A vontade de poder
e o Reino de Deus
1. Embora ao princípio tenha sido
bastante ignorada, trata-se de uma obra
decisivamente importante: Die Welt als
Wille und Vorstellung (O mundo como
vontade e representação), de Arthur
Schopenhauer.
“O mundo é a minha representação”,
assim começa, pois é sempre com a nossa
estrutura humana que o captamos. Mas o
ser humano não se reduz ao conhecimento.
Antes de pensarmos, vivemos: respiramos,
comemos, bebemos, movimentamo-nos.
Somos um corpo vivo que quer viver. No
mais fundo de nós, somos vontade de viver,
e a mais forte expressão dessa vontade está
no sexo e no instinto de reprodução.
Toda a vida orgânica é manifestação
dessa vontade. É aterrador o que se passa
na selva — também na “selva humana”.
Mais: a vontade está na raiz das
manifestações da natureza inorgânica —
pense-se na potência que põe os astros em
movimento, na energia nuclear, na força de
atracção e repulsa dos elementos, nas
tempestades, nos terramotos, nos vulcões. O
universo, aparentemente sereno, é um
reboliço infindo, gigantesco.
Foi também aqui que Nietzsche veio
beber a sua teorização da vontade de poder
e do super-homem. O que é a moral vulgar
senão a manifestação do ressentimento dos
fracos contra os fortes?
2. Já não se repara nisso, mas o
cristianismo é realmente um paradoxo e um
escândalo.
Jesus disse que veio para que tivéssemos
“a vida e a vida em abundância”. Ele é a
“ressurreição e a vida”. Mas a vida que ele
traz não é a vida para os mais fortes. Os
preferidos são os fracos, os doentes, os
aleijados, os pobres, os coxos, os cegos, os
leprosos, as prostitutas, os pecadores
públicos, os marginalizados pela sociedade,
os excluídos pela religião. E são
precisamente os poderosos da religião e da
política que em coligação o excluem do
mundo, condenando-o à morte e morte de
cruz – a morte dos escravos.
Portanto, Jesus aparece sem poder. Ele é
aparentemente o derrotado pelos
poderosos.
São Paulo percebeu o escândalo, dizendo
que só pregava Cristo, e Cristo crucificado.
Aos Coríntios escreveu: “Enquanto os
judeus pedem sinais e os gregos andam em
busca da sabedoria, nós pregamos um
Messias crucificado, escândalo para os
judeus e loucura para os gentios”. E foi ao
Areópago, em Atenas, pregar “o Deus
desconhecido”, que ressuscitou Jesus.
Agora, “quem quiser ganhar a vida deve
perdê-la, quem a perder por amor ganha-a”.
É tal o paradoxo que, aqui, se agita uma
pergunta tentadora: Porque não criou Deus
um mundo mais amoroso e menos violento?
Mas, desgraçadamente, não há quem
continua a pregar um deus sádico: Deus
mandou o seu Filho Jesus para, pela morte
na cruz, pagar a dívida infinita pelo pecado
e assim Deus aplacar a sua ira e reconciliar-
se com a humanidade?...
3. Os seres humanos debatem-se com três
impulsos – manifestações fundamentais da
vida como potência -- de cuja gestão
depende uma vida humana boa para todos:
o prazer, o ter e o poder.
Alguns dos primeiros cristãos
resolveram a questão de modo radical,
entregando o poder a César, renunciando
ao casamento, dando os bens aos pobres. A
sua fidelidade era facilitada pela convicção
da chegada iminente do Reino de Deus,
com a segunda vinda de Jesus. Se o Reino
de Deus, aquele Reino onde Deus reina e
onde não haverá escassez nem exploração
nem dor nem morte e se realizarão todas as
esperanças, está para chegar, César que
fique com o poder, efémero, a questão do
casamento não se põe, já não se trabalha e
tudo é comum...
Depois, foi o que se sabe. Até o Papa se
declarou “sumo pontífice”, sucedendo ao
imperador, também com cerimoniais da
corte, os bispos ocuparam palácios, os
cristãos mataram e mataram-se por causa
do prazer, do ter e do poder...
Jesus ainda não voltou, e a vida sem
algum prazer não tem interesse; para haver
futuro, é preciso continuar a gerar; a
economia tem de funcionar, e não há
comunidades humanas sem um mínimo de
exercício do poder, não o poder como
dominação, mas como serviço para o bem
comum universal, segundo o direito, a
justiça e a paz. Assim, o desafio essencial
para os cristãos e todas as pessoas de boa
vontade é a gestão do prazer, do ter e do
poder, no horizonte da mensagem de Jesus
com as bem-aventuranças: “felizes os
pobres em espírito” — não fazem da
riqueza o seu deus —, “os mansos, os
misericordiosos, os pacificadores, os puros
de coração, os que se batem pela justiça e a
paz...”
Não permitindo que se realize a queixa
de Nietzsche: “Cristãos? Só houve um, e
morreu na cruz.” Depois, veio a Igreja e “o
Disangelho”.
Sábado, 2 de Maio de 2026
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