeal Carlo Maria Martini utilizou uma imagem que me impressionou: a de um arqueiro que experimenta um arco novo e põe à prova a sua resistência.
É assim que Jesus parece agir com a fé desta mulher, através da sequência dramática das suas três respostas: primeiro o silêncio, depois a recusa e, por fim, a comparação entre os filhos e os cachorrinhos, que aos ouvidos da mulher poderia soar humilhante. O diálogo parece levar a sua fé até ao limite, quase correndo o risco de a quebrar. Aquela mãe poderia ter-se afastado, indignada com a aparente insensibilidade de Jesus e com a aspereza da sua linguagem.
Jesus, porém, demonstra confiar nela e oferece-lhe espaço para manifestar toda a força da sua fé. A mulher torna-se, assim, um exemplo luminoso: «Mulher, grande é a tua fé!». A sua perseverança, a sua humildade e a sua vivacidade de espírito transformam o confronto num encontro de salvação.
Ninguém gosta de ser posto à prova. Por isso, no Pai-Nosso, pedimos: «Não nos deixeis cair em tentação», invocando a ajuda do Pai para que não sucumbamos no tempo da provação. «Não nos submetas à prova» é uma possível releitura de «não nos deixeis cair em tentação». Deus não tenta para o mal; contudo, permite que a nossa fé seja provada e, através da provação, purifica-a e fá-la amadurecer. O livro de Ben-Sirá adverte-nos: «Filho, se te apresentas para servir o Senhor, prepara-te para a tentação» (Ben-Sirá 2,1). A consciência da nossa fraqueza pode levar-nos a temer a hora da provação, mas a fidelidade de Deus sustenta-nos e abre-nos à confiança.
Três propostas para reflexão
1. Deixo-me “interromper” pelas pessoas e pelas suas necessidades ou sou ciumento do meu tempo e dos meus planos? Acolho com disponibilidade e com um sorriso quem interrompe os meus projetos?
2. Sou uma pessoa de mente aberta, disponível para o diálogo e para o encontro, ou fico rigidamente preso às minhas posições?
3. Como reajo às provações da vida: com impaciência e pessimismo ou com paciência e confiança?
Khalil Gibran, escritor libanês cristão maronita (1883-1931), utiliza uma metáfora — iluminadora também para nós — na qual Deus é o Arqueiro, os pais são os arcos e os filhos são as flechas:
«Vós sois os arcos dos quais os vossos filhos, como flechas vivas, são lançados. O Arqueiro vê o alvo no caminho do infinito e curva-vos com a sua força, para que as suas flechas voem rápidas e para longe. Que seja alegre e feliz esse vosso ser curvado pela mão do Arqueiro: pois, assim como ama a flecha que lança, também ama o arco que permanece firme».
P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Ordena-me que vá ter contigo!” - P. Manuel João Pereira Correia mccj

 Ordena-me que vá ter contigo!”

