sábado, 6 de junho de 2026

Somos livres? - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

Somos livres?

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia

Esta é a pergunta decisiva. De facto, se

não somos livres, o que se chama dignidade

humana pode ser uma convenção, mas não

tem fundamento real.

Mas quem nunca foi assaltado pela

pergunta: a minha vida teria podido ser

diferente? Para sabê-lo cientificamente, seria

preciso o que não é possível: repetir a vida

exactamente nas mesmas circunstâncias. Só

assim se verificaria se as “escolhas” se

repetiam nos mesmos termos ou não.

2

Não há dúvida de que a liberdade

humana é condicionada. Mas ela existe ou é

uma ilusão? Não vêm agora neurocientistas

dizer que, mediante dados da tomografia de

emissão de positrões e da ressonância

magnética nuclear funcional, se mostra que

afinal as nossas decisões são dirigidas por

processos neuronais inconscientes?

De qualquer modo, em 2004, destacados

neurocientistas também tornaram público

um “Manifesto sobre o presente e o futuro

da investigação do cérebro” – cito Hans

Küng, no seu Der Anfang aller Dinge (O

princípio de todas as coisas) --, revelando-se

prudentes no que toca às “grandes

perguntas”: “Como surgem a consciência e

a vivência do eu? Como se entrelaçam a

acção racional e a acção emocional? Que

valor se deve conceder à ideia de ‘livre

arbítrio’? Colocar já hoje as grandes

perguntas das neurociências é legítimo, mas

3

pensar que terão resposta nos próximos dez

anos é muito pouco realista.” É preciso

continuar as investigações, no sentido de

perceber o nexo entre a mente e o cérebro.

“Mas nenhum progresso terminará num

triunfo do reducionismo neuronal. Mesmo

que alguma vez chegássemos a explicar a

totalidade dos processos neuronais

subjacentes à simpatia que o ser humano

pode sentir pelos seus congéneres, ao seu

enamoramento e à sua responsabilidade

moral, a autonomia da ‘perspectiva interna’

permaneceria intacta. Pois também uma

fuga de Bach não perde nada do seu

fascínio, quando se compreende com

exactidão como está construída.”

A liberdade não é desvinculável da

experiência subjectiva, da “perspectiva

interna”. Essa experiência é transcendental,

no sentido de que se afirma até na sua

negação. De facto, se tudo se movesse no

4

quadro do determinismo total, como

surgiria o debate sobre a liberdade?

Essa experiência coloca-se concretamente

no campo da moral e da responsabilidade.

Neste contexto, há um célebre exercício

mental de Kant na Crítica da Razão Prática,

que é elucidativo e obriga a pensar.

Suponhamos que alguém, sob pena de

morte imediata, se vê confrontado com a

ordem de levantar um falso testemunho

contra uma pessoa que sabe ser inocente.

Nessas circunstâncias e por muito grande

que seja o seu amor à vida, pensará que é

possível resistir. “Talvez não se atreva a

assegurar que assim faria, no caso de isso

realmente acontecer; mas não terá outro

remédio senão aceitar sem hesitações que

tem essa possibilidade.” Existem as duas

possibilidades: resistir ou não. “Julga,

portanto, que é capaz de fazer algo, pois é

consciente de que deve moralmente fazê-lo

5

e, desse modo, descobre em si a liberdade

que, sem a lei moral, lhe teria passado

despercebida.”

O que confunde frequentemente o debate

é a falta de esclarecimento quanto ao que é

realmente a liberdade. Ela é a não

submissão à necessidade coactiva, externa e

interna, mas não pode, por outro lado, ser

confundida com a arbitrariedade e a pura

espontaneidade – não implica a

espontaneidade a necessidade?

A liberdade radica na experiência

originária do Homem como dom para si

mesmo. Paradoxalmente, é na abertura a

tudo, portanto, no horizonte da totalidade

do ser, que ele vem a si mesmo como eu

único e senhor de si. Então, agir livremente

é a capacidade de erguer-se acima dos

próprios interesses, para pôr-se no lugar do

outro e agir racionalmente.

6

É preciso distinguir entre causas e

razões. Quando se age sob uma causalidade

constringente, não há liberdade. Ser livre é

propor-se ideais, deliberar e agir segundo

razões e argumentos, impondo limites aos

impulsos, inclinações e desejos, o que

mostra que o ser humano pode ser senhor

dos seus actos e, assim, responsável, isto é,

pode e deve responder por eles e por si.

Sábado, 6 de Junho de 2026

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Man hu? O que é isto? - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Man hu? O que é isto?

Ano A – Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
João 6,51-58: “Eu sou o pão vivo, descido do céu”

Sessenta dias depois da Páscoa, na quinta-feira seguinte à solenidade da Santíssima Trindade, a Igreja celebra a solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo — segundo o Missal de Paulo VI — chamada também festa do Corpus Christi, segundo o uso tradicional. Trata-se de uma das três quintas-feiras mais solenes do ano litúrgico: a Quinta-feira Santa, a quinta-feira da Ascensão e a quinta-feira do Corpus Christi. Por razões pastorais, em muitos países esta solenidade é transferida para o domingo seguinte à Santíssima Trindade. Embora o tempo pascal já tenha terminado, esta referência cronológica estabelece uma ligação profunda entre a festa do Corpus Christi, a Páscoa e a solenidade da Santíssima Trindade.

As origens desta festividade remontam ao século XIII. Nascida no contexto da piedade eucarística que se desenvolveu na Bélgica, em particular graças ao impulso de santa Juliana de Cornillon, foi estendida a toda a Igreja pelo papa Urbano IV em 1264. Neste caminho teve também grande importância o milagre eucarístico de Bolsena, ocorrido no ano anterior. Com estes sinais, o Senhor quis consolidar a fé da Igreja na sua presença real no sacramento da santa Eucaristia, precisamente em tempos em que alguns a punham em dúvida.

Os milagres eucarísticos são numerosos, muitos dos quais documentados ao longo dos séculos. São Carlo Acutis, adolescente falecido aos 15 anos (1991-2006), foi um entusiasta divulgador deles. Grande amante da Eucaristia, chamava-a “a autoestrada para o céu”.

1. “Recorda-te… Não te esqueças!”

A primeira palavra que ressoa aos nossos ouvidos nas leituras de hoje é: Recorda-te. “Recorda-te de todo o caminho que o Senhor, teu Deus, te fez percorrer durante estes quarenta anos no deserto” (Dt 8,2). É um convite extremamente oportuno e urgente para nós, mulheres e homens de uma geração muitas vezes inclinada a esquecer o passado, alienada no presente, desenraizada da história e, consequentemente, pouco atenta a um futuro que não tenha uma repercussão imediata.

Esta tendência cultural corre o risco de minar também a identidade cristã. Disse Nelson Mandela: “A memória é o tecido da identidade”. Um cristão, e uma comunidade cristã, que não cultivam a memória de Deus e das suas obras correm o risco de perder a própria identidade. Se o povo de Israel não fizesse memória do Deus libertador, seria tentado a voltar ao “Egito” e a recair numa nova escravidão. Eis por que Moisés, no Deuteronómio, insiste tanto no binómio escutar/recordar (cf. Dt 6,4-10.12; 8,2.14.18).

A Eucaristia é o nosso memorial por excelência: “Fazei isto em memória de mim. Todas as vezes, de facto, que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha” (cf. 1Cor 11,23-26). Diante de uma comunidade que celebra a Eucaristia sem que a memória aqueça o coração, há que perguntar se não terá “abandonado o seu primeiro amor” (Ap 2,4). Presos no presente, perde-se então o impulso para a espera do Senhor que vem. A invocação do Espírito e da esposa — “Vem!” — já não aflora aos nossos lábios (Ap 22,17). A esperança enfraquece e perde-se o sentido da vida cristã.

2. Um só pão, um só corpo

A segunda leitura sublinha a ligação profunda entre a Eucaristia, a Igreja e a comunidade: “Porque há um só pão, nós, embora muitos, somos um só corpo” (1Cor 10,16-17). A dimensão comunitária da Eucaristia foi particularmente evidenciada depois do Concílio Vaticano II: “Não é possível que se forme uma comunidade cristã se não [...] tendo como raiz e eixo a celebração da sagrada Eucaristia” (Presbyterorum Ordinis, 6).

Não sei até que ponto esta consciência foi assimilada pelas nossas assembleias litúrgicas, se olharmos apenas para a dispersão física dos fiéis nas nossas igrejas. Tem-se, por vezes, a impressão de que a Eucaristia ainda é, para alguns de nós, um “assunto individual”, uma espécie de “bem de consumo” espiritual.

Desde 13 de outubro de 2020, por causa da doença, não posso receber diretamente a comunhão no Corpo e no Sangue de Cristo. Celebrar todos os dias a santa Missa com os meus confrades levou-me a refletir mais profundamente sobre a dimensão comunitária da Eucaristia: um só Pão e um só Corpo. Este Corpo é a Igreja, é a comunidade. Cristo dá-se a todo o Corpo. Os meus confrades são o corpo a que pertenço e que, também por mim, comunga do Corpo de Cristo. Isto vale para mim como para todos os cristãos que celebram a Eucaristia.

3. Maná, man hu? O que é isto?

O maná que alimentou o povo de Israel no deserto é figura da Eucaristia, o Pão essencial para a nossa sobrevivência. Tradicionalmente considera-se que o termo maná provém da pergunta man hu?, isto é: “O que é isto?”, que os israelitas se fizeram, cheios de espanto, ao vê-lo descer do céu.

Pois bem, Jesus diz-nos hoje: “Este é o pão descido do céu” (Jo 6,58). Ele é o verdadeiro maná. Os judeus que o escutavam ficaram escandalizados. Nós não — talvez, infelizmente! Damos tudo isto por adquirido. Mas até que ponto o levamos a sério?

