terça-feira, 24 de dezembro de 2019

João dos Santos Rodrigues - In Memoriam

Caros Colegas e Amigos
Em vésperas de Natal, uma notícia triste: faleceu no dia 17 deste mês o nosso colega  JOÃO DOS SANTOS RODRIGUES. O seu funeral aconteceu no Porto a 19 de Dez.Fui seu condiscípulo em Viseu( ele no 5º ano e eu no 1º), na Maia ( ele no último ano de filosofia já com o noviciado feito e eu no 1ºsem noviciado) e acho que em Venegono. Foi um dos presentes no 1º encontro do Antigos Alunos promovido pelo Pe Manuel Augusto em Coimbra. Foi o encontro inspirador da nossa Associação. Guardo dele uma imagem de ponderação e reserva. Parecia ser um homem tranquilo e calmo. Aqui publico algumas fotos em que ele aparece.
Á sua esposa, Maria Luisa, e aos seus filhos o meu grande abraço de pesar e solidariedade em meu nome e em nome da AAA Combonianos de que fazia parte desde a 1ª hora.

1958. O João é o 2º da última fila a contar da esquerda entre o  Delgado e o Fradique.
1976. Encontro de Coimbra. O João está na última fila ao lado do Jorge Ferreira e atrás do Pe Manuel Augusto
2019. No Carapito. Na última fila ao lado do Pe. Manuel Augusto
2019. Carapito
Requiescat in pace

Pe MANUEL JOÃO - Entrevista

Caros Colegas e Amigos
Permitam que partilhe convosco os votos de Natal do nosso querido Pe. Manuel Augusto.

Desejo-lhe Feliz Natal!
O meu abraço de amizade fraterna e comboniana, com os meus votos de um feliz Natal do Senhor. Desejo-te dias iluminados pela presença do Senhor e transformados pela alegria da Sua vinda.
Como prenda de Natal, mando-re copia de uma conversa com o P. Manuel João (um missionário combonaino doente de Esclerose lateral amiotrofica, Ela) que será publicada na Família Comboniana de Janeiro.
Felicidades.
Manuel Augusto
Here’s a link to “Manuel João Entrevista E.docx” in my Dropbox:
https://www.dropbox.com/s/qoqfaai1qfu2r7x/Manuel%20Jo%C3%A3o%20Entrevista%20E.docx?dl=0

A Vida é bela, mas curta para realizar os nossos sonhos



“Estou totalmente imobilizado, mas sinto e vivo uma plenitude de mente e coração e sonho uma realização que antes desconhecia. Esta cadeira de rodas tornou-se para mim o melhor púlpito.”



O ano de 2010 marca uma mudança na vocação e missão do padre Manuel João Pereira Correia, missionário comboniano português, natural de Penajoia, Lamego. Ordenado sacerdote a 15 de Agosto de 1978, ele vive os primeiros anos de sacerdócio na comunidade comboniana de Coimbra, dedicando-se à animação missionário e à pastoral juvenil. Em 1985 é destinado ao Togo, na África ocidental, onde trabalha até 1993, ano em que é chamado a Roma para coordenar a formação no instituto comboniano. Regressa ao Togo no ano de 2002 e é eleito superior provincial, dos combonianos no Togo, Ghana e Benin.

No fim do ano de 2010 vem a reviravolta inesperada, assim descrita por ele aos amigos: “No próximo dia 28 de Dezembro deixarei o Togo e regressarei à Europa, sem saber o que me espera. A doença que me foi diagnosticada (esclerose lateral amiotrófica) segue o seu curso, levando-me com ela (de bom ou de mau grado!), convidando-me a um olhar diferente sobre a vida. Revisitando lugares e pessoas, a mente foge-me, por vezes, para o passado, recordando o que foi a primeira vez da minha chegada à missão como jovem missionário de 34 anos, cheio de sonhos e entusiasmo. Já lá vão quase 25 anos! Tudo então era novo para mim. Lancei-me de corpo, alma e coração, nesta aventura. As dificuldades iniciais de adaptação ao clima, o esforço para aprender a língua e os costumes, o empenho exigido pela nova cultura... não esmoreceram o meu entusiasmo. Hoje muita coisa mudou. Mudou a África, as suas gentes, o rosto da igreja e dos missionários... E mudei eu também, naturalmente!”

A mudança em acto vai afastá-lo para sempre da África. Ele interpreta-a como uma passagem de testemunho:É grande sem dúvida a satisfação de ver outros recolherem a tocha do ideal missionário que animou a nossa existência, prontos a continuar agora a nossa tarefa. Mas regressar para ficar é sempre um momento doloroso para um missionário cuja pátria e vida é a missão.”

Olha para este regresso forçado à Europa como uma nova oportunidade e um recomeço, assim descrito aos amigos: “Regresso sereno, convencido que o Senhor continuará fiel à promessa que me fez: Eu estarei sempre contigo para dar sentido à tua vida! Regresso convencido que... o melhor está ainda para vir! Como o vinho do milagre de Jesus nas núpcias de Cana! Por isso termino a minha missão em África louvando o Senhor e acolhendo o seu convite a ... repartir de novo! Com o meu passo incerto, da doença, revejo-me criança a aprender a caminhar. Aonde me levará o caminho não sei. Mas sinto que Deus me convida à confiança, a abandonar-me nas Suas mãos.”

O caminho é determinado pela natureza da doença, que avança e lhe retira os movimentos, a começar pelos membros inferiores. O P. Manuel João é destinado a Roma, para fazer parte da equipa que coordena a formação permanente do instituto. Ele resiste ao percurso da doença, movimentando-se com muletas e cadeira de rodas, superando os prognósticos médicos. Mas em 2016 tem que deixar Roma para, como ele diz “ser transferido para uma comunidade onde possa ter uma assistência melhor” já que a sua “inseparável companheira, a Ela (esclerose lateral amiotrófica) não o deixa.” Vai para Verona para, nas suas palavras “responder a mais uma chamada de Deus a deixar as minhas seguranças e partir, mais uma vez, em missão. Trata-se da penúltima missão, já que a última ser-nos-á conferida no Paraíso. Disponho-me a vivê-la com o empenho e a generosidade dos trabalhadores da última hora da parábola evangélica.” Aos amigos, assegura: “Não parto sozinho, levo-vos no coração. Estou-vos agradecido pela amizade e oração, que me obtiveram o milagre da serenidade e da alegria, que me têm acompanhado na doença.”

