sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Mas tu, Jesus, quem dizes que eu sou? - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Mas tu, Jesus, quem dizes que eu sou?

Ano A – 21.º Domingo do Tempo Comum
Mateus 16,13-20: Tu és o Cristo!... E tu és Pedro!
O Evangelho de hoje apresenta-nos a “confissão de fé” de Pedro, nas proximidades da cidade de Cesareia de Filipe, a nordeste de Israel, numa região semipagã. Jesus tinha-se “retirado” para aquela zona, fora dos limites habituais da sua pregação, a fim de poder estar na intimidade com os seus. Estava prestes a ocorrer uma mudança radical na sua missão, e Jesus queria preparar os seus discípulos.
Neste contexto de retiro — Lucas 9,18 chega mesmo a dizer que isso aconteceu quando “Jesus se encontrava num lugar solitário a rezar” —, o Senhor, que tinha percebido à sua volta sinais de uma crise, faz uma espécie de… “sondagem”: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem? Eles responderam: Uns dizem João Batista; outros, Elias; outros, Jeremias ou algum dos profetas”. As multidões, portanto, entreviam em Jesus um profeta, um grande profeta, mas interpretavam-no segundo as categorias do passado. A mesma sondagem, feita hoje, daria resultados não muito diferentes: um homem extraordinário, um iluminado, um revolucionário, um inovador, um idealista… Categorias sempre insuficientes.
Jesus prossegue: “E vós, quem dizeis que Eu sou? Simão Pedro respondeu: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Pedro, também em nome dos Doze, pronuncia uma profissão pessoal de fé, que Jesus reconhece como inspirada pelo Pai. Nesse momento, Jesus revela a Pedro a sua vocação, a sua identidade: “Também Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja… Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus”. Notemos a simetria: “Tu és o Cristo” e “Tu és Pedro”. Não se trata, porém, de uma troca de cortesias, mas da revelação de uma identidade recíproca.
Temos aqui uma verdadeira investidura, simbolizada por três sinais: a mudança do nome (Pedro, a pedra), a entrega das chaves e o poder de ligar e desligar. Poderíamos dizer que Jesus confere a Pedro três das suas prerrogativas messiânicas: ser Pedra (ver Daniel 2,31-35; Mateus 21,42; 1 Coríntios 10,4), possuir as chaves do Reino e ter o poder de ligar e desligar (Apocalipse 3,7: “Aquele que tem a chave de David: quando Ele abre, ninguém fecha, e quando fecha, ninguém abre”). Jesus, o Senhor da Igreja, confere neste texto a Pedro uma autoridade vicária ao serviço da sua Igreja.
1. Quem sou Eu para ti?
Esta pergunta é hoje dirigida a nós. Cristo não espera a resposta aprendida na catequese. Seria uma resposta coberta de bolor. Não espera uma resposta ditada pelo hábito. Seria uma resposta sem paixão. Não espera uma resposta elaborada apenas pela mente. Seria uma resposta fria, sem coração. Jesus espera uma resposta que nasça da nossa intimidade com Ele. Como podemos encontrá-la? Perguntemo-nos até que ponto estamos dispostos a arriscar por Ele. A medida extrema? O dom da vida! Hoje, o testemunho cristão pode assumir, sob diversas formas, a dimensão do martírio. Não apenas no Paquistão, na Índia, na China ou na Nigéria… mas também aqui, na Europa, com o contínuo gotejar da troça e da indiferença. Às quatro notas da Igreja — una, santa, católica e apostólica — poderíamos quase acrescentar uma quinta: perseguida!
Não basta, porém, dar uma resposta de uma vez para sempre. A vida é mudança. Em todas as relações surgem momentos de crise, nos quais nos parece já não reconhecer o outro. É um momento crítico que pode tornar-se ocasião de rutura definitiva ou oportunidade para crescer no conhecimento recíproco. Isto pode acontecer também na nossa relação com Cristo. Também por causa disso, alguns cristãos acabam por se afastar d’Ele. A relação com Jesus torna-se rotineira e sem entusiasmo, e, pouco a pouco, instalam-se a indiferença e o afastamento. Presumimos conhecê-lo e pensamos que já nada tem para nos dizer. O seu Evangelho é como um livro “já lido”. Então, ou nos vamos embora, cansados e desiludidos, ou a nossa relação com Ele definha numa lenta e triste agonia.