Os olhos do corpo veem um pequeno e frágil pedaço de pão. Mas os olhos do coração, os olhos da fé, o que veem? É realmente necessário que nos interroguemos sobre isso. Não podemos subestimar a influência de uma mentalidade secularizada, muitas vezes alérgica à dimensão do mistério, nem a de uma visão redutora da Eucaristia, que corre o risco de obscurecer a sua presença real.

Que o Senhor abra os nossos olhos, como fez com os dois discípulos de Emaús, para que possamos reconhecê-lo no partir do Pão.

Exercício espiritual para a semana

  1. Antes de comungar, olha com espanto e maravilha para o Pão colocado na tua mão e pergunta-te: Man hu? O que é isto? E o Senhor te responderá: É o meu Corpo!
  2. Medita sobre estas perguntas provocadoras do papa Francisco:

“Se olharmos à nossa volta, percebemos que há tantas ofertas de alimento que não vêm do Senhor e que, aparentemente, satisfazem mais... Cada um de nós, hoje, pode perguntar-se: e eu? Onde quero comer? A que mesa quero alimentar-me? À mesa do Senhor? Ou sonho comer comidas saborosas, mas na escravidão? Além disso, cada um de nós pode perguntar-se: qual é a minha memória? A do Senhor que me salva ou a do alho e das cebolas da escravidão? Com que memória sacio eu a minha alma?” (19 de junho de 2014).

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

terça-feira, 2 de junho de 2026

O Homem: criado à imagem de Deus?- Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 O Homem:

criado à imagem de Deus?



Parece estender-se cada vez mais a

tentação de pensar que o Homem é um

animal entre outros. Se diferença houvesse,

não seria essencial e qualitativa, apenas de

grau.

Mas quem anda atento reconhecerá com

certeza que a diferença entre o Homem e os

outros animais não é apenas de grau, mas

essencial e qualitativa. Pelo menos, é

preciso manter a pergunta.

Também o Homem é corpo, mas um

corpo que fala e que diz eu. Ora, um corpo

2

que produz sons duplamente articulados,

portanto, transportando sentido, é um

corpo que transcende a animalidade.

Que o ser humano não fica submerso na

instintividade da vida prova-o o facto de,

por exemplo, ao contrário do animal, no

domínio da sexualidade, ser capaz de pesar

razões, abster-se, pensar no que é melhor

para si e para o parceiro, ter inventado o

erotismo e também a pornografia, procurar

técnicas anticonceptivas... O ser humano é

dado a si mesmo como um eu único, senhor

de si, em autoposse... Aí está a liberdade, a

moralidade e, consequentemente, a

responsabilidade: como diz a palavra,

responde por si e pelos seus actos...

O Homem é capaz de renunciar à

satisfação imediata dos seus impulsos: é “o

asceta da vida”, escreveu o filósofo Max

Scheler. Por isso, é capaz de jejuar, e ergueu,

por exemplo, um edifício jurídico-penal,

3

para evitar a vingança cega, dirimir

diferendos, não fazer justiça pelas próprias

mãos.

Quando vemos um animal sentado, de

olhos fechados, com a cabeça entre as mãos

ou encostada à mão direita, estamos em

presença de um ser humano que medita.

Está ensimesmado/a, entrou dentro de si

próprio/a, desceu à sua intimidade,

submerso/a na sua subjectividade pessoal.

O ser humano é consciente, mais:

autoconsciente, consciente de ser

consciente, autorreflexivo/a.

Não vivo longe de um aeroporto, e

reparo, quando passeio pela praia, como

cães da zona se põem a correr na areia, atrás

das sombras dos aviões que se apressam

para a pista. Cá está: o animal vive da

imediatidade dos instintos e o mundo para

ele é fundamentalmente um conjunto de

estímulos, que atraem ou repelem. O ser

4

humano, ao contrário, dada a sua

capacidade de distanciação, vive no real: é

um “animal de realidades”, repetia o

filósofo Xavier Zubiri.

O Homem “começou a ser Homem

intentando criar beleza”, escreveu o filósofo

Pedro Laín Entralgo. O ser humano não

vive amarrado e encerrado na satisfação das

suas necessidades vitais. Ele transcende o

simplesmente biológico, criando cultura. E

vive do gratuito: cria e contempla a beleza,

pois é o ser “criativamente possuído pelo

fascinante esplendor do inútil” (George

Steiner). Para sobreviver, não precisava de

investigar na mecânica quântica. O que

ganha no tempo dedicado aos mortos? No

entanto, o tempo que gastamos inutilmente

com os mortos!...

Os animais também comunicam. Mas

nunca um animal fez perguntas. O Homem

é o animal que pergunta. E perguntar

5

coloca-nos na perplexidade, pois implica ao

mesmo tempo saber e não saber. Se

perguntamos é porque não sabemos, mas

sobre aquilo de que nada sabemos não

perguntamos... Afinal, o que sabemos,

quando perguntamos? A pergunta nunca

acaba: de pergunta em pergunta vamos até

ao in-finito. No perguntar, o Homem revela

que é o ser do intervalo – entre o finito e o

Infinito – e que está ligado ao

Transcendente: perguntamos pelo

Fundamento e pelo Sentido último...

O Homem é um ser paradoxal. Somos

bípedes sanguinários, capazes de sadismo

feroz. Inventamos máquinas de guerra

brutal e instrumentos de tortura indizível.

Pilhamos, massacramos, somos de uma

ganância ilimitada, de uma vulgaridade

ridícula, de um materialismo rasteiro. No

entanto, como escreveu o agnóstico George

Steiner, “este mamífero desgraçado e

6

perigoso gerou três ocupações, vícios ou

jogos de uma dignidade completamente

transcendente. São eles a música, a

matemática e o pensamento especulativo

(no qual incluo a poesia, cuja melhor

definição será música do pensamento).

Radiantemente inúteis, estas três

actividades são exclusivas dos homens e

das mulheres e aproximam-se tanto quanto

algo se pode aproximar da intuição

metafórica de que fomos realmente criados

à imagem de Deus.”

É por isso que, apesar dos avanços das

ciências humanas, da genética, das

neurociências, da IA, que devem ser

promovidos, permanecerá, íntegra, talvez

até mais intensa, a pergunta: o que é o

Homem? Quanto mais potente se torna o

império tecnológico mais urgente e

imperiosa se torna a reflexão sobre a pessoa

humana, a sua dignidade, os seus direitos

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— universais, inalienáveis, invioláveis... —

e, consequentemente, também os seus

deveres, para consigo e a humanidade

inteira, e o planeta Terra, a casa comum...

Aí está a importância histórica da

primeira encíclica de Leão XIV, sobre a

inteligência artificial, justamente com o

título Magnifica Humanitas (Magnífica

humanidade). O Papa, já a concluir a sua

apresentação — foi a primeira vez que um

Papa apresentou uma encíclica sua —, no

passado dia 25: “Não temamos a IA, mas

mantenhamos sempre presente a questão

humana. Não podemos ser negligentes com

os nossos instrumentos técnicos mais

avançados”.

Sábado, 30 de Maio de 2026

sábado, 30 de maio de 2026

Tudo navega no Mar infinito do Amor! - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Tudo navega no Mar infinito do Amor!

Ano A – Solenidade da Santíssima Trindade
João 3,16-18: “Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigénito”

Celebramos hoje a Solenidade da Santíssima Trindade. É uma festa relativamente recente: foi introduzida no calendário litúrgico em 1334 pelo papa João XXII. O motivo principal era dar uma celebração solene ao mistério central da nossa fé: Deus uno e trino, Pai, Filho e Espírito Santo. A encarnação e a Trindade são os dois mistérios essenciais da fé cristã. Todos os cristãos, de facto, são batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

A colocação desta solenidade no domingo depois do Pentecostes não é casual. Ao longo dos noventa dias do tempo quaresmal e pascal, tendo no centro a Semana Santa da Paixão, morte e ressurreição de Jesus, fizemos a experiência da ação salvífica do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Neste domingo depois do Pentecostes contemplamos a ação amorosa das três Pessoas divinas na sua unidade e comunhão. “Esta festa é como um oásis de contemplação, depois da plenitude do Pentecostes” (dom Angelo Casati).

A todos é possível chegar à existência de Deus através da sua epifania na criação. A inteligência humana pode também chegar à unicidade de Deus, isto é, ao monoteísmo. À Trindade das Pessoas no único Deus, porém, guiou-nos a fé em Jesus, porque “a Deus, ninguém jamais o viu: o Filho unigénito é que no-lo revelou” (João 1,18). Não se trata, porém, de um conhecimento teórico ou puramente dogmático, que pouco ou nada serviria, mas de uma introdução à intimidade de Deus, de uma imersão no seu mistério imenso, surpreendente e fascinante.

Deus é amor

As leituras propostas pela liturgia, breves mas densas, ajudam-nos a aprofundar este mistério. Todas sublinham o amor de Deus. Na primeira leitura, o Senhor apresenta-se como “Deus misericordioso e compassivo, lento para a ira e rico em amor e fidelidade” (Êxodo 34). Na segunda, conclusão da segunda carta aos Coríntios, São Paulo, com palavras cheias de ternura, despede-se da comunidade dizendo: “Irmãos, vivei na alegria, tende à perfeição, encorajai-vos mutuamente, tende os mesmos sentimentos, vivei em paz, e o Deus do amor e da paz estará convosco” (2Coríntios 13,11-13). O Evangelho apresenta-nos uma das afirmações mais extraordinárias e revolucionárias de toda a Sagrada Escritura: “Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigénito, para que todo aquele que acredita nele não se perca, mas tenha a vida eterna”.

Na sua primeira carta, São João desenvolve esta verdade até afirmar: “Deus é amor” (1João 4,16). A Trindade é uma exigência do amor: Deus é amor, portanto é Trindade! Na meditação deste Mistério permanece insuperável a intuição de Santo Agostinho, que define o Pai como aquele que ama, o Filho como o amado e o Espírito Santo como o amor que os une.

