domingo, 11 de janeiro de 2026

ESTRANHO BAPTISMO DE JESUS - Frei Bento Domingues, O.P. 11 de Janeiro 2026

 

ESTRANHO BAPTISMO DE JESUS

Frei Bento Domingues, O.P.

11 de Janeiro 2026

 

1. Já não estamos em tempos de Cristandade, isto é, num mundo onde a Igreja definia a moral, as leis e os costumes. A história eclesiástica e a história secular estavam entrelaçadas. Existia uma unidade cultural e religiosa. Nesse tempo, onde existia essa unidade cultural e religiosa, geralmente, os pais pediam o Baptismo para os recém-nascidos. Não é essa a situação actual. Basta pensar na tradução portuguesa do livro, O louco de Deus no Fim do Mundo, em três meses já tem 5 edições, escrito por Javier Cercas, romancista espanhol, que se apresenta do seguinte modo: «Sou um ateu. Sou um anticlerical. Sou um laicista militante, um racionalista obstinado, um ímpio inveterado. Mas aqui estou, viajando em direcção à Mongólia com o velho vigário de Cristo na Terra, disposto a interrogá-lo acerca da ressurreição da carne e da vida eterna. Foi para isso que embarquei neste avião: para perguntar ao Papa Francisco se a minha mãe verá o meu pai depois da morte e para lhe levar a sua resposta. Eis um louco sem Deus perseguindo o louco de Deus até ao fim do mundo».

Nas Igrejas Cristãs, estamos a celebrar algo de insólito, o Baptismo de Jesus, o acontecimento que mudou radicalmente o rumo à sua vida[1]. Tinha mais ou menos 30 anos e era um desconhecido. Quem, na altura, suscitava arrebatadas paixões messiânicas era um seu primo, conhecido por João Baptista.

Um texto do historiador Flávio Josefo, escrito no ano 94 da era cristã, e que vem das Antiguidades Judaicas diz que, por causa desse extraordinário impacto popular, Herodes Antipas, antes que fosse demasiado tarde, meteu-o na cadeia onde foi morto dois ou três anos antes de Jesus ter sido crucificado.

Da infância deste não sabemos quase nada. Consta que na adolescência, aí pelos 12 anos, manifestou nos átrios do Templo de Jerusalém uma irreverência familiar cujo alcance os seus pais não entenderam. Acabou por regressar a Nazaré e aí, como diz S. Lucas, foi crescendo em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e dos homens. Mas entre os 12 e os 30 anos – começo da sua intervenção pública – que terá Jesus andado a fazer?

Supõe-se que tenha trabalhado com S. José. Quem julga que num ambiente tão modesto nunca poderia atingir tanta sabedoria e acutilância preenche o silêncio das fontes históricas com estágios de Jesus no Egipto, na Pérsia, na Índia, etc…

Mais insistente é a ideia de ter andado pela comunidade dos monges de Qumran, dada a significação que nela tinha um baptismo de iniciação – rito de acesso a uma refeição de sentido escatológico – e o papel de ambos os ritos na história das origens do cristianismo. Seja como for, Jesus andou sempre na contramão do elitismo moralista dos essênios. Foi certamente discípulo do famoso João Baptista e por ele baptizado.

O que todas as narrativas evangélicas destacam, e que os cristãos celebram hoje, não é esse baptismo. É aquilo que aconteceu logo a seguir e provocou a ruptura irreversível de Jesus com a teologia e o caminho do admirado João Baptista e, durante toda a vida, não suportou as observâncias religiosas e sociais de Israel. Uma dessas observâncias, que Jesus quebrou com mais frequência, foi o Sábado. Foi uma experiência mística de mudança radical. Contam os Evangelhos que, enquanto rezava, o Céu abriu-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele como uma pomba. E do Céu fez-se ouvir uma voz: “Tu és o meu filho muito amado, em ti pus todo o meu encanto”.

O impacto na vida de Jesus foi impressionante. A partir daí, os seus familiares foram levados a pensar que ele tinha enlouquecido. Passou a fazer família com quem não era da família. A sua intervenção será interpretada com alcance universal: congregar todos os filhos de Deus dispersos, formar um mundo sem excluídos.

A voz que escutou, enquanto rezava, era uma iluminação do Espírito Santo, que alterou tudo o que aprendera acerca de Deus e do Céu com a educação familiar, com os rabinos, com os monges de Qumran e com o próprio João Baptista.

