sábado, 17 de outubro de 2026

A quem pertenço? - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Ano A – 29.º Domingo do Tempo Comum

Mateus 22,15-21: «Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus»

Nos domingos anteriores ouvimos como Jesus denunciou duramente os chefes religiosos e políticos através de três parábolas, atraindo sobre si a hostilidade deles: já tinham decidido eliminá-lo. Agora procuram apenas um pretexto.

1. Uma armadilha bem arquitetada

«Os fariseus retiraram-se e reuniram-se para deliberar sobre a maneira de surpreender Jesus nas suas próprias palavras. Enviaram-lhe então os seus discípulos, juntamente com os herodianos».

Herodianos e fariseus unem-se, embora sejam adversários entre si, com o objetivo de encontrar uma maneira de eliminar Jesus. Os discípulos dos fariseus começam por tecer um longo elogio ao «Mestre», antes de lhe apresentar a questão combinada com os herodianos: «Diz-nos, pois, o que pensas: é lícito ou não pagar o imposto a César?»
A armadilha estava bem montada. Se Jesus respondesse «sim», correria o risco de se indispor com o povo, que suportava mal o domínio romano. Se respondesse «não», poderiam acusá-lo de ser um subversivo.

2. Jesus, mestre do discernimento

Na resposta de Jesus podemos entrever, apesar da sua brevidade, uma verdadeira lição sobre o discernimento do cristão e, concretamente, quatro indicações preciosas também para nós.

1) LIBERDADE: «Hipócritas!»

Primeiro passo: Jesus manifesta-se como uma pessoa livre. Não se deixa conquistar pela adulação dos fariseus e desmascara a sua hipocrisia.
E é precisamente aqui que tantas vezes também nós tropeçamos. Deixamo-nos condicionar pelos elogios ou pela opinião dos outros, acabando por limitar a nossa liberdade e a nossa lucidez.

2) INTERROGAR: «Por que me quereis pôr à prova?»

Jesus responde muitas vezes a uma pergunta com outra pergunta.Fazer perguntas a quem nos interpela é uma maneira de o envolver, responsabilizar e convidar a refletir.
Uma atitude passiva diante dos problemas foi uma das limitações que marcaram parte do laicado católico, também como consequência de um clericalismo que, durante séculos, incidiu profundamente sobre a vida da Igreja. Também o modo de por vezes se apresentar como quem já possui todas as respostas pode ter contribuído para a dificuldade que a Igreja experimenta hoje no diálogo com alguns setores da cultura ocidental.
Parece-me que devemos aprender também a dizer: «Não sei».Significa reconhecer com humildade os nossos limites diante da complexidade e da novidade de muitas questões contemporâneas, sem renunciar à procura, mas colocando-nos sinceramente a caminho para compreender melhor.

3) OLHAR: «Mostrai-me a moeda do imposto»

Jesus dá um terceiro passo decisivo: olhar para a realidade concreta. Pede que lhe mostrem a moeda do imposto e, ao fazê-lo, desconcerta os seus interlocutores.
Aquela moeda, com a efígie de Tibério e uma inscrição de forte significado religioso, tornava visível o poder de Roma. O facto de ela estar presente precisamente na área do Templo punha ainda em evidência uma contradição manifesta, dada a desconfiança judaica perante imagens que podiam assumir um caráter idolátrico.
Assim, aqueles que queriam pôr Jesus à prova acabam por ser eles próprios confrontados com as suas contradições.

4) RECOLOCAR: «Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus!»

O quarto momento consiste em recolocar a situação concreta dentro de um horizonte mais amplo. Com efeito, uma questão isolada e absolutizada corre o risco de se tornar uma verdade parcial e, precisamente por isso, enganadora. Só uma luz maior permite redimensioná-la e colocá-la na perspetiva justa.

«Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus» é uma das frases mais famosas do Evangelho, mas também uma das mais enigmáticas. Muitas vezes é interpretada como se existissem dois âmbitos claramente separados: as «coisas terrenas» confiadas a César e as «coisas espirituais» reservadas a Deus.

Mas o que pertence a César? A César compete aquilo que diz respeito à vida civil: garantir a ordem, a paz social, a liberdade e a justiça.