Enquanto não acolhermos no coração esta novidade evangélica, corremos o risco de fazer de Deus um ídolo, construído à “nossa imagem e semelhança”: desde o deus juiz até às distorções mais perversas, como podemos ver em certos fundamentalismos. Mas não pretendamos conhecer Deus depressa demais. A Palavra apresenta-nos “o Deus desconhecido” aos atenienses, mas também a nós (Atos 17,23)!

Como perceber o amor de Deus? Como chegar àquilo que São Paulo deseja aos Efésios: “Que Cristo habite, pela fé, nos vossos corações e assim, enraizados e fundados na caridade, sejais capazes de compreender, com todos os santos, qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e de conhecer o amor de Cristo, que ultrapassa todo o conhecimento” (Efésios 3,17-19)?

Uma viagem do exterior para as profundezas

Hoje vivemos projetados para o mundo e para o universo, desejosos — justamente — de descobrir os mistérios do cosmos e da vida. Procuramos também conhecer o “cosmos” que trazemos dentro de nós: o que nos torna humanos, o que nos torna únicos, o que nos distingue da inteligência artificial... Poucos, todavia, parecem interessados em aprofundar o Mistério por excelência!

Os progressos espantosos das ciências, os nossos conhecimentos sobre a origem e a expansão do universo, sobre a evolução e sobre as leis que fizeram acender a centelha da vida, suscitam assombro e maravilha. Apesar de tudo, porém, o sentido do infinito e o significado profundo da vida parecem escapar-nos, inapreensíveis. Parecem remeter-nos sempre... para mais além! Nós próprios continuamos a ser um enigma para nós mesmos. Ao crente ocorre espontaneamente pensar: não será talvez que só o conhecimento de Deus e do seu Mistério nos pode oferecer a chave da existência?

Eis como fala dele o teólogo Paolo Scquizzato:
“Deus-Trindade, o Mistério insondável, quem sabe, talvez seja o Fundo do ser, a criatividade do Universo, a Beleza do belo, a Bondade do bem, a Vida dos viventes, a Informação do Cosmos, a Alma do mundo, a Consciência do Universo, a ternura dos amantes, o Fermento da matéria, o Amor que me pede, a cada instante, que me exprima plenamente e que apreenda a sacralidade de tudo o que existe”.

Uma mudança de direção: de dentro para fora

“O amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”, afirma São Paulo na carta aos Romanos (5,5). Falamos habitualmente de “seguir Jesus”, de ir atrás dele. É a perspetiva dos Evangelhos sinóticos: Marcos, Mateus e Lucas. Todavia, São João e sobretudo São Paulo preferem falar de Cristo e de Deus “em nós”: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gálatas 2,20). Cristo habita Paulo, anima-o, transforma-o.

Talvez não tenhamos aprofundado suficientemente esta dimensão. Não é preciso procurar Deus sabe-se lá onde, fora de nós. Ele está no íntimo de cada um, no núcleo mais profundo, lá onde recebemos o nosso ser do amor de Deus. Jesus vem ao nosso encontro “de dentro para fora”, diz o beato João de Ruusbroec, místico medieval. Nós estamos naturalmente voltados para o exterior; Ele, pelo contrário, está dentro. Esta maravilhosa realidade faz Santo Agostinho exclamar, com assombro: “Tu eras mais íntimo a mim do que eu mesmo e mais alto do que há em mim de mais alto”. Deus está escondido no nosso coração. Aí encontramos a fonte da dignidade da nossa humanidade.

Como concluir a nossa reflexão?

Os cristãos não são aqueles que creem simplesmente em Deus criador do céu e da terra, um Deus eterno e omnipotente. De um tal Deus poderíamos ter medo. Poderíamos respeitá-lo, mas não amá-lo. Poderíamos desconfiar dele e vê-lo como uma ameaça à nossa liberdade. Os cristãos, pelo contrário, definem-se assim: “Nós acreditámos no amor que Deus tem por nós” (1João 4,16). Um tal Deus podemos amá-lo. De um tal Deus podemos confiar e a Ele podemos abandonar-nos!

Proposta de oração para a semana:

Trindade eterna, és como um mar profundo, no qual quanto mais procuro, mais encontro; e quanto mais encontro, mais cresce a sede de Te procurar. Tu és insaciável; e a alma, saciando-se no teu abismo, não se sacia, porque permanece na fome de Ti, cada vez mais Te deseja, ó Trindade eterna, desejando ver-Te com a luz da tua luz.” (Santa Catarina de Sena)

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

p.mjoao@gmail.com

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Onde e quando é a vida eterna? - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

Onde e quando é

a vida eterna?

1

Lembro-me perfeitamente. Eu estava em

Tubinga, Alemanha, quando, pela manhã,

fui surpreendido por este título na primeira

página do jornal: “O Presidente visita o

Filósofo”.

François Mitterand fora falar com o

filósofo Jean Guitton a sua casa, para

perguntar-lhe o que é a morte. “Qual é a

última barreira?” “Senhor Presidente, é

muito simples. A última barreira é a morte”.

“Mas... e depois da morte?” “Depois da

morte é o que se chama o Além”. “Mas o

que é o Além?” Aí, o conhecido filósofo

2

católico, discípulo de Bergson, amigo de

Paulo VI, observador no Concílio Vaticano

II, respondeu que não sabia; precisamente

“porque é o Além”.

Outro grande filósofo do século XX,

Ernst Bloch, o filósofo ateu da esperança,

deixou escrito que “o cristianismo, na

concorrência com outros profetas da

imortalidade e da sobrevivência, venceu em

grande parte graças à proclamação de

Cristo: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida’. No

século primeiro depois do acontecimento do

Gólgota, a ressurreição foi referida ao

Gólgota de uma forma inteiramente pessoal,

de tal modo que pelo baptismo na morte de

Cristo se experiencia a ressurreição com ele.

Imperava então um desespero apaixonado,

que hoje nos parece incompreensível.” De

facto, hoje, face ao Além e à vida eterna, o

que parece estar em vigência é a

indiferença. Mas Bloch prevenia: “nada

3

impede que dentro de 50 ou 100 anos volte

essa neurose ou psicose de angústia da

morte, de tipo metafísico, com a pergunta

radical: para quê o esforço da nossa

existência, se morremos completamente,

vamos para a cova e, em última instância,

não nos resta nada?”

Outro filósofo marxista, B. Bosnjak,

contemporâneo de Bloch, também escreveu:

“Determinadas formas de religião podem

deixar de existir. Mas, como antítese da

morte, quer dizer, como aspiração de

eternidade, a religião pode sempre tornar a

renascer. De facto, encontramo-nos perante

o maior dos mistérios: não sabemos porque

é que existe alguma coisa em vez do nada”.

Já São Paulo tinha proclamado que, se

Cristo não ressuscitou, é vã a fé dos cristãos.

Mas, há relativamente poucos anos,

precisamente em tempos de Páscoa –

celebração da morte e da ressurreição de

4

Jesus – andaram os média alarmados por

causa de um filme de James Cameron, The

Lost Tomb of Jesus, com um documentário

sobre uma descoberta arqueológica de 1980

em Jerusalém: dez ossários, seis dos quais

com nomes decisivos do Novo Testamento

e supostamente ligados à família de Jesus:

Jesus, filho de José; Maria; José; Mariamme

(Maria Madalena?); Judas, filho de Jesus;

Mateus. Encontrado o corpo de Jesus,

afundar-se-ia o edifício da Igreja cristã,

assente precisamente na ressurreição!

A maior parte dos arqueólogos e

investigadores veio dizer que a afirmação

de que se tinha encontrado o túmulo da

família de Jesus era um disparate ridículo.

No entanto, as pessoas gostam do esotérico

e do escândalo.

Vamos, porém, supor que um dia se

demonstrava que se tinha encontrado os

restos mortais de Jesus. Então?

5

Lembro-me de, ainda jovem estudante,

ter dito a um professor jesuíta, holandês, da

Universidade Gregoriana de Roma, que, se

viessem a encontrar os restos do cadáver de

Jesus, a fé cristã continuaria inabalável. Ele

ficou surpreendido com a minha ousadia,

mas remeteu-me para o famoso Lexikon für

Theologie und Kirche onde se defendia essa

posição.

É evidente que a ressurreição nada tem a

ver com a reanimação do cadáver, pois, se

fosse isso, a pessoa voltaria a morrer. A

ressurreição é a afirmação de fé, com razões,

de que Jesus, na morte, não soçobrou no

nada, mas foi encontrado pela plenitude do

mistério inominável de Deus.

O que é e como é esse encontro ninguém

sabe – a ultimidade transcende a razão

científica, empírico-matemática. Mas

aqueles que acreditam em Deus, o Vivente,

que é Amor, Criador de todas as coisas,

6

Fundamento e Sentido último de tudo

quanto existe, fazem suas aquelas palavras

que, noutro contexto, Espinosa deixou:

“sabemos e experienciamos que somos

eternos”.

Ainda neste contexto, permito-me citar,

mais uma vez, Herbert Haag, o grande

amigo e talvez o maior exegeta do século

XX. Para um dos últimos encontros, levei

uma pergunta que alguém me pediu para

lhe fazer: se acreditava na vida para lá da

morte. E ele, textualmente: “Diga-lhe que

sim. Eu creio na vida para lá da morte.

Como é ninguém sabe.”

A vida eterna é só depois da morte?