2. Jesus indignou-se ao ver, em nome do Céu, a sua terra carregada de instituições, obrigações e interditos escravizantes cujas vítimas eram os classificados como pecadores, os doentes, os pobres e as mulheres. Aos ricos, os bem sucedidos, os saudáveis e poderosos tinham no corpo e na fortuna a marca da bênção de Deus. Jesus sentiu a urgência em destruir as imagens de Deus que alimentavam e legitimavam a injustiça na terra. Sabia, por experiência, que do sopro de Deus só podem vir declarações de amor e de paz. É essa convicção que permite dizer, no Pai Nosso, assim na terra como no céu, isto é, limpo o céu, cuidemos da terra, de fazer o céu na terra, na mais pura lógica da incarnação e nos limites e contingências da lenta e perturbada história humana.

Jesus, na sinagoga de Nazaré, assumiu a profecia de Isaías, como seu programa, omitindo o dia da ira de Deus, o que indignou as pessoas que o ouviram. Mais tarde, perante os enviados de João Baptista, intrigado com os boatos que lhe chegavam à cadeia, mostrou-lhes alguns sinais de que as coisas estavam realmente a mudar e acrescentou: Há boas notícias para os pobres[2]. Hoje, aumenta o fosso entre ricos e pobres e cresce o número das pessoas com menos de um dólar por dia. Que mudanças é preciso, nas práticas religiosas, para que elas sejam uma força de transformação da sociedade?

3. Por essa razão, as Igrejas Cristãs tentam que a vida humana seja toda ela sacramental. Desde o nascimento até à morte, é enquadrada pelo Baptismo e a Santa Unção. Os outros sacramentos marcam a sua expressão cristã em correlação com as diferentes etapas da vida humana. É a vida humana cristificada.

Nesta perspectiva de vida cristã, não se pode negar à criança o direito a ser envolvida pela graça, pelo amor de Deus. Uma criança é um ser humano com direitos naturais. Não precisa de chegar à idade adulta para ser amada pelos pais e por Deus. Sob o ponto de vista antropológico, não é obrigatório esperar pela idade adulta para ser ela a pedir o baptismo. Os pais também não esperam pela idade adulta dos filhos para tratar da saúde, da higiene e da escolaridade.

Nas várias Igrejas Cristãs, o Baptismo de Jesus é celebrado em datas ligeiramente diferentes, no termo do Tempo de Natal: no Ocidente (Católicos e Protestantes), é no primeiro domingo após a Epifania, isto é, a revelação a 6 de Janeiro; no Oriente (Ortodoxos), é no próprio dia da Epifania, também chamada Teofania, revelação de Deus, com bênção das águas e vigílias especiais.

Não conhecemos os carreiros de Deus. Temos de não esquecer a Sua liberdade e a liberdade do ser humano. Jesus, o Cristo, é um mistério da Terra e do Céu, nosso mistério.

 

 



[1] Cf. Notas de Frederico Lourenço de Mt 3, 6 e 3, 8, Os Quatros Evangelhos, edição bilingue, Quetzal 2024

[2] Direito a não ser pobre, de Maria d’Oliveira Martins, UCP 2025

sábado, 10 de janeiro de 2026

O fardo da dignidade da liberdade - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 O fardo da dignidade da liberdade

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia

Aparentemente, não há nada para o homem que ele

tanto preze como a liberdade. Mas, tendo de optar entre

a segurança — intelectual, espiritual, psicológica, social,

económica, política, religiosa — e a liberdade, não se sabe

quantos ficariam do lado desta e não daquela, do lado da

liberdade e não da segurança.

Fiódor Dostoiévski disse-o de modo ácido e também

sublime num texto em que também se critica com justiça

a Igreja de Roma. Fá-lo em Os Irmãos Karamázov, no

poema de Ivan com o nome "O Grande Inquisidor". A

história passa-se em Espanha, em Sevilha, nos tempos

terríveis da Inquisição, precisamente no dia a seguir a um

"magnificente auto-de-fé" em que foram queimados de

uma assentada, na presença do rei, da corte, dos cardeais

e das damas mais encantadoras da corte e da numerosa

população de Sevilha, quase uma centena de hereges.

