Para se entender o que se passa com as
narrativas dos Evangelhos à volta do Natal,
há pressupostos fundamentais.
1. Em primeiro lugar, a fé cristã dirige-se
a uma pessoa, Jesus confessado como o
Cristo (o Messias) e, através dele, a Deus
que Jesus revelou como Pai e poderemos e
deveremos dizer também como Mãe (Pai-
Mãe), com todas as consequências que daí
derivam para a existência.
O que diz o Credo cristão, símbolo da fé?
“Creio em Jesus Cristo. Gerado, não criado,
consubstancial ao Pai. Nasceu da Virgem
Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi
crucificado, ressuscitou ao terceiro dia.”
Segundo a fé cristã, isto é verdade? Sim, é
verdade, mas é preciso dar atenção ao
“consubstancial”. De facto, como mostrei
no artigo da semana passada — “E vós
quem dizeis que eu sou?” —, Jesus nunca
se declarou a si mesmo Deus: veja-se, por
exemplo, como no Evangelho a alguém que
o chamou “bom mestre”, respondeu:
“Porque me chamas bom? Ninguém é bom
senão só Deus”. De qualquer modo,
recitando o Credo, segue-se a pergunta
fundamental: o que deriva dessas
afirmações para a nossa existência de
homens e mulheres, cristãos ou não? O
Credo é teologia dogmática, especulativa,
em contexto linguístico da ontologia grega,
como mostrei aqui no texto da semana
passada. Ora, a teologia dogmática tem
que ver com doutrinas e dogmas, com uma
estrutura essencialmente filosófica.
Pergunta-se: os dogmas movem alguém,
convertem alguém, transformam a
existência para o melhor, dizem-nos
verdadeiramente quem é Deus para os
seres humanos e estes para Deus?
Exemplos mais concretos, um do Antigo
Testamento e outro do Novo, até para se
perceber a passagem do universo hebraico
em que Jesus se moveu e o universo grego
no qual aparecem redigidos os Evangelhos.
No capítulo 3 do livro do Êxodo aparece a
manifestação de Deus na sarça ardente e
Moisés dirige-se a Deus: se me
perguntarem qual é o teu nome, que devo
responder-lhes? E Deus: “Eu sou aquele
que sou”. Dir-lhes-ás: “Eu sou” enviou-me
a vós. A fórmula em hebraico: ehyeh asher
ehyeh (“eu sou quem sou”, “eu sou o que
sou”) é o modo de dizer que Deus está
acima de todo o nome, pois é
Transcendência pura, que não está à mercê
dos homens, mas diz também (a ontologia
hebraica é dinâmica) o que Deus faz: Eu
sou aquele que está convosco na história
da libertação, que vos acompanha no
caminho da liberdade e da salvação.
Depois, com a tradução dos Setenta,
compreendeu-se este ehyeh asher ehyeh
como “Eu sou aquele que é”, “Eu sou
aquele que sou”, o Absoluto. Filosofando
sobre Deus, a partir daqui, Santo Tomás de
Aquino dirá que Deus é “Ipsum Esse
Subsistens” (O próprio ser subsistente),
Aquele cuja essência é a sua existência.
Isto é verdade, mas significa o quê para
iluminar a existência? Perdeu-se a dinâmica
do Deus que está presente e acompanha a
Humanidade na história da libertação
salvadora.
No Novo Testamento, João Baptista,
preso, mandou os discípulos perguntar a
Jesus se ele era o que estava para vir, o
Messias. Jesus não afirmou nem negou.
Mas deu uma resposta existencial, prática:
“Ide dizer-lhe o que vistes e ouvistes: os
coxos andam, os cegos vêem, a Boa Nova é
anunciada, a libertação avança, a salvação
está em marcha”.
O que é que isto significa? A teologia, a
partir da Bíblia, é, antes de mais, teologia
narrativa e não dogmática. Quer dizer: tem
uma estrutura existencial, histórica. Na
teologia especulativa, o centro de interesse
é o ser; na teologia narrativa, o decisivo é
o que acontece. Assim, na perspectiva
cristã, o essencial consiste na pergunta: O
que é que acontece quando Deus está
presente? Na linha dogmático-doutrinal,
exige-se e até se pode dar um
assentimento intelectual, subordinando-se,
mas a existência continua inalterada.
