sábado, 6 de junho de 2026

Somos livres? - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

Somos livres?

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia

Esta é a pergunta decisiva. De facto, se

não somos livres, o que se chama dignidade

humana pode ser uma convenção, mas não

tem fundamento real.

Mas quem nunca foi assaltado pela

pergunta: a minha vida teria podido ser

diferente? Para sabê-lo cientificamente, seria

preciso o que não é possível: repetir a vida

exactamente nas mesmas circunstâncias. Só

assim se verificaria se as “escolhas” se

repetiam nos mesmos termos ou não.

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Não há dúvida de que a liberdade

humana é condicionada. Mas ela existe ou é

uma ilusão? Não vêm agora neurocientistas

dizer que, mediante dados da tomografia de

emissão de positrões e da ressonância

magnética nuclear funcional, se mostra que

afinal as nossas decisões são dirigidas por

processos neuronais inconscientes?

De qualquer modo, em 2004, destacados

neurocientistas também tornaram público

um “Manifesto sobre o presente e o futuro

da investigação do cérebro” – cito Hans

Küng, no seu Der Anfang aller Dinge (O

princípio de todas as coisas) --, revelando-se

prudentes no que toca às “grandes

perguntas”: “Como surgem a consciência e

a vivência do eu? Como se entrelaçam a

acção racional e a acção emocional? Que

valor se deve conceder à ideia de ‘livre

arbítrio’? Colocar já hoje as grandes

perguntas das neurociências é legítimo, mas

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pensar que terão resposta nos próximos dez

anos é muito pouco realista.” É preciso

continuar as investigações, no sentido de

perceber o nexo entre a mente e o cérebro.

“Mas nenhum progresso terminará num

triunfo do reducionismo neuronal. Mesmo

que alguma vez chegássemos a explicar a

totalidade dos processos neuronais

subjacentes à simpatia que o ser humano

pode sentir pelos seus congéneres, ao seu

enamoramento e à sua responsabilidade

moral, a autonomia da ‘perspectiva interna’

permaneceria intacta. Pois também uma

fuga de Bach não perde nada do seu

fascínio, quando se compreende com

exactidão como está construída.”

A liberdade não é desvinculável da

experiência subjectiva, da “perspectiva

interna”. Essa experiência é transcendental,

no sentido de que se afirma até na sua

negação. De facto, se tudo se movesse no

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quadro do determinismo total, como

surgiria o debate sobre a liberdade?

Essa experiência coloca-se concretamente

no campo da moral e da responsabilidade.

Neste contexto, há um célebre exercício

mental de Kant na Crítica da Razão Prática,

que é elucidativo e obriga a pensar.

Suponhamos que alguém, sob pena de

morte imediata, se vê confrontado com a

ordem de levantar um falso testemunho

contra uma pessoa que sabe ser inocente.

Nessas circunstâncias e por muito grande

que seja o seu amor à vida, pensará que é

possível resistir. “Talvez não se atreva a

assegurar que assim faria, no caso de isso

realmente acontecer; mas não terá outro

remédio senão aceitar sem hesitações que

tem essa possibilidade.” Existem as duas

possibilidades: resistir ou não. “Julga,

portanto, que é capaz de fazer algo, pois é

consciente de que deve moralmente fazê-lo

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e, desse modo, descobre em si a liberdade

que, sem a lei moral, lhe teria passado

despercebida.”

O que confunde frequentemente o debate

é a falta de esclarecimento quanto ao que é

realmente a liberdade. Ela é a não

submissão à necessidade coactiva, externa e

interna, mas não pode, por outro lado, ser

confundida com a arbitrariedade e a pura

espontaneidade – não implica a

espontaneidade a necessidade?

A liberdade radica na experiência

originária do Homem como dom para si

mesmo. Paradoxalmente, é na abertura a

tudo, portanto, no horizonte da totalidade

do ser, que ele vem a si mesmo como eu

único e senhor de si. Então, agir livremente

é a capacidade de erguer-se acima dos

próprios interesses, para pôr-se no lugar do

outro e agir racionalmente.

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É preciso distinguir entre causas e

razões. Quando se age sob uma causalidade

constringente, não há liberdade. Ser livre é

propor-se ideais, deliberar e agir segundo

razões e argumentos, impondo limites aos

impulsos, inclinações e desejos, o que

mostra que o ser humano pode ser senhor

dos seus actos e, assim, responsável, isto é,

pode e deve responder por eles e por si.

Sábado, 6 de Junho de 2026

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