Quem não viveu na superfície das coisas,

quem perguntou até à raiz de tudo, quem

se exaltou indizivelmente com o fulgor da

beleza, quem criou uma obra, um filho,

quem alguma vez teve um gesto

absolutamente gratuito de amor, quem se

7

deixou surpreender pelo abismo in-finito do

olhar de alguém, quem teve a graça de

banquetes felizes com familiares e amigos,

aqueles amigos que levamos no coração,

quem fruiu exaltadamente de concertos

musicais, inolvidáveis, pois continuam a

morar connosco, quem tentou descer até ao

fundo sem fundo de si, quem foi abalado

pela exigência incondicionada do dever a

ponto de preferir ser morto a matar, quem

se deixou amorosamente tocar por um tu

que não se possui nem domina, quem foi

alguma vez avassaladoramente visitado

pela pergunta inconstruível: “porque há

algo e não nada?”, quem se deixou

confrontar com a vida de Jesus e o seu

Evangelho por palavras e obras, sem se

acobardar sabendo que acabaria por ser

julgado e condenado à morte, e morte de

cruz, por aqueles a quem a sua Mensagem

não interessava, pelo contrário —

8

representantes do Templo e do Império —,

foi, é, tangido pela fímbria da eternidade...

Então, onde e quando é a vida eterna?

Aqui e agora, no Aberto. Sem esquecer os

horrores do mundo.

Sábado, 23 de Maio de 2026

sábado, 23 de maio de 2026

As quatro Pentecostes - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 As quatro Pentecostes

Ano A – Domingo de Pentecostes
João 20,19-23: «Recebei o Espírito Santo»

A Igreja celebra hoje a grande solenidade de Pentecostes, a festa da descida do Espírito Santo, cinquenta dias depois da Páscoa, segundo o relato dos Atos dos Apóstolos, proposto na primeira leitura.

A palavra Pentecostes significa “quinquagésimo dia” e deriva do grego. Na origem, era uma festa judaica, uma das três grandes festas de peregrinação ao templo de Jerusalém: a Páscoa, o Pentecostes e a Festa das Tendas, festa outonal da colheita. Tratava-se de uma festa agrícola, a festa da ceifa e dos primeiros frutos, celebrada no quinquagésimo dia depois da Páscoa judaica. Era também chamada “Festa das Semanas”, porque ocorria sete semanas depois da Páscoa. A esta festa agrícola foi depois associado o memorial do dom da Lei, a Torah, recebida por Moisés no monte Sinai.

O Pentecostes cristão é o cumprimento e a conclusão do tempo pascal. É a nossa Páscoa: a passagem para uma nova condição, já não sob o regime da Lei, mas sob o regime do Espírito. É a festa do nascimento da Igreja e o início da missão.

As leituras da festa, na realidade, apresentam-nos quatro vindas do Espírito Santo, ou quatro modalidades diferentes, mas complementares, da sua presença. Poderíamos dizer que se trata de quatro “Pentecostes”. Hoje existe uma sensibilidade teológica que fala de “encarnação profunda” — deep incarnation. A encarnação de Cristo não estaria orientada unicamente para a humanidade, mas para toda a criação. O mesmo se pode dizer da sua ressurreição. E, de forma analógica, podemos dizê-lo também do Pentecostes.

1. O Pentecostes sobre a Igreja

A primeira leitura, tirada dos Atos dos Apóstolos, apresenta-nos uma vinda do Espírito impetuosa, arrebatadora, irresistível, abrasada:
«Veio de repente do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde se encontravam. Apareceram-lhes línguas como de fogo, que se dividiam, e pousaram sobre cada um deles, e todos ficaram cheios do Espírito Santo».

É uma vinda que suscita espanto e maravilha, entusiasmo e euforia, consolação e coragem. É absolutamente gratuita, imprevisível e nunca programável. Trata-se de acontecimentos excecionais. Encontramos alguns no livro dos Atos, mas também os houve na história da Igreja: nem sempre tão visíveis e impetuosos, mas sempre de grande fecundidade.

De facto, a esta Pentecostes segue-se sempre uma primavera eclesial. Deus sabe quanto dela precisamos, no inverno eclesial que estamos a atravessar no Ocidente! Só a oração incessante no cenáculo da Igreja, a paciência humilde do semeador e a docilidade ao Espírito podem obter uma graça semelhante.

2. O Pentecostes sobre o mundo

A efusão do Espírito estende-se a toda a criação. É Ele «que dá vida e santifica o universo» — como proclama a Oração Eucarística III. É Ele que «leva pólenes de primavera ao seio da história e de todas as coisas», para usar uma expressão de Ermes Ronchi.

Por isso, com o salmista, invocámos o Pentecostes sobre toda a terra:
«Enviai, Senhor, o vosso Espírito, e renovai a face da terra» — Salmo 103

Esta deveria ser uma oração típica do cristão: invocar o Pentecostes sobre o mundo, sobre as dinâmicas que sustentam a nossa vida social, sobre os acontecimentos da história. Todos se lamentam de “como o mundo vai mal”, dos “maus espíritos” que o animam; mas quantos de nós fazem verdadeiramente a “epiclese”, isto é, a invocação do Espírito, para que desça sobre as pessoas, sobre as situações e sobre os acontecimentos da nossa vida quotidiana?

3. O Pentecostes dos carismas ou do serviço

O apóstolo Paulo, na segunda leitura, tirada da Primeira Carta aos Coríntios, chama a nossa atenção para outra epifania do Espírito: os carismas:
«Há diversidade de carismas, mas o Espírito é o mesmo... A cada um é dada uma manifestação particular do Espírito para o bem comum... De facto, todos nós fomos batizados num só Espírito, para formarmos um só corpo...».

Hoje falamos muito de carismas e de partilha dos serviços eclesiais, mas assistimos também a um crescente e inquietante descompromisso das novas gerações. O sacramento da Confirmação, a “Pentecostes pessoal”, que deveria marcar a passagem para uma participação plena na vida eclesial, torna-se infelizmente, para muitos, o momento da deserção. É um sinal evidente de que falhámos o objetivo da iniciação cristã.

Que fazer? A Igreja deverá tornar-se um grande ouvido e potenciar as suas antenas, para perceber a voz do Espírito neste particular momento histórico. Ousaria dizer que o problema mais grave é a mediocridade espiritual das nossas comunidades. Preocupados em salvaguardar a ortodoxia e a boa ordem da liturgia, perdemos de vista o essencial: a experiência da fé.

4. O Pentecostes dominical

A liturgia propõe-nos de novo o Evangelho da aparição de Jesus ressuscitado na tarde de Páscoa. É uma passagem inteiramente cheia de ressonâncias pascais:
«Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, por medo dos judeus, veio Jesus, colocou-se no meio deles e disse-lhes: “A paz esteja convosco!”. Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. E os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: “A paz esteja convosco! Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós”. Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos”».

Esta passagem é chamada “a pequena Pentecostes” do Evangelho de João, porque aqui Páscoa e Pentecostes coincidem. O Ressuscitado dá o Espírito na própria tarde de Páscoa. Todo o contexto faz pensar na assembleia dominical e na Eucaristia. É aí que o Espírito paira sobre as águas do medo e da morte, trazendo a paz e a alegria da vida.

É necessário redescobrir o papel eminente do Espírito. Este é o seu tempo. Sem Ele não podemos proclamar que «Jesus é Senhor» — 1 Coríntios 12,3 — nem invocar: «Abbá! Pai!» — Gálatas 4,6. Não há Eucaristia sem a intervenção do Espírito. Por isso, entremos na Eucaristia suplicando no nosso coração: Vem, vem, Espírito Santo!

Para concluir: como navegas no mar da vida, a remos ou à vela?

Nós respiramos o Espírito Santo. O Espírito é o nosso oxigénio. Sem Ele, a vida cristã torna-se lei e dever: um remar contínuo, com esforço e fadiga. Com Ele, pelo contrário, é alegria de viver e de amar; é a leveza de navegar de velas cheias.

Agora que, depois do tempo pascal, retomamos o tempo comum, com a rotina da vida quotidiana, como te preparas para navegar: com a força dos remos ou deixando-te levar pelo Vento do Espírito que sopra na vela desfraldada do teu coração?

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ



P. Manuel João Pereira Correia mccj
p.mjoao@gmail.com

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Em missão, em onze! - P. Manuel João Pereira Correia mccj

 

Em missão, em onze!

Ano A – Páscoa – 7.º domingo – Ascensão do Senhor
Mateus 28,16-20: “Ide, pois, e fazei discípulos todos os povos”.

Chegámos à festa da Ascensão do Senhor, que o livro dos Atos dos Apóstolos situa simbolicamente quarenta dias depois da Páscoa (cf. primeira leitura: Atos 1,1-11). É particularmente significativo notar que esta é a única aparição de Jesus aos seus discípulos narrada no Evangelho de São Mateus. Antes, de facto, tinha aparecido apenas às duas Marias que tinham ido ao sepulcro, confiando-lhes a missão de dizer aos discípulos que fossem para a Galileia: “Ide anunciar aos meus irmãos que vão para a Galileia: lá me verão” (Mateus 28,10).

Não se trata de uma incongruência histórica entre os Evangelhos. Os factos principais da vida de Jesus, transmitidos pelos apóstolos, eram já património comum das comunidades cristãs. Quando os evangelistas escrevem o Evangelho, recolhem alguns relatos e dão-lhes uma estrutura literária, com uma orientação teológica e catequética particular, pensando nas necessidades das suas comunidades.

Partilho convosco algumas reflexões, tendo diante dos olhos o Evangelho de hoje — um texto de apenas cinco versículos — e procurando interiorizar a sua mensagem. Trata-se da conclusão do Evangelho de Mateus e, portanto, do seu ponto culminante e da chave de releitura de todo o Evangelho. Dificilmente poderíamos exagerar a sua importância.

1. Galileia, o lugar do encontro

Os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes tinha indicado”.

Jesus marca encontro com os apóstolos longe do centro religioso e político de Jerusalém: na Galileia, lugar de periferia e de fronteira, onde tudo tinha começado. É dali que se recomeça, já não em direção ao centro, mas em direção aos confins do mundo, a todos os povos. É o início da grande aventura da Igreja, que durará “até ao fim do mundo”. Jesus, que tinha partido da Galileia para concluir o seu caminho em Jerusalém, agora parece deixar para trás a cidade santa e o seu templo: são já realidades ultrapassadas!