No ano de 2018 outro momento de viragem marca o seu caminho, assim descrito aos amigos: “Há seis meses, tive uma crise respiratória, fui hospitalizado de urgência, durante quatro longas semanas, e foi-me feita a traqueotomia. Agora respiro ligado a uma máquina e é com dificuldade que consigo fazer-me compreender. De todos os modos, não perdi o bom humor e, apesar dos transtornos próprios da doença, estou bem! Encontro-me sereno, um dom que Deus me concede graças a vós. É verdade que me encontro sempre mais limitado no meu corpo, agora praticamente paralisado, mas não me falta o sorriso e a boa disposição, louvando a Deus cada dia pelo dom da vida. Não podendo usar os dedos para escrever, ou a voz para ditar, tive que aprender a usar o puntador ocular, isto é, estou a escrever-vos... com os olhos! Maravilhas da técnica!”

A esclerose lateral amiotrófica (ELA) é uma doença neurológica, ao momento, incurável. Paulatinamente retira à pessoa os movimentos musculares, reduzindo o corpo a uma prisão do espírito. Mas o espírito voa e o coração continua a alargar-se á medida dos sonhos, confidencia o P. Manuel João: “Quem não sentiu renascer no seu coração a criança que continua a acreditar nos sonhos? O nosso coração é um poço inesgotável de desejos! Pena é que neles acreditemos apenas por alguns momentos.” É pelos sonhos e desejos que começamos esta nossa conversa, numa tarde de fim de verão, em Verona.



P- Costumas dizer que a vida é bela, mas é curta para realizar os nossos sonhos. Qual é a importância do sonho?

R- “Para mim, o sonho dá uma orientação, o sonho é algo que está diante de nós e nos faz crescer. É uma meta. Naturalmente, do ponto de vista humano, e também do ponto de vista da fé, o sonho é a vontade de crescer, de ir adiante, de não se contentar com a banalidade, de alimentar o desejo de crescer na aventura da vida. O sonho é, assim, um respiro de futuro.

Do ponto de vista humano, o sonho é um projecto, algo que nos colocamos diante como meta. Do ponto de vista da fé, há uma transformação porque o sonho é apelo de Deus, que nos chama a mudar de perspectiva, a passar do nosso projecto à sua promessa... Não sou eu que ponho diante de mim uma meta (com o meu sonho...); mas é Deus que pro-mete, põe diante de mim o seu projecto, o seu sonho. Eu passei a olhar para a minha doença e situação, como um projecto, uma promessa que Deus me pôs diante... A vocação missionária é sempre uma promessa de Deus.”



P- Para muitas pessoas a doença põe em crise a relação com Deus. Como te relacionas com Deus, no processo da tua doença?

R- “Deus concedeu-me a graça de aceitar esta prova, e com a aceitação, a graça da serenidade, que sempre me acompanha e que mantenho ao fim de cada dia. Mas claro, também me perguntava: porque é que isto aconteceu a mim? Mas também sempre me respondia: e porque é que não devia acontecer a ti? Porque é que acontece a outros e a ti não devia acontecer? Nesse sentido, percebi que não sou privilegiado, sou como todos os demais e também a mim aconteceu. Isto faz-me percorrer um caminho de comunhão e solidariedade com todos aqueles que sofrem, de uma maneira especial com os doentes da esclerose lateral amiotrófica.”



P- Tiveste um sonho missionário, na tua adolescência e juventude, um sonho cheio de acção. Como vives a vocação nesta situação de imobilidade?

R- “Às vezes vem-me de pensar no que podia fazer se não tivesse esta doença que me conduziu à imobilidade total. Mas eu penso que esta é a condição, este é o lugar, onde eu vivo a minha vocação missionária e que a minha vida é mais fecunda. Com esta doença estou num pequeno espaço, mas posso semear e viver com fecundidade apostólica. Deus pode fazer, e faz, coisas grandes mesmo neste pequeno espaço em que vivo. Experimento que, pequenas coisas que eu antes pouco valorizava, como a palavra, o sorriso, a serenidade, a capacidade de escuta e empatia... me surpreendem também a mim como meios de graça que Deus usa para tornar a minha vida fecunda. Esta cadeira de rodas tornou-se para mim o melhor púlpito.”



P- O que é que faz um missionário que nada pode fazer, além de pensar?

R- “Graças a Deus, a doença comigo foi muito benévola, porque apesar da minha situação de imobilidade posso continuar a ler e escrever através do computador. Ao início, pensei que a minha vida seria breve, estando às estatísticas. Mas a verdade é que já superei a média e já vou quase em dez anos.

Foi uma surpresa, e nos primeiros anos pensei que tinha que aproveitar bem a vida, qualificar bem o meu tempo, com o desejo de pensar e aprofundar valores. O tempo permitiu-me revisitar o passado e transformar tudo ... como se fosse uma sementeira em que a semente semeada morre para dar fruto. Então a revisitação da minha vida foi ocasião para eu agradecer a Deus tudo o que eu pude fazer com a Sua ajuda ...”



P- O sonho e a realidade ... como é que se vê o mundo da altura de uma cadeira de rodas, o teu lugar de observação?

R- “Uma coisa que me acompanhou desde o início, certamente como graça, foi descobrir que toda a circunstância na vida pode ser uma oportunidade. Este pensar foi uma graça, a chave que me abriu a porta a uma vida motivada, especialmente nos primeiros anos da doença.

No início, a doença é como um muro que corta completamente todas as perspectivas de vida, os sonhos que se tinham, as realizações que se queriam fazer. A doença, de certo modo, cancela toda a promessa. Pouco a pouco entrou-me a convicção que, em qualquer circunstância, a vida oferece-nos sempre novas oportunidades. Talvez possa parecer que a doença nos rouba as possibilidades que sonhávamos. Mas a vida apresenta-nos outras possibilidades, oportunidades que, no final, se revelam muito mais fecundas.

Para mim, foi como se uma porta se abrisse neste muro negro, impenetrável, que era a doença ... um muro que à direita, à esquerda, por cima ou por baixo, parecia um obstáculo não superável. A descoberta desta porta, na obscuridade do muro, foi uma graça, a descoberta de um mundo de oportunidades que nunca tinha sonhado e que me permitiu olhar a vida de uma outra perspectiva, viver num horizonte cheio de surpresas.”



P- Podes voar com o espírito, mas no corpo estás dependente dos outros em tudo. Como vives esta dependência?

