segunda-feira, 25 de maio de 2026

Onde e quando é a vida eterna? - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

Onde e quando é

a vida eterna?

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Lembro-me perfeitamente. Eu estava em

Tubinga, Alemanha, quando, pela manhã,

fui surpreendido por este título na primeira

página do jornal: “O Presidente visita o

Filósofo”.

François Mitterand fora falar com o

filósofo Jean Guitton a sua casa, para

perguntar-lhe o que é a morte. “Qual é a

última barreira?” “Senhor Presidente, é

muito simples. A última barreira é a morte”.

“Mas... e depois da morte?” “Depois da

morte é o que se chama o Além”. “Mas o

que é o Além?” Aí, o conhecido filósofo

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católico, discípulo de Bergson, amigo de

Paulo VI, observador no Concílio Vaticano

II, respondeu que não sabia; precisamente

“porque é o Além”.

Outro grande filósofo do século XX,

Ernst Bloch, o filósofo ateu da esperança,

deixou escrito que “o cristianismo, na

concorrência com outros profetas da

imortalidade e da sobrevivência, venceu em

grande parte graças à proclamação de

Cristo: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida’. No

século primeiro depois do acontecimento do

Gólgota, a ressurreição foi referida ao

Gólgota de uma forma inteiramente pessoal,

de tal modo que pelo baptismo na morte de

Cristo se experiencia a ressurreição com ele.

Imperava então um desespero apaixonado,

que hoje nos parece incompreensível.” De

facto, hoje, face ao Além e à vida eterna, o

que parece estar em vigência é a

indiferença. Mas Bloch prevenia: “nada

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impede que dentro de 50 ou 100 anos volte

essa neurose ou psicose de angústia da

morte, de tipo metafísico, com a pergunta

radical: para quê o esforço da nossa

existência, se morremos completamente,

vamos para a cova e, em última instância,

não nos resta nada?”

Outro filósofo marxista, B. Bosnjak,

contemporâneo de Bloch, também escreveu:

“Determinadas formas de religião podem

deixar de existir. Mas, como antítese da

morte, quer dizer, como aspiração de

eternidade, a religião pode sempre tornar a

renascer. De facto, encontramo-nos perante

o maior dos mistérios: não sabemos porque

é que existe alguma coisa em vez do nada”.

Já São Paulo tinha proclamado que, se

Cristo não ressuscitou, é vã a fé dos cristãos.

Mas, há relativamente poucos anos,

precisamente em tempos de Páscoa –

celebração da morte e da ressurreição de

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Jesus – andaram os média alarmados por

causa de um filme de James Cameron, The

Lost Tomb of Jesus, com um documentário

sobre uma descoberta arqueológica de 1980

em Jerusalém: dez ossários, seis dos quais

com nomes decisivos do Novo Testamento

e supostamente ligados à família de Jesus:

Jesus, filho de José; Maria; José; Mariamme

(Maria Madalena?); Judas, filho de Jesus;

Mateus. Encontrado o corpo de Jesus,

afundar-se-ia o edifício da Igreja cristã,

assente precisamente na ressurreição!

A maior parte dos arqueólogos e

investigadores veio dizer que a afirmação

de que se tinha encontrado o túmulo da

família de Jesus era um disparate ridículo.

No entanto, as pessoas gostam do esotérico

e do escândalo.

Vamos, porém, supor que um dia se

demonstrava que se tinha encontrado os

restos mortais de Jesus. Então?

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Lembro-me de, ainda jovem estudante,

ter dito a um professor jesuíta, holandês, da

Universidade Gregoriana de Roma, que, se

viessem a encontrar os restos do cadáver de

Jesus, a fé cristã continuaria inabalável. Ele

ficou surpreendido com a minha ousadia,

mas remeteu-me para o famoso Lexikon für

Theologie und Kirche onde se defendia essa

posição.

É evidente que a ressurreição nada tem a

ver com a reanimação do cadáver, pois, se

fosse isso, a pessoa voltaria a morrer. A

ressurreição é a afirmação de fé, com razões,

de que Jesus, na morte, não soçobrou no

nada, mas foi encontrado pela plenitude do

mistério inominável de Deus.

O que é e como é esse encontro ninguém

sabe – a ultimidade transcende a razão

científica, empírico-matemática. Mas

aqueles que acreditam em Deus, o Vivente,

que é Amor, Criador de todas as coisas,

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Fundamento e Sentido último de tudo

quanto existe, fazem suas aquelas palavras

que, noutro contexto, Espinosa deixou:

“sabemos e experienciamos que somos

eternos”.

Ainda neste contexto, permito-me citar,

mais uma vez, Herbert Haag, o grande

amigo e talvez o maior exegeta do século

XX. Para um dos últimos encontros, levei

uma pergunta que alguém me pediu para

lhe fazer: se acreditava na vida para lá da

morte. E ele, textualmente: “Diga-lhe que

sim. Eu creio na vida para lá da morte.

Como é ninguém sabe.”

A vida eterna é só depois da morte?

Quem não viveu na superfície das coisas,

quem perguntou até à raiz de tudo, quem

se exaltou indizivelmente com o fulgor da

beleza, quem criou uma obra, um filho,

quem alguma vez teve um gesto

absolutamente gratuito de amor, quem se

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deixou surpreender pelo abismo in-finito do

olhar de alguém, quem teve a graça de

banquetes felizes com familiares e amigos,

aqueles amigos que levamos no coração,

quem fruiu exaltadamente de concertos

musicais, inolvidáveis, pois continuam a

morar connosco, quem tentou descer até ao

fundo sem fundo de si, quem foi abalado

pela exigência incondicionada do dever a

ponto de preferir ser morto a matar, quem

se deixou amorosamente tocar por um tu

que não se possui nem domina, quem foi

alguma vez avassaladoramente visitado

pela pergunta inconstruível: “porque há

algo e não nada?”, quem se deixou

confrontar com a vida de Jesus e o seu

Evangelho por palavras e obras, sem se

acobardar sabendo que acabaria por ser

julgado e condenado à morte, e morte de

cruz, por aqueles a quem a sua Mensagem

não interessava, pelo contrário —

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representantes do Templo e do Império —,

foi, é, tangido pela fímbria da eternidade...

Então, onde e quando é a vida eterna?

Aqui e agora, no Aberto. Sem esquecer os

horrores do mundo.

Sábado, 23 de Maio de 2026

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