Como evitar este perigo? Podemos indicar dois caminhos.
2. Os olhos fixos… na “lebre”!
Não desviemos o olhar de Jesus! “Corramos com perseverança a corrida que temos pela frente, mantendo os olhos fixos em Jesus, autor e consumador da fé” (Hebreus 12,1-2). Uma narrativa dos antigos Padres do Deserto exprime-o de maneira simpática, mas eloquente.
Um jovem monge foi um dia visitar um velho monge, carregado de anos e de experiência, e disse-lhe: “Meu pai, explica-me por que razão tantos abraçam a vida monástica e tão poucos perseveram; tantos voltam atrás”. O monge respondeu: “Vês, acontece como quando um cão vê uma lebre. Começa a correr atrás dela e ladra com força. Outros cães ouvem o cão ladrar enquanto corre atrás da lebre e também começam a correr: são muitos a correr juntos, ladrando; mas só um viu a lebre, só um a segue com os olhos. A certa altura, um após outro, todos aqueles que não viram realmente a lebre e correm apenas porque um deles a viu cansam-se e ficam exaustos. Aquele, porém, que fixou pessoalmente os olhos na meta vai até ao fim e apanha a lebre”. E dizia: “Vês, o mesmo acontece com os monges. Só aqueles que fixaram verdadeiramente os olhos na pessoa de Jesus Cristo, nosso Senhor crucificado, chegam até ao fim”.
3. Contemplar-se no olhar de Cristo
A pergunta de Jesus continua a chegar até nós: “Quem sou Eu para ti?”. Já pensaste em dirigir-lhe também a mesma pergunta: “Mas tu, Jesus, quem dizes que eu sou?” Só a sua resposta pode iluminar o mistério daquilo que somos; caso contrário, continuamos a ser uma incógnita para nós mesmos. Só Ele pode revelar-nos o nosso verdadeiro nome (Apocalipse 2,17), a nossa identidade. Só este encontro face a face pode dar profundidade e solidez à nossa relação com Ele.
“Quando nos aproximamos do mistério de Deus, descobrimos o nosso rosto; quando nos aproximamos da Verdade de Deus, recebemos em troca a verdade sobre nós mesmos. Confessar a identidade de Cristo restitui-nos a nossa identidade profunda… Se quereis descobrir quem sois verdadeiramente, contemplai-vos no olhar de Deus” (Paolo Curtaz).
Para reflexão pessoal
1) Num momento de “retiro”, interroguemos o Senhor e deixemo-nos interrogar por Ele: “Senhor, quem és Tu para mim? E quem sou eu para Ti?”
2) Confrontemo-nos com a identidade de Pedro, que ilumina a vocação do cristão: ser PEDRA, isto é, servir de apoio à fé dos outros, apesar da fragilidade da nossa; usar a CHAVE do Reino, isto é, a cruz de Jesus, para romper os laços da escravidão e unir as pessoas pelos laços da fraternidade!
P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Jesus, arqueiro da fé - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Jesus, arqueiro da fé

Ano A – 20.º Domingo do Tempo Comum
Mateus 15,21-28: «Mulher, grande é a tua fé!»
O Evangelho deste XX Domingo apresenta-nos o encontro de Jesus, fora das fronteiras de Israel, com uma mulher cananeia que lhe suplica que cure a sua filha. À primeira vista, o episódio pode parecer desconcertante e até escandaloso: aos gritos angustiados da mulher, Jesus responde inicialmente com o silêncio — «não lhe respondeu palavra alguma» —; depois, apesar da intervenção dos discípulos, com uma recusa: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel»; por fim, recorre a uma expressão muito dura: «Não é justo tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos». Só depois desta dramática sequência Jesus atende o pedido da mulher e elogia a sua fé.
O relato encontra-se também no Evangelho de Marcos, de forma mais concisa (Marcos 7,24-30). Lucas não relata este episódio, talvez porque desenvolva noutras narrativas o tema da abertura aos pagãos.
Como compreender esta passagem evangélica? Podemos propor três chaves de leitura.
1. Uma explicação ligada às circunstâncias. Jesus tinha-se afastado da Galileia para se retirar com os seus, depois de um confronto duríssimo com os escribas e os fariseus, enviados de Jerusalém, sobre a questão do puro e do impuro. Desejava, portanto, passar despercebido. Marcos 7,24 confirma-o: «Não queria que ninguém o soubesse, mas não pôde permanecer oculto».