R- “Às vezes cansa-me um pouco esta situação. Mas ajuda-me muito o pensar que Jesus viveu trinta anos de vida escondida e só três de vida activa. E o momento supremo da sua fecundidade apostólica foram os três dias da sua paixão e morte, quando ele se consignou, se abandonou nas mãos dos outros. Ao culminar a sua vida pública, o momento supremo e definitivo foram dias de passividade... que pode ser fecunda e mais eficaz que a actividade.

A vida do homem está cheia de actividade, orgulhamo-nos do que fazemos. Mas não podemos ignorar que é quando deixamos que Outro faça através de nós, que somos realmente fecundos, de uma fecundidade que nos ultrapassa. Na nossa passividade, ajudamos, também, os outros a crescer na sua capacidade de serviço e de amor.”



P- Felizmente consegues acompanhar a vida da Igreja e do mundo. Como é que vês a vida da igreja do nosso tempo, de modo particular a igreja missionária?

R- “A primeira palavra que me vem à mente é crise. Vivemos um momento de crise, incluso na vida missionária. Mas este momento é também uma nova oportunidade. Os tempos são ainda de obscuridade e de alguma confusão. Mas eu creio que esta crise, que é de purificação, será de regeneração, de primavera para a Igreja.”



P- O teu primeiro trabalho foi com os jovens. Os jovens parecem ter medo da doença, do sofrimento, do empenho de uma vocação para toda a vida, como a missionária... Como os vês?

R- “Nessa altura, a seguir à minha ordenação sacerdotal, eu era também jovem. Foi um tempo (os anos 70 do século passado) de muito entusiasmo. Eu acho que os jovens que encontrei nessa primeira experiência apostólica, se encontravam, de certo modo, numa situação diferente da actual. Jovens com entusiasmo, com garra, que sonhavam a transformação das suas vidas e da sociedade, que sentiam a fascinação da vocação missionária, embora com as debilidades e incertezas de todos os jovens, dúvidas que também eu tinha experimentado na minha vida e na minha história.

A situação actual é diferente: os jovens vivem num contexto social, das redes sociais, mais individualista, amorfo e dispersivo, que não os ajuda a identificar-se com um projecto. A vida e a sociedade de hoje apresentam uma variedade infinita de possibilidades. Não se trata de projectos que se materializem... São possibilidades que permanecem ao nível de ilusões e os jovens não conseguem agarrar-se a um projecto concreto e perseguir um objectivo de vida.

Há uma grande dispersão e isso, junto à falta de uma perspectiva de fé, leva a que a vocação missionária, como qualquer outra vocação que implique um compromisso para toda a vida, se tornem, de certa maneira, projectos inconcebíveis. Eu creio que hoje só se pode colocar a proposta da vocação num contexto de fé, tanto a vocação missionária como a vocação ao matrimónio cristão.

Os jovens hoje têm medo do empenho, como nós também tínhamos... só que nós tínhamos mais pontos de referência, no entusiasmo e nas motivações da sociedade da igreja do nosso tempo. Os jovens que conheci em África vivem em contextos mais difíceis, e nesse sentido têm mais capacidade para abraçar o sofrimento e lutar.”



P- Sentes-te realizado, como pessoa, como sacerdote e missionário?

R- “No Evangelho, Jesus diz-nos que Deus nos visita de três maneiras.

Em primeiro lugar, como noivo / esposo das nossa vidas, Aquele que realmente pode colmar a nossa sede de amor e felicidade. O bonito e desafiante da vida é viver na sua expectativa, prontos para O acolher como Amor da nossa vida.

Em segundo lugar, como senhor / patrão, que nos confia os dons da vida para os fazermos crescer e frutificar, para nossa felicidade e para a felicidade dos outros. É generoso connosco, mas vem para nos pedir contas. O desafio, e o bonito da vida, é vivermos com sentido de responsabilidade, com mãos abertas e operosas, para receber e compartir, acolher e fazer crescer os nossos dons.

Em terceiro lugar, o Senhor visita-nos como ladrão que nos pode surpreender e roubar-nos o que temos ou pensamos ter. Esta imagem sugere vigilância e acentua a surpresa da Sua vinda e sempre me provocou medo quando reflectia sobre ela.

Com a doença, o Senhor visitou-me revestido de ladrão, que me foi roubando os movimentos, primeiro os membros inferiores, depois os superiores, os movimentos da cabeça... Mas Ele é bom e actua como bom ladrão, que tira uma coisa para deixar outra ainda maior. Desde o começo, tive o dom de aceitar a doença com serenidade e, pouco a pouco, descobrir que, se o Senhor me tirava alguma coisa, deixava-me outra maior; esvaziava-me de algo para me encher D’Ele mesmo, dos Seus dons. Agora estou totalmente imobilizado, mas sinto e vivo uma plenitude de mente e coração, de afecto e espírito, e sonho uma realização que antes desconhecia.”



Entrevista de: Manuel Augusto Lopes Ferreira, missionário comboniano


domingo, 22 de dezembro de 2019

POEMA DE LAUREANO - Paz

paz

a sul norte oriente e ocidente
a gente não se entende
a guerra é permanente
já carros e cavalos
não faz sentido usá-los
hoje um botão se acende
arma que pesa pouco
nas mãos e basta um dedo
sem dó sem medo
sem coração
exercer a pressão
oh mundo louco

os homens não aprendem
nada nada
mas não é de admirar na escola acendem-
-se ódios da mãe irada
do filho que faz guerra aos professores
aos livros aos cadernos às canetas
smartphones são os únicos valores
as verdadeiras metas.

em casa os brinquedos são pistolas
metralhadoras jactos mísseis pum
prazer número um:
a guerra das estrelas nas consolas

esta vida não é senão um jogo
e nesta guerra quem escapa ao fogo
para assistir à guerra das estrelas?
estrelas morrerão e nós com elas

mas uma estrela brilha no oriente
luz de fé de que o homem é capaz
e diz que cada vez é mais urgente
a paz

Lauro Portugal
(inédito)

SANTO NATAL -UASP


Nascendo no Presépio, o próprio Deus dá início à única verdadeira revolução... a revolução do amor, a revolução da ternura.
Papa Francisco
A UASP a todos deseja um Santo Natal e Feliz Ano Novo!
www.uasp.pt | Faceboock.com/uasp


O PAPA NÃO PODE FAZER TUDO SOZINHO Frei Bento Domingues, O.P.


