Ano A – Tempo Comum – 18.º Domingo
Mateus 14,13-21: «Todos comeram e ficaram saciados»
Depois
da leitura do capítulo 13 do Evangelho segundo Mateus, dedicado às
parábolas, a liturgia propõe-nos o milagre da multiplicação dos pães.
Trata-se do único milagre de Jesus, além da ressurreição, narrado nos
quatro Evangelhos. O relato aparece até seis vezes, porque, em Marcos e
Mateus, é apresentado também num contexto geográfico pagão (cf. Mc
8,1-10; Mt 15,32-39).
O risco do reducionismo
Antes de nos aproximarmos do texto, parece-me oportuno sublinhar a necessidade de evitar alguns possíveis reducionismos:
1. Concentrar
a nossa atenção quase exclusivamente no aspeto milagroso, isto é, na
dimensão histórica e no «facto» em si. Os quatro evangelistas apresentam
versões com pormenores diferentes. Isso ajuda-nos a compreender que
cada um deles relê o acontecimento em função da sua própria comunidade,
entrelaçando o «facto» com a sua interpretação catequética.
2. Reter
do relato apenas a dimensão simbólica, esvaziando o «sinal» da sua
referência histórica e reduzindo-o a uma espécie de «parábola» da
partilha. Sem o carácter extraordinário do acontecimento, seria difícil
explicar por que razão os evangelistas e a primeira comunidade cristã
atribuíram tanta importância a este «sinal».
3. Propor
uma leitura unívoca do texto, exclusivamente religiosa ou apenas
material. Por um lado, corre-se o risco de interpretar o relato
unicamente em chave espiritual, uma vez que todos os evangelistas
relacionam o milagre com a Eucaristia; por outro, de o reduzir a um
simples convite à partilha e à solidariedade.
Três pistas para reflexão
1. Uma revelação cristológica
O
relato situa-se imediatamente depois da morte de João Batista. Ao
receber a notícia, Jesus entra numa barca e «retira-se para um lugar
deserto, à parte», talvez para se recolher na dor pela morte de João; a
multidão, porém, segue-o. «Ao desembarcar, viu uma grande multidão,
encheu-se de compaixão por ela e curou os seus doentes.»
O
primeiro aspeto que podemos retirar do texto é a profunda humanidade de
Jesus. Ao ver a multidão, Ele comove-se: «encheu-se de compaixão por
ela». «Com-paixão» significa literalmente «sofrer com». Jesus renuncia
aos seus próprios planos para cuidar das pessoas. Nunca refletiremos
suficientemente sobre este aspeto fundamental da encarnação!
Ao
cair da tarde, os discípulos, orientados pelo seu sentido prático,
dizem a Jesus: «Manda embora a multidão, para que vá às aldeias comprar
alimentos». Ele responde de modo surpreendente e desconcertante: «Não
precisam de ir embora; dai-lhes vós mesmos de comer».
Tentemos
imaginar-nos no lugar deles. Têm apenas cinco pães e dois peixes: uma
quantidade que nem sequer seria suficiente para eles próprios. Jesus
limita-se a dizer: «Trazei-mos aqui». Cinco mais dois são sete, número
que, na simbologia bíblica, evoca a plenitude. O pouco, colocado nas
mãos de Jesus, torna-se suficiente para todos. Deste modo, os discípulos
são convidados a fazer sua a compaixão do Mestre.
Este não é o
único aspeto revelador do episódio. No tempo de Jesus, estava difundida
a expectativa de um Messias semelhante a um novo Moisés. Conduzindo o
povo ao deserto — note-se a insistência no «lugar deserto» —, Ele
inauguraria um novo êxodo e renovaria o prodígio do maná.