Cristo "apareceu, devagarinho, sem querer dar nas vistas

e... coisa estranha, toda a gente O reconhece." Mas o

cardeal inquisidor aponta o dedo e manda que os guardas

O prendam. E é num calabouço do Santo Ofício que lhe

diz que no dia seguinte O queima na fogueira como ao

pior dos hereges. E a razão é que a liberdade de fé tinha

sido para Cristo a coisa mais preciosa. Não foi Ele que

disse tantas vezes: "Quero tornar-vos livres?"

Cristo, afinal, não percebeu que "o homem não tem

preocupação mais torturante do que encontrar alguém

em quem possa delegar o mais depressa possível a dádiva

da sua liberdade." "Em vez de Te apoderares da liberdade

das pessoas, acrescentaste ainda mais à sua liberdade!",

diz-lhe o inquisidor. "Esqueceste-Te de que a

tranquilidade e até a morte são mais queridas para o

homem do que a escolha livre do bem e do mal? Não há

nada mais sedutor para o homem do que a liberdade da

sua consciência, mas também não há nada mais

torturante." Assim, ao longo de quinze séculos, os

hierarcas eclesiásticos corrigiram a façanha de Cristo,

baseando-a em milagre, mistério e autoridade. Agora,

todos sabem em que é que hão-de acreditar e o que é

que hão-de fazer, sem terem de perguntar porquê nem de

escolher. "E as pessoas ficaram contentes por serem de

novo guiadas como um rebanho e por ter sido tirada dos

seus corações a dádiva terrível que tanto sofrimento lhes

causava."

Como única resposta o prisioneiro beijou-o, e o velho

cardeal vai até à porta, abre-a e diz: "Vai-te embora e não

voltes mais... não voltes... nunca, nunca!"

O homem angustia-se com a liberdade. Porque ser livre

quer dizer ser senhor de si e dos seus actos e ter de

escolher e ter de responder por si e pelo mundo e pelos

outros. Ter de escolher é para o ser humano, que quer

tudo e todos os caminhos, ter de escolher algo e um

caminho só de cada vez e ter de renunciar a tantas outras

possibilidades, sem poder ficar com tudo, na consciência

disso. Ser livre quer dizer entrar na urgência de um

projecto e poder falhar e, num tempo irreversível, que

inexoravelmente caminha para a morte, nunca mais ter

tempo para remediar, para refazer, para fazer outra coisa

e um ser si mesmo outro: é tudo sempre pela primeira e

última vez, sem ensaios...

A angústia da liberdade e da responsabilidade e a

busca falaz da segurança explicam a facilidade da entrega

a poderes totalitários, a seitas cegas, a colonizadores de

corpos e de almas, a vendedores de "verdades e certezas"

tapadas e irracionais.

A liberdade é condição de possibilidade da ética. Mas

até do ponto de vista das raízes etimológicas gregas —

ethos com épsilon e ethos com eta, que significam,

respectivamente, acção, costume, modo habitual de agir,

e toca do animal, morada, casa — se diz que a questão

ética é indissociável da pergunta pela nossa morada

enquanto horizonte de sentido, pátria onde se quer

habitar. Sim! Afinal, para onde queremos ir? Na presente

situação de hecatombe político-moral num mundo

enlouquecido, para onde vamos sem uma conversão

ética?

Ao contrário do animal, que vem ao mundo já feito e

age no quadro de uma rede de instintos, o homem vem

ao mundo praticamente desarmado de instintos e aberto

a possibilidades sem conta e tendo de fazer-se a si mesmo

no mundo com os outros. Pode escolher entre esta e

aquela possibilidade, até tem a capacidade de não

escolher, mas quem tenta escolher não escolher também

escolhe. De qualquer modo, é capaz de erguer-se a si

mesmo acima dos apetites, do simplesmente agradável

ou útil e colocar-se no lugar do outro. Transcende os

interesses particulares da natureza e enquanto ser

racional dá a si mesmo de modo autónomo a lei moral

universal que é a lei da liberdade. Kant formulou-a nestes

termos: "Age segundo uma máxima que queiras ao

mesmo tempo que se transforme em lei universal de

acção", ou então: "Trata a humanidade em ti e nos outros

sempre como fim e nunca como simples meio." As coisas

são meios e, por isso, têm um preço. O ser humano é fim

e, por isso, não tem preço, tem dignidade.

