MEMORIAL DESTA
PÁSCOA
Frei Bento Domingues,
O.P.
19 Abril 2026
1. Continuamos a celebrar o tempo pascal. Como já
escrevi, nestas crónicas, todos os Domingos deveriam ser pascais, afectando
todos os dias da semana. De forma muito solene, «todos os anos, relembra-se a
paixão e a ressurreição de Jesus como algo que está a acontecer dentro de cada
pessoa, em tempo real», como disse Frederico Lourenço, em entrevista à Ecclesia
(05/04/2026). As celebrações da fé cristã não podem ser indiferentes aos
acontecimentos contemporâneos das sociedades.
Os meios de comunicação social têm revelado a brutalidade
das guerras. O Papa Francisco já tinha alertado o mundo de que estávamos a
viver uma terceira guerra mundial aos pedaços. Os acontecimentos deste tempo
pascal mostram que já estamos em guerras que tocam o mundo inteiro.
António Barreto, colunista do Público, sintetizou a situação
mundial em que nos encontramos: «Sabemos que os próximos tempos vão ser difíceis.
A situação na Europa, no Próximo Oriente, na Ucrânia e na Rússia, para já não
falar da África, é de horror e terror. Economias de rastos. Custo de vida
explosivo. Os piores conflitos armados desde há décadas. As duas grandes
potências militares, Estados Unidos e Rússia, envolvidas em terríveis guerras.
Crise de energia sem dúvida. Crise nas bolsas, no comércio e nos transportes
internacionais. Fome e guerra civil em África. Movimentos militares em vários
continentes. Há muitas décadas que não se via nada parecido».
Para conhecer a polémica entre Trump e o Papa Leão XIV pode
ler também, no Público (13.04.2026), a notícia: Trump diz que Papa é
“péssimo” e Leão XIV promete continuar a defender a paz.
Leão XIV, que
ressalvou não querer entrar em debate com o Presidente dos EUA, não se coibiu
de condenar a forma como “a mensagem do Evangelho” está a ser “tratada de forma
abusiva”. E garantiu que se continuará a “manifestar veementemente contra a
guerra, procurando promover a paz, o diálogo e as relações multilaterais entre
os Estados, para encontrar soluções justas para os problemas”.
“Há demasiadas pessoas a sofrer no mundo de hoje, demasiadas
pessoas inocentes estão a ser mortas. E acho que alguém tem de se levantar e
dizer que há uma maneira melhor. A mensagem da Igreja, a minha mensagem, a
mensagem do Evangelho: bem-aventurados os pacificadores”, declarou.
O arcebispo de Washington, cardeal Robert McElroy, manifestou
que, neste momento crítico, «como discípulos de Jesus Cristo chamados a ser
pacificadores no mundo, devemos responder em voz alta e em uníssono: Não. Não
em nosso nome. Não neste momento. Não com o nosso país».
É neste mundo que nos cabe dar testemunho da fé cristã.
Infelizmente, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) perdeu-se, ao não se
confrontar com os meios de comunicação sobre as vítimas de abusos sexuais e não
só, antes de tomar decisões que considera irreversíveis. Agora, não se pode
queixar da liberdade de quem comenta e contesta essas decisões. O poder
exclusivo de uma instituição, como a CEP, mostra-nos que esse é o caminho da
perdição. Não foi um bom serviço que prestou à vocação da Igreja que existe
para ajudar todas as pessoas, sobretudo as mais afectadas por comportamentos vergonhosos,
dentro e fora da Igreja.
2. Não podemos ficar colados aos tristes
comportamentos que ofendem o sentido cristão da Páscoa. O próprio do
cristianismo é um processo de conversão permanente, a nível individual e comunitário,
de conversão aos caminhos da alegria. Nietzsche dizia que os cristãos estavam
sempre em sexta-feira santa. Esquecia que também esse dia é por causa da nossa
alegria, da nossa libertação. A tristeza não pode ser celebrada.
O antropólogo e músico, Alfredo Teixeira, que tem musicado
vários poemas de José Augusto Mourão, O.P. (1947-2011), nesta Páscoa, publicou,
no 7Margens, um texto construído com essa singular poesia. Deixo, aqui, extractos
desse poema pascal.
Não pode a morte reter-me na cruz / Não pode o
mundo arrancar-me à raiz. / Não poderá corromper-se a alegria / Não
pode o fogo extinguir-se no céu. / Não pode a morte apagar o desejo
/ De ver a Deus face a face e viver. / A Deus busquei toda a vida e
vivi / De acreditar no infinito da vida. / Já ouço a voz do Senhor
Deus dos vivos / Já ouço a voz do amigo que vem.
«A esperança cristã não se constrói no exílio da experiência
do mundo, mas por meio dela, afinando a escuta para os sons que não se impõem
pela evidência. A linguagem da amizade corrige a tentação de imaginar Deus como
distância absoluta».
3. A arte de entrosar o passado e o presente foi-nos
oferecida, de forma divertida, pelo evangelista S. Lucas[i]. Escreveu um conto – os
Discípulos de Emaús – como se fosse acerca do passado para dizer o que
sempre acontece numa verdadeira comunidade cristã. Imaginou dois dos
discípulos, tristes e desiludidos pelo que aconteceu ao seu Mestre e sem
esperança na ressurreição prometida. O interessante do conto é que o próprio
Jesus entrou no grupo e na discussão do que tinha sido o seu julgamento. Eles
estranham a ignorância e a distracção deste forasteiro e explicaram-lhe, com
todos os pormenores, o que lhe tinha acontecido. Este mostra-se muito
interessado. Acabam por acrescentar: é verdade que algumas mulheres, que são
dos nossos, nos assustaram; foram ao sepulcro e vieram dizer que tiveram umas
visões e que Ele está vivo. Os homens verificaram a narrativa das mulheres, mas
não O viram.
Aí, o forasteiro explicou-lhes que não estavam a entender o
que tinha acontecido. Não se dá por achado e explicou-lhes, a partir das
Escrituras, o que a esse estranho personagem dizia respeito. Estando os
discípulos perto da aldeia para onde iam, Jesus fez de conta que seguia viagem.
Pediram-lhe para ficar com eles, pois já era tarde. Ficou e tomou conta da casa
e da mesa. Tomou o pão partiu-o,
distribuiu-o e deixaram de O ver. O espanto: enquanto O viram, não O viram.
Quando O não viram, reconheceram-no no gesto eucarístico, ao partir o pão.
Este é um verdadeiro conto exemplar. Jesus Cristo é o
clandestino da vida humana. Não damos por Ele, mas Ele anda sempre connosco. A
celebração da Eucaristia implica uma ponte entre o quotidiano e a celebração.
Mas sem o acolhimento do desconhecido não acontece nada. Certamente que Jesus
não tinha uma forma especial de partir pão. Mas é Ele que é o pão da vida. A
celebração semanal da Eucaristia serve para não perder a memória de Jesus, a
transformação do presente e a abertura à esperança.
Pertence ao memorial desta Páscoa o grande livro de Miguel
Oliveira da Silva[ii].
A Páscoa em andamento, a Páscoa que tem futuro, é a do Papa Leão XIV, em missão
pela África explorada. Bendita a hora em que foi eleito!
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