A Galileia é o lugar da vida ordinária, onde Jesus tinha encontrado e chamado os seus discípulos. É o símbolo da vida quotidiana. Depois do tempo pascal, o Ressuscitado envia-nos de novo para a nossa vida de todos os dias. É aí que o veremos.

O encontro é no monte. Trata-se do sétimo e último monte do Evangelho de Mateus: o monte da missão. Ele corresponde ao primeiro, o monte da tentação, onde o diabo tinha procurado afastar Jesus do plano de Deus, oferecendo-lhe o poder e a glória do mundo (Mateus 4,8).

2. Os onze discípulos, os protagonistas

São onze, apenas onze, e já não doze. Essa ausência será pesada, embaraçosa, cheia de interrogações, causa de tristeza e de espanto. Por isso Pedro proporá preencher aquele lugar vazio com a escolha de Matias (Atos 1,26). Mas Matias poderia representar cada um de nós!

É com estes onze — um número que fala de incompletude e imperfeição — que também nós somos convocados para a grande missão. Diante da imensidão da tarefa, seríamos tentados a fazer o recenseamento das forças com que podemos contar, como fez o rei David, provocando a ira de Deus (cf. 2 Samuel 24,9). No fundo, não serão talvez isso muitas das nossas estatísticas?

Deus parece quase troçar dos nossos cálculos e reduz cada vez mais as nossas forças, como fez com as tropas de Gedeão, em marcha contra os madianitas: de trinta e dois mil para trezentos homens, porque “Israel poderia gloriar-se diante de mim e dizer: Foi a minha mão que me salvou” (Juízes 7,2). E agora será com onze homens que Jesus fará fermentar o mundo!

3. A dúvida que torna verdadeira a fé

Quando o viram, prostraram-se. Eles, porém, duvidaram”.

Viram-no, prostraram-se, mas duvidaram! As mulheres junto ao sepulcro, quando viram Jesus, “aproximaram-se, abraçaram-lhe os pés e adoraram-no” (Mateus 28,9). Aqui, pelo contrário, há dúvida, e é Jesus que tem de se aproximar dos onze.

Os evangelistas não poupam os apóstolos! Põem em evidência os seus limites, as suas fraquezas, as suas incompreensões, as suas lentidões: numa palavra, a sua inadequação. São homens como nós. Pensando neles, ninguém poderá mais dizer: “Mas como, queres escolher precisamente a mim?”. Não devemos envergonhar-nos das nossas dúvidas. A dúvida leva a sério a grandeza da fé.

4. Todo o poder ao... “maldito” na cruz!

Jesus aproximou-se e disse-lhes: Foi-me dado todo o poder no céu e na terra”.

Aquele que tinha sido julgado pelas autoridades religiosas como blasfemo e maldito por Deus recebe do Pai “todo o poder no céu e na terra”! Que ironia! Dá que pensar, sobretudo a nós que exercemos um “poder” em nome de Deus!

Tudo está agora nas suas mãos (João 13,3): nas mãos do Amor. Nada nem ninguém nos pode arrancar dessas mãos (Romanos 8,35; João 10,28). É uma certeza consoladora e libertadora, capaz de desfazer os laços paralisantes dos nossos medos.

5. O mandato missionário da Igreja

Ide, pois, e fazei discípulos todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo o que vos mandei”.

Ir é a primeira palavra de ordem. Retomar o caminho da missão, a missão de Jesus. É impressionante ver como, desde o início, a Igreja — uma realidade minúscula e insignificante — tinha uma consciência tão forte de ser enviada a todo o mundo!

Para fazer discípulos: dele, não nossos. Batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, isto é, mergulhando-os — este é o significado do verbo grego “batizar” — no Amor da Trindade. Ensinando-os não como mestres, mas como discípulos e testemunhas do único Mestre (Mateus 23,10).

6. A Ascensão, plenitude da Encarnação

E eis que Eu estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo”.

É a última palavra de Jesus, o Emanuel (Mateus 1,23). É a sua encarnação em cada um de nós. A presença é algo difícil de definir. Pode-se estar presente com o corpo e ausente com a mente e com o coração.

A Ascensão não é uma partida, mas uma nova e mais profunda modalidade de presença: Cristo é “mais íntimo a nós do que nós somos a nós mesmos”, para dizê-lo com Santo Agostinho. Por isso São Paulo poderá dizer: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gálatas 2,20).

7. Uma sugestão

Quando te parecer que Cristo é o grande ausente da tua vida ou da nossa sociedade; quando te parecer que o “príncipe deste mundo” retomou nas mãos o poder… volta a pegar neste Evangelho e escuta esta palavra que nunca passará: “Foi-me dado todo o poder no céu e na terra”.

E recorda-te da última e definitiva promessa de Jesus: “E eis que Eu estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo”.

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ


P. Manuel João Pereira Correia mccj
p.mjoao@gmail.com

sábado, 9 de maio de 2026

Fecundados pelo Espírito Santo - Pe. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 

Fecundados pelo Espírito Santo

Ano A - Páscoa - 6º domingo
João 14,15-21: “Eu pedirei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito”

Restam-nos duas semanas do Tempo Pascal. No próximo domingo celebraremos a Ascensão do Senhor e, no domingo seguinte, Pentecostes. A Palavra de Deus convida-nos a dirigir o nosso olhar para estes acontecimentos.

Hoje Jesus promete-nos o dom do Espírito: “Eu pedirei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito, para que permaneça convosco para sempre, o Espírito da verdade”. Jesus fala cinco vezes do envio do Espírito nestes seus discursos de despedida. Quatro vezes apresenta-o como o “Paráclito”, um termo grego muito rico que indica alguém chamado a estar ao nosso lado para nos ajudar, um consolador, um advogado defensor... Três vezes caracteriza-o como “Espírito da verdade”.

O amor, o “ninho” do Espírito

Jesus liga o dom do Espírito Santo ao amor: “Se me amais...”. O amor é o “ninho” do Espírito. O apóstolo Paulo afirma: “O fruto do Espírito é amor, alegria, paz, magnanimidade, benevolência, bondade, fidelidade, mansidão, domínio de si” (Gálatas 5,22). Todas características ligadas ao amor.

O trecho evangélico de hoje põe em destaque o amor — cinco vezes —, mas, surpreenden­temente, aqui Jesus fala do amor para com a sua pessoa. O amor, que no Antigo Testamento era reservado a Deus (Deuteronômio 6,4-9), Jesus agora o reclama para si. O Evangelho de João conclui-se com uma tríplice profissão de amor, em que Pedro representa cada um e cada uma de nós: “Simão, filho de João, tu me amas?” (João 21,17). Que honra Deus nos faz ao pedir a nossa amizade! Deus tem um coração apaixonado!

Jesus afirma que o amor por ele se manifesta na observância dos seus mandamentos: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos”. Por que fala de mandamentos, no plural? Podemos pensar que se refere, em geral, aos seus ensinamentos a serem guardados, mas sobretudo às duas dimensões inseparáveis do amor: amar a Deus e aos irmãos.

O amor é o motor da vida. Dizia Santo Agostinho: “Esteja em ti a raiz do amor, pois desta raiz não pode proceder senão o bem. Ama e faz o que quiseres!” E o apóstolo Paulo dirá: “O amor de Cristo nos impele” (2 Coríntios 5,14).

Em”, a preposição do amor

Chama a atenção a insistência de Jesus na profunda comunhão criada por este amor: uma verdadeira inabitação recíproca. “Naquele dia sabereis que eu estou em meu Pai, vós em mim e eu em vós”. Mesmo que encontremos outras expressões — “convosco”, “junto de vós”... —, a privilegiada é “em vós”, “em mim”, “no Pai”. Esta preposição, em — ἐν, em grego — aparece cerca de 25 vezes nos capítulos 14 e 15, evocando profunda intimidade, imanência, inabitação recíproca.

O nosso coração foi feito para ser habitado. Mais ainda, fecundado. Em cada crente renova-se algo do mistério de Maria, que “se encontrou grávida por obra do Espírito Santo” (Mateus 1,18). Orígenes de Alexandria, um dos maiores teólogos dos primeiros séculos e pai da exegese bíblica cristã (185-253), oferece-nos uma das imagens mais eficazes da vida cristã: “O cristão, enquanto está neste corpo, é semelhante a uma mulher grávida: traz dentro de si o Verbo de Deus” (In Exodum X, 10). Assim como a mulher grávida traz o filho no ventre, mas ainda não o vê face a face, assim o cristão traz Cristo dentro de si mediante a graça, mas ainda “caminha pela fé, não pela visão” (2 Coríntios 5,7). Tribulações, dificuldades e a própria morte constituem as dores do parto. O cristão vive no mundo, entre os homens, como uma mulher grávida de vida nova. “E não é necessário que a mulher grávida faça proclamações: é evidente para todos que há nela uma vida nova. Assim como para a mulher grávida a espera é o período mais vivo, mais feliz, mais criativo, também para nós: vivos, criativos, felizes; assim como a grávida é uma e duas ao mesmo tempo, vive uma vida feita de duas vidas, assim o cristão é um e dois”, comenta o Pe. Ermes Ronchi.

Colocar-se na escola dos místicos apaixonados

Talvez não tenhamos interiorizado suficientemente esta realidade surpreendente e maravilhosa: somos morada de Deus, habitados por Deus, portadores e portadoras de uma vida nova gerada em nós pelo Espírito Santo. Muitas vezes pensamos em Deus “conosco”, “ao nosso lado”, ou às vezes distante ou ausente, e esquecemo-nos de que Ele está “em” nós.

