Frei Bento Domingues, O.P.
05 Abril 2026
1.
Páscoa, em hebraico, diz-se Pessach que significa passagem. Refere-se à chamada libertação dos
israelitas da escravidão no Egipto. Continua a significar a passagem da
escravidão para a liberdade.
Segundo
os textos do Novo Testamento, vivemos de uma referência fundamental que é
Jesus, o Cristo. O que lhe aconteceu foi organizado, sob o ponto de vista
litúrgico, na chamada Semana Santa. Começa com o Domingo de Ramos. Quinta,
Sexta e Sábado constituem o Tríduo Pascal, o tempo mais intenso da semana.
Não
se deve confundir o fim de semana laico que, agora, envolve sábado e Domingo.
Nessa perspectiva, o começo da semana é segunda-feira. Do ponto de vista
cristão, Domingo é o primeiro dia da semana, dia do Senhor, a Páscoa semanal.
A
Páscoa ritual teve evoluções muito diferentes de local para local. O que
importa é perceber o sentido desse ritual. Segundo o Evangelho de S. João,
durante a Ceia, Jesus levantou-se, tomou uma toalha e lavou os pés aos
discípulos. Depois, voltou à mesa[1]. Com este gesto, dava uma resposta
radical à discussão entre eles: quem seria o maior?. Eles não entenderam.
Precisaram de uma conversão radical. A Igreja só pode ser fiel, vivendo em permanente
conversão ao serviço dos mais abandonados. Passaram 2 000 anos. É
misterioso que os seres humanos gastem na guerra o que deveria ser gasto na
promoção da paz, na fraternidade universal.
As mulheres entraram muito
cedo e de vários modos na vida de Jesus de Nazaré. Hoje, é quase impossível
imaginar a importância desse fenómeno. Seria necessário estudar o lugar da
mulher na cultura religiosa do tempo de Jesus, para perceber o alcance da revolução
que ele desencadeou. Vivemos numa época na qual a mulher tem um papel cada vez
mais activo na vida e na liderança das sociedades, mas a sua situação na Igreja
é um anacronismo que, esperamos, os anos se encarregarão de vencer.
De facto, a situação do
estatuto da mulher, ainda tem muitas lacunas, mas segundo notícias recentes cresce,
cada vez mais, na Europa, e nomeadamente em Portugal, o número de mulheres
cientistas e engenheiras[2]. É importante que, na Igreja, não se esqueça
este fenómeno, para não negar a sua mais antiga tradição: «todos vós sois
filhos de Deus em Cristo Jesus, mediante a fé; pois todos
os que fostes baptizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo mediante a
fé. Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não
há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus»[3].
É verdade que também a exegese
feminista conquistou, no âmbito das abordagens contextuais, um lugar, ainda não
ao sol, mas à sombra, no documento da Comissão Pontifícia Bíblica de 1993, (A interpretação da Bíblia na Igreja).
O que espanta é a lentidão em
reconhecer o que parece claro no Novo Testamento e que, ainda hoje, muitos não
querem ver o que estão a ver, devido à resistência de uma cultura secular “antifeminista”
que nos torna cegos.
No Evangelho de S. Lucas[4], depois da cena escandalosa da mulher
que surpreendeu, tocou e beijou Jesus, na casa de um fariseu, onde ele estava a
jantar – e para onde ela não tinha sido convidada –, são as mulheres que surgem
em grupo, de uma forma estranha e ambígua. Vale a pena transcrever o texto: depois disso, ele andava por cidades e
aldeias, pregando e anunciando a boa nova do reino de Deus. Os Doze
acompanhavam-no, assim como algumas mulheres: Maria, chamada Madalena, Joana,
mulher de Cuza, o procurador de Herodes, Suzana e várias outras, que os serviam
com os seus bens. Iremos encontrá-las depois da Ressurreição dedicadas a
converter, muito a custo, os Apóstolos que lhes não davam crédito[5]. São elas as mulheres da Páscoa cristã.
O grande historiador judeu,
Flávio Josefo, nas Antiguidades Judaicas, afirma, por duas vezes, que «o
testemunho das mulheres não deve ser aceite por causa da fragilidade e
presunção do seu sexo». Noutra passagem, com outras palavras, repete a mesma
ideia: «das mulheres não se pode aceitar nada como certo, por causa da
ligeireza e temeridade do seu sexo».
2. Um outro judeu, Jesus de Nazaré, parece que
estava apostado em atirar pelos ares, costumes e ideias, que perpetuavam a
marginalização do testemunho das mulheres. A opção deste Nazareno era de um
atrevimento escandaloso, ao fazer delas testemunhas da sua Vida, da sua Paixão,
da Ressurreição e do Pentecostes.
É certo que começam a
aparecer, no Evangelho de S. Lucas, em grupo, mas de uma forma sorrateira e
como que, apenas, financiadoras do novo projecto. Dá a ideia de que foram conquistando
terreno até ao momento extremo de tornarem o futuro do movimento cristão
dependente delas. Não me parece nada que tenha sido assim, embora não tenha
espaço para o demonstrar.
As narrativas do Novo
Testamento, aquilo a que chamamos os Evangelhos, são fruto de várias tradições,
de várias comunidades, de tempos e culturas diferentes. O que espanta é que
sendo textos escritos por homens, também eles marcados pela mentalidade
reflectida por Flávio Josefo, os seus escritos testemunham uma presença impressionante
de mulheres em torno de Jesus e nas Igrejas nascentes.
Podemos e devemos imaginar é
o que deve ter sido a presença activa das mulheres, em todo o percurso de
Jesus, para ter resistido ao aperto cultural e religioso do seu tempo.
3. Pertence aos exegetas bíblicos[6] continuar a analisar, com todos os métodos de
que dispõem, as narrativas sobre o túmulo vazio e as aparições do Ressuscitado.
Essas narrativas coincidem em algo essencial: A morte não saiu vencedora. Jesus
está vivo e para sempre; é o mesmo, embora já não da mesma maneira. Aos
discípulos/as pede que sejam testemunhas dessa esperança, essa memória de
futuro.
Não se trata de nada que se
possa provar por qualquer das ciências que existem. É de outra ordem. A fé,
como diz o filósofo Wittengstein, é fé
naquilo de que necessita o meu coração, a minha alma e não a minha inteligência
especulativa. Pois é a minha alma com as suas paixões, por assim dizer, com a
sua carne e sangue, que tem de ser salva e não a minha razão abstrata. Só o
amor pode acreditar na Ressurreição.
O espantoso capítulo 20 do
Evangelho de S. João conta que uma mulher, Madalena, liberta e apaixonada, não
largou Jesus nem na vida, nem no vazio da morte, nem no túmulo. Continuou a
procurá-lo. Não o encontrou, mas foi encontrada por Aquele que sabia o seu
nome. A sua recompensa foram novos trabalhos, uma encomenda directa do
Ressuscitado: «vai a meus irmãos e diz-lhes: subo a meu Pai e vosso Pai, a meu
Deus e vosso Deus».
Maria Madalena foi anunciar
aos discípulos: vi o Senhor e as coisas
que Ele lhe disse.
Porque impedir as mulheres da
Páscoa de realizarem a sua missão apostólica na vida da Igreja ao serviço da
transformação do mundo?
Que a celebração da
Ressurreição de Cristo nos ajude a procurar os bons caminhos para vencer as
raízes dos ódios que ensanguentam a terra.