Sem capacidade moral e liberdade — a liberdade é a

condição de possibilidade da moralidade e,

consequentemente, da responsabilidade (responder pelo

que se faz ou não e como se faz) —, o homem não seria

digno de louvor nem estaria sujeito à censura, e não

haveria distinção entre o bem e o mal. Como escreveu o

filósofo Luc Ferry, que foi Ministro da Educação da

França, "um materialismo consequente deveria limitar-se,

sempre, a uma 'etologia', sem nunca falar de moral a não

ser como uma ilusão mais ou menos necessária, fazendo

parte do real mas, sem embargo, enganadora". Embora

condicionado, só porque não é completamente

subordinado nem guiado pela natureza é que o ser

humano "pode cometer excessos, quer no mal (o ódio e a

maldade) quer no bem (o amor e a generosidade)".

Sábado, 10 de Janeiro de 2026

domingo, 4 de janeiro de 2026

Festas natalícias - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia



Para se entender o que se passa com as
narrativas dos Evangelhos à volta do Natal,
há pressupostos fundamentais.

1. Em primeiro lugar, a fé cristã dirige-se
a uma pessoa, Jesus confessado como o
Cristo (o Messias) e, através dele, a Deus
que Jesus revelou como Pai e poderemos e
deveremos dizer também como Mãe (Pai-
Mãe), com todas as consequências que daí
derivam para a existência.

O que diz o Credo cristão, símbolo da fé?
“Creio em Jesus Cristo. Gerado, não criado,

consubstancial ao Pai. Nasceu da Virgem
Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi
crucificado, ressuscitou ao terceiro dia.”
Segundo a fé cristã, isto é verdade? Sim, é
verdade, mas é preciso dar atenção ao
“consubstancial”. De facto, como mostrei
no artigo da semana passada “E vós
quem dizeis que eu sou?” , Jesus nunca
se declarou a si mesmo Deus: veja-se, por
exemplo, como no Evangelho a alguém que
o chamou “bom mestre”, respondeu:
“Porque me chamas bom? Ninguém é bom
senão Deus”. De qualquer modo,
recitando o Credo, segue-se a pergunta
fundamental: o que deriva dessas
afirmações para a nossa existência de
homens e mulheres, cristãos ou não? O
Credo é teologia dogmática, especulativa,
em contexto linguístico da ontologia grega,
como mostrei aqui no texto da semana
passada. Ora, a teologia dogmática tem
que ver com doutrinas e dogmas, com uma
estrutura essencialmente filosófica.
Pergunta-se: os dogmas movem alguém,

convertem alguém, transformam a
existência para o melhor, dizem-nos
verdadeiramente quem é Deus para os
seres humanos e estes para Deus?

Exemplos mais concretos, um do Antigo
Testamento e outro do Novo, até para se
perceber a passagem do universo hebraico
em que Jesus se moveu e o universo grego
no qual aparecem redigidos os Evangelhos.
No capítulo 3 do livro do Êxodo aparece a
manifestação de Deus na sarça ardente e
Moisés dirige-se a Deus: se me
perguntarem qual é o teu nome, que devo
responder-lhes? E Deus: “Eu sou aquele
que sou”. Dir-lhes-ás: “Eu sou” enviou-me
a vós. A fórmula em hebraico: ehyeh asher
ehyeh (“eu sou quem sou”, “eu sou o que
sou”) é o modo de dizer que Deus está
acima de todo o nome, pois é
Transcendência pura, que não está à mercê
dos homens, mas diz também (a ontologia
hebraica é dinâmica) o que Deus faz: Eu
sou aquele que está convosco na história
da libertação, que vos acompanha no

caminho da liberdade e da salvação.
Depois, com a tradução dos Setenta,
compreendeu-se este ehyeh asher ehyeh
como “Eu sou aquele que é”, “Eu sou
aquele que sou”, o Absoluto. Filosofando
sobre Deus, a partir daqui, Santo Tomás de
Aquino dirá que Deus é “Ipsum Esse
Subsistens (O próprio ser subsistente),
Aquele cuja essência é a sua existência.
Isto é verdade, mas significa o quê para
iluminar a existência? Perdeu-se a dinâmica
do Deus que está presente e acompanha a
Humanidade na história da libertação
salvadora.