E o que pertence a Deus? Tudo. «Eu sou o Senhor e não há outro; fora de mim não há Deus… Eu sou o Senhor, não há outro!» (Isaías 45,1.4-6).

Se a moeda traz a imagem de César e, por isso, pode ser devolvida a César, o ser humano traz impressa a imagem de Deus. É, portanto, a Deus que deve ser devolvido o ser humano inteiro. Aqui está a grande reivindicação de Jesus: «Dai a Deus o que é de Deus!»

Daqui nasce uma pergunta decisiva: a quem pertenço eu? A uma família, a uma profissão, a um grupo social, a um povo, a uma nação? Certamente. Mas Jesus recorda-nos que existe uma pertença mais profunda do que todas as outras: tu pertences a Deus.

3. O dinheiro de César e a moeda de Jesus

Permitam-me agora uma imagem um pouco ousada. O dinheiro do imposto a César faz-me pensar naquela moeda que Pedro, por indicação de Jesus, tira da boca do peixe para pagar o imposto do Templo (Mateus 17,24-27). Uma única moeda para Jesus e para Pedro: ambos, de algum modo, associados naquela moeda.

Que imagem simbólica poderíamos imaginar gravada nela? No anverso, a imagem de Cristo; no reverso, a de Pedro. A imagem de Cristo à frente e, atrás, a minha ou a tua. Duas faces da mesma moeda! Cada um de nós pertence a Cristo e Cristo… “pertence” a cada um de nós! (cf. 1 Coríntios 3,22-23).

Para a reflexão e a oração pessoal

Hoje, penúltimo domingo de outubro, a Igreja celebra o Dia Mundial das Missões. Instituído por Pio XI em 1926, celebra este ano a sua centésima edição. O Papa Leão XIV escolheu como tema: «Um em Cristo, unidos na missão». Convido-vos a ler a Mensagem do Santo Padre e, durante esta semana, a retomar a oração que encontramos na sua conclusão:

Pai Santo, concede-nos ser um em Cristo, enraizados no seu amor que une e renova. Faz com que todos os membros da Igreja estejam unidos na missão, dóceis ao Espírito Santo, corajosos no testemunho do Evangelho, anunciando e encarnando cada dia o teu amor fiel por todas as criaturas.
Abençoa os missionários e as missionárias, sustenta-os nos seus esforços, guarda-os na esperança!
Maria, Rainha das Missões, acompanha a nossa obra de evangelização em todos os cantos da terra: faz de nós instrumentos de paz e faz com que o mundo inteiro reconheça em Cristo a luz que salva. Amém.

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

sábado, 10 de outubro de 2026

Convites recusados, convites acolhidos e convites traídos - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Ano A – 28.º Domingo do Tempo Comum

Mateus 22,1-14: «Tudo está preparado; vinde às bodas!»

Há já cinco domingos que Jesus nos fala através de parábolas. A de hoje – a dos convidados para as bodas do filho do rei – é a terceira dirigida aos chefes religiosos e aos responsáveis do povo, depois das parábolas dos dois filhos enviados a trabalhar na vinha e dos vinhateiros homicidas.

O contexto de tempo e lugar em que Jesus conta estas três parábolas é particularmente significativo e dramático. Estamos no templo, no dia seguinte à sua entrada solene em Jerusalém. Para nos entendermos, estamos na... Segunda-feira Santa. É a última oportunidade para sacudir a alma do povo e dos seus chefes políticos e religiosos e levá-los a tomar consciência da gravidade da hora.

1. Uma parábola estranha e inverosímil

A parábola de hoje recorda-nos a dos vinhateiros homicidas do domingo passado. Neste caso, porém, apresenta-se mais complexa. A narrativa parece reunir dois núcleos parabólicos: o dos convidados para as bodas (vv. 1-10) e o da veste nupcial (vv. 11-14). Para o perceber, basta ler a versão de São Lucas, onde a mensagem é muito mais simples e direta (cf. Lucas 14,15-24). São Mateus quis acrescentar à parábola do chamamento universal dirigido a todos, tal como apresentada por São Lucas, uma segunda parte destinada à comunidade cristã, tornando a narrativa mais complexa e, em certos aspetos, inverosímil.

