segunda-feira, 6 de abril de 2026

MISTÉRIOS DA PÁSCOA - Frei Bento Domingues, O.P. 05 Abril 2026

 

MISTÉRIOS DA PÁSCOA

Frei Bento Domingues, O.P.

05 Abril 2026

 

1. Páscoa, em hebraico, diz-se Pessach que significa passagem. Refere-se à chamada libertação dos israelitas da escravidão no Egipto. Continua a significar a passagem da escravidão para a liberdade.

Segundo os textos do Novo Testamento, vivemos de uma referência fundamental que é Jesus, o Cristo. O que lhe aconteceu foi organizado, sob o ponto de vista litúrgico, na chamada Semana Santa. Começa com o Domingo de Ramos. Quinta, Sexta e Sábado constituem o Tríduo Pascal, o tempo mais intenso da semana.

Não se deve confundir o fim de semana laico que, agora, envolve sábado e Domingo. Nessa perspectiva, o começo da semana é segunda-feira. Do ponto de vista cristão, Domingo é o primeiro dia da semana, dia do Senhor, a Páscoa semanal.

A Páscoa ritual teve evoluções muito diferentes de local para local. O que importa é perceber o sentido desse ritual. Segundo o Evangelho de S. João, durante a Ceia, Jesus levantou-se, tomou uma toalha e lavou os pés aos discípulos. Depois, voltou à mesa[1]. Com este gesto, dava uma resposta radical à discussão entre eles: quem seria o maior?. Eles não entenderam. Precisaram de uma conversão radical. A Igreja só pode ser fiel, vivendo em permanente conversão ao serviço dos mais abandonados. Passaram 2 000 anos. É misterioso que os seres humanos gastem na guerra o que deveria ser gasto na promoção da paz, na fraternidade universal.

As mulheres entraram muito cedo e de vários modos na vida de Jesus de Nazaré. Hoje, é quase impossível imaginar a importância desse fenómeno. Seria necessário estudar o lugar da mulher na cultura religiosa do tempo de Jesus, para perceber o alcance da revolução que ele desencadeou. Vivemos numa época na qual a mulher tem um papel cada vez mais activo na vida e na liderança das sociedades, mas a sua situação na Igreja é um anacronismo que, esperamos, os anos se encarregarão de vencer.

De facto, a situação do estatuto da mulher, ainda tem muitas lacunas, mas segundo notícias recentes cresce, cada vez mais, na Europa, e nomeadamente em Portugal, o número de mulheres cientistas e engenheiras[2]. É importante que, na Igreja, não se esqueça este fenómeno, para não negar a sua mais antiga tradição: «todos vós sois filhos de Deus em Cristo Jesus, mediante a fé; pois todos os que fostes baptizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo mediante a fé. Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus»[3].

É verdade que também a exegese feminista conquistou, no âmbito das abordagens contextuais, um lugar, ainda não ao sol, mas à sombra, no documento da Comissão Pontifícia Bíblica de 1993, (A interpretação da Bíblia na Igreja).

O que espanta é a lentidão em reconhecer o que parece claro no Novo Testamento e que, ainda hoje, muitos não querem ver o que estão a ver, devido à resistência de uma cultura secular “antifeminista” que nos torna cegos.

No Evangelho de S. Lucas[4], depois da cena escandalosa da mulher que surpreendeu, tocou e beijou Jesus, na casa de um fariseu, onde ele estava a jantar – e para onde ela não tinha sido convidada –, são as mulheres que surgem em grupo, de uma forma estranha e ambígua. Vale a pena transcrever o texto: depois disso, ele andava por cidades e aldeias, pregando e anunciando a boa nova do reino de Deus. Os Doze acompanhavam-no, assim como algumas mulheres: Maria, chamada Madalena, Joana, mulher de Cuza, o procurador de Herodes, Suzana e várias outras, que os serviam com os seus bens. Iremos encontrá-las depois da Ressurreição dedicadas a converter, muito a custo, os Apóstolos que lhes não davam crédito[5]. São elas as mulheres da Páscoa cristã.