No Novo Testamento, João Baptista,
preso, mandou os discípulos perguntar a
Jesus se ele era o que estava para vir, o
Messias. Jesus não afirmou nem negou.
Mas deu uma resposta existencial, prática:
“Ide dizer-lhe o que vistes e ouvistes: os
coxos andam, os cegos vêem, a Boa Nova é
anunciada, a libertação avança, a salvação
está em marcha”.

O que é que isto significa? A teologia, a
partir da Bíblia, é, antes de mais, teologia
narrativa e não dogmática. Quer dizer: tem
uma estrutura existencial, histórica. Na
teologia especulativa, o centro de interesse
é o ser; na teologia narrativa, o decisivo é
o que acontece. Assim, na perspectiva
cristã, o essencial consiste na pergunta: O
que é que acontece quando Deus está
presente? Na linha dogmático-doutrinal,
exige-se e até se pode dar um
assentimento intelectual, subordinando-se,
mas a existência continua inalterada.
Corre-se então o perigo de uma “fé” em
fórmulas doutrinais coisistas, petrificadas,
sem qualquer transformação da vida, que é
o que acontece tão frequentemente. Ora, a
vida cristã, se quiser ser verdadeiramente
cristã, no discipulado de Jesus, tem de ser
determinada mais pela ortopráxis a
acção correcta, boa do que pela
ortodoxia, embora, evidentemente, sem
menosprezar a ortodoxia, segundo uma
hermenêutica adequada: Jesus louvou a

cananeia pela sua fé, que não era ortodoxa,
deu como exemplo o samaritano, que não
seguia a ortodoxia, mas praticava a
misericórdia, e, sobretudo, leia-se o
Evangelho segundo São Mateus, no capítulo
25 sobre o Juízo Final, no qual não
perguntas sobre fórmulas teóricas
religiosas, mas sobre a prática: “Destes-me
de comer, de beber, vestistes-me,
visitastes-me na cadeia e no hospital...”.

2. Não há figura mais estudada do que
Jesus Cristo e não hoje nenhum
historiador sério que negue a sua existência
histórica. E sabe-se que frequentava a
sinagoga, trabalhou no duro como tekton,
que é mais do que um carpinteiro (ele
trabalhava a madeira e outros materiais,
tanto na construção de uma casa como de
instrumentos agrícolas), portanto,
poderíamos dizer: um artesão.

Fez a experiência funda e única de Deus
como Abbá, Paizinho, querido Papá, que
ama com amor de pai e de mãe. Em seu
nome, quando tinha pouco mais de 30

anos, anunciou o Evangelho (notícia boa e
felicitante da parte de Deus para todos) e o
Reino de Deus, que é o reino da justiça, da
paz, da fraternidade, da realização plena de
todos os homens e mulheres. -lo por
palavras e obras para todos, a começar
pela proximidade em relação aos mais
fracos, pobres, abandonados, impuros,
heréticos... Enfrentou a religião oficial do
Templo, escandalizando aqueles que viviam
da religião explorando o povo. Foi
condenado pelos sacerdotes, que não o
toleravam, e foi crucificado pelo poder
imperial romano. Morreu como blasfemo
religioso e subversivo social e político.
Depois, mais uma vez, lembro E. P.
Sanders, da Universidade de Oxford, que,
na sua obra A figura histórica de Jesus,
quis dar uma visão convincente do conjunto
da vida do Jesus real, portanto, apenas a
partir da história, independentemente da
fé. Ele conclui que é possível saber que o
centro da mensagem de Jesus foi o Reino
de Deus, que entrou em conflito com o

Templo, que compareceu perante Pilatos e
que foi executado. Mas, continua, também
sabemos que, “depois da sua morte, os
seus seguidores fizeram a experiência do
que descreveram como a ‘ressurreição’”:
aquele que tinha morrido realmente
apareceu como “pessoa viva, mas
transformada”. “Acreditaram nisso,
viveram-no e morreram por isso”. Assim,
criaram um movimento, que cresceu e se
estendeu pelo mundo e mudou a História.
Grande parte da Humanidade foi atingida
por esse movimento e pela esperança que
transporta. Não se pode esquecer, muito
menos ignorar, que da biografia de alguém
faz parte a sua Wirkungsgeschichte, na
reflexão do célebre filósofo Hans-Georg
Gadamer, isto é, a história dos efeitos
dessa vida ou, por outras palavras, as
consequências dessa vida na História.

