A RENOVAÇÃO DA
IGREJA PARA A ALEGRIA DO MUNDO
Frei Bento Domingues,
O.P.
14 Dezembro 2025
1. Segundo a Bíblia, tudo começou com a alegria da
criação: Deus olhou para a sua obra e viu que era tudo bom. Com a
criação do ser humano disse que era muito bom. A Bíblia não é ingénua, é
uma biblioteca, uma construção simbólica de muitas gerações. O seu horizonte é
o Apocalipse: o novo céu e a nova terra. Não é que alguém saiba, quando
e como isto se realizará. No entanto, a esperança – essa pequenina virtude
(Peguy) – é a alavanca da História pessoal e colectiva.
No meio de tudo, está Jesus Cristo. O grande escritor judeu,
Amos Oz confessa: Li, pois, os Evangelhos
e enamorei-me de Jesus, da sua visão, da sua ternura, do seu soberano sentido
de humor, da sua franqueza, do facto de os seus ensinamentos se apresentarem
tão cheios de surpresas e estarem tão cheios de poesia.
A Igreja absorveu o Profeta Isaías para anunciar a alegria
no Advento. Situando-nos nesse horizonte, temos muito que acolher e que fazer: «O deserto e a terra árida vão alegrar-se, a estepe exultará e dará
flores belas como narcisos. Vai cobrir-se de flores e transbordar
de júbilo e de alegria. Tem a glória do Líbano, a formosura do monte Carmelo e
da planície de Saron. Verão a glória do Senhor e o esplendor do nosso Deus. Fortalecei as mãos débeis, robustecei os joelhos vacilantes. Dizei aos que têm o coração pusilânime: Tende coragem, não
temais! Eis o vosso Deus, que vem para vos libertar e vem em pessoa. Então, se abrirão os olhos do cego, os ouvidos do surdo ficarão a
ouvir, o coxo saltará como um veado e a língua do mudo dará
gritos de alegria. Chegarão a Sião entre cânticos de júbilo com
a alegria estampada nos seus rostos, transbordando de gozo e de alegria; nos
seus corações, não haverá mais tristeza nem aflição»[i].
São textos do passado insinuando os desejos do futuro.
Durante muito tempo, tudo convergia para tornar a religião uma tristeza. Com
João XXIII e o Vaticano II (1962-1965), começa a revalorização de todas as
expressões da alegria. A seguir, vem um tempo de inverno, como disse
Karl Rahner.
O Papa Francisco falava, com frequência, do divórcio entre o
cristianismo e a cultura, que aconteceu na Igreja Católica a partir do código
tridentino. Carlo Maria Martini (1927-2012), cardeal de Milão, já dizia, no
século passado, que a Igreja estava atrasada 200 anos! Yve Congar (1904-1995) disse
que a uma religião sem mundo sucedia um mundo sem religião. O mesmo se pode
dizer entre a Igreja e o mundo da cultura.
Francisco, que teve as suas iras, sobretudo com o mundo
eclesiástico, por aquilo que estragava a vida às pessoas e à própria Igreja, promoveu
um encontro com cómicos de todo mundo (14.06.2024) e disse-lhes:
«No meio de tantas notícias sombrias, imersos como estamos em
tantas emergências sociais e até pessoais, tendes o poder de espalhar a
serenidade e o sorriso. Estais entre os poucos que têm a capacidade de falar
com pessoas muito diferentes, de gerações e origens culturais diversas.
À vossa maneira, unis as pessoas, porque o riso é
contagioso. É mais fácil rir em conjunto do que sozinho: a alegria abre à
partilha e é o melhor antídoto contra o egoísmo e o individualismo. Rir também
ajuda a abater as barreiras sociais, a criar ligações entre as pessoas.
Permite-nos exprimir emoções e pensamentos, ajudando a construir uma cultura
partilhada e a criar espaços de liberdade. Lembrais-nos que o homo
sapiens é também homo ludens; que o divertimento lúdico e
o riso são fundamentais para a vida humana, para nos expressarmos, para
aprendermos, para darmos significado às situações.
O vosso talento é um dom, um dom precioso. Juntamente com o
sorriso, difunde a paz, nos corações, entre as pessoas, ajudando-nos a
ultrapassar as dificuldades e a suportar o stress diário. Ajuda-nos a encontrar
alívio na ironia e a levar a vida com humor».
2. Para Maria Rueff e Rodrigo Francisco, este
encontro «fez História porque pela primeira vez a Igreja reconhecia a
importância dos cómicos, durante séculos perseguidos, condenados à fogueira
pela Inquisição e considerados seres diabólicos e inferiores. Este gesto do
Papa Francisco atribuía finalmente dignidade à arte da comédia, tantas vezes
menosprezada, e que é juntamente com a tragédia um dos géneros fundadores do
teatro»[ii].
Estes actores que, há 4 anos, partiram «à descoberta do riso»
e reuniram um conjunto de textos sobre o humor, puseram em cena o Elogio do
Riso, no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada (Outubro/Novembro 2025).
Podia ter sido um encontro com o Papa sem especiais consequências,
mas caiu em boa terra. O Elogio do Riso, além de outras referências, trata-se
de um monólogo de Maria Rueff para que o riso nunca se apague. Este teatro teve
o seu começo e o seu fim, mas provocou o sorriso de muita gente que pode
deliciar-se com os textos sobre o humor reunidos a estre propósito.
Na Igreja portuguesa, como o Concílio não foi preparado, não
foi seguido nem foi aplicado, restava o que o Cardeal Cerejeira dizia: a Igreja portuguesa já está muito à frente
de tudo o que fizeram lá no Vaticano. Seria importante encontrar a história
do humor inquietante, na Igreja dos diferentes países.
3. Diz-se que a alegria é uma emoção natural
(por que não sobrenatural?) e positiva provocada por situações de satisfação e
de prazer, que se expressa em reacções físicas e contagiantes como sorrir, rir
ou pular.
O Natal é mesmo o riso de Deus. As situações hilariantes que
envolvem a chegada do Emmanuel, o Deus connosco, são mais que muitas.
Desde as anunciações a Maria e a José, seu esposo, até aos primeiros que
acolheram esse Deus que veio habitar entre nós: os pastores, o grupo mais marginalizado
em Israel, e os Magos, estrangeiros e visionários.
Klaus Berger, no seu livro, O Humor de Jesus,
acrescentou o subtítulo: O mundo de pernas para o ar[iii]. De facto, o Natal é o
mundo de pernas para o ar.
Os cristãos vão à Missa por causa de boas notícias, para
interiorizarem o Evangelho. Hoje, são apresentadas, em contraste, duas grandes
figuras históricas que estão na raiz do cristianismo: João Baptista e Jesus[iv].
Jesus reconhece a grandeza moral
do seu antigo mestre: Entre os filhos de
mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista, acrescentando que o menor no Reino dos céus é maior do que ele.
João queria uma reforma da religião e dos costumes; Jesus subverte não só a
religião do templo e dos diferentes grupos religiosos como o próprio moralismo
ascético de João Baptista.
A reforma religiosa proposta por
João não vai muito além da moral e da ascese; Jesus, pelo contrário, é um
humorista. Diverte-se a mostrar, em gestos e parábolas, que o amor que Deus nos
tem não depende das práticas nem das instituições que arranjamos para lhe
agradar. A sua alegria é outra e a nossa também.
Se lêssemos as narrativas do Novo
Testamento sem beatices e reparássemos na ironia, no riso e no humor que as
percorre, seria fácil descobrir quanto o Evangelho é divinamente divertido!
Boas Festas!
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