Os místicos, pelo contrário, compreenderam muito bem isso. Trago o exemplo de um místico francês do século XVII: Lourenço da Ressurreição (Laurent de la Résurrection), irmão leigo num mosteiro dos Carmelitas Descalços em Paris. A espiritualidade vivida e ensinada por ele era muito simples: cultivar o sentido da presença de Deus, através do “exercício contínuo desta divina presença”, a cada instante e em todas as circunstâncias, trabalhando primeiro como cozinheiro e depois como sapateiro num grande convento com mais de uma centena de frades:

No tumulto da minha cozinha, onde às vezes várias pessoas me falam ao mesmo tempo de coisas diferentes, possuo Deus tão tranquilamente como se estivesse de joelhos diante do Santíssimo Sacramento. Não é necessário ter grandes coisas a fazer. Eu viro a minha omelete na frigideira por amor de Deus e, quando a termino, se não me resta mais nada, inclino-me até ao chão e adoro o meu Deus, que me concedeu a graça de fazê-la; depois disso, levanto-me mais feliz do que um rei”.

Apesar de mancar por causa de uma ferida de guerra, Frei Lourenço — “rude por natureza e delicado pela graça”, segundo Fénelon — era pontual e preciso nas suas tarefas, sem dar sinais de impaciência ou pressa... Mas...

Se às vezes me ausento um pouco demais desta presença divina, Deus logo se faz sentir na minha alma... com movimentos interiores tão fascinantes e tão deliciosos que me envergonho de falar deles”.

Vira também tu a omelete quotidiana da tua vida: nem sempre será perfeita, mas poderá estar sempre temperada com amor.

Pe. Manuel João Pereira Correia, MCCJ


P. Manuel João Pereira Correia mccj
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A vontade de poder e o Reino de Deus - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 A vontade de poder

e o Reino de Deus


1. Embora ao princípio tenha sido

bastante ignorada, trata-se de uma obra

decisivamente importante: Die Welt als

Wille und Vorstellung (O mundo como

vontade e representação), de Arthur

Schopenhauer.

“O mundo é a minha representação”,

assim começa, pois é sempre com a nossa

estrutura humana que o captamos. Mas o

ser humano não se reduz ao conhecimento.

Antes de pensarmos, vivemos: respiramos,

comemos, bebemos, movimentamo-nos.

Somos um corpo vivo que quer viver. No

mais fundo de nós, somos vontade de viver,

e a mais forte expressão dessa vontade está

no sexo e no instinto de reprodução.

Toda a vida orgânica é manifestação

dessa vontade. É aterrador o que se passa

na selva — também na “selva humana”.

Mais: a vontade está na raiz das

manifestações da natureza inorgânica —

pense-se na potência que põe os astros em

movimento, na energia nuclear, na força de

atracção e repulsa dos elementos, nas

tempestades, nos terramotos, nos vulcões. O

universo, aparentemente sereno, é um

reboliço infindo, gigantesco.

Foi também aqui que Nietzsche veio

beber a sua teorização da vontade de poder

e do super-homem. O que é a moral vulgar

senão a manifestação do ressentimento dos

fracos contra os fortes?

2. Já não se repara nisso, mas o

cristianismo é realmente um paradoxo e um

escândalo.

Jesus disse que veio para que tivéssemos

“a vida e a vida em abundância”. Ele é a

“ressurreição e a vida”. Mas a vida que ele

traz não é a vida para os mais fortes. Os

preferidos são os fracos, os doentes, os

aleijados, os pobres, os coxos, os cegos, os

leprosos, as prostitutas, os pecadores

públicos, os marginalizados pela sociedade,

os excluídos pela religião. E são

precisamente os poderosos da religião e da

política que em coligação o excluem do

mundo, condenando-o à morte e morte de

cruz – a morte dos escravos.

Portanto, Jesus aparece sem poder. Ele é

aparentemente o derrotado pelos

poderosos.

São Paulo percebeu o escândalo, dizendo

que só pregava Cristo, e Cristo crucificado.

Aos Coríntios escreveu: “Enquanto os

judeus pedem sinais e os gregos andam em

busca da sabedoria, nós pregamos um

Messias crucificado, escândalo para os

judeus e loucura para os gentios”. E foi ao

Areópago, em Atenas, pregar “o Deus

desconhecido”, que ressuscitou Jesus.

Agora, “quem quiser ganhar a vida deve

perdê-la, quem a perder por amor ganha-a”.

É tal o paradoxo que, aqui, se agita uma

pergunta tentadora: Porque não criou Deus

um mundo mais amoroso e menos violento?

Mas, desgraçadamente, não há quem

continua a pregar um deus sádico: Deus

mandou o seu Filho Jesus para, pela morte

na cruz, pagar a dívida infinita pelo pecado

e assim Deus aplacar a sua ira e reconciliar-

se com a humanidade?...

3. Os seres humanos debatem-se com três

impulsos – manifestações fundamentais da

vida como potência -- de cuja gestão

depende uma vida humana boa para todos:

o prazer, o ter e o poder.

Alguns dos primeiros cristãos

resolveram a questão de modo radical,

entregando o poder a César, renunciando

ao casamento, dando os bens aos pobres. A

sua fidelidade era facilitada pela convicção

da chegada iminente do Reino de Deus,

com a segunda vinda de Jesus. Se o Reino

de Deus, aquele Reino onde Deus reina e

onde não haverá escassez nem exploração

nem dor nem morte e se realizarão todas as

esperanças, está para chegar, César que

fique com o poder, efémero, a questão do

casamento não se põe, já não se trabalha e

tudo é comum...

Depois, foi o que se sabe. Até o Papa se

declarou “sumo pontífice”, sucedendo ao

imperador, também com cerimoniais da

corte, os bispos ocuparam palácios, os

cristãos mataram e mataram-se por causa

do prazer, do ter e do poder...

Jesus ainda não voltou, e a vida sem

algum prazer não tem interesse; para haver

futuro, é preciso continuar a gerar; a

economia tem de funcionar, e não há

comunidades humanas sem um mínimo de

exercício do poder, não o poder como

dominação, mas como serviço para o bem

comum universal, segundo o direito, a

justiça e a paz. Assim, o desafio essencial

para os cristãos e todas as pessoas de boa

vontade é a gestão do prazer, do ter e do

poder, no horizonte da mensagem de Jesus

com as bem-aventuranças: “felizes os

pobres em espírito” — não fazem da

riqueza o seu deus —, “os mansos, os

misericordiosos, os pacificadores, os puros

de coração, os que se batem pela justiça e a

paz...”

Não permitindo que se realize a queixa

de Nietzsche: “Cristãos? Só houve um, e

morreu na cruz.” Depois, veio a Igreja e “o

Disangelho”.

Sábado, 2 de Maio de 2026

sábado, 2 de maio de 2026

Deus é uma palavra insuficiente! - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Depois de um período de interregno da publicação deste artigo semanal do Pe.Manuel Correia , voltei a ter acesso ao último pelas mãos do Isidro. Penso que foi por ter deixado de usar o email da Clix. Tenho pena que nenhum dos leitores do blog me não tenha alertado para essa situação. Espero que o Pe. Manuel Augusto ou o Pe. Correia me voltem a fazer chegar o semanal artigo que muito gosto de ler, agora para o ajfspinheiro@gmail.com.

Deus é uma palavra insuficiente!

Ano A – Tempo da Páscoa – 5.º Domingo


João 14,1-12: “Vou preparar-vos um lugar”


Com os últimos domingos do tempo pascal, entramos na preparação das festas da Ascensão e do Pentecostes. São os domingos da despedida. No Evangelho de hoje e do próximo domingo, escutaremos algumas passagens do capítulo 14 de São João, tiradas do discurso de despedida de Jesus durante a última ceia. Trata-se do seu testamento, antes da paixão e da morte.

Por que retomar estes textos precisamente no período pascal? A Igreja segue a antiga tradição de ler, durante este tempo, os cinco capítulos do Evangelho de João relativos à última ceia, do capítulo 13 ao 17, nos quais Jesus apresenta o sentido da sua Páscoa. Além disso, poderíamos dizer que, tratando-se do seu legado, o testamento deve ser aberto depois da sua morte. Jesus deixa-nos a sua herança, os seus bens, a nós, seus herdeiros.

Não se perturbe o vosso coração!

O texto evangélico de hoje é um dos mais densos do Evangelho de João. O contexto — depois do anúncio da traição e da sua morte violenta — é triste e dramático. Jesus não esconde aos seus a gravidade daquela hora, mas consola-os, convidando-os à confiança. É a hora da prova, da crise. A noite desce sombria no coração de todos.

É uma palavra dirigida também a nós que, depois da exultação pascal, voltamos a cair na dureza da nossa vida quotidiana. “Credes em Deus, crede também em mim”, é a palavra de ordem!

Vou preparar-vos um lugar!

Na passagem evangélica encontramos, cerca de dez vezes, verbos e substantivos ligados ao movimento. O homem é um caminhante, um viandante — homo viator, segundo Gabriel Marcel. Também a fé implica pôr-se a caminho: “Sai da tua terra... para a terra que eu te indicarei” (Génesis 12,1). Assim foi para Abraão e assim continua a ser para nós. A Bíblia está cheia de estradas e caminhos, de bifurcações e encruzilhadas. “Feliz o homem que traz no coração os teus caminhos!” (Salmo 84,6).

Para o homem bíblico e para Jesus, o caminho tem uma orientação precisa: Deus, o Pai. Santo Inácio de Antioquia, na sua Carta aos Romanos, 7,2, exprime assim a sua experiência: “Uma água viva murmura dentro de mim e diz-me: Vem para o Pai!”

Infelizmente, hoje parece faltar o sentido da vida, a sua orientação. Cumpre-se aquilo que disse certa vez o dramaturgo francês Eugène Ionesco (1909-1994): “O mundo perdeu o caminho, não porque faltem ideologias-guia, mas porque elas não levam a parte alguma. Na gaiola do seu planeta, os homens movem-se em círculo porque se esqueceram de que podem olhar para o céu.”

Embora estejamos a caminho, o nosso coração procura o repouso. A promessa de Deus é precisamente “entrar no seu repouso” (ver Carta aos Hebreus 4,1). Não se trata de um repouso passageiro, mas do repouso de quem sente que chegou a casa, à sua morada. Jesus, com a sua Páscoa, abre-nos o caminho: vai preparar-nos essa morada e depois voltará para nos levar consigo. Esta morada é a casa do Pai. Porque cada um habita onde é amado, comenta o biblista jesuíta Silvano Fausti (1940-2015).