A experiência pascal Jesus, o
crucificado, está vivo em Deus para sempre
foi avassaladora para os discípulos. São
Paulo fez também essa experiência e,

assim, de perseguidor passou a apóstolo,
percorrendo talvez mais de 15.000
quilómetros para anunciar a Boa Nova. O
que vale um morto? Nada. O que vale um
crucificado? Ainda menos. Mas, se Jesus, o
crucificado, está vivo em Deus, isso
significa o aval de Deus a tudo quanto
Jesus disse e fez, Deus ratifica a sua
pessoa e a sua mensagem. Então, se Jesus,
o crucificado, vale para Deus, todos valem,
concluindo São Paulo que “já não há judeu
nem grego, homem ou mulher, escravo ou
livre”, pois todos valem para Deus: “foi
para a liberdade que Cristo nos libertou”,
“já não és escravo, mas filho; e, se és filho,
és também herdeiro, por graça de Deus”.
Ernst Bloch, o ateu religioso, um dos
maiores filósofos do século XX, com quem
tive o privilégio de conversar, viu bem: “O
cristianismo venceu mediante a
proclamação: ‘Eu sou a Ressurreição e a
Vida’”.

A Igreja se justifica enquanto vive,
transporta e entrega a todos, por palavras

e obras, o Evangelho de Jesus, a sua
mensagem de dignificação de todos,
mensagem que mudou a História.

3. A História lê-se de trás para a frente,
a partir do princípio, evidentemente, mas
tem sobretudo de ser lida do fim para o
princípio. Portanto, com a história e a razão
hermenêutica. No caso de Jesus e do
cristianismo, essa leitura é essencial, para
não se cair em alçapões mortais.

Frequentemente, com certas
formulações dogmáticas, acabar-se-ia por
fazer concretamente de Jesus e de sua
mãe, Maria, autênticos robôs, com tudo
pré-sabido e pré-determinado. Ora,
evidentemente, no princípio, Maria e José
não sabiam quem era aquele menino a
quem deram o nome de Jesus e
perguntaram como todos os pais: o que
será deste filho? Ele ia crescendo e umas
vezes entendiam o que estava a acontecer
e outras vezes não entendiam. Está no
Evangelho segundo São Lucas, no relato de
Jesus perdido no Templo: “Filho, porque
nos fizeste isto? Olha que teu pai e eu
andávamos aflitos à tua procura. Ele
respondeu: Não sabíeis que devia estar na
casa de meu Pai? Mas eles não
compreenderam as palavras que lhes
disse”. E Jesus ia crescendo “em sabedoria,
em estatura e em graça”. E no Evangelho
segundo São Marcos: “E quando os seus
familiares ouviram isto, saíram a ter mão
nele, pois diziam: Está fora de si”.
Os Evangelhos escrevem sobre a
realidade histórica, mas foram escritos por
quem, à luz do fim, já acreditava que Jesus
é, na confissão de São Pedro, “o Filho do
Deus vivo”. Concretamente no que se
refere aos Evangelhos ditos da infância, é
necessário ter em atenção a sua
significatividade mais do que a
historicidade. De facto, eles são
construções teológicas, colocando no
princípio a revelação do fim: Jesus é o
Messias. Se é o Messias, nele realizam-se
as profecias e as promessas de Deus.
Assim:

3. 1. O que é o Natal? Sim, é “um novo
começo”, como bem viu o famoso teólogo
Hans Küng, com quem falei várias vezes.
Também tive o privilégio de ter tido como
professor talvez o maior teólogo católico do
século XX, Karl Rahner, que escreveu:
"Quando dizemos ‘é Natal’, estamos a
dizer: (Em Jesus de Nazaré), ‘Deus disse ao
mundo a sua palavra última, a sua mais
profunda e bela palavra numa Palavra feita
carne’. E esta Palavra significa: amo-vos, a
ti, mundo, e a vós, seres humanos."
3. 2. Como foi o seu nascimento? Maria é
virgem? Jesus teve irmãos? Foi também a
Karl Rahner que ouvi pela primeira vez que
os Evangelhos e a teologia não são tratados
de biologia e anatomia.
Diz o Evangelho segundo São Lucas,
referindo a admiração dos seus
conterrâneos, quando Jesus começou a
pregar: “Donde é que isto lhe vem e que
sabedoria é esta que lhe foi dada? Não é
ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão
de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E