A parábola fala de um banquete preparado por um rei para as bodas do seu filho, portanto de uma ocasião de festa e alegria. Na narrativa, porém, são introduzidos três elementos anómalos que contrastam com o ambiente festivo: 1) a recusa e até a reação violenta dos primeiros convidados; 2) o envio do exército para matar os assassinos e incendiar a sua cidade; 3) quando a sala está finalmente cheia de novos convidados, recolhidos nas encruzilhadas, a dura intervenção do rei contra um deles, que não trazia a veste nupcial.

Como compreender a parábola?

Na primeira parte, dirigida aos chefes políticos e religiosos de Israel, São Mateus parece apresentar, de forma alegórica, a história da salvação. Os dois primeiros grupos de servos representam os profetas enviados ao povo de Deus, talvez antes e depois do exílio. A cidade incendiada pode evocar a destruição de Jerusalém no ano 70 d.C. O terceiro grupo de enviados representaria os apóstolos e os missionários, enviados ao mundo para convidar todos a entrar no banquete do Reino.

A segunda parte da parábola, a do convidado sem a veste nupcial, parece, pelo contrário, dirigir-se à comunidade cristã como uma advertência sobre as condições necessárias para participar no banquete.

Qual é a mensagem da parábola?

A primeira parte revela o chamamento universal de Deus, agora dirigido a todos, maus e bons, sem excluir ninguém. O convite de Deus ultrapassa todas as fronteiras e alcança agora todos os povos: «Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda a criatura» (Marcos 16,15). Assim se realiza o que Isaías profetizou: «O Senhor do universo preparará para todos os povos, neste monte, um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos excelentes, de carnes saborosas, de vinhos purificados» (cf. primeira leitura, Isaías 25,6-10).

A segunda parte da parábola, porém, sublinha que não basta acolher o convite: é preciso converter-se, isto é, entrar em sintonia com a alegria das bodas messiânicas do Filho do Rei e participar da comunhão com todos os convivas.

Concentremos a nossa atenção nesta dupla mensagem.

2. Um convite à festa: Vinde às bodas!

«Eis que preparei o meu banquete... e tudo está pronto; vinde às bodas!»

Toda a Sagrada Escritura poderia ser relida à luz da palavra «convite»: um convite à festa, à alegria, à participação na vida de Deus, nas suas bodas de amor com a humanidade. Infelizmente, a visão predominante da vida como sofrimento e sacrifício distorceu a nossa perceção da existência e condicionou negativamente a nossa relação com Deus e a prática da fé.

A criação, o próprio facto de virmos à existência, é já um convite para o banquete da vida. Somos chamados à alegria e à partilha na fraternidade. Contudo, esta perspetiva da vida como convite não é partilhada por todos. Muitos preferem comportar-se como lhes apetece. Para eles, a vida é um assunto pessoal. Comportam-se com aquela atitude ávida e predatória de que falávamos no domingo passado. Alguns chegam mesmo a maltratar aqueles que lhes recordam que a vida é, pelo contrário, um convite de Deus a alegrarmo-nos juntos. O cenário de destruição e morte, consequência desta atitude, está diante dos olhos de todos. Aquilo que na parábola é apresentado, em linguagem metafórica, como castigo divino muitas vezes não é senão a consequência natural das nossas escolhas.

Eis a primeira mensagem da parábola: mudar a nossa perspetiva sobre a vida, sobre a vocação cristã e, de modo particular, sobre a Eucaristia, memorial de uma visão revolucionária da existência.

Não podemos deixar de constatar como, tantas vezes, as nossas celebrações estão longe de ser um banquete festivo. Como dar-lhes aquele toque de alegria e de festa? É difícil dizê-lo. Mas uma coisa podemos afirmar: tudo começa, antes de mais, por uma mudança de mentalidade e de coração em cada um de nós. O espírito da parábola leva-nos a pensar que o Reino de Deus não se parecerá com uma imensa catedral onde todos estejam recolhidos em adoração e contemplação, entoando cânticos angélicos. Faz-nos imaginar, antes, uma imensa sala cósmica onde se festeja numa simpática e agradável confusão!