2. Uma explicação metodológica. Durante o seu ministério terreno, Jesus reconhece uma prioridade à missão junto de Israel, sem excluir significativas aberturas aos pagãos.
3. Uma explicação pedagógica. Segundo uma possível leitura pedagógica, através deste diálogo intenso, Jesus leva a mulher pagã a manifestar uma fé extraordinária e apresenta-a como exemplo aos discípulos e a nós. É um contraste particularmente significativo com Pedro, que, no Evangelho do domingo anterior, tinha sido chamado por Jesus «homem de pouca fé».
Mas avancemos por etapas.
1. Jesus, um homem disponível para ser… interrompido!
Jesus não era um profeta que vagueava sem rumo, deixando-se guiar apenas pelas circunstâncias ou por encontros casuais. Tinha recebido do Pai uma missão e levava-a adiante com constância e determinação, orientando tanto os espaços — «É necessário que eu anuncie a Boa-Nova do Reino de Deus também às outras cidades, pois para isso fui enviado» (Lucas 4,43) — como os tempos: «Ide dizer a essa raposa [o rei Herodes]: “Eis que expulso demónios e realizo curas hoje e amanhã; e, no terceiro dia, a minha obra estará concluída”» (Lucas 13,32).
E, no entanto, quantas vezes Jesus se deixou “interromper” pelos acontecimentos e pelas pessoas! Recordemos, por exemplo, quando quis retirar-se com os seus para um lugar solitário, mas mudou de planos porque encontrou diante de si uma grande multidão e teve compaixão dela (cf. Marcos 6,30-34). É o que acontece também aqui, no encontro com a mulher cananeia. E algo semelhante já tinha ocorrido em Caná, quando Maria, sua mãe, o interpelou antes de ter chegado «a sua hora».
Jesus deixa-se alcançar pelo sofrimento concreto das pessoas. A sua é uma vida aberta ao imprevisto, até à interrupção extrema e dramática da cruz.
Isto deveria levar-nos a refletir sobre a nossa vida — e também sobre a vida da Igreja —, por vezes tão programada e planeada que não deixa espaço para interrupção alguma; nem sequer para aquela necessária para parar diante do homem abandonado, meio morto, à beira da estrada.
2. Jesus, o profeta… que ultrapassa fronteiras!
A passagem de Jesus para os territórios pagãos evidencia um traço característico da sua missão: ele supera as cercas e as barreiras produzidas por interpretações rígidas da lei, por certos costumes sociais e por qualquer forma de exclusivismo religioso. Embora declare dirigir-se, naquela fase da sua missão, às «ovelhas perdidas da casa de Israel», Jesus não se deixa aprisionar por esquemas rígidos e preconcebidos.
Aproxima-se daqueles que a sociedade religiosa considera impuros ou pecadores, não divide o mundo de maneira simplista entre bons e maus e sabe reconhecer o bem onde quer que ele se encontre. É como uma abelha que recolhe o néctar de cada flor e transforma cada encontro numa oportunidade de vida.
Também aqui encontramos um verdadeiro desafio para nós, crentes. Muitas vezes “ultrapassamos as fronteiras” na crítica, nas conversas e na indevida intromissão na vida alheia; ao mesmo tempo, porém, “confinamos” as nossas relações, erguemos cercas, cortamos pontes e cultivamos bairrismos que criam mundos separados e incomunicáveis. Jesus convida-nos, pelo contrário, a “ultrapassar fronteiras” no diálogo e no encontro com quem é diferente de nós.
3. Jesus, … arqueiro da fé!
Ao comentar o episódio da mulher cananeia, o cardeal Carlo Maria Martini utilizou uma imagem que me impressionou: a de um arqueiro que experimenta um arco novo e põe à prova a sua resistência.
É assim que Jesus parece agir com a fé desta mulher, através da sequência dramática das suas três respostas: primeiro o silêncio, depois a recusa e, por fim, a comparação entre os filhos e os cachorrinhos, que aos ouvidos da mulher poderia soar humilhante. O diálogo parece levar a sua fé até ao limite, quase correndo o risco de a quebrar. Aquela mãe poderia ter-se afastado, indignada com a aparente insensibilidade de Jesus e com a aspereza da sua linguagem.