E a minha morada, onde está? Onde me sinto em casa, conhecido, apreciado e amado? É aí que se encontra a minha identidade, o meu verdadeiro eu. O coração do Pai é verdadeiramente a minha morada?

Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, TOMÉ.

Jesus supõe que os apóstolos o tenham compreendido: “E para onde eu vou, vós conheceis o caminho.” Mas, na verdade, não compreenderam nada. Como, aliás, talvez também nós não tenhamos compreendido.

Tomé, homem prático e concreto, é o porta-voz deles — e também o nosso: “Senhor, não sabemos para onde vais; como podemos conhecer o caminho?” E aqui Jesus dá-nos uma sua surpreendente e novíssima autodefinição: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.” Caminho, Verdade e Vida: três palavras que, no fundo, se equivalem e podem aplicar-se ao próprio Deus. O caminho é o amor, a verdade é o amor, a vida é o amor. E Jesus acrescenta: “Ninguém vai ao Pai senão por mim!” Jesus é o mediador entre Deus e a humanidade. Não como um intermediário neutro entre os dois, mas como aquele que assume em si ambos.

Quem me viu, viu o Pai, FILIPE.

Neste momento, ao ouvir Jesus falar tanto do Pai, intervém Filipe, mais idealista e sonhador, e faz uma belíssima oração: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta.” É o sonho de Moisés (Êxodo 33,18-20) e o desejo secreto de todo homem: “Quando irei contemplar o rosto de Deus?” (Salmo 42,3; 27,8-9). Diante deste pedido, porém, Jesus fica decepcionado: “Há tanto tempo estou convosco e tu não me conheces, Filipe? Quem me viu, viu o Pai... Não acreditas que eu estou no Pai e o Pai está em mim?” Por três vezes, Jesus repete esta habitação recíproca: “Eu estou no Pai e o Pai está em mim.”

Poderia ser a mesma decepção que Jesus sente diante de nós: “Mas como? Há tantos anos estás comigo, vês aquilo que faço e escutas a minha palavra, e ainda não me conheces? Quando eu te lavava os pés, era o próprio Pai ajoelhado diante de ti!”

Comenta então, de modo provocador, o biblista italiano Alberto Maggi: Jesus não é como Deus — que não conhecemos! —; é Deus que é como Jesus. Cristo é a revelação plena do Pai, a imagem perfeita do Deus invisível (Colossenses 1,15). “Aquilo que era invisível no Filho era o Pai, e aquilo que era visível no Filho era o Pai”, conclui Santo Ireneu.

O que Jesus diz revoluciona completamente a nossa noção de Deus. O monge Enzo Bianchi, fundador da comunidade de Bose, numa entrevista de alguns anos atrás, quando lhe perguntaram quem era Deus para ele, respondeu:

«Sempre percebi a palavra “Deus” como ambígua, insuficiente. Sinto uma relação muito forte com Jesus Cristo. Penso que irei a Deus, que o conhecerei, através de Jesus Cristo, mas não sei quem é Deus; não sabemos nada, ninguém jamais o viu, falamos demasiado dele sem o conhecer. Na minha opinião, um dos maiores erros é continuar a falar de Deus quando Deus permanece incognoscível, “o mistério”. Para mim, basta Jesus Cristo, que me conduzirá a Ele... Não gasto tempo a discutir sobre Deus ou a anunciar Deus.»

E no comentário ao Evangelho de hoje diz: “Às vezes pergunto-me se nós, cristãos, herdeiros do mundo grego, não acabamos por professar um teísmo com uma camada cristã. Devemos ter a coragem de dizer que, para nós cristãos, Deus é uma palavra insuficiente!

Em conclusão, nestes tempos de incerteza ou até de desorientação, sejamos também concretos como Tomé e perguntemos: Jesus, para onde vamos? Ele nos responderá: Segue-me, eu sou o Caminho!
Se temos um coração ansioso por ver o Pai, no contexto de um mundo e de uma história tão atribulados, repitamos também como Filipe: “Senhor, mostra-nos o Pai.” E Jesus continuará a responder-nos: Olha para mim, escuta-me. O Pai está no meu modo de amar, de servir, de perdoar, de lavar os pés.

Se queres saber quem é Deus, não o procures longe: olha para Jesus. E deixa-te conduzir por ele à casa do Pai.

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

domingo, 26 de abril de 2026

O clamor por Deus e a esperança final - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

O clamor por Deus

e a esperança final


1. Quem põe em dúvida que vivemos tempos

temíveis, brutais, de horrores sem fim? Ele há as

guerras, aquelas de que se fala e as outras de que

se não fala — por exemplo a do Sudão —,

multiplicando os seus campos de destruição e

ruinas, e os montões de cadáveres crescem e

crescem e crescem... E as crianças — tantas até

raptadas são — a gritar e as mulheres violadas, e

a fome não deixa de aumentar: todos os dias pelo

menos 8.000 crianças morrem por causa da fome.

E são milhões de milhões de euros que se gastam

em novos armamentos. Os prepotentes esmagam

os povos e os direitos das maiorias, e, vivendo

nós hoje em total interligação e interdependência,

quase todos no mundo acabam por ser vítimas

dessa prepotência. E lá andam todos numa

correria vertiginosa, todos ou quase todos a

dedar nas redes, e quem se lembra que brain rot

(apodrecimento do cérebro, cérebro apodrecido)

foi o termo considerado como a palavra do ano

pela Universidade de Oxford em 2024?...

Não creio que sejamos piores do que no

passado. Mas há uma questão terrível: temos

poder a mais. Pela primeira vez, a Humanidade

— basta pensar no armamento atómico — pode

pôr termo a si mesma. E há a IA, com imensas

vantagens, mas alguém pode dizer aonde nos

levará? E a crise climática... e os “cérebros

apodrecidos”?

Neste contexto, não deveria esquecer-se a

pergunta: Onde está o ser humano?, mas são mais

a perguntar: Onde está Deus?

Nestas circunstâncias — e não vou esquecer

também, por exemplo, as enfermarias dos

hospitais, verdadeiros acampamentos de dor e

solidão, os presos, os lares de idosos, as vítimas

de abusos de todo o género, os jovens com

ansiedade crescente... —, ainda em tempo de

Páscoa, alguns textos célebres podem vir ao nosso

encontro... Dou exemplos.

2. Para exprimir a sua consternação perante as

vítimas da História, todos os horrores do passado

e todos os mortos, “as ruínas da história”, Walter

Benjamin, da Escola de Frankfurt, que, numa

fuga falhada à perseguição nazi, se suicidou,

serviu-se de um quadro famoso do pintor suíço,

Paul Klee, chamado “Angelus Novus” e deixou-

nos o célebre texto sobre “O anjo da história”:

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus

Novus. Nele representa-se um anjo que parece

como se estivesse a ponto de afastar-se de algo

que o tem atordoado. Os seus olhos estão

desmesuradamente abertos, a boca também

aberta e as asas estão completamente estendidas.

E este deve ser o aspecto do anjo da história.

Voltou o rosto para o passado. Onde a nós se nos

manifesta uma cadeia de dados, ele vê uma

catástrofe única que amontoa incansavelmente

ruina sobre ruina, lançando-as a seus pés. Ele

bem quereria deter-se, despertar os mortos e

recompor o despedaçado. Mas a partir do paraíso

sopra um furacão que se enredou nas suas asas e

que é tão forte que o anjo já não consegue fechá-

las. Este furacão empurra-o irresistivelmente para

o futuro, para o qual ele está de costas, enquanto

os montões de ruinas crescem perante ele até ao

céu. Este furacão é o que nós chamamos

progresso”.

Estamos, na opinião de Manuel Fraijó, perante

um texto-chave da filosofia do século XX.

Benjamin era ateu, mas não o abandonava a

pergunta pelos mortos e, concretamente, pelas

vítimas inocentes da História...

3. No ano de 1796, Jean Paul (pseudónimo de

Johann Paul Friedrich Richter) escreveu um dos

textos mais sublimes e ao mesmo tempo mais

terríveis da grande literatura alemã: Rede des toten

Christus vom Welgebäude herab, dass kein Gott sei

(Discurso do Cristo morto, desde o cume do

mundo, sobre a não existência de Deus).

Nele, o grande escritor descreve um sonho.

Pela meia noite e em pleno cemitério, numa visão

apavorante, o olhar estende-se até aos confins da

noite cósmica esvaziada, os túmulos estão

abertos, e, num universo que se abala, as sombras

voláteis dos mortos estremecem, aguardando,

aparentemente, a ressurreição. É então que, a

partir do alto, surge Cristo, uma figura

eminentemente nobre e arrasada por uma dor

sem nome. E, com um terrível pressentimento,

“os mortos todos gritam-lhe: ‘Cristo, não há

Deus?’ Ele respondeu: ‘Não, não há Deus’. Então,

a sombra de cada morto estremeceu, e umas a

seguir às outras desconjuntaram-se. E Cristo

continuou, anunciando o que aconteceu no

instante da sua própria morte: ‘Atravessei os

mundos, subi até aos sóis, voei com as galáxias

através dos desertos do céu; e não há Deus. Desci

até onde o ser estende as suas sombras, e olhei

para o abismo, gritando: ‘Pai, onde estás?’ Mas

apenas ouvi a tormenta eterna, que ninguém

governa”. Quando, no espaço incomensurável,

procurou o olhar divino, não o encontrou; apenas

o cosmos infindo o fixou petrificado “com uma

órbita ocular vazia e sem fundo, e a eternidade

jazia sobre o caos e roía-o e ruminava-se”. O

coração rebentou de dor, quando as crianças

sepultadas no cemitério se lançaram para Cristo,

perguntando: ‘Jesus, não temos Pai?’ E ele,

debulhado em lágrimas, respondeu: ‘Somos

todos órfãos, eu e vós, não temos Pai’. “Nada

imóvel, petrificado e mudo! Necessidade fria e

eterna! Acaso louco e absurdo! Como estamos

todos tão sós na tumba ilimitada do universo! Eu

estou apenas junto de mim. Ó Pai, ó Pai! Onde

está o teu peito infinito, para descansar nele? Ah!