1. O Papa fez, no passado dia 17, 83 anos. Não precisa nada dos meus parabéns. Sou eu, como membro da Igreja Católica, que preciso de lhe exprimir, publicamente, o agradecimento por ele estar a realizar, na linha de João XXIII e do Vaticano II, uma viragem, espantosa a muitos títulos, no pontificado romano. Tão admirável que eu nunca supus chegar a ver antes de morrer.

Há quem diga que os seus desejos de reformas nunca se concretizam, em modificações reais, quanto à orientação e às práticas efectivas no governo da Igreja Católica. Não partilho nada essa opinião. Não é só pelas muitas medidas, como agora esta da abolição do abominável “segredo pontifício” a que o Público deu o devido destaque[1]. A sua intervenção destina-se a criar condições que tornem irreversível o próprio processo de reformas e não se extinga com o seu pontificado.  

O que Bergoglio não faz, nem deve procurar fazer, é substituir-se às comunidades cristãs. É a elas que pertence garantir, por actos, palavras e iniciativas, a expressão fiel da presença actuante do Espírito de Cristo na complexidade do mundo contemporâneo.

 Não se pode deixar tudo para o Papa como se ele não tivesse, desde o começo, recusado continuar um regime de monarquia absoluta! Mas, quem está disposto a participar na mobilização multifacetada de voluntárias e voluntários preocupados com a revitalização das comunidades cristãs, sobretudo quando parecem ressequidas ou estéreis? Sem convocatórias locais, é difícil criar movimentos que suscitem uma nova cultura de serviço que substitua as muitas artes de dominação económica, política e religiosa, cujas redes são cada vez mais abrangentes.  

 Se existem cegos que não reconhecem as inovações de Bergoglio, também não faltam os indignados poderosos por ele já ter ido longe demais. A verdade é que abriu uma grande clareira, destapou o horizonte e abriu um caminho à liberdade criadora, tantas vezes impedida, mesmo num passado recente.  

Vários amigos, de diversas zonas do país, lamentaram que eu tivesse esquecido, na crónica do passado Domingo, a situação inquietante das lideranças locais de muitas paróquias e dioceses, que seriam responsáveis pelo afastamento crescente da população católica das próprias celebrações da fé cristã! Não esqueci. Sou testemunha dessa debandada, para a qual o próprio Papa alertou os bispos portugueses.

Dizer que se trata de um fenómeno irreversível das sociedades actuais não responde à questão mais pertinente: o que se pode fazer e não se faz para transformar o afastamento numa nova e activa aproximação?

2. Um inquérito, na diocese de Aveiro, revela que, desde 2001, a prática dominical caiu 44 por cento, isto é, nos últimos 18 anos, quase 30 mil pessoas deixaram de ir à missa dominical.

O coordenador da pastoral da Diocese, Padre Licínio Cardoso, numa entrevista à Agência Ecclesia[2], para a qual remeto, deu a sua interpretação dos números que estariam, em parte, relacionados com a demografia, com a taxa de natalidade: é visível a existência de assembleias cada vez mais envelhecidas. Mas a quebra populacional não explica tudo e considera fundamental um trabalho de recuperação, a vários níveis, a começar pela formação cristã. Enumera um conjunto de medidas pastorais para alterar a situação.

A diocese de Aveiro está a viver, até 2021, um triénio dedicado à temática da vocação e o próximo ano pastoral será precisamente dedicado à vocação da família. A intenção é ter uma vida cristã menos centrada em doutrinas, em estruturas e tradições, mas uma vocação voltada para a descoberta de Jesus, querendo dedicar uma atenção redobrada a outras realidades que influenciam a vida das famílias cristãs na cultura actual.

Segundo o P. Licínio, hoje, a nossa linguagem sacramental não tem impacto nas pessoas, porque as pessoas desconhecem essa linguagem. Temos uma linguagem sacramental muito associada ao moralismo, de quem pode e quem não pode, de quem é regular ou de quem é irregular. Defende a importância de reinventar a linguagem pastoral, mas sem com isso pôr em causa o que é essencial, o sentido da fé, dos sacramentos e da liturgia.

São observações sensatas, mas, perante os dados do inquérito referido, não evitam a pergunta: que andaram a fazer os padres e colaboradores leigos, antes e depois de 2001?

O Arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, fixou-se sobretudo na impossibilidade de assegurar a celebração da Eucaristia dominical em todas as paróquias da Diocese. Segundo as estatísticas diocesanas, «os padres diminuem e a idade aumenta. Não poderemos continuar na lógica de ter um padre por cada paróquia». Mesmo com três paróquias por cada pároco, não se consegue celebrações dominicais em todas.

D. Ortiga tem razão quando diz que a Igreja insiste demasiado na obrigação da prática dominical, para a qual, no entanto, propõe hipóteses de caminhos alternativos: a articulação com as missas vespertinas, a celebração dominical na ausência do presbítero, confiando a presidência a leigos devidamente preparados; e, não menos importante, a efectiva articulação das unidades pastorais e consequente deslocação dos fiéis dentro das mesmas. Estes remédios não conseguem remediar o irremediável: não há celebração da Eucaristia sem padres e os padres são cada vez menos. Destacou algo importante: é preciso não confundir a prática da vida cristã com a obrigação da prática dominical. Mas não diz como é que se articula a multifacetada prática da vida cristã e as celebrações da fé. Muitos se queixam que as missas e os outros sacramentos se transformaram num vergonhoso negócio.

3. Enquanto não se abrir o regime de presidência da Eucaristia, a homens e mulheres, casados ou solteiros, devidamente preparados e ordenados, são tudo remendos em pano velho que se rasga por todo o lado. A celebração da Eucaristia e dos outros sacramentos pressupõe uma condição essencial: a construção de comunidades vivas que articulem o empenhamento na sociedade civil com as celebrações da fé cristã.

A problemática sacramental da Amazónia está em toda a Europa. É, talvez, a teimosia de muitas conferências episcopais e a resistência das faculdades de Teologia da Igreja católica em debater estas questões a fundo, como fez Edward Schillebeeckx, que impedem de ver o que está à vista.

Na Europa, o clero parece uma espécie em extinção. Talvez um exagero. Foram reconhecidas, pelo Vaticano, as virtudes heróicas do Padre Américo (1887-1956). É bom que se diga porque as novas gerações já não sabem quem foi esse padre extraordinário, que devia ser espelho de todos os padres. Antecipou, no século passado, a Igreja em saída para as periferias: as crianças abandonadas, os pobres e os moribundos sem família. Esta espécie é que parece em extinção.

