sábado, 21 de março de 2026

O ser humano: mistério para si mesmo - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 O ser humano:

mistério para si mesmo


A questão que o ser humano é para si

mesmo mostra-se paradoxal. Por um lado, é

inevitável: o abismo insuperável entre o

que espera e quer ser e o que realmente

alcança, obriga-o a perguntar: o que sou?

Que ser é esse que é entre ser e não ser e

que nunca é plenamente? Por outro lado, a

questão é insolúvel, porque, para conhecer-

se, o ser humano precisava de saltar para

fora de si em ordem a poder ver-se de fora,

objectivamente. Ora, precisamente este salto

é impossível.

Depois, o ser humano vive-se a si mesmo

em processo e em tensão. E são muitas as

suas tensões. Lá está sempre a pulsão e a

lógica, a afectividade e o pensamento, o

inconsciente e o consciente, a emoção e o

cálculo, o impulso e a razão. Aliás, essa

tensão inscreve-se numa base

neurofisiológica — há o cérebro que

funciona holisticamente, mas com três

níveis: o paleocérebro, o cérebro arcaico,

reptiliano, o mesocéfalo, o cérebro da

afectividade, e o córtex com o neocórtex, em

conexão com as capacidades lógico-

racionais. Não é sabido, até por experiência

própria, que muitas vezes as respostas

emocionais escapam ao controlo racional

por causa do chamado “atalho neuronal” e

do “sequestro emocional”, como mostrou

Paul D. Mac Lean? De repente, demos uma

resposta a alguém de que depois nos

arrependemos, a pulsão sobrepôs-se à

razão...

É verdadeiramente paradoxal a

constituição humana. Somos constituídos e

vamo-nos constituindo a partir de uma

herança genética e de uma história, numa

determinada cultura em contacto com

tantas culturas. É próprio do ser humano

não ter uma natureza fixa e imóvel, porque

é histórico e cultural...

Somos afectivos e racionais. Ninguém

começa com a inquirição racional do

mundo. Primeiro, o ser humano sentiu o

mundo e foi afectado por ele, positiva ou

negativamente. É muito lentamente que a

razão se vai erguendo no seu uso teórico-

prático.

O ser humano é situado, sumamente

concreto: resulta daquele óvulo fecundado

por aquele espermatozóide, naquele

instante, e, sempre, com uma história

concreta — esta e não outra. Ao mesmo

tempo é aberto: ao presente, ao passado e ao

futuro, a todos os outros seres humanos, à

realidade toda, ao que há e ao que não há,

pois é também o ser da utopia e do sonho e

do ilimitadamente possível.

Por isso, é único. Nunca houve nem

haverá outro como eu. Lá está o grito de

Unamuno: “Cada um de nós é único e

insubstituível. Não há outro eu no mundo!

Não há outro eu! Havê-los-á mais velhos e

mais novos, melhores e piores, mas não

outro eu. Eu sou algo inteiramente novo. Eu

não quero deixar-me classificar, porque eu,

Miguel de Unamuno, como qualquer outro

homem que aspire à consciência plena, sou

espécie única”. Ao mesmo tempo, o ser

humano é relacional e, precisamente porque

é relação sem limites, aberto a tudo, vem a

si mesmo como único, pessoal e

comunitário.

Na gigantesca história do universo e da

evolução, sabemos que há ser humano,

quando aparecem rituais funerários. Como

os outros animais, o ser humano também

morre, mas, ao contrário dos outros, sabe

que é mortal e angustia-se com a morte. É

no confronto com a morte que o mistério se

adensa. Como é que com a morte se passa

de alguém — um eu único — a ninguém,

coisa cadavérica que apodrece? Nunca

esquecerei como no funeral da minha mãe,

quando o caixão descia à cova no cemitério,

a minha irmã se agarrou a mim com esta

pergunta: “Como é que a gente não

enlouquece...” E constituiu para mim um

profundo abalo a confissão do grande

teólogo José I. González Faus sobre o pai,

que lhe transmitiu a fé e que considerava

“uma grande personalidade”: “Terminou a

sua vida derrotado e duvidando de Deus

como quase todos os humanos.”

O ser humano sabe que é finito, mas essa

consciência da finitude é-lhe dada na

abertura ao Infinito. Esta abertura é

condição de possibilidade da consciência do

finito enquanto finito. É nela que se enraíza

a condição da pergunta religiosa enquanto

tal.

O ser humano é festivo e sério,

condicionado e livre, é homo sapiens e

também homo demens — sapiens sapiens e

demens demens (sapiente sapiente e demente

demente). E homo dolens (sofredor) e homo

sperans (esperante).

Precisamos de reflectir sobre nós

mesmos. Todos os dias, particularmente

nestes tempos de agitação constante e

barulho sem fim, devíamos consagrar

algum tempo à meditação.

É muito interessante a constatação do

vínculo entre meditação, medicina e

moderação. As três têm como étimo o

radical med.-, que dá origem ao verbo latino

mederi, que tem o sentido de medir, pensar,

curar, restabelecer o equilíbrio. Cá está! É

sempre a medida e a justeza que estão em

causa. Porque a saúde resulta do equilíbrio

e da harmonia. A moderação tem a ver com

a medida justa. A meditação é ponderação e

pesagem para o equilíbrio harmónico.

Precisamos de viver

reconciliados/reconciliadas, em harmonia.

Para evitar perigo maior, de que já falava D.

António Ferreira Gomes, o famoso bispo do

Porto: a agitação paralisante e a paralisia

agitante. Com a sequência de uma procissão

de indignidades e horrores...

Sábado, 21 de Março de 2026

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