UMA
NOVA MARIOLOGIA
Frei Bento Domingues,
O.P.
28 Dezembro 2025
1.
Fomos surpreendidos com um debate expresso no documento do Dicastério para a
Doutrina da Fé, Mater Populi fidelis.
Pensávamos que, depois do
Vaticano II e de todos os esforços ecuménicos para vencer os obstáculos que se
levantavam sobre a mariologia, ao longo da história da Igreja, estavam
superados. No entanto, o documento Mater Populi fidelis viu-se na
obrigação de travar um debate que me parece já sem sentido[i].
A minha proposta é o
reencontro com a figura de Maria, mãe de Jesus, abordada sob o ponto de vista
da mensagem do Novo Testamento (NT), que fala de teologia, Deus-connosco, não
de biologia.
Nasciam, assim, as Cristologias Narrativas. A
primeira, a de S. Marcos, começa por apresentar Jesus adulto a receber o
baptismo de João. A partir daí, passou a pregar o Evangelho de Deus: O tempo
está pronto e o Reino de Deus está próximo. Mudai de mentalidade e acreditai no
Evangelho.
Marcos começa pelo fundamental. Mas a curiosidade
não está satisfeita. Este Jesus nasceu adulto? Mateus e Lucas escreveram aquilo
a que se chama, impropriamente e de modo diverso, os Evangelhos da Infância.
Apresentam a alegria do nascimento de Jesus e de João Baptista. Aí, começam também
as confusões.
Ao não se ter em conta que são admiráveis
narrativas teológicas, desliza-se para uma biologia de conveniência que acaba
por ocultar o essencial. Continua-se a discutir a forma como Jesus foi concebido
e como nasceu. Não faltaram as declarações mais absurdas: Nossa Senhora, virgem
antes, durante e depois do parto. Jesus passou por Maria como o sol pela
vidraça.
Ao evitar a reflexão sobre os textos, sobre o seu
tecido simbólico e sobre os seus jogos de linguagem, recorre-se a algo muito
certo – a Deus nada é impossível –, mas resvala-se para concepções
pseudo-milagrosas que deixam mal o Espírito Santo, Maria de Nazaré, Jesus e S.
José. Perdeu-se a beleza e a verdade dessas espantosas narrativas. Quando se
procede assim, pode-se perguntar: então porque é que não se ficou apenas com o
Evangelho de S. Marcos?
Os textos do NT interpretam o sentido cristão do
Antigo: Jesus Cristo realiza, corrige e supera as esperanças não só de Israel,
mas de toda a humanidade. O movimento cristão é um movimento de saída
universalista. Está na sua lógica derrubar os muros criados entre povos e
religiões. Jesus Cristo é, na sua própria pessoa, a reconciliação. Como dirão
os textos: Ele é a nossa paz[ii].
Estas declarações interpretam o sentido da
prática histórica de Jesus de Nazaré. O que se nota nas narrativas da sua vida
adulta não é fruto do acaso. É fruto de um desígnio de Deus. O seu agir
espantoso não era uma sucessão de milagres. Era Deus no tecido de uma vida
humana, igual a nós excepto na maldade. Nasce humano e foi crescendo em idade,
sabedoria e graça, perante o espanto de Maria[iii]. O Emmanuel não é só Deus connosco, é um de nós.
Não nasce só de Israel e para Israel. Nasce de
toda a humanidade e para toda a humanidade, como mostra a genealogia de Lucas:
filho de Adão, filho de Deus[iv].
As narrativas do NT nasceram para continuar a
prática de Jesus na vida das pessoas e das comunidades, como aconteceu há 2 mil
anos. Às vezes caímos na tentação de pensar que basta uma nova linguagem da Fé
para os dias de hoje. São indispensáveis narrativas que contem as histórias de
vida do encontro do Evangelho da Alegria com as situações actuais da nossa
humanidade. É isto que Edward Schillebeeckx chama correlação crítica. Se
não exprimirem esse encontro real, só podem produzir reportagens de literatura
barata.
