Crónicas PÁRA E PENSA
O clamor por Deus
e a esperança final
1. Quem põe em dúvida que vivemos tempos
temíveis, brutais, de horrores sem fim? Ele há as
guerras, aquelas de que se fala e as outras de que
se não fala — por exemplo a do Sudão —,
multiplicando os seus campos de destruição e
ruinas, e os montões de cadáveres crescem e
crescem e crescem... E as crianças — tantas até
raptadas são — a gritar e as mulheres violadas, e
a fome não deixa de aumentar: todos os dias pelo
menos 8.000 crianças morrem por causa da fome.
E são milhões de milhões de euros que se gastam
em novos armamentos. Os prepotentes esmagam
os povos e os direitos das maiorias, e, vivendo
nós hoje em total interligação e interdependência,
quase todos no mundo acabam por ser vítimas
dessa prepotência. E lá andam todos numa
correria vertiginosa, todos ou quase todos a
dedar nas redes, e quem se lembra que brain rot
(apodrecimento do cérebro, cérebro apodrecido)
foi o termo considerado como a palavra do ano
pela Universidade de Oxford em 2024?...
Não creio que sejamos piores do que no
passado. Mas há uma questão terrível: temos
poder a mais. Pela primeira vez, a Humanidade
— basta pensar no armamento atómico — pode
pôr termo a si mesma. E há a IA, com imensas
vantagens, mas alguém pode dizer aonde nos
levará? E a crise climática... e os “cérebros
apodrecidos”?
Neste contexto, não deveria esquecer-se a
pergunta: Onde está o ser humano?, mas são mais
a perguntar: Onde está Deus?
Nestas circunstâncias — e não vou esquecer
também, por exemplo, as enfermarias dos
hospitais, verdadeiros acampamentos de dor e
solidão, os presos, os lares de idosos, as vítimas
de abusos de todo o género, os jovens com
ansiedade crescente... —, ainda em tempo de
Páscoa, alguns textos célebres podem vir ao nosso
encontro... Dou exemplos.
2. Para exprimir a sua consternação perante as
vítimas da História, todos os horrores do passado
e todos os mortos, “as ruínas da história”, Walter
Benjamin, da Escola de Frankfurt, que, numa
fuga falhada à perseguição nazi, se suicidou,
serviu-se de um quadro famoso do pintor suíço,
Paul Klee, chamado “Angelus Novus” e deixou-
nos o célebre texto sobre “O anjo da história”:
“Há um quadro de Klee que se chama Angelus
Novus. Nele representa-se um anjo que parece
como se estivesse a ponto de afastar-se de algo
que o tem atordoado. Os seus olhos estão
desmesuradamente abertos, a boca também
aberta e as asas estão completamente estendidas.
E este deve ser o aspecto do anjo da história.
Voltou o rosto para o passado. Onde a nós se nos
manifesta uma cadeia de dados, ele vê uma
catástrofe única que amontoa incansavelmente
ruina sobre ruina, lançando-as a seus pés. Ele
bem quereria deter-se, despertar os mortos e
recompor o despedaçado. Mas a partir do paraíso
sopra um furacão que se enredou nas suas asas e
que é tão forte que o anjo já não consegue fechá-
las. Este furacão empurra-o irresistivelmente para
o futuro, para o qual ele está de costas, enquanto
os montões de ruinas crescem perante ele até ao
céu. Este furacão é o que nós chamamos
progresso”.
Estamos, na opinião de Manuel Fraijó, perante
um texto-chave da filosofia do século XX.
Benjamin era ateu, mas não o abandonava a
pergunta pelos mortos e, concretamente, pelas
vítimas inocentes da História...
3. No ano de 1796, Jean Paul (pseudónimo de
Johann Paul Friedrich Richter) escreveu um dos
textos mais sublimes e ao mesmo tempo mais
terríveis da grande literatura alemã: Rede des toten
Christus vom Welgebäude herab, dass kein Gott sei
(Discurso do Cristo morto, desde o cume do
mundo, sobre a não existência de Deus).
Nele, o grande escritor descreve um sonho.