Corre-se então o perigo de uma “fé” em
fórmulas doutrinais coisistas, petrificadas,
sem qualquer transformação da vida, que é
o que acontece tão frequentemente. Ora, a
vida cristã, se quiser ser verdadeiramente
cristã, no discipulado de Jesus, tem de ser
determinada mais pela ortopráxis — a
acção correcta, boa — do que pela
ortodoxia, embora, evidentemente, sem
menosprezar a ortodoxia, segundo uma
hermenêutica adequada: Jesus louvou a
cananeia pela sua fé, que não era ortodoxa,
deu como exemplo o samaritano, que não
seguia a ortodoxia, mas praticava a
misericórdia, e, sobretudo, leia-se o
Evangelho segundo São Mateus, no capítulo
25 sobre o Juízo Final, no qual não há
perguntas sobre fórmulas teóricas
religiosas, mas sobre a prática: “Destes-me
de comer, de beber, vestistes-me,
visitastes-me na cadeia e no hospital...”.
2. Não há figura mais estudada do que
Jesus Cristo e não há hoje nenhum
historiador sério que negue a sua existência
histórica. E sabe-se que frequentava a
sinagoga, trabalhou no duro como tekton,
que é mais do que um carpinteiro (ele
trabalhava a madeira e outros materiais,
tanto na construção de uma casa como de
instrumentos agrícolas), portanto,
poderíamos dizer: um artesão.
Fez a experiência funda e única de Deus
como Abbá, Paizinho, querido Papá, que
ama com amor de pai e de mãe. Em seu
nome, quando tinha pouco mais de 30
anos, anunciou o Evangelho (notícia boa e
felicitante da parte de Deus para todos) e o
Reino de Deus, que é o reino da justiça, da
paz, da fraternidade, da realização plena de
todos os homens e mulheres. Fê-lo por
palavras e obras para todos, a começar
pela proximidade em relação aos mais
fracos, pobres, abandonados, impuros,
heréticos... Enfrentou a religião oficial do
Templo, escandalizando aqueles que viviam
da religião explorando o povo. Foi
condenado pelos sacerdotes, que não o
toleravam, e foi crucificado pelo poder
imperial romano. Morreu como blasfemo
religioso e subversivo social e político.
Depois, mais uma vez, lembro E. P.
Sanders, da Universidade de Oxford, que,
na sua obra A figura histórica de Jesus,
quis dar uma visão convincente do conjunto
da vida do Jesus real, portanto, apenas a
partir da história, independentemente da
fé. Ele conclui que é possível saber que o
centro da mensagem de Jesus foi o Reino
de Deus, que entrou em conflito com o
Templo, que compareceu perante Pilatos e
que foi executado. Mas, continua, também
sabemos que, “depois da sua morte, os
seus seguidores fizeram a experiência do
que descreveram como a ‘ressurreição’”:
aquele que tinha morrido realmente
apareceu como “pessoa viva, mas
transformada”. “Acreditaram nisso,
viveram-no e morreram por isso”. Assim,
criaram um movimento, que cresceu e se
estendeu pelo mundo e mudou a História.
Grande parte da Humanidade foi atingida
por esse movimento e pela esperança que
transporta. Não se pode esquecer, muito
menos ignorar, que da biografia de alguém
faz parte a sua Wirkungsgeschichte, na
reflexão do célebre filósofo Hans-Georg
Gadamer, isto é, a história dos efeitos
dessa vida ou, por outras palavras, as
consequências dessa vida na História.
