domingo, 25 de junho de 2023

NO IV CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE PASCAL Frei Bento Domingues, O.P.

 

1. Nas Conferências de Maio de 1984, promovidas pelo Centro de Reflexão Cristã (CRC), subordinadas ao tema Deus Interrogado, Eduardo Lourenço mostrou que, mesmo que não leve a palavra Deus escrita, apesar de tudo, «no Ocidente não se levantou outro modelo cultural (e, mais além do cultural, um modelo existencial) mais profundo e mais radical do que o modelo de Cristo».

Este ano, o tema das Conferências de Maio do CRC foi sobre a Fé cristã, profecia e cidadania: quatro legados para o século XXI. Os quatro legados escolhidos foram Aristides de Sousa Mendes, Maria de Lourdes Pintasilgo, Manuela Silva e Alfredo Bruto da Costa. Isto é, para estas pessoas o modelo existencial de vida foi Jesus Cristo. Motivadas pela sua fé e pela sua relação com Jesus Cristo e com o Deus de Jesus Cristo, foram cada um(a) do seu jeito e nas suas circunstâncias, profetas, tornando presente dimensões fundamentais do Evangelho, e cujo legado pode ser muito inspirador para as jovens gerações que se interrogam sobre o que é ser cristão hoje.

Deixamos, aqui, passagens do texto de António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, enviado para a primeira das quatro conferências, sobre Aristides de Sousa Mendes, cônsul português que, em Bordéus, salvou milhares de judeus em fuga do nazismo, desobedecendo deliberadamente às ordens do ditador Salazar.

Num contexto global marcado por crises complexas e interligadas, precisamos de bons exemplos, de hoje e de ontem – de exemplos que nos escorem na opção determinada e actuante pelo humanismo, pela solidariedade, pela concórdia, pelo valor da diversidade; e na igualmente determinada e actuante rejeição do ódio, da violência, da perseguição, da exclusão.

Aristides de Sousa Mendes é um exemplo notável dessa determinação e acção. Com a coragem da desobediência em face de um imperativo ético, e com a coragem de suportar as consequências que adviriam dessa desobediência, o então nosso cônsul em Bordéus procurou e logrou salvar milhares de vidas, quando confrontado com a barbárie do Holocausto e do extermínio deliberado de milhões de judeus.

Num cenário de completo desespero para tantos seres humanos, Aristides de Sousa Mendes permitiu-se devolver a esperança a quantos pôde. Vale a pena lembrar o que ele próprio escreveu em sua defesa, na contestação ao processo disciplinar que lhe foi movido: era realmente meu objectivo salvar toda aquela gente, cuja aflição era indescritível.

Diz A. Guterres que guarda a satisfação de ter estado associado, no decurso da sua vida política em Portugal, a acções que contribuíram para a reabilitação de Aristides de Sousa Mendes. Reconhece, contudo, que não temos sido capazes, enquanto humanidade, de prestar a homenagem que, por certo, mais o honraria e aos muitos outros que agiram por não poder tolerar o sofrimento alheio. Essa homenagem seria a de evitar repetir cenários e circunstâncias em que a aflição indescritível de milhões de seres humanos é causada por acções e decisões de outros seres humanos[1].

2. O Papa Francisco não deixou passar o IV centenário do nascimento de Blaise Pascal (19. 06. 1623-1662), uma extraordinária figura cristã[2]. O seu desafio era o mundo a estudar cientificamente, mas o primado foram as suas experiências da descoberta de Jesus Cristo. Não confundia a ordem da natureza e a da ordem da graça nem as punha em contradição. Uma não enfraquecia a outra.

Não pretendo, com esta crónica, dispensar a leitura desta magnífica Carta Apostólica sobre Pascal, como esta Carta não procura substituir o estudo da obra imensa deste grande cientista, filósofo e teólogo cristão. Para ele, não só conhecemos a Deus unicamente por Jesus Cristo, mas também nos conhecemos a nós mesmos apenas por Jesus Cristo. Só conhecemos a vida, a morte por meio de Jesus Cristo. Fora de Jesus Cristo, não sabemos o que é a nossa vida, a nossa morte, nem quem é Deus nem mesmo o que somos nós. Portanto sem a Escritura, cujo único objecto é Jesus Cristo, não conhecemos nada e não vemos senão escuridão.

Para Pascal, a pergunta do Salmo 8, 5 – que é o homem para Te lembrares dele, o filho do homem para com ele Te preocupares? – é a interrogação gravada no coração de cada ser humano, em todo o tempo e lugar, de qualquer civilização e língua, independentemente da sua religião.

Assim, vemos Pascal interrogar-se: Que é um homem na natureza? Um nada comparado com o infinito, um tudo comparado com o nada. Cunhou a expressão: o ser humano não passa duma cana, a mais frágil da natureza, mas é uma cana pensante.

Isto não substituía a sua abertura de espanto à realidade, que é abertura às outras dimensões do saber e da existência, abertura aos outros, abertura à sociedade. Estava atento aos problemas mais sentidos, bem como às necessidades materiais de todos os componentes da sociedade em que vivia.

