sábado, 10 de janeiro de 2026

O fardo da dignidade da liberdade - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 O fardo da dignidade da liberdade

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia

Aparentemente, não há nada para o homem que ele

tanto preze como a liberdade. Mas, tendo de optar entre

a segurança — intelectual, espiritual, psicológica, social,

económica, política, religiosa — e a liberdade, não se sabe

quantos ficariam do lado desta e não daquela, do lado da

liberdade e não da segurança.

Fiódor Dostoiévski disse-o de modo ácido e também

sublime num texto em que também se critica com justiça

a Igreja de Roma. Fá-lo em Os Irmãos Karamázov, no

poema de Ivan com o nome "O Grande Inquisidor". A

história passa-se em Espanha, em Sevilha, nos tempos

terríveis da Inquisição, precisamente no dia a seguir a um

"magnificente auto-de-fé" em que foram queimados de

uma assentada, na presença do rei, da corte, dos cardeais

e das damas mais encantadoras da corte e da numerosa

população de Sevilha, quase uma centena de hereges.

Cristo "apareceu, devagarinho, sem querer dar nas vistas

e... coisa estranha, toda a gente O reconhece." Mas o

cardeal inquisidor aponta o dedo e manda que os guardas

O prendam. E é num calabouço do Santo Ofício que lhe

diz que no dia seguinte O queima na fogueira como ao

pior dos hereges. E a razão é que a liberdade de fé tinha

sido para Cristo a coisa mais preciosa. Não foi Ele que

disse tantas vezes: "Quero tornar-vos livres?"

Cristo, afinal, não percebeu que "o homem não tem

preocupação mais torturante do que encontrar alguém

em quem possa delegar o mais depressa possível a dádiva

da sua liberdade." "Em vez de Te apoderares da liberdade

das pessoas, acrescentaste ainda mais à sua liberdade!",

diz-lhe o inquisidor. "Esqueceste-Te de que a

tranquilidade e até a morte são mais queridas para o

homem do que a escolha livre do bem e do mal? Não há

nada mais sedutor para o homem do que a liberdade da

sua consciência, mas também não há nada mais

torturante." Assim, ao longo de quinze séculos, os

hierarcas eclesiásticos corrigiram a façanha de Cristo,

baseando-a em milagre, mistério e autoridade. Agora,

todos sabem em que é que hão-de acreditar e o que é

que hão-de fazer, sem terem de perguntar porquê nem de

escolher. "E as pessoas ficaram contentes por serem de

novo guiadas como um rebanho e por ter sido tirada dos

seus corações a dádiva terrível que tanto sofrimento lhes

causava."

Como única resposta o prisioneiro beijou-o, e o velho

cardeal vai até à porta, abre-a e diz: "Vai-te embora e não

voltes mais... não voltes... nunca, nunca!"

O homem angustia-se com a liberdade. Porque ser livre

quer dizer ser senhor de si e dos seus actos e ter de

escolher e ter de responder por si e pelo mundo e pelos

outros. Ter de escolher é para o ser humano, que quer

tudo e todos os caminhos, ter de escolher algo e um

caminho só de cada vez e ter de renunciar a tantas outras

possibilidades, sem poder ficar com tudo, na consciência

disso. Ser livre quer dizer entrar na urgência de um

projecto e poder falhar e, num tempo irreversível, que

inexoravelmente caminha para a morte, nunca mais ter

tempo para remediar, para refazer, para fazer outra coisa

e um ser si mesmo outro: é tudo sempre pela primeira e

última vez, sem ensaios...

A angústia da liberdade e da responsabilidade e a

busca falaz da segurança explicam a facilidade da entrega

a poderes totalitários, a seitas cegas, a colonizadores de

corpos e de almas, a vendedores de "verdades e certezas"

tapadas e irracionais.

A liberdade é condição de possibilidade da ética. Mas

até do ponto de vista das raízes etimológicas gregas —

ethos com épsilon e ethos com eta, que significam,

respectivamente, acção, costume, modo habitual de agir,

e toca do animal, morada, casa — se diz que a questão

ética é indissociável da pergunta pela nossa morada

enquanto horizonte de sentido, pátria onde se quer

habitar. Sim! Afinal, para onde queremos ir? Na presente

situação de hecatombe político-moral num mundo

enlouquecido, para onde vamos sem uma conversão

ética?

Ao contrário do animal, que vem ao mundo já feito e

age no quadro de uma rede de instintos, o homem vem

ao mundo praticamente desarmado de instintos e aberto

a possibilidades sem conta e tendo de fazer-se a si mesmo

no mundo com os outros. Pode escolher entre esta e

aquela possibilidade, até tem a capacidade de não

escolher, mas quem tenta escolher não escolher também

escolhe. De qualquer modo, é capaz de erguer-se a si

mesmo acima dos apetites, do simplesmente agradável

ou útil e colocar-se no lugar do outro. Transcende os

interesses particulares da natureza e enquanto ser

racional dá a si mesmo de modo autónomo a lei moral

universal que é a lei da liberdade. Kant formulou-a nestes

termos: "Age segundo uma máxima que queiras ao

mesmo tempo que se transforme em lei universal de

acção", ou então: "Trata a humanidade em ti e nos outros

sempre como fim e nunca como simples meio." As coisas

são meios e, por isso, têm um preço. O ser humano é fim

e, por isso, não tem preço, tem dignidade.

Sem capacidade moral e liberdade — a liberdade é a

condição de possibilidade da moralidade e,

consequentemente, da responsabilidade (responder pelo

que se faz ou não e como se faz) —, o homem não seria

digno de louvor nem estaria sujeito à censura, e não

haveria distinção entre o bem e o mal. Como escreveu o

filósofo Luc Ferry, que foi Ministro da Educação da

França, "um materialismo consequente deveria limitar-se,

sempre, a uma 'etologia', sem nunca falar de moral a não

ser como uma ilusão mais ou menos necessária, fazendo

parte do real mas, sem embargo, enganadora". Embora

condicionado, só porque não é completamente

subordinado nem guiado pela natureza é que o ser

humano "pode cometer excessos, quer no mal (o ódio e a

maldade) quer no bem (o amor e a generosidade)".

Sábado, 10 de Janeiro de 2026

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