sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Quantas vezes perdoaste a Deus? - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Ano A – 24.º Domingo do Tempo Comum

Mateus 18,21-35: «Quantas vezes devo perdoar?»
Hoje concluímos o quarto discurso de Jesus, que reúne os ensinamentos do Senhor sobre a vida comunitária. O trecho evangélico é a continuação do de domingo passado, dedicado à correção fraterna.
Neste contexto, Pedro pergunta a Jesus: «Senhor, se o meu irmão cometer faltas contra mim, quantas vezes devo perdoar-lhe? Até sete vezes?» Pedro propõe um número generoso: sete, o número da plenitude. Certamente sabia que os rabinos falavam de três ou, no máximo, quatro vezes, mas tinha bem presente a insistência de Jesus no perdão.
Com efeito, ao ensinar aos discípulos o Pai-Nosso, o único pedido da oração que Jesus depois comentou explicitamente foi precisamente o que dizia respeito ao perdão: «Porque, se perdoardes aos outros as suas faltas, também o vosso Pai celeste vos perdoará; mas, se não perdoardes aos outros, também o vosso Pai não perdoará as vossas faltas» (cf. Mateus 6,14-15).
E, num contexto semelhante, Jesus teria dito: «E se [o teu irmão] cometer uma falta contra ti sete vezes ao dia e sete vezes voltar para junto de ti, dizendo: “Estou arrependido”, tu lhe perdoarás» […] e apenas cem denários, o equivalente a cerca de cem dias de trabalho. Quando o senhor toma conhecimento do que aconteceu, indigna-se e revoga o perdão da dívida. E a conclusão de Jesus é, mais uma vez, surpreendente e severa: «Assim também fará convosco o meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar de coração ao seu irmão».
1. O perdão é uma decisão… a caminho!
Todos temos plena consciência de como é difícil perdoar. O perdão quase nunca é espontâneo. Espontâneos são, antes, a raiva, o ressentimento e a vontade de pagar na mesma moeda. Diz um velho ditado: «À primeira perdoa-se, à segunda desculpa-se, à terceira bate-se!» Alguns chegam mesmo a considerar o perdão uma forma de fraqueza: quem perdoa seria incapaz de fazer valer os seus direitos; a bondade seria incapacidade de se revoltar, a paciência cobardia e o perdão incapacidade de se vingar (Nietzsche).
A pala perdoar reforça a ideia de «dar»: é um dar plenamente. Mas, para quem perdoa, não se trata de modo algum de um gesto «barato». Por vezes custa sangue e lágrimas. Também a graça de Deus, recordava Bonhoeffer, não é uma «graça barata»: o perdão foi-nos oferecido através do amor de Cristo levado até à cruz.
Por isso, o perdão é fruto de uma decisão sustentada pela graça. E nem sempre é uma decisão tomada de uma vez para sempre. Muitas vezes é preciso renová-la cada vez que a memória traz de novo à mente a ofensa e reacende no coração o sofrimento. O perdão amadurece progressivamente, até poder tornar-se uma disposição profunda e estável.
Aprende-se a perdoar… caminhando pelo caminho do perdão.
Infelizmente, muitos cristãos ouvirão esta palavra levando no coração rancor contra alguém, talvez há anos, decididos a não perdoar uma ofensa sofrida. E poderão ouvi-la sem se sentirem minimamente interpelados. «Sim, sim — dizem para si mesmos —, é uma coisa bonita, mas irreal. A vida verdadeira é outra coisa! E depois, aquilo que me fez é demasiado grave…»
2. Mas… quantas vezes Deus perdoa?
A resposta parece óbvia: sempre! Mas estaremos realmente convencidos disso?
No tempo de Jesus, alguns rabinos discutiam até o número de vezes que Deus perdoaria antes de castigar. E, no entanto, o Antigo Testamento fala-nos continuamente do amor e da misericórdia de Deus, como proclama o salmo responsorial de hoje: «O Senhor é bom e grande no amor» (cf. Salmo 102).
Há, contudo, também textos com uma linguagem muito dura, como o do profeta Naum: «O Senhor é um Deus ciumento e vingador; o Senhor é vingador e cheio de ira. O Senhor vinga-se dos seus adversários e guarda rancor contra os seus inimigos» (Naum 1,2).
O povo de Deus foi compreendendo progressivamente a profundidade do amor divino. Em Jesus, esta revelação atinge a sua plenitude: Deus é Pai, Deus é amor, Deus é misericórdia. E, contudo, também nós corremos o risco de imaginar Deus à nossa imagem e semelhança: não um Deus justo, mas um justiceiro; não um Pai, mas um senhor; não Alguém a amar, mas alguém a temer e a quem é preciso «manter satisfeito».
Mas então, por que razão Jesus parece quase ameaçar-nos na conclusão da parábola: «Assim também fará convosco o meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar de coração ao seu irmão»? Jesus quer sublinhar com força quanto o perdão recebido e o perdão oferecido são inseparáveis. Não porque a misericórdia de Deus tenha uma medida ou seja concedida apenas sob certas condições, mas porque o coração pode fechar-se ao dom. O perdão de Deus pede para ser acolhido. Recusar obstinadamente perdoar é como estender sobre nós uma lona impermeável: a água da misericórdia continua a cair, mas não consegue penetrar.
