domingo, 22 de fevereiro de 2026

A LITURGIA NÃO É UMA PEÇA DE MUSEU - Frei Bento Domingues, O.P. 22 Fevereiro 2026

 

A LITURGIA NÃO É UMA PEÇA DE MUSEU


1. Este título foi tirado da última crónica. O subsecretário do Dicastério para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos (Santa Sé) destacou, em Braga, que a Liturgia nunca pode ser vista como uma peça de museu, apelando a uma criatividade na fidelidade para garantir a participação dos fiéis. A Igreja entregou-nos a Liturgia, mas não é uma Liturgia monolítica, fossilizada, deve ser uma Liturgia que muda de acordo com as necessidades dos fiéis. Nem sempre se pensou e se viveu assim. Quando surgiram movimentos da sua renovação, encontraram também, de formas diferentes, duras resistências organizadas internacionalmente.

Quem era pela reforma teve de enfrentar séculos de prática tridentina de celebrar em latim e de costas para o povo. Isto não significa que a reforma do Vaticano II seja definitiva. Como diz um poema de Camões, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades/ muda-se o ser, muda-se a confiança;/ todo o mundo é composto de mudança,/ tomando sempre novas qualidades.

Há um contraste: uns para diante e outros para trás – para trás não há paz, diz Guimarães Rosa –, isto é, os da renovação da liturgia do século XX e o movimento, em várias formas, do retorno à Missa de Pio V, chamada Missa tridentina. Não é por acaso que o primeiro documento do Vaticano II foi, precisamente, o da Liturgia, Sacrosanctum Concilium. A posição dos conservadores era uma forma mais ampla de não aceitar o Vaticano II. Isto era tão grave que o próprio Papa Paulo VI sentiu-se na obrigação de excluir o movimento dos lefebvristas que proclamavam que eles é que eram a verdadeira ortodoxia.

É curioso, para não dizer trágico, como alguns cristãos demonstram uma sensibilidade litúrgica finíssima para rubricas e idiomas mortos, mas uma surdez quase congénita para o grito dos vivos, como diz Marco Luciano, pároco de Rabo de Peixe.

Para que a liturgia não seja uma peça de museu, é preciso uma teologia de Cristo todo na vida toda e não, apenas, nas celebrações. O Domingo é o primeiro dia da semana, o da Ressurreição de Cristo. Muitos diziam que, na Eucaristia, se recolhiam os frutos do Mistério Pascal. Mas esse mistério ficava situado num tempo de há 2 000 anos. Ora, o que aconteceu com Cristo há 2 000 anos atinge todos os tempos e lugares. Cristo é nosso contemporâneo. A celebração é para nos acordar para essa realidade. O caso português é extraordinário. Domingo, dia do Senhor é o primeiro dia da semana, não é o fim de semana. Não é um acontecimento que tenha ficado no passado. Por isso, S. Tomás de Aquino sustenta que o Mistério Pascal não está arquivado: atinge todos os tempos e lugares[1].

Odo Casel (1886-1948), monge beneditino da abadia de Maria Laach (Almanha), por causa da sua teologia do Mistério, teve de enfrentar muitos adversários. Ele procurava fugir a um cristianismo reduzido a um código moral, a um credo, a uma religiosidade cúltico-devocional. O cristianismo é mais do que uma concepção da realidade com transfundo religioso, é um mistério. A instrumentalização da celebração litúrgica como lugar para ensinar doutrina ou para aumentar as disposições do fiel para cumprir normas morais é o desvio que a Teologia do Mistério queria evitar. Tal corrente teológica pretende colocar o fiel diante do mistério de Cristo para que ele possa participar da comunhão da vida divina.

Odo Casel recorreu a S. Tomás de Aquino para sustentar as suas posições. Foram alguns neo-tomistas que lhe resistiram, mas ele tinha razão. A actuação humano-divina de Cristo atinge todos os tempos e lugares. É o que dizem os textos da última parte da Suma Teológica.

Há pessoas que dizem que não vale a pena insistir nas festas litúrgicas mais marcantes porque serão sempre mais do mesmo. A Redenção foi feita num tempo histórico que não volta mais. Foi num tempo e num lugar, mas – como já foi referido – atinge todos os tempos e lugares.  A Páscoa está a acontecer aqui e agora. Sabemos que passamos da morte à vida porque amamos os irmãos[2].

2. O Papa Francisco falou, há muito tempo, de que nos encontrávamos numa terceira guerra mundial aos pedaços. As consequências de não se ter em conta os avisos sobre a ameaça de desastres ecológicos estão à vista e não é preciso sair do nosso país. Ora, todas estas situações devem ser assumidas pelo espírito desta Quaresma.

Como sustenta Viriato Soromenho-Marques, «o ambiente não é propriedade da física ou da biologia, nem sequer das mais recentemente designadas ciências da Terra. O ambiente só poderá ser compreendido em todas as suas implicações se mobilizar os esforços de todos os domínios do conhecimento, da cultura e da organização social, incluindo as ciências sociais e humanas»[3].

Em regime cristão, está desaconselhada a exibição da virtude. Na Quarta-Feira de Cinzas, o Evangelho de S. Mateus diz muito claramente: Tu, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto para que os outros não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai que está presente no segredo[4].

Por outro lado, o imperativo divino, sede santos, porque Eu, o Senhor, sou santo, realiza-se em atitudes muito concretas, resumidas no mandamento: amarás o teu próximo como a ti mesmo[5]. No Novo Testamento, tornar-se próximo é aproximar-se de quem precisa, só porque precisa, seja qual for a sua nacionalidade, a sua religião ou o seu ateísmo[6].

Nietzsche acusava os cristãos de andarem sempre com cara de Sexta-Feira Santa. Para que a Igreja não se torne uma tristeza, tem de se lembrar que, segundo S. João, na revelação de Jesus Cristo, tudo é para que a nossa alegria seja completa na transfiguração do quotidiano.

Quem entendeu e viveu, como ninguém, o evangelho da alegria foi São Filipe Neri (1515-1595), o santo humorista, o meu santo, como lhe chamou o luterano Goethe, e o santo da devoção do recentemente proclamado Doutor da Igreja, cardeal Henry Newman (1801-1890).

3. O Papa Leão XIV, na sua Mensagem da Quaresma, apontou três palavras para caracterizar o que ela deve ser: Escutar a voz de Deus e do Mundo, Jejuar das palavras ofensivas para estarmos mais Juntos uns dos outros. Destaco, apenas, um fragmento desta Mensagem.

Entre as muitas vozes que passam pela nossa vida pessoal e social, as Sagradas Escrituras tornam-nos capazes de reconhecer aquela que surge do sofrimento e da injustiça, para que não fique sem resposta. Entrar nesta disposição interior de receptividade significa deixar-se instruir hoje por Deus para escutar como Ele, até reconhecer que «a condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e económicos e, sobretudo, a Igreja».

Se estivermos atentos às várias dimensões da Quaresma, as nossas liturgias não serão peças de museu. Serão a introdução do Reino da Alegria.

 

 



[1] Suma Teológica III, q. 48, a. 6; p. 56, a. 1

[2] 1Jo 3, 13-18

[3] In A ecologia integral na época da antropodiceia e os seus obstáculos fundamentais.

[4] Mt 6

[5] Levítico 19

[6] Mt 25

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