É comovente constatar que, nos últimos dias da sua vida, um pensador tão genial como Blaise Pascal não via urgência mais sublime para investir as suas energias do que as obras de misericórdia: O único objecto da Escritura é a caridade.

Fora da perspetiva do amor, não há verdade que valha a pena: Faz-se um ídolo até da própria verdade, pois a verdade fora da caridade não é Deus, é sua imagem e um ídolo que não se deve amar nem adorar. O drama, porém, da nossa vida é que às vezes vemos mal e, consequentemente, escolhemos mal.

Por isso mesmo, a inteligência e a fé viva de Blaise Pascal, que quis mostrar que a religião cristã é venerável porque conhece bem o ser humano e amável porque promete o verdadeiro bem, podem-nos ajudar a avançar por entre as trevas e as desgraças deste mundo.

3. O Papa Francisco, antes de concluir esta sua Carta tocou, sem aprofundar, as implicações de Pascal numa controvérsia que envolvia e contrapunha o jansenismo e a teologia do jesuíta Luís de Molina (1535-1600). Também não era este o assunto dominante deste documento.

Há mais de 30 anos abordei, nestas crónicas, a questão que trabalhava nas minhas aulas sobre a Teologia das Realidades Terrestres. Tentava mostrar que a experiência da densidade e complexidade do mundo não era incompatível com a intensíssima experiência de Deus. Yves Congar, O.P., fez o diagnóstico das razões da incredulidade da juventude do seu tempo: a uma religião sem mundo, sucede um mundo sem religião.

Blaise Pascal mostrou, na sua vida e na sua prática científica, filosófica e teológica que não havia razões para contrapor a experiência mística de Deus, como pura graça, e as experiências múltiplas da sua vida. Eram experiências que se robusteciam mutuamente. Na raiz de certas formas de ateísmo existe uma rivalidade entre Deus e o ser humano. Não tem que assim. O amor apaixonado por Cristo e o serviço dos pobres eram, em Pascal, as duas faces de uma única realidade[3].

 

25 Junho 2023



[1] Cf. 7Margens, 19. 06. 2023

[2] Carta Apostólica Sublimitas et Miseria Hominis, www.vatican.va . Já está editada em português pelas edições Paulinas.

[3] O primeiro volume da edição destas crónicas teve, precisamente, o título A Humanidade de Deus, Mário Figueirinhas Editor, Porto/Lisboa, 1995

quarta-feira, 21 de junho de 2023

POR UMA GRAMÁTICA DA FRATERNIDADE Frei Bento Domigues, O.P.

 

1. É tal a complexidade da vida do nosso planeta que não se deve ceder a simplismos nos meios de comunicação. Não há só más notícias a dar nem corrigir essa tendência intoxicante com um desejo de apresentar só boas notícias.

A eleição de um Papa não garante imunidade a qualquer doença. As pessoas envolvidas na sua vinda a Portugal, para as JMJ 2023 (2 a 6 de Agosto) chegaram ao ponto de dizer que, se Francisco não pudesse vir por questões de saúde, as Jornadas não se realizariam. Isto significaria, porém, desvalorizar o objectivo das Jornadas.

Para o dia 9 deste mês, estava agendada uma audiência do Grupo do Partido Popular no Parlamento Europeu (PPE) com o Papa Francisco, no Vaticano. Foi impossível realizar esse encontro por razões de saúde. No entanto, o Papa enviou uma mensagem do Hospital Gemelli ao presidente do PPE, Manfred Weber, na qual exorta os parlamentares a tomarem plena consciência da tarefa dos políticos cristãos «de traduzir o grande sonho da fraternidade em acções concretas de boa política a todos os níveis».

Recorda que, quando se realizaram as primeiras eleições para o Parlamento Europeu, as pessoas estavam interessadas, era uma novidade, um passo importante na construção de uma Europa unida. Mas, como sempre, com o tempo o interesse foi-se perdendo. Por isso, é preciso cuidar bem da relação entre cidadãos e parlamentares. Esse é um problema clássico das democracias representativas.

O Papa Francisco sublinha alguns princípios e valores éticos que exigem formação adequada dos seus membros. Mesmo nas correntes políticas cristãs é fundamental cuidar do pluralismo. Os políticos cristãos deveriam distinguir-se pela seriedade com que abordam os problemas, rejeitando soluções oportunistas e mantendo sempre firmes os critérios da dignidade da pessoa e do bem comum.

Os cristãos têm um património riquíssimo, por exemplo, a Doutrina Social da Igreja, na qual podem encontrar um contributo original para a política europeia.

Destaca, sobretudo, os princípios da solidariedade e da subsidiariedade e a sua dinâmica virtuosa. Estes princípios ético-políticos, partilhados com colegas de filiações diferentes, deveriam actuar sempre em conjunto, entrelaçados. Pede aos parlamentares cristãos que o Evangelho seja a estrela que os guia e a Doutrina Social da Igreja a sua bússola[1].

Desde o programa do seu pontificado, Evangelii Gaudium, nunca esqueceu as dimensões cristãs da política.