3. E tu, quantas vezes «perdoaste» a Deus?
A pergunta pode surpreender e até fazer sorrir. Naturalmente, Deus, em sentido próprio, não precisa do nosso perdão, porque não comete injustiças nem faltas contra nós. E, no entanto, o nosso coração pode chegar a acusá-lo, a sentir-se ferido por ele e até a alimentar ressentimento contra ele.
Todos conhecemos alguém que se afastou da fé zangado com Deus porque, num momento de angústia, uma oração pareceu ficar sem resposta; porque Deus teria «permitido» uma desgraça; por causa de um luto trágico; de uma doença; de uma dor incompreensível.
E que dizer das guerras, do sofrimento dos inocentes e das injustiças que se espalham pelo mundo?
Atrever-me-ia a dizer que quase todos temos alguma coisa a «perdoar» a Deus, isto é, alguma censura, alguma pergunta sem resposta, alguma ferida que lhe atribuímos. Por vezes nem sequer temos coragem de o confessar e enterramo-lo no mais profundo do coração.
Talvez devêssemos ter a coragem de permanecer diante de Deus com toda a nossa verdade. Mesmo depois da confissão, poderíamos erguer os olhos para o céu e dizer-lhe: «Senhor, há coisas que ainda não compreendo. Onde estavas quando isto me aconteceu? Por que permitiste aquilo? Sofri e, por vezes, até fiquei zangado contigo. Mas quero continuar a confiar em ti. Confio-te as minhas perguntas, a minha raiva e as minhas feridas, porque te amo».
Também isto pode ser um caminho de reconciliação com Deus: não porque seja ele quem precise de ser perdoado, mas porque somos nós que precisamos de curar a imagem ferida que guardamos dele.
4. E quantas vezes te perdoaste a ti mesmo?
Muitas vezes temos dificuldade em perdoar os outros porque não estamos em paz connosco próprios. Talvez não nos tenhamos perdoado um fracasso, a humilhação de uma fraqueza, uma escolha errada ou algum problema que causámos. Podemos saber que Deus nos perdoou e ter sido perdoados também pelas pessoas que ferimos e, no entanto, continuar a condenar-nos interiormente.
Precisamos, então, de pedir a graça de acolher plenamente o perdão recebido e de aprender também a perdoar-nos a nós próprios. Poderia dizer a mim mesmo: «Manuel João, Deus perdoou-te. Acolhe a sua misericórdia. Não permaneças prisioneiro dos teus erros. Aprende com eles e vai em paz!»
Perdoar-se a si mesmo não significa banalizar o mal praticado nem fugir às próprias responsabilidades. Significa reconhecer que nenhum erro tem o direito de pronunciar a última palavra sobre a nossa vida.
A última palavra pertence sempre à misericórdia.
Para meditar…
• Efésios 4,32 — «Sede bondosos e misericordiosos uns para com os outros, perdoando-vos mutuamente, como Deus vos perdoou em Cristo.»
• Colossenses 3,13 — «Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente… Como o Senhor vos perdoou, assim fazei vós também.»
• 2 Coríntios 5,18-20 — Deus «confiou-nos o ministério da reconciliação»: o cristão é chamado a ser embaixador da reconciliação.
P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Correção fraterna uma questão de sinfonia! - P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ

 Ano A - 23º Domingo do Tempo Comum

Mateus 18,15-20: “Se o teu irmão cometer uma falta…”
Os trechos do Evangelho deste domingo e do próximo pertencem ao IV discurso de Jesus segundo São Mateus: o discurso eclesial ou comunitário (Mateus 18). Recordemos os anteriores: o primeiro, o discurso da montanha (cap. 5-7); o segundo, o discurso missionário (cap. 10); o terceiro, o discurso das parábolas (cap. 13). Neste quarto discurso, Mateus reuniu alguns ensinamentos de Jesus sobre a vida da comunidade eclesial.
A passagem de hoje trata da “correção fraterna”, no caso de um pecado grave que impede a comunhão fraterna. O texto chegou até nós em duas variantes: uma mais breve, que põe maior ênfase na dimensão eclesial: “Se o teu irmão cometer uma falta”; e outra mais longa, que acrescenta “contra ti”, falando, portanto, de uma ofensa pessoal (a versão escolhida pelo texto litúrgico). A passagem reúne três ensinamentos de Jesus, estreitamente interligados. As três leituras deste domingo são, aliás, facilmente relacionáveis entre si e lançam uma luz adicional sobre o Evangelho: o profeta Ezequiel é colocado como sentinela responsável pelos seus irmãos (Ezequiel 33), enquanto São Paulo proclama a caridade como plenitude da Lei (Romanos 13,8-10).