A experiência pascal — Jesus, o
crucificado, está vivo em Deus para sempre
— foi avassaladora para os discípulos. São
Paulo fez também essa experiência e,
assim, de perseguidor passou a apóstolo,
percorrendo talvez mais de 15.000
quilómetros para anunciar a Boa Nova. O
que vale um morto? Nada. O que vale um
crucificado? Ainda menos. Mas, se Jesus, o
crucificado, está vivo em Deus, isso
significa o aval de Deus a tudo quanto
Jesus disse e fez, Deus ratifica a sua
pessoa e a sua mensagem. Então, se Jesus,
o crucificado, vale para Deus, todos valem,
concluindo São Paulo que “já não há judeu
nem grego, homem ou mulher, escravo ou
livre”, pois todos valem para Deus: “foi
para a liberdade que Cristo nos libertou”,
“já não és escravo, mas filho; e, se és filho,
és também herdeiro, por graça de Deus”.
Ernst Bloch, o ateu religioso, um dos
maiores filósofos do século XX, com quem
tive o privilégio de conversar, viu bem: “O
cristianismo venceu mediante a
proclamação: ‘Eu sou a Ressurreição e a
Vida’”.
A Igreja só se justifica enquanto vive,
transporta e entrega a todos, por palavras
e obras, o Evangelho de Jesus, a sua
mensagem de dignificação de todos,
mensagem que mudou a História.
3. A História lê-se de trás para a frente,
a partir do princípio, evidentemente, mas
tem sobretudo de ser lida do fim para o
princípio. Portanto, com a história e a razão
hermenêutica. No caso de Jesus e do
cristianismo, essa leitura é essencial, para
não se cair em alçapões mortais.
Frequentemente, com certas
formulações dogmáticas, acabar-se-ia por
fazer concretamente de Jesus e de sua
mãe, Maria, autênticos robôs, com tudo
pré-sabido e pré-determinado. Ora,
evidentemente, no princípio, Maria e José
não sabiam quem era aquele menino a
quem deram o nome de Jesus e
perguntaram como todos os pais: o que
será deste filho? Ele ia crescendo e umas
vezes entendiam o que estava a acontecer
e outras vezes não entendiam. Está no
Evangelho segundo São Lucas, no relato de
Jesus perdido no Templo: “Filho, porque
nos fizeste isto? Olha que teu pai e eu
andávamos aflitos à tua procura. Ele
respondeu: Não sabíeis que devia estar na
casa de meu Pai? Mas eles não
compreenderam as palavras que lhes
disse”. E Jesus ia crescendo “em sabedoria,
em estatura e em graça”. E no Evangelho
segundo São Marcos: “E quando os seus
familiares ouviram isto, saíram a ter mão
nele, pois diziam: Está fora de si”.
Os Evangelhos escrevem sobre a
realidade histórica, mas foram escritos por
quem, à luz do fim, já acreditava que Jesus
é, na confissão de São Pedro, “o Filho do
Deus vivo”. Concretamente no que se
refere aos Evangelhos ditos da infância, é
necessário ter em atenção a sua
significatividade mais do que a
historicidade. De facto, eles são
construções teológicas, colocando no
princípio a revelação do fim: Jesus é o
Messias. Se é o Messias, nele realizam-se
as profecias e as promessas de Deus.
Assim:
3. 1. O que é o Natal? Sim, é “um novo
começo”, como bem viu o famoso teólogo
Hans Küng, com quem falei várias vezes.
Também tive o privilégio de ter tido como
professor talvez o maior teólogo católico do
século XX, Karl Rahner, que escreveu:
"Quando dizemos ‘é Natal’, estamos a
dizer: (Em Jesus de Nazaré), ‘Deus disse ao
mundo a sua palavra última, a sua mais
profunda e bela palavra numa Palavra feita
carne’. E esta Palavra significa: amo-vos, a
ti, mundo, e a vós, seres humanos."
3. 2. Como foi o seu nascimento? Maria é
virgem? Jesus teve irmãos? Foi também a
Karl Rahner que ouvi pela primeira vez que
os Evangelhos e a teologia não são tratados
de biologia e anatomia.
Diz o Evangelho segundo São Lucas,
referindo a admiração dos seus
conterrâneos, quando Jesus começou a
pregar: “Donde é que isto lhe vem e que
sabedoria é esta que lhe foi dada? Não é
ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão
de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E
as suas irmãs não estão aqui entre nós? E
isto parecia-lhes escandaloso.”