2. Existe
um desentendimento entre Jesus e a sua família que vai ao ponto de julgarem que
Ele enlouqueceu[v].
No mesmo capítulo de S. Marcos, é dito que andava a formar família com quem não
era da própria família. Segundo a narrativa, de repente, chegam a sua mãe e os seus irmãos que o
mandam chamar.
Da multidão que estava sentada à sua volta,
disseram-lhe: Estão lá fora a tua mãe e os teus irmãos que te procuram. Jesus respondeu: Quem é a minha mãe e os meus irmãos? Percorrendo com o olhar os que estavam sentados à sua volta, disse:
A minha mãe e os meus irmãos são estes. Quem fizer a
vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe[vi].
O Evangelho de S. João afirma algo espantoso: Nem
mesmo os seus irmãos acreditavam nele e gozavam-no pelas suas excentricidades e
o gosto de dar nas vistas[vii].
Este Evangelho começa com os milagres nas Bodas
de Caná. Aquilo de que mais se fala é a mudança da água em vinho bom. No
entanto, este sinal está situado num contexto que envolve todos os convidados.
A mãe de Jesus é a primeira a ser nomeada. A seguir vem nomeado o próprio Jesus
e, depois, surgem os discípulos. A mãe desempenha um papel admirável: como
acudir a uma situação desagradável, num casamento em que falta o vinho? Naquela
cultura, não celebravam um casamento com chá. Ela pressentia, no seu filho,
capacidade de alterar a situação, mas parecia que ele não estava para aí
virado. Pelo sim, pelo não, aconselha os serventes a fazer o que Jesus lhes
dissesse. E aconteceu o milagre.
Qual foi o outro milagre? Jesus não é o menino de
sua mãe e acontece uma alteração nos lugares dos que foram convidados (Maria,
Jesus, discípulos). No final, surge Jesus em primeiro lugar, a sua mãe e,
depois, os discípulos.
A partir daí, no Evangelho de João, a mãe de
Jesus nunca mais é nomeada até ao momento que vê o seu filho crucificado. Ela
tinha aprendido a seguir o caminho de Jesus. Junto da Cruz, já não é apenas uma
discípula, mas alguém que pode cuidar dos discípulos: é na escola de Maria quem se aprende a ser discípulo de Jesus.
Aqui está a nova Mariologia: Maria de Nazaré, de
mãe passou a ser discípula do seu filho. Do papel de Maria na família natural
passa a ser mãe da nova família que Jesus inaugurou, como diria o Papa
Francisco, mãe de todos os irmãos, Fratelii Tutti.
3. O importante não são as festas do Natal como
simples festa comercial, mas a transformação da vida numa festa para todos.
Como disse o Papa Francisco, A luz de Natal és tu quando, com uma vida de bondade, paciência,
alegria e generosidade, consegues ser luz a iluminar o teu caminho e o caminho dos
outros.
Bom Ano
2026!
[i]
No caso de Maria, esta mediação realiza-se de forma maternal, tal
como fez em Caná e como se confirmou na Cruz. Assim explicava o Papa
Francisco: «Ela é Mãe. E este é o título que ela recebeu de Jesus, ali mesmo,
no momento da Cruz (cf. Jo 19, 26-27). Os teus filhos, tu és
mãe. [...] Recebeu o dom de ser sua Mãe e o dever de nos acompanhar como Mãe,
de ser nossa Mãe», Mater Populi fidelis, 34
[ii] Ef 2, 14
ss
[iii] Lc 2,
41-52; S. Mateus apresenta a origem de Jesus Cristo, filho de David, filho de
Abraão, ainda num clima nacionalista
[iv] Lc 3,
23-38; comparar com Mt 1, 1-17
[v] Mc 3, 20-21
[vi] Mc 3, 31-35
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