A arte da correção fraterna
A correção fraterna é uma arte que exige caridade e delicadeza, inteligência e tato. Acho difícil falar de correção fraterna. Por três razões. A primeira, pela dificuldade inerente a esta tarefa. A segunda, porque, durante séculos, nós, padres, nos arrogámos indevidamente esta missão como um nosso “direito”, quando ela é um dever de todo batizado; além disso, exercemo-la de maneira desajeitada e, por vezes, desastrosa. Portanto, mais do que corrigir, deveríamos deixar-nos corrigir! A terceira, porque hoje falar de correção não é “politically correct”; corremos o risco de ir contra a “privacidade” de cada um e de sermos repreendidos por nos metermos nos assuntos alheios. Assim, movemo-nos num campo minado e preferimos refugiar-nos na crítica, na fofoca ou na indiferença!
1. Uma operação de salvamento!
POR ONDE começar? Pelo versículo que precede imediatamente a passagem de hoje: “É vontade do vosso Pai que está nos céus que nenhum destes pequeninos se perca” (v. 14). Como ponto de partida encontramos, portanto, a vontade salvífica do Pai. Trata-se de uma “pedagogia de recuperação” (Papa Francisco). E o objetivo é “ganhar o irmão” (v. 15). Recuperar um filho e ganhar um irmão! Trata-se de uma operação de… salvamento!
O QUE fazer concretamente? Jesus sugere um método articulado em três etapas graduais, introduzidas pela partícula “se” (cinco vezes): primeiro a sós, depois, eventualmente, com uma ou duas testemunhas e, por fim, se necessário, fazendo intervir a comunidade, até ao caso extremo da constatação da autoexclusão do irmão ou da irmã da comunidade: “Seja ele para ti como o pagão e o publicano”. Isto, contudo, não significa excluir essa pessoa do amor fraterno, porque Jesus era amigo de publicanos e pecadores.
2. Um ato de fraternidade
COMO fazer? Qual é a condição essencial para fazer a correção? A fraternidade!Fazer-se irmão!
A palavra “irmão” no Evangelho de Mateus tem uma importância particular. É interessante notar que, geralmente, vem acompanhada de um possessivo: “meu irmão”, “teu irmão”, “meus irmãos”… O evangelista quer sublinhar o valor relacional que está no centro da mensagem de Jesus: “um só é o vosso Pai” e “vós sois todos irmãos” (Mateus 23,8-9). Cristo é o Filho primogénito de uma multidão de irmãos (Romanos 8,29).
O amor está no centro da relação: “Irmãos, não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo” (Romanos 13,8, segunda leitura).
Caridade e verdade caminham de mãos dadas, mas a caridade é a irmã mais velha. Na correção fraterna, colocar a verdade em primeiro lugar é como expor alguém ao sol do meio-dia: corre-se o risco de cegar quem é conduzido para fora do quarto escuro do erro. A caridade, pelo contrário, é como a aurora que conduz progressivamente para a luz plena.
3. Uma questão de sinfonia!
AONDE leva a correção fraterna? À sinfonia da comunhão fraterna! “Se dois de vós, na terra, se puserem de acordo para pedir qualquer coisa…”.
O verbo grego usado por Mateus para “pôr-se de acordo” (symphonei) pertence à mesma família da nossa palavra “sinfonia”: poderíamos quase traduzi-lo, sugestivamente, por “sinfonizar”! A comunidade é como uma orquestra em que cada um executa a sua parte e toca o seu instrumento. Cada um acrescenta uma nota ou um som particular que enriquece a beleza global da sinfonia. Se alguém desafina, toca mal ou perde o ritmo, não é excluído, mas é “corrigido”. O Pai, que ama a “sinfonia” criada pela presença do seu Filho, escuta de bom grado a comunidade que reza em harmonia. E o céu entra em sintonia com a terra: “Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu”.
Pode acontecer, porém, que alguém queira impor a própria voz ou sobrepor-se aos outros instrumentos, causando desarmonia e confusão; ou que alguém pretenda ser capaz de tocar todos os instrumentos e dispensar a colaboração dos outros. Tal protagonismo acaba por gerar nos outros passividade, apatia e descompromisso.
Infelizmente, mesmo naquele momento privilegiado de “sinfonia” que deveria ser a Eucaristia, muitas vezes falta este “pôr-se de acordo”, este “sinfonizar”. Às vezes, reza-se ou celebra-se uns ao lado dos outros, simplesmente justapostos. Repetem-se as mesmas orações e os mesmos gestos, mas não há “um só coração e uma só alma” (Atos 4,32). Além disso, o presbítero que preside à Eucaristia, e que deveria ser como o “maestro da orquestra”, acaba muitas vezes por ser quase o único protagonista, monopolizando grande parte da celebração. Temos realmente uma necessidade urgente de sinodalidade, de caminhar juntos como povo de Deus.
Reflexão para a semana
Convido-vos a meditar e a aplicar a vós mesmos o versículo do Aleluia: “Deus reconciliou consigo o mundo em Cristo, confiando-nos a palavra da reconciliação”(2 Cor 5,19). A vocação do cristão é reconciliar!
P. Manuel João Pereira Correia, MCCJ