domingo, 28 de dezembro de 2025

Cuidar da fragilidade e do sonho de Deus - P. Manuel João Pereira Correia, mccj

 Cuidar da fragilidade e do sonho de Deus

Ano A – Advento – 4º Domingo

Mateus 1,18-24: “José, não temas receber Maria contigo”

O Evangelho do quarto domingo do Advento põe em destaque a figura de José. Enquanto São

Lucas apresenta o acontecimento da Encarnação a partir da Virgem Maria, São Mateus

concentra a sua atenção em São José, o pai legal de Jesus: aquele que lhe dá o nome e lhe

transmite a filiação davídica. Lucas fala do anúncio do anjo a Maria, enquanto Mateus fala do

anúncio a José. As duas perspetivas completam-se mutuamente. Assim, depois de Isaías e

João Batista, José é a terceira figura que nos guia para o mistério do Natal.

Acolher o imprevisto do projeto de Deus

O Evangelho de hoje começa com um fato desconcertante para José: Maria “achou-se grávida

por obra do Espírito Santo”. É fácil imaginar a perturbação do prometido esposo, que não

consegue explicar o que aconteceu. Interiormente atormentado, pergunta-se o que deve fazer.

Deus intervém para lhe dizer: “Não temas receber Maria, tua esposa”, porque “o menino que

nela foi gerado vem do Espírito Santo”.

A figura de José é uma das mais misteriosas do Evangelho. É o homem do silêncio: nos

Evangelhos não se registra nenhuma palavra sua. Nem mesmo de Maria se menciona alguma

palavra em Mateus e Marcos. Deve-se dizer, porém, que no relato de Mateus, José é o

verdadeiro protagonista durante a infância de Jesus. Enquanto o seu nome aparece oito vezes

em Mateus, o de Maria apenas quatro. Poder-se-ia dizer que José é o último dos patriarcas, da

linhagem de José do Egito, o sonhador. É o único definido como “justo” por Mateus. José é

um fiel observante da Lei de Deus. É ele quem conduz a transição entre o Antigo e o Novo

Testamento.

Habitualmente sublinhamos, com razão, a obediência de São José. Contudo, não se trata de

uma obediência passiva, mas empreendedora. De fato, quando o anjo lhe diz para voltar a

Israel, ele não retorna à Judeia, onde reinava o cruel Arquelau, filho de Herodes. Considera

oportuno ir para outro lugar, e o Céu confirma essa sua prudência. O jovem José surpreende

não tanto pela sua obediência, mas pela sua capacidade de ação e prontidão, de coragem e

iniciativa, de responsabilidade e ponderação... Nada de figura medrosa, tímida e acomodada

como tantas vezes é representado!

Neste tempo de Advento, José ensina-nos como esperar Deus quando Ele chega de modo

inesperado. Gostaria, no entanto, de destacar dois aspetos particulares que podem inspirar-nos

no nosso caminho rumo ao Natal.

Cuidar da fragilidade

José é chamado a “receber consigo” Maria, mãe e esposa, e o Menino. “Receber consigo” é a

vocação de José. De fato, no relato de Mateus encontramos seis vezes essa expressão.

Guardião da fragilidade, é o guardião do mistério.

Essa particularidade do papel de São José ilumina o que significa viver o Natal: “receber

connosco” a Mãe e o Menino, por meio da fé e do amor. Mãe e Menino são ameaçados, hoje

mais do que nunca, por novos “Herodes”. Deus é frágil e precisa ser protegido. Por isso

somos chamados a ser como José.

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Não se trata, porém, apenas de vivê-lo espiritualmente. Olhemos ao nosso redor para ver as

fragilidades que existem ao nosso lado, na família ou na comunidade, mas não só. Muitas

vezes olhamo-las como um incômodo, ignoramo-las ou apenas as toleramos com dificuldade.

Elas são o elo mais delicado da nossa humanidade. Ao aceitá-las, acolhemos o mistério de

Deus, que se faz pequeno, necessitado e pobre. Essas fragilidades têm nome. Talvez o Senhor

esteja a pedir-nos que “recebamos connosco” as fraquezas e os limites de alguém em

particular. Neste tempo de Advento, que São José nos inspire a cuidar delas!

Cultivar o sonho de Deus

“Um anjo do Senhor apareceu-lhe em sonho.” São José é um sonhador. E recebeu em sonho o

plano de Deus, porque era um homem capaz de sonhar. É o guardião do sonho de Deus,

comentava o Papa Francisco a este respeito.

Nós perdemos a capacidade de sonhar. Consideramo-la infantil. É verdade que no Natal todos

nos tornamos um pouco crianças. Reunimo-nos em família para celebrar. Desejamos a paz

uns aos outros. Mas não nos iludimos. Sentimos até uma certa comiseração pelos

“sonhadores” incorrigíveis. Talvez também nós tenhamos sonhado, no passado, que as coisas

pudessem mudar, mas esses sonhos se dissiparam no nada e adaptámo-nos à realidade.

O Natal é o tempo em que se realiza a profecia de Joel: “Os vossos anciãos terão sonhos, os

vossos jovens terão visões” (3,1). Deus traz o seu sonho à terra. Jesus o encarna. Mesmo que

o sonho pareça terminar no fracasso da cruz, Ele não desiste. Graças ao Espírito, o Grande

Sonhador, os apóstolos, que estavam desiludidos após a morte de Jesus, tornaram-se também

eles sonhadores.

O Natal recorda-nos que hoje é a nós que Deus confia este sonho. Que São José nos alcance a

graça de despertar a nossa capacidade de sonhar!

Para refletir

“Deus espera com paciência que eu finalmente queira consentir em amá-lo. Deus espera como

um mendigo que permanece de pé, imóvel e silencioso, diante de alguém que talvez lhe dê um

pedaço de pão. O tempo é esta espera. O tempo é a espera de Deus que mendiga o nosso

amor. Os astros, as montanhas, o mar, tudo o que nos fala do tempo traz-nos a súplica de

Deus. A humildade na espera torna-nos semelhantes a Deus. Deus é unicamente o mendigo.

Por isso Ele está ali e espera em silêncio. Quem avança ou fala usa um pouco de força. O bem

que é somente bem não pode senão estar ali. Os mendigos que têm pudor são suas imagens”

(Simone Weil)

P. Manuel João Pereira Correia, mccj

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