domingo, 15 de fevereiro de 2026

As dez heresias do catolicismo actual - 2 Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 As dez heresias

do catolicismo actual. 2

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia

Continuo, com J.I. González Faus, a apresentar as dez

heresias do catolicismo actual.

4. "Desfiguração da Ceia do Senhor." Imaginemos uma

conversa entre um cristão piedoso de hoje e um cristão do

século I. Aquele dirá que o centro da sua vida cristã é a

"adoração eucarística" e este só lentamente entenderá que

se está a referir à "fracção do pão" e também que a Missa

quer dizer "a Ceia do Senhor". O que se passou?

Os primeiros cristãos celebravam a Eucaristia em casas

particulares, com todos à volta da mesma mesa; ali, pela

primeira vez na História, escravos e senhores sentaram-se

uns ao lado dos outros. De acordo com o Novo

Testamento, "nem sequer era o presbítero que presidia à

celebração, embora pouco a pouco se tenha imposto que o

presidente da Eucaristia fosse aquele que presidia à

comunidade, talvez para aprender que devia exercer a

autoridade não impositivamente, mas igualitariamente, e

procurando o máximo de comunhão possível".

Quando os cristãos se tornaram multidão, foram

necessários locais amplos, o latim deixou de ser entendido

pelo povo, os assistentes já não participavam, com o

celebrante de costas e à distância e as pessoas a fazerem

"outra coisa" (rezar o terço...) enquanto "estão na Missa",

atentos ao momento da "consagração" e, depois, alguns

vão receber a hóstia. Tudo se centrou no culto da hóstia,

"totalmente separado do gesto do partir, partilhar o pão".

Da refeição passou-se a um acto de culto, com uma

deturpação fundamental da Eucaristia: "Separar

completamente a matéria (pão e vinho) do gesto (partilhá-

los)", quando "partir o pão significa compartilhar a

necessidade humana (da qual o pão é símbolo primário) e

passar a taça é comunicar a alegria, da qual o vinho é

outro símbolo humano ancestral". O corpo e o sangue são

a pessoa e a vida de Jesus vivo que se dá a nós.

5. "Transformar o cristianismo numa doutrina teórica."

Heresia fundamental, que consiste em desfigurar a fé

cristã, "transformada numa doutrina teórica ou numa

religião centrada no culto, em vez de ser uma vida e um

caminho crente para a transformação do mundo". À

maneira dos gnósticos, põe-se o acento no conhecimento,

que pode ser passivo, em vez de no amor, que é

essencialmente activo: o decisivo do cristianismo não é

dizer "Senhor, Senhor", mas "fazer a vontade do Pai", que

consiste em que "todos tenham vida e vida em

abundância". "A glória de Deus é a vida do homem", dizia

Santo Ireneu.

O que então fica resume-se, infelizmente, em duas teses:

a) "Deixadas à sua própria inércia, as sociedades

estruturam-se de modo anticristão, não porque se

estruturem de maneira laica ou reconheçam as uniões

homossexuais, mas porque se estruturam na desigualdade,

que é o valor mais contrário à paternidade do único Deus e

o mais característico da divindade do Dinheiro"; b) "O

Dinheiro é o único Deus verdadeiro das nossas sociedades

que se consideram modernas, mas também o verdadeiro

"senhor" de todos nós, que ameaça levar-nos à nossa

própria destruição e à destruição do planeta." E "o nosso

catolicismo foi cúmplice deste processo degenerador tão

contrário à sua essência".

6. "Negação da absoluta incompatibilidade entre Deus e o

Dinheiro." Afinal, a inscrição do dólar não é "In God we

trust", mas "In Gold we trust", como parodiou E. Dussel.

O problema dos imensamente ricos frente aos pobres que

morrem a cada dia de fome aos milhares, mais do que um

escândalo moral monstruoso, é a idolatria do deus

Dinheiro, sendo essa a razão de se contar no número das

heresias: "Uma visão teológica que pode desfigurar nada

menos que a identidade do Deus bíblico. Deus é o Deus

dos pobres, conhecê-lo não é especular muito nem sequer

rezar muito, mas "praticar a justiça", como disse o profeta

Jeremias."

Quando se olha para a linguagem oficial da Igreja, "dá a

sensação de que toda a moral se reduz ao sexo e que é aqui

que é preciso levantar a voz, ao passo que se deixa o

dinheiro correr pecaminosamente sem o molestar". Ao

contrário de Jesus, que foi parco no tema sexual, exigente

na teoria e compreensivo com as pessoas concretas, mas

duro quanto à riqueza opressora. "Não podeis servir a

Deus e a Dinheiro." Significativamente, os Evangelhos,

escritos em grego, mantiveram a palavra aramaica

“Mamôn” (e além disso, sem artigo, como se fosse um

nome próprio) para designar a riqueza: porque vem da

mesma raiz (mn) do verbo crer, acreditar. "É uma maneira

de dizer, mais uma vez, que God e Gold são muito

aparentados: não se pode adorar ao mesmo tempo Deus e

o Dinheiro." Quando se pensa na força crescente do

Dinheiro, cada vez com mais possibilidades, pois já não se

trata de meros poderes pessoais, mas estruturais e

anónimos, é preciso rever a sociologia da religião: afinal,

ela está em aumento, o que diminui é a fé no Deus de

Jesus, o Deus que criou o mundo para todos e não apenas

para os ricos. "O deus dos senhores é diferente." (J.M.

Arguedas).

Continua.

Sábado, 14 de Fevereiro de 202

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