segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

A dignidade humana e o seu fundamento - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

A dignidade humana
e o seu fundamento

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia

Todos os homens e mulheres são iguais, porque são
pessoas. O ser humano, porque é racional e livre, faz a
experiência de autoposse, de ser dono de si, responsável
por si e pelo que faz. Portanto, é pessoa e não coisa. Os
outros animais não são coisas, mas não são pessoas.

Historicamente, foi decisivo o contributo do
cristianismo para a noção de pessoa e de que todo o ser
humano é pessoa. Na Grécia e em Roma, ser humano e
pessoa não eram sinónimos, pois só os cidadãos livres
eram sujeitos de plenos direitos e deveres. O cristianismo
afirmou e afirma que todo o ser humano homem,
mulher, escravo, deficiente... é pessoa, com dignidade
inviolável, porque é filho de Deus. O filósofo Immanuel
Kant, a partir daqui, reflectirá filosoficamente, concluindo
que as coisas são meios para outra coisa e, por isso, têm
um preço; mas nenhum ser humano pode ser tratado
como simples meio, pois é fim e, por isso, não tem preço,
mas dignidade. É nesta dignidade que se fundamentam os
direitos humanos nas suas várias gerações.

O Papa Francisco falou de diferentes crises,
examinando ao mesmo tempo “as oportunidades que
delas derivam para construir um mundo mais humano,
justo, solidário e pacífico”. O ponto central é a dignidade
inviolável da pessoa humana. Tendo I. Kant em fundo,
disse: “Cada pessoa humana é um fim em si mesma,
nunca um simples instrumento cujo valor é medido só
pela sua utilidade, e foi criada para conviver na família, na
comunidade, na sociedade, onde todos os membros têm
a mesma dignidade. Desta dignidade derivam os direitos
humanos, bem como os deveres”, e lembrava, por
exemplo, a responsabilidade de acolher e ajudar os
pobres, os doente, os marginalizados. “Se se suprime o
direito à vida dos mais débeis, como se poderá garantir de
facto todos os outros direitos?”.

Aqui, impõe-se perguntar: qual é o fundamento da
dignidade da pessoa humana, fim em si mesma e não
simples meio? Pessoalmente, defendo que esse
fundamento se mostra e se encontra na constituição do
ser humano, constituição que o faz perguntar, mas de tal
modo que, de pergunta em pergunta, inevitavelmente
chegará à pergunta pelo Infinito. Nesta capacidade de
perguntar ao Infinito pelo Infinito, em última análise, por
Deus, mostra-se que o Homem tem em si algo de infinito.
E só o Infinito é fim e não meio: na verdade, o que é que
há para lá do Infinito? Por isso, a pessoa humana é livre e
faz a experiência da liberdade no ser dada a si mesma.
Cada um, cada uma, é senhor, senhora, de si mesmo, de si
mesma, e das suas acções, autopossui-se, é dono, dona
de si e das suas acções, respondendo por elas: é
responsável.

Sábado, 17 de Janeiro de 2026

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