Pela meia noite e em pleno cemitério, numa visão
apavorante, o olhar estende-se até aos confins da
noite cósmica esvaziada, os túmulos estão
abertos, e, num universo que se abala, as sombras
voláteis dos mortos estremecem, aguardando,
aparentemente, a ressurreição. É então que, a
partir do alto, surge Cristo, uma figura
eminentemente nobre e arrasada por uma dor
sem nome. E, com um terrível pressentimento,
“os mortos todos gritam-lhe: ‘Cristo, não há
Deus?’ Ele respondeu: ‘Não, não há Deus’. Então,
a sombra de cada morto estremeceu, e umas a
seguir às outras desconjuntaram-se. E Cristo
continuou, anunciando o que aconteceu no
instante da sua própria morte: ‘Atravessei os
mundos, subi até aos sóis, voei com as galáxias
através dos desertos do céu; e não há Deus. Desci
até onde o ser estende as suas sombras, e olhei
para o abismo, gritando: ‘Pai, onde estás?’ Mas
apenas ouvi a tormenta eterna, que ninguém
governa”. Quando, no espaço incomensurável,
procurou o olhar divino, não o encontrou; apenas
o cosmos infindo o fixou petrificado “com uma
órbita ocular vazia e sem fundo, e a eternidade
jazia sobre o caos e roía-o e ruminava-se”. O
coração rebentou de dor, quando as crianças
sepultadas no cemitério se lançaram para Cristo,
perguntando: ‘Jesus, não temos Pai?’ E ele,
debulhado em lágrimas, respondeu: ‘Somos
todos órfãos, eu e vós, não temos Pai’. “Nada
imóvel, petrificado e mudo! Necessidade fria e
eterna! Acaso louco e absurdo! Como estamos
todos tão sós na tumba ilimitada do universo! Eu
estou apenas junto de mim. Ó Pai, ó Pai! Onde
está o teu peito infinito, para descansar nele? Ah!
Se cada eu é o seu próprio criador e pai, porque é
que não há-de poder ser também o seu próprio
exterminador?”
Para Jean Paul, a morte de Deus não é ainda
um destino espiritual inevitável, mas apenas a
tentação de uma possibilidade ameaçadora,
contra a qual quer prevenir. Quando acordou do
pesadelo ateu, a sua alma “chorava de alegria,
por poder de novo adorar a Deus — e a alegria e
o choro e a fé nele era a oração”.
4. Um século depois (1882), o louco de
Nietzsche proclamou a morte de Deus: “O louco
saltou para o meio deles e trespassou-os com o
olhar. ‘Quem vos vai dizer o que é feito de Deus
sou eu’, gritou! “Quem o matou fomos todos nós, vós
mesmos e eu!”
“Nunca existiu acto mais grandioso”. Mas, ao
mesmo tempo, Nietzsche não se mostra
completamente eufórico. “Para onde vamos nós,
agora? Não estaremos a precipitar-nos para todo
o sempre? Não andaremos errantes através de
um nada infinito? Não estará a ser noite para
todo o sempre, e cada vez mais noite?”
5. O filósofo Gilles Lipovetstky escreveu, em A
Era do Vazio, comentando, que Deus morreu e as
pessoas não estão preocupadas com isso. Mas
outro filósofo, agnóstico, Leszek Kolakowski,
disse que o nosso “é um mundo privado de todo
o sentido, de qualquer orientação, sinal de
direcção, estrutura”, de tal modo que, desde a
proclamação da morte de Deus por Nietzsche,
“praticamente nunca mais houve ateus serenos”:
“A ausência de Deus tornou-se a ferida sempre
aberta do espírito europeu, por maior que tenha
sido o esforço para esquecê-lo, recorrendo a toda
a espécie de narcótico.” De qualquer forma no
seu livro mais recente, A Sociedade da Decepção
(2012), Lipovetsky, reconhecendo “a reafirmação
do religioso”, veio dizer que, “privados de
sistemas de sentido englobante, numerosos
indivíduos encontram uma tábua de salvação no
reinvestimento de antigas e novas
espiritualidades capaz de oferecer a unidade, um
sentido, referências, uma integração comunitária:
é o que o ser humano necessita para combater a
angústia do caos, a incerteza e o vazio.”
6. Lá está, sempre, a sublevação dos versos de
Heinrich Heine: “E continuamos
perguntando,/uma e outra vez,/até que um
punhado de terra/nos cale a boca./Mas isto é uma
resposta?”
7. E há, tocando o absurdo, aquela pergunta
terrível, pergunta-limite: se soubessem o que
agora sabem pela experiência vivida e a morte no
fim, quantos, quantas, se pudessem escolher,
teriam escolhido vir à existência?
É nesta pergunta-limite, entre ser e não ser,
finito-infinito, que, em confiança racional, pode
dar-se a experiência da verdade salvadora do
Evangelho: Jesus anunciou por palavras e obras o
Evangelho, notícia boa e felicitante, a melhor
notícia que a Humanidade alguma vez ouviu:
Deus é bom, Pai-Mãe, e só quer a alegria, a
felicidade, a plena realização de todos os seus
filhos e filhas, e Jesus, que sabia que nem todos
estavam de acordo com esta mensagem, não se
acobardou, foi até ao fim para dar testemunho da
Verdade e do Amor e, julgado como blasfemo
religioso e subversivo político, foi condenado à
morte e morte de cruz, a morte mais horrenda,
rezando aquela oração que atravessa os séculos:
“Meu Deus, meu Deus, porque é que me
abandonaste?”, e Deus infinitamente poderoso e
bom não o deixou na morte, ele está vivo na
plenitude da vida em Deus para sempre, como
desafio e esperança para todos..., para mim.
Sábado, 25 de Abril de 2026