Eis a urgente conversão da Igreja: abrir-se à novidade e à alegria do Espírito Santo. Então cada convidado tornar-se-á um «anjo», um enviado, um apóstolo, um missionário, e a sala do banquete encher-se-á!

3. Onde está a tua veste nupcial?

«Amigo, como entraste aqui sem a veste nupcial?»

Não sabemos com certeza a que costume concreto alude a veste nupcial na narrativa, mas parece que, no antigo Oriente, o rei oferecia aos convidados também uma veste para as bodas, talvez uma espécie de faixa festiva. A pessoa encontrada sem a veste nupcial, porém, tinha-a inexplicavelmente recusado, desonrando assim o convite.

O que é para nós a veste nupcial?

Alguns comentadores pensam na retidão moral, outros no compromisso cristão, especialmente na caridade e no serviço.

Convém, porém, evocar as ressonâncias bíblicas do tema da veste. Encontramo-lo no princípio, quando a humanidade toma consciência de estar nua e Deus a reveste com túnicas de pele (Génesis 3). Voltamos a encontrá-lo em Cristo nu na cruz, despojado das suas vestes. Finalmente, reaparece no Apocalipse, quando à esposa é dado «linho fino, resplandecente e puro» (19,8).

É particularmente útil recordar que, no Novo Testamento, a vida cristã é muitas vezes comparada à veste nova que se recebe no dia do batismo: «Todos vós que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo» (Gálatas 3,27).

Ser encontrado sem a veste nupcial pode, portanto, significar querer participar no «banquete» à nossa maneira, vestindo a roupa habitual dos velhos hábitos. Mas não podemos apresentar-nos com os farrapos da vida antiga. Também não basta pôr um remendo de tecido novo num vestido velho (Lucas 5,36). O convite pode ser exteriormente acolhido, mas traído na vida.

A parábola termina com a advertência de Jesus: «Muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos». Todos são chamados, mas poucos acolhem o convite a deixar-se «revestir do Senhor Jesus Cristo» (Romanos 13,14).

Não basta responder ao convite: é preciso honrá-lo!

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

NOS OITOCENTOS ANOS DA MORTE DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - Alfredo Monteiro (AAAFranciscanos)

 Tomás de Celano, biógrafo de Francisco de Assis, escreveu sobre a morte do Santo o seguinte: “Passou em acção de graças os poucos dias que lhe restaram de vida e convidou os companheiros mais queridos a louvarem com ele a Cristo. Francisco “entoou como pôde o salmo”: “Em alta voz clamo ao Senhor, em alta voz imploro o Senhor…”. E continua: “Convidou também todas as criaturas a louvarem a Deus e, com estrofes que já antes compusera, exortou-os a amá-LO. Até a própria morte, para todos tão odiosa e terrível, ele exortava ao louvor, e, saindo-lhe ao encontro com ânimo alegre, convidou-a a hospedar-se em sua casa”: “Bendita seja – dizia – a minha irmã morte”. Francisco, já moribundo, pediu para ser embrulhado numa serapilheira e colocado no chão. Pediu, depois, a um irmão que lhe lesse a Paixão de Cristo do Evangelho de São João. Na tarde de sábado, mesmo antes do cair da noite, um grande bando de cotovias voou em círculo por cima da cela onde Francisco jazia, enchendo o ar com a sua música. A cotovia era o seu pássaro favorito, porque tinha um “hábito castanho e um capuz”. Nessa noite os frades mantiveram a vigília ao corpo de Francisco, recitando o Saltério e outras orações para os defuntos. O Cantor da Natureza, Irmão Universal, viveu heroicamente o Evangelho. É um dos santos mais populares e amado  da Igreja Católica. Sentiu o Chamamento divino para reconstruir a Igreja com a radicalidade da fé e o amor a Jesus Cristo. E desse amor profundo amou também todas as criaturas. Um místico da Natureza, ecologista, pacifista, uma “Voz do nosso tempo”! O “grito da Terra” pede-nos que assim seja.