Ao
mesmo tempo, os gestos com que os evangelistas descrevem a ação de Jesus
evocam a Última Ceia e a Eucaristia: tomou os pães, pronunciou a
bênção, partiu-os e deu-os aos discípulos (cf. Mt 26,26). A Eucaristia
apresenta-se, assim, como o verdadeiro maná, o pão oferecido por Deus
para a vida do mundo. Esta ligação é particularmente evidente no relato e
no discurso posterior sobre o pão da vida do Evangelho segundo João
(cf. Jo 6,1-58).
«Todos comeram e ficaram saciados, e
recolheram os pedaços que sobraram: doze cestos cheios.» Jesus veio
trazer vida em abundância (cf. Jo 10,10) e trazê-la a todos. A multidão
de cinco mil pessoas sublinha a amplitude do dom, enquanto os doze
cestos que sobraram podem evocar as doze tribos de Israel e, portanto, o
povo de Deus reunido na sua totalidade.
Por fim, importa
recordar que o pão e o peixe se tornaram, para os primeiros cristãos,
símbolos de Cristo. O pão remete para a Eucaristia; o peixe, por sua
vez, evoca uma antiga profissão de fé. Com efeito, a palavra grega
ichthýs («peixe») era interpretada como acrónimo de Iēsoûs Christòs
Theoû Hyiós Sōtḗr, isto é: «Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador».
2. Converter-se a uma visão integral do Reino
Jesus
preocupa-se não apenas com a fome espiritual das pessoas, mas também
com a sua fome física. Não podemos ignorar que, a par da fome da
Palavra, ainda existe no mundo uma dramática fome de pão. O Reino de
Deus diz respeito à pessoa na sua totalidade.
Na nossa
mentalidade persiste, contudo, uma visão dualista da vida, que separa a
esfera espiritual da material. «As pessoas vão à igreja para rezar; para
comer, cada um volte para sua casa e desenrasque-se!»: esta é a nossa
lógica, muito prática. E era também a dos discípulos.
A
Igreja, porém, não pode alhear-se das condições concretas em que vive a
humanidade. Segundo o relatório das Nações Unidas publicado em 2026, em
2025 cerca de 645 milhões de pessoas — 7,8% da população mundial —
sofreram de fome. Em África, o fenómeno afetou 309 milhões de pessoas,
correspondentes a 20% da população do continente. Ainda mais extensa é a
insegurança alimentar moderada ou grave, que atingiu cerca de 2,1 mil
milhões de pessoas, ou seja, mais de um quarto da humanidade.
Habituamo-nos demasiado facilmente a estas notícias!
3. Da economia do comércio à economia do dom
«Manda
embora a multidão, para que vá às aldeias comprar alimentos», dizem os
discípulos a Jesus. A lógica da compra e do dinheiro é particularmente
evidente também no relato de João (cf. Jo 6,5-7).
Infelizmente,
a lógica mercantil continua a predominar ainda hoje. Tudo se compra e
se vende, até mesmo as pessoas. Estamos a perder o sentido da
gratuitidade. No entanto, como recorda a Didaché, antigo escrito cristão
da época apostólica: «Se partilhamos os bens imortais, quanto mais
devemos partilhar os bens mortais!»
Uma parte considerável da
humanidade vive sufocada pela injustiça e pelas dívidas. O livro de
Ben-Sirá adverte com palavras duríssimas: «O pão dos necessitados é a
vida dos pobres; quem dele os priva é um sanguinário. Mata o próximo
aquele que lhe tira o sustento; derrama sangue aquele que recusa o
salário ao trabalhador» (Sir 34,25-27).
Uma frase
habitualmente atribuída a Gandhi sintetiza de modo eficaz esta
contradição: «No mundo há o suficiente para as necessidades de todos,
mas não para a ganância de todos».
Para a reflexão semanal
O
milagre da multiplicação dos pães pode acontecer também hoje, se
colocarmos à disposição os ingre¬dientes: os cinco pães e os dois peixes
que insistimos em querer guardar ou vender, em vez de os partilhar.
Quais
são os «cinco pães e os dois peixes» que o Senhor me pede para colocar à
disposição? Qual é a P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