2. Para Francisco, o mundo não é apenas a Europa nem a Igreja Católica. O horizonte de todas as suas intervenções é global. Prova disso é o Documento sobre a Fraternidade Humana pela Paz Mundial e a convivência comum, assinado pelo Papa Francisco e pelo Grão Imame de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb, em Abu Dabhi (04.02.2019). Sucedeu-lhe a Carta Encíclica Fratelli Tutti sobre a fraternidade e a amizade social (03.10.2020), para reafirmar a voz da Igreja. Para a elaboração desta encíclica não esqueceu duas grandes referências católicas, Francisco de Assis e Carlos de Foucauld, e outros irmãos que não são católicos, Martin Luther King, Desmond Tutu, Mahatma Gandhi e muitos outros.

Estes gestos inovadores são muito aplaudidos no momento em que se realizam e, depois, tendem a ser esquecidos. Por isso, recebi com alegria a iniciativa de juntar 30 Prémios Nobel da Paz, que realizaram o I Encontro Mundial da Fraternidade Humana (#NotAlone), no Vaticano, no passado dia 10. Contavam com a presença do Papa Francisco. Este foi hospitalizado, mas o Encontro não foi cancelado.

A Igreja não tem só uma voz, a voz do Papa. É importante que essas vozes, na sua diversidade, sejam ouvidas. Com esta crónica, não pretendo mais do que fazer eco deste documento e dessas outras vozes.

Vieram dar o seu contributo para a construção de um mundo verdadeiramente fraterno e elaboraram a Declaração da Fraternidade, com o objetivo de reafirmar o não da Igreja à guerra e o compromisso com o diálogo ilimitado e a construção da paz. Foi assinada por essas 30 personalidades e pelo cardeal secretário de Estado, Pietro Parolin, como representante do Papa.

A Declaração começa com uma citação de Francisco, «Somos diversos, somos diferentes, temos diferentes culturas e religiões, mas somos irmãos e queremos viver em paz». E continuam dizendo que cada homem é meu irmão, cada mulher é minha irmã, sempre. Queremos viver juntos, como irmãos e irmãs no Jardim que é a Terra. É o Jardim da fraternidade a condição de vida para todos.

Os 30 signatários desse texto declaram que são testemunhas de como, em cada recanto do mundo, a harmonia perdida floresce quando a dignidade é respeitada, as lágrimas são enxugadas, o trabalho é remunerado de forma justa, a educação é garantida, se cuida da saúde, a diversidade é valorizada, a natureza é restaurada, a justiça é honrada e as comunidades abraçam a sua solidão e os seus medos.

Terminam com um apelo. Cabe à nossa liberdade querer a fraternidade e construí-la juntos, na unidade. Junte-se a nós para assinar este apelo, para abraçar este sonho e transformá-lo em práticas diárias, para que chegue à mente e ao coração de todos os governantes e daqueles que, em todos os níveis, têm uma pequena ou grande responsabilidade cívica.

O Papa não pôde estar presente, mas enviou uma mensagem, onde reconhece esta Declaração como uma gramática da fraternidade[2].

3. De 14 a 20 deste mês, está a decorrer, em Tallinn, Estónia, a Assembleia geral do Conselho das Igrejas Europeias (CEC, na sigla em inglês) com o tema Sob a bênção de Deus – moldar o futuro.

O programa deste evento quinquenal inclui como conferencistas principais Hartmut Ros, que intervirá sobre Qual é o contexto sociológico da Europa? Sviatlana Tsikhanouskaya, sobre O que é que as Igrejas podem oferecer na sociedade europeia? e Rowan Williams, que falará sobre Como é que trabalhamos teologicamente com o nosso papel na sociedade europeia? O patriarca ecuménico Bartolomeu responderá à questão: Quais são as nossas tarefas ecuménicas na Europa do futuro?

O CEC é uma associação de 113 igrejas ortodoxas, protestantes, anglicanas e católicas de toda a Europa, e de mais de 40 conselhos nacionais de igrejas e organizações em parceria. A organização, fundada em 1959, após a Segunda Guerra Mundial, afirma representar mais de 380 milhões de cidadãos europeus em todo o continente[3].

 

 

 

18. Junho. 2023



[1] Cf. www.vatican.va

[2] Cf. www.vatican.va

[3] Cf. 7Margens, 09.06.2023

sábado, 17 de junho de 2023

DA COMPAIXÃO À MISSÃO! - Pe. Manuel João mc

 DA COMPAIXÃO À MISSÃO! - Ano A - Tempo Comum - 11º Domingo - Mateus 9,36-10,8

 

Depois do caminho quaresmal e pascal e das grandes solenidades, voltamos ao tempo litúrgico ordinário, acompanhados pelo Evangelho de Mateus. Trata-se de retomar a "ordinariedade" da nossa vida cristã, vivida no seguimento de Jesus. 
O evangelho de hoje apresenta-nos o segundo dos cinco grandes discursos de Jesus que Mateus recolhe no seu evangelho. O primeiro é o programático, no monte das bem-aventuranças (capítulos 5-7). Depois de ter "falado", Jesus "trabalhou", curando "todas as doenças e enfermidades" (cap. 8-9). Este segundo discurso, que ocupa o capítulo 10 de Mateus, é chamado o "discurso da missão".

 

Jesus, vendo as multidões, teve compaixão delas, porque estavam cansadas e exaustas como ovelhas que não têm pastor. 
 