Jesus, porém, demonstra confiar nela e oferece-lhe espaço para manifestar toda a força da sua fé. A mulher torna-se, assim, um exemplo luminoso: «Mulher, grande é a tua fé!». A sua perseverança, a sua humildade e a sua vivacidade de espírito transformam o confronto num encontro de salvação.
Ninguém gosta de ser posto à prova. Por isso, no Pai-Nosso, pedimos: «Não nos deixeis cair em tentação», invocando a ajuda do Pai para que não sucumbamos no tempo da provação. «Não nos submetas à prova» é uma possível releitura de «não nos deixeis cair em tentação». Deus não tenta para o mal; contudo, permite que a nossa fé seja provada e, através da provação, purifica-a e fá-la amadurecer. O livro de Ben-Sirá adverte-nos: «Filho, se te apresentas para servir o Senhor, prepara-te para a tentação» (Ben-Sirá 2,1). A consciência da nossa fraqueza pode levar-nos a temer a hora da provação, mas a fidelidade de Deus sustenta-nos e abre-nos à confiança.
Três propostas para reflexão
1. Deixo-me “interromper” pelas pessoas e pelas suas necessidades ou sou ciumento do meu tempo e dos meus planos? Acolho com disponibilidade e com um sorriso quem interrompe os meus projetos?
2. Sou uma pessoa de mente aberta, disponível para o diálogo e para o encontro, ou fico rigidamente preso às minhas posições?
3. Como reajo às provações da vida: com impaciência e pessimismo ou com paciência e confiança?
Khalil Gibran, escritor libanês cristão maronita (1883-1931), utiliza uma metáfora — iluminadora também para nós — na qual Deus é o Arqueiro, os pais são os arcos e os filhos são as flechas:
«Vós sois os arcos dos quais os vossos filhos, como flechas vivas, são lançados. O Arqueiro vê o alvo no caminho do infinito e curva-vos com a sua força, para que as suas flechas voem rápidas e para longe. Que seja alegre e feliz esse vosso ser curvado pela mão do Arqueiro: pois, assim como ama a flecha que lança, também ama o arco que permanece firme».
P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Ordena-me que vá ter contigo!” - P. Manuel João Pereira Correia mccj

 Ordena-me que vá ter contigo!”

Ano A – Tempo Comum – 19.º Domingo
Mateus 14,22-33: “Senhor, se és tu, ordena-me que vá ter contigo sobre as águas”
O Evangelho do domingo passado narrava-nos o milagre da multiplicação dos pães para uma grande multidão, num lugar deserto, que terminou com a recolha de doze cestos cheios de sobras. A esse acontecimento segue-se o conhecido episódio de hoje, no qual Jesus caminha sobre o mar.
Estes dois milagres — a multiplicação dos cinco pães e dos dois peixes e o caminhar de Jesus sobre as águas — constituem uma nova manifestação da identidade de Jesus. Ele revela-se como o Messias — que, segundo uma tradição, haveria de renovar o prodígio do maná — e como o Filho de Deus: caminhar sobre as águas era, de facto, considerado uma prerrogativa divina.
Entre os dois episódios, o Evangelho apresenta-nos Jesus que reza, sozinho, durante a noite, no monte.
1. “Sai e permanece no monte” (Elias, primeira leitura)
Perante esta epifania, peçamos ao Senhor a graça de sair das cavernas onde nos refugiámos, como o profeta Elias, para acolhermos a novidade da passagem de Deus pela nossa vida.
Talvez Deus já não se manifeste como “um vento forte e impetuoso” — como na nossa juventude — nem como o terramoto ou o fogo dos nossos primeiros anos de compromisso cristão, mas como “o murmúrio de uma brisa suave”, percetível apenas no silêncio do coração.
2. “Ordena-me que vá ter contigo” (Pedro, no Evangelho)
a) Impelidos para a outra margem
“Depois de a multidão ter comido, Jesus obrigou imediatamente os discípulos a entrar na barca e a precedê-lo na outra margem”.
É significativo que, neste episódio, Jesus “obrigue” os discípulos a partir. Podemos imaginá-lo a mandar-lhes carregar os doze cestos cheios de sobras e a impeli-los a entrar na barca, apesar dos protestos dos Doze: é demasiado tarde, o vento é contrário, é imprudente dirigirmo-nos para a outra margem do lago, para um território predominantemente pagão e estrangeiro! E porquê deixar Jesus sozinho?