Se cada eu é o seu próprio criador e pai, porque é

que não há-de poder ser também o seu próprio

exterminador?”

Para Jean Paul, a morte de Deus não é ainda

um destino espiritual inevitável, mas apenas a

tentação de uma possibilidade ameaçadora,

contra a qual quer prevenir. Quando acordou do

pesadelo ateu, a sua alma “chorava de alegria,

por poder de novo adorar a Deus — e a alegria e

o choro e a fé nele era a oração”.

4. Um século depois (1882), o louco de

Nietzsche proclamou a morte de Deus: “O louco

saltou para o meio deles e trespassou-os com o

olhar. ‘Quem vos vai dizer o que é feito de Deus

sou eu’, gritou! “Quem o matou fomos todos nós, vós

mesmos e eu!”

“Nunca existiu acto mais grandioso”. Mas, ao

mesmo tempo, Nietzsche não se mostra

completamente eufórico. “Para onde vamos nós,

agora? Não estaremos a precipitar-nos para todo

o sempre? Não andaremos errantes através de

um nada infinito? Não estará a ser noite para

todo o sempre, e cada vez mais noite?”

5. O filósofo Gilles Lipovetstky escreveu, em A

Era do Vazio, comentando, que Deus morreu e as

pessoas não estão preocupadas com isso. Mas

outro filósofo, agnóstico, Leszek Kolakowski,

disse que o nosso “é um mundo privado de todo

o sentido, de qualquer orientação, sinal de

direcção, estrutura”, de tal modo que, desde a

proclamação da morte de Deus por Nietzsche,

“praticamente nunca mais houve ateus serenos”:

“A ausência de Deus tornou-se a ferida sempre

aberta do espírito europeu, por maior que tenha

sido o esforço para esquecê-lo, recorrendo a toda

a espécie de narcótico.” De qualquer forma no

seu livro mais recente, A Sociedade da Decepção

(2012), Lipovetsky, reconhecendo “a reafirmação

do religioso”, veio dizer que, “privados de

sistemas de sentido englobante, numerosos

indivíduos encontram uma tábua de salvação no

reinvestimento de antigas e novas

espiritualidades capaz de oferecer a unidade, um

sentido, referências, uma integração comunitária:

é o que o ser humano necessita para combater a

angústia do caos, a incerteza e o vazio.”

6. Lá está, sempre, a sublevação dos versos de

Heinrich Heine: “E continuamos

perguntando,/uma e outra vez,/até que um

punhado de terra/nos cale a boca./Mas isto é uma

resposta?”

7. E há, tocando o absurdo, aquela pergunta

terrível, pergunta-limite: se soubessem o que

agora sabem pela experiência vivida e a morte no

fim, quantos, quantas, se pudessem escolher,

teriam escolhido vir à existência?

É nesta pergunta-limite, entre ser e não ser,

finito-infinito, que, em confiança racional, pode

dar-se a experiência da verdade salvadora do

Evangelho: Jesus anunciou por palavras e obras o

Evangelho, notícia boa e felicitante, a melhor

notícia que a Humanidade alguma vez ouviu:

Deus é bom, Pai-Mãe, e só quer a alegria, a

felicidade, a plena realização de todos os seus

filhos e filhas, e Jesus, que sabia que nem todos

estavam de acordo com esta mensagem, não se

acobardou, foi até ao fim para dar testemunho da

Verdade e do Amor e, julgado como blasfemo

religioso e subversivo político, foi condenado à

morte e morte de cruz, a morte mais horrenda,

rezando aquela oração que atravessa os séculos:

“Meu Deus, meu Deus, porque é que me

abandonaste?”, e Deus infinitamente poderoso e

bom não o deixou na morte, ele está vivo na

plenitude da vida em Deus para sempre, como

desafio e esperança para todos..., para mim.

Sábado, 25 de Abril de 2026

quinta-feira, 23 de abril de 2026

A Páscoa: não à opressão e à morte - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

A Páscoa:
não à opressão e à morte


Nota introdutória: Na semana passada, não
houve crónica. A razão é simples: estive
internado no hospital. Aí, paramos mesmo e,
queiramos ou não, somos obrigados a pensar.
Quero agradecer, de coração, a tantos e tantas
que, tendo sabido, quiseram manifestar a sua
solidariedade. Nestas circunstâncias,
conhecemos verdadeiramente os amigos reais:
“precisa de alguma coisa?; em que posso
ajudar?; já sabe: se precisar de alguma coisa, é só
dizer; disponha, por favor...”. E a gente sabe que
é verdade.
E aí fica a crónica prevista:
O famoso filósofo Johann Gottlieb
Fichte tem um texto com perguntas que
todo o ser humano, minimamente atento à
vida, alguma vez fez, pois são perguntas
que ele transporta consigo, melhor, que ele
é.

O filósofo alemão escreveu que o ser
humano não deixará facilmente de resistir a
uma vida que consista em “eu comer e
beber para apenas logo a seguir voltar a ter
fome e sede e poder de novo comer e beber
até que se abra debaixo dos meus pés o
sepulcro que me devore e seja eu próprio
alimento que brota do solo”; como poderei
aceitar a ideia de que tudo gira à volta de
“gerar seres semelhantes a mim para que
também eles comam e bebam e morram e
deixem atrás de si outros seres que façam o
mesmo que eu fiz? Para quê este círculo que
gira sem cessar à volta de si?... Para quê este
horror, que incessantemente se devora a si
mesmo, para de novo poder gerar-se,
gerando-se, para poder de novo devorar-
se?”

Também Ernst Bloch, o filósofo ateu
religioso, com quem tive o privilégio de
conversar, escreveu que o Homem nunca
-de contentar-se com o cadáver.

aquelas perguntas in-finitas: Quem
sou? Para onde vou? Onde estarei quando
cá já não estiver?

E o dramático é que, por um lado, a vida
depois da morte é completamente não
figurável para lá do espaço e do tempo,
não é possível qualquer representação.
Nunca poderei dizer: morri, estou morto --
serão outros a dar a notícia.

Por outro lado, é insuportável acabar,
andar, na vida, de sentido em sentido e, no
fim, afundar-se no nada o ir para lado
nenhum. Sendo o Homem “alguém”, quem
afirma o nada no termo vê-se confrontado
com a pergunta: como se passa de “alguém”
a “ninguém”? Como conceber uma
consciência morta? Afinal, o que era antes
de morrer? Se tudo desembocasse no nada,
qual seria a distinção entre bem e mal,
honestidade e desonestidade, honradez e
mentira, verdade e falsidade, já que no fim
tudo se afundaria no nada e tudo seria o
mesmo: precisamente nada?

Nos seus inícios, o cristianismo triunfou,
porque a uma sociedade angustiada com a
morte se apresentou com a promessa
inaudita da esperança na ressurreição. Mas
hoje a morte é tabu, e a ressurreição dos
mortos e a vida eterna tornaram-se não
plausíveis e sem interesse. Parece que as
pessoas se contentam com o consumo
diletante, entretidos na corrida louca duma
agitação paralisante, desfrutando instantes e
entregando-se à morte inevitável, numa
espécie de melancolia resignada.

E não será assim porque hoje se ama
pouco, pois só o amor requer eternidade?
Mas então, numa sociedade sem eternidade,
o que resta são só instantes, que não podem
fazer texto nem encontrar sentido último,
porque se devoram uns aos outros.

Para quem se não perdeu na superfície
da banalidade, a Páscoa, no seu sentido de
passagem, é a experiência do transcender
constitutivo do ser ser humano. O Homem
nunca se contenta com o dado nem com os
factos brutos: vai sempre além, num além
sem limites, transgredindo, pela esperança,
as próprias fronteiras da morte.

Na perspectiva bíblica. a primeira
Páscoa é a do Antigo Testamento e consiste
na libertação da escravidão no Egipto: Deus
não aceita a opressão. A segunda Páscoa é a
culminação da primeira: Deus não tolera a
morte. Jesus crucificado não morreu para o
nada, mas para o interior de Deus, que é a
Vida eterna. Como diz São Paulo na Carta
aos Romanos, o Deus que cria a partir do
nada ressuscita os mortos.

É tão próprio do ser humano saber que é
mortal como esperar para lá morte. Mas é
mesmo de esperança que se trata, pois a
morte é a experiência de que o ser humano
não pode dar a si mesmo a salvação ela é
dom de Deus. O Novo Testamento só utiliza
a palavra imortalidade duas vezes: uma em
que se diz que Deus possui a
imortalidade, e outra em que se afirma que
o nosso corpo mortal há-de revestir-se da
imortalidade da ressurreição, o que significa
que a imortalidade é um dom.

Então, como escreveu o teólogo José I.
González Faus, o crente dirá ao não crente:
espero que no fim, para da morte,
encontrarás esse Pai ou Mãe ou essa Luz de
braços abertos para ti, encontrarás esse
Mistério último acolhedor.

Mas o não crente poderá responder ao
crente: verás a surpresa que vais ter quando
vires que não há nada.

Aí, ao crente só resta a resposta: valeu a
pena viver como vivi, se vivi no bem.
Acreditando, a minha vida foi mais
humana, abriu-se a mais dimensões da
realidade, encontrou Fundamento e Sentido
último. A prova de que a fé dos crentes não
é vã só pode ser a luta contra todas as
formas de morte: a fome, a guerra, a
injustiça, e a favor da liberdade, da
dignidade, da paz, da realização plena de
todos os seres humanos.

Sábado, 18 de Abril de 2026