Boas Festas!



22. 12. 2019



[1] Público, 18. 12. 2019
[2] Cf. Igreja Aveirense, Ano XV, nº1, pp. 86-91

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

ALMOÇO DE NATAL - Colegas da zona de Aveiro

Caros colegas,

Aproximando-se a época natalícia e aproveitando a sugestão de um colega, venho propor um almoço de confraternização dos antigos alunos combonianos residentes na zona de Aveiro.
No encontro anual de 2018 o nosso colega Alberto Henriques Gonçalves convidou-nos  a provar o cabrito servido no “Cortiço”, na sua terra natal, Cedrim (Sever do Vouga). Penso ser uma boa oportunidade para confirmarmos a qualidade do bicho.
Assim proponho:
Data:                     21/12        
Local:                    Cedrim
Restaurante:        Cortiço        
Confirmação de presença: até 16/12
Hora e local de partida: a combinar

Logicamente, o almoço é extensivo a familiares, se assim o desejarem.

Para os aderentes, até um dia destes.
Para os ausentes, um Santo e Feliz Natal. 

Isidro Almeida


QUE HÁ DE NOVO PARA ESTE NATAL?Frei B. Domingues, O.P.


1. No solstício de inverno – o momento preciso em que a duração do dia ultrapassa a duração da noite – os antigos romanos celebravam o Sol invictus, quer dizer, a vitória do deus Sol sobre a noite e sobre a morte. A Igreja de Roma resolveu designar essa data como a do nascimento de Jesus, o verdadeiro sol da vida: foi Ele que enfrentou a morte e a venceu! Como vimos na crónica do Domingo passado, o Natal tornou-se a cristianização inculturada de uma festa gentia.

 Em regime de Cristandade, passou a ser uma celebração de cristãos para cristãos. Hoje, evoca uma bela festa de família, mesmo quando esta instituição está a passar por crises de vária ordem. No entanto, o centro da prática e da mensagem de Jesus consiste em procurar fazer família com quem não é da família biológica. Só nessa dimensão o Natal se pode tornar cristão.

Jesus, o Nazareno, teve uma intervenção na história humana, a partir de Israel com poucas saídas ao estrangeiro, embora muito significativas da sua mensagem universalista. Como diz o filósofo, André Comte-Sponville, os melhores especialistas discutem, desde há muito tempo e ainda hoje, acerca da historicidade de Jesus, mas ele não aceita que o tratem como uma personagem mitológica: «gosto de pensar que um homem, de há dois mil anos, tenha manifestado – não só por palavras, mas pelos seus actos – o essencial, que não é nem a força nem a riqueza, mas o amor, a justiça e o cuidado com os mais frágeis»[1].  

Muito se tem escrito sobre Jesus como judeu marginal e como judeu central. Nem judeus nem muçulmanos o podem esquecer, seja qual for a história das relações entre cristãos, judeus e muçulmanos.

Alguns judeus têm estudado, com rigor e simpatia, a figura de Jesus[2]. É também uma figura muçulmana importante[3]. Como é evidente, no seio do cristianismo, continua não apenas a ser investigado e interpretado, mas sobretudo a manter com Ele uma relação viva e actual. Na crónica do Domingo passado, deixei algumas indicações bibliográficas. Alguns leitores pediram-me que apresentasse, também, livros de fácil acesso em Portugal[4].

Na figura de Jesus de Nazaré, surgiu uma relação com Deus e com os seres humanos, que não faz de Deus reserva privada de nenhum povo e não propõe um caminho humano que exclua qualquer pessoa, de qualquer etnia, de qualquer religião ou sem religião. O amor incondicional a todos e a recusa da exclusão, seja de quem for, é a sua marca. Fica para sempre o seu exemplo: evitar o mal que estraga a vida e dedicar-se às pessoas, sobretudo às mais abandonadas.

Este Jesus não escreveu nada. Os textos do Novo Testamento sem Ele seriam acerca de nada. É verdade que são textos de retrospectiva, elaborados alguns muito perto dos acontecimentos, como os de S. Paulo, e outros de segundas e terceiras gerações de cristãos. Quando dizemos Evangelho segundo S. Mateus, S. Lucas, S. Marcos e S. João, não significa que tenham sido estas personalidades que os escreveram. Foi importantíssimo que se tenha resistido a não eliminar as diferenças entre eles para fazer o evangelho único. Os cristãos têm, desde a origem, uma imagem multifacetada de Jesus Cristo. Hoje ainda, há preferências legítimas por alguns textos sem exclusão dos outros. É um Jesus Cristo plural no pluralismo que se deve viver na Igreja e na sociedade.

2. Bergoglio escolheu para o seu pontificado – arte de fazer pontes – a figura de S. Francisco de Assis, o amante da natureza, o aberto a todos, a começar pelos mais pobres, e a querer conversar com dirigentes muçulmanos. É a figura da paz, do perdão irrestrito e da reconciliação ecológica.

Esta escolha podia ser, apenas, um gesto simpático para anunciar um desígnio que as circunstâncias da vida fariam esquecer. Nada disso. Tornou-se cada vez mais evidente que essa escolha do nome era a própria marca da maneira de ser que gostava de incarnar.

Tinha pela frente questões muito vivas e agudas que levaram o Papa anterior a demitir-se. Antes de mais, era preciso levar a sério a reforma da cúria e da gestão do banco do Vaticano. Os escândalos multiplicaram-se. A pedofilia de padres, bispos e cardeais lançou, em muitos países, o descrédito em relação aos líderes da pastoral da Igreja. Esta era a exigência de uma reforma ad intra. A relação da Igreja tem a ver, essencialmente, com a sociedade em que está inserida, como o tinha afirmado o Vaticano II, na Gaudium et Spes, a Igreja no mundo contemporâneo, em mudanças vertiginosas. Nesta relação, ela não pode alimentar qualquer sonho de dominação. Pertence-lhe escolher os modos de servir e de levar as lideranças mundiais a pensar e a agir em termos de serviço.

Pela sua forma de actuar, o Papa Francisco mostrou uma relação nova da Igreja com a sociedade a partir dos mais abandonados e castigados por uma economia que mata. A Igreja só pode existir como um hospital de campanha, em saída para todo o género de periferias.