Ano A – Tempo Comum – 19.º Domingo
Mateus 14,22-33: “Senhor, se és tu, ordena-me que vá ter contigo sobre as águas”
O Evangelho do domingo passado narrava-nos o milagre da multiplicação dos pães para uma grande multidão, num lugar deserto, que terminou com a recolha de doze cestos cheios de sobras. A esse acontecimento segue-se o conhecido episódio de hoje, no qual Jesus caminha sobre o mar.
Estes dois milagres — a multiplicação dos cinco pães e dos dois peixes e o caminhar de Jesus sobre as águas — constituem uma nova manifestação da identidade de Jesus. Ele revela-se como o Messias — que, segundo uma tradição, haveria de renovar o prodígio do maná — e como o Filho de Deus: caminhar sobre as águas era, de facto, considerado uma prerrogativa divina.
Entre os dois episódios, o Evangelho apresenta-nos Jesus que reza, sozinho, durante a noite, no monte.
1. “Sai e permanece no monte” (Elias, primeira leitura)
Perante esta epifania, peçamos ao Senhor a graça de sair das cavernas onde nos refugiámos, como o profeta Elias, para acolhermos a novidade da passagem de Deus pela nossa vida.
Talvez Deus já não se manifeste como “um vento forte e impetuoso” — como na nossa juventude — nem como o terramoto ou o fogo dos nossos primeiros anos de compromisso cristão, mas como “o murmúrio de uma brisa suave”, percetível apenas no silêncio do coração.
2. “Ordena-me que vá ter contigo” (Pedro, no Evangelho)
a) Impelidos para a outra margem
“Depois de a multidão ter comido, Jesus obrigou imediatamente os discípulos a entrar na barca e a precedê-lo na outra margem”.
É significativo que, neste episódio, Jesus “obrigue” os discípulos a partir. Podemos imaginá-lo a mandar-lhes carregar os doze cestos cheios de sobras e a impeli-los a entrar na barca, apesar dos protestos dos Doze: é demasiado tarde, o vento é contrário, é imprudente dirigirmo-nos para a outra margem do lago, para um território predominantemente pagão e estrangeiro! E porquê deixar Jesus sozinho?
Os apóstolos teriam preferido ficar ali e desfrutar daquele momento de euforia juntamente com a multidão. Mas não há nada a fazer: partem contrariados em direção à outra margem, quase para significar que também até lá deverá ser levado o pão.
Assim acontece também connosco, Igreja que Cristo impele continuamente para “a outra margem”!
b) À mercê do mar e dos fantasmas
“Pelo fim da noite, ele foi ter com eles, caminhando sobre o mar”.
Aos elementos traiçoeiros do mar, da noite e do vento acrescenta-se agora um fantasma! Tomados de terror, os Doze gritam de medo. “Mas Jesus falou-lhes imediatamente, dizendo: Tende coragem, sou eu, não tenhais medo!”.
O medo é um companheiro habitual; o convite de Deus a não temer é o seu antídoto quotidiano. “Não tenhais medo”, porque “sou eu”; ou melhor, “Eu Sou”, expressão que evoca o próprio Nome de Deus.
c) Ordena-me!
Pedro toma a iniciativa e diz a Jesus: “Senhor, se és tu, ordena-me que vá ter contigo sobre as águas”. “Se és tu…”. Trata-se de uma dúvida e de um pedido de prova? Do efeito de uma emoção incontrolada depois do medo? De uma reação infantil e entusiástica? Ou de um impulso de confiança no Senhor? Talvez nem o próprio Pedro o saiba ao certo, como tantas vezes também nos acontece!
Impressiona, contudo, a maneira como Pedro formula o seu pedido: “Ordena-me que vá ter contigo sobre as águas”. Ordena-me! Não diz: “Faz com que eu vá…” ou “Concede-me que vá…”. Não, ele pede para o fazer em virtude da ordem de Jesus. E Jesus consente.
“Ordena-me que vá ter contigo sobre as águas!”. Este pode tornar-se também o nosso pedido. A nossa vida quase nunca é um cruzeiro tranquilo. Muitas vezes assemelha-se à navegação numa frágil barquinha à mercê das ondas. Por vezes, parece-nos até que nos falta debaixo dos pés aquela precária segurança. Então, nada mais nos resta senão a fé nua, capaz de caminhar sobre as águas: não pela nossa coragem ou iniciativa, mas pela confiança depositada na ordem do Senhor.
Ordena-me, e eu caminharei sobre o mar agitado da doença ou do luto.
Ordena-me, e eu enfrentarei as águas ameaçadoras de uma crise matrimonial.
Ordena-me, e eu vencerei a tempestade de uma relação difícil com um filho ou uma filha.
Ordena-me, e eu atravessarei o vendaval que abalou a minha vida.
d) Salva-me!
A fé é algo tremendamente sério: preciosa e frágil como a vida. O verdadeiro crente sabe-o e experimenta-o. Basta desviar por um instante o olhar de Cristo para se sentir afundar.
Pobre Pedro e pobres de nós! Porque duvida Pedro precisamente no meio do milagre? Talvez esperasse que as ondas do mar se acalmassem, para poder caminhar com toda a tranquilidade. Mas isso não acontece. As circunstâncias exteriores não mudam. A fé não nos isenta dos riscos.
Então, nada mais nos resta senão gritar: “Senhor, salva-me!”. E o pescador… é pescado!
Hoje parece mais difícil gritar: “Salva-me!”, também porque Cristo nem sempre é reconhecido como o Salvador. Salvar de quê?
É muito eloquente o que aconteceu a um sacerdote que presidia a uma celebração eucarística de Primeiras Comunhões. Depois de convidar as crianças a formularem orações espontâneas, ficou surpreendido quando uma menina disse: “Obrigado, Jesus, porque me salvaste… embora agora não me lembre de quê!”. Toda a assembleia riu com gosto. Mas quantos dos presentes teriam sabido ir além da resposta formal aprendida na catequese?
3. “A grande tristeza” (Paulo, segunda leitura)
Quem experimentou a mão que salva não pode permanecer indiferente perante quem parece perder-se. É este o sofrimento que São Paulo confessa na segunda leitura: “Tenho no coração uma grande tristeza e uma dor contínua” por causa “dos meus irmãos, meus parentes segundo a carne” (Romanos 9,1-5).
Ver os próprios concidadãos, a própria família e os próprios amigos longe de Cristo é, para o crente, um espinho cravado no flanco. Rezar por eles não é simplesmente uma “boa obra”, mas uma responsabilidade, uma resposta à pergunta de Deus: “Onde está o teu irmão?”.
Matta el Meskin, monge cristão egípcio († 2006), afirma: “Com a oração, o homem torna-se sacerdote, no sentido de que se torna responsável pela salvação dos outros […]. Carregando sobre si o pecado deles, gemendo do fundo do coração sob o seu peso e fazendo penitência, torna-se capaz, fazendo-se pecador em lugar deles, de pedir perdão e de o obter para eles”.
Para refletir
Como me comporto no momento da provação: com ira ou com paciência? Com medo ou com confiança? Com desânimo ou com esperança?
No meio das tempestades da vida, também eu grito: “Ordena-me! Salva-me, Senhor”?
Estou pronto, estou pronta, a estender a mão para agarrar quem está a afundar-se?
P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ


P. Manuel João Pereira Correia mccj
p.mjoao@gmail.com

sábado, 1 de agosto de 2026

Cinco pães e dois peixes: a receita do milagre! - Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Ano A – Tempo Comum – 18.º Domingo

