Crónicas PÁRA E PENSA
As dez heresias
do catolicismo actual. 1
O ilustre teólogo José I. González Faus morreu vai fazer
um ano no próximo dia 6 de Março. Era um bom amigo, e
quero recordá-lo, voltando ao seu livro: Herejías del
catolicismo actual, traduzido para português com o título
As dez heresias do catolicismo actual.
Heresia vem do grego háiresis, com o significado de
parcialidade. Ora, pode acontecer que uma parcialidade se
absolutize de tal modo que já não deixa espaço para
elementos imprescindíveis da identidade cristã. É neste
sentido que ele, um dos teólogos mais sólidos e cristãos
que conheci, escreveu este livro intenso, para desmontar as
dez heresias que inconscientemente foram tomando conta
da teologia e da vida, arruinando a identidade cristã. Será
o nosso guia também nas duas próximas semanas.
1. Primeira heresia: "Negação da verdadeira humanidade
de Jesus." Como reconhecer em Jesus "uma psicologia
humana como a nossa: sujeita ao erro e à ignorância ou à
fraqueza, à angústia, ao medo ou à sensação de fracasso"?
O problema está em que já se tem uma ideia prévia de
Deus e estas características parecem incompatíveis com a
dignidade divina. Mas qual é a consequência? Ao exigir
que, em Jesus, Deus corresponda à imagem que temos
dele, acabamos por impedir que Jesus revele
efectivamente Deus. São Paulo, esse, percebeu, ao
escrever que o Deus que anunciamos é "loucura para os
sábios e escândalo para as pessoas religiosas". Afinal, a
noção de dignidade divina deve ser concebida em
consonância com a ideia humana ou a partir do exemplo
de Jesus? "Eu, Senhor e Mestre, dei-vos o exemplo,
lavando-vos os pés." Jesus, de condição divina, escreve
São Paulo, "apresentou-se como um entre outros", "sendo
rico, fez-se pobre por nós, a fim de enriquecer-nos com a
sua pobreza", mostrando que a verdade de Deus é o seu
amor na autenticidade e fidelidade.
2. Vinculada à primeira, a segunda heresia: "Negação da
eminente dignidade dos pobres na Igreja." De facto, a
negação da verdadeira humanidade e humilhação do
Messias leva a não preocupar-se com os humilhados, os
pobres, os atribulados, famintos, refugiados ou presos,
embora seja com eles que Jesus em primeiro lugar se
identificou. O Papa Francisco tinha razão, voltando a uma
Igreja pobre para os pobres.
O que lemos no capítulo 25 do Evangelho segundo São
Mateus, referente ao Juízo Final? Todos são julgados pela
maneira como reagiram diante do Deus presente no
necessitado, no faminto, no nu, embora o não soubessem:
"O que fizestes a um destes mais pequeninos foi a mim
que o fizestes." Este passo do Evangelho é abissal, pois
nele não temos um ensinamento em primeiro lugar ético
mas teológico, um ensinamento sobre Deus, como ele se
comporta e é: não é possível falar sobre Deus sem a sua
relação com os seres humanos, a começar pelos mais
desamparados. "É falso todo o Deus cuja glória não seja a
vida do homem." Também está na Primeira Carta de São
João: "Se alguém possui bens deste mundo e, vendo o seu
irmão passar necessidade, não o socorre, não pode estar
nele o amor de Deus."
3. Terceira heresia: "Falsificação da cruz de Cristo." "O
que foi que condenou Jesus a uma morte tão atroz? Foi
Pilatos? Foram os escribas e fariseus? Não, meus irmãos,
não. Foi a Justiça divina que nunca quis dizer "basta" até
que o viu expirar sob este suplício. O Salvador bondoso
agonizava suspenso no ar por três cravos, derramava
lágrimas de sangue, sangrava por todos os lados. Mas a
Justiça divina, inexorável, dizia: "Ainda não. Mais." A sua
doce mãe chorava ao pé da cruz, soluçavam as piedosas
mulheres, gemiam todos os anjos e espíritos bem-
aventurados diante de tão cruel espectáculo. Mas a Justiça
divina, sem se deixar comover, repetia: "Ainda não.
Mais." E não disse "já basta" enquanto o não viu exalar o
último suspiro. O que dizeis então, meus irmãos? "Se a
Justiça divina tratou tão severamente o Unigénito do Pai
só porque havia tomado sobre si os nossos pecados, como
nos tratará a nós que somos os verdadeiros pecadores?"
Muitos terão ouvido sermões semelhantes a este, de São
Leonardo de Porto Maurício. Jesus tinha de morrer para
pagar uma dívida infinita contraída com Deus pela
humanidade e assim reconciliá-lo. Foi esta concepção que
levou muitos ao abandono da fé. Aí está um Deus bárbaro,
monstruoso, inexorável, que se não deixa comover, e uma
teologia da satisfação expiatória que santifica a justiça
próxima da vingança. O contrário do Deus que Jesus
revelou como Abbá (querido Paizinho) e Misericórdia, na
parábola do filho pródigo. "O dolorismo heterodoxo que a
Cruz produziu no nosso catolicismo vem, em boa parte,
daqui: estamos a um passo de uma redenção
"sadomasoquista", com a perversão de uma grande
verdade: "Tudo o que vale custa" transformou-se num
falso princípio: "Tudo o que custa vale." "A Cruz
transformou-se assim em factor de resignação, quando na
realidade é o resultado de Jesus não se ter resignado
perante a injustiça estabelecida." A morte de Jesus é "uma
consequência da sua vida e não uma exigência metafísica
da justiça de Deus". Não morreu vítima de um Deus irado,
que precisa de ser aplacado, mas vítima da maldade do
mundo; morreu para dar testemunho da verdade e do
amor, ser consequente com a sua mensagem, dando
testemunho até à morte do Deus que é Amor.
Continua.
Sábado, 7 de Fevereiro de 202
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