terça-feira, 2 de junho de 2026

O Homem: criado à imagem de Deus?- Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia

 O Homem:

criado à imagem de Deus?



Parece estender-se cada vez mais a

tentação de pensar que o Homem é um

animal entre outros. Se diferença houvesse,

não seria essencial e qualitativa, apenas de

grau.

Mas quem anda atento reconhecerá com

certeza que a diferença entre o Homem e os

outros animais não é apenas de grau, mas

essencial e qualitativa. Pelo menos, é

preciso manter a pergunta.

Também o Homem é corpo, mas um

corpo que fala e que diz eu. Ora, um corpo

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que produz sons duplamente articulados,

portanto, transportando sentido, é um

corpo que transcende a animalidade.

Que o ser humano não fica submerso na

instintividade da vida prova-o o facto de,

por exemplo, ao contrário do animal, no

domínio da sexualidade, ser capaz de pesar

razões, abster-se, pensar no que é melhor

para si e para o parceiro, ter inventado o

erotismo e também a pornografia, procurar

técnicas anticonceptivas... O ser humano é

dado a si mesmo como um eu único, senhor

de si, em autoposse... Aí está a liberdade, a

moralidade e, consequentemente, a

responsabilidade: como diz a palavra,

responde por si e pelos seus actos...

O Homem é capaz de renunciar à

satisfação imediata dos seus impulsos: é “o

asceta da vida”, escreveu o filósofo Max

Scheler. Por isso, é capaz de jejuar, e ergueu,

por exemplo, um edifício jurídico-penal,

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para evitar a vingança cega, dirimir

diferendos, não fazer justiça pelas próprias

mãos.

Quando vemos um animal sentado, de

olhos fechados, com a cabeça entre as mãos

ou encostada à mão direita, estamos em

presença de um ser humano que medita.

Está ensimesmado/a, entrou dentro de si

próprio/a, desceu à sua intimidade,

submerso/a na sua subjectividade pessoal.

O ser humano é consciente, mais:

autoconsciente, consciente de ser

consciente, autorreflexivo/a.

Não vivo longe de um aeroporto, e

reparo, quando passeio pela praia, como

cães da zona se põem a correr na areia, atrás

das sombras dos aviões que se apressam

para a pista. Cá está: o animal vive da

imediatidade dos instintos e o mundo para

ele é fundamentalmente um conjunto de

estímulos, que atraem ou repelem. O ser

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humano, ao contrário, dada a sua

capacidade de distanciação, vive no real: é

um “animal de realidades”, repetia o

filósofo Xavier Zubiri.

O Homem “começou a ser Homem

intentando criar beleza”, escreveu o filósofo

Pedro Laín Entralgo. O ser humano não

vive amarrado e encerrado na satisfação das

suas necessidades vitais. Ele transcende o

simplesmente biológico, criando cultura. E

vive do gratuito: cria e contempla a beleza,

pois é o ser “criativamente possuído pelo

fascinante esplendor do inútil” (George

Steiner). Para sobreviver, não precisava de

investigar na mecânica quântica. O que

ganha no tempo dedicado aos mortos? No

entanto, o tempo que gastamos inutilmente

com os mortos!...

Os animais também comunicam. Mas

nunca um animal fez perguntas. O Homem

é o animal que pergunta. E perguntar

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coloca-nos na perplexidade, pois implica ao

mesmo tempo saber e não saber. Se

perguntamos é porque não sabemos, mas

sobre aquilo de que nada sabemos não

perguntamos... Afinal, o que sabemos,

quando perguntamos? A pergunta nunca

acaba: de pergunta em pergunta vamos até

ao in-finito. No perguntar, o Homem revela

que é o ser do intervalo – entre o finito e o

Infinito – e que está ligado ao

Transcendente: perguntamos pelo

Fundamento e pelo Sentido último...

O Homem é um ser paradoxal. Somos

bípedes sanguinários, capazes de sadismo

feroz. Inventamos máquinas de guerra

brutal e instrumentos de tortura indizível.

Pilhamos, massacramos, somos de uma

ganância ilimitada, de uma vulgaridade

ridícula, de um materialismo rasteiro. No

entanto, como escreveu o agnóstico George

Steiner, “este mamífero desgraçado e

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perigoso gerou três ocupações, vícios ou

jogos de uma dignidade completamente

transcendente. São eles a música, a

matemática e o pensamento especulativo

(no qual incluo a poesia, cuja melhor

definição será música do pensamento).

Radiantemente inúteis, estas três

actividades são exclusivas dos homens e

das mulheres e aproximam-se tanto quanto

algo se pode aproximar da intuição

metafórica de que fomos realmente criados

à imagem de Deus.”

É por isso que, apesar dos avanços das

ciências humanas, da genética, das

neurociências, da IA, que devem ser

promovidos, permanecerá, íntegra, talvez

até mais intensa, a pergunta: o que é o

Homem? Quanto mais potente se torna o

império tecnológico mais urgente e

imperiosa se torna a reflexão sobre a pessoa

humana, a sua dignidade, os seus direitos

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— universais, inalienáveis, invioláveis... —

e, consequentemente, também os seus

deveres, para consigo e a humanidade

inteira, e o planeta Terra, a casa comum...

Aí está a importância histórica da

primeira encíclica de Leão XIV, sobre a

inteligência artificial, justamente com o

título Magnifica Humanitas (Magnífica

humanidade). O Papa, já a concluir a sua

apresentação — foi a primeira vez que um

Papa apresentou uma encíclica sua —, no

passado dia 25: “Não temamos a IA, mas

mantenhamos sempre presente a questão

humana. Não podemos ser negligentes com

os nossos instrumentos técnicos mais

avançados”.

Sábado, 30 de Maio de 2026

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