Mateus 14,13-21: «Todos comeram e ficaram saciados»
Depois da leitura do capítulo 13 do Evangelho segundo Mateus, dedicado às parábolas, a liturgia propõe-nos o milagre da multiplicação dos pães. Trata-se do único milagre de Jesus, além da ressurreição, narrado nos quatro Evangelhos. O relato aparece até seis vezes, porque, em Marcos e Mateus, é apresentado também num contexto geográfico pagão (cf. Mc 8,1-10; Mt 15,32-39).
O risco do reducionismo
Antes de nos aproximarmos do texto, parece-me oportuno sublinhar a necessidade de evitar alguns possíveis reducionismos:
1. Concentrar a nossa atenção quase exclusivamente no aspeto milagroso, isto é, na dimensão histórica e no «facto» em si. Os quatro evangelistas apresentam versões com pormenores diferentes. Isso ajuda-nos a compreender que cada um deles relê o acontecimento em função da sua própria comunidade, entrelaçando o «facto» com a sua interpretação catequética.
2. Reter do relato apenas a dimensão simbólica, esvaziando o «sinal» da sua referência histórica e reduzindo-o a uma espécie de «parábola» da partilha. Sem o carácter extraordinário do acontecimento, seria difícil explicar por que razão os evangelistas e a primeira comunidade cristã atribuíram tanta importância a este «sinal».
3. Propor uma leitura unívoca do texto, exclusivamente religiosa ou apenas material. Por um lado, corre-se o risco de interpretar o relato unicamente em chave espiritual, uma vez que todos os evangelistas relacionam o milagre com a Eucaristia; por outro, de o reduzir a um simples convite à partilha e à solidariedade.
Três pistas para reflexão
1. Uma revelação cristológica
O relato situa-se imediatamente depois da morte de João Batista. Ao receber a notícia, Jesus entra numa barca e «retira-se para um lugar deserto, à parte», talvez para se recolher na dor pela morte de João; a multidão, porém, segue-o. «Ao desembarcar, viu uma grande multidão, encheu-se de compaixão por ela e curou os seus doentes.»
O primeiro aspeto que podemos retirar do texto é a profunda humanidade de Jesus. Ao ver a multidão, Ele comove-se: «encheu-se de compaixão por ela». «Com-paixão» significa literalmente «sofrer com». Jesus renuncia aos seus próprios planos para cuidar das pessoas. Nunca refletiremos suficientemente sobre este aspeto fundamental da encarnação!
Ao cair da tarde, os discípulos, orientados pelo seu sentido prático, dizem a Jesus: «Manda embora a multidão, para que vá às aldeias comprar alimentos». Ele responde de modo surpreendente e desconcertante: «Não precisam de ir embora; dai-lhes vós mesmos de comer».
Tentemos imaginar-nos no lugar deles. Têm apenas cinco pães e dois peixes: uma quantidade que nem sequer seria suficiente para eles próprios. Jesus limita-se a dizer: «Trazei-mos aqui». Cinco mais dois são sete, número que, na simbologia bíblica, evoca a plenitude. O pouco, colocado nas mãos de Jesus, torna-se suficiente para todos. Deste modo, os discípulos são convidados a fazer sua a compaixão do Mestre.
Este não é o único aspeto revelador do episódio. No tempo de Jesus, estava difundida a expectativa de um Messias semelhante a um novo Moisés. Conduzindo o povo ao deserto — note-se a insistência no «lugar deserto» —, Ele inauguraria um novo êxodo e renovaria o prodígio do maná.
Ao mesmo tempo, os gestos com que os evangelistas descrevem a ação de Jesus evocam a Última Ceia e a Eucaristia: tomou os pães, pronunciou a bênção, partiu-os e deu-os aos discípulos (cf. Mt 26,26). A Eucaristia apresenta-se, assim, como o verdadeiro maná, o pão oferecido por Deus para a vida do mundo. Esta ligação é particularmente evidente no relato e no discurso posterior sobre o pão da vida do Evangelho segundo João (cf. Jo 6,1-58).
«Todos comeram e ficaram saciados, e recolheram os pedaços que sobraram: doze cestos cheios.» Jesus veio trazer vida em abundância (cf. Jo 10,10) e trazê-la a todos. A multidão de cinco mil pessoas sublinha a amplitude do dom, enquanto os doze cestos que sobraram podem evocar as doze tribos de Israel e, portanto, o povo de Deus reunido na sua totalidade.
Por fim, importa recordar que o pão e o peixe se tornaram, para os primeiros cristãos, símbolos de Cristo. O pão remete para a Eucaristia; o peixe, por sua vez, evoca uma antiga profissão de fé. Com efeito, a palavra grega ichthýs («peixe») era interpretada como acrónimo de Iēsoûs Christòs Theoû Hyiós Sōtḗr, isto é: «Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador».
2. Converter-se a uma visão integral do Reino
Jesus preocupa-se não apenas com a fome espiritual das pessoas, mas também com a sua fome física. Não podemos ignorar que, a par da fome da Palavra, ainda existe no mundo uma dramática fome de pão. O Reino de Deus diz respeito à pessoa na sua totalidade.
Na nossa mentalidade persiste, contudo, uma visão dualista da vida, que separa a esfera espiritual da material. «As pessoas vão à igreja para rezar; para comer, cada um volte para sua casa e desenrasque-se!»: esta é a nossa lógica, muito prática. E era também a dos discípulos.
A Igreja, porém, não pode alhear-se das condições concretas em que vive a humanidade. Segundo o relatório das Nações Unidas publicado em 2026, em 2025 cerca de 645 milhões de pessoas — 7,8% da população mundial — sofreram de fome. Em África, o fenómeno afetou 309 milhões de pessoas, correspondentes a 20% da população do continente. Ainda mais extensa é a insegurança alimentar moderada ou grave, que atingiu cerca de 2,1 mil milhões de pessoas, ou seja, mais de um quarto da humanidade. Habituamo-nos demasiado facilmente a estas notícias!
3. Da economia do comércio à economia do dom
«Manda embora a multidão, para que vá às aldeias comprar alimentos», dizem os discípulos a Jesus. A lógica da compra e do dinheiro é particularmente evidente também no relato de João (cf. Jo 6,5-7).
Infelizmente, a lógica mercantil continua a predominar ainda hoje. Tudo se compra e se vende, até mesmo as pessoas. Estamos a perder o sentido da gratuitidade. No entanto, como recorda a Didaché, antigo escrito cristão da época apostólica: «Se partilhamos os bens imortais, quanto mais devemos partilhar os bens mortais!»
Uma parte considerável da humanidade vive sufocada pela injustiça e pelas dívidas. O livro de Ben-Sirá adverte com palavras duríssimas: «O pão dos necessitados é a vida dos pobres; quem dele os priva é um sanguinário. Mata o próximo aquele que lhe tira o sustento; derrama sangue aquele que recusa o salário ao trabalhador» (Sir 34,25-27).
Uma frase habitualmente atribuída a Gandhi sintetiza de modo eficaz esta contradição: «No mundo há o suficiente para as necessidades de todos, mas não para a ganância de todos».
Para a reflexão semanal
O milagre da multiplicação dos pães pode acontecer também hoje, se colocarmos à disposição os ingre¬dientes: os cinco pães e os dois peixes que insistimos em querer guardar ou vender, em vez de os partilhar.
Quais são os «cinco pães e os dois peixes» que o Senhor me pede para colocar à disposição? Qual é a P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

