sábado, 9 de maio de 2026

A vontade de poder e o Reino de Deus - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 A vontade de poder

e o Reino de Deus


1. Embora ao princípio tenha sido

bastante ignorada, trata-se de uma obra

decisivamente importante: Die Welt als

Wille und Vorstellung (O mundo como

vontade e representação), de Arthur

Schopenhauer.

“O mundo é a minha representação”,

assim começa, pois é sempre com a nossa

estrutura humana que o captamos. Mas o

ser humano não se reduz ao conhecimento.

Antes de pensarmos, vivemos: respiramos,

comemos, bebemos, movimentamo-nos.

Somos um corpo vivo que quer viver. No

mais fundo de nós, somos vontade de viver,

e a mais forte expressão dessa vontade está

no sexo e no instinto de reprodução.

Toda a vida orgânica é manifestação

dessa vontade. É aterrador o que se passa

na selva — também na “selva humana”.

Mais: a vontade está na raiz das

manifestações da natureza inorgânica —

pense-se na potência que põe os astros em

movimento, na energia nuclear, na força de

atracção e repulsa dos elementos, nas

tempestades, nos terramotos, nos vulcões. O

universo, aparentemente sereno, é um

reboliço infindo, gigantesco.

Foi também aqui que Nietzsche veio

beber a sua teorização da vontade de poder

e do super-homem. O que é a moral vulgar

senão a manifestação do ressentimento dos

fracos contra os fortes?

2. Já não se repara nisso, mas o

cristianismo é realmente um paradoxo e um

escândalo.

Jesus disse que veio para que tivéssemos

“a vida e a vida em abundância”. Ele é a

“ressurreição e a vida”. Mas a vida que ele

traz não é a vida para os mais fortes. Os

preferidos são os fracos, os doentes, os

aleijados, os pobres, os coxos, os cegos, os

leprosos, as prostitutas, os pecadores

públicos, os marginalizados pela sociedade,

os excluídos pela religião. E são

precisamente os poderosos da religião e da

política que em coligação o excluem do

mundo, condenando-o à morte e morte de

cruz – a morte dos escravos.

Portanto, Jesus aparece sem poder. Ele é

aparentemente o derrotado pelos

poderosos.

São Paulo percebeu o escândalo, dizendo

que só pregava Cristo, e Cristo crucificado.

Aos Coríntios escreveu: “Enquanto os

judeus pedem sinais e os gregos andam em

busca da sabedoria, nós pregamos um

Messias crucificado, escândalo para os

judeus e loucura para os gentios”. E foi ao

Areópago, em Atenas, pregar “o Deus

desconhecido”, que ressuscitou Jesus.

Agora, “quem quiser ganhar a vida deve

perdê-la, quem a perder por amor ganha-a”.

É tal o paradoxo que, aqui, se agita uma

pergunta tentadora: Porque não criou Deus

um mundo mais amoroso e menos violento?

Mas, desgraçadamente, não há quem

continua a pregar um deus sádico: Deus

mandou o seu Filho Jesus para, pela morte

na cruz, pagar a dívida infinita pelo pecado

e assim Deus aplacar a sua ira e reconciliar-

se com a humanidade?...

3. Os seres humanos debatem-se com três

impulsos – manifestações fundamentais da

vida como potência -- de cuja gestão

depende uma vida humana boa para todos:

o prazer, o ter e o poder.

Alguns dos primeiros cristãos

resolveram a questão de modo radical,

entregando o poder a César, renunciando

ao casamento, dando os bens aos pobres. A

sua fidelidade era facilitada pela convicção

da chegada iminente do Reino de Deus,

com a segunda vinda de Jesus. Se o Reino

de Deus, aquele Reino onde Deus reina e

onde não haverá escassez nem exploração

nem dor nem morte e se realizarão todas as

esperanças, está para chegar, César que

fique com o poder, efémero, a questão do

casamento não se põe, já não se trabalha e

tudo é comum...

Depois, foi o que se sabe. Até o Papa se

declarou “sumo pontífice”, sucedendo ao

imperador, também com cerimoniais da

corte, os bispos ocuparam palácios, os

cristãos mataram e mataram-se por causa

do prazer, do ter e do poder...

Jesus ainda não voltou, e a vida sem

algum prazer não tem interesse; para haver

futuro, é preciso continuar a gerar; a

economia tem de funcionar, e não há

comunidades humanas sem um mínimo de

exercício do poder, não o poder como

dominação, mas como serviço para o bem

comum universal, segundo o direito, a

justiça e a paz. Assim, o desafio essencial

para os cristãos e todas as pessoas de boa

vontade é a gestão do prazer, do ter e do

poder, no horizonte da mensagem de Jesus

com as bem-aventuranças: “felizes os

pobres em espírito” — não fazem da

riqueza o seu deus —, “os mansos, os

misericordiosos, os pacificadores, os puros

de coração, os que se batem pela justiça e a

paz...”

Não permitindo que se realize a queixa

de Nietzsche: “Cristãos? Só houve um, e

morreu na cruz.” Depois, veio a Igreja e “o

Disangelho”.

Sábado, 2 de Maio de 2026

Sem comentários:

Enviar um comentário