Este discurso (como o primeiro, aliás!) parte de um olhar de Jesus, que toca profundamente o seu coração, um olhar de compaixão. Como gostaríamos de sentir também nós este olhar de Jesus quando nos sentimos cansados, desanimados e perdidos! Sim, este mesmo olhar continua a pousar-se sobre as multidões sofredoras de hoje, sobre cada homem e mulher, sobre ti e sobre mim! 
Porque é que duvidamos dele? Será que este olhar de Jesus se tornou míope, ou o seu coração se endureceu? Não seremos talvez como aqueles povos da África Ocidental (onde vivi em missão) que acreditam sim num deus supremo, Mawu, mas num deus que se terá afastado para o céu, para não ser incomodado pelos humanos, e que terá confiado a terra aos vodus, que a governam como lhes apetece?! Só que os nossos vodus têm outros nomes: destino, acaso, acidente, azar, mau-olhado....
Ah, Jesus, cruza o teu olhar com o nosso e cura-o!

 

Depois disse aos seus discípulos: A messe é abundante, mas os trabalhadores são poucos! 

 

A messe é abundante?! Talvez se esteja a referir ao vasto campo a semear! Não, está mesmo a falar da colheita a fazer, que corre o risco de se perder por falta de trabalhadores! E onde?!
Certamente não aqui, onde só há joio! Até nos perguntamos se ainda vale a pena pregar o Evangelho nesta sociedade que parece não ter interesse algum nele! Pelo contrário, Jesus, com o seu olhar de compaixão, vê aqui uma colheita pronta a ser recolhida no seu celeiro!

 

Rogai, pois, ao Senhor da messe que envie operários para a sua messe".

 

Rezar pelas vocações? Isso sim! Mas porque é que o Mestre se faz tanto rogar? Não vê ele próprio que nos faltam padres, religiosas, missionários?! 
Em vez disso, o Senhor faz-nos rezar para poder mudar o nosso olhar e tornar o nosso coração semelhante ao seu. Para depois... nos enviar a nós! Sim, ele não pensa tanto nos padres e nas freiras, mas em nós. E aqui o assunto torna-se sério!

 

Tendo chamado a si os seus doze discípulos, deu-lhes poder sobre os espíritos impuros para os expulsarem e curarem todas as doenças e enfermidades.

 

Aqui, ele chama-nos e prepara-nos, não nos envia de qualquer maneira para esta tarefa gigantesca. Trata-se, com efeito, de lutar contra os "espíritos impuros" que se apoderam da nossa sociedade. São tantos: a guerra, a fome, a injustiça, a exploração, o consumismo.... É preciso expulsá-los e mandá-los de volta para o inferno! Mas será que acreditamos realmente neste poder que o Senhor nos deu, o poder do mesmo Espírito que actuava nele?
Trata-se também de curar "toda a doença e toda a enfermidade", física e espiritual. Todas! porque o Senhor quer promover a integridade da vida e a nossa liberdade. Mas atenção! Somos curadores feridos, não imunes a estas enfermidades: egoísmo, inveja, amor-próprio, indiferença, medo, dúvida, violência... 

 

Os nomes dos doze apóstolos são os seguintes: primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão, o cananeu, e Judas, o Iscariotes, aquele que mais tarde o traiu.

 

São doze. Representam as doze tribos de Israel, todo o povo de Deus. Só homens? Não se trata de uma intenção exclusivista de Jesus. Hoje temos a certeza disso. O que importa é a totalidade do número doze. 
Notamos, antes de mais, que são pessoas muito diferentes, com os seus méritos e defeitos, certamente não "santos e capazes" (como Comboni queria dos seus missionários). Não sei quantos seriam idóneos para entrar no seminário! Isto para dizer que Jesus não está à procura de pessoas perfeitas, mas de ti e de mim!
Notamos também que os apóstolos são nomeados dois a dois. Não se trata apenas de uma intenção mnemónica; indica que nós não somos testemunhas cada um por sua conta. Somos testemunhas numa comunidade que nos precede e de que somos expressão. 
Notamos, finalmente, que na "foto de família" há uma figura embaraçosa: Judas. Porquê? É um aviso: Judas pode representar cada um de nós!

 

Estes são os Doze que Jesus enviou, ordenando-lhes: "Não vades entre os gentios, nem entreis nas cidades dos samaritanos; mas voltai-vos para as ovelhas perdidas da casa de Israel". 

 

Ai, ai, ai, Jesus envia-nos para junto dos nossos, dos nossos vizinhos, dos que estão em casa e conhecemos. Eu preferia ir para África!

 

Pelo caminho, pregai, dizendo que o Reino dos Céus está próximo. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, expulsai os demónios. De graça recebestes, de graça dai".

 

Enviados a testemunhar, com o sorriso e a alegria, com bondade e perdão, que o Reino dos Céus está próximo! Enviados a operar prodígios, não os sensacionais do Padre Pio, mas os pequenos milagres quotidianos, gratuitos e muitas vezes despercebidos, de gestos de amor capazes de curar as feridas, de ressuscitar a esperança de alguém, de purificar os leprosos nas almas e de expulsar os demónios dos corações! 

