As dez heresias
do catolicismo actual. 2
Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Continuo, com J.I. González Faus, a apresentar as dez
heresias do catolicismo actual.
4. "Desfiguração da Ceia do Senhor." Imaginemos uma
conversa entre um cristão piedoso de hoje e um cristão do
século I. Aquele dirá que o centro da sua vida cristã é a
"adoração eucarística" e este só lentamente entenderá que
se está a referir à "fracção do pão" e também que a Missa
quer dizer "a Ceia do Senhor". O que se passou?
Os primeiros cristãos celebravam a Eucaristia em casas
particulares, com todos à volta da mesma mesa; ali, pela
primeira vez na História, escravos e senhores sentaram-se
uns ao lado dos outros. De acordo com o Novo
Testamento, "nem sequer era o presbítero que presidia à
celebração, embora pouco a pouco se tenha imposto que o
presidente da Eucaristia fosse aquele que presidia à
comunidade, talvez para aprender que devia exercer a
autoridade não impositivamente, mas igualitariamente, e
procurando o máximo de comunhão possível".
Quando os cristãos se tornaram multidão, foram
necessários locais amplos, o latim deixou de ser entendido
pelo povo, os assistentes já não participavam, com o
celebrante de costas e à distância e as pessoas a fazerem
"outra coisa" (rezar o terço...) enquanto "estão na Missa",
atentos ao momento da "consagração" e, depois, alguns
vão receber a hóstia. Tudo se centrou no culto da hóstia,
"totalmente separado do gesto do partir, partilhar o pão".
Da refeição passou-se a um acto de culto, com uma
deturpação fundamental da Eucaristia: "Separar
completamente a matéria (pão e vinho) do gesto (partilhá-
los)", quando "partir o pão significa compartilhar a
necessidade humana (da qual o pão é símbolo primário) e
passar a taça é comunicar a alegria, da qual o vinho é
outro símbolo humano ancestral". O corpo e o sangue são
a pessoa e a vida de Jesus vivo que se dá a nós.
5. "Transformar o cristianismo numa doutrina teórica."
Heresia fundamental, que consiste em desfigurar a fé
cristã, "transformada numa doutrina teórica ou numa
religião centrada no culto, em vez de ser uma vida e um
caminho crente para a transformação do mundo". À
maneira dos gnósticos, põe-se o acento no conhecimento,
que pode ser passivo, em vez de no amor, que é
essencialmente activo: o decisivo do cristianismo não é
dizer "Senhor, Senhor", mas "fazer a vontade do Pai", que
consiste em que "todos tenham vida e vida em
abundância". "A glória de Deus é a vida do homem", dizia
Santo Ireneu.
O que então fica resume-se, infelizmente, em duas teses:
a) "Deixadas à sua própria inércia, as sociedades
estruturam-se de modo anticristão, não porque se
estruturem de maneira laica ou reconheçam as uniões
homossexuais, mas porque se estruturam na desigualdade,
que é o valor mais contrário à paternidade do único Deus e
o mais característico da divindade do Dinheiro"; b) "O
Dinheiro é o único Deus verdadeiro das nossas sociedades
que se consideram modernas, mas também o verdadeiro
"senhor" de todos nós, que ameaça levar-nos à nossa
própria destruição e à destruição do planeta." E "o nosso
catolicismo foi cúmplice deste processo degenerador tão
contrário à sua essência".
6. "Negação da absoluta incompatibilidade entre Deus e o
Dinheiro." Afinal, a inscrição do dólar não é "In God we
trust", mas "In Gold we trust", como parodiou E. Dussel.
O problema dos imensamente ricos frente aos pobres que
morrem a cada dia de fome aos milhares, mais do que um
escândalo moral monstruoso, é a idolatria do deus
Dinheiro, sendo essa a razão de se contar no número das
heresias: "Uma visão teológica que pode desfigurar nada
menos que a identidade do Deus bíblico. Deus é o Deus
dos pobres, conhecê-lo não é especular muito nem sequer
rezar muito, mas "praticar a justiça", como disse o profeta
Jeremias."
Quando se olha para a linguagem oficial da Igreja, "dá a
sensação de que toda a moral se reduz ao sexo e que é aqui
que é preciso levantar a voz, ao passo que se deixa o
dinheiro correr pecaminosamente sem o molestar". Ao
contrário de Jesus, que foi parco no tema sexual, exigente
na teoria e compreensivo com as pessoas concretas, mas
duro quanto à riqueza opressora. "Não podeis servir a
Deus e a Dinheiro." Significativamente, os Evangelhos,
escritos em grego, mantiveram a palavra aramaica
“Mamôn” (e além disso, sem artigo, como se fosse um
nome próprio) para designar a riqueza: porque vem da
mesma raiz (mn) do verbo crer, acreditar. "É uma maneira
de dizer, mais uma vez, que God e Gold são muito
aparentados: não se pode adorar ao mesmo tempo Deus e
o Dinheiro." Quando se pensa na força crescente do
Dinheiro, cada vez com mais possibilidades, pois já não se
trata de meros poderes pessoais, mas estruturais e
anónimos, é preciso rever a sociologia da religião: afinal,
ela está em aumento, o que diminui é a fé no Deus de
Jesus, o Deus que criou o mundo para todos e não apenas
para os ricos. "O deus dos senhores é diferente." (J.M.
Arguedas).
Continua.
Sábado, 14 de Fevereiro de 202
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