sábado, 21 de fevereiro de 2026

As dez heresias do catolicismo actual. - 3 Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 As dez heresias

do catolicismo actual. 3


Concluo a apresentação das heresias do catolicismo actual,

segundo J. I. González Faus.

7. "Apresentar a Igreja como objecto de fé".

Que se entende por Igreja? É decisivo responder

adequadamente a esta pergunta, para afastar o perigo em

que caiu o Papa Pio IX, que se negava a renunciar aos

Estados Pontifícios, alegando que "aqueles territórios não

eram seus, mas de Cristo". A Igreja não é Deus, é

comunidade de comunidades formadas por homens e

mulheres que acreditam em Jesus e no Deus que Jesus

revelou e anunciou. Homens e mulheres que acreditam no

Deus de Jesus formam a Igreja e é em Igreja que

acreditam em Deus. Temos, pois, um erro quando "a

Igreja se apresenta como objecto de fé, equiparando-se ao

Deus trino e esquecendo que só em Deus, e em mais

ninguém, é possível crer, no sentido pleno da palavra".

Percebe-se também que a autoridade na Igreja só como

serviço se pode compreender.

8. "A divinização do Papa". "Confessamos que o Papa

romano tem poder para mudar a Escritura e aumentá-la ou

diminuí-la de acordo com a sua vontade. Confessamos que

o santíssimo Papa deve ser honrado por todos com a honra

devida a Deus e com a genuflexão maior devida a Cristo."

Estas "palavras incríveis" provêm da profissão de fé que

os jesuítas propunham aos protestantes húngaros para

passarem à Igreja Católica nos finais do século XVII. O

Papa Bento XVI, quando era professor, denunciou esta

profissão como "monstruosa", reconhecendo depois que o

magistério nunca a condenou.

As citações nesta linha são quase infindáveis. Atribuíram-

se ao Papa títulos como "Vice-Deus da humanidade", "o

Verbo encarnado que se prolonga". Num livro de

meditações atribuído a São João Bosco, lê-se: "O Papa é

Deus na Terra. Jesus colocou o Papa no mesmo nível de

Deus." Chama-se a isto culto da personalidade e idolatria.

Leia-se o "incrível" texto chamado Dictatus Papae, do

Papa Gregório VII, século XI: "A Igreja romana foi

fundada só por Jesus Cristo. Por isso, só o Romano

Pontífice é digno de ser chamado universal. Só ele é digno

de usar insígnias imperiais; ele é o único homem cujos pés

todos os príncipes beijam. Não existe texto jurídico algum

fora da sua autoridade; a sua sentença não pode ser

reformada por ninguém e ele pode reformar as de todos.

Ele não pode ser julgado por ninguém. A Igreja romana

nunca errou e nunca poderá errar. O Romano Pontífice

canonicamente ordenado é sem dúvida santo pelos méritos

de São Pedro." Na famosa bula Unam sanctam, o Papa

Bonifácio VIII define que "submeter-se ao Romano

Pontífice é necessário para a salvação de todos os

homens". O Papa Gregório XVI opôs-se à tradição que

fala de uma "Igreja com necessidade constante de

reforma", acusando-a de "absurda e injuriosa", porque não

se pode "nem sequer pensar que a Igreja esteja sujeita a

defeito ou ignorância ou a quaisquer outras imperfeições".

A Igreja acabou por ser confundida com o Papa, como

consta no programa do grupo La Sapinière, que o Papa

São Pio X (está canonizado) apoiou tacitamente: "Pode-se

dizer que o Papa e a Igreja são uma só coisa." E, embora a

palavra hierarquia (poder sagrado) nunca apareça no Novo

Testamento, e, na linguagem eclesiástica, só no século V,

de facto o cristianismo foi sendo reduzido a um

eclesiocentrismo e este a um hierarcocentrismo: "A Igreja

reduzida ao poder sagrado e o resto dos fiéis é apenas

objecto deste poder, cuja única missão é "aceitar ser

governado e obedecer" (e pagar), como disse o Papa Pio

X. E, por fim, este hierarcocentrismo é reduzido à figura

do Papa, separado do colégio episcopal pela forma como a

cúria romana costuma governar."

E aí está como o Papa, cuja missão é de unidade, foi fonte

de ruptura: lembrar o cisma do Oriente (1054) e a Reforma

protestante (1517), e como se percebe o fascínio que o

Papa Francisco exerceu, porque, como eu próprio disse na

televisão logo dois dias depois da sua eleição, era “um

papa cristão”.

9. "Clericalismo". Tudo se concentra nesta pergunta: Deus

pode ser concebido como Poder, quando Jesus o revelou

como "Amor que capacita para amar"?

No Novo Testamento, "a comunidade toda de crentes é

"clerical", porque foi chamada a compartilhar a herança

(klêros) dos santos na luz", como se lê na Carta aos

Colossenses. "Não existem, portanto, clero e leigos, mas

uma comunidade, um povo afortunado que, como

qualquer grupo humano, precisará de diversos serviços":

ensino, direcção, coordenação. E "os responsáveis das

Igrejas são chamados presbíteros, supervisores, servidores,

"os que trabalham por vós"..., mas nunca sacerdotes." Só

mais tarde os ministérios eclesiais se revestiram de

dignidade mundana, passando-se então do "povo

afortunado" para "os afortunados do povo". E aí está o

clericalismo para dentro e para fora da Igreja. Francisco

não se cansou de repetir que o clericalismo é “a peste da

Igreja”.

10. "Esquecimento do Espírito Santo". A raiz de todas

estas heresias: o esquecimento do Espírito do Deus de

Jesus, Espírito criador, que une na diferença e renova

todas as coisas.

Sábado, 21 de Fevereiro de 2026

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