 

P. Manuel João Pereira Correia, mccj

 

Castel d'Azzano (Verona), 16 de junho de 2023

segunda-feira, 12 de junho de 2023

Man hu? O que é? Pe. João MC

 Man hu? O que é? 

Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo
Evangelho: João 6,51-58

Sessenta dias depois da Páscoa, na quinta-feira depois da Santíssima Trindade, a Igreja celebra a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, também chamada festa do Corpus Christi ou do Corpo de Deus. É uma das três quintas-feiras mais solenes do ano litúrgico: Quinta-feira Santa, Quinta-feira da Ascensão e Quinta-feira do Corpo de Deus. Por razões práticas, em muitos países, tanto o dia da Ascensão como o dia do Corpo de Deus são transferidos para o domingo a seguir à Santíssima Trindade.

As origens desta festa remontam ao século XIII, na Bélgica, mas recebeu um forte impulso com os milagres eucarísticos de Bolsena e Lanciano, na Itália. Esta solenidade parece quase uma duplicação da Quinta-feira Santa. E, de facto, de certa forma, é-o. Na Quinta-feira Santa, a Igreja não tinha podido exprimir toda a sua alegria e gratidão pelo dom supremo da Eucaristia, dado o contexto da paixão. Eis, portanto, a razão profunda desta festa de hoje.

RECORDA-TE!

A primeira palavra que soa aos nossos ouvidos nas leituras de hoje é RECORDA-TE:"Recorda-te de todo o caminho que o Senhor teu Deus te fez percorrer durante quarenta anos no deserto(primeira leitura, Deuteronómio capítulo 8). É um convite muito oportuno e urgente para nós, mulheres e homens desta geração, inclinados a esquecer o passado, alienados no presente, desenraizados da história e, portanto, despreocupados com o futuro. 

Esta tendência cultural ameaça também minar a identidade cristã. Nelson Mandela disse: "a memória é o tecido da identidade". Um cristão e uma comunidade cristã que não cultivem a memória de Deus e das suas obras correm o risco de perder a sua identidade e de não conseguir compreender o presente. É por isso que Moisés, no Deuteronómio, insiste tanto no binómio escuta/lembrança (ver 6,4-10.12; 8,2.14.18). 

O crente que não se lembra do Deus-libertador cai facilmente na escravidão, regressa ao Egipto e tem de fazer todo o caminho de novo! O cristão sem memória não tem o Espírito, porque a tarefa do Espírito é ensinar e recordar: "O Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas e recordar-vos-á tudo o que vos tenho dito" (João 14,26). O cristão sem memória é incapaz de uma verdadeira escuta da Bíblia, que é, de facto, a memória da história da aliança de Deus com o seu povo, das "mirabilia Dei"! Sem a memória afectiva do coração, não podemos celebrar a Eucaristia, o memorial por excelência: "Fazei isto em memória de mim" (1 Coríntios 11,23-26).

UM SÓ PÃO, UM SÓ CORPO!

A segunda leitura é para mim um grande conforto: "Visto que há um só pão, nós, embora sejamos muitos, formamos um só corpo, porque participamos do único pão"(1 Coríntios 10,16-17). 

Desde 13 de Outubro de 2020, devido à minha doença (ELA), não posso comungar o Corpo e o Sangue de Cristo. Tenho de confiar naquela "só palavra" antes da comunhão: "Senhor eu não sou digno que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo". Não sei que palavra o Senhor me diz, mas a ela me confio! 

A minha condição levou-me a pensar muitas vezes nos cristãos que não podem receber a Sagrada Comunhão, sobretudo devido a problemas matrimoniais, muitas vezes sem solução. De certa forma, partilho a sua dor. Acho que a nossa atitude para com eles não é evangélica, tendo em conta que a comunhão não é uma recompensa para os "justos" ou para aqueles que são "dignos" dela, mas um remédio para os pecadores que todos somos. 

Celebrar a Eucaristia todos os dias com os meus irmãos levou-me sobretudo a reflectir sobre a dimensão comunitária da Eucaristia: um só Pão para um só Corpo! Este corpo é a Igreja, é a comunidade. Cristo dá-se a todo o corpo. Os meus irmãos são o meu corpo que comunga, através deles, o Corpo de Cristo. Isto aplica-se a mim e a todos os cristãos que celebram a Eucaristia!

MANÁ, MAN HU? O QUE É? 

O Maná que alimentou o povo de Israel no deserto é uma figura da Eucaristia, o Pão essencial para a nossa sobrevivência. Tradicionalmente, pensa-se que o vocabulário Maná provém de Man hu? ou seja: "O que é isto?", quando os israelitas se interrogaram, surpreendidos, ao vê-lo descer do céu. Pois bem, Jesus diz-nos hoje: "Eu sou o pão vivo descido do Céu... Este é o pão que desceu do Céu; não é como aquele que os vossos pais comeram, e morreram; quem comer deste pão viverá eternamente" (João 6,51-58). É ele o verdadeiro Maná. Os judeus que o ouviram ficaram escandalizados. Nós, infelizmente, não! Tomamos isto como um dado adquirido, mas até que ponto o levamos a sério? Os olhos do corpo vêem um pedacinho de pão, mas será que os olhos do coração, da fé, vêem outra coisa? Ou será que também estão cegos?