sábado, 25 de julho de 2026

Onde está o teu tesouro? - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Onde está o teu tesouro?

Ano A – 17.º Domingo do Tempo Comum
Mateus 13,44-52: «O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo»

Neste domingo concluímos a leitura do capítulo 13 do Evangelho de Mateus, que contém o terceiro grande discurso de Jesus, no qual o Reino de Deus é apresentado através de sete parábolas. Hoje escutamos as três últimas, dirigidas aos apóstolos: o tesouro escondido, o negociante de pérolas e a rede que apanha toda a espécie de peixes.

As duas primeiras são semelhantes e falam-nos da alegria de quem descobriu o Reino. A terceira, pelo contrário, recorda a parábola do trigo e do joio, escutada no domingo passado, e diz respeito à convivência entre o bem e o mal.

A parábola da rede, tal como a do trigo e do joio, evoca o «fim do mundo», isto é, a conclusão da nossa vida, como o momento supremo em que será comprovada a sua autenticidade e desmascarada a falsidade daqueles que «chamam ao mal bem e ao bem mal, que fazem das trevas luz e da luz trevas, que fazem do amargo doce e do doce amargo» (Isaías 5,20).

Detenhamo-nos nas duas breves parábolas do tesouro e da pérola.

1. QUEM são os que procuram tesouros e pérolas?

«O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. Um homem encontra-o e torna a escondê-lo. Depois, cheio de alegria, vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo.»

As histórias de tesouros são sempre fascinantes, hoje como no tempo de Jesus. Numa terra frequentemente assolada por guerras, era comum, quando um inimigo se aproximava, esconder as próprias riquezas, enterrando-as num campo ou sob o chão da casa antes de fugir, na esperança de poder recuperá-las mais tarde. Contudo, isso nem sempre acontecia.

Pois bem, o pobre trabalhador agrícola da parábola é um dos afortunados que, por um acaso inesperado, encontra a grande oportunidade da sua vida e não a deixa escapar: cheio de alegria, vende todos os seus bens e compra aquele campo!

«O Reino dos Céus é também semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Encontrando uma pérola de grande valor, vai, vende todos os seus bens e compra-a.»

No Oriente, as pérolas eram consideradas uma das coisas mais preciosas, tal como os diamantes o são para nós. Eram símbolo de beleza, a tal ponto que «Penina», isto é, «Pérola», era também um nome dado às raparigas (cf. 1 Samuel 1,2). O negociante da parábola procurava essas pérolas e, quando encontra uma de grande valor, não hesita também ele em vender todos os seus bens para a adquirir.

Ambos, o pobre camponês e o rico negociante, comportam-se da mesma maneira: encontram o tesouro ou a pérola, vão, vendem tudo e compram. Mas, enquanto o camponês encontra o tesouro inesperadamente, o negociante encontra a pérola depois de a ter procurado durante muito tempo.

Nós somos esses exploradores de tesouros e de pérolas, de riqueza e de beleza, de perfeição e de infinito. A nossa vida é um campo semeado de tesouros escondidos debaixo dos nossos pés, mas a «lama» impede-nos de os ver. A nossa vida é um bazar repleto de pérolas, muitas vezes demasiado cobertas de pó para que possamos perceber o seu esplendor. Acontece, contudo, sacrificarmos tudo, a vida e a alma, deslumbrados por algo falso, para depois ficarmos de mãos vazias.

2. O QUE são o tesouro e a pérola?

O que representam aquele tesouro e aquela pérola? Para Salomão, são a Sabedoria (cf. a primeira leitura); para o salmista, são a Lei, a Torá (cf. o Salmo Responsorial 118); para São Paulo, são a vocação e o projeto de Deus para a nossa vida (cf. a segunda leitura). Para Jesus, porém, são o Reino. Podemos, contudo, refletir sobre as duas parábolas, ampliando ainda mais a sua perspetiva.

O tesouro é, antes de mais, Cristo. Por Ele, os apóstolos abandonaram tudo, e muitos outros fizeram o mesmo depois deles. Paulo considerou tudo como lixo diante da sublimidade do conhecimento de Cristo (cf. Filipenses 3,8). Muitos cristãos estão dispostos a dar até a própria vida para não O perderem.

Há, porém, também aqueles que não descobriram em Jesus esse tesouro: como o jovem rico, que se afastou triste; como Judas, que O vendeu por trinta moedas; e como tantos cristãos que, por nunca O terem encontrado verdadeiramente, O trocaram por alguma quinquilharia.