Criou, deste modo, um estilo que se tornou contagiante para alterar o diálogo inter-religioso que, muitas vezes, se alimenta de conversas inconsequentes, ou melhor dito, que não levam a nada. Pelo seu exemplo, os encontros com as outras Igrejas cristãs e com as outras confissões religiosas nunca deram a imagem de que estava, apenas, a cumprir exigências de boa diplomacia. Nesses contactos, ele mudou e os outros também.

3. Este Natal recolhe frutos de uma caminhada, de poucos anos, mas que parecem séculos. Dou apenas um exemplo: o Papa Francisco e o Grão Imame de Al Azhar, Ahmad Al-Tayyeb, uma figura com grande influência no mundo muçulmano sunita, propuseram à ONU uma data para celebrar o Dia da Fraternidade Humana e participar na organização de um Encontro Mundial sobre a mesma. Isto segue a um grande trabalho de casa. Estas duas personalidades ao serviço da reconciliação entre povos e religiões tinham assinado, em Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos), a 4 de Fevereiro de 2019, o notável Documento sobre a Fraternidade Humana pela Paz Mundial e a Convivência Comum. 

Jesus de Nazaré não nasceu apenas de um povo. Nasceu de toda a humanidade, como diz S. Lucas, e para que os povos não esqueçam que têm, todos, de construir uma grande família.



15. 12. 2019



[1] Cf. Le Monde des Religions (Novembre-Décembre 2016), p.55
[2] Daniel Boyarin, The Jewish Gospel. The Story of the Jewish Christ (existe tradução para francês com o título: Le Christ Juif. À la recherché des origins, Cerf, Paris, 2013.
[3] Tarif Khalidi, Jesus Muçulmano. Máximas e Histórias da Literatura Islâmica, Tágide, Lisboa, 2002.
[4] Anselmo Borges (Coord.), Quem foi Quem é Jesus Cristo?, Gradiva, 2012; Joseph Doré, Jesus explicado a todos, Paulinas, 2017

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

A DATA INCERTA DE UMA FESTA ADMIRÁVEL Frei Bento Domingues, O.P.


1. Por mais paradoxal que isso possa parecer, no Evangelho de S. Marcos, considerado o mais antigo dos quatro Evangelhos, não há Natal! Por opção, começo pelo desfecho abrupto deste «livro de intenso encanto literário e um dos mais arrebatadores que alguma vez foi escrito». Desfecho tão abrupto que o seu tradutor, Frederico Lourenço, pergunta: é concebível que um livro em língua grega possa terminar com a palavra ”pois”? Mas é um facto. Vou transcrever esta tradução de ritmo grego em português.

 Conta S. Marcos que, «passado o sábado, Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e Salomé compraram perfumes para irem embalsamá-lo. E muito cedo de manhã, no primeiro dia da semana, elas vão ao sepulcro tendo já nascido o sol. E diziam entre si: Quem rolará para nós a pedra da entrada do sepulcro? E tendo olhado à sua volta, vêem que a pedra tinha sido rolada para o lado; e era muito grande. E entrando elas no sepulcro, viram um jovem sentado à direita, vestido com uma túnica branca, e ficaram apavoradas. Ele diz-lhes: é Jesus, o Nazareno que procurais, o crucificado? Ressuscitou. Não está aqui. Vede o lugar onde o depuseram. Mas ide e dizei aos seus discípulos e a Pedro: Ele vai à vossa frente a caminho da Galileia; lá o vereis, tal como ele vos disse. E elas, saindo, fugiram, pois domina-as um tremor e um êxtase. E nada disseram a ninguém: tinham medo, pois»[1].

Este texto concentra algo que pode ser historicamente testado e algo que só pode ser interpretado como uma gloriosa confissão de fé: a vida de alguém que foi truncada pela morte mais cruel, mas não aniquilada. Aquela que parecia a última palavra é, afinal, a primeira de um começo novo: o crucificado está mais vivo do que nunca! São as mulheres as encarregadas de dar essa notícia, de última hora, aos discípulos. Estes, decepcionados com a crucifixão da velha esperança messiânica que os seduziu e enganou, tinham caído em depressão.

      O sábado já é passado. O primeiro dia da semana é o Domingo, o primeiro da mobilidade ilimitada do Espirito de Deus, invisivelmente presente a tudo e a todos, em liberdade, propondo um natal inédito a quem se sentir seduzido por esse caminho: nascer de novo, renunciando a velhas e novas ilusões de desejos loucos que sacrificam o futuro de todos no altar egoísta do presente. É um movimento espiritual sem relíquias do fundador e sem lugares privilegiados de encontro com o novo sentido da caminhada humana na história dos povos.

       Na vida terrena e limitada do Nazareno, manifestou-se uma tal forma de Deus ser Deus e do ser humano se tornar verdadeiramente humano, que os maravilhosos e indispensáveis textos do Novo Testamento (NT) confessam que o seu autêntico sentido só se realiza, quando suscita inéditas formas de transfigurar a vida dos que se julgam os esquecidos da terra e do céu.

     2. Depois do velho messianismo ter sido trucidado na crucifixão do Nazareno, acabaram os receios em confessar que Jesus é Cristo. Paulo sublinha que ninguém pode pôr um alicerce diferente do que já foi posto: Jesus Cristo[2]. Daí resultou que, por volta do ano 44, em Antioquia, pela primeira vez, os discípulos receberam o nome de cristãos[3].

Desde os finais do século XIX e durante várias etapas do século XX, tornou-se habitual distinguir o Jesus da história e o Cristo da fé. Não é que haja dois, mas duas abordagens: a que segue as exigências do método da exegese histórico-crítica e a das exigências da interpretação teológica, cristológica. São numerosas as obras sérias que estudam esta problemática[4].

As fontes principais para essa dupla perspectiva são as narrativas dos Evangelhos e os escritos de S. Paulo. Esquecemos que a devoção popular alimentou-se, ao longo dos tempos, também dos chamados Evangelhos Apócrifos[5].

Por volta do ano 200, estava praticamente formado o cânone actual do NT, embora ainda com algumas vacilações. No entanto, o Evangelho de S. João afirma: «muitas outras coisas fez Jesus que não estão escritas neste livro. Se fossem escritas uma por uma, penso que os livros sobre elas não caberiam no mundo»[6].