Maria é bem-aventurada, não por ser a
mãe de Jesus, mas porque acreditou e se
converteu à mensagem do seu Filho, como
se lê no Evangelho segundo São Lucas:
“Enquanto Jesus falava, uma mulher,
levantando a voz do meio da multidão,
disse: Bem-aventuradas as entranhas que
te trouxeram e os seios que te
amamentaram! Ele, porém, retorquiu:
Bem-aventurados, antes, os que escutam a
Palavra de Deus e a põem em prática”.
Outro jesuíta, filósofo e teólogo, Juan
Masiá, disse, neste contexto, o essencial:
Maria é bem-aventurada “ao conceber com
José a Jesus por cooperação com o Espírito
Santo. Agraciada ao dar à luz Jesus e os
seus irmãos e irmãs. Salve!, Maria e José,
agraciados e abençoados, com todas as
mães e pais que recebem como um dom do
Espírito os filhos que procriam e, ao gerá-
los, consumam a virgindade simbólica que
se realiza na maternidade e na
paternidade. Porque não é incompatível a
união dos progenitores com a acção do
Espírito: a criatura nasce pela união dos
seus progenitores e pela graça, a força, do
Espírito Santo”.
Acrescenta: “Toda a criatura nasce em
graça original. Maria não é uma excepção.
O chamado pecado original não é originário
nem mancha. O seu nome exacto é o
pecado do mundo. A criatura, que nasce
sem nenhuma mancha, vem à luz num
mundo no qual já é vasta uma rede de
pecado. Como quem entra numa sala de
fumadores e se contamina com o fumo”.
3. 3. Quando nasceu? Ninguém sabe
exactamente, mas terá sido entre o ano 6 e
o ano 4 a.C. Parece paradoxal, mas isso
deve-se a um erro do monge Dionísio, o
Exíguo, quando no século VI quis
estabelecer precisamente a data do
nascimento de Jesus.
Evidentemente, não se pode dizer que
nasceu no dia 25 de Dezembro. O que se
passou é que, quando, nos séculos III-IV já
havia comunidades cristãs espalhadas pelo
Império Romano, a festa pagã do Dies
Natalis Solis Invicti (Natal do Sol Invicto),
associada ao solstício do Inverno, deu lugar
ao Natal cristão, pois Jesus é que é o
verdadeiro Sol, a Luz invencível.
3. 4. Onde nasceu? É quase certo que
Jesus nasceu em Nazaré, por isso lhe
chamavam o Nazareno. Mas, se ele,
segundo a fé, é o Messias, então ele é o
verdadeiro rei, da linhagem de David, que
era de Belém. E puseram-no a nascer em
Belém.
3. 5. Os pastores foram os primeiros
avisados, porque Deus manifestou a sua
salvação a todos, a começar pelos que
constituíam a classe baixa dos pequenos e
pobres e viviam à margem da prática
religiosa.
3. 6. E os magos vieram do Oriente? E
quantos eram? E viram uma estrela sobre a
manjedoura?
Será inútil procurar nessa data algum
sinal especial no céu, porque, mais uma
vez, os Evangelhos também não são
nenhum tratado de astronomia. Eles vêm
do Oriente, porque “ex Oriente lux” (a luz
vem do Oriente) e Jesus é a verdadeira luz.
E o salvador veio para todos, também para
os pagãos. E Herodes não precisava de se
preocupar com a notícia, porque Jesus é
rei, mas o seu reino implica um reinado de
serviço e não de domínio.
3. 7. E, claro, a chamada fuga para o
Egipto não aconteceu, é apenas uma
metáfora para dizer que Jesus é que é o
verdadeiro novo Moisés, porque é o
Libertador definitivo de toda a escravidão e
opressão, incluindo a libertação da morte.
Como Jesus não morreu para o nada, mas
para a plenitude da vida em Deus, com a fé
nele nasceu para todos a esperança da vida
plena e definitiva em Deus.
4. Para todos, cada uma e cada um, de
coração, vai o meu vivo desejo de um novo
ano de 2026 bom, realmente bom, e feliz.
Com Jesus.
Sábado, 3 de Janeiro de 2026
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