Exercício espiritual para a semana 

1. Antes de comungares, olha com admiração para o Pão que tens na mão e pergunta a ti mesmo: Man hu? O que é isto? E o Senhor responder-te-á: É o meu corpo!

2) "Se olharmos ao nosso redor, damo-nos conta de que existem muitas ofertas de alimento que não derivam do Senhor e que aparentemente satisfazem em maior medida... Hoje, cada um de nós pode perguntar-se: e eu? Onde quero comer? De que mesa me desejo alimentar? Na mesa do Senhor? Ou então sonho em comer alimentos saborosos, mas na escravidão? Além disso, cada um de nós pode interrogar-se: qual é a minha memória? A do Senhor que me salva, ou a do alho e das cebolas da escravidão? Com que memória sacio a minha alma?" (Papa Francisco, 19 de Junho de 2014)

P. Manuel João, Comboniano
Cidade de Castel d'Azzano (Verona) 8 de Junho de 2023

A FÉ CRISTÃ É UM ATREVIMENTO Frei Bento Domingues, O.P.

 

1. Este ano, 2023, celebram-se os 60 anos da publicação da Pacem in Terris de João XXIII e da sua morte, menos de dois meses depois da publicação desta encíclica[1]. Foi um Papa que liderou a Igreja Católica, por pouco mais de quatro anos (1958-1963), com muito humor e muita bondade. Quando lhe perguntaram, quantas pessoas trabalhavam no Vaticano, respondeu de imediato: mais ou menos metade. O humor e a bondade conviviam com gestos muito firmes. Mudou o rumo da Igreja de uma forma absolutamente inesperada, que podemos chamar profética, ao convocar o Concílio Ecuménico Vaticano II (1962-1965), para abrir a Igreja aos desafios do mundo contemporâneo.

De facto, não se pode encaixar a figura deste Papa nos esquemas rígidos da linguagem político-ideológica, manifestos na antinomia conservador-progressista.

Como escreveu Manuel Pinto, o que distingue este Papa, ao fim e o cabo, é o centramento na figura de Jesus e naquilo que o actual Papa veio a designar A Alegria do Evangelho. Isso vê-se nos processos de auscultação, aceitação do debate e até da polémica, participação, adoção da misericórdia para com aquilo que a Igreja considera erros, em vez da via da condenação. Vê-se também na visão, nos gestos e modos de estar, a capacidade de rutura com modos obsoletos e rotinas vazias e anquilosadas[2].

A Encíclica Pacem in Terris, não foi apenas inesperada, foi publicada no momento exacto em que estava eminente um confronto bélico devastador. Esta Encíclica teve como destinatários não só os habituais nestes documentos, mas também os imprevisíveis: «aos veneráveis irmãos Patriarcas, Primazes, Arcebispos e Bispos e outros Ordinários do Lugar em paz e comunhão com a Sé Apostólica, ao clero e fiéis de todo o orbe, bem como a todas as pessoas de boa vontade». Tem como tema a paz de todos os povos na base da verdade, justiça, caridade e liberdade.

Fiquei muito contente que Manuel Pinto evocasse essa data tão importante na vida da Igreja do século XX e uma inspiração para o século XXI, mediante a eleição de Giorgio Bergoglio.

2. Neste Domingo, somos confrontados com dois textos bíblicos: um do Antigo Testamento, Oseias, e outro do Novo, S. Mateus. No primeiro, Deus diz algo de espantoso: Eu quero a misericórdia e não sacrifícios, o conhecimento de Deus mais do que os holocaustos[3].

Jesus de Nazaré vai assumir essa declaração de uma forma escandalosa: Viu um homem chamado Mateus, sentado no posto de cobrança de impostos, e disse-lhe: segue-me! Ele levantou-se e seguiu-O. Encontrando-se Jesus à mesa em sua casa, numerosos cobradores de impostos e outros classificados como pecadores vieram e sentaram-se com Ele e seus discípulos. Os fariseus, vendo isto, diziam aos discípulos: porque é que o vosso Mestre come com os cobradores de impostos e os pecadores? Jesus ouviu-os e respondeu-lhes: não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide aprender o que significa prefiro a misericórdia ao sacrifício, porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores[4].

Neste momento, vivemos num mundo afectado por várias guerras. A única tarefa que os cristãos devem incentivar é a procura da paz baseada no diálogo que envolve um processo diplomático, sempre demorado, mas incomparavelmente mais rápido e eficaz do que a continuação dos conflitos e da guerra.

A guerra não resolve nenhum problema. Semeia destruição e reforça ódios ancestrais. Esse caminho pede sacrifícios, não só aos soldados, mas também às populações de um lado e do outro. Só podem estar interessados na guerra os que cultivam o nacionalismo estúpido e os negócios da indústria bélica. Os comerciantes de armas e da sua sofisticação, cada vez mais devastadora, precisam das guerras. Precisam de vender armas a todos os envolvidos no conflito.

Fora do diálogo não há saída. Hans Küng formulou esta questão em termos muito repetidos e pouco praticados: Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá sobrevivência do nosso planeta sem uma atitude ética, um ethos global, sem um ethos mundial. O Papa Francisco podia subscrever esta declaração.