Neste ano Jubilar Franciscano em que a Ordem dos Frades Menores celebra solenemente os 800 anos da sua morte, os Irmãos e Padres Franciscanos continuam a aproximar os homens de Deus e a cuidarem com zelo da nossa “Casa Comum”. Francisco dizia aos seus irmãos: “….vamos por todo o mundo exortar mais com o exemplo do que com as palavras”. O “grito da Terra” pede-nos que assim seja, porque os povos, mormente os mais pobres, em todos os continentes, sentiram as dramáticas e dolorosas consequências do aquecimento global, dos ventos ciclónicos, dos sismos e de outros fenómenos extremos… Recordamos bem, com profunda tristeza, os últimos acontecimentos, de destruição e morte, em Portugal, na Venezuela, Colômbia, Indonésia, Nepal….

O Papa Leão XIV, inspirado no Santo de Assis, como o seu predecessor de boa memória, (com as Encíclicas Laudato Si e Fratelli Tutti), associa-se às celebrações solenes, louvando o Senhor com esta bela oração que vamos acompanhar:

“São Francisco, nosso irmão,

tu que, há oitocentos anos,

ias ao encontro da irmã morte

como um homem pacificado,

intercede por nós junto do Senhor.

Tu que no Crucifixo de São Damião,

reconheceste a verdadeira paz,

ensina-nos a buscar n’Ele

a fonte de toda a reconciliação,

que derruba todos os muros.

Tu que desarmado,

atravessaste as linhas da guerra

e da incompreensão

concede-nos a coragem

de construir pontes

onde o mundo ergue fronteiras.

Neste tempo afligido

por conflitos e divisões,

intercede para que nos tornemos

construtores da Paz:

testemunhas desarmadas

e desarmantes

da Paz que vem de Cristo.

Ámen

LEO PP. XIV

Alfredo Monteiro (AAAFranciscanos)


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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Guardiões ou predadores? - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Ano A – 27.º Domingo do Tempo Comum

Mateus 21,33-43: Escutai outra parábola!

O Evangelho deste domingo oferece-nos a terceira parábola que tem como tema a vinha. Tal como a dos dois filhos enviados à vinha no domingo passado, é dirigida aos sumos sacerdotes e aos anciãos do povo, bem como aos fariseus (cf. v. 45), que, num primeiro momento, não percebem que é precisamente a eles que se dirige. A parábola, conhecida como a dos “vinhateiros homicidas”, é pronunciada no Templo, tem tons dramáticos e prefigura profeticamente o fim trágico de Jesus, “agarrado, lançado para fora da vinha e morto” fora das muralhas de Jerusalém.

1. Deus é um vinhateiro

A simbologia da vinha como representação do povo de Deus, Israel, é bem conhecida e é iluminada pela primeira leitura do profeta Isaías (5,1-7). Jesus, porém, conta a parábola contra os responsáveis religiosos que se apoderaram desta vinha, surdos aos apelos dos profetas (os “servos” da parábola) e agora também ao do Filho, enviado por Deus, o Dono da vinha.

As primeiras gerações cristãs interpretaram a parábola alegoricamente: o primeiro grupo de servos representaria os profetas e o segundo, os apóstolos. A sua conclusão: “O Reino de Deus ser-vos-á tirado e será dado a um povo que produza os seus frutos”, foi por vezes interpretada como o anúncio da substituição de Israel pela Igreja. Contudo, não parece ser este o sentido principal da parábola, mas antes uma forte repreensão às autoridades religiosas do seu tempo e de todos os tempos.

2. Nós somos a vinha de Deus

Parece-me oportuno deter-nos, antes de mais, no cuidado solícito de Deus para com a sua vinha, que espelha o seu amor pelo seu povo e por cada um de nós. “Que mais devia eu ter feito pela minha vinha que não tenha feito?”, lamenta-se o Senhor, constatando que a vinha, em vez de produzir uvas, produziu uvas bravas (Isaías 5,1-7).

Aquela vinha plantada “numa colina fértil”, “cavada e limpa de pedras”, para que se tornasse boa terra, e formada por “cepas escolhidas”, refere-se também a nós. Também nós fazemos parte daquela vinha, ramos unidos Àquele que é a verdadeira videira (João 15). No nosso coração Ele construiu uma “torre”, não a de Babel, mas a do Pentecostes do Espírito. “Cavou um lagar”, que nos recorda a água do Batismo e o vinho da Eucaristia. Protegeu-nos dentro da cerca da Igreja...