Também nós, contudo, somos aquele tesouro e aquela pérola que Cristo encontrou no campo ou no mercado do mundo. Por isso, Ele resgatou-nos, «não por meio de coisas corruptíveis, como a prata e o ouro, […] mas pelo sangue precioso de Cristo» (1 Pedro 1,18-19).

Pérolas são também as pessoas que estão ao nosso lado, muitas vezes escondidas por detrás dos seus defeitos, da sua aspereza e das suas conchas.

3. ONDE encontrar o tesouro?

Onde e como podemos encontrar o tesouro ou a pérola? Permitam-me que o diga através de um conto hassídico — o hassidismo é um movimento espiritual judaico —: a história do Rabi Eisik, filho do Rabi Jekel, de Cracóvia, narrada por Martin Buber, filósofo judeu.

«Depois de muitos e muitos anos de dura miséria, que, apesar de tudo, não tinha abalado a sua confiança em Deus, o Rabi Eisik recebeu em sonhos a ordem de ir a Praga procurar um tesouro debaixo da ponte que conduzia ao palácio real. Quando o sonho se repetiu pela terceira vez, Eisik pôs-se a caminho e chegou a Praga a pé.
A ponte, porém, era vigiada dia e noite por sentinelas, e ele não teve coragem de escavar no lugar indicado. Contudo, voltava à ponte todas as manhãs e vagueava pelas proximidades até ao anoitecer. Por fim, o capitão da guarda, que tinha reparado nas suas idas e vindas, aproximou-se dele e perguntou-lhe amavelmente se tinha perdido alguma coisa ou se esperava alguém. Eisik contou-lhe o sonho que o levara até ali, desde a sua longínqua terra.
O capitão desatou a rir: “E tu, pobre homem, por dares ouvidos a um sonho, vieste até aqui a pé? Ah, ah, ah! Estás bem arranjado se confias nos sonhos! Nesse caso, também eu deveria ter-me posto a caminho para obedecer a um sonho e ir até Cracóvia, à casa de um judeu, um tal Eisik, filho de Jekel, procurar um tesouro debaixo do fogão! Eisik, filho de Jekel… estás a brincar? Estou mesmo a imaginar-me a entrar e a revolver todas as casas de uma cidade onde metade dos judeus se chama Eisik e a outra metade Jekel!” E voltou a rir. Eisik despediu-se dele, regressou a casa e desenterrou o tesouro.»

Martin Buber conclui: «Há algo que não podes encontrar em nenhuma outra parte do mundo; contudo, existe um lugar onde o podes encontrar: onde te encontras, no lugar mais íntimo de ti mesmo!» (O caminho do homem).

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ




sexta-feira, 17 de julho de 2026

Três parábolas escandalosas! - P. Manuel João Pereira Correia mccj

 Três parábolas escandalosas!

Ano A – 16.º Domingo do Tempo Comum
Mateus 13,24-43: as parábolas do joio, do grão de mostarda e do fermento

«O Reino dos Céus é semelhante a…». Depois da parábola do semeador, escutada no domingo passado, o Evangelho de hoje propõe-nos outras três parábolas que revelam o mistério da presença do Reino dos Céus no meio de nós. Estamos no capítulo 13 do Evangelho segundo Mateus, o chamado “discurso das parábolas”.

Jesus continua a falar através da sabedoria das parábolas, acessível a todos, porque o Reino de Deus não é uma realidade abstrata, encerrada em conceitos filosóficos ou em formulações teológicas, mas uma realidade viva e próxima de todos aqueles que têm «olhos para ver» e «ouvidos para escutar».

1. A parábola do trigo e do joio: o escândalo do mal!

Um campo, a sementeira do bom trigo e a desagradável surpresa do joio! O joio é uma planta muito semelhante ao trigo, mas os seus grãos escuros são tóxicos e podem ter efeitos narcóticos. O texto fala de “joios”, no plural, como que para nos recordar quão numerosas são as formas através das quais o mal se manifesta no campo do mundo.

Também nós conhecemos bem esta amarga surpresa: na realidade do mundo, da Igreja, da família e da nossa própria existência.

A nossa primeira reação é interrogar o dono do campo: «Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? De onde veio, então, o joio?». A sementeira, de facto, era tarefa do dono da casa. Não és tu, Senhor, o Criador de um mundo belo e bom? De onde vem, então, o mal? Deus é quase sempre o primeiro acusado nas nossas lamentações.

A nossa segunda reação é imediata: «Queres que vamos arrancá-lo?». Desejamos um campo limpo de todas as ervas daninhas! Mas a resposta do dono é desconcertante: «Não, para que não aconteça que, ao arrancardes o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer ambos juntos até à ceifa».

Mas como assim?! Não afirma o profeta: «Todo o teu povo será constituído por justos» (Isaías 60,21)? Não tinha dito João Batista que o machado já estava posto à raiz das árvores e que o Messias viria batizar com o fogo, recolher o trigo e queimar a palha num fogo inextinguível (cf. Mateus 3,10-12)?

Os apóstolos pedem explicações sobre a parábola talvez não porque não a tenham compreendido, mas porque têm dificuldade em aceitá-la. E também nós temos dificuldade!

O nosso sonho, de certo modo, é o do profeta Elias e de João Batista: reduzir imediatamente a cinzas o joio e a palha. Mas, como recorda Santo Agostinho, só Deus conhece verdadeiramente aqueles que lhe pertencem. Com efeito, o bem e o mal não convivem apenas no mundo: atravessam também o coração de cada um de nós. Arrancar precipitadamente o mal poderia significar ferir ou destruir também o bem que está a crescer.