A curiosidade popular queria saber, precisamente, o que não vinha escrito nos Evangelhos canónicos. Supõe-se que surgiram várias tradições orais sobre Jesus que não tiveram a sorte de serem reconhecidas e aceites pelo comum dos crentes. A verdade é que os escritos, que pretendiam dizer o que não vinha nos textos do NT – os chamados Evangelhos Apócrifos –, nasceram demasiado tarde, pelos finais do século II até ao século IV e ainda depois[7].

3. Celebramos o nascimento de Jesus a 25 de Dezembro. Qual é o fundamento desta data? Nenhum. Também aqui, importa continuar com a distinção entre a contagem histórica e a estratégia de levar os cristãos a não alinhar com as celebrações de cultos gentios, por exemplo, do sol invencível, imposto pelo imperador Aureliano, a 25 de Dezembro de 274. Nessa altura, a Igreja de Roma tomou a decisão de designar essa data como a do nascimento de Jesus, pois é Ele, e não Mitra, o verdadeiro sol da vida. Como era algo incerta a história do nascimento de Jesus, esta substituição parecia a mais indicada para os cristãos não se sentirem atraídos por aquilo que os trairia.

Antonio Piñero fez uma exposição cuidadosa, tanto acerca do dia do nascimento de Jesus como acerca do lugar em que nasceu. Concluiu que nem o dia nem o lugar têm base histórica suficiente[8]. São opções legítimas de inculturação da fé em Jesus, o Cristo da nossa alegria.

O nascimento de Jesus não pode ser um mito. Se teve a actuação que teve e o desenlace que lhe impuseram, tinha de ter nascido. Por outro lado, a fé das comunidades cristãs de que Ele continuava vivo e actuante tinha de se manifestar, segundo as novas circunstâncias de tempo e lugar. As chamadas narrativas da sua infância, diferentes em Mateus e Lucas, são magníficas criações de teologia literária. Isso fica para próxima crónica, assim como a carta do Papa Francisco sobre o Presépio.



15. 12. 2019



[1] Mc 16,1-8
[2] 1Cor 3, 11
[3] Actos 11, 25-26
[4] Cf. John P. Meier, Um Judeu Marginal. Repensando o Jesus Histórico, Imago, Rio de Janeiro, 1992; E.P. Sanders, A verdadeira história de Jesus, Editorial Notícias, 2004; Antonio Piñero, Jesus. A vida oculta, Esquilo, Lisboa 2007; Aproximación al Jesús histórico, Trotta, Madrid, 2019; José Antonio Pagola, Jesus. Uma abordagem histórica, Gráfica de Coimbra 2, 2008 (com bibliografia classificada).
[5] QUÉRÉ, France (introdução). Evangelhos apócrifos. Lisboa: Editorial Estampa, 1991. É uma literatura que foi descoberta casualmente, em 1945, na chamada biblioteca Nag Hammadi (Egipto), além dos Manuscritos do Mar Morto descobertos no deserto da Judeia, entre 1947 e 1956.
[6] Jo 21, 25
[7] Cf. nota 5
[8] Antonio Piñero, Jesus. A vida oculta, Esquilo, Lisboa 2007, pp. 15-21

sábado, 7 de dezembro de 2019

Uma Embaixada pela Verdade do Ser- Portal SJ-M. Lopes

Nos últimos dias de um Novembro opressivo, com seus persistentes céus de chumbo e chuvas implacáveis, duas denúncias surgidas na imprensa lembraram, quais relâmpagos de lucidez, a realidade bem mais deprimente, alarmante até, da intolerância humana.
Num recente encontro com os media estrangeiros, mencionado pelo jornal El Mundo, Michel Aupetit, Arcebispo de Paris, a propósito da posição da Igreja Católica no debate sobre a nova e muito polémica legislação bioética francesa, assinalou: “Na França, a palavra não é tão livre quanto se diz. Se alguém pensa diferente, é rotulado como reacionário, homofóbico, etc. Não é que eles nos impeçam de falar, mas desacreditar o nosso discurso rejeitando o diálogo inteligente é censura.” Poucos dias depois, no Observador, o colunista Gabriel Mithà Ribeiro, reflectindo sobre a ostracização da direita no espaço mediático, sublinhou que “do rol de milagres da esquerda faz parte a transformação das democracias em disseminadoras da censura à liberdade de pensar, dizer, escrever, publicar, votar, decidir, criticar.” Na linha das declarações de Michel Aupetit, o colunista afirma que esta censura – palavra que os visados, orwelianamente convictos da sua superioridade, acham dever ser aplicada apenas à direita – constitui, de facto, “o banimento do espaço público da dignidade de determinadas sensibilidades sociais.”
Os sinais são inescapáveis há muito e auguram níveis cada vez mais profundos de perversão da liberdade, implementados por minorias ululantes, que tratam de se impor às maiorias tímidas, porque demasiado tolerantes e ocupadas. É que não se trata “apenas” de impedir actos públicos que envolvam figuras do outro lado do espectro ideológico, como ocorreu recentemente com Jaime Nogueira Pinto, deixando a impressão – surreal num país que há poucas décadas fez uma revolução pelas “amplas liberdades” – de que se quer impedir liminarmente a existência de contraditório. Ou, na mesma linha, do ataque cerrado aos partidos de direita, e sobretudo ao Chega, apontado nos media como extremista e perigoso, enquanto a extrema esquerda associada ao poder – e que parece preferir a palavra “radical”, por ser mais vegetariana – é vista como cool e “fofinha”. Bem mais perigoso é que se proceda à imposição de um pensamento único, à censura da realidade, presente e passada, e ao revisionismo histórico. Com efeito, quem não concordar com a agenda woke, plena de medidas legislativas fracturantes, de que a mais recente é a eutanásia, é visto como um obscurantista perigoso e remetido à posição de pária.
O ataque furioso ao estudo de Maria de Fátima Bonifácio e à “ousadia” de pôr em paralelo os horrores que os extremismos, de esquerda e direita, causaram durante o século XX revela outro nível preocupante: a anexação da ciência. Sociologia e História só interessam se as suas análises baterem certo com as ideias “certas”; tudo o que, no presente, as contradisser, deve ser escondido; a análise do passado é feita retroactivamente, sem qualquer receio de anacronismos ridículos; tudo o que nele estiver contra o ponto de vista politicamente correcto deve desaparecer dos estudos históricos; como portugueses devemos, obviamente, pedir desculpa por existirmos. Pior ainda, toda esta wokeness e consequentes interpretações da realidade vão sendo introduzidas no âmbito escolar, de modo a formatar o pensamento das gerações futuras.

