sábado, 13 de junho de 2026

O cérebro, o eu e a liberdade - Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 Crónicas PÁRA E PENSA

O cérebro,

o eu e a liberdade


O que diz alguém, quando diz “eu”?

Afirma-se a si mesmo como sujeito, autor

das suas acções conscientes, centro pessoal

responsável por elas, alguém referido a si

mesmo, na abertura e em contraposição a

tudo.

Mas há observações perturbadoras. Por

exemplo, pode acontecer que alguém

adulto, ao olhar para si em miúdo, se veja

de fora, apontando como que para um

outro: aquele era eu, sou eu?

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Há filósofos que se referem à ilusão do

eu. Certas interpretações do budismo

caminham nesta direcção. No quadro da

impermanência e da interdependência de

todas as coisas, fala-se da inexistência do eu,

do não-eu. Matthieu Ricard, investigador

em genética celular e monge budista, deu-

me, num congresso no Porto, um exemplo:

veja ali o rio Douro. O que é o rio Douro?

Onde está o rio Douro? Ele não existe como

substância, pois não há senão uma corrente

de água. Está a ver a consciência? O que é

ela senão um fluxo permanente de

pensamentos fugazes, de vivências? O eu

não passa de um nome para designar um

continuum, como nomeamos um rio.

Mas há a experiência vivida e

inexpugnável do eu, ainda que numa

identidade em transformação, que

continuamente se faz, desfaz e refaz. O que

se passa é que, não se tratando de uma

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realidade coisista, é inobjectivável e

inapreensível.

É e será sempre enigmático como

aparecem no mundo corpóreo o eu e a

consciência. É claro que o eu não pode ser

pensado à maneira de uma alma, um

homunculus, um observador dentro do

corpo – o fantasma dentro da máquina. Há,

portanto, uma correlação entre a consciência

e os processos cerebrais. Mas significa isto

que essa correlação é de causalidade, de tal

modo que haverá um dia uma explicação

neuronal adequada para os estados

espirituais? Ou, como já viu Leibniz e é

agora acentuado pelo filósofo Th. Nagel,

mesmo que, por exemplo, tivéssemos todos

os conhecimentos científicos sobre os

processos neuronais de um morcego, não

saberíamos o que é o mundo a partir do seu

ponto de vista? A questão é: como se passa

de acontecimentos eléctricos e químicos no

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cérebro – processos neuronais da ordem da

terceira pessoa – para a experiência

subjectiva na primeira pessoa?

Apesar de se não afastar por princípio a

possibilidade de se poder vir a dar essa

compreensão, o filósofo Colin McGinn

pensa que talvez nunca venhamos a

entender como é que a consciência surge

num mundo corporal, a partir de processos

físicos. Também o neurocientista W. Prinz

disse numa entrevista: “Os biólogos podem

explicar como funcionam a química e a

física do cérebro. Mas até agora ninguém

sabe como se chega à experiência do eu nem

como é que o cérebro é capaz de gerar

significados.”

E sou livre ou não? É claro que, como

escreve o filósofo M. Pauen, se as nossas

actividades espirituais se identificassem

com processos cerebrais, segundo leis

naturais, já se não poderia falar em

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liberdade – “as nossas acções seriam

determinadas não por nós, mas por aquelas

leis.”

Mas, afinal, quem age, quem é o autor

das minhas acções: o meu cérebro ou eu?

“Como não é a minha mão, mas eu, quem

esbofeteia esta ou aquela pessoa, não é o

meu cérebro, mas eu, quem decide. O facto

de eu pensar com o cérebro não significa

que seja o cérebro, e não eu, quem pensa”,

escreveu o filósofo Th. Buchheim.

Só existe liberdade, se há alguém capaz

de autodeterminação. A determinação por

um “eu”, segundo um juízo de valor, é que

faz com que uma acção seja livre e não puro

acaso ou enquadrada no determinismo das

leis naturais. Como disse P. Bieri — ver

citação na obra de Hans Küng: Der Anfang

aller Dinge (O princípio de todas as coisas)

—, “é inútil procurar na textura material de

um quadro o representado ou a sua beleza;

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é igualmente inútil procurar na mecânica

neurobiológica do cérebro a liberdade ou a

sua ausência. Ali, não há nem liberdade nem

falta de liberdade. Do ponto de vista lógico,

o cérebro não é o lugar adequado para esta

ideia. A vontade é livre, se se submete ao

nosso juízo sobre o que é adequado querer

em cada momento. A vontade carece de

liberdade, quando juízo e vontade seguem

caminhos divergentes.”

Como já aqui deixei escrito, a experiência

humana fundamental, quando se anda

minimamente atento, é esta: cada um é

dado a si mesmo, cada uma é dada a si

mesma; portanto, é dono de si, dona de si e,

assim, é responsável por si e pelos seus

actos, responde por si e por eles.

Sábado, 13 de Junho de 2026

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