Nunca faltaram “zelotas” na história da Igreja. Quantas condenações pronunciadas sem discernimento acabaram por confundir tudo e todos, provocando consequências dramáticas! É por isso que Deus reserva para si o papel de juiz. O julgamento de Deus procura justificar e salvar; o nosso, demasiadas vezes, condena e mata.

2. A parábola do grão de mostarda: o escândalo da pequenez!

Logo a seguir, Jesus acrescenta outra parábola: «O Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda […] a mais pequena de todas as sementes, mas, depois de crescer, torna-se maior do que as outras plantas da horta e transforma-se numa árvore».

A mostarda-negra da Palestina, da qual se obtém um condimento muito saboroso, pode crescer até se tornar um grande arbusto, alcançando mesmo três ou quatro metros de altura, especialmente na região do lago de Tiberíades. Através do contraste entre «a mais pequena de todas as sementes» e «a maior das plantas da horta», Jesus quer sublinhar o surpreendente desenvolvimento do Reino de Deus.

Há, porém, algo de insólito nesta comparação. A mostarda é uma planta resistente, quase invasora: as suas minúsculas sementes espalham-se facilmente e chegam a toda a parte. Além disso, na Bíblia, a referência à mostarda aparece apenas nas palavras de Jesus, nesta parábola e na afirmação sobre a fé capaz de deslocar montanhas (cf. Mateus 17,20).

Talvez Jesus faça também alusão à profecia de Ezequiel 17,22-23, na qual Deus retira um pequeno ramo da copa de um cedro e o planta num alto monte de Israel. Ele transforma-se num cedro magnífico, sob os ramos do qual vêm habitar todas as aves, símbolo dos povos da terra.

A pequenez da mostarda não podia satisfazer as expectativas dos ouvintes de Jesus, que aguardavam um reino messiânico visível, poderoso e imponente. Esta pequenez escandaliza-nos também a nós, que desejaríamos sinais mais evidentes e extraordinários da presença de Deus.

3. A parábola do fermento: o escândalo da humildade!

«Disse-lhes outra parábola: “O Reino dos Céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e misturou em três medidas de farinha, até que toda a massa ficou levedada”».

Três medidas de farinha correspondem a cerca de quarenta quilos: uma quantidade enorme, capaz de alimentar muitas pessoas. Contudo, toda aquela massa é levedada por uma pequena quantidade de fermento, que atua silenciosamente e desaparece dentro da massa.

O Reino, escondido na história, está a levedar o mundo. É uma presença discreta, humilde, delicada e misteriosa, que contrasta com a nossa procura de visibilidade, com o desejo de sermos reconhecidos e de termos importância no espaço público.

O Reino, pelo contrário, não faz barulho.

Assim é Deus. Assim é o amor!

Para a nossa reflexão semanal

Procuremos agora aplicar estas parábolas à nossa vida.

A parábola do joio adverte-nos contra a tentação de pretendermos uma comunidade formada exclusivamente por pessoas perfeitas. Esta tentação pode manifestar-se na nossa intolerância para com aqueles que erram, mas também no nosso perfeccionismo, incapaz de aceitar os limites pessoais.

Acredito em Deus Pai, paciente e misericordioso para com todos?

A parábola do grão de mostarda adverte-nos contra a tentação da grandeza. No nosso imaginário, Deus é sobretudo o Omnipotente; contudo, em Jesus, fez-se frágil como nós.

Acredito em Jesus, que se fez pequeno e escolheu meios humildes para instaurar o Reino?

A parábola do fermento adverte-nos contra a tentação da ostentação e do protagonismo. Convida-nos a agir com humildade e discrição.

Acredito na ação do Espírito, que discretamente está a levedar a massa do mundo?

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ




p.mjoao@gmail.com

sábado, 11 de julho de 2026

Todos os dias são tempo de sementeira! - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 

Todos os dias são tempo de sementeira!

Ano A – 15.º Domingo do Tempo Comum
Mateus 13,1-23: “Eis que o semeador saiu a semear”

Começa neste domingo o “discurso em parábolas” do capítulo 13 do Evangelho de Mateus. Trata-se do terceiro discurso de Jesus, depois do discurso inaugural “da montanha” (caps. 5–7) e do “discurso missionário” do envio dos apóstolos em missão (cap. 10). Este discurso é composto por sete parábolas. As primeiras quatro são dirigidas à multidão — o semeador, o joio, o grão de mostarda e o fermento — e as outras três aos discípulos: o tesouro, a pérola e a rede. Sete parábolas para apresentar “os mistérios do reino dos céus” (13,11).

A expressão “reino dos céus”, “reino de Deus” ou simplesmente “o reino” aparece cerca de cinquenta vezes no Evangelho de Mateus: a primeira vez na boca de João Batista (3,2) e a segunda nos lábios de Jesus: “Convertei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (4,17). O reino é o tema da pregação de Jesus, o objetivo da sua vida e da sua missão. O que é o Reino de Deus? Jesus expõe-no através destas parábolas.

O que é uma parábola? É uma narrativa que, partindo de um facto, de uma história verosímil ou de uma realidade da vida quotidiana, pretende transmitir, de modo simbólico, uma mensagem mais profunda, por vezes misteriosa, que exige um esforço de interpretação. Jesus usou frequentemente as parábolas na sua pregação. É preciso distinguir, porém, entre parábola e alegoria. Na alegoria, cada elemento narrativo tem um significado específico; na parábola, pelo contrário, é preciso procurar sobretudo o sentido global.