Os apóstolos teriam preferido ficar ali e desfrutar daquele momento de euforia juntamente com a multidão. Mas não há nada a fazer: partem contrariados em direção à outra margem, quase para significar que também até lá deverá ser levado o pão.
Assim acontece também connosco, Igreja que Cristo impele continuamente para “a outra margem”!
b) À mercê do mar e dos fantasmas
“Pelo fim da noite, ele foi ter com eles, caminhando sobre o mar”.
Aos elementos traiçoeiros do mar, da noite e do vento acrescenta-se agora um fantasma! Tomados de terror, os Doze gritam de medo. “Mas Jesus falou-lhes imediatamente, dizendo: Tende coragem, sou eu, não tenhais medo!”.
O medo é um companheiro habitual; o convite de Deus a não temer é o seu antídoto quotidiano. “Não tenhais medo”, porque “sou eu”; ou melhor, “Eu Sou”, expressão que evoca o próprio Nome de Deus.
c) Ordena-me!
Pedro toma a iniciativa e diz a Jesus: “Senhor, se és tu, ordena-me que vá ter contigo sobre as águas”. “Se és tu…”. Trata-se de uma dúvida e de um pedido de prova? Do efeito de uma emoção incontrolada depois do medo? De uma reação infantil e entusiástica? Ou de um impulso de confiança no Senhor? Talvez nem o próprio Pedro o saiba ao certo, como tantas vezes também nos acontece!
Impressiona, contudo, a maneira como Pedro formula o seu pedido: “Ordena-me que vá ter contigo sobre as águas”. Ordena-me! Não diz: “Faz com que eu vá…” ou “Concede-me que vá…”. Não, ele pede para o fazer em virtude da ordem de Jesus. E Jesus consente.
“Ordena-me que vá ter contigo sobre as águas!”. Este pode tornar-se também o nosso pedido. A nossa vida quase nunca é um cruzeiro tranquilo. Muitas vezes assemelha-se à navegação numa frágil barquinha à mercê das ondas. Por vezes, parece-nos até que nos falta debaixo dos pés aquela precária segurança. Então, nada mais nos resta senão a fé nua, capaz de caminhar sobre as águas: não pela nossa coragem ou iniciativa, mas pela confiança depositada na ordem do Senhor.
Ordena-me, e eu caminharei sobre o mar agitado da doença ou do luto.
Ordena-me, e eu enfrentarei as águas ameaçadoras de uma crise matrimonial.
Ordena-me, e eu vencerei a tempestade de uma relação difícil com um filho ou uma filha.
Ordena-me, e eu atravessarei o vendaval que abalou a minha vida.
d) Salva-me!
A fé é algo tremendamente sério: preciosa e frágil como a vida. O verdadeiro crente sabe-o e experimenta-o. Basta desviar por um instante o olhar de Cristo para se sentir afundar.
Pobre Pedro e pobres de nós! Porque duvida Pedro precisamente no meio do milagre? Talvez esperasse que as ondas do mar se acalmassem, para poder caminhar com toda a tranquilidade. Mas isso não acontece. As circunstâncias exteriores não mudam. A fé não nos isenta dos riscos.
Então, nada mais nos resta senão gritar: “Senhor, salva-me!”. E o pescador… é pescado!
Hoje parece mais difícil gritar: “Salva-me!”, também porque Cristo nem sempre é reconhecido como o Salvador. Salvar de quê?
É muito eloquente o que aconteceu a um sacerdote que presidia a uma celebração eucarística de Primeiras Comunhões. Depois de convidar as crianças a formularem orações espontâneas, ficou surpreendido quando uma menina disse: “Obrigado, Jesus, porque me salvaste… embora agora não me lembre de quê!”. Toda a assembleia riu com gosto. Mas quantos dos presentes teriam sabido ir além da resposta formal aprendida na catequese?
3. “A grande tristeza” (Paulo, segunda leitura)
Quem experimentou a mão que salva não pode permanecer indiferente perante quem parece perder-se. É este o sofrimento que São Paulo confessa na segunda leitura: “Tenho no coração uma grande tristeza e uma dor contínua” por causa “dos meus irmãos, meus parentes segundo a carne” (Romanos 9,1-5).
