sábado, 7 de fevereiro de 2026

As dez heresias do catolicismo actual.1 - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

As dez heresias

do catolicismo actual. 1


O ilustre teólogo José I. González Faus morreu vai fazer

um ano no próximo dia 6 de Março. Era um bom amigo, e

quero recordá-lo, voltando ao seu livro: Herejías del

catolicismo actual, traduzido para português com o título

As dez heresias do catolicismo actual.

Heresia vem do grego háiresis, com o significado de

parcialidade. Ora, pode acontecer que uma parcialidade se

absolutize de tal modo que já não deixa espaço para

elementos imprescindíveis da identidade cristã. É neste

sentido que ele, um dos teólogos mais sólidos e cristãos

que conheci, escreveu este livro intenso, para desmontar as

dez heresias que inconscientemente foram tomando conta

da teologia e da vida, arruinando a identidade cristã. Será

o nosso guia também nas duas próximas semanas.

1. Primeira heresia: "Negação da verdadeira humanidade

de Jesus." Como reconhecer em Jesus "uma psicologia

humana como a nossa: sujeita ao erro e à ignorância ou à

fraqueza, à angústia, ao medo ou à sensação de fracasso"?

O problema está em que já se tem uma ideia prévia de

Deus e estas características parecem incompatíveis com a

dignidade divina. Mas qual é a consequência? Ao exigir

que, em Jesus, Deus corresponda à imagem que temos

dele, acabamos por impedir que Jesus revele

efectivamente Deus. São Paulo, esse, percebeu, ao

escrever que o Deus que anunciamos é "loucura para os

sábios e escândalo para as pessoas religiosas". Afinal, a

noção de dignidade divina deve ser concebida em

consonância com a ideia humana ou a partir do exemplo

de Jesus? "Eu, Senhor e Mestre, dei-vos o exemplo,

lavando-vos os pés." Jesus, de condição divina, escreve

São Paulo, "apresentou-se como um entre outros", "sendo

rico, fez-se pobre por nós, a fim de enriquecer-nos com a

sua pobreza", mostrando que a verdade de Deus é o seu

amor na autenticidade e fidelidade.

2. Vinculada à primeira, a segunda heresia: "Negação da

eminente dignidade dos pobres na Igreja." De facto, a

negação da verdadeira humanidade e humilhação do

Messias leva a não preocupar-se com os humilhados, os

pobres, os atribulados, famintos, refugiados ou presos,

embora seja com eles que Jesus em primeiro lugar se

identificou. O Papa Francisco tinha razão, voltando a uma

Igreja pobre para os pobres.

O que lemos no capítulo 25 do Evangelho segundo São

Mateus, referente ao Juízo Final? Todos são julgados pela

maneira como reagiram diante do Deus presente no

necessitado, no faminto, no nu, embora o não soubessem:

"O que fizestes a um destes mais pequeninos foi a mim

que o fizestes." Este passo do Evangelho é abissal, pois

nele não temos um ensinamento em primeiro lugar ético

mas teológico, um ensinamento sobre Deus, como ele se

comporta e é: não é possível falar sobre Deus sem a sua

relação com os seres humanos, a começar pelos mais

desamparados. "É falso todo o Deus cuja glória não seja a

vida do homem." Também está na Primeira Carta de São

João: "Se alguém possui bens deste mundo e, vendo o seu

irmão passar necessidade, não o socorre, não pode estar

nele o amor de Deus."

3. Terceira heresia: "Falsificação da cruz de Cristo." "O

que foi que condenou Jesus a uma morte tão atroz? Foi

Pilatos? Foram os escribas e fariseus? Não, meus irmãos,

não. Foi a Justiça divina que nunca quis dizer "basta" até

que o viu expirar sob este suplício. O Salvador bondoso

agonizava suspenso no ar por três cravos, derramava

lágrimas de sangue, sangrava por todos os lados. Mas a

Justiça divina, inexorável, dizia: "Ainda não. Mais." A sua

doce mãe chorava ao pé da cruz, soluçavam as piedosas

mulheres, gemiam todos os anjos e espíritos bem-

aventurados diante de tão cruel espectáculo. Mas a Justiça

divina, sem se deixar comover, repetia: "Ainda não.

Mais." E não disse "já basta" enquanto o não viu exalar o

último suspiro. O que dizeis então, meus irmãos? "Se a

Justiça divina tratou tão severamente o Unigénito do Pai

só porque havia tomado sobre si os nossos pecados, como

nos tratará a nós que somos os verdadeiros pecadores?"

Muitos terão ouvido sermões semelhantes a este, de São

Leonardo de Porto Maurício. Jesus tinha de morrer para

pagar uma dívida infinita contraída com Deus pela

humanidade e assim reconciliá-lo. Foi esta concepção que

levou muitos ao abandono da fé. Aí está um Deus bárbaro,

monstruoso, inexorável, que se não deixa comover, e uma

teologia da satisfação expiatória que santifica a justiça

próxima da vingança. O contrário do Deus que Jesus

revelou como Abbá (querido Paizinho) e Misericórdia, na

parábola do filho pródigo. "O dolorismo heterodoxo que a

Cruz produziu no nosso catolicismo vem, em boa parte,

daqui: estamos a um passo de uma redenção

"sadomasoquista", com a perversão de uma grande

verdade: "Tudo o que vale custa" transformou-se num

falso princípio: "Tudo o que custa vale." "A Cruz

transformou-se assim em factor de resignação, quando na

realidade é o resultado de Jesus não se ter resignado

perante a injustiça estabelecida." A morte de Jesus é "uma

consequência da sua vida e não uma exigência metafísica

da justiça de Deus". Não morreu vítima de um Deus irado,

que precisa de ser aplacado, mas vítima da maldade do

mundo; morreu para dar testemunho da verdade e do

amor, ser consequente com a sua mensagem, dando

testemunho até à morte do Deus que é Amor.

Continua.

Sábado, 7 de Fevereiro de 202

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