domingo, 21 de dezembro de 2025

Natal: o nascimento de Jesus e a infinita dignidade do Homem - Anselmo Borges Padre e Professor de Filosofia

 A festa do Natal deveria ser infinitamente

mais do que o festival do comércio natalício

exasperado. Há pessoas que chegam à noite de

Natal cansadas e desfeitas, por causa dos

presentes. No último instante, ainda tiveram de

ir à última loja aberta, por causa de mais uma

compra. Há inclusivamente pessoas para as

quais o tormento das compras natalícias começa

logo no início do novo ano, pouco tempo depois

do Natal: o que é que vão dar como presente

àquele, àquela, no próximo Natal?!...

Realmente, a festa do Natal é infinitamente

mais, e deve sê-lo. Porque o Natal é a visita de

Deus aos seres humanos, homens, mulheres,

jovens, crianças, bebés. É Deus presente entre os

homens. E, ao contrário do que frequentemente

fazemos com os nossos presentes, que

pretendem ser uma manifestação de ostentação

de poder junto dos outros, Deus veio, sem

majestade, sem poder. Veio, humilde, na

simplicidade. De tal maneira que os mais pobres

entre os pobres — os pastores — se não sentiram

humilhados ao visitá-lo. Foram os pastores os

primeiros que viram Deus visível num rosto de

criança. Quem é que imaginaria que Deus, se

algum dia viesse, viria assim: simples, pobre,

precisamente para que ninguém se sentisse

excluído?...

Quer se seja cristão ou não, quer se acredite

quer não, é necessário reconhecer que foi através

do cristianismo, isto é, mediante a fé no Deus

revelado em Jesus, que veio ao mundo a tomada

de consciência explícita e clara da dignidade

infinita de ser ser humano. Isso foi reconhecido

por pensadores da estatura de Hegel, Ernst

Bloch, Jürgen Habermas... Hegel afirmou

expressamente que na religião cristã está o

princípio de que "o homem tem valor

absolutamente infinito". Ernst Bloch, embora

ateu, confessou que foi pelo cristianismo que

veio ao mundo a consciência do valor infinito de

ser homem, de tal modo que nenhum ser

humano pode ser tratado como "gado". E Jürgen

Habermas, mais recentemente, escreveu que a

democracia se não entende sem a compreensão

judaico-cristã da igualdade radical de todos os

homens, por causa da "igualdade de cada

indivíduo perante Deus". A própria ideia de

pessoa enquanto dignidade inviolável e sujeito

de direitos inalienáveis veio ao mundo através

dos debates à volta da tentativa de compreender

a pessoa de Cristo e o mistério do Deus trinitário

cristão.

Sim, é uma alegria enorme dar um presente e

receber um presente, concretamente na época de

Natal. Mas essa alegria não provém tanto do

valor material do presente como desse saber que

consiste em sermos e estarmos nós próprios

presentes uns aos outros: ele lembrou-se de

mim, eu lembrei-me dele; eu lembrei-me dela,

ela lembrou-se de mim...

O pequeno presente oferecido é sinal,

símbolo, dessa presença calorosa, e exprime a

alegria de ser Homem, cuja dignidade infinita

reconhecemos em cada ser humano. Assim,

celebrar o Natal tem de ser também contribuir

para que se concretize o anúncio dos anjos aos

pastores, os mais pobres de entre os pobres de

então: "Nasceu para vós um salvador; Paz na

terra aos homens amados por Deus". É uma

vergonha para a Humanidade que hoje centenas

de milhões de pessoas passem fome e morram

de fome… O que se gasta em armamento, para

matar milhões, não deveria ser, se realmente se

entendesse o Natal verdadeiro, para dar

educação, comida, água potável, serviços

sanitários mínimos..., a milhares de milhões de

pessoas?...

Bom Natal! Natal feliz!

Sábado, 20 de Dezembro de 2025

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