O grande historiador judeu, Flávio Josefo, nas Antiguidades Judaicas, afirma, por duas vezes, que «o testemunho das mulheres não deve ser aceite por causa da fragilidade e presunção do seu sexo». Noutra passagem, com outras palavras, repete a mesma ideia: «das mulheres não se pode aceitar nada como certo, por causa da ligeireza e temeridade do seu sexo».

2. Um outro judeu, Jesus de Nazaré, parece que estava apostado em atirar pelos ares, costumes e ideias, que perpetuavam a marginalização do testemunho das mulheres. A opção deste Nazareno era de um atrevimento escandaloso, ao fazer delas testemunhas da sua Vida, da sua Paixão, da Ressurreição e do Pentecostes.

É certo que começam a aparecer, no Evangelho de S. Lucas, em grupo, mas de uma forma sorrateira e como que, apenas, financiadoras do novo projecto. Dá a ideia de que foram conquistando terreno até ao momento extremo de tornarem o futuro do movimento cristão dependente delas. Não me parece nada que tenha sido assim, embora não tenha espaço para o demonstrar.

As narrativas do Novo Testamento, aquilo a que chamamos os Evangelhos, são fruto de várias tradições, de várias comunidades, de tempos e culturas diferentes. O que espanta é que sendo textos escritos por homens, também eles marcados pela mentalidade reflectida por Flávio Josefo, os seus escritos testemunham uma presença impressionante de mulheres em torno de Jesus e nas Igrejas nascentes.

Podemos e devemos imaginar é o que deve ter sido a presença activa das mulheres, em todo o percurso de Jesus, para ter resistido ao aperto cultural e religioso do seu tempo.

3. Pertence aos exegetas bíblicos[6] continuar a analisar, com todos os métodos de que dispõem, as narrativas sobre o túmulo vazio e as aparições do Ressuscitado. Essas narrativas coincidem em algo essencial: A morte não saiu vencedora. Jesus está vivo e para sempre; é o mesmo, embora já não da mesma maneira. Aos discípulos/as pede que sejam testemunhas dessa esperança, essa memória de futuro.

Não se trata de nada que se possa provar por qualquer das ciências que existem. É de outra ordem. A fé, como diz o filósofo Wittengstein, é fé naquilo de que necessita o meu coração, a minha alma e não a minha inteligência especulativa. Pois é a minha alma com as suas paixões, por assim dizer, com a sua carne e sangue, que tem de ser salva e não a minha razão abstrata. Só o amor pode acreditar na Ressurreição.

O espantoso capítulo 20 do Evangelho de S. João conta que uma mulher, Madalena, liberta e apaixonada, não largou Jesus nem na vida, nem no vazio da morte, nem no túmulo. Continuou a procurá-lo. Não o encontrou, mas foi encontrada por Aquele que sabia o seu nome. A sua recompensa foram novos trabalhos, uma encomenda directa do Ressuscitado: «vai a meus irmãos e diz-lhes: subo a meu Pai e vosso Pai, a meu Deus e vosso Deus».

Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: vi o Senhor e as coisas que Ele lhe disse.

Porque impedir as mulheres da Páscoa de realizarem a sua missão apostólica na vida da Igreja ao serviço da transformação do mundo?

Que a celebração da Ressurreição de Cristo nos ajude a procurar os bons caminhos para vencer as raízes dos ódios que ensanguentam a terra.

 

 



[1] Cf. Jo 13

[2] Cf. E Rev. do Expresso, 20.03.2026, pp. 5-6

[3] Gal 3, 26-28

[4] Lc 7, 36-50. 8, 1-3

[5] Lc 24, 9-11

[6] Por ex.: A. Cunha de Oliveira, Jesus de Nazaré e as Mulheres, Instituto Açoriano de Cultura, 2011

Páscoa e vida eterna: o que queremos verdadeiramente? - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Páscoa e vida eterna:

o que queremos verdadeiramente?


