segunda-feira, 6 de abril de 2026

Páscoa e vida eterna: o que queremos verdadeiramente? - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Páscoa e vida eterna:

o que queremos verdadeiramente?


Porque em devir e abertos ao futuro, a

esperança é princípio constituinte do

cosmos, do ser humano e da história. A

abertura ao futuro torna-se espera no

animal, que precisa de procurar o que lhe

falta. Tanto o animal como o ser humano

esperam, com uma diferença: o animal fica

satisfeito, quando obtém o que procura, mas

o ser humano, após a realização de cada

projecto, continua ilimitadamente aberto a

um para lá, que o move, num

transcendimento sem fim. Segundo essa

abertura ao futuro aconteça na confiança ou

na desconfiança, a espera configura-se como

esperança ou desesperança.

A esperança tem um duplo pólo:

subjectivo e objectivo, devendo assim falar-

se de esperança esperante e esperança

esperada. Neste quadro, é fácil constatar no

ser humano a diferença constitutiva entre a

primeira e a segunda: por mais que a

esperança esperante se materialize nas suas

realizações concretas, nunca se realiza

adequadamente, continuando insuperável

um abismo, de tal modo que se impõe um

plus ultra, um para lá de todo alcançado. Aí

está a razão por que todo o ser humano

morre inacabado, insatisfeito, sempre por

fazer adequada e plenamente.

Insere-se aqui a esperança pessoal para lá

da morte, mas uma esperança tal que salve

o ser humano real, de modo pessoal, e não

numa “imortalidade” impessoal, apenas

pela continuação na família, nas obras, na

sociedade...

A esperança não é certeza. Tem razões,

mas não é demonstrável cientificamente.

Não consiste em mero desejo, não pode ser

wishful thinking. Tem de fundamentar-se no

possível, em potencialidades reais. Assim,

quando se pensa na vida eterna pessoal,

entende-se que só Deus pode ser

fundamento dessa esperança. Como viu São

Paulo na Carta aos Romanos, “só o Deus que

criou a partir do nada pode ressuscitar os

mortos”. Na sua continuação, Kant

postulou a imortalidade, mas

simultaneamente postulou o Deus criador

como seu garante. Imortalidade pessoal e

Deus pessoal criador implicam-se

mutuamente.

Mas será que queremos a vida eterna?

Na sua encíclica sobre a esperança (Spe

salvi), Bento XVI debateu-se honestamente

com esta pergunta. Reconheceu que muitos

hoje recusam a fé porque “a vida eterna lhes

não parece algo desejável”. Querem a vida

presente, e a vida eterna é “um obstáculo”.

Continuar a viver para sempre, numa vida

interminável, “mais parece uma condenação

do que uma graça”. Quereríamos adiar a

morte, mas viver sempre, sem um final,

tornar-se-ia, em última análise,

“insuportável”. A eliminação da morte –

pense-se no romance de José Saramago: As

Intermitências da Morte – faria da vida na

Terra uma impossibilidade, e que benefícios

poderia trazer para o indivíduo? Então, na

nossa existência, há uma contradição: por

um lado, “não queremos morrer”, mas, por

outro, “também não desejamos continuar a

existir ilimitadamente nem a Terra foi

criada com esta perspectiva.” Que

queremos então realmente?

Esta pergunta abre para outra: “que é

realmente a ‘vida’ e que significa

verdadeiramente ‘eternidade’?” O Papa

Bento XVI respondeu apelando para

algumas das nossas experiências – a beleza,

o amor, a criação --, em que nos

aproximamos do que seria verdadeiramente

viver, de tal modo que aí até dizemos: assim

deveria ser sempre. No fundo, queremos

esta vida, que amamos, mas plena.

Queremos a bem-aventurança, a felicidade.

Não sabemos exactamente o que queremos,

pois é o desconhecido -- um “não sei quê --,

mas neste não saber sabemos e

experienciamos que essa realidade tem de

existir: é ela que nos arrasta e é para ela que

somos impelidos.

Não sabemos o que queremos dizer com

“vida eterna”. Apenas podemos pressentir

que “a eternidade não é um contínuo

suceder-se de dias no calendário, mas como

o instante pleno de satisfação, no qual a

totalidade nos abraça e nós abraçamos a

totalidade”. Seria o instante da submersão

na imensidade do ser, na vida plena, “no

oceano do amor infinito, no qual o tempo já

não existe.”

Na Páscoa, o que se celebra são estes

mistérios do cosmos, do ser humano e da

história, da vida, da morte e da vida

eterna...

Páscoa Feliz!

Sábado, 4 de Abril de 2026

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