Esta é, portanto, uma boa oportunidade para reconhecer que “o Senhor fez por nós grandes coisas” (Salmo 125,3). Mas é também uma ocasião para nos interrogarmos sobre os frutos que a nossa vida cristã está a produzir: uvas ou uvas bravas?

3. Nós somos os vinhateiros de Deus

Deus “partiu para longe” e, com extrema confiança, confiou-nos a sua vinha para que cuidássemos dela. Isto é, confiou os seus dons à nossa responsabilidade: a vida e a saúde, a terra e os bens, os dons e os talentos, a fé e as graças espirituais... Tudo deve ser administrado com sabedoria ao serviço de todos.

A grande tentação é apoderar-se da “vinha”, isto é, daquilo que Deus confiou à nossa guarda, utilizando-o a nosso bel-prazer e em nosso benefício exclusivo. Aliás, já no relato do primeiro pecado encontramos a tentação de nos apropriarmos daquilo que não nos pertence. A nossa ganância leva-nos a açambarcar os bens, a ignorar as necessidades dos outros e as suas justas reivindicações, a submeter as pessoas ao nosso serviço, a espezinhar os pobres e até a matar, como a parábola bem ilustra.

Perguntemo-nos qual é a nossa “vinha” e como a estamos a administrar: como donos ou como arrendatários? Como exercemos uma função: como serviço ou como poder? O Senhor perguntar-nos-á: que fizestes da minha vinha? Como acolhestes os meus mensageiros? Como tratastes o meu Filho? E tenhamos presente que há muitas maneiras de matar Cristo!...

4. Na vinha da criação: guardiões ou predadores?

Esta responsabilidade não diz respeito apenas aos dons pessoais, mas estende-se também à grande “vinha” que Deus confiou à humanidade: a criação. Em 4 de outubro de 2023, o Papa Francisco publicou a exortação apostólica Laudate Deum, continuação da Laudato si’, na qual chamava todos à responsabilidade na gestão dos bens da terra. As consequências de uma utilização desenfreada, egoísta e predatória da natureza estão à vista de todos.

Muitas vezes assumimos uma atitude de quase indiferença ou de minimização, como se a questão não nos dissesse assim tanto respeito, talvez porque não estamos dispostos a mudar o nosso estilo de vida. Outras vezes, descarregamos a responsabilidade sobre os outros, especialmente sobre os políticos, frequentemente condicionados por grandes interesses económicos, mas não assumimos a nossa parte de responsabilidade, considerando-a talvez insignificante. Fazer da terra um paraíso ou um deserto depende também de cada um de nós!

Perante a insuficiência das respostas postas em prática por muitos governos e pela comunidade internacional, o Papa Francisco lançava, por isso, um novo grito de alarme, convidando a agir antes que fosse demasiado tarde. Recordava-nos que “o mundo que nos rodeia não é um objeto de exploração, de uso desenfreado, de ambição ilimitada” (n. 25). “Fizemos progressos tecnológicos impressionantes e surpreendentes, e não nos damos conta de que, ao mesmo tempo, nos tornámos altamente perigosos, capazes de pôr em risco a vida de muitos seres e a nossa própria sobrevivência” (n. 28).

E o Papa concluía dizendo: “‘Louvai a Deus’ é o nome desta carta. Porque um ser humano que pretende substituir-se a Deus torna-se o pior perigo para si mesmo” (n. 73).

Perguntemo-nos: a nossa relação com a natureza é um ato de louvor a Deus ou uma forma de espezinhar o seu dom? Na vinha da criação comportamo-nos como guardiões ou como donos e predadores?

Para a reflexão semanal

  1. Para vermos se a nossa vida está a produzir as boas uvas do amor e da justiça ou, pelo contrário, as uvas bravas do egoísmo e da injustiça, confrontemo-nos com as oito características do agir cristão indicadas por São Paulo na segunda leitura de hoje: “Tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é honroso, tudo o que é virtude e tudo o que merece louvor, seja isso objeto dos vossos pensamentos” (Filipenses 4,6-9).
  2. O que poderias fazer concretamente para “poluir menos, reduzir o desperdício, consumir de modo prudente” (n. 71) e criar uma nova sensibilidade de respeito pela “vinha” da criação?

P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