As dez heresias
do catolicismo actual. 3
Concluo a apresentação das heresias do catolicismo actual,
segundo J. I. González Faus.
7. "Apresentar a Igreja como objecto de fé".
Que se entende por Igreja? É decisivo responder
adequadamente a esta pergunta, para afastar o perigo em
que caiu o Papa Pio IX, que se negava a renunciar aos
Estados Pontifícios, alegando que "aqueles territórios não
eram seus, mas de Cristo". A Igreja não é Deus, é
comunidade de comunidades formadas por homens e
mulheres que acreditam em Jesus e no Deus que Jesus
revelou e anunciou. Homens e mulheres que acreditam no
Deus de Jesus formam a Igreja e é em Igreja que
acreditam em Deus. Temos, pois, um erro quando "a
Igreja se apresenta como objecto de fé, equiparando-se ao
Deus trino e esquecendo que só em Deus, e em mais
ninguém, é possível crer, no sentido pleno da palavra".
Percebe-se também que a autoridade na Igreja só como
serviço se pode compreender.
8. "A divinização do Papa". "Confessamos que o Papa
romano tem poder para mudar a Escritura e aumentá-la ou
diminuí-la de acordo com a sua vontade. Confessamos que
o santíssimo Papa deve ser honrado por todos com a honra
devida a Deus e com a genuflexão maior devida a Cristo."
Estas "palavras incríveis" provêm da profissão de fé que
os jesuítas propunham aos protestantes húngaros para
passarem à Igreja Católica nos finais do século XVII. O
Papa Bento XVI, quando era professor, denunciou esta
profissão como "monstruosa", reconhecendo depois que o
magistério nunca a condenou.
As citações nesta linha são quase infindáveis. Atribuíram-
se ao Papa títulos como "Vice-Deus da humanidade", "o
Verbo encarnado que se prolonga". Num livro de
meditações atribuído a São João Bosco, lê-se: "O Papa é
Deus na Terra. Jesus colocou o Papa no mesmo nível de
Deus." Chama-se a isto culto da personalidade e idolatria.
Leia-se o "incrível" texto chamado Dictatus Papae, do
Papa Gregório VII, século XI: "A Igreja romana foi
fundada só por Jesus Cristo. Por isso, só o Romano
Pontífice é digno de ser chamado universal. Só ele é digno
de usar insígnias imperiais; ele é o único homem cujos pés
todos os príncipes beijam. Não existe texto jurídico algum
fora da sua autoridade; a sua sentença não pode ser
reformada por ninguém e ele pode reformar as de todos.
Ele não pode ser julgado por ninguém. A Igreja romana
nunca errou e nunca poderá errar. O Romano Pontífice
canonicamente ordenado é sem dúvida santo pelos méritos
de São Pedro." Na famosa bula Unam sanctam, o Papa
Bonifácio VIII define que "submeter-se ao Romano
Pontífice é necessário para a salvação de todos os
homens". O Papa Gregório XVI opôs-se à tradição que
fala de uma "Igreja com necessidade constante de
reforma", acusando-a de "absurda e injuriosa", porque não
se pode "nem sequer pensar que a Igreja esteja sujeita a
defeito ou ignorância ou a quaisquer outras imperfeições".
A Igreja acabou por ser confundida com o Papa, como
consta no programa do grupo La Sapinière, que o Papa
São Pio X (está canonizado) apoiou tacitamente: "Pode-se
dizer que o Papa e a Igreja são uma só coisa." E, embora a
palavra hierarquia (poder sagrado) nunca apareça no Novo
Testamento, e, na linguagem eclesiástica, só no século V,
de facto o cristianismo foi sendo reduzido a um
eclesiocentrismo e este a um hierarcocentrismo: "A Igreja
reduzida ao poder sagrado e o resto dos fiéis é apenas
objecto deste poder, cuja única missão é "aceitar ser
governado e obedecer" (e pagar), como disse o Papa Pio
X. E, por fim, este hierarcocentrismo é reduzido à figura
do Papa, separado do colégio episcopal pela forma como a
cúria romana costuma governar."
E aí está como o Papa, cuja missão é de unidade, foi fonte
de ruptura: lembrar o cisma do Oriente (1054) e a Reforma
protestante (1517), e como se percebe o fascínio que o
Papa Francisco exerceu, porque, como eu próprio disse na
televisão logo dois dias depois da sua eleição, era “um
papa cristão”.
9. "Clericalismo". Tudo se concentra nesta pergunta: Deus
pode ser concebido como Poder, quando Jesus o revelou
como "Amor que capacita para amar"?
No Novo Testamento, "a comunidade toda de crentes é
"clerical", porque foi chamada a compartilhar a herança
(klêros) dos santos na luz", como se lê na Carta aos
Colossenses. "Não existem, portanto, clero e leigos, mas
uma comunidade, um povo afortunado que, como
qualquer grupo humano, precisará de diversos serviços":
ensino, direcção, coordenação. E "os responsáveis das
Igrejas são chamados presbíteros, supervisores, servidores,
"os que trabalham por vós"..., mas nunca sacerdotes." Só
mais tarde os ministérios eclesiais se revestiram de
dignidade mundana, passando-se então do "povo
afortunado" para "os afortunados do povo". E aí está o
clericalismo para dentro e para fora da Igreja. Francisco
não se cansou de repetir que o clericalismo é “a peste da
Igreja”.
10. "Esquecimento do Espírito Santo". A raiz de todas
estas heresias: o esquecimento do Espírito do Deus de
Jesus, Espírito criador, que une na diferença e renova
todas as coisas.
Sábado, 21 de Fevereiro de 2026
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