domingo, 28 de dezembro de 2025

E vós quem dizeis que eu sou? - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 E vós quem dizeis que eu sou?

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia

Jesus é, como escreveu o filósofo Karl

Jaspers, uma das "figuras determinantes" ou

"decisivas" da História humana. Não há

dúvida nenhuma de que, sem ele, a História

do mundo não seria como é. A sua figura

continua enigmática e misteriosa, e, ao

longo destes dois mil anos, foram muitos os

que de um modo ou outro tentaram

responder à pergunta que o próprio Jesus

colocara em relação à sua pessoa: “Quem

dizem os homens que eu sou? E vós quem

dizeis que eu sou?” E as respostas são

2

sempre teórico-práticas, pois, ao contrário,

por exemplo, de um filósofo, Jesus é

também um modelo para viver e para

morrer.

Mesmo correndo o risco, inevitável, de

simplificações apressadas, poder-se-ia dizer

que o que hoje está em confronto é uma

cristologia "a partir de cima", helenística,

que utiliza categorias gregas, como

"consubstancial ao Pai", "união hipostática",

"encarnação", e uma cristologia "a partir de

baixo", bíblica, que procura fazer o percurso

dos discípulos com o Jesus histórico,

tentando balbuciar o mistério da sua pessoa.

Jesus nunca se declarou a si mesmo

Deus. Pelo contrário, como se escreve no

Evangelho segundo São Marcos, a alguém

que o chamou "bom mestre" respondeu:

"Porque me chamas bom? Ninguém é bom

senão só Deus". A sua humanidade

manifestou-se no seu saber limitado, na sua

3

fé em Deus, na consciência que tinha de si

— considerou que tinha uma missão

absoluta e de importância última e decisiva

para a humanidade, mas ao mesmo tempo

interrogou Deus até ao último momento da

sua vida — lá está aquela oração que, do

alto da Cruz, atravessa os séculos: “Meu

Deus, meu Deus, porque é que me

abandonaste”. Mas confiou: “Pai, nas tuas

mãos entrego o meu espírito”.

Foi depois da experiência pascal — Deus

ressuscitou Jesus de entre os mortos: na

morte, Jesus não encontrou o nada, mas a

plenitude da vida de Deus — que os

discípulos compreenderam e

testemunharam até ao martírio que ele é o

Cristo, o Messias. Reflectindo à luz da

ressurreição — mas a vida, a morte e a

ressurreição só se compreendem na

interdependência: Deus não podia deixar na

morte quem viveu e morreu como Jesus;

4

por sua vez, se Deus o ressuscitou, ele é

verdadeiramente o Messias e o Salvador —,

recordaram o que na sua vida terrena, nas

suas palavras, nas suas acções, na sua

morte, exprimia uma relação de intimidade

única com Deus: declarou-se senhor do

sábado e acima de Moisés, ensinava com

autoridade, autodesignou-se como o Filho

do Homem e sobretudo relacionava-se com

Deus como Abbá (Pai querido), experiência

que traduziu numa entrega incondicional

de amor pela humanidade até à morte.

Através dele, as primeiras comunidades

cristãs fizeram a experiência de que "Deus é

amor", como se lê na Primeira Carta de São

João, e acreditaram nele como o Filho de

Deus — a expressão "o Deus" refere-se

sempre ao Pai. Na sua pessoa, mostrou-se

de modo definitivo e insuperável a relação

salvadora de Deus para com o mundo e

5

qual deve ser a relação dos seres humanos

com Deus e entre si. Na vida e na morte.

Ainda hoje, quem acredita em Jesus Cristo é

porque se reconhece nele, encontrando o

sentido último para a existência e para a

História.

Aqui chegados, com a constatação de que

Jesus nunca se declarou a si mesmo Deus e

que o Novo Testamento quando se refere a

Deus pura e simplesmente (ho theós) se

refere a Deus Pai, é natural a pergunta pela

Santíssima Trindade. Servir-me-ei

concretamente do célebre teólogo Hans

Küng, na sua obra famosa: Credo. Das

Apostolische Glaubensbekenntnis-Zeitgenossen

erklärt (Credo. A confissão de fé dos

apóstolos explicada às pessoas de hoje).

Küng começa por perguntar: Porque é

que a Santíssima Trindade não é

mencionada no Símbolo dos Apóstolos?

Porque é que no Credo da fé em Deus Pai,

6

no Filho e no Espírito Santo não se diz uma

palavra sobre o Deus trino e uno, a

Santíssima Trindade, que, para muitos

teólogos é considerado o “mistério central”

do cristianismo?” A doutrina clássica

trinitária de “uma natureza divina em três

pessoas” só apareceu nos finais do século IV

e a festa da Santíssima Trindade só foi

declarada obrigatória em 1334 pelo Papa

João XXII.

Sim, ninguém pode negar que no Novo

Testamento se fala do Pai, Filho e Espírito e

que a fórmula litúrgica do baptismo

segundo o Evangelho de São Mateus é:

Baptizai “no nome do Pai, do Filho e do

Espírito Santo” (Mt. 28, 19). A questão,

porém, é como estão relacionados entre si o

Pai, o Filho e o Espírito. Ora, no Novo

Testamento, não há um único passo onde se

diga que Pai, Filho e Espírito são “da

7

mesma essência”, isto é, possuem uma só

natureza comum (physis, substância).

Assim, conclui, Küng, não admira que o

Símbolo dos Apóstolos não fale da

Santíssima Trindade. E a pergunta é: como

falar de Pai, Filho e Espírito, evitando todo

o perigo e até a acusação, concretamente

por parte dos muçulmanos, de os cristãos

professarem um triteísmo.

Fica aí o resumo em três teses do que, a

partir de uma perspectiva do Novo

Testamento e olhando para o mundo actual,

Hans Küng considera, e eu com ele, “o

núcleo bíblico da doutrina tradicional sobre

a Trindade:

— Crer em Deus, o Pai, é crer no Deus

uno, que criou o mundo e o ser

humano, que os mantém no ser e os

leva à consumação.

8

— Crer no Espírito Santo é crer no

poder e na força actuantes de Deus

no ser humano e no mundo.

— Crer no Filho de Deus é crer na

revelação do Deus uno no homem

Jesus de Nazaré, que é assim

Palavra, Imagem e Filho de Deus.”

Sábado, 27 de Dezembro de 2025

Sem comentários:

Enviar um comentário