Sei que muitos continuarão a chamar simplistas a estas atitudes. No entanto, parece-me que devemos continuar a rezar como fez Sophia de Mello Breyner Andresen, durante a nossa guerra colonial: Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos/ A paz sem vencedor e sem vencidos/ Que o tempo que nos deste seja um novo/ Recomeço de esperança e de justiça/ Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos// A paz sem vencedor e sem vencidos//
Erguei o nosso ser à transparência/ Para podermos ler melhor a vida/ Para entendermos vosso mandamento/ Para que venha a nós o vosso reino/ Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos// A paz sem vencedor e sem vencidos// Fazei Senhor que a paz seja de todos/ Dai-nos a paz que nasce da verdade/ Dai-nos a paz que nasce da justiça/ Dai-nos a paz chamada liberdade/ Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos// A paz sem vencedor e sem vencidos[5].

Como sempre, o que pedimos a Deus é também para despertar a nossa responsabilidade pelas guerras e suas causas e, sobretudo, pela cultura da paz e por uma civilização do amor. É preciso fazer morrer o comércio das armas e a lógica absurda da centralidade da ganância, do dinheiro. Sobre esta questão já escrevi várias vezes e não vale a pena repetir-me[6].

3. Na passada quinta-feira, celebrámos a festa do Corpo de Deus, uma festa medieval da Eucaristia. Na segunda leitura, S. Paulo é bem expressivo: Irmãos, o cálice de bênção, que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo? Uma vez que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, porque todos participamos desse único pão[7].

S. João fez, a este propósito, afirmações que, depois de as ouvirem, muitos dos seus discípulos disseram: que palavras insuportáveis! Quem pode entender isto? A partir daí, muitos dos seus discípulos voltaram para trás e já não andavam com Ele. Então, Jesus disse aos Doze: também vós quereis ir embora? Respondeu-lhe Simão Pedro: a quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! Por isso nós acreditamos e sabemos que Tu é que és o Santo de Deus[8].

Como canta Tomás de Aquino, nesta celebração do Corpo de Deus, a fé é um atrevimento, atreve-te quanto puderes!

 

 

11 Junho 2023



[1]11 de Abril (Pacem in Terris), 03 de Junho 1963 (morte de João XXIII)

[2] Cf. Manuel Pinto, 7Margens, 02.06.2023

[3] Cf. Os 6, 3-6

[4] Cf. Mt 9, 9-13. Os cobradores de impostos eram considerados traidores porque colaboravam com o Império Romano

[5] In Dual

[6] Entre vários outros, As religiões e a cultura da paz, com Prefácio de Jorge Sampaio, Editora Mário Figueirinhas; crónica de 09.12.2018 do Público, Desistir da Paz?

[7] 1Cor 10, 16-17

[8] Cf. Jo 6, 51-69

segunda-feira, 5 de junho de 2023

O JESUS DA GENTE Frei Bento Domingues, O.P.

 

1. Foi-me pedido um Prefácio para a edição portuguesa do livro Jesus da gente. Uma leitura bíblica para os nossos dias do Pastor Henrique Vieira. Comecei a leitura pelo excelente Prefácio que lhe dedicou Leonardo Boff, uma das grandes figuras da teologia da libertação e uma verdadeira chave para quem não conheça a original aventura, espiritual e cultural, do pastor que fundou a Igreja Baptista do Caminho. É uma personalidade multifacetada de professor, teólogo, poeta, escritor, actor, palhaço e activista social na área dos direitos humanos e, sobretudo na defesa dos mais pobres.

Pelas suas intervenções na televisão, na internet e nas muitas lives realizadas durante a pandemia, tornou-se um líder espiritual apreciado particularmente pelos jovens.

Perguntei-me várias vezes se teria sentido prefaciar a edição deste precioso livro em Portugal. Se é verdade que são muitas as paisagens sociais e religiosas dos muitos mundos do Brasil, também não se pode esquecer que a religião, na sociedade portuguesa, mudou e continua a mudar numa diversidade cada vez maior. O Prof. Alfredo Teixeira, com outros sociólogos, continua a trabalhar o mapa dessa crescente e significativa diversidade e suas origens.

De qualquer modo, aqui e agora, o que importa é tentar conhecer o itinerário desta obra do pastor Henrique Vieira, obra inseparável do seu autor. Não será de admirar que recorra constantemente a esse texto simultaneamente analítico e confessional.

Começo por perguntar: donde vem o título e o tema deste livro, Jesus da gente? No capítulo 20, o próprio autor explica-se numa declaração muito pessoal: «Na pessoa de Jesus, sinto-me amado, perdoado, reconciliado e abraçado por Deus. Ele é a minha fé, o meu amor e o sentido da minha vida. (…) Bebi na fonte da teologia da libertação latino-americana e inspirei-me muito na vida do pastor baptista Martin Luther King Jr. Como fruto e parte dessa tradição, reconheço na Bíblia o compromisso de Deus com os oprimidos da história e a esperança da eternidade e da plena libertação da humanidade. Creio que o engajamento político em prol da justiça é devoção, adoração e obediência a Deus».