1. A parábola do otimismo e da esperança

A parábola do semeador é uma das mais conhecidas do Evangelho, “a mãe de todas as parábolas”, como a definiu o Papa Francisco. O trecho tem três partes distintas: na primeira, o relato da parábola (vv. 1-9); na segunda, a razão pela qual Jesus fala em parábolas (vv. 10-17); na terceira, uma explicação alegórica da parábola (vv. 18-23).

Esta parábola situa-se num momento delicado da vida de Jesus, quando começava a desenhar-se o aparente fracasso da sua missão. Neste ponto perguntamo-nos: porque parece o mal triunfar sempre? Porque é que o bem tem tanta dificuldade em criar raízes no mundo e no coração das pessoas?

Dir-se-ia que a resposta da parábola é esta: tudo depende da qualidade do terreno sobre o qual a semente é lançada. A intenção principal, porém, não é tanto convidar-nos a perguntar que tipo de terreno é o nosso coração, mas antes encorajar os discípulos — e a nós — a anunciar o Evangelho “na esperança de que haja, em algum lugar, terra boa” (São Justino).

Os obstáculos, a oposição e a rejeição que a Palavra encontra podem levar-nos ao pessimismo. Pois bem, Jesus encoraja-nos a continuar a anunciar a Palavra, confiantes na sua fecundidade extraordinária, prodigiosa, até ao cento por um. De facto, no solo palestiniano, o máximo que se podia esperar era o dez por um: de um grão de trigo, uma espiga com dez grãos!

2. O princípio “capitalista” do espírito

À pergunta dos discípulos: “Porque lhes falas em parábolas?”, Jesus parece responder de modo discriminatório: “Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não é dado”. Como é possível? Parece que Jesus fala de propósito em parábolas para não se fazer compreender, quando seria de esperar o contrário. Na realidade, trata-se de um “semitismo”, isto é, de um modo típico de falar, entre a ironia, a tristeza e a desilusão, diante do fechamento dos corações. 

Impressiona-me a afirmação de Jesus: “Pois àquele que tem, será dado e terá em abundância; mas àquele que não tem, até o que tem lhe será tirado”. É aquilo a que eu chamaria o “princípio capitalista” do espírito: tal como o dinheiro corre para quem tem muito e desaparece dos bolsos do pobre, assim acontece no âmbito do espírito. Quanto mais tens, mais graça receberás; quanto menos tens — por preguiça, negligência ou fechamento do coração — tanto menos terás.

No domingo, muitos milhares de pessoas escutarão esta Palavra nas nossas igrejas: uma parte sairá enriquecida, a outra empobrecida. Mas ninguém ficará igual a antes, porque uma oportunidade perdida contribui para a “esclerocardia” espiritual, isto é, para o endurecimento do coração, que se torna cada vez mais insensível à Palavra.

3. A explicação alegórica da parábola

Vós, portanto, escutai a parábola do semeador...”. O evangelista atribui a Jesus a explicação alegórica da parábola. Na realidade, talvez se trate de uma aplicação sua à vida concreta da comunidade de Mateus.

Podemos perguntar-nos: como é que o semeador espalha o trigo pelo caminho, em terreno pedregoso e entre os espinhos, em vez de o semear diretamente na terra boa? É preciso saber que, na Palestina, primeiro se semeava e só depois se lavrava, para enterrar a semente. Esperava-se que o arado desfizesse o caminho marcado pelos transeuntes, levantasse as pedras e arrancasse os espinhos.

Permiti-me acrescentar outro elemento alegórico: neste caso, o que é o arado? Será talvez o da cruz de Cristo, que, escavando no nosso coração, o torna terra boa? Aliás, o arado era feito de madeira, com uma ponta de ferro! Nós iludimo-nos pensando que podemos evitar todo o sofrimento, contornar a cruz, mas “temos de entrar no reino de Deus através de muitas tribulações” (Atos 14,22).

Deixo-vos a tarefa de vos confrontardes com a Palavra e de vos interrogardes sobre o tipo de terreno que é o vosso coração. Talvez a resposta nos deixe um pouco desolados. Que nos conforte, então, esta citação do dramaturgo irlandês Samuel Beckett: “Sempre tentei. Sempre falhei. Não importa. Tenta outra vez. Falha outra vez. Falha melhor!”.

Conclusão: “Eis que o semeador saiu a semear!”

Jesus saiu de casa e sentou-se à beira-mar”. Esta Palavra encontrará alguns de vós enquanto desfrutais de um merecido tempo de descanso. Pois bem, Jesus virá também até vós! Encontrareis um pouco de tempo para o escutar?

Não esqueçamos, contudo, que os semeadores são muitos. Atenção às sementes de joio que as mãos do maligno semeiam abundantemente no nosso coração, especialmente de “noite”. Façamos como a esposa do Cântico dos Cânticos: “Eu durmo, mas o meu coração vela” (Ct 5,2).

Por fim, recordemo-nos de que também nós somos semeadores. Todas as manhãs, antes de sair, abasteçamos a nossa pequena mochila para semear a boa semente por onde quer que passemos. Todos os dias são tempo de sementeira!

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

sábado, 4 de julho de 2026

“Conjugados” com Cristo - P. Manuel João Pereira Correia mccj

 

“Conjugados” com Cristo

Ano A – 14º Domingo do Tempo Comum
Mateus 11,25-30: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e oprimidos”

Depois do discurso apostólico (Mateus 10), encontramos agora uma seção narrativa (Mateus 11–12), segundo o procedimento literário caro a Mateus, que alterna discursos e relatos.