Porque em devir e abertos ao futuro, a

esperança é princípio constituinte do

cosmos, do ser humano e da história. A

abertura ao futuro torna-se espera no

animal, que precisa de procurar o que lhe

falta. Tanto o animal como o ser humano

esperam, com uma diferença: o animal fica

satisfeito, quando obtém o que procura, mas

o ser humano, após a realização de cada

projecto, continua ilimitadamente aberto a

um para lá, que o move, num

transcendimento sem fim. Segundo essa

abertura ao futuro aconteça na confiança ou

na desconfiança, a espera configura-se como

esperança ou desesperança.

A esperança tem um duplo pólo:

subjectivo e objectivo, devendo assim falar-

se de esperança esperante e esperança

esperada. Neste quadro, é fácil constatar no

ser humano a diferença constitutiva entre a

primeira e a segunda: por mais que a

esperança esperante se materialize nas suas

realizações concretas, nunca se realiza

adequadamente, continuando insuperável

um abismo, de tal modo que se impõe um

plus ultra, um para lá de todo alcançado. Aí

está a razão por que todo o ser humano

morre inacabado, insatisfeito, sempre por

fazer adequada e plenamente.

Insere-se aqui a esperança pessoal para lá

da morte, mas uma esperança tal que salve

o ser humano real, de modo pessoal, e não

numa “imortalidade” impessoal, apenas

pela continuação na família, nas obras, na

sociedade...

A esperança não é certeza. Tem razões,

mas não é demonstrável cientificamente.

Não consiste em mero desejo, não pode ser

wishful thinking. Tem de fundamentar-se no

possível, em potencialidades reais. Assim,

quando se pensa na vida eterna pessoal,

entende-se que só Deus pode ser

fundamento dessa esperança. Como viu São

Paulo na Carta aos Romanos, “só o Deus que

criou a partir do nada pode ressuscitar os

mortos”. Na sua continuação, Kant

postulou a imortalidade, mas

simultaneamente postulou o Deus criador

como seu garante. Imortalidade pessoal e

Deus pessoal criador implicam-se

mutuamente.

Mas será que queremos a vida eterna?

Na sua encíclica sobre a esperança (Spe

salvi), Bento XVI debateu-se honestamente

com esta pergunta. Reconheceu que muitos

hoje recusam a fé porque “a vida eterna lhes

não parece algo desejável”. Querem a vida

presente, e a vida eterna é “um obstáculo”.

Continuar a viver para sempre, numa vida

interminável, “mais parece uma condenação

do que uma graça”. Quereríamos adiar a

morte, mas viver sempre, sem um final,

tornar-se-ia, em última análise,

“insuportável”. A eliminação da morte –

pense-se no romance de José Saramago: As

Intermitências da Morte – faria da vida na

Terra uma impossibilidade, e que benefícios

poderia trazer para o indivíduo? Então, na

nossa existência, há uma contradição: por

um lado, “não queremos morrer”, mas, por

outro, “também não desejamos continuar a

existir ilimitadamente nem a Terra foi

criada com esta perspectiva.” Que

queremos então realmente?

Esta pergunta abre para outra: “que é

realmente a ‘vida’ e que significa

verdadeiramente ‘eternidade’?” O Papa

Bento XVI respondeu apelando para

algumas das nossas experiências – a beleza,

o amor, a criação --, em que nos

aproximamos do que seria verdadeiramente

viver, de tal modo que aí até dizemos: assim

deveria ser sempre. No fundo, queremos

esta vida, que amamos, mas plena.

Queremos a bem-aventurança, a felicidade.

Não sabemos exactamente o que queremos,

pois é o desconhecido -- um “não sei quê --,

mas neste não saber sabemos e

experienciamos que essa realidade tem de

existir: é ela que nos arrasta e é para ela que

somos impelidos.

Não sabemos o que queremos dizer com

“vida eterna”. Apenas podemos pressentir

que “a eternidade não é um contínuo

suceder-se de dias no calendário, mas como

o instante pleno de satisfação, no qual a

totalidade nos abraça e nós abraçamos a

totalidade”. Seria o instante da submersão

na imensidade do ser, na vida plena, “no

oceano do amor infinito, no qual o tempo já

não existe.”

Na Páscoa, o que se celebra são estes

mistérios do cosmos, do ser humano e da

história, da vida, da morte e da vida

eterna...

Páscoa Feliz!

Sábado, 4 de Abril de 2026