Contudo, nihil novi sub sole: esta deriva censória e esta adoração de ídolos com pés de barro não são novas; tal como se repete a submissão, mais ou menos imposta ou tácita, à opinião dominante. De novo, o passado fornece ao presente lições inestimáveis, que reiteradamente se torna essencial recordar.

Perante isto, os media, na sua generalidade, optaram pela perspectiva politicamente correcta, e dirigem os seus ataques invariavelmente aos mesmos, com laivos de hipocrisia. Dominados por uma ignorância tão profunda como pouco ética, claramente “não sabem o que fazem”.  Quem os lê fica a pensar que só na Igreja Católica ocorrem certos crimes, e todas as outras instituições são virtuosas, mesmo que testemunhos em contrário apareçam. Quando o escândalo atinge os ídolos da wokeness, optam por esconder as denúncias ou, pelo menos, reduzi-las à quase invisibilidade: Clinton não pode ser abusador, pelo que as mulheres que assediou são catalogadas pelas feministas que o protegem como sendo culpadas; Trudeau não pode ser racista, pelo que as suas múltiplas blackfaces têm de ser remetidas para debaixo do tapete. Donald Trump, alvo por demais fácil, mas também um símbolo dos males da América profunda, tornou-se no Bei de Túnis universal, excelente distração para as caravanas passarem.
Contudo, nihil novi sub sole: esta deriva censória e esta adoração de ídolos com pés de barro não são novas; tal como se repete a submissão, mais ou menos imposta ou tácita, à opinião dominante. De novo, o passado fornece ao presente lições inestimáveis, que reiteradamente se torna essencial recordar.
Há exactamente sessenta anos (de 8 a 12/07/1959), num congresso realizado no castelo de Lourmarin, junto a Aix-en-Provence, Agustina Bessa Luís juntou-se a um grupo de intelectuais e escritores europeus para debater o papel destas elites supostamente sábias na sociedade europeia do pós-guerra. Julián Marías, que compunha a delegação espanhola com  Pedro Laín Entralgo e Camilo José Cela, relatou pouco depois que “a los diez minutos se estaba ya en lo más vivo de los más vivos problemas – la condición de intelectual, su posible coincidencia con el escritor o sus diferencias, su relación con el público y con los Poderes, la censura y su realidad; y, naturalmente, empezábamos a conocernos de prisa.” Com efeito, mal abriu a boca, Agustina sentiu-se ostracizada, juntamente com os seus colegas espanhóis, por outros intelectuais europeus – de tendência comunista … – que achavam que só as suas ideias estavam certas. Alguns deles negavam mesmo o cumprimento  – o ponto limite da desumanização do Outro. Que intelectuais são estes que recusam a humanidade dos desconhecidos e dos que não partilhavam das suas ideias?
Motivada pela longa viagem de carro através de uma Europa pontuada pela herança de Roma, Agustina vê em alguns deles a imagem de um César, com toda a inerente simbologia de poder e carisma; e o seu próprio isolamento humilhante remeteu-a para a experiência de Fílon de Alexandria, o intelectual e religioso judeu que deixou o sossego exemplar do seu retiro para defender a dignidade do seu povo perante um César de carne e osso, o problemático Caio Calígula. Nasceu assim, para Agustina, o livro Embaixada a Calígula, replicando de algum modo a Legatio ad Gaium do sábio judeu.
A embaixada histórica de Fílon teve motivos graves e imediatos: as perseguições e massacres a que a colónia judaica de Alexandria estava a ser submetida desde o ano 38, no contexto do aproveitamento político do desejo de divinização de Calígula. Este ordenara a colocação de uma estátua sua em todos os templos, sinagogas incluídas, o que constituía um acto sacrílego para o judaísmo. Quando a delegação presidida por Fílon foi recebida pelo imperador, já era pública a intenção de colocar uma estátua no templo de Jerusalém, sacra sacrorum do povo judeu. Porém, o que estava em causa – e um intelectual dedicado à verdade profunda da sua gente, como Fílon, procurava alcançar, mesmo pondo a vida em risco – era muito mais do que obviar a um sacrilégio: importava, acima de tudo, “preservar o carácter de um povo e fazer com que ele resistisse a si mesmo”. Fílon sabia que as estátuas de Calígula poderiam acabar por ser aceites, em troca de uma segurança aparente, o que significava a rendição do ser profundo do seu povo a interesses transitórios. Era essencial olhar mais longe e mais fundo: “presta atenção a ti mesmo”, repete ele.

Mas também necessitamos de líderes. Onde estão os intelectuais cuja vida irrepreensível se equipara ao seu esforço de descobrir e divulgar o que realmente faz de nós humanos, cristãos e portugueses, e à sua coragem de arrostar com as dificuldades do espaço público? Quem será o nosso Fílon?

A embaixada foi um risco contínuo e uma desconsideração constante: sucessivos adiamentos culminaram numa audiência na primavera de 40 d.C, onde Fílon, sozinho, defrontou um Calígula que vistoriava obras, lhe fez perguntas humilhantes, e, em vez de o ouvir responder, lhe virou as costas. O César não cumpriu os seus deveres de hospitalidade e obrigações de governante: desrespeitou a dignidade humana dos seus súbditos judeus, deixando Fílon à mercê dos gracejos ululantes das delegações adversárias e dos cortesãos que intuíam estarem assim a afagar o ego do cruel e caprichoso imperador. A morte violenta de Calígula, ocorrida menos de um ano depois, solucionou o problema, mas Fílon persistiu na sua posição de explorar a identidade profunda do seu povo e registá-la para memória futura.
Rodeados de Calígulas disfarçados sob a máscara de políticos, intelectuais ou celebridades; constantemente invadidos por estátuas fracturantes – o que fazer, então, perante “o banimento do espaço público da dignidade de determinadas sensibilidades sociais.”? À semelhança de Fílon e Agustina, persistir na fidelidade à nossa identidade, individual e histórica, apesar de todas as dificuldades de um presente em que as redes sociais e os media parecem replicar os cortesãos sabujos e imorais de Calígula. Mas também necessitamos de líderes. Onde estão os intelectuais cuja vida irrepreensível se equipara ao seu esforço de descobrir e divulgar o que realmente faz de nós humanos, cristãos e portugueses, e à sua coragem de arrostar com as dificuldades do espaço público? Quem será o nosso Fílon?