Crónicas PÁRA E PENSA
A Páscoa:
não à opressão e à morte
Nota introdutória: Na semana passada, não
houve crónica. A razão é simples: estive
internado no hospital. Aí, paramos mesmo e,
queiramos ou não, somos obrigados a pensar.
Quero agradecer, de coração, a tantos e tantas
que, tendo sabido, quiseram manifestar a sua
solidariedade. Nestas circunstâncias,
conhecemos verdadeiramente os amigos reais:
“precisa de alguma coisa?; em que posso
ajudar?; já sabe: se precisar de alguma coisa, é só
dizer; disponha, por favor...”. E a gente sabe que
é verdade.
não à opressão e à morte
Nota introdutória: Na semana passada, não
houve crónica. A razão é simples: estive
internado no hospital. Aí, paramos mesmo e,
queiramos ou não, somos obrigados a pensar.
Quero agradecer, de coração, a tantos e tantas
que, tendo sabido, quiseram manifestar a sua
solidariedade. Nestas circunstâncias,
conhecemos verdadeiramente os amigos reais:
“precisa de alguma coisa?; em que posso
ajudar?; já sabe: se precisar de alguma coisa, é só
dizer; disponha, por favor...”. E a gente sabe que
é verdade.
E aí fica a crónica prevista:
O famoso filósofo Johann Gottlieb
Fichte tem um texto com perguntas que
todo o ser humano, minimamente atento à
vida, alguma vez fez, pois são perguntas
que ele transporta consigo, melhor, que ele
é.
O filósofo alemão escreveu que o ser
humano não deixará facilmente de resistir a
uma vida que consista em “eu comer e
beber para apenas logo a seguir voltar a ter
fome e sede e poder de novo comer e beber
até que se abra debaixo dos meus pés o
sepulcro que me devore e seja eu próprio
alimento que brota do solo”; como poderei
aceitar a ideia de que tudo gira à volta de
“gerar seres semelhantes a mim para que
também eles comam e bebam e morram e
deixem atrás de si outros seres que façam o
mesmo que eu fiz? Para quê este círculo que
gira sem cessar à volta de si?... Para quê este
horror, que incessantemente se devora a si
mesmo, para de novo poder gerar-se,
gerando-se, para poder de novo devorar-
se?”
Também Ernst Bloch, o filósofo ateu
religioso, com quem tive o privilégio de
conversar, escreveu que o Homem nunca
há-de contentar-se com o cadáver.
Há aquelas perguntas in-finitas: Quem
sou? Para onde vou? Onde estarei quando
cá já não estiver?
E o dramático é que, por um lado, a vida
depois da morte é completamente não
figurável – para lá do espaço e do tempo,
não é possível qualquer representação.
Nunca poderei dizer: morri, estou morto --
serão outros a dar a notícia.
Por outro lado, é insuportável acabar,
andar, na vida, de sentido em sentido e, no
fim, afundar-se no nada – não ir para lado
nenhum. Sendo o Homem “alguém”, quem
afirma o nada no termo vê-se confrontado
com a pergunta: como se passa de “alguém”
a “ninguém”? Como conceber uma
consciência morta? Afinal, o que era antes
de morrer? Se tudo desembocasse no nada,
qual seria a distinção entre bem e mal,
honestidade e desonestidade, honradez e
mentira, verdade e falsidade, já que no fim
tudo se afundaria no nada e tudo seria o
mesmo: precisamente nada?
Nos seus inícios, o cristianismo triunfou,
porque a uma sociedade angustiada com a
morte se apresentou com a promessa
inaudita da esperança na ressurreição. Mas
hoje a morte é tabu, e a ressurreição dos
mortos e a vida eterna tornaram-se não
plausíveis e sem interesse. Parece que as
pessoas se contentam com o consumo
diletante, entretidos na corrida louca duma
agitação paralisante, desfrutando instantes e
entregando-se à morte inevitável, numa
espécie de melancolia resignada.
E não será assim porque hoje se ama
pouco, pois só o amor requer eternidade?
Mas então, numa sociedade sem eternidade,
o que resta são só instantes, que não podem
fazer texto nem encontrar sentido último,
porque se devoram uns aos outros.
Para quem se não perdeu na superfície
da banalidade, a Páscoa, no seu sentido de
passagem, é a experiência do transcender
constitutivo do ser ser humano. O Homem
nunca se contenta com o dado nem com os
factos brutos: vai sempre além, num além
sem limites, transgredindo, pela esperança,
as próprias fronteiras da morte.
Na perspectiva bíblica. a primeira
Páscoa é a do Antigo Testamento e consiste
na libertação da escravidão no Egipto: Deus
não aceita a opressão. A segunda Páscoa é a
culminação da primeira: Deus não tolera a
morte. Jesus crucificado não morreu para o
nada, mas para o interior de Deus, que é a
Vida eterna. Como diz São Paulo na Carta
aos Romanos, o Deus que cria a partir do
nada ressuscita os mortos.
É tão próprio do ser humano saber que é
mortal como esperar para lá morte. Mas é
mesmo de esperança que se trata, pois a
morte é a experiência de que o ser humano
não pode dar a si mesmo a salvação – ela é
dom de Deus. O Novo Testamento só utiliza
a palavra imortalidade duas vezes: uma em
que se diz que só Deus possui a
imortalidade, e outra em que se afirma que
o nosso corpo mortal há-de revestir-se da
imortalidade da ressurreição, o que significa
que a imortalidade é um dom.
Então, como escreveu o teólogo José I.
González Faus, o crente dirá ao não crente:
espero que no fim, para lá da morte,
encontrarás esse Pai ou Mãe ou essa Luz de
braços abertos para ti, encontrarás esse
Mistério último acolhedor.
Mas o não crente poderá responder ao
crente: verás a surpresa que vais ter quando
vires que não há nada.
Aí, ao crente só resta a resposta: valeu a
pena viver como vivi, se vivi no bem.
Acreditando, a minha vida foi mais
humana, abriu-se a mais dimensões da
realidade, encontrou Fundamento e Sentido
último. A prova de que a fé dos crentes não
é vã só pode ser a luta contra todas as
formas de morte: a fome, a guerra, a
injustiça, e a favor da liberdade, da
dignidade, da paz, da realização plena de
todos os seres humanos.
Sábado, 18 de Abril de 2026
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