Esta seção narrativa é caracterizada por um clima de tensão crescente. Jesus percebe que a sua mensagem e a sua obra não são compreendidas: João Batista alimenta dúvidas sobre o seu messianismo; as pessoas mostram-se caprichosas como crianças; as cidades ao redor do lago, onde ele tinha realizado tantos milagres, não se convertem; escribas e fariseus se opõem a ele. Jesus encontra-se, assim, diante do insucesso e da perspetiva do fracasso. Este é o contexto dramático do trecho evangélico de hoje.

O texto se articula em três parágrafos bem distintos: no primeiro, a oração de louvor que Jesus dirige ao Pai; no segundo, a estreita relação entre o Pai e o Filho; no terceiro, a relação entre Jesus e nós, com o convite para irmos até ele.

O trecho grego começa de modo singular: “Naquele tempo Jesus, respondendo, disse…”. Contudo, antes disso não encontramos nenhuma pergunta. Parece quase que Jesus responda à interrogação que esta situação de aparente fracasso coloca à sua missão. E qual é a sua resposta? “Eu te louvo, Pai!”.

1. Jesus dececionado, mas não desanimado

Perguntamo-nos: como é que Jesus, neste contexto de oposição e de aparente fracasso, reage com uma oração de louvor, com uma espécie de seu “Magnificat”?

O Senhor não se abate nem desanima, como talvez nós teríamos feito. Embora dececionado com o fechamento e a falta de fé de tantos ouvintes, testemunhas dos seus milagres, Jesus leva esta situação para a oração, para o diálogo com o Pai. E descobre que o Pai continua a realizar o seu projeto de amor não através dos sábios e dos doutos, mas através dos pequenos.

É uma situação muito atual. Hoje assistimos ao afastamento de tantos cristãos e à marginalização da fé cristã na cultura ocidental; perguntamo-nos, então, para que serve o anúncio do Evangelho num contexto assim. Talvez também nós estejamos dececionados porque as promessas de Deus parecem demorar a cumprir-se. Envelhecemos na esperança de uma Igreja renovada. É forte a tentação da resignação, do desânimo, do pessimismo cínico.

Pois bem, Jesus convida-nos à coragem da oração, para discernirmos de onde e para onde sopra o Espírito.

2. Um novo chamamento para todos: vinde, tomai, aprendei!

Jesus sai do encontro com o Pai renovado na consciência da sua missão messiânica: “Tudo me foi entregue por meu Pai”. E dirige-se novamente aos pequenos, ou melhor, a todos: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim”.

Quem é este povo cansado e oprimido? São aqueles que vivem sob o jugo da Lei. Com efeito, para a tradição rabínica, o jugo era uma imagem da Lei: os 613 preceitos extraídos da Escritura e os milhares de prescrições menores que obrigavam a “andar na linha”.

O jugo evocava uma condição de escravidão, pois geralmente eram os escravos que o usavam para transportar cargas pesadas (cf. Levítico 26,13).

Jesus convida a romper esse jugo e a ir até ele para encontrar alívio, isto é, o descanso prometido por Deus ao seu povo (cf. Carta aos Hebreus 3–4). Logo depois, porém, convida a tomar o seu jugo e a aprender dele, “manso e humilde de coração”.

Podemos certamente aprender com ele, mestre de coração manso e humilde, que não se comporta como os escribas e fariseus, os quais “atam fardos pesados e difíceis de carregar e os põem sobre os ombros das pessoas” (Mateus 23,4). No entanto, não esperaríamos uma associação entre jugo e descanso.

Qual é, então, este jugo de Jesus?

O jugo era um instrumento de madeira que unia dois animais para arar ou puxar uma carroça. O jugo de Jesus é a cruz: aquela que ele carregou por nós e, portanto, a nossa cruz, o nosso jugo. Jesus torna-se o nosso Cireneu, põe-se ao nosso lado. É o nosso companheiro, o nosso… “cônjuge”!

Sim, porque o termo cônjuge deriva do latim coniux, formado por cum e iugum: indica aquele que está unido ao outro sob o mesmo jugo, aquele que partilha o mesmo destino. Daí também o verbo “conjugar”. Trata-se, portanto, de uma imagem nupcial.

Jesus afirma: “O meu jugo é suave e o meu fardo é leve”. Por que é suave? Porque é o jugo do amor. Por que é leve? Porque ele o carrega connosco.

Diante deste convite de Jesus surgem duas tentações.

A primeira é querer romper todo jugo e todo vínculo, inclusive aquele “suave e leve” do amor. Como o falso profeta Hananias, que quebrou o jugo simbólico de madeira carregado por Jeremias, prometendo ao povo liberdade e prosperidade. O risco é acabar com um jugo de ferro (cf. Jeremias 28).

A segunda tentação é confiar no jugo das leis para garantir a ordem e preservar o poder, no âmbito social, eclesial, familiar ou em qualquer outro contexto, aumentando o cansaço e a opressão e sacrificando a solidariedade e o amor.

Exercício semanal de reflexão

  • Como reajo diante dos fracassos e das deceções?
  • Quem é o meu “cônjuge” ao carregar a cruz: Cristo ou o novo messianismo cultural?
  • Quero agradecer-te, Senhor, pelo dom da vida. Li em algum lugar que os homens são anjos com uma só asa: só podem voar permanecendo abraçados. Às vezes, nos momentos de intimidade, atrevo-me a pensar, Senhor, que também tu tens uma só asa. A outra manténs escondida: talvez para me fazer compreender que não queres voar sem mim” (mons. Tonino Bello).

Pe. Manuel João PPereira Correia, MCCJ

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