Ver os próprios concidadãos, a própria família e os próprios amigos longe de Cristo é, para o crente, um espinho cravado no flanco. Rezar por eles não é simplesmente uma “boa obra”, mas uma responsabilidade, uma resposta à pergunta de Deus: “Onde está o teu irmão?”.
Matta el Meskin, monge cristão egípcio († 2006), afirma: “Com a oração, o homem torna-se sacerdote, no sentido de que se torna responsável pela salvação dos outros […]. Carregando sobre si o pecado deles, gemendo do fundo do coração sob o seu peso e fazendo penitência, torna-se capaz, fazendo-se pecador em lugar deles, de pedir perdão e de o obter para eles”.
Para refletir
Como me comporto no momento da provação: com ira ou com paciência? Com medo ou com confiança? Com desânimo ou com esperança?
No meio das tempestades da vida, também eu grito: “Ordena-me! Salva-me, Senhor”?
Estou pronto, estou pronta, a estender a mão para agarrar quem está a afundar-se?
P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ


P. Manuel João Pereira Correia mccj
p.mjoao@gmail.com

sábado, 1 de agosto de 2026

Cinco pães e dois peixes: a receita do milagre! - Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Ano A – Tempo Comum – 18.º Domingo

Mateus 14,13-21: «Todos comeram e ficaram saciados»
Depois da leitura do capítulo 13 do Evangelho segundo Mateus, dedicado às parábolas, a liturgia propõe-nos o milagre da multiplicação dos pães. Trata-se do único milagre de Jesus, além da ressurreição, narrado nos quatro Evangelhos. O relato aparece até seis vezes, porque, em Marcos e Mateus, é apresentado também num contexto geográfico pagão (cf. Mc 8,1-10; Mt 15,32-39).
O risco do reducionismo
Antes de nos aproximarmos do texto, parece-me oportuno sublinhar a necessidade de evitar alguns possíveis reducionismos:
1. Concentrar a nossa atenção quase exclusivamente no aspeto milagroso, isto é, na dimensão histórica e no «facto» em si. Os quatro evangelistas apresentam versões com pormenores diferentes. Isso ajuda-nos a compreender que cada um deles relê o acontecimento em função da sua própria comunidade, entrelaçando o «facto» com a sua interpretação catequética.
2. Reter do relato apenas a dimensão simbólica, esvaziando o «sinal» da sua referência histórica e reduzindo-o a uma espécie de «parábola» da partilha. Sem o carácter extraordinário do acontecimento, seria difícil explicar por que razão os evangelistas e a primeira comunidade cristã atribuíram tanta importância a este «sinal».
3. Propor uma leitura unívoca do texto, exclusivamente religiosa ou apenas material. Por um lado, corre-se o risco de interpretar o relato unicamente em chave espiritual, uma vez que todos os evangelistas relacionam o milagre com a Eucaristia; por outro, de o reduzir a um simples convite à partilha e à solidariedade.
Três pistas para reflexão
1. Uma revelação cristológica
O relato situa-se imediatamente depois da morte de João Batista. Ao receber a notícia, Jesus entra numa barca e «retira-se para um lugar deserto, à parte», talvez para se recolher na dor pela morte de João; a multidão, porém, segue-o. «Ao desembarcar, viu uma grande multidão, encheu-se de compaixão por ela e curou os seus doentes.»
O primeiro aspeto que podemos retirar do texto é a profunda humanidade de Jesus. Ao ver a multidão, Ele comove-se: «encheu-se de compaixão por ela». «Com-paixão» significa literalmente «sofrer com». Jesus renuncia aos seus próprios planos para cuidar das pessoas. Nunca refletiremos suficientemente sobre este aspeto fundamental da encarnação!
Ao cair da tarde, os discípulos, orientados pelo seu sentido prático, dizem a Jesus: «Manda embora a multidão, para que vá às aldeias comprar alimentos». Ele responde de modo surpreendente e desconcertante: «Não precisam de ir embora; dai-lhes vós mesmos de comer».
Tentemos imaginar-nos no lugar deles. Têm apenas cinco pães e dois peixes: uma quantidade que nem sequer seria suficiente para eles próprios. Jesus limita-se a dizer: «Trazei-mos aqui». Cinco mais dois são sete, número que, na simbologia bíblica, evoca a plenitude. O pouco, colocado nas mãos de Jesus, torna-se suficiente para todos. Deste modo, os discípulos são convidados a fazer sua a compaixão do Mestre.