 Henrique Vieira lamenta «profundamente ver o crescimento de uma extrema-direita no Brasil e no mundo, que se apropria da Bíblia e da figura de Jesus para defender posturas intolerantes, bélicas, alimentadas pelo ódio. Ao mesmo tempo, sei que isso não é uma novidade. Quantas vezes o nome de Jesus já foi utilizado para justificar verdadeiras crueldades e atrocidades».

Este livro parte de um escândalo que o próprio autor explica: «Em 2020, fui convidado pela Estação Primeira de Mangueira a desfilar na Sapucaí. A escola de samba cantava o Jesus da gente, rosto negro, sangue índio e corpo de mulher. Eu prontamente aceitei o convite e vivi um dos momentos mais bonitos e especiais da minha vida! Mas, para muitas pessoas, cometi uma heresia. Muitos viram a minha passagem pelo Sambódromo como uma atitude completamente errada para um cristão e um pastor. Mas eu fui com alegria, gratidão e consciência tranquila. Para mim, a Mangueira estava contando a história do Jesus dos Evangelhos em que eu acredito, tantas vezes esquecida e negligenciada pela própria Igreja e pelos cristãos».

2. Para este pastor, a Bíblia não é apenas o livro central da cultura ocidental ou uma das grandes obras da literatura mundial. Ele trabalha na libertação da Bíblia para a restituir aos pobres como ele próprio confessa: «a minha escrita evidentemente nasce de pesquisas, leituras, reflexões e, sobretudo, de uma paixão profunda do Evangelho e da fé em Jesus como Deus entre nós, manifestando o seu amor pela humanidade, reconciliando-a com a justiça e defendendo a causa dos pobres e dos oprimidos. A minha escrita é atravessada pela minha experiência de Deus, cultivada desde a infância no seio da minha família, na minha comunidade de fé (a Igreja Baptista do Caminho) e nos movimentos dos quais participo».

O que ele procura é o encontro permanente com Jesus de Nazaré porque é, nele, que descortina o sentido de Deus. Mas esta confissão não se fica numa espiritualidade intimista. Citando um bispo católico, D. Pedro Casaldaliga, nesse Jesus, Deus fez-se carne e classe, isto é, Deus assumiu por amor a experiência da humanidade e, nela, fez da experiência dos oprimidos a base da sua revelação.

O Pastor Henrique Vieira não é um coleccionador de citações bíblicas a propósito de tudo e de nada. Para ele, a questão fundamental não é o que está escrito na Bíblia, mas como se lê, como se interpreta. Não recorre ao argumento: está aqui escrito na Bíblia. Com a Bíblia pode-se provar o mesmo e o seu contrário. É a biblioteca de um povo, com muitos estilos, com vários géneros literários, de muitas épocas, com muitos autores submersos no seu mundo que falam a partir do seu lugar social. No limite, o literalismo é uma violência da tradição e do contexto histórico da Bíblia. Foi no conflito dos dramas humanos e nas tramas sociais que a Revelação de Deus ocorreu.

Dito da forma mais breve: «não basta saber o que está escrito, é preciso reconhecer e identificar a forma como a leitura é feita, qual é a abordagem e o processo interpretativo».

Muitas vezes, em nome de uma suposta fidelidade ao texto bíblico (identificada como fidelidade a Deus), até a violência é justificada. Em nome da lei religiosa mata-se o espírito. Em nome da letra esfria-se a sensibilidade e asfixiam-se possibilidades. «Nenhum ser humano pode ser normatizado por um texto. Somos vulcões de possibilidades e potencialidades, raridades impressas e construídas na história e atravessadas por desejos. A vida é oceânica demais para caber numa doutrina petrificada no tempo».

Um livro não vale pelo seu Prefácio, neste caso, dois. Cumpriria o meu objectivo se provocasse o desejo de ler e estudar este livro na íntegra.

Não se fiem nas citações. Nenhuma delas diz o que é este livro. Os recortes que fiz foi só para chamar a atenção para a sua importância.

Que esta leitura inspire vontade de ler a Bíblia e aprender mais sobre a luta do povo, o compromisso de Deus para com os oprimidos, a revolução causada pelo Filho de Deus, Jesus Cristo da periferia de Nazaré! Não é o Jesus do dogma, mas o do amor.

É o Jesus das esquinas, das praças, das rodas de rima e de samba, das filas dos hospitais. É Jesus assumindo a beleza, o risco, a tristeza e a alegria da vida. É Jesus com a gente! Jesus da gente!

3. Na liturgia católica deste Domingo, celebra-se a festa da Santíssima Trindade que não é, propriamente, uma designação bíblica. No entanto, sintetiza várias passagens do Novo Testamento. Na 2ª Carta aos Coríntios, S. Paulo despede-se dos seus leitores com uma expressão que é usada em todas as celebrações da Eucaristia: Irmãos, sede alegres, tendei para a perfeição, confortai-vos uns aos outros, tende um mesmo sentir, vivei em paz e o Deus do amor e da paz estará convosco. A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós!

Tinha razão Leonardo Boff, quando chamou à Santíssima Trindade a melhor comunidade. O nosso Deus não é um deus sem gente!

 

 

04 Junho 2023