as suas irmãs não estão aqui entre nós? E
isto parecia-lhes escandaloso.”
Maria é bem-aventurada, não por ser a
mãe de Jesus, mas porque acreditou e se
converteu à mensagem do seu Filho, como
se lê no Evangelho segundo São Lucas:
“Enquanto Jesus falava, uma mulher,
levantando a voz do meio da multidão,
disse: Bem-aventuradas as entranhas que
te trouxeram e os seios que te
amamentaram! Ele, porém, retorquiu:
Bem-aventurados, antes, os que escutam a
Palavra de Deus e a põem em prática”.
Outro jesuíta, filósofo e teólogo, Juan
Masiá, disse, neste contexto, o essencial:
Maria é bem-aventurada “ao conceber com
José a Jesus por cooperação com o Espírito
Santo. Agraciada ao dar à luz Jesus e os
seus irmãos e irmãs. Salve!, Maria e José,
agraciados e abençoados, com todas as
mães e pais que recebem como um dom do
Espírito os filhos que procriam e, ao gerá-
los, consumam a virgindade simbólica que
se realiza na maternidade e na

paternidade. Porque não é incompatível a
união dos progenitores com a acção do
Espírito: a criatura nasce pela união dos
seus progenitores e pela graça, a força, do
Espírito Santo”.
Acrescenta: “Toda a criatura nasce em
graça original. Maria não é uma excepção.
O chamado pecado original não é originário
nem mancha. O seu nome exacto é o
pecado do mundo. A criatura, que nasce
sem nenhuma mancha, vem à luz num
mundo no qual já é vasta uma rede de
pecado. Como quem entra numa sala de
fumadores e se contamina com o fumo”.
3. 3. Quando nasceu? Ninguém sabe
exactamente, mas terá sido entre o ano 6 e
o ano 4 a.C. Parece paradoxal, mas isso
deve-se a um erro do monge Dionísio, o
Exíguo, quando no século VI quis
estabelecer precisamente a data do
nascimento de Jesus.
Evidentemente, não se pode dizer que
nasceu no dia 25 de Dezembro. O que se
passou é que, quando, nos séculos III-IV já

havia comunidades cristãs espalhadas pelo
Império Romano, a festa pagã do Dies
Natalis Solis Invicti (Natal do Sol Invicto),
associada ao solstício do Inverno, deu lugar
ao Natal cristão, pois Jesus é que é o
verdadeiro Sol, a Luz invencível.
3. 4. Onde nasceu? É quase certo que
Jesus nasceu em Nazaré, por isso lhe
chamavam o Nazareno. Mas, se ele,
segundo a fé, é o Messias, então ele é o
verdadeiro rei, da linhagem de David, que
era de Belém. E puseram-no a nascer em
Belém.
3. 5. Os pastores foram os primeiros
avisados, porque Deus manifestou a sua
salvação a todos, a começar pelos que
constituíam a classe baixa dos pequenos e
pobres e viviam à margem da prática
religiosa.
3. 6. E os magos vieram do Oriente? E
quantos eram? E viram uma estrela sobre a
manjedoura?
Será inútil procurar nessa data algum
sinal especial no céu, porque, mais uma

vez, os Evangelhos também não são
nenhum tratado de astronomia. Eles vêm
do Oriente, porque “ex Oriente lux” (a luz
vem do Oriente) e Jesus é a verdadeira luz.
E o salvador veio para todos, também para
os pagãos. E Herodes não precisava de se
preocupar com a notícia, porque Jesus é
rei, mas o seu reino implica um reinado de
serviço e não de domínio.
3. 7. E, claro, a chamada fuga para o
Egipto não aconteceu, é apenas uma
metáfora para dizer que Jesus é que é o
verdadeiro novo Moisés, porque é o
Libertador definitivo de toda a escravidão e
opressão, incluindo a libertação da morte.
Como Jesus não morreu para o nada, mas
para a plenitude da vida em Deus, com a fé
nele nasceu para todos a esperança da vida
plena e definitiva em Deus.
4. Para todos, cada uma e cada um, de
coração, vai o meu vivo desejo de um novo
ano de 2026 bom, realmente bom, e feliz.
Com Jesus.
Sábado, 3 de Janeiro de 2026