Este não é o único aspeto revelador do episódio. No tempo de Jesus, estava difundida a expectativa de um Messias semelhante a um novo Moisés. Conduzindo o povo ao deserto — note-se a insistência no «lugar deserto» —, Ele inauguraria um novo êxodo e renovaria o prodígio do maná.
Ao mesmo tempo, os gestos com que os evangelistas descrevem a ação de Jesus evocam a Última Ceia e a Eucaristia: tomou os pães, pronunciou a bênção, partiu-os e deu-os aos discípulos (cf. Mt 26,26). A Eucaristia apresenta-se, assim, como o verdadeiro maná, o pão oferecido por Deus para a vida do mundo. Esta ligação é particularmente evidente no relato e no discurso posterior sobre o pão da vida do Evangelho segundo João (cf. Jo 6,1-58).
«Todos comeram e ficaram saciados, e recolheram os pedaços que sobraram: doze cestos cheios.» Jesus veio trazer vida em abundância (cf. Jo 10,10) e trazê-la a todos. A multidão de cinco mil pessoas sublinha a amplitude do dom, enquanto os doze cestos que sobraram podem evocar as doze tribos de Israel e, portanto, o povo de Deus reunido na sua totalidade.
Por fim, importa recordar que o pão e o peixe se tornaram, para os primeiros cristãos, símbolos de Cristo. O pão remete para a Eucaristia; o peixe, por sua vez, evoca uma antiga profissão de fé. Com efeito, a palavra grega ichthýs («peixe») era interpretada como acrónimo de Iēsoûs Christòs Theoû Hyiós Sōtḗr, isto é: «Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador».
2. Converter-se a uma visão integral do Reino
Jesus preocupa-se não apenas com a fome espiritual das pessoas, mas também com a sua fome física. Não podemos ignorar que, a par da fome da Palavra, ainda existe no mundo uma dramática fome de pão. O Reino de Deus diz respeito à pessoa na sua totalidade.
Na nossa mentalidade persiste, contudo, uma visão dualista da vida, que separa a esfera espiritual da material. «As pessoas vão à igreja para rezar; para comer, cada um volte para sua casa e desenrasque-se!»: esta é a nossa lógica, muito prática. E era também a dos discípulos.
A Igreja, porém, não pode alhear-se das condições concretas em que vive a humanidade. Segundo o relatório das Nações Unidas publicado em 2026, em 2025 cerca de 645 milhões de pessoas — 7,8% da população mundial — sofreram de fome. Em África, o fenómeno afetou 309 milhões de pessoas, correspondentes a 20% da população do continente. Ainda mais extensa é a insegurança alimentar moderada ou grave, que atingiu cerca de 2,1 mil milhões de pessoas, ou seja, mais de um quarto da humanidade. Habituamo-nos demasiado facilmente a estas notícias!
3. Da economia do comércio à economia do dom
«Manda embora a multidão, para que vá às aldeias comprar alimentos», dizem os discípulos a Jesus. A lógica da compra e do dinheiro é particularmente evidente também no relato de João (cf. Jo 6,5-7).
Infelizmente, a lógica mercantil continua a predominar ainda hoje. Tudo se compra e se vende, até mesmo as pessoas. Estamos a perder o sentido da gratuitidade. No entanto, como recorda a Didaché, antigo escrito cristão da época apostólica: «Se partilhamos os bens imortais, quanto mais devemos partilhar os bens mortais!»
Uma parte considerável da humanidade vive sufocada pela injustiça e pelas dívidas. O livro de Ben-Sirá adverte com palavras duríssimas: «O pão dos necessitados é a vida dos pobres; quem dele os priva é um sanguinário. Mata o próximo aquele que lhe tira o sustento; derrama sangue aquele que recusa o salário ao trabalhador» (Sir 34,25-27).
Uma frase habitualmente atribuída a Gandhi sintetiza de modo eficaz esta contradição: «No mundo há o suficiente para as necessidades de todos, mas não para a ganância de todos».
Para a reflexão semanal
O milagre da multiplicação dos pães pode acontecer também hoje, se colocarmos à disposição os ingre¬dientes: os cinco pães e os dois peixes que insistimos em querer guardar ou vender, em vez de os partilhar.
Quais são os «cinco pães e os dois peixes» que o Senhor me pede para colocar à disposição? Qual é a P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